Entrevista:O Estado inteligente
Lados da moeda MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 08/10/11
A desvalorização do real ajuda a indústria a exportar, mas encarece a importação de matérias-primas, componentes e bens de capital da própria indústria. Torna mais caros ao consumidor produtos de consumo diário, como pão francês, café e carne. Empresas que pegaram empréstimo em dólar viram a dívida disparar em um mês. Hospitais terão mais dificuldade de comprar equipamentos de ponta.
A visão binária que às vezes aparece em declarações de autoridades e líderes empresariais - como a de que se o dólar subir é bom para a indústria e o emprego; se cair, é ruim - é simplória. Há outros problemas que precisam ser enfrentados, como impostos altos, infraestrutura deficiente, mão de obra pouco qualificada, pouco investimento das empresas em inovação.
Culpar o câmbio é mais fácil do que lidar com problemas crônicos. A moeda americana subiu 18% em setembro, caiu 5,1% este mês, mas o que a indústria viu mesmo aumentar foram custos e dívidas. Durante o período do real forte, as empresas se acostumaram a importar equipamentos e insumos baratos e tomaram empréstimos em dólares. Pelos cálculos da Economática - já divulgados nesta coluna - a dívida subiu pelo menos R$ 15 bilhões no terceiro trimestre entre companhias que possuem capital aberto e divulgam balanços.
José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), calcula que o dólar teria de ir R$ 2,20 para compensar o alto custo de se produzir no Brasil. "Na faixa de R$ 2,00, a moeda beneficia cerca de 70% dos exportadores. A R$ 1,80, beneficia no máximo 30%. Os custos em reais têm subido internamente, esse é o grande problemas de setores como calçados e confecções, então a ajuda no câmbio precisa ser muito forte para compensar isso", disse Castro.
O problema é se o câmbio deve "compensar" tudo. Nem mesmo em outros momentos de desvalorização mais intensa a indústria exportadora reagiu de forma rápida. Em 2001, por exemplo, o dólar começou valendo R$ 1,94, passou a maior parte do ano acima de R$ 2,00, bateu em R$ 2,93 em setembro e ainda fechou em R$ 2,34. As exportações naquele ano cresceram 5,7% sobre o ano anterior, mas não puxadas pela indústria de manufaturados, que exportou 1,1% a mais, mas sim pelos produtos básicos, que subiram 22,1%.
Luis Afonso Lima, presidente da Sobeet, lembra também do ano de 1999, quando o real passou a flutuar livremente. As exportações precisaram de pelo menos um ano para reagir. Ele acha que agora o benefício será mais lento porque os países ricos estão em crise: "O contexto hoje é pior do que 1999. Naquele ano, o real se desvalorizou em um mundo pujante. Hoje, é o contrário. Se naquela época demorou um ano, a tendência é que agora demore mais porque os grandes compradores como Estados Unidos e Europa estão em crise. Com o real fraco, o empresário terá insumos e investimentos mais caros e encontrará demanda exterior fraca."
O economista Alex Agostini, da Austin Ratings, acha que a queda do real favorece uma pequena parte da sociedade, os exportadores, em detrimento da ampla maioria, em especial os mais pobres que não conseguem se defender da alta dos preços: "Para a economia como um todo, a desvalorização cambial tem um ônus muito maior que o bônus, certamente. Com a desvalorização, há aumento muito forte de alimentos que estão no café da manhã do brasileiro, que são trigo e café. Há também influência nos preços da soja, óleo de soja, milho, que fazem parte da ração para a carne animal. O preço da carne tende a subir. Nessa hora, a população de baixa renda é a mais afetada, e ela é a maior parcela da sociedade."
A crise internacional derrubou os preços das commodities, mas a desvalorização do real foi mais intensa. Isso vai dificultar a tarefa do Banco Central de deixar o IPCA abaixo do teto da meta este ano. Esta semana, o BC divulgou o índice IC-Br, que mede os preços das matérias-primas aqui dentro, e ele subiu 7,83% em setembro. A elevação foi puxada pelas commodities agropecuárias (carne de boi, algodão, óleo de soja, trigo, açúcar, milho, café e carne de porco), que tiveram alta de 8,80%.
A área de saúde sofrerá porque muitos remédios, insumos e equipamentos para exames são importados. A tendência é que os hospitais façam menos investimentos e se modernizem menos, com um câmbio mais fraco. O superintendente da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), Luiz Fernando Silva, diz que os hospitais não estão preparados para lidar com a mudança. Ele diz que setores como de neurologia, ortopedia e cardiologia usam muitos equipamentos modernos e importados: "A alta do dólar com certeza afeta a rede de saúde brasileira. Se o real se desvaloriza, há estagnação dos investimentos. O custo não poderá ser repassado, então a atitude mais natural será deixar de investir. O período do real forte foi aproveitado para comprar equipamentos. Para a rede hospitalar o real desvalorizado é prejuízo. Muitos aparelhos usam tecnologia importada e não há para onde fugir porque não são fabricados no Brasil."
É sempre múltiplo o efeito do câmbio, seja para onde ele for. Nunca foi panaceia. Com Álvaro Gribel
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