Entrevista:O Estado inteligente

domingo, janeiro 18, 2009

Míriam Leitão O dia após amanhã

O GLOBO

Já seria difícil ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Ele seria mais cobrado, mais fiscalizado. Mas Barack Obama assumirá a Casa Branca na pior conjuntura econômica possível. Não é apenas uma recessão, como Bill Clinton enfrentou e venceu, mas a pior desde 1929. A recessão não está acabando, como na época de Franklin Roosevelt. Ela mal começou.

Quis a História — que suprema ironia! — que um momento tão esperado fosse também o mais difícil. Que o presidente do qual se cobraria mais desempenho, tivesse que ter mesmo um desempenho excepcional, porque qualquer coisa abaixo disso será o fracasso.

Sempre se criam expectativas diante de um novo governante, principalmente quando vem após um período desastroso, como é o caso, e teve uma eleição consagradora, como também é o caso. Mas as expectativas que caem sobre Barack Obama não são racionais. Ele terá tarefas demais, despertou sonhos demais, há urgências demais. Quando a mudança de governo acontece nos Estados Unidos, o mundo inteiro presta atenção. Desta vez, a atenção é maior. Virou ansiedade, porque a crise econômica, nascida lá, virou global.

Na economia, as coisas vão piorar nos primeiros meses do governo Obama. A recessão vai se aprofundar, o desemprego, crescer, o déficit público vai se ampliar, o risco de deflação ficará mais presente. Pela inércia dos fatos econômicos, tudo isso foi contratado pelo governo Bush; é herança. São eventos econômicos já ocorridos, que têm dinâmica conhecida e frutos inevitáveis. Há tremores em andamento, como os que ainda sacodem o setor bancário americano e a indústria imobiliária. Desfazer todos os nós será tarefa de anos. Mas, ao fim dos primeiros seis meses, a piora parecerá obra de Obama. É da natureza das sociedades democráticas, e abertas à cobrança sobre os governantes, a impaciência na espera dos resultados.

Uma crise dessa envergadura não se inverte rapidamente. As recessões têm um prazo mínimo. São como uma onda que não se consegue interromper no meio. Essa, que cresceu em 2008, tem força para consumir todo o ano de 2009 e entrar pelo ano de 2010. A tarefa de Obama é iniciar o movimento contrário, que pode invertê-la daqui a um ano ou um ano e meio. Será também tarefa do novo presidente amortecer o impacto dos caídos: os que estão sendo atingidos pelo desemprego, pela perda da casa própria, pela queda do movimento econômico.

Ele é negro e isso abre uma nova dimensão de expectativas e de cobranças. Nos Estados Unidos, as mudanças já começaram. O jornal New York Times o definiu como um "ice breaker", um pessoa que ajudou a quebrar o gelo. As conversas sobre raça ganharam mais naturalidade, diz o jornal. Assuntos congelados pelos constrangimentos de lado a lado passam a ser tratados com mais leveza. "Falar sobre raça? Relaxe, está tudo bem!" é o título do artigo publicado dias atrás. Para negros do mundo inteiro, inclusive os brasileiros, que são metade da população, o sucesso de Obama terá um valor inestimável na recuperação da auto-estima, na certeza íntima que cada um poderá construir de que o horizonte das possibilidades se ampliou.

Há urgências para além da economia. Na questão ambiental e climática, Obama pode ser um ponto de inflexão. Tudo o que fez e falou até agora tem o frescor de uma nova abordagem. Ele pretende unir três desafios, energia-economia-clima, num ataque só. Produzindo mais energia alternativa, melhorando a eficiência energética, incentivando a produção de carros com outras fontes de energia, o país vai, ao mesmo tempo, criar novos empregos e reduzir as emissões dos gases de efeito estufa.

Mas a Ciência espera mais dele, como disse, em artigo recente, a revista Nature. Quer uma mudança drástica para um padrão de energia livre de carbono, o que acha que pode ser feito se houver um plano bem organizado e de investimento maciço na área da mudança climática.

O ano de 2009 será decisivo porque, na reunião do clima de Copenhague, o mundo vai se deparar pela primeira vez com um interlocutor americano à mesa que não estará lá para bloquear as negociações, mas para incentivar os avanços.

Na área internacional, o quadro também não poderia ser pior. Obama assume no meio de uma escalada das tensões no Oriente Médio. Não apenas a banalidade do mesmo mal, mas uma onda nova de agressões que renovou o estupor do mundo com a região mais instável do mundo. As guerras do Iraque e do Afeganistão ainda não têm um fim à vista, e uma de suas promessas foi a de retirada segura das tropas do Iraque. Um desafio que se fosse o único do novo presidente já seria imenso. O terrorismo baseado no Paquistão tem feito novas investidas, e Obama tem que encontrar respostas novas e eficientes para o mais complexo desafio de política internacional.

O dia depois de amanhã será o começo de um novo tempo. Nada será resolvido rapidamente, e as frustrações serão inevitáveis. Sobre a devastação da era Bush será difícil construir uma nova arquitetura de relações internacionais, iniciar uma recuperação econômica, mudar a política climática. Mas ninguém melhor para tentar isso do que um líder que chega com a força dos votos dos eleitores americanos, a bandeira da mudança e a torcida do mundo.

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