| ARTIGO - Marco Maciel |
| O Estado de S. Paulo |
| 30/9/2008 |
A atual crise mundial dos mercados financeiros e de capitais, cujos enfrentamentos estão sendo adotados pelo governo dos Estados Unidos, confirma o quanto estava certo o presidente Fernando Henrique Cardoso ao criar o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), implementado no Brasil de 1995 a 2000. O contexto econômico que o Brasil vivia naquele momento explica os fatores que levaram à crise das instituições financeiras e a necessidade de um plano daquela natureza. O Plano Real, que havia sido implantado em 1994, abalou um bom número de bancos que tinham na inflação elevada a base estrutural do seu padrão de rentabilidade. As ferramentas de que o Banco Central dispunha tradicionalmente não seriam suficientes nem adequadas para lidar com a quebra generalizada que se antevia. Havia o risco real de comprometimento de todo o sistema de pagamentos de nossa economia. Fazia-se necessária uma iniciativa radical de reestruturação de todo o sistema financeiro e essa iniciativa foi o Proer. A última operação de financiamento do Proer foi concluída em meados de 1997. A implementação do programa custou, no total, R$ 20,4 bilhões, valores da época, cerca de 2,7% do produto interno bruto (PIB) médio do triênio 1995-1997. Os valores atualizados são, evidentemente, maiores, mas a indicação do porcentual do PIB dá uma boa noção de que o programa teve custos relativamente baixos. Ademais, o Banco Central vem resgatando consistentemente parte dos valores que investiu no Proer. Vários dos chamados “títulos podres” em poder dos bancos adquirentes, que foram desviados para o Proer, revelaram-se, com o passar do tempo, ativos de qualidade. Não se tratou, portanto, de “doação” a instituições quebradas. Foi, antes, um empréstimo, que vem sendo resgatado com regularidade, conforme demonstram os balanços patrimoniais do Banco Central. As diferenças entre o Proer e o plano que se cogita de executar para o sistema financeiro norte-americano não ficam apenas na questão dos custos. Esse é um dos quesitos, mas não o único. O Proer foi uma resposta rápida, bem estruturada, barata, eficiente e bem-sucedida a uma situação que resultou de um contexto econômico bastante pontual, qual seja a estabilização econômica e o fim da hiperinflação proporcionados pelo Plano Real. Instituições bancárias que não gozavam da imprescindível higidez soçobraram e os bens dos depositantes foram preservados em sua integridade. Os valores investidos pelo programa estão sendo paulatinamente reincorporados pelo Banco Central. Os efeitos benéficos da atuação enérgica - e eu diria também cirúrgica - do Banco Central, naquele momento, verificam-se até hoje com a estabilidade econômica e a solidez de nosso sistema bancário. O economista Mailson da Nóbrega, com sua experiência de ministro da Fazenda e no mercado de capitais, resumiu muito bem a questão ao dizer: “O que salvou o Real foi o Proer. Se o governo não tivesse tomado essa iniciativa, corria o risco de enfrentar uma crise gigantesca do sistema financeiro.” Importa destacar não haver sido usado dinheiro do Orçamento federal, prova da seriedade com que se administrou a crise, sem transigir naquilo que era essencial à estabilidade fiscal do País. Os recursos vieram da própria reserva bancária, formada pelos depósitos compulsórios que os próprios bancos são obrigados a retirar de todos os depósitos efetuados à vista e entregues, como garantia, ao Banco Central. Isso fez parte do amplo programa, incluindo a federalização para posterior privatização de bancos estaduais. Tivemos, portanto, um período que ensejou a venda de bancos estaduais, muitos dos quais debilitados e enfraquecidos por políticas equivocadas. Devo salientar que se fez o refinanciamento das dívidas dos Estados e a emissão de títulos da dívida pública com cláusula de reajuste cambial. Assim se estabeleceram, no octoênio do presidente Fernando Henrique Cardoso, que teve o economista Pedro Malan como ministro da Fazenda, as bases do desenvolvimento. Nunca é demais insistir que o País continuou a crescer após o término da administração Fernando Henrique Cardoso. Isso se deveu, basicamente, aos bons fundamentos da economia. Como definiu o historiador Carlo Levi, “o futuro tem um coração antigo”. Assim - volto a fazer um exercício de lembrar o passado -, já naquele tempo, o Banco Central passou a reformular com eficiência a fiscalização do sistema bancário para melhor acompanhamento da situação patrimonial dos bancos. Foi o Proer que devolveu, mais bem concretizadas, as atribuições legais do Conselho Monetário Nacional: estabelecer as diretrizes gerais das políticas monetária, cambial e creditícia; regular as condições de constituição, funcionamento e fiscalização das instituições financeiras; e disciplinamento dos instrumentos de política monetária e cambial. A crise de 1995 era a primeira após essas providências. O Brasil enfrentou-a e a venceu. O resultado hoje se apresenta muito positivamente, demonstrando o acerto de havermos criado e implantado o Proer. Agora, em face da atual crise, espero que não ocorram maiores impactos que venham a reduzir acentuadamente a continuidade de nosso desenvolvimento. Acredito que isso muito dependerá da capacidade de reagirmos adequadamente a desdobramentos que, indesejadamente, venham a ocorrer nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e em nosso país. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, setembro 30, 2008
Proer blindou o sistema bancário brasileiro
O telefonema das 3h da manhã Paul Krugman
| O Globo |
| 30/9/2008 |
São 3h da manhã, no início de 2009, e o telefone da Casa Branca, de repente, toca. Vários fundos de hedge estão prestes a implodir, diz a voz do outro lado da linha, e certamente haverá caos quando o mercado entrar em operação. Em quem você confiaria para atender esse chamado? Não estou sendo melodramático. O pacote de ajuda divulgado no domingo é bem melhor do que o proposto por Henry Paulson (secretário do Tesouro dos EUA) inicialmente - o suficiente para merecer ser aprovado. Mas não se trata do que se chamaria de um bom pacote, e ele não vai encerrar a crise. As chances são de que o próximo presidente terá de lidar com grandes emergências financeiras. Portanto, o que sabemos sobre a aptidão dos dois homens com mais chance de atender o telefonema? Bem, Barack Obama parece bem informado e sensível às questões econômicas e financeiras. John McCain, por outro lado, me assusta. Sobre Obama, é uma pena que ele não tenha mostrado mais liderança no debate sobre a conta do pacote financeiro, deixando o tema nas mãos de democratas do Congresso, principalmente Chris Dodd e Barney Frank. Mas tanto Obama quanto eles estão cercados por conselheiros de grande conhecimento e experientes administradores de crise, como Paul Volcker e Robert Rubin. E há o assustador McCain, mais assustador agora do que era há algumas semanas. Sabemos há algum tempo, claro, que McCain não sabe muito sobre economia, o que não importaria muito se ele tivesse bom gosto ao escolher seus conselheiros, mas não tem. Seu mentor em economia e uma provável escolha como secretário do Tesouro é Phil Gramm, que se dedicou a evitar a vigilância sobre os derivativos financeiros quando era senador - os mesmos instrumentos que derrubaram Lehman e AIG, e deixaram o mercado de crédito à beira de um colapso. Em grande parte, a baixa qualidade dos assessores de McCain reflete o estado intelectual lamentável do partido. Mas até Bush, no crepúsculo de seu governo, voltou-se a pessoas relativamente sensíveis para tomar decisões: não sou fã de Paulson, mas ele representa uma melhora substancial em relação ao seu antecessor. A real revelação das últimas semanas, no entanto, é de quão errática é a visão de McCain em economia. Em 15 de setembro, declarou que "os fundamentos de nossa economia são fortes" - um dia depois que o Lehman faliu e o Merrill Lynch foi comprado, e a crise financeira entrou em uma nova e mais perigosa etapa. Três dias depois, afirmou que os mercados financeiros da América tinham se tornado "um cassino" e que demitiria o chefe da Securities and Exchange Commission (SEC, o órgão regulador dos mercados americanos), o que não está entre as atribuições do presidente. McCain encontrou então um novo grupo de vilões: as companhias hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, com apoio do governo. E acusou moralmente outros políticos, inclusive Obama, de estarem sob influência financeira das duas; mas descobriu-se que a firma de um gerente de sua própria campanha era paga por Freddie até o mês passado. Quando Paulson anunciou seu plano, McCain entrou fortemente no debate. Mas admitiu dias depois que não tinha lido o documento, de apenas três páginas. A economia moderna é um lugar perigoso. E não é o perigo que pode ser enfrentado só falando grosso e denunciando os malfeitores. McCain tem a capacidade de julgamento e o temperamento para lidar com essa parte do emprego que ele busca? |
Na contramão EDITORIAL O Globo
| 30/9/2008 |
Seguidor do "bolivarianismo" de Hugo Chávez, o presidente do Equador, Rafael Correa, superou quem o inspira, ao conseguir aprovar domingo, em referendo, a nova Constituição, redigida no figurino nacional-populista defendido pelo caudilho venezuelano. Se o plano de Chávez de aprovar uma nova Carta foi derrotado nas urnas, e outro dos seus seguidores, o boliviano Evo Morales, está sendo forçado a recuar no projeto de impor ao país uma Constituição aprovada por seus correligionários, sem a presença de oposicionistas, e dentro de um quartel, Correa conseguiu avançar. O presidente do Equador aplica com êxito o "kit bolivariano" de tomada do poder e virtual perpetuação nele, usando contra a democracia a mais democrática das armas, o voto. Agora, Correa poderá reeleger-se até 2017. Não apenas isso. Será ele também o responsável pela política monetária, já que o Banco Central perdeu autonomia. O Estado terá grande poder de intervenção, que exercerá certamente com o viés autoritário e xenófobo já demonstrado pelo presidente. Para azar da população equatoriana, pois a guinada que o país dá na contramão da História coincide com o agravamento da crise financeira mundial. Em situação normal, o Equador já enfrentaria dificuldades na atração de investimentos. Na crise, ficará ainda mais isolado no mundo. |
Melhor prevenir EDITORIAL O Globo
| 30/9/2008 |
Os mercados financeiros de todo o mundo foram surpreendidos ontem à tarde por uma notícia vinda de Washington, no campo político: reunidos para votar o pacote de US$700 bilhões para resgate de títulos micados que já emperram o sistema de crédito em escala mundial, negociado no fim de semana pelo governo Bush com líderes dos partidos Republicano e Democrata - inclusive com os candidatos que vão disputar as eleições presidenciais em novembro -, os deputados federais americanos resolveram rejeitá-lo por 228 a 205 votos. Inclusive com o reforço de 133 republicanos, que, assim, atiraram no pé do próprio governo, muito por causa da letal coincidência de um presidente impopular, fraco, em final de mandato, com uma crise de extrema gravidade. A reação inicial foi de total perplexidade, e, diante do vazio que se formou com a rejeição do pacote, os mercados vieram abaixo: Wall Street fechou com menos 777,6 pontos no índice Dow Jones, ou 7%, a maior queda da História em números absolutos, em um único dia; a Bovespa retrocedeu 9,3%, tendo chegado a cair 13,2%, e assim por diante. Não se previa algo diferente para a reabertura dos mercados asiáticos, ainda ontem à noite. Em face do desenrolar da campanha presidencial, os congressistas americanos estariam refletindo o descontentamento dos seus eleitores com o uso de recursos públicos para socorrer instituições que se tornaram vulneráveis porque assumiram riscos demasiados? É provável que parte da explicação para a rejeição do pacote seja esta. No entanto, como se trata de uma situação realmente grave, algo terá de ser feito no curtíssimo prazo para se estancar a crise de confiança que abala as estruturas do sistema financeiro americano, entrelaçadas com as da chamada economia real, e com o exterior. Até que tais estruturas se recomponham, a economia mundial terá de conviver com um ambiente de restrições ao crédito porque as fontes de financiamento estarão envolvidas com a solução de seus próprios problemas. Assim, setores mais dependentes do crédito precisarão reformular seus planos de negócios no curto prazo, enquanto aguardam uma normalização dos fluxos de capitais. O Brasil, como qualquer outra nação do planeta, não está imune aos efeitos de uma crise nessas dimensões, e os mercados financeiros aqui têm refletido isso. Mas há atenuantes: as empresas brasileiras estão bem capitalizadas e a maior parte de seus compromissos financeiros é em reais, com raras exceções. O panorama no setor público poderia ser melhor não fossem os gastos em custeio. Mas as contas estão sob controle, superávits primários têm sido acumulados, e há reservas externas (hoje, superiores a US$200 bilhões), o que levou as agências classificadores de risco a promoverem o país para o conceito de grau de investimento. Desse modo, o real não é mais um alvo fácil de ataques especulativos. Do câmbio já não se esperam desequilíbrios capazes de detonar uma crise interna como as que ocorreram anos atrás. Para que a economia brasileira consiga de fato atravessar sem maiores arranhões este período de instabilidade é importante que neste momento não se abra qualquer flanco. Nesse sentido, para os meses que se seguem é fundamental que as contas públicas se mantenham equilibradas, o que significa que o superávit primário deve permanecer acima de 5% do Produto Interno Bruto (do lado das despesas, os gastos correntes precisam ser contidos para não se prejudicar os investimentos). O presidente Lula tem dado declarações otimistas sobre o comportamento da economia brasileira na crise. Não se poderia esperar outra coisa. Mas é preciso haver em Brasília consciência efetiva da gravidade do problema. |
A segunda-feira negra
| editorial |
| O Estado de S. Paulo |
| 30/9/2008 |
O risco de uma crise financeira mais profunda e mais custosa para todo o mundo agravou-se desde ontem à tarde, quando o plano de socorro de US$ 700 bilhões proposto pelo presidente George W. Bush foi rejeitado por 228 votos a 205 na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Funcionários do Executivo e líderes partidários haviam negociado e reformulado o projeto em longas discussões durante o fim de semana. No domingo, a presidente da Câmara, deputada democrata Nancy Pelosi, havia anunciado um acordo. Haveria, segundo ela, apoio bipartidário ao projeto. Ontem à tarde, as cotações que já despencavam nas bolsas de valores desde antes do início da votação - transmitida pela televisão - aceleraram o ritmo de queda e uma nova onda de insegurança espalhou-se por todos os mercados. Votaram contra a proposta 133 deputados republicanos - dois terços da bancada governista - e 95 democratas e, a favor, 140 democratas e 65 republicanos. De manhã, o presidente Bush havia defendido uma ação “audaciosa” para impedir o agravamento da crise financeira. “Uma votação a favor da proposta servirá para evitar danos econômicos a vocês e à sua comunidade”, afirmou o presidente, dirigindo-se aos congressistas. Os deputados de seu partido não se mostraram tão audazes: preferiram seguir a tradição republicana, evitando mais uma grande intervenção no mercado e mantendo a retórica de proteção ao bolso do contribuinte. Mas apenas derrubaram o pacote, sem eliminar a crise nem tornar desnecessárias novas ações do governo. Prepararam um péssimo começo para o próximo presidente. Segundo Bush, o Congresso enviaria “um sinal forte aos mercados, em casa e no exterior”, se aprovasse a proposta. Com a rejeição, um sinal foi enviado, afinal, mas com a mensagem menos adequada ao momento. Na Europa e na Ásia as bolsas haviam fechado em queda, mais uma vez, pressionadas não só pela insegurança quanto à aprovação do pacote americano, mas também pela sucessão de novas notícias negativas. Na Europa, os governos da Bélgica, da Holanda e de Luxemburgo haviam posto mais de US$ 16 bilhões no Grupo Fortis NV, enquanto na Alemanha, governo e bancos ofereciam financiamento de até 35 bilhões de euros à holding Hypo Real, do setor imobiliário. Sem o pacote de US$ 700 bilhões e sem um plano de ação de amplitude semelhante, o governo americano só poderá agir no estilo dos europeus, tentando cuidar dos problemas caso a caso. Se esse for o caminho, a insegurança nos mercados tenderá a prolongar-se. Qualquer instituição poderá ser a próxima a balançar, pressionada por problemas de caixa e pelo acúmulo de créditos de baixa qualidade. O banco central americano poderá continuar agindo em conjunto com os da Europa e do Japão, oferecendo liquidez aos mercados e improvisando medidas de socorro. Uma plano amplo e ambicioso como aquele proposto pelo Executivo americano apresentaria, entre outras, a vantagem de tornar o cenário mais claro e de reduzir a incerteza no mercado financeiro. Por sua amplitude, foi saudado como um passo positivo pelo diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. O plano americano, segundo ele, teria de ser apenas o começo de uma resposta geral à crise, mas já serviria, ao ser lançado, para “conter o incêndio” no mercado. O plano foi apresentado, na versão inicial, como uma idéia muito simples, exposta em apenas 2,5 páginas. No domingo, o projeto reformulado tinha 110 páginas e continha cláusulas de segurança para o Tesouro e de obrigações para as instituições beneficiadas pela ajuda. No fim da tarde, o Índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, fechou com queda de 6,19%. A queda, de 689 pontos, foi a maior de todos os tempos. Em São Paulo, o Ibovespa acumulava, no fechamento, uma baixa de 9,36%. Durante o pregão, havia chegado a cair mais de 13%. Esta reação dos mercados acionários pode não ser a pior conseqüência da rejeição do pacote. Se uma boa alternativa não for logo encontrada, o arrocho do crédito poderá aumentar desastrosamente na maior parte dos mercados, elevando o risco de uma ampla recessão. Diante disso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria dar mais atenção ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e começar a levar mais a sério o perigo de contágio da economia brasileira. |
Míriam Leitão - País sem governo
| Panorama Econômico |
| O Globo |
| 30/9/2008 |
O grande problema hoje do mundo é a falta de liderança nos Estados Unidos. As bolsas podem se recuperar, o crédito voltaria a fluir algum dia, mas como interromper o clima de pânico que domina os mercados nas últimas horas se a maior economia mundial está desgovernada? George Bush já não governa nem mesmo o próprio partido. O mundo precisa interromper a escalada de medo. Depois de um dia trágico em todos os mercados, a economia mundial continua sob o domínio do pânico. Pânico, em economia, é o pior elemento. Ele provoca vendas desordenadas de ativos, reações irracionais. Isso sim é que quebra um sistema bancário, havendo ou não razão para isso. A torcida é para que hoje, feriado judaico nos Estados Unidos e sem votação no Congresso, as autoridades americanas se organizem minimamente. O economista Ilan Goldfajn acredita que um dos problemas é que a administração Bush e os defensores do projeto não conseguiram convencer, ainda, os integrantes do Congresso de que uma crise no mercado financeiro atinge brutalmente a economia real. - A bolsa é apenas o mais visível dos sinais da crise; o pior é invisível, mas mais letal: a paralisia no mercado de crédito. Ninguém empresta a ninguém hoje. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, acha que o mercado está vivendo um movimento perigoso de desmonte de posições, e que ainda há chance de que se faça alguma coisa pelo Congresso. - Mas o tempo está ficando cada vez mais curto. O mercado está apostando que quarta-feira um novo projeto pode ser apresentado ao Congresso, desde que com modificações, mas a Câmara dos Deputados não tem sessão marcada antes de quinta. Os mercados financeiros estão dependurados num trapézio sem rede de segurança. - No fim de semana, bancos começaram a quebrar, como o Fortis, por exemplo. Se esse clima de incerteza continuar, não sei o que pode acontecer - diz Ilan. O economista Francisco Gros, da OGX, que já foi duas vezes presidente do Banco Central e vice-presidente do Morgan Stanley, acha que o problema principal é político. - Pode-se enviar uma nova versão da proposta, e, com uma negociação verdadeira, se aprovar um projeto nos próximos dias. Mas o problema é político: a animosidade no Congresso é tal que fica difícil aprovar qualquer coisa. No fim de semana, a presidente da Câmara dos Deputados, a democrata Nancy Pelosi, avisou que o projeto não era dos democratas; era um projeto do Executivo, da administração republicana. E lembrou que os democratas tinham trabalhado num sistema de cooperação, mas que a responsabilidade da aprovação seria dos republicanos. O recado implícito era "vote que o filho é teu", ou seja, se os republicanos não derem a cara para bater, votando projeto impopular a poucas semanas da eleição, não seriam os democratas a fazê-lo. Dos votos republicanos, 133 foram contrários ao projeto e 65 favoráveis - um deputado republicano não votou. Já da maioria democrata, foram 140 votos favoráveis e 95 contrários. Ontem, durante a votação, o presidente Bush, o seu vice, Dick Cheney, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, ligaram para os deputados republicanos, pedindo votos para a aprovação do projeto. Não conseguiram. Lá, como cá, existem os líderes e o baixo clero. O que foi acertado no fim de semana pelos líderes republicanos, não foi confirmado pelo baixo clero, que votou contra o projeto. Todos os governos chegam aos últimos meses sem força política; os que não vão fazer sucessor ficam ainda mais fracos, é o que parece que aconteceu nos Estados Unidos. Mas os que terminam em crise econômica é que são mais perigosos, porque deixam uma lacuna de poder que permite fatos como estamos vendo nos EUA. O último vestígio de poder do governo Bush foi usado, e queimado, no processo de enviar para o Congresso um pedido de ajuda ao setor financeiro. Se tivesse enviado um projeto menos insultuoso, teria tido mais sucesso. Um mesmo projeto não pode ser reapresentado depois que é rejeitado. Como hoje é feriado do Ano Novo judaico nos EUA, o melhor cenário é que líderes dos dois partidos e o governo fechem um acordo para uma nova proposta, que seria votada amanhã na Câmara. Só que o impacto negativo já atingiu o mercado financeiro mundial - antes da votação, os bancos centrais mundiais anunciaram mais US$620 bilhões para os mercados. Mesmo se acontecer o melhor cenário - com a aprovação deste novo projeto, a crise de desconfiança dos bancos do Primeiro Mundo contida e a recuperação do mercado financeiro americano - há o risco da recessão. E ele cresceu. A recessão não é um problema que desapareça da noite para o dia. A economia americana vai demorar um pouco a se recuperar, apesar da sua força. O primeiro ano do próximo governo será vivido em recessão. Além disso, como o problema que detonou as dificuldades dos bancos foi a queda do valor dos imóveis e eles continuam caindo, há o risco de a crise se aprofundar ainda mais. Tempos fortes. Tempos de emoções, de muita incerteza e do pior dos conselheiros econômicos: o pânico. |
Merval Pereira - A revolta dos conservadores
| O Globo |
| 30/9/2008 |
A reação da base republicana da Câmara, que votou majoritariamente, na proporção de dois para um, contra o pacote econômico que havia sido negociado pelas lideranças dos dois partidos no Congresso e o governo americano, reflete uma disputa dos conservadores que tentam manter seus mandatos na eleição de novembro diante da perspectiva de que os democratas aumentem ainda mais sua maioria nas duas Casas. Essa disputa reflete uma sensação, dentro do Partido Republicano, de que a escolha de McCain como seu candidato à Presidência da República representa uma liberalização dos princípios conservadores. McCain, no entanto, sempre foi mais prudente nas discussões do pacote econômico do que os deputados do partido, que assumiram posições mais radicais, inclusive na reunião da Casa Branca, na presença do presidente George Bush. Naquela ocasião, McCain ficou em cima do muro, sem se comprometer com o pacote, mas também sendo vago nas suas críticas. Mesmo assim, tentou tirar proveito político da situação, para aparecer como a liderança que chegou a Washington para mudar o consenso estabelecido e incluir regras no pacote de defesa do contribuinte. O problema é que McCain, diante da crise sistêmica instalada no mercado financeiro, estava menos convicto da necessidade de aplicar na prática a teoria do livre mercado do que a maioria dos deputados da base republicana. O que ele queria mesmo era aprovar um pacote que fosse atribuído à sua intervenção. Para os republicanos que estão com seus mandatos ameaçados, no entanto, a única saída é defender os princípios ortodoxos do conservadorismo, especialmente quando as pesquisas de opinião indicam que nada menos que 70% dos americanos são contra o pacote, percebendo-o como uma proteção do governo aos banqueiros. O radicalismo entre os conservadores está tão acentuado que até mesmo Bush está sendo acusado de "socialista", e não apenas pela intervenção de US$700 bilhões no mercado financeiro. Ele está recebendo críticas pelo déficit público que só faz aumentar, o que indicaria que, ao contrário do credo no "governo mínimo", ele estaria colocando em prática um governo grande e intervencionista. Não apenas na economia, mas na segurança nacional, com o Patriotic Act, e em outros setores do governo, como na educação e na saúde. Há quem diga que o ex-presidente democrata Bill Clinton teve um governo mais próximo dos conservadores, com o equilíbrio das contas públicas e a desregulamentação do mercado financeiro, do que o próprio Bush. Em 1995, o Congresso aprovou uma lei que impede os investidores de processar as empresas por propaganda enganosa, o que se considera um passo fundamental para o estabelecimento de um clima de impunidade que dominou o mercado nos últimos anos. De fato, foi ainda no governo Clinton que caiu o último obstáculo legal contra a ampliação dos poderes dos bancos, permitindo que eles assumissem os riscos financeiros que estavam proibidos desde a Grande Recessão, com a lei Glass-Steagall, de 1933. Apoiada pelo ex- secretário de Tesouro Carter Glass, considerado o "pai" do Banco Central americano, e por Henry Steagall, ambos democratas, essa lei surgiu em resposta ao entendimento de que fora a especulação descontrolada dos bancos que levara à quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que gerou a Grande Depressão. Foi estabelecida então, através de regulamentação legal, a separação entre bancos de investimento e bancos comerciais, derrubada 66 anos e muitas tentativas depois, em 1999, com a aprovação da lei de modernização dos serviços financeiros. Conhecida como Gramm-Leach-Bliley, foi aprovada com a argumentação de que o mercado financeiro americano necessitava se modernizar para competir com outros bancos europeus e japoneses. Uma das atuações mais fortes a favor da lei foi do Citigroup, que havia acabado de comprar a companhia de seguros Travelers, e precisava de uma mudança na legislação. O Centro de Política Conseqüente, uma ONG sem ligações partidárias, fez um levantamento da votação da lei, que foi aprovada por ampla maioria dos dois partidos nas duas Casas, e constatou que os que votaram a favor da desregulamentação ganharam duas vezes mais suporte financeiro para suas campanhas do que os que se colocaram contra a legislação. Mas é uma injustiça com o Bush acusá-lo de intervencionista, já que foi já em seu governo, no ano 2000, e comandado pelo então senador Phil Gramn, que viria a ser o principal assessor econômico da candidatura McCain, que foi aprovada uma lei que excluiu os derivativos da regulamentação de 1936. O fato é que a crise que está assustando o mercado financeiro e terá conseqüências ainda imprevisíveis na economia do dia a dia do cidadão americano médio, embora ainda não pressentida em sua totalidade, está fazendo com que os fundamentos básicos que separam os dois principais partidos fiquem explícitos. Isso pode ajudar deputados americanos a salvarem seus mandatos com a votação distrital, o que explica que o Senado esteja mais a favor do pacote que a Câmara. Mas é prejudicial para John McCain. |
Dora Kramer - Conversa de mudos
| O Estado de S. Paulo |
| 30/9/2008 |
A pesquisa CNT/Ibope de ontem registra dois fatos já sabidos, ambos importantes, mas de naturezas contrastantes. Aos fatos: a avaliação positiva do presidente Luiz Inácio da Silva que aumenta sem parar e a percepção negativa sobre a atuação do poder público no tocante à segurança pública, também em escalada crescente. Ao contraste: enquanto a popularidade de Lula bate na casa dos 80% entre outros motivos porque o presidente encontrou um jeito eficiente de falar com o cidadão, quando o assunto é segurança nem ele consegue estabelecer um diálogo minimamente coerente entre Estado e sociedade. De acordo com a pesquisa, 53% avaliam o setor de forma negativa; eram 44% em março último.Talvez seja a única área em que, na visão popular, Lula perde para o antecessor: 46% acham que a atuação do governo piorou nos últimos dez anos. Os índices, porém, não resultam em mérito para Fernando Henrique Cardoso. São, antes, reflexo da inércia dos dois governos no setor. Como FH nada fez e Lula também não, a passagem do tempo só fez acumular o estoque da inépcia. Um cenário que não se resume ao marasmo do poder público de um lado e à energia do crime, de outro. Não há ação e também não há discurso. Nenhum dos governos pós-redemocratização conseguiu encontrar termos razoáveis para se entender a respeito com a população. Desejo certamente não faltou a nenhum deles. Consciência sobre a gravidade do problema, tampouco. Ambos já fizeram autocrítica em público sobre as respectivas falhas no combate à criminalidade, mas não evoluíram um milímetro na prática: não conseguiram construir um consenso entre a demanda da população - cuja urgência privilegia soluções de violência - e a oferta de propostas apresentadas por seus especialistas, cujas convicções doutrinárias indicam o caminho oposto. Na impossibilidade de um acordo - por incapacidade dos governos de entrar no tema com coragem até para contrariar o senso comum - fica o Estado de um lado e a sociedade de outro, cada um falando uma linguagem diferente. Não se trata de uma suposição, está na pesquisa: 81% das pessoas são favoráveis ao uso das Forças Armadas no combate ao crime; 80% aprovam a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade; 64% são favoráveis à prisão perpétua e 43% aprovam a pena de morte. O cardápio não poderia ser mais divergente da realidade e do pensamento preponderantes no mundo oficial: as Forças Armadas não apenas se recusam como não são preparadas nem autorizadas pela Constituição a fazer o papel de polícia; a posição do governo é contrária à redução da maioridade penal; como também não há no Estado quem reconheça eficácia na prisão perpétua ou na pena de morte para aumentar o grau de segurança do cidadão. Um quadro de apartamento por enquanto fadado a ficar como está. A despeito da importância, da posição prioritária entre as preocupações registradas nas pesquisas e da óbvia urgência por alguma solução, a segurança pública não entrou até agora no rol dos temas prediletos de nenhum dos postulantes à sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva. Oficialmente Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios sobre as variáveis que têm levado prefeitos a serem reeleitos aponta dois fatores preponderantes: a eficácia da primeira gestão e a proximidade política com o governador do Estado. A boa notícia é que o instituto da reeleição anima o prefeito a investir na eficiência administrativa. A má é que o peso do governismo na obtenção do segundo mandato desestimula o exercício da oposição. Dois senhores A acusação do deputado e candidato a prefeito do Rio, Fernando Gabeira (PV/PSDB), de que o Ibope manipula os índices de pesquisa para favorecer o PMDB porque o partido tem contrato de prestação de serviços com o instituto, ainda carece de comprovação, mas ressuscita uma velha questão. É correto os institutos responsáveis pelas pesquisas que acabam orientando o rumo das campanhas - quando não influenciando diretamente o resultado das eleições - poderem fazer o mesmo tipo de trabalho para partidos e candidatos? Hoje não há impedimento legal nessa duplicidade. Nada obriga os institutos a tratar seus clientes de modo diferente, tanto faz se são “neutros” ou se estão diretamente envolvidos nas disputas eleitorais. O fato de servirem a dois gêneros de interesses - opostos, na essência - não os torna suspeitos por definição. Mas também não contribui para deixá-los totalmente imune a desconfianças, como seria o ideal. Na dúvida, a separação formal da clientela acabaria por princípio com quaisquer objeções, mesmo hipotéticas. Apesar disso, fracassaram as várias tentativas de se incluir na legislação eleitoral algum tipo de regra nessa área. |
Luiz Garcia - Dois chatos:McCain e Obama.
| O Globo |
| 30/9/2008 |
Somos todos treinados em aceitar tudo e qualquer coisa dos políticos, daqui e d"além-oceano. Aceitamos que façam gato e sapato de nossas esperanças, que usem duas, três ou muitas caras. Que sejam uma coisa na hora de prometer, e outra no momento de fazer. É da regra do jogo, dizem. Mas pelo menos num ponto temos direito a bater pé: que façam o favor de não nos entediar. Aceitamos a gangorra da esperança e da decepção. Não é exatamente masoquismo cívico, mas porque parece que não tem outro jeito mesmo. Mas, pelo amor das santas urnas, não nos chateiem. Engodo, pode ser, tédio cívico, jamais. Sábios analistas, aqui abaixo do Equador e lá no lado de cima, já gastaram resmas de papel e esvaziaram uma profusão de tinteiros em doutas análises do primeiro debate entre John McCain e Barack Obama. Só não registraram a extraordinária e inesperada chatura do espetáculo. Nem o veterano republicano nem o jovem democrata se arriscaram a qualquer aventura no campo da eloqüência dramática. Compreende-se que o momento vivido pelo país não recomendava humor rasgado nem tolerava sarcasmo. Mas faltou mais do que isso. Por que terá sido? Se não havia clima para ironia - mesmo que ela, quando bem dosada e pertinente, não seja sinônimo de palhaçada. No outro extremo, uma boa dose de indignação seria absolutamente pertinente no que deveria ser, afinal de contas, a discussão sobre o futuro de um país mergulhado em crise espantosa. McCain e Obama se empenharam em mostrar que o adversário não estava bem informado sobre a crise financeira e sobre a política bélica - melhor, belicosa - do governo Bush. Era a estratégia do "ele é pior que eu". Não costuma ser tão eficiente quanto "eu sou melhor que ele". Segundo pesquisas, o democrata levou vantagem, por escassa margem. Não é absurdo imaginar que já fosse dono da mesma vantagem ao entrar no palco. E, convenhamos: ganhar apertado um debate contra um rival que carrega nos ombros a obrigação de defender a política externa e econômica de um George Bush é muito perto de um fracasso. É certo que em momentos de grave crise nacional - como o que vivem os EUA - qualquer pretendente ao poder tem de mostrar uma dose de contenção e sobriedade, tanto no tom de voz quanto na escolha de argumentos. Mas Obama exagerou na dose. E não tocou em questões de óbvia importância. Era importante lembrar que Bush praticamente abandonou a caçada aos terroristas que atacaram o território americano para se concentrar na invasão e na ocupação do Iraque. Mas o candidato deixou de lado pontos fundamentais: o porquê dessa decisão, quem lucrou com ela e de que maneira ela ajudou a fragilizar a economia americana. Faltam cinco debates. Vamos tentar ficar acordados pelo menos em mais um. |
Celso Ming - Prevaleceu o eleitoreiro
| O Estado de S. Paulo |
| 30/9/2008 |
Se ainda não se pode chamar de pânico, o que aconteceu ontem nos mercados pode ao menos afirmar que foi um ensaio disso. Na semana passada, o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, repetia que a rejeição ao pacote abriria a temporada para a crise sistêmica, ou seja, para a quebradeira bancária nos Estados Unidos e nos países ricos, situação em que o dinheiro do depositante pode ir para o ralo. Como o pacote foi rejeitado pela Câmara dos Representantes, a pergunta agora é se Paulson tinha razão ou se não teria abusado de argumentos terroristas para arrancar o voto dos políticos. A resposta está prejudicada pela sublevação política dos representantes do povo americano. As lideranças no Congresso foram atropeladas por projetos eleitorais particulares e isso sugere que não dá mais para confiar no que decidem em nome das bases. Quem garantirá que a rejeição será revertida ou que algo melhor será colocado no lugar? A arquitetura do plano Paulson-Bernanke, rejeitado contra a aposta majoritária, tinha em vista uma solução de atacado para uma crise que se desdobraria no varejo. O governo não pode assistir parado à ação das labaredas. Sem a autorização ampla, terá de se desdobrar para atacar os focos à medida que aparecerem. E, ainda ontem, antes de o plano ser votado, o mercado soube de pelo menos mais quatro casos de quebra bancária, todas na Europa: a do inglês Bradford & Bingley; a do alemão Hypo Real Estate; a do belga-holandês Fortis; e a do islandês Glitnir. O que importa agora é a generalização da percepção de que os bancos estão especialmente vulneráveis. E, sem UTI que possa ser armada, a encrenca pode ser ainda mais grave do que o secretário Paulson denunciava. Independentemente disso, o Federal Reserve (banco central americano) deve injetar mais recursos no sistema para evitar o estancamento total do crédito e a corrida aos guichês. Isso terá seu preço em inflação, mas, a essa altura, ninguém vai olhar para a desarrumação da casa. Se for apresentado um novo pacote para votação, como se espera agora, provavelmente incluirá três ingredientes cuja ausência ou insuficiência foi o principal fator de rejeição. Terá, em primeiro lugar, de garantir como contrapartida a transferência de patrimônio dos bancos para o Tesouro, para que as ações sejam repassadas com lucro ao mercado uma vez vencida a crise. Não deixaria de ser uma forma de estatização, embora a transferência seria feita em ações preferenciais (sem direito a voto). Ao menos essa era a idéia original. Em segundo lugar, incluirá algum mecanismo de redução de custos para o mutuário hoje entalado em financiamentos habitacionais impagáveis. E, em terceiro, preverá mais controle sobre as operações de salvamento que, originalmente, davam poderes especiais ao secretário do Tesouro, ao atual e ao que comporá o próximo governo. É possível que caia a ficha que faltou no miolo dos políticos. Que temam ser cobrados por terem aceso o pavio da dinamite e serem responsabilizados pelo pior. E que se apressem a aprovar o que ontem rejeitaram. Por ora, pensam apenas que se vingaram da banqueirada irresponsável. Mergulho - As coisas estão tão complicadas que não dá para recomendar compra de ações num mercado a preços de liquidação. Não dá nem sequer para dizer que quem deixou de vender não deva cometer um segundo erro de vender agora. |
Gustavo Loyola, "Voltamos para a estaca zero"
| Bruno Villas Bôas |
| O Globo |
| 30/9/2008 |
GUSTAVO LOYOLA Ex-presidente do Banco Central (BC) Gustavo Loyola, atualmente sócio da Tendências Consultoria, afirma que as autoridades americanas saem enfraquecidas com a rejeição, no Congresso americano, do pacote de resgate do setor financeiro. Para ele, o processo de "limpeza" dos créditos sujos do mercado tende a se prolongar e custar ainda mais caro. Loyola foi mentor do Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (Proer), que a partir de 1995 destinou cerca de R$40 bilhões aos bancos brasileiros. |
Está tudo errado, diz Fernandes
| Heloisa Magalhães |
| Valor Econômico |
| 30/9/2008 |
Para o empresário Luiz Cezar Fernandes o pacote de apoio ao sistema financeiro americano estava "todo errado" e ele diz que não se surpreendeu com a rejeição no Congresso dos EUA que, segundo ele, foi movido fundamentalmente por razões "ideológicas". Fernandes, que ajudou a criar o banco Pactual, hoje adviser em grandes negócios e investidor na área de tecnologia, acha que o cenário ficou ontem mais grave. Avalia a crise como " sistêmica" e que está se tornando "um castelo de cartas" com a quebra sucessiva de bancos de diferentes portes. "Está faltando um cara macho", diz referindo-se à necessidade de buscar saídas mais ousadas e criativas. Diz que os EUA deveriam adotar o mesmo comportamento do crack da bolsa em 1929. Na época "sentaram-se na biblioteca de Wall Street" financistas e banqueiros liderados por John Pierpont Morgan Jr (filho do criador do J.P.Morgan) e dali saíram várias propostas. Agora, Fernandes sugere a adoção do mesmo modelo reunindo numa mesma sala Jamie Dimon e J.C. Flowers. Dimon executivo-chefe do JPMorgan Chase teve participação criativa e fundamental no processo de compra do Washington Mutual (WaMu), que estava em mãos das autoridades reguladoras dos Estados Unidos. E Flowers, por sua vez, voltado para fundos de "private equity" e também com perfil inovador, foi decisivo na aquisição do Merrill Lynch pelo Bank of America. Em conversa com o Valor, o ex-banqueiro avaliou a crise. Valor: Por que os mercados reagiram tão mal ao pacote americano já na abertura das bolsas? Luiz Cezar Fernandes: Reagiram mal com muita razão. O pacote estava todo errado. Como se está numa crise sistêmica não adianta dizer vou fazer, tem que fazer. Como funciona a crise sistêmica? Começa o boato do banco A, o banco A morre e o boato passa para o B, que morre, e passa para o C e assim vai sucessivamente. Já foi o Bears (Stearns), foi Lehman, o Merrill Lynch foram os outros pequenos e médios que não são noticiados. Esse processo vai continuar. O pacote não resolveria, da maneira como estava formulado. Valor: O que deve ser feito? LCF: Um dos caminhos é dar garantia aos bancos para levantar recursos pelos seus próprios meios para continuar funcionando e não dizer que vai comprar títulos podres. Seria mais prudente criar uma fiança bancária para tomar crédito uma vez que não tem crédito no mercado. Se o governo americano tivesse entrado ontem no mercado comprando US$ 700 milhões virava a mesa. A ideia das parcelas com autorização do Congresso não dá certo. É como o lançamento de ações que dá errado depois a empresa não consegue voltar ao mercado. O Congresso vai ter de repensar e buscar um outro caminho. Vai precisar de muita criatividade e gente com cabeça boa para resolver. Valor: Que caminho o sr. sugere? LCF: Está faltando o JPMorgan que na década de 1930 colocou um grupo na biblioteca de Wall Streret e disse: "Só saímos daqui quando encontrarmos uma solução". Jamie Dimon e J.C. Flowers deveriam ficar trancados numa sala com outras pessoas bem preparadas e buscarem uma solução. Eles têm condições de discutir uma solução clara, sentar na sala com 10, 15 caras e discutir. O Flowers acompanhou todos os pepinos mundiais e o Dimon viu a crise antes dos outros, se preparou e quando ele viu que ia dar zebra decidiu não cobrir o Bears. A melhor proposta não vai sair do Congresso. Valor: Com o agravamento a crise vai contaminar o resto do mundo mais rápido do que esperava? LCF: Como cada dia é um banco nunca se sabe qual vai ser o próximo. Os países que estão mais isolados, como o Brasil, por exemplo, têm uma corrida de investidores. Há também corrida para papéis de renda fixa do Tesouro americano, o que acho que é uma insensatez. Se o país está em crise, por mais que os Estados Unidos sejam fortes, não é lá que eu vou aplicar. Valor: O senhor escreveu em abril artigos alertando que a crise americana, muito antes de tomar a dimensão das últimas semanas, viria dificultar o acesso ao crédito. LCF: De todas as crises que passamos essa é a que estamos em melhor situação. Mas a velocidade mudou. Uma coisa é ter uma gripe e outra é uma pneumonia aguda. Vamos ter restrição ao crédito muito mais grave do que está hoje. O Banco Central não pode deixar o dólar disparar. O Banco Central tem que tomar a iniciativa de dar redesconto para os bancos financiarem as exportadoras. Tem que dar redesconto e não liquidez senão os bancos guardam dinheiro. Tem que dizer: quem tiver dificuldade de renovar suas linhas vem aqui que o Banco Central renova, seja de empréstimo ou de exportação. Na realidade temos hoje de US$ 28 bilhões de linhas de crédito totais para o sistema financeiro e US$ 200 bilhões de reservas. Mesmo que financie os US$ 28 bilhões sobra US$ 170 bilhões de reserva e não deixa o sistema financeiro parar. Valor: O que vai acontecer no mercado financeiro internacional? Acabam os bancos de investimento definitivamente? LCF: Já acabaram. O mercado já tentou o hedge fund e o private hedge fund. Mas ambos estavam muito baseados na mesma filosofia, na alavancagem. E são muito mais limitados. Só não sofreram corrida porque os prazos de resgate dos hedge funds são longos, então ninguém pode sacar ainda. Foi destruída uma filosofia e para surgir um novo processo mais criativo vai demorar 20 anos. A criatividade estava nos bancos de investimento. A evolução do mercado financeiro mundial se deve aos bancos de investimento. Os bancos comerciais são paquidermes: "o que está no manual eu faço o que não está eu não faço". |
Crescer não é mais prioridade, diz Armínio
Ex-presidente do BC diz que tentar preservar o crescimento pode ter um custo alto em meio à crise financeira global
Segundo ele, situação econômica já não seria fácil com aprovação de pacote, rejeitado por questões políticas em ano eleitoral
GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA
O ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, sócio da Gávea Investimentos, afirma que não é hora agora de o Brasil privilegiar o crescimento econômico. De acordo com ele, o governo tem de adotar uma posição conservadora e, se possível, pensar numa agenda de reformas para tornar ainda mais sólidos os fundamentos da economia.
Ao analisar a rejeição ao pacote de salvação das instituições financerias, Armínio diz que foi uma decisão política, num ano de eleições nos Estados Unidos. O problema, segundo ele, é que o mundo vive uma crise sistêmica e essa situação exige resposta rápida.
"Com o pacote a situação já não ia ser fácil. Sem o pacote, fica muito perigosa", afirma.

FOLHA - Qual a sua interpretação para a rejeição ao pacote?
ARMÍNIO FRAGA - São coisas de um ano de eleição. O problema é que estamos vivendo hoje claramente uma situação de crise sistêmica que requer uma resposta rápida. Qual vai ser e quando vai ser, está difícil de prever. O que se sabe é que, quando mais demorar, pior fica.
FOLHA - O sr. acredita na hipótese de o pacote ainda ser aprovado?
ARMÍNIO - Em tese, essa aprovação deveria ser uma coisa relativamente rápida, mas neste momento político, de eleições nos Estados Unidos, é um movimento complicado.
FOLHA - A que o sr. atribui o fato de o pacote não ter sido aprovado?
ARMÍNIO - O povo americano é contra a operação. Talvez não tenha entendido a repercussão da não aprovação do pacote. O pacote talvez não tenha sido defendido como a maioria gostasse que fosse, e deu no que deu. Amanhã [hoje] é feriado [judaico] nos EUA e imagino que vá se discutir o que se fazer e se negociar alguma coisa.
FOLHA - O que pode acontecer se o pacote não for aprovado?
ARMÍNIO - Mesmo com o pacote, a situação já não ia ser fácil. Sem o pacote a situação fica muito perigosa. Os sinais de falta de liquidez, de desconfiança e de maior prêmio de risco no mercado são enormes.
FOLHA - Por que o Brasil tem sentido tanto os efeitos da crise?
ARMÍNIO - Esse é o preço que o Brasil paga por ter sido o favorito dos investidores externos. Na hora em que ocorre um problema como esse, acaba apanhando mesmo. O grande problema hoje é que as linhas de financiamento ficaram mais escassas. Mas nunca ninguém teve a ilusão de que o Brasil fosse ficar imune, mas a situação atual não é nada comparável a outros momentos do passado. Em outros momentos, o impacto foi devastador.
ARMÍNIO - O governo tem de adotar uma posição conservadora e aceitar que, nessas circunstâncias, o país não pode ter a expectativa de repetir o crescimento deste ano que está terminando agora. Quando o vento está a favor, o país pode correr numa determinada velocidade, mas quando está contra não tem muito jeito. Se tentar preservar demais o crescimento, terá um custo para o país. Mas, no geral, o governo tem agido de forma consciente. Não vejo razão para achar que o governo vá inventar moda agora. Se falou um pouco em expandir o crédito, o que só é defensável agora se for para produção e desde que não se fala de maneira exagerada. Eu recomendaria agora alguma prudência. Seria bom também a essa altura do jogo uma agenda de reformas e de se pensar em algumas medidas na área microeconômica, mas isso eu acho que é querer demais.
segunda-feira, setembro 29, 2008
Plano de ajuda não passa: um erro brutal nos EUA
Vamos falar claramente: ao rejeitar o plano de resgate financeiro, os 228 deputados americanos estão cometendo um erro histórico que, se não for reparado a tempo, vai impor consequências dramáticas para as economias americana e mundial.
O episódio mostra também o fracasso das lideranças políticas. O pacote tinha o apoio do presidente George W. Bush, dos candidatos McCain e Obama, das principais lideranças do Partido Democrata, majoritário na Câmara, e de muitas das melhores lideranças do Partido Republicano.
McCain atuou mal desde o início, sabendo da importância do pacote, mas querendo dar a impressão de que era contra.
Já as declarações de Obama de agora à tarde, tentando se aproveitar eleitoralmente da situação, foram muito ruins. Passa a impressão de que não foi convencido do que pode acontecer sem o pacote.
A única esperança é que a política nunca pára. Certamente, há lideranças americanas (e mundiais) conscientes do tamanho do problema. E é tão grande essa problema que chega a ser impensável que não encontrem uma saída. Mas se já cometeram muitos atos impensados ao longo da história.
BRASIL JÁ PAGA A CONTA DA CRISE
Correio Braziliense
29/9/2008
Terremoto financeiro internacional chega ao país e restringe o crédito, eleva os juros dos empréstimos, faz o Banco Central queimar reservas e derrete o valor de mercado das empresas com ações na Bovespa
O governo resistiu o quanto pôde em assumir que o estouro da bolha imobiliária americana teria reflexos negativos no Brasil. Mas, desde o início deste mês, quando a crise realmente mostrou sua face mais perversa, a realidade falou mais alto. A fatura que cabe ao país passou a ser emitida. E do Banco Central ao Ministério da Fazenda, do Congresso ao Palácio do Planalto, a discussão, agora, é sobre como minimizar os estragos na economia brasileira. "Não tem jeito. Por melhores que sejam os fundamentos econômicos, não há como o Brasil ficar imune ao vendaval financeiro que varre o mundo", diz Ítalo Lombardi, analista para mercados emergentes da consultoria RGE Monitor.
Os efeitos da crise estão por todos os lados. A começar pelo crédito, que ficou mais escasso e caro. Na média, os consumidores que se dispuserem a comprar a prazo ou a tomar empréstimos vão arcar com as maiores taxas de juros desde o segundo semestre de 2006: 52,8% ao ano, em média. Operações que antes eram oferecidas sem restrições, como os empréstimos com desconto em folha, praticamente sumiram. No máximo, os bancos estão renovando os financiamentos e, mesmo assim, em prazos menores. "O consignado deixou de ser interessante para os bancos nesse cenário de juros mais altos", afirma o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.
Também as empresas estão arcando com custos maiores nas linhas para capital de giro e para tocar a ampliação de fábricas — juros médios de 28,4% ao ano, os maiores em julho de 2006 —, uma vez que o crédito externo secou. Apenas nos primeiros 15 dias de setembro, R$ 2,1 bilhões deixaram de entrar no país. "O crédito é uma das alavancas do crescimento, pois estimula tanto o consumo das famílias quanto os investimentos produtivos. Ao ficar mais caro e com acesso mais difícil, vai prejudicar a expansão econômica do país", explica Fernando Montero, economista-chefe da Corretora Convenção.
Por isso, muitos analistas prevêem um tombo no ritmo de avanço do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. As estimativas apontam para incremento entre 2,5% e 3,5%, o que representa redução de até três pontos percentuais em relação ao resultado esperado para este ano, de 5% a 5,5%. "Que o Brasil vai crescer menos em 2009, não há dúvidas. E muito possivelmente menos de 3%", ressalta o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes. A inevitável desaceleração da economia já foi, inclusive, devidamente comunicada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo presidente do BC, Henrique Meirelles, conforme informou ontem o Correio.
Mais prejuízos
O governo também está dando sua cota de sacrifício. O BC já queimou US$ 1 bilhão das reservas internacionais para aliviar a vida de empresas e bancos, que ficaram sem crédito para financiar o comércio exterior. O BC teve ainda de enfrentar o sufoco de 23 bancos de menor porte, que se viram sem dinheiro em caixa para emprestar. A secura foi tamanha, que a instituição liberou R$ 13,2 bilhões em depósitos compulsórios que estavam sob a sua guarda. E mais: mesmo pagando juros mais altos, o Tesouro Nacional conseguiu refinanciar, em setembro, pouco mais da metade dos R$ 20,7 bilhões da dívida pública.
É no mercado financeiro que os efeitos da crise são mais evidentes. O valor das empresas com ações na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encolheu R$ 617,8 bilhões. Corretoras e fundos de investimentos tiveram dificuldades para honrar compromissos no pregão paulista. Grandes exportadoras, como a Sadia e a Aracruz Celulose, perderam mais de R$ 1 bilhão, ao serem surpreendidas com a disparada do dólar frente ao real. "Infelizmente, ainda vamos ver muito sofrimento no mercado", ressalta Alexandre Marques Filho, analista da Elite Corretora.
Alex, Fátima e a crise americana
Por Laurence Bittencourt Leite (*)
Em um comentadíssimo artigo que o jornalista aqui de Natal, Alex Medeiros escreveu quinta feira passada na sua coluna no Jornal de Hoje, o que mais chamou minha atenção foi ele ter possibilitado a comparação do PT a um partido de direita, sem precisar dizer isso com todas as letras, o que é absolutamente correto, porque o PT é de fato um partido de mentalidade de direita, do tipo nazista. A sacada de Alex foi a de um atirador de elite, como sempre. E as relações de semelhança são muitas. Não para o fanático, obviamente. E é bom lembrar que os nazistas eram todos fanáticos. Basta lembrar de que forma teve inicio o domínio do povo pelos nazistas: com uma forte propaganda. Aqui no Brasil o contribuinte e estatais como Banco do Brasil e Petrobrás (as pérolas da coroa) pagam milhões para mostrar o que o governo “ainda vai fazer”. Lula tem mídia 24 horas. Tudo pago pelo contribuinte.
Outro dia estava vendo a propaganda da ANA – Agencia Nacional de Água, mostrando uma queda dágua com a intenção clara de levar o povo a achar que foi o PT que fez aquela “beleza”. E ao fim da propaganda ainda coloca-se estampado “governo de todos”. Isso é massificação. Hoje Lula atingiu o máximo de popularidade. Vamos esperar que o povo brasileiro não fique hipnotizado como os alemães ficaram com Hitler. Ainda que se dependesse de Lula – o que ficou claro pelo que ele falou no comício para levar Fátima Bezerra ao segundo turno – que oposição no Brasil não deveria existir. Isso é nazismo. Inclusive na propaganda de Fátima ela diz “eles que estão contra Lula”. Ué, e não se pode ficar contra Lula? Só se pode ficar a favor? Que mentalidade é essa, a não ser desejo totalitário? Para o fanático, obviamente que não é. Ele vê nos achincalhes de Lula, algo democrático.
Estou torcendo muito para que não haja segundo turno na disputa pela prefeitura de Natal. Se Micarla, candidata de oposição ao PT vencer já no primeiro turno, seria na verdade a vitória do individuo contra o poder do Estado. A vitória de Micarla de Souza seria a vitória da independência do eleitor natalense contra um acordo de cima para baixo, imposto. Na verdade, são três Estados, o federal, o estadual e o municipal, e ainda o presidente do senado, tendo Lula, Wilma e Carlos Eduardo jorrando recursos com a máquina estatal sendo usada discaradamente, criminosamente (cadê a justiça eleitoral e o ministério público?) para levar Fátima ao segundo turno. Micarla tem resistido bravamente. Fátima na verdade é a candidata dos três poderes.
E muito se fala do Bolsa família como sendo o Bolsa voto. Depois que o sujeito nasce até para mamar ele tem que fazer esforço. No Brasil o que vemos é o contrário. É a dependência ao Estado. Mas a compreensão para o entendimento do Bolsa família, cujo único beneficiário é o governo é a seguinte: o setor privado que trabalha, destina recursos através dos impostos ao governo, que faz repasse desses recursos, sem cobrar nada em troca (brasileiro adora não ser cobrado), aos miseráveis. Mas reparem: não é o governo que está mantendo o Bolsa família, e sim o setor privado. Solamente. Ainda que eu ache barato essa dependência e derrame diante da farra da corrupção e do desperdício de dinheiro público nesse país. Corrupção praticada pelo PT, como nunca se viu na nossa história. E tome propaganda. Mas o fanático não vê isso, claro. Imagine o que diriam eles, que acham (ingenuidade ou esperteza?) que o partido democrata nos EUA é uma espécie de esquerda, se soubessem que a frase “não pergunte o que o país pode fazer por você, e sim, o que você pode fazer pelo país”, foi dita por um democrata de lá, John Kennedy. Aqui no Brasil a frase seria apontada como reacionária, claro. Leiam direitinho a frase e pensem no Bolsa família.
Mas a ingenuidade é tanta, que agora mesmo diante da crise imobiliária nos Estados Unidos vemos “intelectuais”, petistas, incluindo Lula pedindo a intervenção do Estado. Eles não sabem rigorosamente o que dizem. Ainda que só no capitalismo eles possam dizer. Os 700 bilhões que o governo americano está querendo aplicar para contornar a crise, não representa um naco dos impostos que esse mesmo governo recebeu do setor imobiliário e dos bancos. Na verdade, o Estado está apenas devolvendo ao setor produtivo aquilo que o setor produtivo não pára de dar para manter o Estado. Percebem? Basta um exemplo: na ex-União Soviética como não tinha setor produtivo, o capitalista, o Estado faliu, ou seja, não teve como “ajudar” a acabar a miséria e ajudar os capitalistas. Percebem? A lógica é fácil. Não é o Estado que está salvando o capitalismo e sim o contrário, o capitalismo é que vem mantendo e salvando o Estado ad infinitum. Outro exemplo? Quando o nosso Banco do Brasil esteve a pique de falir (alguém se lembra?), e FHC injetou 40 bilhões de reais através do PROER, os petistas e os intelectuais na época foram contra, incluindo o sábio Lula. Bom, Lula depois que virou neoliberal parece ter crescido e mudou de opinião. Já é um bom caminho.
(*) Laurence Bittencourt Leite é jornalista
Clipping do dia 29/09/2008
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