Entrevista:O Estado inteligente

domingo, novembro 04, 2012

Esperança adiada - MIRIAM LEITÃO



O GLOBO - 04\11
O governo baixou juros, deu incentivo aos setores e desvalorizou o real. Tudo para ajudar a indústria. Não adiantou. Depois de três meses de alta, a produção caiu muito em setembro e fechará o ano em recessão. No começo do ano os economistas previam que o segundo semestre seria forte. Hoje, contam, no máximo, com uma alta leve no finalzinho do ano.

O dado da indústria de setembro, divulgado na quinta-feira pelo IBGE, confirmou esse adiamento do momento em que o país ganhará mais ritmo. O número divulgado é vermelho em todas as comparações: contra o mês anterior, acumulado no ano ou comparado a setembro de 2011. O que mais preocupa é a queda dos investimentos. Um tombo de 14% contra o mesmo mês do ano passado.

A previsão de vários economistas de que o ano terminaria com o país crescendo a 4% já mudou. Alguns acham que não há garantia nem de que o ano de 2013 será de forte recuperação. Em parte porque a economia mundial não está ajudando ainda e em parte porque o arsenal que o governo tem usado não tem tido o efeito que se esperava.

A desvalorização do real ajuda a exportação, mas também traz aumento de custos. Primeiro, os próprios insumos industriais importados ficaram mais caros. Segundo, a inflação como um todo subiu e isso afeta indiretamente as empresas.

A queda da Selic em mais de cinco pontos percentuais tem efeito positivo, mas não conseguiu sustentar a reação. O economista José Márcio Camargo, da PUC-Rio, diz que a redução dos juros ajuda, mas outros custos estão subindo e tirando competitividade do setor industrial. O preço da mão de obra, medido pelo IPCA, por exemplo, subiu 8,19% este ano.

- A queda da Selic torna os financiamentos das empresas mais baratos e estimula o consumo, mas há uma série de aumento de outros custos: preço dos transportes, gargalos de infraestrutura e a mão de obra - explica Camargo.

Quem puxou a indústria para baixo em setembro foi o setor de máquinas e equipamentos. O recuo foi de 4,8% contra agosto e de 8,5% nos últimos dois meses. O vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Veloso, diz que a capacidade ociosa do setor está recorde. O nível de utilização da capacidade instalada (Nuci) desceu a 70%, quando a média histórica é 86%. Pelas contas da Abimaq, a participação dos investimentos no PIB deste ano cairá de 18% para 17%:

- Nosso setor serve de termômetro para o nível de atividade, porque o prazo de entrega das máquinas demora meses. Então já posso dizer que o primeiro semestre do ano que vem será fraco, pelas encomendas feitas agora. Estimamos que o PIB de 2013 não passará de 2,5%.

Veloso acredita que o governo está na direção certa ao forçar a queda dos juros, desvalorizar o real, combater a guerra dos portos e desonerar a folha de pagamentos. Acha, no entanto, que essas medidas demoram a surtir efeito sobre o setor produtivo e deveriam ter sido tomadas bem antes:

- O Brasil é pouco competitivo desde 2008. O pequeno crescimento do PIB que teremos este ano será por causa do consumo e não do investimento. A queda dos juros ajuda, mas o empresário não vai investir por causa disso.

O investimento ocorre se há condições adequadas e ambiente de confiança. O governo atrapalha quando não realiza os investimentos que estão previstos no Orçamento. Sendo assim, por enquanto, tudo o que se conseguiu foi manter a esperança de recuperação para o futuro. Mas o momento desse futuro vai sendo deslocado para mais adiante

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