segunda-feira, outubro 31, 2011

Agnelo na mira REVISTA ÉPOCA


Uma investigação da polícia mostra que o governador de Brasília ajudou um PM a fraudar provas para se defender de denúncias de desvio de recursos


ANDREI MEIRELES, MARCELO ROCHA E MURILO RAMOS

Orlando Silva perdeu o cargo de ministro do Esporte, na semana passada, abalado por denúncias de desvio de dinheiro. Seu substituto, Aldo Rebelo, também do PCdoB, recebeu do Palácio do Planalto a missão de moralizar a pasta. Para a Justiça, no entanto, a questão é outra. Nos próximos dias, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) receberá um processo com nove volumes e quatro apensos, que corre na 10ª Vara Federal, em Brasília. As informações, a que ÉPOCA teve acesso, mostram que o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), antecessor de Silva, é suspeito de ter se beneficiado das fraudes.

O conjunto contém gravações, dados fiscais e bancários, perícias contábeis e relatórios de investigação. As peças da ação penal vistas por ÉPOCA incluem o relatório nº 45/2010, que contém os diálogos captados em interceptações telefônicas, com autorização judicial, feitas entre 25 de fevereiro e 11 de março do ano passado. As conversas mostram uma frenética movimentação de Agnelo Queiroz e do policial militar João Dias para se defender em um processo. Diretor de duas ONGs, Dias obteve R$ 2,9 milhões do programa Segundo Tempo para ministrar atividades esportivas a alunos de escolas públicas. Nas conversas, Dias quer ajuda para acobertar desvios de conduta e de dinheiro público. Ele busca documentos e notas fiscais para compor sua defesa em uma ação cível pública movida pelo Ministério Público Federal. O MPF cobra de Dias a devolução aos cofres públicos de R$ 3,2 milhões, em valores atualizados, desviados do Ministério do Esporte.

Personagem da crônica política de Brasília, João Dias ajudou, com suas declarações, a derrubar Orlando Silva na semana passada. Dias nem precisou apresentar provas de que Silva teria recebido pacotes de dinheiro na garagem do ministério. Suas acusações levaram à sexta baixa no primeiro escalão da equipe da presidente Dilma Rousseff. O pretexto para a demissão foi a abertura, na terça-feira, de inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar a acusação de Dias e denúncias de que o Ministério do Esporte se transformara num centro de arrecadação de dinheiro para o PCdoB. Com a queda de Orlando Silva, o foco se transfere para o governador Agnelo Queiroz, contra quem existem suspeitas ainda mais consistentes.

Os principais interlocutores nas conversas gravadas pela polícia são João Dias, Agnelo Queiroz, o advogado Michael de Farias (defensor do policial) e o professor Roldão Sales de Lima, então diretor da regional de ensino de Sobradinho – cidade-satélite de Brasília onde atuavam as duas ONGs de João Dias. Era com Lima que Dias tratava do cadastro das crianças carentes que deveriam ser beneficiadas pelo programa Segundo Tempo. Na ação cível há um dado impressionante: as ONGs de João Dias receberam recursos para fornecer lanches para 10 mil crianças. Mas só atenderam, de forma precária, 160.

Pressionado pelo Ministério Público, Dias foi à luta para amealhar elementos capazes de justificar tamanho disparate. Às 12h36 do dia 4 de março de 2010, ele telefonou para Agnelo Queiroz, então diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dias pediu a Agnelo para “dar um toque” em Lima e reforçar seu pedido de ajuda ao professor. Dias queria que Lima fornecesse documentos para sua defesa. Na gravação, ele avisa que vai marcar um encontro entre Agnelo e Lima, para que esse pedido seja feito pessoalmente. Menos de uma hora depois, Dias, que estava num restaurante com Lima, telefonou novamente a Agnelo. Entregou o celular para Lima falar com ele. De acordo com a transcrição dos diálogos, feita por peritos do Instituto de Criminalística do Distrito Federal, Agnelo diz a Lima que precisa de sua ajuda. Afirma que vai combinar com João Dias para os três conversarem, porque Roldão (Lima) “é peça-chave neste projeto”.

Qual seria o projeto? Segundo a investigação da polícia, trata-se de apresentar uma defesa à Justiça Federal capaz de livrar Dias da cobrança milionária. Pouco antes das 13 horas do dia 9 de março, o advogado Michael de Farias disse a Dias para ficar tranquilo, que tudo estaria pronto para ser entregue à Justiça três dias depois. Só faltaria, disse Michael, “agilizar a questão do Roldão (Lima)”. Na gravação, Michael afirma que eles “já vão confeccionar os documentos só para o Roldão assinar, já vai tudo pronto”. Dias diz que dessa forma fica melhor e, em seguida, liga para Agnelo e marca um encontro para uma conversa rápida e urgente. Cerca de duas horas depois, Dias volta a telefonar a Agnelo e adia o encontro.

No final da tarde do dia 9, Dias falou com Lima. O professor Lima disse que ficou até de madrugada numa reunião em que foram fechadas “as planilhas, os projetos”. De acordo com a polícia, Lima estava no escritório do advogado Michael. No dia seguinte à tarde,
Michael disse a Dias que já havia “confeccionado a defesa e as cartas de Roldão (Lima)”. Até aquele momento, Lima não assinara nada. À noite, Dias ligou para dois celulares de Agnelo e deixou o mesmo recado nas secretárias eletrônicas: “O prazo máximo para apresentar a defesa é sexta-feira, preciso muito de sua ajuda”. Às 20h22, Dias finalmente consegue falar com Agnelo e avisa “que sexta-feira tem de apresentar o negócio lá”.

A polícia descobriu, pelas conversas grampeadas, onde Lima se encontraria com Dias para entregar os documentos a ser incorporados a sua defesa. O encontro ocorreu no Eixo Rodoviário Norte, uma das principais avenidas de Brasília, no começo da tarde da sexta-feira 12 de março. Dias parou seu Ford Fusion e ligou o pisca-alerta. Em seguida, Lima parou seu Fiat Strada atrás e entrou no automóvel de Dias. Eles não sabiam, mas tudo era fotografado por agentes da Divisão de Combate ao Crime Organizado da Polícia Civil do Distrito Federal. As imagens mostram que Lima carregava uma pasta laranja ao entrar no carro de Dias. Saiu do veículo sem ela. Três horas depois, os advogados de Dias entregaram sua defesa na Justiça Federal.

De nada adiantou todo esse esforço. Um laudo da PF constatou que havia documentos “inidôneos” na papelada apresentada pela defesa de Dias. Três semanas depois, ele e outras quatro pessoas foram presas por causa de fraudes e desvio de dinheiro público no Ministério do Esporte. Mesmo com todas as evidências registradas nas gravações de suas conversas, Dias nega ter recorrido a Agnelo para ajudá-lo em sua defesa. O professor Lima afirma que, nas conversas por telefone e nos encontros com Dias, só falava de política. Mas admite que, “num dos encontros, João Dias me passou o telefone para conversar com Agnelo”. Lima afirma não se lembrar da pasta laranja entregue no encontro.

As gravações telefônicas revelam também uma intimidade entre Agnelo Queiroz e João Dias, que os dois hoje insistem em esconder. A relação entre os dois envolveu a intensa participação do PM na campanha de Agnelo para o governo do Distrito Federal no ano passado. Eles afirmam que estiveram juntos apenas nas eleições de 2006, quando Agnelo concorreu ao Senado, e Dias a uma cadeira na Câmara Legislativa – ambos pelo PCdoB. Os diálogos em poder da Justiça mostram outra realidade. No dia 4 de março de 2010, Dias perguntou a Agnelo como estavam os preparativos para o dia 21 de março, data em que o PT de Brasília escolheria seu candidato ao governo. Agnelo disse que estavam bem, seus adversários estavam desesperados. Em resposta, Dias afirmou que ele e o major da PM Cirlândio Martins dos Santos trabalhavam para sua candidatura nas prévias do PT em várias cidades-satélite de Brasília. Na disputa, Agnelo derrotou Geraldo Magela, hoje secretário de Habitação do Distrito Federal.

Em outra gravação, Dias informa Agnelo sobre o resultado de uma pesquisa eleitoral em que ele ultrapassara o ex-governador Joaquim Roriz. ÉPOCA ouviu de integrantes da campanha de Agnelo que, mesmo depois de sua prisão, Dias teve papel importante nas eleições. A campanha de Weslian Roriz – mulher de Roriz, que o substituiu na disputa – mostrou na TV um dos delatores do envolvimento de Agnelo nas fraudes no Ministério do Esporte. Isso teve impacto na campanha do ex-ministro. Quem deu a solução foi Dias: com poder de persuasão, ele convenceu uma tia da testemunha a desqualificar seu depoimento na televisão. Mais tarde, a tia foi agraciada com um emprego no governo. No novo governo, Dias foi beneficiado. Indicou seu melhor amigo, Manoel Tavares, para a presidência da Corretora BRB, o banco do governo do Distrito Federal.

O governador e ex-ministro Agnelo Queiroz respondeu por escrito a 13 perguntas feitas por ÉPOCA. Ele afirma que o inquérito da Polícia Civil é montado. “O inquérito foi uma tentativa de produção de um dossiê para inviabilizar a (minha) candidatura”, diz Agnelo. “A origem do inquérito infelizmente foi direcionada por uma parte da Polícia Civil, ainda contaminada pelas forças políticas do passado. Uma farsa.” Agnelo diz que ele e João Dias eram “militantes da mesma agremiação partidária, ambiente em que surge o conhecimento” e que é “fantasiosa” a afirmação de que acolheu “indicação de João Dias para cargos no governo”.

Apesar de continuar na Polícia Militar, Dias tornou-se um próspero empresário. Em outro relatório da polícia em poder da Justiça Federal, de número 022/2010, gravações telefônicas mostram que Dias é o verdadeiro dono de academias de ginástica registradas em nome de laranjas. “Tal fato é um forte indício de que João Dias está utilizando as academias para ‘lavar’ o dinheiro oriundo de supostos desvios de verbas públicas”, diz o relatório policial. Dias tem quatro carros importados. O mais vistoso é um Camaro laranja, 2011, importado do Canadá em julho. Em entrevista a ÉPOCA, ele afirmou que adquiriu o Camaro numa transação comercial. O veículo está registrado em nome do motorista Célio Soares Pereira. Célio é o empregado de Dias que diz ter entregado dinheiro no carro do então ministro Orlando Silva na garagem do Ministério do Esporte.

Em depoimento à Polícia Federal, Dias mudou sua versão sobre a entrega de dinheiro a Silva. Ele disse que era “muito pouco provável que o ministro (Orlando Silva) não tivesse visto a entrega dos malotes (de dinheiro)”. Diferentemente de Dias, Geraldo Nascimento de Andrade – principal testemunha de acusação contra Agnelo Queiroz sobre desvio de dinheiro do Ministério do Esporte – confirmou, em todos os depoimentos, ter pessoalmente entregado R$ 256 mil a Agnelo. Em um vídeo a que ÉPOCA teve acesso, Andrade descreve com detalhes como fez dois saques no Banco de Brasília, transportou e entregou o dinheiro ao atual governador.

Andrade sabe mais. Na gravação, ele liga as fraudes no Esporte ao Ministério do Trabalho. Andrade afirma que notas frias foram usadas para justificar despesas fictícias em convênios do programa Primeiro Emprego. O maior convênio apontado por Andrade, de R$ 8,2 milhões, foi firmado com a Fundação Oscar Rudge, do Rio de Janeiro. Andrade, que morava em Brasília, afirma ter ido ao Rio de Janeiro para sacar dinheiro da conta de um fornecedor da fundação, uma empresa chamada JG. Ele diz que passava os valores para representantes da entidade. A presidente da fundação, Clemilce Carvalho, diz que a JG foi contratada por pregão e prestou os serviços. Filiada ao PDT, mesmo partido do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, ela foi candidata a deputada federal em 2006. Lupi está ameaçado de perder o emprego na reforma ministerial, planejada para o início de 2012. Os ministérios do Esporte e do Trabalho têm, em comum, o fato de ser administrados há anos pelos mesmos partidos da base de apoio ao governo federal. O modelo dá sinais de que começa a ruir.

Escândalo latente REVISTA VEJA


O PCdoB ameaçou revelar os malfeitos do PT no Ministério do Esporte, mas, no fim, entregou Orlando Silva para continuar com a chave do cofre milionário

Daniel Pereira

Desde junho passado, quando o petista Antonio Palocci foi obrigado a deixar a Casa Civil sob suspeita de enriquecimento ilícito e tráfico de influência, a presidente Dilma Rousseff já realizou seis mudanças no ministério – uma impressionante marca de uma troca a cada 24 dias. A última delas ocorreu na quarta-feira, quando Orlando Silva se demitiu da pasta do Esporte, depois de ser acusado de receber propina e participar de um esquema de desvio de recursos públicos para o caixa de seu partido, o PCdoB. Silva foi o quinto ministro a deixar o governo abatido por denúncias de irregularidades. Foi também o quinto ministro herdado da gestão do ex-presidente Lula a ser exonerado por Dilma. A escalada de substituições no primeiro escalão rendeu à presidente pontos a mais em popularidade. No campo político, no entanto, acentuou a insatisfação de Lula e do PT com a "faxina ética" em curso. Na lógica do petismo, Dilma estaria carimbando a pecha de corrupção na legenda e, pior, pondo em risco companheiros que estão à frente de cargos importantes. Caso do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz.

Foi justamente a preocupação com Agnelo que levou Lula a sair a campo, mais uma vez, para defender um de seus ministros mantidos no novo governo. O ex-presidente orientou o PT e o PCdoB a pressionar Dilma a não demitir Orlando Silva. Lançou mão de dois argumentos. Um deles é recorrente: o comunista, como os mensaleiros, não passaria de vítima de uma conspiração destinada a desestabilizar o governo. O outro argumento de Lula, o pragmático, era a necessidade de blindar o governador do Distrito Federal. Agnelo comandou o Ministério do Esporte entre 2003 e 2006. Foi quem tirou do papel o programa Segundo Tempo, canal usado pelo PCdoB para irrigar as arcas comunistas. Na época, ele era filiado ao PCdoB e tinha como secretário executivo o próprio Orlando Silva. Com a ajuda do ex-ministro José Dirceu, Lula deixou claro aos petistas que a demissão de Silva e a perda do controle do ministério pelo PCdoB poderiam resultar num revide, com os comunistas divulgando informações que comprometeriam o governador, agora no PT. Ou seja: se não sabia quando era presidente, Lula parece saber agora o que o colega Agnelo fez no verão passado.

A ação de Lula e Dirceu foi catalisada por ameaças feitas por integrantes do PCdoB. Ainda quando tentava se manter no cargo, Orlando Silva afirmou que recebeu o policial militar João Dias a pedido do ex-ministro Agnelo. Dias foi quem contou a VEJA que Orlando Silva recebeu uma caixa com notas de 50 e 100 reais na garagem do ministério, dinheiro amealhado em organizações não governamentais beneficiadas pelo programa Segundo Tempo e que lhe custou o cargo. Publicamente, o deputado Protógenes Queiroz, também do PCdoB, reforçou o coro de ameaças no twitter: "Reconhecemos a queda. Mas preparem-se. Vamos levantar muita poeira ". Levantar poeira, no caso, não seria nada trabalhoso. Agnelo, Orlando, João Dias e outros petistas e comunistas estão juntos no mesmo enredo – e há quem aposte que o escândalo dos desvios ainda fará outras vítimas.

A ameaça ao PT, por isso mesmo, surtiu o efeito desejado pelo PCdoB. Ao retomar da África, a presidente Dilma se reuniu com ministros para tomar pé das denúncias contra Orlando Silva. No dia seguinte, já estava desenhada a demissão dele. Dilma também cogitou tirar do PCdoB o controle do ministério. A ideia era dar à legenda o comando da Cultura. A troca seria uma questão de justiça. O PCdoB, na avaliação da presidente, teria uma bancada parlamentar incompatível – devido ao seu pequeno número de integrantes – com o orçamento e os projetos do Esporte, entre eles a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. A dança de cadeiras não foi realizada devido às ameaças dos comunistas de atacar Agnelo. Depois de viajar com Lula a Manaus na última segunda-feira, a presidente recuou e definiu que o substituto de Orlando Silva seria do PCdoB. A disputa, então, deixou de ser travada entre PT e PCdoB para ser encenada entre os comunistas e o Palácio do Planalto.

Na quarta-feira, logo depois de Orlando Silva pedir demissão, o PCdoB sugeriu o nome do deputado Aldo Rebelo como substituto. Apesar de ele ter sido ministro de Lula e presidente da Câmara, a presidente não gostou da indicação. Dilma acha que Aldo terá dificuldade para punir os camaradas locados no ministério e desmontar o esquema de desvio de verbas. Também pesava contra Aldo o fato de, ao relatar o Código Florestal na Câmara, não ter seguido as recomendações da presidente.

Apesar disso, Dilma aceitou a indicação de Aldo Rebelo. Ela não fez o sucessor que desejava, mas deu fim a mais uma crise política. Já o PCdoB não salvou Orlando Silva, mas manteve o controle do cofre. E o PT não evitou a degola de um aliado, mas calou, pelo menos até a última sexta-feira, os comunistas que se levantavam contra o governador Agnelo Queiroz. Uma saída clássica do atual sistema de governabilidade.

À moda stalinista ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA

Pouco antes de jogar a toalha, na semana passada, e entregar a cabeça do ministro do Esporte, Orlando Silva, o PCdoB tentou reinventar seu passado. No programa de propaganda obrigatória que foi ao ar no dia 20, apresentou como emblemas do partido Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Jorge Amado, Portinari, Patrícia Galvão (a Pagu), Oscar Niemeyer e Carlos Drummond de Andrade. Era uma fraude similar às operações do programa Segundo Tempo. Dos sete, os seis primeiros pertenceram ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o arquirrival do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O sétimo, o poeta Carlos Drummond de Andrade, não foi nem de um nem de outro. O partido tentava, num programa de TV em que jogava as últimas fichas para safar-se do escândalo no Ministério do Esporte, pegar carona num casal de ícones da história brasileira (Prestes e Olga) e em algumas das mais queridas figuras da cultura do país.

O caso menos grave é o de Oscar Niemeyer, o único vivo do grupo. Apesar de ter sido militante do PCB, já apareceu em programas anteriores do PCdoB, do qual aceita as homenagens. O mais grave é o de Prestes. O PCdoB surge, em 1962, do grupo que, no interior do PCB, discordou da denúncia do stalinismo promovida na União Soviética após a morte do ditador. O PCdoB, com um curioso "do" no meio da sigla, será daí em diante o guardião da pureza stalinista. Os outros são a "camarilha de renegados". E o renegado-mor, claro, é Prestes, o líder do PCB. No verbete "PCdoB" da Wikipédia, escrito num tão característico comunistês que não deixa dúvida quanto à sua procedência oficial, Prestes é tratado de "revisionista" (insulto grave, em comunistês) e acusado de ter "usurpado a direção partidária". Também se diz ali que "abandonado à própria sorte, em idade avançada", Prestes "dependerá de amigos como Oscar Niemeyer para sobreviver". Eis colocadas na mesma cloaca da história (o comunistês é contagiante) duas figuras que agora o PCdoB alça ao altar de seus santos.

Entre os outros casos de usurpação biográfica, a alemã Olga, primeira mulher de Prestes, foi fiel soldado das ordens de Moscou. Morreu muito antes de surgir o desafio do PCdoB, mas é de apostar que essa não seria a sua opção. Portinari e Pagu morreram, no mesmo 1962 do cisma comunista, ele fiel à linha de Moscou, ela convertida ao trotskismo, portanto inimiga do stalinismo. Jorge Amado na década de 60 já tinha o entusiasmo mais despertado pelo cheiro de cravo e pela cor de canela do que pela causa do proletariado. Em todo caso, sua turma era a de Prestes, o "Cavaleiro da Esperança" que cantara num livro com esse título.

O caso mais estapafúrdio é o de Drummond. Nos anos 1930/1940 ele praticou uma poesia de cunho social e filocomunista. Chegou a colaborar com o jornal Tribuna Popular, do PCB. Mas nunca se filiou ao partido. Cultivou a virtude de nunca ser firme ideologicamente. O namoro com o comunismo, dividia-o com a fidelidade ao Estado Novo, ao qual serviu no Ministério da Educação. No pós-guerra, mitigava o comunismo com a sedução pela UDN do amigo e mentor Milton Campos. Em 1945 votou para senador em Luís Carlos Prestes, do PCB, e para presidente em Eduardo Gomes, da UDN. E, em 1964, apoiou o golpe militar. "A minha primeira impressão foi de alívio, de desafogo, porque reinava realmente, no Rio, um ambiente de desordem, de
bagunça, greves gerais, insultos escritos nas paredes contra tudo. Havia uma indisciplina que afetava a segurança, a vida das pessoas", explicou numa entrevista, transcrita em livro recente (Carlos Drummond de Andrade Coleção Encontros). Agora vem o PCdoB dizer que Drummond foi um dos seus!?

Desconcertante história, a desse partido. A defesa do stalinismo levou-o a festejar o grande timoneiro Mao Tsé-tung e, quando o timão do chinês emperrou, buscar inspiração na Albânia do "Supremo Camarada" Enver Hoxha. Arriscou uma aventura guerrilheira nos barrancos do Araguaia. E, em anos recentes, encantou-se pela UNE e pelo monopólio da carteirinha de estudante, declarou ao esporte um amor insuspeitado em quem associava o partido à figura franzina do patrono João Amazonas (1912-2002) e recrutou, para reforço de suas chapas, jogadores de futebol (Ademir da Guia, Muller) e cantores (Netinho de Paula, Martinho da Vila) em quem nunca se suporia inclinação pela causa da foice e do martelo. Se há uma coisa em que manteve a coerência, é no vezo stalinista. Stalin mandava cortar das fotos dirigentes do partido caídos em desgraça. O PCdoB inclui em suas fileiras gente que lhe foi alheia. Pelo avesso, chega ao mesmo fim de falsificar a história.

Histórias e males da inflação – Parte 1 MAÍLSON DA NÓBREGA


REVISTA VEJA


A inflação voltou a preocupar. É assunto nas conversas, nas feiras livres e nos supermercados. A imprensa transmite esse sentimento no noticiário de TV, no rádio e nos jornais. Reaparecem charges inspiradas no tema. No mercado financeiro, aumenta a procura por títulos públicos indexados à inflação. Depois da conquista da estabilidade (1994), é a primeira vez que se percebe uma mudança de prioridades na política econômica. Há evidências de que agora se privilegia o crescimento, enquanto a inflação cairia mais por um suposto efeito desinflacionário da crise mundial do que pela ação da política monetária.

Quem tem até 25 anos – uma geração – não viu o caos inflacionário nem dele se lembra. Quem está nesse grupo não havia nascido ou era criança quando o Plano Real venceu a inflação desembestada, após as tentativas fracassadas de 1986, 1987, 1989, 1990 e 1991. É útil, pois, relembrar histórias sobre a inflação e mostrar seus deletérios efeitos.

A Alemanha e o Brasil são casos extremos. Os alemães se tornaram o povo mais intolerante à inflação, enquanto nós aqui construímos uma cultura de tolerância, da qual muitos ainda não conseguiram se livrar.

Nos últimos cinquenta anos, a inflação na Alemanha foi de 309,4%, ou 2,86% ao ano em média. No mesmo período, a brasileira atingiu estonteantes 36 552 126 060 062 700% (trinta e seis quatrilhões, quinhentos e cinquenta e dois trilhões, cento e vinte e seis bilhões, sessenta milhões, sessenta e dois mil e setecentos por cento), com média anual de 95,55%. Lá, a rejeição tem origem no terror da hiperinflação dos anos 1920, na República de Weimar. O ambiente inflacionário teve papel relevante na ascensão do nazismo ao poder. Hitler foi "o filho adotivo da inflação".

O marco alemão perdeu duas das três funções básicas de uma moeda: a de reserva de valor e a de unidade de conta. O dólar era a referência básica de preços de bens e serviços, mas surgiram cerca de 2 000 outros tipos de "moeda", como cigarros e alimentos. A terceira função – a de meio de troca – foi em parte preservada, mas há relatos e fotos de alemães carregando carrinhos de mão cheios de cédulas para comprar pão.

Nossa tolerância à inflação foi em parte fruto da visão desenvolvimentista do pós-guerra. Pensava-se que um pouco de inflação ajudava o crescimento. Seria uma espécie de lubrificante das engrenagens da economia. Celso Furtado dizia que uma inflação anual de até 15% era suportável. Talvez achasse que o baixo desenvolvimento do mercado financeiro justificaria recorrer ao imposto inflacionário para financiar os gastos públicos.

No regime militar, três medidas constituíram o berço da mais entranhada indexação de preços, salários e contratos à inflação passada que o mundo conheceu. A primeira foi a criação da Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN), cujo valor variava trimestralmente. Preservava-se o valor real dos recursos investidos em papéis do Tesouro e se incutia confiança nos que os adquiriam.

As duas outras medidas foram os reajustes de tributos em atraso e de cadernetas de poupança, ambos com base na ORTN. Os salários seguiam uma fórmula oficial baseada na inflação futura e na produtividade. Os contratos eram pactuados livremente entre as partes. Boa parte dos preços estava sob o controle do governo. Com o tempo, a correção monetária se espalhou pelos contratos e pelos preços. Em 1979, os salários passaram a ser reajustados também pela inflação passada.

Dois choques do petróleo (1973 e 1979) aceleraram o ritmo da inflação e encurtaram os prazos de indexação. Com o insucesso do Plano Cruzado (1986) e de seus quatro sucessores, os reajustes se tornaram mensais. O valor dos títulos do Tesouro e a taxa de câmbio variavam diariamente. A inflação ficou crônica, depois fugiu do controle e resultou no processo hiperinflacionário de 1987-1994. (Na próxima semana, explico por que a inflação é a queridinha dos ricos e a maior inimiga dos pobres.)

O Brasil vai ao Mundial desfalcado de Orlando Silva GUILHERME FIUZA

REVISTA ÉPOCA

A presidente Dilma Rousseff avisou que não se pautaria pela mídia. Dessa posição resoluta surgiu a ideia, estratégica, de bancar o ministro Orlando Silva quando ele já estava cheirando a queimado. Em reunião de emergência do estado-maior petista, Lula instruiu Dilma sobre o mais importante a fazer na crise do Ministério do Esporte: não deixar a imprensa demitir mais um ministro. Foi assim que se repetiu, pela quinta vez, o ritual que já é a marca do governo Dilma: ministro prestigiado, ministro elogiado, ministro demitido.

O sonho de consumo do PT é Cristina Kirchner. Ela é um fetiche muito mais eficiente que o do ex-operário no poder, e mesmo que o da "presidenta". Cristina não é uma mulher no poder – é uma viúva trágica, que faz comício mostrando a foto do marido morto. Se o casal Kirchner já estava avançado em sua ligação direta com o povo, com o populismo ao quadrado da viúva é que a imprensa argentina vai ver o que é bom.

O azar de Orlando Silva foi não ser ministro de Cristina Kirchner. É bem verdade que, no Brasil, o sujeito que comanda um ministério responsável pelo desvio de dezenas de milhões de reais em convênios piratas ainda pode, ao sair, apresentar-se como vítima de "linchamento". Por outro lado, Orlando teve a sorte de não ser um ministro japonês. Nesse caso, se fosse descoberto favorecendo ONGs acusadas de fraude, em vez de se queixar contra "essa crise que foi criada", ele poderia estar renunciando à vida.

Na Argentina não haveria nenhum desses problemas. Imprensa que fustiga o governo popular é tratada com mordaça. Até o índice de inflação já é fabricado no quintal da Casa Rosada, para evitar essa praga das notícias ruins. No reino dos Kirchners, o PCdoB poderia exercer à vontade seu comunismo mercantil, sem que jornalistas abelhudos e invejosos se metessem em seus negócios privados com o dinheiro público. Mesmo com a impertinência da imprensa brasileira, porém, o projeto do Ministério do Esporte S.A. está firme para a Copa.

O Brasil vai ao mundial desfalcado de Orlando Silva, mas os desfalques do ministério têm tudo para continuar em campo. Provando que a vida continua, no ato da saída do ministro, Dilma nomeou como interino o secretário executivo da pasta, braço direito de Orlando. A imprensa, que não tem mais o que fazer, logo mostrou que o ministro interino liberara verbas para entidades de fachada. Mas tudo bem, porque a cabeça do ministro rolou e a opinião pública está feliz com a "faxina". Sinal verde para o partido vermelho.

Quase simultaneamente ao anúncio da demissão de Orlando Silva, os depoimentos do PM e do motorista que o denunciaram, marcados para a Câmara dos Deputados, foram cancelados. Eles que são ex-sócios que se entendam. Desse acerto, pelo visto, o Brasil não vai participar. E o escândalo do Esporte seguirá o mesmo rumo das investigações do Dnit, da consultoria de Palocci e demais tramas da faxina de folhetim: das manchetes para o pé de página, e dali para debaixo do tapete, de onde todos sairão reabilitados, provavelmente como consultores.

A culpa é da imprensa, que não prende ninguém. No auge do caso Orlando Silva, com o cipoal de incertezas sobre a Copa do Mundo e a confusão instalada no primeiro escalão do governo, surge a manchete: "Dilma silencia sobre a crise". Mais um erro da mídia. A manchete correta seria: "Afinal, quem é Dilma?".

Essa estadista aclamada por tudo o que não faz e não fala, cuja grande virtude é descansar os ouvidos da nação da verborragia de Lula, poderia dar ao menos uma pista de sua vocação de liderança – um prognóstico, um palpite, uma tirada, ou qualquer coisa além dos discursos de solenidade e frases ensaiadas. Dizem que Dilma está "irritada" com a CBF, "furiosa" com a infraestrutura, "decidida", "encantada", "indignada"... Será que a presidente só existe em off?

O que ela estará achando da tragédia anual do Enem? E dos feriados para compensar o colapso dos transportes nos jogos da Copa? Que projeto, afinal, esse governo tem para o Brasil, além da distribuição de bolsas e cargos? No fim das contas, Dilma poderia parodiar a canção de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, em agradecimento a quem vem salvando seu mandato do vazio existencial: "Não sou eu quem me governa, quem me governa é a mídia".

Capitanias hereditárias no século 21 PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 31/10/11

A senhora presidente está se revelando não uma faxineira, mas uma espécie de enfermeira incomum, especializada em ministros ainda mais inéditos. A especialidade é tamanha, que não tem designação específica, contudo, é capaz de proporcionar-lhes instantes tranquilos quando o fim inexorável se aproxima. Basta dizer que, em apenas 10 meses, cinco entregaram sua alma ao criador, peleando é verdade, mas sob a influência de doces devaneios no sentido de permanecer com as rendosas vantagens terrenas, sem embargo das melifluidades imateriais de mundos desconhecidos, onde inexiste a praga de jornais e revistas, invejosos dos êxitos alheios. Pois a senhora presidente aprendeu, não sei em que escola, a fazer do peculato, por exemplo, alguma coisa semelhante aos inesquecíveis pastéis-de-santa-clara.

O certo é que, salvo um, os quatro restantes que eram portadores de males terríveis, em relação aos quais a farmacopeia está atrasada, em lugar de penetrarem no corredor da morte, passearam entre louros e ciprestes, aspirando o perfume virginal espargido por anjos; não lhes tardaria o dia fatal.

É curioso que de 50 em 50 dias, cadaverizou um após outro. Talvez seja preferível, em vez de cadaverizar, falar de sua mágica, que hipnotiza primeiro e depois, de maneira indolor, celebra as exéquias com as cerimônias de embalsamamento. A versão me parece plausível, pois os mais autorizados meios de comunicação informam que há candidatos à mumificação presidencial.

Mudando de assunto, sem sair dele, o que importa é coisa mais relevante. Extraído o quinto ministro que durante cinco anos dirigiu a pasta, com a divulgação de uma série de atos pouco recomendáveis, porque sua permanência comprometeria o bom nome do país no Exterior, seu sucessor é do mesmo grupo partidário, o PC do B. Eu não sei se o novo ministro possui outros critérios de ação distintos dos adotados pelo sucedido. O que ouvi dizer é que, com as chaves do ministério, simbolicamente, ao seu arbítrio, recebeu o potreiro de porteira fechada. Pelo jeito, a relação da administração caracterizada pela vinculação dos bens concedidos a uma finalidade pública, passa a ser quase de natureza patrimonial, como uma espécie de pecúlio castrense. Seria transferência de parcelas do poder público quando ele é indisponível; enquanto seu concessionário recebe o lote com poderes supremos. Lembraria até as capitanias hereditárias, aliás, malsucedidas e cedo extintas. No entanto, a senhora presidente, renunciando seu poder, não se desligaria de sua responsabilidade constitucional.

Por derradeiro, ocorre-me apontar dois aspectos: Se é certo que os ministros demitidos, menos um, vêm do passado, no caso, do "maior e melhor governo de todos os tempos", nas palavras do ex-presidente, só se pode entender que a manutenção deles no atual teria sido por supostos méritos, a ponto de justificar a distinção que outros não receberam. Destarte é imperioso reconhecer que a ulceração oficial não começou agora.

Outrossim, é inafastável consignar que os "agraciados" com a dispensa continuam liberados de qualquer tipo de apuração; sem pretender ao menor deslize processual, impõe-se a correta apuração dos fatos e a justa responsabilização de cada agente. A omissão da senhora presidente que tem o dever de zelar pela limpeza da administração federal, configuraria crime de responsabilidade, Constituição, art. 85. V. Para não ser longo, lembro o Padre Vieira: "A omissão é um pecado que se faz não fazendo".

Esperando em vão PAULO GUEDES

O GLOBO - 31/10/11

Um sinal de maturidade de um povo e de suas lideranças é o fato de atribuírem a si mesmos a construção de seus destinos. Pode ser que haja sorte ou pode mesmo haver dose de azar. Pode levar mais tempo e ser necessário maior esforço. Mas um povo maduro acredita trilhar o caminho de sua própria escolha.

Isso também vale para o desempenho futuro da economia brasileira. Cansamos de ouvir, no passado, histórias para boi dormir. A inflação brasileira já foi culpa de São Pedro, dos sheiks árabes, dos banqueiros internacionais, dos especuladores e até mesmo do chuchu. Curiosamente, desapareceram todos esses fantasmas quando ao Banco Central do Brasil atribuiu-se a tarefa de manter a taxa de inflação em um sistema de metas preestabelecidas.

É claro que a tarefa do BC seria facilitada por uma melhor coordenação entre a política monetária e a política fiscal, com o Ministério da Fazenda exercendo maior controle sobre os gastos públicos. O Banco Central poderia trabalhar com juros mais baixos, ainda buscando atingir as mesmas metas inflacionárias. E é claro também que uma conjuntura internacional de desaquecimento econômico, esfriando temporariamente a demanda global e os preços das commodities, pode reduzir as taxas de inflação a curto prazo, facilitando também o trabalho do BC.

Mas seria temerário e um sintoma de imaturidade atribuir a trajetória futura da inflação brasileira às circunstâncias da conjuntura econômica internacional. Mais do que a política de reflação de demanda por crédito farto e dinheiro barato nas economias anglo-saxãs, e mais do que a dinâmica deflacionária do euro, atuante na Europa continental, a inflação brasileira em 2013-2014 depende essencialmente do que estamos fazendo em 2011 e do que faremos em 2012, ano eleitoral com substanciais pressões inflacionárias já contratadas.

Essa espera de uma ajuda externa à desinflação brasileira será frustrante. Pois a recente desaceleração econômica mundial veio acompanhada de uma inflação ascendente, refletindo pressões de custos de insumos, o cost-push que trouxe mais inflação e menos crescimento, como alertei seguidamente. E mais, em uma economia de dimensão continental como a brasileira, o processo inflacionário depende fundamentalmente dos mercados de bens e serviços domésticos, e não da inflação "importada", cujos efeitos serão sempre transitórios. Esperamos em vão.

O primeiro grande erro de Dilma RENATO JANINE RIBEIRO

VALOR ECONÔMICO - 31/10/11

Nomeando ministro do Esporte o deputado Aldo Rebelo, artífice da maior derrota do seu governo no Congresso, a presidente Dilma Rousseff comete seu primeiro grande erro. Ela premia a indisciplina, pois deixara clara sua discordância do projeto pró-ruralista do Código Florestal, redigido justamente por Rebelo. Mas primeiro precisamos analisar melhor como a presidente vem lidando com os problemas ministeriais.
Com a troca no ministério dos Esportes, chegam a seis os ministros que Dilma substituiu, em poucos meses. Isso não é anormal. Demora, para um governante articular seus ministros. Fiquei sabendo que a presidente, ao nomeá-los, lhes explicou que este ano, devido aos cortes orçamentários que afetaram todas as Pastas, não cobraria performance. Em 2011, só sairia "quem fizesse bobagem". Mas em 2012 ela exigiria desempenho.
Assim tem sido. As críticas estridentes dos artistas à ministra da Cultura não a derrubaram. Mas, se um ministro não responde bem à conjuntura difícil, ele sai. Dilma não deixa aumentar o desgaste. Ele pode sair por indisciplina, como Nelson Jobim, ou por não esclarecer denúncias de corrupção. Não sabemos se é culpado. Sabemos que ficou insustentável sua permanência no poder.

Nomeando Aldo, Dilma premia a indisciplina
Até aí, está certo. Mas há um dado adicional. Nenhuma substituição surpreendeu a nação por seu impacto. Entrou só um peso pesado, Celso Amorim, mas no lugar de outro peso pesado, Jobim. Nos outros casos, entraram pessoas com menor destaque que o substituído - Gleisi Hoffmann é menos conhecida do que Antonio Palocci. Isso ainda é aceitável. A discrição pode ser uma virtude. Aliás, aqui Aldo Rebelo é exceção. Seu perfil é bem superior ao de Orlando Silva. Ele é o maior nome do PCdoB.
Mas o problema começa agora: pelo menos no Turismo e nos Esportes, ficou claro que a Pasta pertence ao partido. Há ministérios que são feudos. Sai o denunciado, mas a agremiação conserva a vaga. Pior: quando o novo ministro do Turismo decidiu nomear uma pessoa competente para uma secretaria, seu próprio partido exigiu uma indicação política. Ou seja, o partido não se responsabiliza pelos erros, talvez graves, cometidos numa Pasta que ele ocupa. O Executivo arca com o ônus de fazer a máquina funcionar. O partido, só com os bônus. Pois tem a garantia de que, por pior que seja o nome indicado, só terá de substituí-lo por outro, que lhe conserve cargos e convênios.
Isso enfraquece a presidência da República. O PCdoB, partido que viceja graças ao PT, impôs a Dilma o nome de Aldo Rebelo. É um político capaz. Presidiu a CPI da CGF. Também presidiu a Câmara. Foi um bom ministro. Conseguiu, pertencendo a uma legenda outrora radical, negociar com todo o espectro político - tanto que foi cogitado, no governo Lula, para o ministério da Defesa, sem que isso incomodasse os militares. Não recearam que Aldo mandasse investigar as mortes de seus correligionários na guerrilha do Araguaia. Em suma, mostrou-se hábil, moderado e até conservador.
Tão conservador que seu partido agora ocupa a secretaria de Esporte do prefeito de S. Paulo, aliado de José Serra; tão conservador que foi Aldo Rebelo quem montou a versão pró-ruralista do Código Florestal... Conseguiu que praticamente a Câmara inteira votasse contra os ambientalistas. Quem perdeu na ocasião foram o PV, mas também o PT e a presidente Dilma. (O PSDB votou com os ruralistas, apesar de ter querido namorar Marina Silva no segundo turno presidencial, em 2010). Trazer Aldo para o governo é esquecer tudo isso, o que não condiz com a imagem exigente e severa da chefe de Estado.
Isso torna ainda mais vulnerável o ministério do Meio Ambiente, um dos menos prestigiados pelos governos petistas. Não são poucas as dificuldades que a atual ministra tem enfrentado, embora conte com o apoio dos ambientalistas. A primeira titular petista da Pasta, a Senadora Marina, acabou rompendo com Lula e, em 2010, teve uma votação impressionante. Portanto, se os verdes têm pouca bala na agulha no plano institucional, se agora Marina e o PV se digladiam, se desde a eleição ela e eles foram esquecidos e quando se fala em oposição se pensa apenas na mais tradicional, o PSDB, nem por isso eles carecem de poder de fogo. Podem mobilizar a opinião, nacional e internacional. Um projeto consistente e empolgante para o futuro do Brasil passará, necessariamente, pela questão ambiental. Os ambientalistas, estejam no Meio Ambiente, na Ciência e Tecnologia, em ONGs ou na oposição, desempenharão um papel importante em nosso futuro próximo.
O que fará Aldo Rebelo, no ministério, ao se tornar colega de pessoas que enfrentou, em decidida oposição a nosso futuro? Político capaz, possivelmente será um gentleman com a colega do Meio Ambiente. Evitará confrontá-la no que disser respeito ao Código Florestal, até porque sua missão agora é outra. Mas tudo isso está longe de ser uma boa saída.
Há uma saída que poderia reduzir os danos. Ela é improvável. Mas consistiria em Aldo, por iniciativa própria ou por determinação presidencial, aproveitar o enorme cabedal de simpatias que construiu junto aos ruralistas para convencê-los a recuar, a ceder. Até o momento, quem perdeu foram os ambientalistas. Se o novo ministro agir no plano politico para desfazer parte pelo menos do que ajudou a montar, em termos de descaso com o meio ambiente, pode ser que neutralize vários aspectos negativos que apontei. Mas continuam valendo minhas outras críticas. Dilma premiou a indisciplina, garantiu a um minipartido seu feudo ministerial e não responsabiliza os parlamentares pelos erros de seus indicados. Ela devia ter sido firme. Não foi.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

E se a população mundial encolher? COLUM LYNCH

O Estado de S. Paulo - 31/10/2011

ONU estima que o número de habitantes da Terra se estabilize em 10,1 bilhões na metade do século; previsões não consideram risco de um grande cataclismo ou epidemia


Em algum momento por volta do Halloween, hoje, a Organização das Nações Unidas celebrará o nascimento do 7.º bilionésimo bebê do mundo. Como disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, a líderes mundiais em Nova York, no mês passado, o 7.º bilionésimo bebê provavelmente será pobre e habitará uma terra maltratada pelos estragos de aquecimento global, desertificação e escassez de alimentos.

Caramba! Com esse tipo de retórica apocalíptica, não surpreende que boa parte do foco da mídia tenha sido na tensão de um planeta superlotado onde mais de 79 milhões de pessoas são adicionadas a cada ano à família humana, sobrecarregando cidades já superlotadas, disputando um reservatório de recursos naturais em constante diminuição.

Mas e se a população mundial encolher? Embora a população global tenha triplicado desde a criação da ONU, em 1945, as taxas de fertilidade globais nos últimos cem anos declinaram consistentemente, de um pico de 6 filhos por família na aurora do século 20 a 5 em 1950 e 2,5 hoje.

A ONU calcula que uma taxa de reposição de 2,1 filhos por família será alcançada após 2100. A organização internacional produziu diversos cenários mostrando a população crescendo para quase 10 bilhões ao longo do próximo século - ou mesmo até quase 27 bilhões, se a taxa atual de crescimento populacional persistir (é dispensável dizer que muitos demógrafos consideram insustentável esse desfecho).

O mais provável, segundo estatísticos da ONU, é que a população aumente de forma gradual até 8 bilhões em 2025, 9 bilhões em 2043, atinja 10,1 bilhões na metade do século, e, daí, se estabilize. A chamada projeção de "variação média" supõe que países com taxas de fertilidade elevadas como Níger (7,37 bebês por mulher) e aqueles com taxas de fertilidade baixas, como a Coreia do Sul, onde as mulheres têm uma média de 1,2 filho, acabarão convergindo.

Essa suposição, como a maioria das outras, é apenas uma suposição e não leva em conta eventos cataclísmicos potenciais, como um asteroide colidindo com a terra ou, talvez, um cenário mais plausível em que multidões de pessoas morram por doenças infecciosas. A epidemia de aids desacelerou temporariamente as taxas de crescimento populacional na África, impedindo que o continente africano superasse a população combinada da Europa e das Américas em 2025.

"Demografia não é destino. De certa maneira, o pressuposto mais implausível é a ideia de que o todo o mundo vai começar a ter 2,1 filhos. Não há nenhuma razão para acreditar que isso vai acontecer", disse Matthew Connelly, um professor de história da Universidade Columbia e autor de Fatal Misconception: The Struggle to Control World Population (Equívoco fatal: a luta para controlar a população mundial, em tradução livre do inglês). "Não me surpreenderia se tivermos mais surpresas à frente." Aliás, prever crescimento ou contração de população é, em geral, um jogo de perdedores.

Previsões erradas. Os demógrafos não previram algumas das mudanças demográficas mais importantes do último século, incluindo o primeiro declínio na taxa de fertilidade americana durante a Grande Depressão, o "baby boom" logo depois da 2.ª Guerra e a explosão da migração humana nos anos 1970.

Joel E. Cohen, um pesquisador da Universidade Rockefeller que estuda tendências populacionais, concordou que os demógrafos têm se mostrado fracos em previsões. "Eu vejo as projeções além de 2050 como cenários de "E se...". Não os vejo como declarações do que ocorrerá", disse ele. "Não previmos o "baby boom" e não previmos o "baby bust" (colapso) que se seguiu. Nossa capacidade de prever mesmo para as pessoas que estão vivas é limitada", disse.

Por exemplo, a queda vertiginosa da taxa de fertilidade do Irã, de 6,9 em 1960 para 1,6 hoje, pegou o mundo de surpresa - boa parte da diminuição ocorreu após a Revolução Islâmica. "Ninguém em 1980 poderia ter previsto que a taxa de fertilidade total do Irã estaria hoje muito abaixo da taxa de reposição." Cohen observou também que as previsões tenebrosas de que populações em declínio prejudicarão o crescimento econômico não comportam um confronto com a realidade econômica.

Muitos dos países mais ricos do mundo que têm experimentado declínios nas suas taxas de fertilidade prosperaram, enquanto muitos dos países mais pobres do mundo passam por dificuldades econômicas. "Tome o exemplo de Alemanha e Japão, dois dos países mais prósperos do mundo: eles têm uma população em declínio e, por enquanto, são dínamos econômicos. Não há uma relação necessária entre prosperidade e crescimento populacional." Mesmo no cenário mais provável da ONU, que prevê a população mundial na casa dos 10 bilhões até o fim do século, muitos países se contrairão, exercendo uma enorme pressão sobre seus governos para assegurar o progresso econômico e a estabilidade social - com força de trabalho e mercado em declínio e um suprimento cada vez menor de jovens para cuidar de uma população cada vez mais idosa.

Pelo menos 80 países já caíram abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos, entre os quais Alemanha, Itália, Japão, Rússia, Coreia do Sul e Espanha, onde as taxas de fertilidade caíram para 1,5 filho por mulher, ou menos.

Para refletir a incerteza, a ONU publica também variações sobre sua projeção para a taxa de fertilidade global futura. Dois modelos da entidade supõem que a população se aproximará ou de uma taxa de fertilidade de 2,5 ou de 1,5 - as variantes baixa e alta da ONU -, o que impelirá a população para cima até 15,8 bilhões ou para baixo até 6,2 bilhões, em 2100, a última representando um declínio de cerca de 800 milhões de pessoas em relação à população atual.

Uma população menor poderia aliviar a pressão sobre a natureza, assegurando uma exploração mais sustentável do meio ambiente. Mas o futuro desses Estados minguantes - definidos por uma combinação de uma grande quantidade de idosos aposentados e uma pequena quantidade de jovens trabalhando - poderia ser sombrio, particularmente se eles não conseguirem absorver migrantes jovens.

A Europa (incluindo a Rússia) que atingiu uma pico de população de 731 milhões em 2005, está projetada para ver seu primeiro declínio populacional da história, caindo para 664 milhões na metade do século. Estimativas da ONU projetam que a população da Rússia, hoje em 143 milhões, poderia perder quase 35 milhões, segundo a projeção mais provável - se a taxa de declínio se mantiver. Essa queda incentivou alguns países europeus, incluindo França e Macedônia, a oferecer incentivos econômicos, como dinheiro ou atendimento subsidiado às crianças, para encorajar mães a ter mais filhos.

China e Índia, os dois países mais populosos do mundo, tentaram conter o crescimento demográfico nas últimas quatro décadas com uma série de medidas compulsórias não raramente draconianas - incluindo a política de um filho e programas de esterilização em larga escala na China. Mas o custo tem sido alto em termos humanos, particularmente na China, onde 20% dos meninos nascidos nos anos 90 possivelmente não conseguirão encontrar um par, segundo Connelly.

O descompasso na juventude chinesa provavelmente será seguido por uma população cada vez mais idosa, aumentando a tensão sobre a nova geração chinesa, que terá de amparar os numerosos avós. Em meados do século, 30% da população da China terá mais de 65 anos. E estará em piores condições de saúde que os habitantes do Ocidente, dadas as taxas crescentes de tabagismo e o alto índice de envenenamento por chumbo - e outros males ambientais - entre os chineses.

Connelly suspeita que a população global deixará de crescer em torno da metade deste século. China e Índia podem servir de modelos de como países trabalharão no futuro para controlar o crescimento populacional. "Temo um retorno de medidas mais coercitivas", disse ele.

Os EUA evitaram em grande parte o destino de muitos outros países em desenvolvimento por causa de sua grande população de imigrantes. Apesar de seus benefícios demográficos, a imigração ficou sobre crescente ataque político nos EUA, que anunciaram ter deportado mais de 400 mil estrangeiros no ano passado, mais do que em qualquer outra época da história americana.

Mas será isso realmente algo para Washington alardear? "Não temos um modelo de país com população em declínio que esteja experimentando um crescimento econômico", disse Joseph Chamie, o ex-diretor da Divisão de População da ONU e atual diretor de pesquisa no Center for Migration Studies. Segundo ele, o crescimento econômico mundial dependeu de uma população em expansão desde a Revolução Industrial. Chamie contrastou o destino de duas cidades americanas: Detroit, que sofreu uma queda de população de 25% na última década, caiu de joelhos; Nova York, que teve um aumento de 400 mil pessoas no mesmo período, prosperou.

"Uma população em declínio traz benefícios como um desgaste ambiental menor e menos consumo, mas terá também menos trabalhadores para cada aposentado. Isso pode se tornar um fardo financeiro muito grande para os jovens", disse ele. "Não sabemos exatamente como proceder se a população começar a cair como vimos na Rússia, Japão e outros lugares. Navegamos hoje em águas desconhecidas."/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Eles bebem. Você paga!


REVISTA VEJA

O Tribunal de Contas da União investiga repasses de dinheiro do governo à União Nacional dos Estudantes. Já descobriu que parte dos recursos foi usada irregularmente em festas e na compra de uísque, vodca, cerveja ...


GUSTAVO RIBEIRO

Fundada em1937, a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi protagonista de inúmeros episódios de luta por ideais republicanos. Na década de 40, combateu a influência do fascismo europeu no Brasil. Durante os anos mais trevosos do regime militar, seus principais líderes empunharam armas para reivindicar democracia. Essa gloriosa história pertence ao passado. A moçada agora quer sombra, uísque, gelo e água fresca grátis em troca de servidão automática ao governo. Contestação é coisa de otário. Os líderes da principal entidade estudantil brasileira dissipam sua náusea burguesa com garrafas de vodca, uísque, gelo e caixas de cerveja pagos com nosso dinheiro. Compram tênis e bolsas Puma, Nike ou Adidas, símbolos do "imperialismo", e mandam a conta para os proletários brasileiros que trabalham e pagam impostos.
A atuação pelega da UNE de hoje envergonha seus heróis do passado. Dominada por parasitas do PCdoB desde os primórdios, a entidade perdeu a força, a voz – e o pudor. Desde 2003, recebeu 42 milhões de reais de dinheiro tomado pelo governo dos proletários brasileiros e entregue aos pequeno burgueses que fingem estudar. O Tribunal de Contas da União (TCU) resolveu esmiuçar a aplicação desses recursos e deparou com gravíssimos indícios de irregularidades. Despesas injustificáveis, descritas em notas fiscais suspeitas, amontoam-se nas prestações de contas investigadas. Somente em um convescote da UNE de 2008, apelidado de Caravana Estudantil da Saúde, o TCU suspeita que mais de 500 000 reais tenham sido roubados. Essa foi a quantidade de dinheiro que sobrou depois que todas as despesas previstas foram pagas. A UNE devolveu os recursos? Não. Como todo militante adulto da corrupção, a entidade dos jovens mandou avisar que gastou o dinheiro do povo com "assessorias". "Não tenho conhecimento de irregularidades. Se houver e formos notificados pelo TCU, vamos corrigi-las", diz Daniel Iliescu, presidente da UNE, que assumiu há quatro meses. Notas fiscais analisadas pelo tribunal mostram que a "revolução pela garrafa" é a nova palavra de ordem da UNE. Sob a fachada de promover Atividades de Cultura e Arte da UNE, em 2007, os pequenos-burgueses da UNE beberam caixas e caixas de cerveja, garrafas de uísque escocês e de vodca. Diz o procurador do TCU Marinus Marsico: "É evidente o descaso da UNE com o patrimônio público. Fico estarrecido de ver tanto dinheiro do povo usado sem obediência aos princípios da moralidade". Continuem assim, jovens revolucionários da garrafa, um ministério os espera.

Reação ao aparelhamento
Pela primeira vez em quase cinquenta anos de história, o Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Brasília deixou a órbita dos partidos de esquerda. Na semana passada, os alunos da UnB escolheram como seu representante um grupo sem ligações partidárias, comprometido apenas em melhorar as condições de ensino e não em promover determinada ideologia. A chapa Aliança pela Liberdade venceu as eleições por uma margem de apenas 188 votos, pequena, é verdade, mas que pode estabelecer um paradigma no movimento estudantil oposto ao peleguismo vergonhoso da UNE. Os integrantes do novo DCE iniciam nesta semana seu mandato de um ano, destoando do matiz ideológico predominante no movimento estudantil. A Aliança pela liberdade defende o investimento privado no Campus Universitário como a melhor forma de promover as pesquisas. "Temos de abrir a UnB para o capital privado. Foi graças a ele, afinal, que a Unicamp se tornou um centro de excelência", afirma Pedro Ivo Santana, aluno de engenharia civil e um dos coordenadores da nova direção.
O grupo se elegeu na semana passada ao cabo de uma iniciativa do estudante de direito André Maia. Sem se sentir representado pelos grupos de esquerda que se alternavam no poder da universidade desde a sua criação, ele decidiu convocar os amigos. "Não queremos discutir questões como o conflito árabe-israelense. Nossa preocupação são temas de ordem prática que terão efeito positivo na qualidade do nosso ensino", explica Maia. A vitória é creditada ao pragmatismo das propostas e ao caráter apartidário da chapa. Hoje, nenhum dos sessenta membros do movimento tem ligação formal com legendas políticas. Integrantes da Aliança que decidirem se filiar a partidos perderão automaticamente postos de direção no DCE. A reitoria petista da UnB fez questão de registrar seu espanto com a nova realidade. Em seu portal oficial, publicou uma reportagem classificando a chapa vitoriosa de "despolitizada" e, sob o covarde manto do anonimato, diz que houve "perda de representatividade dos alunos". É sempre assim com certa esquerda. A democracia e o voto só são bons quando a favorecem. Para o historiador da Universidade Federal de São Carlos Marco Antonio Villa, a alternância de poder na direção dos estudantes da UnB é, em si, um fato positivo: "Esse episódio sinaliza o cansaço com as velhas lideranças e pode ser o início de representações estudantis que se preocupem realmente com as necessidades concretas das universidades – e não com a formação de quadros partidários". Quem sabe, finalmente, a UnB chegue ao século XXI.

Além da Indignação Carta ao leitor


REVISTA VEJA

Entre os milhares de comentários indignados nas redes sociais suscitados pelas reportagens de VEJA sobre a corrupção, reproduzimos aqui duas mensagens de leitores que podem ser interpretadas como um diálogo entre brasileiros honestos e preocupados com o descalabro e o alcance da institucionalização da bandalheira oficial nos três níveis de governo do país. ""Tá bom. Estou indignado”, afirmou o leitor Hélcio Murad, de Santa Rita do Sapucaí, cidade do sul de Minas Gerais, para em seguida perguntar: "E daí? Vai acontecer algo?". “Levanta, Brasil! Precisamos gritar: basta de corrupção! Menos imposto e mais gestão!", respondeu Luiz Antônio Jardim, de Maceió, capital do estado de Alagoas.
Os brasileiros sabem ser parcimoniosos na administração da economia doméstica e fazem mais com menos recursos sempre que as circunstâncias assim o exigem. Isso toma ainda mais difícil entender as razões da, até aqui, bovina aceitação, da prevalência da trapaça, do parasitismo e da roubalheira nos recônditos do mundo oficial. Essa é a perplexidade do leitor Hélcio Murad. Já a receita de Luiz Antônio Jardim é esta: exigir dos governantes que sejam econômicos na cobrança dos impostos e austeros nas decisões de gasto do dinheiro público, pois isso é condição fundamental para que o Brasil possa começar a efetivamente vencer a corrupção.

Mas como?
A imprensa brasileira vem exercendo o papel que se espera dela como um dos pilares das sociedades abertas. As reportagens investigativas têm um evidente poder detergente, mas a imprensa apresenta limitações óbvias. As revistas e os jornais, por mais combativos e vigilantes que sejam, não podem – nem devem – substituir as instituições, tampouco liderar movimentos ou exercer a oposição política ao governo.
A entrada de novos agentes em cena na luta pela diminuição da bandalheira é o próximo e mais urgente passo que o Brasil precisa dar. No passado recente do país, soluções vieram do engajamento permanente nas boas causas da sociedade civil, das celebridades, da classe artística e de cidadãos notáveis. Essas pessoas precisam dar as caras nas ruas e fazer da luta contra a corrupção uma campanha cívica acima das ideologias e preferências partidárias.

Não confesso que vivi LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 31/10/11
Não quero confessar nada.

Sei que é uma postura quase belicosa.

Meu estado civil? Marque "nenhuma das respostas acima".

A saga dos meus avós imigrantes? Não revelo nem o país de origem.

A luta de meus pais para criar não-me-pergunte quantos filhos? Lutar para criar filhos não passa de um pleonasmo.

Quantos filhos trouxe ao mundo? Escorreguei há alguns anos e dei um depoimento sobre a maternidade, mas não está googleável.

Meus passatempos favoritos? Tricô e bingo (só para despistar).

O trauma de infância provocado pelo bully na hora do recreio? Dá um tempo.

Minha estratégia para vencer o preconceito contra a mulher na editoria de polícia? Rá, rá, nem trabalhei numa.

Minha redenção pela psicanálise freudiana? Vão associar livremente lá na esquina.

O leitor deve ter notado uma indisposição nesta coluna. Não se trata de azia ou má digestão. Tampouco é uma virose. É um achaque, sim, mas não consta da literatura dos diagnósticos.

Como definir a ânsia de trocar de canal, baixar o volume ou virar a página quando sinto o tsunami de mais uma copiosa confissão invadindo a praia dos meus sentidos?

Ontem à noite, por exemplo, sentei para assimilar minha dose diária de massacres na Síria, fome na Somália e cenas americanas que, se fossem exibidas num tom sépia, caberiam perfeitamente num cinejornal da Grande Depressão dos anos 30. Pois não é que interrompem o ciclo de notícias com o novo livro de memórias de um respeitado ex-editor de revista? Ele decidiu que estava na hora de nos infligir seu "triunfo sobre a adversidade". O bem-sucedido profissional, que sempre projetou autoconfiança com seus ternos impecáveis e frases bem passadas, revela ser filho de um negro e uma branca. Alerta para conflito! Seus pais se divorciaram. Trauma à vista! A família guardou vários segredos. Como ele pode confiar em alguém pelo resto da vida?

Longe de mim arbitrar sobre a relevância de experiências dolorosas. Mas estamos vivendo um tempo em que o umbiguismo é estimulado de tal forma que é difícil não ficarmos anestesiados com tanta concorrência pela empatia. Não sei de onde vem a ideia de que toda experiência pessoal merece ser compartilhada e alçada a literatura, como se fosse o excepcional O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion. Aliás, a própria escritora, que acaba de lançar outro volume de memórias, Blue Nights, deu esta iluminada declaração a uma revista nova-iorquina: "Antes eu tinha medo de morrer. Agora, tenho medo de não morrer".

Há um novo gênero de narrativa na primeira pessoa que hesito em chamar de memórias. O mais apropriado é chamar o gênero de "subi na vida o bastante para revelar o que me der na telha". Num momento em que a indústria do livro de papel dá sinais de pânico com o avanço do livro eletrônico, como justificar a quantidade de árvores derrubadas para imprimir tanta confissão?

Pouco antes de passar adiante seu cargo de editor-chefe do melhor e mais influente jornal da língua inglesa, Bill Keller escreveu uma coluna, em julho passado, sob o título Vamos Banir Todos os Livros, Ou ao Menos Parar de Escrevê-los. Keller não havia se transformado num Torquemada, nem pediu a queima de livros. No comando do New York Times, ele constatou o óbvio: o número impressionante de jornalistas que entravam em sua sala e pediam uma licença para escrever um livro. Ele contou, perplexo: "Dois editores estão escrevendo livros sobre seus cachorros. Ao mesmo tempo!"

A frase continha uma alfinetada em sua sucessora. A nova editora-chefe do Times, Jill Abramson, assumiu o cargo em setembro e em poucas semanas lançou seu volume, intitulado The Puppy Diaries (Os Diários do Filhote). Ahhhhh, que gracinha, eu me derreti só de ver a foto do cachorrinho Miles, hoje um adulto obediente. Alguém acredita que, quando estava lutando para ser aceita no mundo então predominantemente masculino dos cargos de chefia em jornais, quando, ainda mais jovem, era repórter do competitivo Wall Street Journal, Ms. Abramson ia querer ser conhecida por seu cachorrinho? Não importa a qualidade de seu texto ou as qualidades de Miles, para que dirigir a atenção do público para sua vida privada? E como explicar que o Times tenha publicado não uma, mas duas resenhas de sua nova obra?

Esta erosão da compostura, esta aceitação da bobeira como uma autoindulgência dos bem-sucedidos é descrita com maestria por Lee Siegel em seu excelente Are You Serious? (Você Fala Sério?). Mais Lee Siegel e menos memórias de cachorrinhos!

Juventude sequestrada CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O Estado de S. Paulo - 31/10/2011

O crescimento dos casos de aids, o aumento da violência e a escalada das drogas castigam a juventude na velha Europa. A crise econômica, dramática e visível a olho nu, exacerba o clima de desesperança. Para muitos jovens os anos da adolescência serão os mais perigosos da vida deles.

Desemprego, gravidez precoce, aborto, doenças sexualmente transmissíveis, aids e drogas compõem a trágica equação que ameaça destruir o sonho juvenil e escancarar as portas para uma explosão de violência. A juventude não foi preparada para a adversidade. E a delinquência é, frequentemente, a manifestação visível da frustração.

A situação é reflexo de uma cachoeira de equívocos e de uma montanha de omissões. O novo perfil da delinquência é o resultado acabado da crise da família, da educação permissiva e do bombardeio de setores do mundo do entretenimento que se empenham em apagar qualquer vestígio de valores.

Tudo isso, obviamente, agravado e exacerbado pela crise econômica e pela ausência de expectativas.

Os pais da geração transgressora têm grande parte da culpa. Choram os desvios que cresceram no terreno fertilizado pela omissão. O delito não é apenas reflexo da falência da autoridade familiar. É, muitas vezes, um grito de revolta e carência. A pobreza material agride o corpo, mas a falta de amor castiga a alma. Os adolescentes necessitam de pais morais, e não de pais materiais.

Reféns da cultura da autorrealização, alguns pais não suportam ser incomodados pelas necessidades dos filhos. O vazio afetivo - imaginam, na insanidade do seu egoísmo - pode ser preenchido com carros, boas mesadas e um celular para casos de emergência. Acuados pela desenvoltura antissocial dos seus filhos, recorrem ao salva-vidas da psicoterapia. E é aí que a coisa pode complicar. Como dizia Otto Lara Rezende, com ironia e certa dose de injusta generalização, "a psicanálise é a maneira mais rápida e objetiva de ensinar a odiar o pai, a mãe e os melhores amigos". Na verdade, a demissão do exercício da paternidade está na raiz do problema.

Se a crescente falange de adolescentes criminosos deixa algo claro, é o fato de que cada vez mais pais não conhecem os próprios filhos. Não é difícil imaginar em que ambiente afetivo se desenvolvem os integrantes das gangues juvenis. As análises dos especialistas em políticas públicas esgrimem inúmeros argumentos politicamente corretos. Fala-se de tudo, menos da crise da família. Mas o nó está aí. Se não tivermos a firmeza de desatá-lo, assistiremos, acovardados e paralisados, a uma espiral de violência sem precedentes. É uma questão de tempo. Infelizmente.

Certas teorias no campo da educação, cultivadas em escolas que fizeram uma opção preferencial pela permissividade, também estão apresentando um amargo resultado. Uma legião de desajustados, que cresceu à sombra do dogma da educação não traumatizante, está mostrando a sua face criminosa.

Ao traçar o perfil de alguns desvios da sociedade norte-americana, o sociólogo Christopher Lasch - autor do livro A Rebelião das Elites - sublinha as dramáticas consequências que estão ocultas sob a aparência da tolerância: "Gastamos a maior parte da nossa energia no combate à vergonha e à culpa, pretendendo que as pessoas se sentissem bem consigo mesmas".

O saldo é uma geração desorientada e vazia. A despersonalização da culpa e a certeza da impunidade têm gerado uma onda de superpredadores.

O inchaço do ego e o emagrecimento da solidariedade estão na origem de inúmeras patologias. A forja do caráter, compatível com o clima de verdadeira liberdade, começa a ganhar contornos de solução válida. Pena que tenhamos de pagar um preço tão alto para redescobrir o óbvio.

O pragmatismo e a irresponsabilidade de alguns setores do mundo do entretenimento estão na outra ponta do problema. A era do mundo do espetáculo, rigorosamente medida pelas oscilações do Ibope, tem na violência uma de suas alavancas. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. A valorização do sucesso sem limites éticos, a apresentação de desvios comportamentais num clima de normalidade e a consagração da impunidade têm colaborado para o aparecimento de mauricinhos do crime. Apoiados numa manipulação do conceito de liberdade artística e de expressão, alguns programas de TV crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência perniciosa da violência ficcional, levam adolescentes ao delírio em shows de auditório que promovem uma grotesca sucessão de quadros desumanizadores e humilhantes. A guerra pela conquista de mercados passa por cima de quaisquer balizas éticas. Nos Estados Unidos, por exemplo, o marketing do entretenimento com conteúdo violento está apontando as baterias na direção do público infantil.

A onipresença de uma televisão pouco responsável e a transformação da internet num descontrolado espaço para a manifestação de atividades criminosas (a pedofilia, o racismo e a oferta de drogas, frequentemente presentes na clandestinidade de alguns sites, desconhecem fronteiras, ironizam legislações e ameaçam o Estado Democrático de Direito) estão na origem de inúmeros comportamentos patológicos.

É preciso ir às causas profundas da delinquência. Ou encaramos tudo isso com coragem ou seremos tragados por uma onda de violência jamais vista. O resultado final da pedagogia da concessão, da desestruturação familiar e da crise da autoridade está apresentando consequências dramáticas na Europa. Escarmentemos em cabeça alheia. Chegou para todos a hora de falar claro. É preciso pôr o dedo na chaga e identificar a relação que existe entre o medo de punir e os seus efeitos antissociais.

Lula, Dilma e o câncer JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S. Paulo - 31/10/2011
O câncer tem 10% de chances contra Luiz Inácio da Silva, mas 0% contra Lula. Do ponto de vista da opinião pública, a doença tende a reforçar o mito, como o tiro no peito transformou Getúlio Vargas de suspeito em herói - com todas as simplificações que isso implica. Nunca é bom subestimar a empatia do brasileiro por quem está perdendo, mas demonstra garra para virar o jogo.

Lula intui isso ao dar transparência total à doença desde o diagnóstico. O jornal The New York Times comparou-o ao mistério com que Hugo Chávez tratou o próprio câncer no início. Mas o presidente da Venezuela ganhou popularidade desde que o tratamento o fez raspar os cabelos e tornou a doença de conhecimento público. Certamente não foi a nova aparência que fez Chávez somar pontos no eleitorado.

Nesse cenário de mitificação renovada, quais as consequências da doença de Luiz Inácio para Dilma Rousseff e para o jogo político-eleitoral? Para ensaiar uma resposta, só fazendo suposições. Mas convém calçá-las em fatos.

Como o gráfico que ilustra este texto mostra, o crescimento do consumo de massa esteve intimamente ligado à disparada de popularidade de Lula. As curvas que representam a confiança do consumidor (em cinza, medida pelo Inec da CNI) e o saldo de aprovação presidencial (em preto, medido pelo Ibope) correram paralelas, num trajeto cheio de altos e baixos, mas com coeficiente de correlação de 0,83 - num máximo de 1,0.

É uma correlação muito forte. Significa que se um dos indicadores sobe ou cai, o outro tem enormes chances de acompanhá-lo. Foi assim ao longo de todo o governo Fernando Henrique Cardoso e no primeiro mandato de Lula. Mas a partir da segunda metade do segundo mandato, a popularidade de Lula e a confiança do consumidor, embora mantivessem o mesmo rumo ladeira acima, se descolaram. A aprovação ganhou uma camada extra de cobertura.

Mitificação. Há vários nomes para esse exagero de doçura com que o eleitor avaliou o ex-presidente no último período de seu governo, um deles é mitificação: apesar dos ditos e feitos, nada de ruim cola na imagem presidencial. Foi nesse clima que Lula elegeu Dilma.

O gráfico mostra, porém, que terminado o mandato de Lula, a fase mitológica acabou. As curvas de aprovação presidencial e a confiança do consumidor voltaram a convergir durante o governo Dilma - para um patamar muito parecido com o que Lula iniciou seu segundo mandato, antes de começar a virar mito.

Nada indica, por ora, que Dilma repetirá a façanha do antecessor. Além das doses incomparáveis de carisma pessoal, o ex-presidente vinha em ascensão, de melhoria da sua avaliação em relação ao mandato anterior. Com Dilma ocorre o oposto: apesar da alta aprovação, ela perde na maioria da população quando comparada a Lula.

A popularidade de Dilma depende, antes de mais nada, de ela conseguir equilibrar as variáveis econômicas para manter a expectativa de consumo em alta. Mas uma coisa ela não pode fazer, sob risco de ficar em impedimento na opinião pública: dar a impressão de trair seu criador. Especialmente agora. Vai se desdobrar para demonstrar o oposto.

Talvez Lula fale menos por causa da doença, mas também por causa da doença o que ele falar contará mais. As atenções vão voltar, pelo menos enquanto ele estiver em tratamento. Nesse período, em vez de perder, o ex-presidente ganha espaço. E Lula sabe transformar espaço em poder. No máximo, vai ficar de mau humor por não poder beber nem fumar.

Se prevalecerem os 10%, e o câncer ganhar, todas as apostas estão zeradas. Como Getúlio, Lula tem sucessor administrativo mas não político. Sua saída prematura de cena abriria um novo capítulo na história.

Subsídio secular EDITORIAL FOLHA DE SP

- 31/10/11

Prorrogar isenções da Zona Franca de Manaus até 2050 só atende a políticos locais e a empresários acostumados com os favores estatais

O melhor destino da Zona Franca de Manaus seria o seu fim. É desejável que a economia do Amazonas possa caminhar com as suas próprias pernas, independente do artifício custoso e ineficaz das isenções de impostos. Sem tais subsídios, as indústrias se distribuiriam em regiões mais próximas dos centros de consumo, com melhor infraestrutura e mão de obra.

Tão evidente como esse imperativo teórico é o fato de que será impossível, ainda por muitos anos, desmontar tal arranjo sem provocar um imediato desastre humano e ambiental na região, pois a economia local praticamente sobrevive à base de incentivos estatais.

Mas prorrogar a existência da Zona Franca de Manaus (ZFM) até 2050, como quer a presidente da República, cria um incentivo para que se procrastinem outra vez mais as mudanças necessárias à autonomia econômica da região.

A ZFM foi criada em 1957, mas se tornou viável com as isenções fiscais de 1967, que deveriam durar 30 anos. Sua sobrevida foi decretada em 1986 (para 2007), incluída na Carta em 1998 e de novo em 2003 (para 2013).

Houve alguma melhora no projeto inicial, decerto. Passou-se a exigir grau mínimo de nacionalização de mercadorias, a criação de cadeias produtivas locais e o investimento em pesquisa. Nos governos FHC e Lula, buscou-se o desenvolvimento de centros de pesquisa e de formação técnica voltados a uma possível vocação regional, a indústria biotecnológica.

Mas são muito insatisfatórios os resultados desses esforços de décadas, que podem durar um século, até 2050, agora com o apoio de Dilma Rousseff, que subscreveu projeto de emenda constitucional com esse fim. Mesmo com todos os incentivos e políticas industriais, a ZFM exporta apenas 3% do seu faturamento -não é, portanto, competitiva.

Dados fatores como câmbio, recessão mundial e disputas com outros Estados, o deficit comercial externo do Amazonas cresce velozmente. Dos cerca de US$ 2,5 bilhões da primeira metade da década de 2000, foi a US$ 9,9 bilhões em 2010 e deve passar de US$ 11 bilhões neste ano.

É preciso estabelecer metas de melhorias e prazos mais curtos para a vigência dos subsídios, além de um plano de apoio ao desenvolvimento local. A região de Manaus padece da carência de vias de transporte, de fornecimento precário (e aliás subsidiado) de energia, segurança e saneamento.

Os avanços da região deveriam ser medidos, no máximo, aos quinquênios. Prorrogar simplesmente a Zona Franca de Manaus até 2050 não passa de um favor aos políticos locais e aos empresários que se beneficiam das benesses tributárias.

Deixem Aldo em paz RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 31/10/11
Difícil dizer qual foi o momento de mais brilhante cinismo que marcou a entrevista coletiva concedida na última sexta-feira por Renato Rabelo, presidente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Terá sido aquele onde ele garantiu que Aldo Rebelo, seu correligionário e novo ministro do Esporte, escolherá livremente com quem irá trabalhar?

Ou terá sido o momento seguinte, quando Renato citou Nádia Campeão, ex-secretária de Esporte de São Paulo e ex-presidente do PCdoB no estado? Renato admitiu que Nádia está cotada para a secretaria executiva do Ministério do Esporte, embora não seja uma indicação do partido . Como é mesmo, Renato? Repita! Em 2002, ao se eleger presidente da República e decidir que o Esporte caberia ao PCdoB, Lula pediu ao partido que sugerisse o nome do ministro.

Por partido entendase Renato. Ninguém ali o contesta. Renato tentou emplacar Nádia Campeão. Lula preferiu Agnelo Queiroz, deputado federal pelo PCdoB de Brasília.

Então Renato empurrou goela abaixo de Agnelo os nomes de Orlando Silva para secretário nacional de Esporte, e de Ricardo Leyser Gonçalves para secretário nacional de Esporte de Alto Rendimento. Foi o primeiro emprego da vida de Orlando, que pelo PCdoB presidira a União Nacional dos Estudantes entre 1995 e 1997.

Orlando e Ricardo serviram ao partido no ministério como uma espécie de tutores de Agnelo. Vigiavam seus passos. E confrontavam atos que poderiam desagradar ao partido. Em certa ocasião, Agnelo aceitou convite para assistir no exterior a uma competição de natação. O autor do convite era um dirigente esportivo do Rio.

Os tutores de Agnelo se opuseram.

Alegaram que a aceitação do convite fortaleceria seu autor, empenhado em que o Rio sediasse os Jogos Pan-Americanos de 2007. E, para o PCdoB, o melhor seria que o Pan fosse disputado em São Paulo. Ali o partido concentra seus maiores interesses. O ministro viajou mesmo assim.

Os dois viviam no gabinete de Agnelo. Não se anunciavam antes de entrar, simplesmente giravam a maçaneta da porta e entravam.

Uma vez, irritado, Agnelo foi visto saindo do seu gabinete com as mãos na cabeça para desabar diante de secretárias perplexas: Tirem esses dois da minha sala. Não aguento mais . Vexame! O posto de Orlando só lhe dava direito a dispor de carro oficial para se deslocar dentro da Esplanada dos Ministérios.

Pois ele visitava a namorada que morava na Asa Norte dizendo que usara o carro em viagem ao Setor Hospitalar Norte. Para ir ao aeroporto, anotava que usara o carro em viagem ao Setor de Carga. Há um dossiê a esse respeito.

Apontado como o homemforte dos Jogos Pan-Americanos, Ricardo acabou condenado pelo Tribunal de Contas da União a devolver aos cofres públicos mais de R$ 18 milhões. Foi acusado de superfaturamento e de pagamentos indevidos. Nem por isso deixou o ministério.

Mais do que Dilma, Lula tolerava desvios de conduta.

Quem deixou o ministério foi Agnelo, candidato ao governo do Distrito Federal e depois ao Senado. O PCdoB abandonou-o. Agnelo quis voltar a ser ministro no segundo governo de Lula o partido preferiu Orlando.

Mas escalou o advogado Ronald Freitas, um dos sete membros do seu secretariado, para monitorar o novo ministro.

Agora, quem haverá de controlar de perto ou à distância o desempenho de Aldo Rebelo? Dele se diz e com razão que é um político experiente e respeitado por seus pares.

Foi presidente da Câmara dos Deputados e ministro de Relações Institucionais de Lula. Até a oposição (leia-se: Aécio Neves e José Serra, ambos do PSDB) gosta dele.

Seria razoável que o PCdoB o deixasse em paz. Aldo é tido como um quadro disciplinado.

No ano passado, pediu socorro à direção quando temeu não se reeleger devido à quantidade de dinheiro gasto para eleger o deputado Gustavo Petta, cunhado de Orlando. O partido espera que ele retribua a ajuda que recebeu. Força Lula

domingo, outubro 30, 2011

Do acaso à necessidade FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 30/10/11
Vivo descobrindo coisas sem importância, mas que me instigam e me fazem refletir. Claro que não estou me referindo ao aroma de jasmim, que me atordoou, certa noite, quando saía do prédio onde mora Cláudia. Aquilo pertence à categoria dos espantos, donde, no meu caso, nascem os poemas. Mas é raro de acontecer.

Fora esses espantos, há descobertas menores, menos espantosas, que não geram poemas, mas de qualquer modo provocam certo barato. Nascem como pequenos sinais. No início sem importância, mas que deixam um rastro, um vinco, que mal percebo; depois, outra sensação diferente, um curto-circuito mínimo, um choque e já então me dou conta de que alguma coisa está se revelando.

E assim foi que, de repente, percebi que o poema, na verdade, quer nascer sem ter começo. Como assim? Se quer nascer sem ter começo, quer então ser uma espécie de revelação, algo mágico ou místico? Não, místico não, que eu de místico não tenho nada. Revelação pode ser, porque não implica milagre.

Ocorre que essa percepção, de fazer um poema sem começo, surgiu, na verdade e confusamente, de outra descoberta: da quantidade de acaso que entra na realização de toda e qualquer obra de arte.

Essa descoberta já aparece como tema de alguns poemas de meu último livro ("Em Alguma Parte Alguma"), como na série que começa com o poema "Desordem" e prossegue com "Adendo ao Poema Desordem" e "Novo Adendo ao Poema Desordem".

Nesses poemas, está implícito, além do fator acaso, o fato de que a linguagem verbal não expressa plenamente a realidade, uma vez que, por ser um sistema, sua ordem não é a mesma que a ordem do mundo real, fora dela. Daí o poema "Fica o Não Dito por Dito", que abre o livro. Ou seja, como a linguagem só diz o que ela diz, não diz tudo, portanto. Por isso, porque não diz tudo, faço de conta que diz: fica o não dito por dito.

Além de o poema não dizer tudo o que o poeta deseja dizer, não sabe, ao começá-lo, o que vai dizer, porque, para sabê-lo, seria necessário que o poema já estivesse escrito. Assim, tudo o que há, então, é o desejo de dizer algo que o poeta não sabe o que será: está diante de uma página em branco e, portanto, aberto a todas as probabilidades.

Mas, ao escrever a primeira palavra, a probabilidade, que era quase infinita, diminui, porque essa primeira palavra já condicionará a seguinte, tornando-a, por assim dizer, necessária. E assim, palavra a palavra, o poema vai nascendo, num jogo de acaso e necessidade. Num jogo em que, à medida que o poema se constrói, haverá menos acaso, porque cada nova palavra ou verso, que a ele se acrescenta, é determinado pelo que já está escrito e ganhou sentido: o poeta já sabe, agora, o que quer dizer e, por isso, só entra nele o que for necessário.

Escrever, portanto, é vencer o acaso, tornar o fortuito necessário. Isso significa que o que não existia, que era apenas a aspiração de inventar do poeta, torna-se necessário ao poema e à nossa vida.

Qualquer poema que existe poderia não ter sido escrito, mas, uma vez escrito, pode tornar-se necessário por enriquecer-nos. Daí ter eu afirmado, certa vez, que a arte existe porque a vida não basta. E não basta porque tem de ser inventada.

E só então entendi porque, ao inventar de escrever o "Poema Sujo", queria, antes, vomitar toda a vida vivida, criando assim um magma de onde extrairia o poema. Era um modo de começá-lo sem começá-lo: ele já estaria todo ali, no que foi vomitado. Sucedeu que o vômito não saiu e, assim, tive de lançar mão de outro recurso, escrevendo estes versos que não se referem a nada precisamente: "Turvo, turvo / a turva mão do sopro contra o muro / Escuro / menos menos / menos que escuro...". O poema só começa - suponho eu - bem adiante, quando escrevo: "Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas...".

Assim como só então entendi que não queria "começar" o poema, só agora também percebi que ele acabou antes que eu decidisse. De repente, após meses ligadão nele, cessou o impulso e eu não sabia como seguir em frente. O final do poema foi inventado por mim, conscientemente, fora do barato em que o compunha, porque teria de dar-lhe um fecho. De modo que é assim: o poema, de fato, não tem começo nem fim.

Na crise, a indústria global se movimenta JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS


O ESTADÃO - 30/10/11
A última reunião do Fundo Monetário Internacional, no fim de setembro em Washington, foi marcada por um extremo pessimismo quanto à evolução e perspectivas da crise mundial. Desde então o pessimismo recuou em alguma medida, com dados melhores nos EUA e na China. Na Europa, as decisões tomadas avançam no encaminhamento na questão do euro, embora estejamos longe da solução definitiva. Acho que os pessimistas terão de esperar um pouco mais para testar suas hipóteses.
Na crise, a indústria global está se movimentando. Podem-se observar pelo menos dois conjuntos de transformações: a aceleração de mudanças tecnológicas e certa revisão e realocação nas cadeias de produção.
Não será a primeira vez que uma crise induz e consolida inovações, ameaçando modelos estabelecidos de produção e de negócios, ao mesmo tempo em que se abrem inúmeras oportunidades. Não tenho a pretensão de realizar qualquer tipo de análise abrangente, mas diria que os avanços mais importantes estão ligados a área de energia e materiais, sustentabilidade, tecnologia da informação, mobilidade e redes, além da redobrada busca de eficiência produtiva.
Na área de energia, a grande novidade é a decisão de avançar em fontes renováveis, especialmente nos biocombustíveis de segunda geração (que estão muito próximos de se tornarem comerciais, como o diesel proveniente do caldo da cana), a energia solar e a energia eólica. A crise internacional vai atrasar um pouco a ampliação dos dois últimos programas porque subsídios ao investimento e a produção serão em partes reduzidos. Entretanto, em regiões como o Vale do Silício e outras, o número de empresas trabalhando nas melhorias de custos sugere que as novas fontes estão mais próximas de se tornarem competitivas. A segunda frente na questão da energia está na conservação, especialmente por meio das lâmpadas LEDs e de computadores e máquinas mais eficientes no consumo de energia. Finalmente, na área de combustíveis fósseis tradicionais a forte inovação tecnológica permite a produção de petróleo em águas ultra profundas e o gás natural de rocha ("shale gas"), que está produzindo uma revolução na oferta americana e uma queda no preço de mercado.
Os avanços na biotecnologia e na nanotecnologia são em parte responsáveis pela produção de novos materiais, como solventes, plásticos degradáveis e outros. Materiais compostos (plásticos reforçados com fibra de carbono) e cerâmicos serão utilizados crescentemente na indústria aeronáutica.
Na área da tecnologia de informação os enormes avanços na mobilidade (telefones, tablets e outros aparelhos pequenos, mas poderosos, bem como seus respectivos softwares), nas redes sociais e na computação em nuvem (definida com a possibilidade de colocar em um grande centro de computação programas e arquivos de qualquer porte, e acessá-los de qualquer lugar que se esteja) estão produzindo uma revolução ainda em sua fase inicial. Apenas imaginamos suas consequências, mas certamente a operação de empresas industriais está sendo afetada.
Nesta área a possibilidade de construção de redes inteligentes afetará a vida nas cidades e os modelos de produção e distribuição de diversos segmentos. Um exemplo que começa a se expandir são as redes inteligentes de distribuição de energia elétrica que permitem que unidades possuidoras de painéis solares possam ser não apenas consumidores de energia, mas também vendedores dela em certos momentos.
Ao lado da mudança tecnológica, existe certa revisão e realocação nas cadeias industriais. Nas cadeias de suprimentos ("procurement"), a busca frenética por redução de custos levou muitas companhias a operarem com estoques mínimos e a dependerem de uma única fonte de suprimento. Entretanto, dois grandes casos tiveram um forte impacto e estão levando a certa revisão nessa estratégia. Falo aqui das terras raras e dos impactos dos acidentes ocorridos no Japão em março.
Existe uma enorme dependência da exportação de terras raras da China. O que assustou a indústria foi o fato que o governo chinês suspendeu por vários meses as licenças de exportação, obrigando as indústrias consumidoras a se utilizar de seus estoques, que naturalmente se reduziram. As terras raras são um conjunto de minérios (lantânio, cério, praseodímio, gadolínio, térbio, promécio, etc) de baixo consumo em volume, mas absolutamente insubstituíveis na produção de super ímãs, fabricação de componentes de motores de avião, memórias de computador, CDs e TVs em cores. No limite, um bloqueio do comércio destes produtos pararia uma boa parte do parque industrial global mais moderno. Como consequência, muitos países e empresas passaram a estudar a possibilidade de produção de alguns destes minérios, como, por exemplo, a Vale.
O triplo desastre no Japão em março revelou uma enorme dependência da indústria, especialmente a automotiva, de certos pequenos chips (indispensáveis ao funcionamento dos veículos modernos) de plantas localizadas no Japão. Com isso, a cadeia internacional de suprimentos foi seriamente afetada, por um período. Apenas como exemplo a produção automotiva americana caiu pesadamente em maio, sendo um dos elementos contribuintes para a perda de crescimento do PIB daquele país no primeiro semestre deste ano. No Brasil, a falta de suprimentos levou a Honda a demitir metade do corpo funcional e reduzir a produção. Duas consequências ocorreram: 1) muitas indústrias revisaram seus procedimentos elevando estoques de certos insumos para pelo menos três meses de consumo na produção; 2) muitas empresas japonesas voltaram a investir em plantas em outros países como um seguro para evitar uma repetição destes eventos.
A incessante busca por eficiência produtiva está levando muitas indústrias a intensificar o uso de robôs, apesar do desemprego em elevação no mundo. O caso mais estonteante é o anúncio da Foxconn de que vai introduzir o uso de um milhão de robôs em suas fábricas nos próximos anos. No Brasil está se generalizando o uso de robôs em certas áreas das fábricas, especialmente na soldagem. Restrições de caráter ambiental e de proteção à saúde do trabalhador também estão na base desta mudança.
Finalmente, o fato mais notável é que a vantagem de custo da China está se reduzindo tendo em vista a brusca elevação dos custos de mão de obra, que continuarão a ocorrer. Em resposta a isso, vemos três movimentos ocorrendo: 1) a interiorização da produção, onde os menores custos de mão de obra são compensados pela pior infraestrutura; 2) crescimento da produção em países vizinhos, como o Vietnã, Camboja, Filipinas e outros; 3) a recuperação de competitividade em outros lugares, como o México.
Nessa área, o caso mais impressionante é a recuperação da indústria americana, que está se acelerando. Estudo recente do Boston Consulting Group (Made in America, Again- agosto de 2011) mostra que daqui a cinco anos será mais barato produzir certos itens (como autopeças) nos EUA do que importar da China. Além da elevação de salários no país asiático, o dólar fraco, a maior produtividade americana e outros fatores, vão eliminar quase toda a diferença de custos existente até aqui. Na verdade, já hoje é visível o renascimento da indústria americana. Muitas empresas, inclusive brasileiras, já investem lá em plantas industriais.
Acho desolador ver que, enquanto todos estes movimentos acontecem, a agenda industrial brasileira é dominada pelo foco no câmbio, no protecionismo e na extração de outras benesses governamentais, enquanto nossa produtividade não se move e a competitividade do País recua sem parar (é só olhar o Doing Business 2012, do Banco Mundial).

Arquivo do blog