- O Estado de S.Paulo
Não foi apenas uma sexta-feira, mas uma semana terrível, com os Estados Unidos perdendo a nota do crédito AAA e a crise voltando à zona do euro, fazendo prever que o pior ainda não veio. Após a derrocada na quinta-feira, a bolsa americana reagiu um pouco, os índices fecharam entre 0% e 1%, mas na semana as perdas foram pesadas. Dow Jones, 5,8%, S&P, 7,2% e Nasdaq 8,1%, o pior resultado em dois anos provocado principalmente pelo pacote recessivo (recessivo, sim!), do Congresso americano. No Brasil, nada menos que 10%.
Poder-se-ia dizer que a notícia de liberalização na Itália e possível compra de títulos pelo Banco Central Europeu ajudaram a não agravar o clima no mercado. Não é verdade. Somente isso não explica por que as bolsas não continuaram afundando, projetando um cenário dramático para amanhã.
Emprego evita o pior. A queda dos índices nos EUA se conteve imediatamente após a notícia da criação de 117 mil empregos em julho, quando o mercado previa apenas 85 mil. O desemprego recuou para 9,1%. Fato mais positivo, esses empregos foram gerados principalmente pelo setor privado, pelas indústrias, e não pelas agências do governo, que continuam despedindo. Cerca de 500 mil nos dois últimos anos.
Isso pode ser anulado se explodir nova crise na zona do euro nos próximos dias, mas havia sinais na tarde de sexta-feira que os governos e o BCE estariam reunidos neste fim de semana em Genebra para preparar novas medidas que contariam com o apoio do FMI.
Mas o mercado está atento mesmo é aos EUA. "Nós estávamos sabendo da crise na zona do euro há meses. O medo (depois do pacote do Congresso) é de um duplo mergulho nos Estados Unidos (ameaça de recessão), que vazou para o mercado", afirma o estrategista Luc Van Hedeb, da KGB Asset Management. A resposta dos investidores aos governos foi claríssima, diz ele. "Nós perdemos a confiança em vocês."
Piora, melhora? Ninguém se arriscava, neste fim de semana, a fazer qualquer previsão. Nem na Europa nem nos Estados Unidos. Tudo vai depender dos governos da zona do euro e principalmente dos próximos indicadores de atividade econômica nos Estados Unidos.
Nesse sentido, os olhos estão voltados para a reunião do Fed, na terça-feira. Muitos incluem o término da compra de títulos pelo Tesouro, em 30 de junho, e as emissões de US$ 2,3 trilhões entre as causas da debacle nas bolsas. Todos esperam também uma nova indicação de Bernanke sobre as medidas que o Fed pretende adotar. Há pressões dos dois lados em favor e contra um Qe3, mais compra de títulos, mais liquidez, mas todos admitem que vai depender da nova tendência da demanda interna, do nível de emprego e da inflação.
Mais crédito. Um sinal positivo tem sido o gradual aumento do crédito aos consumidores, de US$ 15,5 bilhões quando se previa apenas US$ 5 bilhões, um fator ainda isolado pouco expressivo.
Os americanos ainda estão receosos. Preferem poupar a se endividar para consumir ou comprar imóveis.
Todo o mal continua residindo no fato de que o Congresso impôs ao país - e ao mundo - um pacote recessivo. Se há alguma culpa, é deles que prometem maior oposição, não a gastos (palavra ambígua que mistura dispêndio, investimentos e incentivos fiscais, criação e ajuda ao emprego). Vão bloquear qualquer iniciativa nas tais "comissões bipartidárias" aprovadas no pacote da dívida, que vão colocar Obama numa camisa de força.
Mas, dizem eles, como pretexto, que mais da metade dos cortes de gastos serão feitos na defesa, como se esse setor não gerasse encomendas à indústria, à construção, empregos, demanda de matéria-prima e serviços. Não é hora de tirar dinheiro da economia, qualquer dólar que seja, simplesmente porque ela está encolhendo no caminho da recessão. Crescer 1%, este ano, como já se prevê, não está muito longe disso. E falta pouco. Estima-se que o tal pacote vai reduzir o PIB em pelo menos 0,5%.
E então? Em resposta à pergunta do leitor nos fins da coluna, desta vez não tem "então". Só há expectativas sombrias lá fora, nos que mandam na economia mundial. Bolsas, empregos e produção industrial recuam em todos os países, num cenário que não dá sinais de mudar nos próximos meses. O "então" no Brasil é melhor. As reservas de US$ 343 bilhões, os investimentos que não param de entrar, o mercado financeiro líquido e bem regulado representam forte defesa contra crises externas.
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