Entrevista:O Estado inteligente
No teto e subindo - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 07/05/11
Eu explico se estiver confundido você neste parágrafo inicial. Ontem, saiu o número da inflação de abril, o IPCA, que ficou em 0,77%. Isso é um tiquinho menor que março, que foi 0,79%. O problema é que saiu ligeiramente do teto de tolerância permitido pelo regime de metas de inflação.
No mês de maio, o IPCA vai subir menos. As safras vão ajudar a baixar os preços dos alimentos. O etanol também vai refrescar a pressão nos combustíveis. A gasolina da gasolina - que é 75% da mistura - não ficou mais cara para as distribuidoras e é uma grande dúvida. Principalmente depois de quinta-feira, quando o preço do petróleo teve uma queda forte de 10%. Mas o preço que a Petrobras cobra é um mistério político. Não está no terreno da economia.
Quando chegar o dado do mês de maio mostrando desaceleração da inflação, o acumulado em 12 meses pode ficar na mesma. Em maio passado, foi 0,43%. Nos meses seguintes, o mensal pode ficar baixo, alegrando o governo; o acumulado vai subir, bater em 7%, preocupando todo mundo. Essa dispersão de números vai acontecer porque nos meses de junho, julho e agosto de 2010 a inflação ficou perto de zero. Qualquer taxa acima de zero elevará o índice em 12 meses. E é para este número que olharão as categorias fortes que vão negociar salários em setembro.
No final do ano, o acumulado deve ceder porque foi forte o impacto do La Niña no último trimestre de 2010. Aí começará o ano que vem, que tem uma trombada inicial. O salário mínimo vai subir por volta de 14% e pode ter impacto em serviços e outros custos.
Os preços administrados subiram fortemente nos últimos meses. São preços como tarifas públicas, que têm fórmulas de correção de acordo com a inflação passada. O IGP-M terminou 2010 em 11,32%, o IPCA, em 5,91%. Em abril, os preços administrados subiram 1,29%. A indexação traz o passado para o presente. Os empresários, para decidir seus preços, fazem três perguntas: quanto os custos aumentaram? Qual será a inflação no futuro? O consumidor aceitará meu preço?
Os custos aumentaram, a inflação no futuro é incerta, o consumidor pagará se tiver dinheiro ou nenhuma outra opção. No cenário, há muita coisa mudando. As compras do Dia das Mães serão mais fortes que em 2010, mas o ritmo de crescimento é menor. As famílias já estão bem endividadas. Esta semana, o presidente do Banco Central avisou à imprensa e ao Congresso que, se precisar, continuará subindo os juros. O risco é o governo achar que a queda do índice mensal prova que é só esperar que a inflação vai cair por gravidade.
No mundo inteiro ela está subindo, só que a nossa é mais tinhosa, aprendeu manhas específicas com o longo passado inflacionário, como o de se reproduzir; nascendo de novo de si mesma, com a indexação. Quanto mais alta for e mais incerto o cenário, mais se fortalecem os músculos indexados.
O vasto mundo que nos cerca por todos os lados é de uma incerteza só. Do nada, os preços do petróleo caíram 10% na quinta-feira, e despencaram várias outras commodities. O bom da economia é que tudo tem explicação. O ruim é que elas surgem normalmente depois dos fatos.
Commodities caírem ajudam a inflação por um lado, mas se a queda atingir fortemente as que o Brasil exporta, é menos entrada de dólares. Aliás, o dólar andou subindo. Bom para os exportadores; mas deixa de ser um fator que puxa a inflação para baixo. Não tem muito fôlego para continuar subindo. Com a "nuvem de liquidez" - expressão de Tombini - que anda sobre o mundo, o dólar ficará mais fraco. Essa nuvem também provoca sobe e desce nas commodities, preços dos ativos, e contorna os obstáculos que o BC tem posto sobre a entrada de capitais.
Na hora do susto, essa nuvem corre para os títulos do governo americano, apesar de ser lá a capital da crise que começou em 2008. Na hora calma, esses capitais especulam em todos os mercados, provocando altas abruptas, pressionando a inflação. Essa é parte da confusão atual. Mas como explicou Tombini, uma das razões pelas quais os eventos inesperados do ano não desaguaram em crise é exatamente a existência dessa nuvem de liquidez mundial.
O Brasil conhece bem a inflação e o arsenal que nunca funcionou. Não dá certo apelo a empresário para que não reajuste seus preços, como foi feito esta semana pelo ministro Guido Mantega. A inflação nunca tem uma causa só, portanto, dizer que o vilão foi o combustível só aumenta a preocupação, porque indica que o governo não está vendo todas as conexões que estão se formando.
As razões econômicas para a inflação estar no ponto superior da meta são muitas. A consequência política é sempre a mesma: governo que permite que o índice suba, corroendo o poder de compra e trazendo velhos desconfortos de volta, acaba perdendo popularidade.
No teto e subindo
Riscou na trave e saiu. O teto da meta é 6,5%, a inflação em 12 meses terminados em abril ficou 0,01 ponto percentual acima disso. Vai piorar no acumulado nos próximos meses, melhorar no número mensal. Deve cair no fim do ano, para virar uma incógnita no ano que vem. A inflação está dando sustos e não tolera avaliações simplistas. É problema complexo.
Arquivo do blog
-
▼
2011
(2527)
-
▼
maio
(328)
- Novos rumos MERVAL PEREIRA
- O Fundo, no fundo MIRIAM LEITÃO
- À moda da tucanagem Dora Kramer
- Gato e rato - Celso Ming
- Ele voltou Marco Antonio Villa
- Contrapartidas ao bom-mocismo Adriano Pires e Abel...
- MEC não quer ensinar CARLOS ALBERTO DI FRANCO
- O FMI do homem branco Marcelo de Paiva Abreu
- Nau sem rumo José A. Guilhon Albuquerque
- Brasil - a desordem do progresso Antonio Corrêa De...
- A lista de Palocci Carlos Alberto Sardenberg
- Os donos do poder Daniel Piza
- Strauss-Kahn e as teorias da conspiração Gilles La...
- Clientes e patronos de Palocci VINICIUS TORRES FREIRE
- Chama Lula! Alberto Dines
- Resistindo à chantagem Suely Caldas
- Esse Palocci é um gênio CLÓVIS ROSSI
- Educação para o debate SERGIO FAUSTO
- O criador contra a criatura JANIO DE FREITAS
- Verdade e preconceito FERREIRA GULLAR
- Turbulência no voo MIRIAM LEITÃO
- Política e democracia DORA KRAMER
- Um amigo leve DANUZA LEÃO
- Furando as teias mafiosas GAUDÊNCIO TORQUATO
- Observações de um usuário JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Acorda, Congresso! Otávio Leite
- Confronto não ajuda Dilma - Alberto Dines
- Jangada de pedra CESAR MAIA
- Da casa do lobby ao apartamento da empresa MIGUEL ...
- Os estragos da tormenta EDITORIAL O Estado de S.Paulo
- Lula e Dilma EDITORIAL FOLHA DE SÃO PAULO
- A presidente ''ultrapassada'' Editorial de O Estad...
- ANTONIO PALOCCI E MARCOS VALÉRIO: UM ESQUEMA ANÁLO...
- Melhor que roubar bancos VINICIUS TORRES FREIRE
- O fino da grossura NELSON MOTTA
- Fissura profunda - Dora Kramer
- Devagar demais Celso Ming
- Palocci e o jogo do futuro Fernando Gabeira
- O terreno difícil dos agrotóxicos Washington Novaes
- Não esquecer Rogério L.F. Werneck
- Strauss-Kahnikov
- Lula sobe, Dilma desce ELIANE CANTANHÊDE
- Dilma, cadê você? CLÓVIS ROSSI
- Lula assume o comando EDITORIAL O Estado de S. Paulo
- Caso Pimenta e o pior da Justiça brasileira EDITOR...
- Melhor do que o esperado - Celso Ming
- Fratura exposta Dora Kramer
- Palocci e a hidra de duas cabeças Demétrio Magnoli
- As hidrelétricas já foram pagas? Vilson D. Christo...
- A indústria faz a diferença José Serra
- Palocci Fiction FERNANDO DE BARROS E SILVA
- Na corda bamba MIRIAM LEITÃO
- Fale, Palocci JOSÉ CARLOS DIAS
- Gabinete de Palocci violou sigilo de caseiro, diz ...
- Assim era Palocci VINICIUS TORRES FREIRE
- Cara presidente DANIEL PIZA
- Combustível no pasto ALEXANDRE SCHWARTSMAN
- Reis e dentes podres ROBERTO DaMATTA
- Remédio pior que a doença Celso Ming
- Mera maquiagem Dora Kramer
- Modelando a macroeconomia - Rubem Novaes
- Leis demais: nenhuma lei José Nêumanne
- Europa não deveria controlar o FMI Martin Wolf
- Aldo Rebelo também escreve carta aberta à presiden...
- Palavras forjadas, crise ao vento ELIANE CANTANHÊDE
- O mérito, as cotas e o racismo DEMÓSTENES TORRES
- O Brasil e o churrasquinho grego VINÍCIUS TORRES F...
- A novela vai longe ALON FEUERWERKER
- Sim à agropecuária e sim também ao meio ambiente K...
- Primeira crise Míriam Leitão
- Duvidoso, e daí? Dora Kramer
- Continua ruim Celso Ming
- Domésticas - profissão em extinção? José Pastore
- Controle de capital ou protecionismo Hector R. Torres
- Traduzindo Palocci RICARDO NOBLAT
- O estrategista tupiniquim MARCO ANTONIO VILLA
- " Se pelo menos ensinassem Português" CARLOS ALBER...
- Após revisão em Itaipu, cabe conta ao Paraguai- Se...
- O PT vai encarar a corrupção? Renato Janine Ribeiro
- Pelo Brasil Denis Lerrer Rosenfield
- Notícias argentinas Fabio Giambiagi
- Dos efeitos do priapismo na economia mundial Marco...
- A ponta do iceberg - Sérgio Abreu e Lima Florencio
- Augusto Nunes Vale replay
- ENTREVISTA LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
- Caso reaberto-o uso de dinheiro público no Mensalã...
- Quem comprou Palocci? Clóvis Rossi
- Ente que mente Mary Zaidan
- Sangria desatada Dora Kramer
- Poder fragilizado Merval Pereira
- A 'PEC do Peluso' EDITORIAL O Estado de S.Paulo
- Quanto vale o show de consultoria? VINICIUS TORRES...
- A ''espertocracia'' educacional GAUDÊNCIO TORQUATO
- Presidente, diga a que veio SUELY CALDAS
- Saia justa FERREIRA GULLAR
- Palocci explica Palocci JANIO DE FREITAS
- Responda, se tiver coragem DANUZA LEÃO
- A era do bedelho universal JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Sobre a vida após a morte MARCELO GLEISER
- Onda azul CESAR MAIA
- Como não fazer uma reforma tributária EDITORIAL
- O ataque à camareira DRAUZIO VARELLA
- A vida com os tablets CORA RÓNAI
- Decisões paulistas MERVAL PEREIRA
- O que o ministro oferecia EDITORIAL O ESTADO DE SÃ...
- A camareira subversiva RUTH DE AQUINO
- O caseiro do Piauí e a camareira da Guiné AUGUSTO ...
- Quem vai interpretar DSK? ZUENIR VENTURA
- Ritmo quente MIRIAM LEITÃO
- Boom ou bolha? Celso Ming
- O PIB potencial ecológico Paulo R.Haddad
- Bom de comunicação Sergio Amaral
- Culturas francesa e americana Gilles Lapouge
- Limites na negociação Merval Pereira
- Moeda de troca Míriam Leitão
- Uma casa do barulho Roberto Freire
- Palocci trabalhou para 20 empresas
- Empreiteira com negócios públicos contratou Palocci
- Empresa de Palocci faturou R$ 20 mi no ano da eleição
- Bem-vinda mudança de discurso LUIZ CARLOS MENDONÇA...
- Palocci e a oposição zumbi VINICIUS TORRES FREIRE
- Uma foto do Brasil - Dora Kramer
- Continua aquecida Celso Ming
- Os galpões e a competitividade Editorial O Estado ...
- Força bruta contra a oposição Editorial O Estado d...
- Quem vai ficar com o FMI? Gilles Lapouge
- Palocci e a mulher de César João Mellão Neto
- Nem ''loucuras'' faltam nos ''eventos extremos'' W...