Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, junho 03, 2005

O custo de uma decisão errada-LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Em economia , o ditado popular "aqui se faz, aqui se paga" é uma verdade absoluta. As decisões de política econômica, principalmente as de natureza conjuntural, têm um ciclo de resultados curto. Podemos medir, em meses, o intervalo entre as decisões tomadas e seus efeitos sobre a economia e a sociedade.

As estatísticas sobre o crescimento econômico, no primeiro trimestre de 2005, mostram a dimensão dos estragos provocados pela meta de inflação, irrealista, fixada pelo Banco Central. Meu leitor já conhece, em detalhes, o porquê dessa minha afirmação e não vou voltar a ela. Pretendo, hoje, refletir sobre os efeitos que a política de juros, dos últimos meses, está causando na economia.
Vamos, primeiro, tecer breves comentários sobre os números do PIB do primeiro trimestre do ano, divulgados nesta semana pelo IBGE. Eles apontam para um crescimento da economia de 3% para o ano fechado. Uma análise mais cuidadosa mostra que um número da ordem de 2,5% não pode ser descartado. Outra informação relevante é que desses 3% de aumento do PIB, cerca de 1,5% representa apenas um efeito estatístico, chamado de "arrasto" pelos economistas. A expansão efetiva pode ser de apenas 1,5%, na hipótese mais otimista, e de 1%, no caso menos favorável.
O que mais chamou a atenção dos analistas foram os números relativos aos investimentos realizados nos últimos seis meses. Depois de caírem quase 4% no último trimestre do ano passado, reduziram-se em mais 3% no início de 2005. Lembro aqui minha última coluna, intitulada "Máquinas e títulos públicos". Esses dados sobre investimentos apenas confirmam o que escrevi. As empresas estão colocando seus planos de expansão de lado e aplicando seu caixa para render juros. Com isso, estamos voltando, rapidamente, à situação conhecida, no Brasil, como o "vôo da galinha".
A expansão do PIB, no primeiro trimestre, foi puxada pelos resultados do comércio exterior. Também sobre os resultados das exportações, o erro na fixação da meta de inflação vai cobrar um tributo pesado. Os juros fixados pelo Copom estão provocando um movimento especulativo no mercado de câmbio, que vai, com certeza, diminuir o saldo comercial ao longo do segundo semestre e no início de 2005. Estamos, assim, matando a galinha dos ovos de ouro da economia brasileira nos últimos dois anos.
Outros dados importantes, presentes no relatório do IBGE, mostram a intensidade da desaceleração da economia. O consumo das famílias cresceu 1,6% no segundo trimestre de 2004, 1,3% no terceiro e 0,8% no quarto trimestre. Agora, nos primeiros três meses de 2005, o consumo caiu 0,6%. Os números falam por si, não?
Mas a pior estatística é mesmo a relativa aos investimentos. Depois de crescerem 3,5% no segundo trimestre de 2004 e 6,2% no terceiro, reduziram-se em 3,9% no quarto trimestre. Agora, houve queda de mais 3% sobre o nível anterior. Também aqui os números falam por si.
O governo preferiu uma leitura autista desses números -como só Brasília sabe fazer- e promete a retomada do desenvolvimento no restante do ano. O ministro do Planejamento e o secretário de Política Econômica do ministro Palocci argumentam que isso já ocorreu, em 2004, e vai se repetir neste ano. Esquecem que as condições impostas pela política monetária são completamente diferentes nesses dois períodos. No ano passado, os juros só começaram a subir em setembro. Agora, estão nas alturas e devem começar a cair apenas mais à frente.
Finalmente, uma das forças que tem dado algum dinamismo ao consumo dos brasileiros -a expansão agressiva do crédito- deve perder intensidade ao longo dos próximos meses. Com isso, podemos terminar 2005 com a economia crescendo a taxas ainda mais baixas do que a atual, principalmente se o BC for lento no processo de redução dos juros, que deve começar ao longo do último trimestre do ano. Espero a queda da inflação, a partir de julho e agosto, o que vai fazer com que os juros reais aumentem antes de começarem a cair.


folha de s paulo

IGOR GIELOW :Politizar a polícia

BRASÍLIA - Na ladeira abaixo em que o governo se meteu para tentar abafar a CPI dos Correios, foi especialmente deprimente o espetáculo promovido ontem justamente por um membro ponderado do gabinete de Lula, o ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça), ao anunciar a Operação Curupira. Em suas palavras, entre vivas à incrível vontade do governo de apurar corrupção: "Esse é um momento efetivo de celebração!".
Aos fatos. A PF começou a desbaratar mais um esquema podre, algo que vem fazendo com uma saudável freqüência no governo atual. Das 75 operações da PF de 2003 para cá, 46 envolveram corrupção, detendo até o meio da tarde de ontem 895 suspeitos -349 deles funcionários públicos.
Louvável, mas sejamos claros: não fez nada mais que sua obrigação. Além disso, número de prisões não significa necessariamente eficácia. Pode indicar abusos. Criminalista prestigioso que é, Bastos sabe disso.
Em operações anteriores, houve críticas não só a excessos que parecem ser inerentes a esse tipo de ação mas também a motivações inconfessáveis. Como todo mundo, policial tem preferência política, e são notórios os petistas, os tucanos, os ligados a essa ou àquela figura pública na corporação. Daí as suspeitas, justas ou não.
Mas, desta vez, o problema é diverso. A Curupira é importante e ataca um problema sério. Não surgiu da noite para o dia, mas foi usada desavergonhadamente como publicidade política. Um sinal dos tempos era visto no site do PT ontem: das nove principais notas, quatro se dedicavam a dizer que, sim, o governo combate a corrupção. CPI? "Direita fabrica crises", proclamava a página, como se o PT ainda fosse de esquerda. Duas das notas falavam, com números mais gerais e generosos, exatamente sobre as ações da PF lulista.
Esse tipo de mistura não acaba bem. Primeiro, porque holofote é bom sobre investigados, nunca sobre investigadores. Segundo, politização de ações policiais para fins de propaganda abre precedente para outros usos, esses mais preocupantes.

folha de s paulo

CLÓVIS ROSSI :O país da "enrolation"

SÃO PAULO - Não sei se o brasileiro é o melhor do Brasil, mas que os publicitários brasileiros são craques em retratar a alma profunda da pátria, lá isso são.
Exemplo mais recente: a propaganda de uma cerveja em que o rapaz encosta no balcão, uma loira se aproxima e fala com ele em inglês. O rapaz cobra do cérebro: "Inglês!". Os neurônios se agitam até que um deles dá a solução: é só pedir a cerveja tal que o resto é "enrolation".
É ou não é o Brasil, o país da "enrolation"? Que pode tomar várias formas: gambiarra, "gato", "por fora", "com nota ou sem nota?". Noutro dia, descobri a mais recente "enrolation": fui comprar auricular para o celular. O rapaz que atendeu perguntou: "Original ou genérico?".
É a forma "enrolation" de não precisar dizer pirateado.
Tem "enrolation" sofisticada. Sonegação no país da "enrolation" toma duas formas: a velha conhecida (no mundo todo), pela qual o sujeito simplesmente não paga; mas tem também a chamada "elisão fiscal", uma baita "enrolation" pela qual a empresa (em geral são empresas) faz "engenharia fiscal" (outro nome para "enrolation") e acaba pagando bem menos do que deveria pagar se se aplicasse o princípio básico segundo o qual paga mais (impostos) quem mais ganha.
No fundo, a "enrolation" é a mais recente versão para "levar vantagem em tudo", outro propaganda célebre de uns 20 anos atrás ou pouco mais. O tempo passa, mudam os governos, mas não muda a "enrolation" (deles e de uma fatia ponderável da sociedade, não sejamos complacentes).
Brasileiro pratica "enrolation" não apenas com o inglês, que é de fato mais difícil de aprender. Até no espanhol o falso malandro acha que pedindo uma "Cueca-Cuela" já é candidato a uma vaga na Real Academia Española.
E assim vamos vivendo, enrolando a nós mesmos.
folha de s paulo

Para Ermírio, Lula precisa trabalhar mais

GUILHERME BARROS
COLUNISTA DA FOLHA

O empresário Antônio Ermírio de Moraes, presidente do grupo Votorantim, terá direito a uma dupla comemoração amanhã em Alumínio (SP), onde fica a sede da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio). Ele participará de um churrasco com os 5.000 funcionários da empresa para comemorar os 50 anos CBA e, ao mesmo tempo, seu aniversário de 77 anos. O empresário não convidou ninguém de fora para a festa. "Temos de prestigiar as pessoas que trabalham conosco."
Para o empresário, o Brasil está perdendo uma chance de ouro de se tornar uma grande potência no agronegócio. Ele acha que o governo deve ter como meta o desenvolvimento do cerrado, uma área de 75 milhões de hectares com baixo rendimento agrícola.
O que falta, para o empresário, é a fixação de prioridades por parte do governo. Para ele, "o governo joga muita conversa fora e se perde nos objetivos". Para Ermírio de Moraes, o país tem tudo para se tornar uma grande potência, "mas para isso precisa ser bem dirigido". Ele acha também que o governo precisa trabalhar muito mais do que hoje. "O Lula precisa trabalhar mais e usar um pouco menos o aviãozinho dele", afirmou. A seguir, os principais trechos da entrevista.
 

Folha - Ao comemorar 77 anos de idade e 50 anos da CBA o sr. está otimista com o país?
Antônio Ermírio de Moraes -
O cerrado brasileiro ocupa uma área de 75 milhões de hectares. O problema de a terra não ser uma das mais férteis é perfeitamente corrigível. Com o calcário, que há em abundância na região, pode-se corrigir a acidez da terra e torná-la fértil. Se dermos atenção ao cerrado, o Brasil pode se tornar o maior produtor de soja e de cereais do mundo.

Folha - O que falta ao Brasil para dar mais atenção ao cerrado?
Ermírio de Moraes -
O que precisamos é de estradas de ferro. Isso tem de ser um programa de governo. O governo precisa investir na expansão do setor ferroviário. Se fizer isso, o Brasil se torna o celeiro do mundo. O Brasil tem terra, tem sol e tem água -as três coisas básicas para tornar o cerrado o celeiro do mundo. Mas, para isso, precisa melhorar o transporte ferroviário. Nós temos no cerrado uma área correspondente a toda a área plantada nos Estados Unidos, e não a aproveitamos. Precisamos de um plano sério de governo que leve adiante a idéia. O Ministério da Agricultura precisa levar a idéia adiante.

Folha - Quanto é preciso investir?
Ermírio de Moraes -
O investimento maior é mesmo no transporte ferroviário para ligar Goiás a uma região portuária. O Brasil é o único país do mundo onde o caminhão responde por 60% do transporte de cargas, quando no resto do mundo 60% são por ferrovia. Um país não pode crescer nessa base. É caro.

Folha - O que impede o governo de investir nessa área?
Ermírio de Moraes -
O que atrapalha é o governo não ter prioridades. O governo joga muita conversa fora e se perde nos objetivos. O Brasil não produzia nada de aço e resolveu fazer 20 milhões de toneladas. Agora produz 32 milhões de toneladas, que é pouco ainda, mas produz. O setor agrícola não pode ser esquecido. Os países industrializados estão interessadíssimos num projeto de desenvolvimento do cerrado.

Folha - O sr. tem interesse em investir nesse setor?
Ermírio de Moraes -
Só queria ter 25 anos para isso. Hoje, aos 77 anos, estou muito velho. O que eu quero é jogar a idéia. Nesta fase da vida, os investimentos que eu tinha que fazer eu já fiz e continuo fazendo. Não tenho nenhum interesse pessoal ao lançar essa idéia. Meu interesse é mesmo convencer o governo a dar prioridade a esse negócio. Se tivesse 25 anos, começaria a desenvolver essa área. Em alumínio, quando fizemos a CBA, há 50 anos, começamos com mil toneladas por ano, e hoje já são 400 mil. Na agricultura, os resultados serão muito mais rápidos. Agora, o governo tem de ter um plano de ação. Os outros países todos têm medo do Brasil. O Brasil, bem dirigido, tem condições de ser uma potência econômica fantástica. Mas precisa ser bem dirigido.

Folha - O sr. acha que país está sendo mal dirigido?
Ermírio de Moraes -
Tenho muita admiração pelos ministros Furlan [Desenvolvimento], Roberto Rodrigues [Agricultura], Palocci [Fazenda] e a Dilma [Minas e Energia], que estão fazendo boas administrações, mas acho que o governo poderia andar mais depressa. Não sou pessimista. Acredito no Brasil, e é por isso que estou chamando a atenção para essa oportunidade de investir no cerrado. Há 50 anos, ao construir a CBA, as pessoas poderiam achar que eu estava louco por querer concorrer com os grandes produtores de alumínio, como Alcan, Alcoa e a Vale, e nós vencemos.

Folha - Como vê o governo Lula?
Ermírio de Moraes -
Ele está fazendo o que pode. Evidentemente, ele não tem o preparo que eu gostaria que um presidente tivesse, mas ele tem força de vontade. Ele pode corrigir essa parcela com gente mais competente. Arranja um bom ministério em todos os setores e comanda esse bom ministério. Agora, o Lula precisa trabalhar mais e usar um pouco menos o aviãozinho dele.

Folha - E a economia, como o sr. vê a desaceleração do PIB?
Ermírio de Moraes -
Estamos passando uma fase meio difícil agora, mas acho que é passageira. O Brasil vai reagir. Apesar da desaceleração, o Brasil bateu recordes de exportações. Se o Brasil apostar na agricultura, o resto corre atrás.

Folha - O sr. acha os juros responsáveis pela desaceleração?
Ermírio de Moraes -
Os juros desanimam muita gente. É duro pagar juros tão altos. Nós, que não somos grandes devedores, já sofremos. Agora, imagine para quem vai começar um negócio...

Folha - O câmbio pode afetar as exportações?
Ermírio de Moraes -
Pode. O câmbio está muito baixo. Se a exportação cair, o desemprego vai subir. Hoje, 45% da CBA está sendo exportado, que é uma indústria de base e deveria ficar no país.

Folha - O sr. é favor de algum controle de capital?
Ermírio de Moraes -
Compartilho sim da idéia. Nós queremos gente que venha para cá e acredite no Brasil, que fique aqui, e se desenvolva junto com a gente. Não queremos o dinheiro do oportunista.
folha de s paulo

Operação contra CPI envolve R$ 400 milhões em emendas

 KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A nova operação para abafar a CPI dos Correios questionando sua constitucionalidade e a inviabilizando regimentalmente no plenário da Câmara vai custar ao Palácio do Planalto R$ 400 milhões em emendas parlamentares, segundo apurou a Folha.
Os líderes governistas estão fazendo listas de deputados fiéis para terem suas emendas pagas. A intenção do Planalto é realizar a votação para matar a CPI no dia 15 de junho -data a partir da qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencadearia mudanças no ministério com o discurso de que reorganizou o governo politicamente após meses de crise.
O Planalto usará na operação os R$ 200 milhões desbloqueados na semana passada devido à arrecadação tributária acima da prevista no ano e outros R$ 200 milhões de emendas do Ministério da Saúde, área que não sofreu corte oficial de gastos em 2005.
Após a fracassada operação abafa da semana passada, quando o governo não conseguiu matar a CPI retirando assinaturas de adesão ao seu requerimento de criação, o governo concluiu que tem entre 280 e 300 deputados fiéis. Esse número é suficiente para aprovar no plenário a inconstitucionalidade do requerimento de criação da CPI. Primeiro, é necessária a presença da maioria absoluta (257 dos 513 deputados). Depois, leva quem tiver a maioria simples dos votos.
O governo avalia que a oposição terá 180 votos. Para vencer, o governo deseja colocar em plenário 220 deputados dispostos a pagar o preço de enterrar a CPI dos Correios perante a opinião pública.
Em reuniões nos últimos dois dias, quando se solidificou a estratégia de tentar matar a CPI pela via da inconstitucionalidade, o Planalto pediu aos líderes que elaborassem listas de aliados fiéis para receberem as emendas. Com esse expediente, o governo espera colher vitória política e fortalecer líderes que se enfraqueceram, pois eles terão a palavra final para dar os "agrados" aos deputados.
Cada parlamentar tem direito a R$ 3,5 milhões por ano em emendas ao Orçamento, destinando verbas para seus redutos eleitorais, mas o governo nunca libera tudo. Dos R$ 400 milhões que pretende usar nessa operação, 90% serão gastos nas listas dos líderes. Outros 10% serão destinados a acordos específicos com deputados-chave ou parlamentares da oposição "convidados" a não dar presença e votar pró-CPI.
Em reunião ontem com Lula, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), fechou com a estratégia para tentar sepultar a CPI dos Correios no dia 15. O ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política) participou da conversa.
Anteontem, o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP) se reuniu com Lula e fez relatos de sua reaproximação com Renan. João Paulo está se credenciando para eventualmente substituir Aldo caso dê certo a operação anti-CPI.

Relator e CCJ
O governo está dando subsídios para que o relator escolhido na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, Inaldo Leitão (PL-PB), faça um parecer o mais impecável possível. Antes de votação no plenário da Câmara, é preciso aprovar a inconstitucionalidade da CPI na CCJ da Casa.
Por isso, o governo continuou a substituir integrantes da CCJ considerados pouco confiáveis. O PSB pôs Sandra Rosado (RN) na vaga de Gonzaga Patriota (PE). O PTB retomou suas duas vagas cedidas ao PP, excluindo da CCJ dois deputados que assinaram o requerimento da CPI: Wagner Lago (PP-MA) e Antonio Cruz (PP-MS). O último indicado pela oposição para compor a CPI dos Correios é a deputada Denise Frossard (PPS-RJ).
folha de s paulo

Miriam Leitão: Pontos a avançar

O Brasil fez muito: estabilizou, privatizou, fez reformas, fechou bancos, há sete anos tem superávits primários crescentes e superou a dúvida política sobre a chegada da esquerda ao poder. Ainda assim, o que os economistas têm a dizer é que a estabilização brasileira está incompleta e exige mais reformas. Basta olhar a comparação entre o Brasil e outros países emergentes para se ter idéia de quanto é preciso avançar.
Foi isso que alguns economistas fizeram. Foi lançado esta semana em São Paulo o livro: "Mercado de capitais e crescimento econômico. Lições internacionais e desafios brasileiros", organizado por Edmar Bacha e Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho, com prefácio de Pedro Malan e uma lista impressionante de autores: Pérsio Arida, Dionísio Carneiro, Armando Castelar, Marcos Lisboa, Daniel Gleizer, Maílson da Nóbrega, Eleazar de Carvalho, entre outros. É o resumo de dois seminários e textos que vêm sendo feitos nos últimos anos.


A economista Ana Novaes compara o mercado de capitais do Brasil com os de Chile, México, África do Sul, Polônia e Tailândia. Perdemos de todos, até porque o Brasil é o único da lista que não é investment grade , e ainda está longe de chegar lá. Todos eles têm algo a nos ensinar. O Chile fez uma pioneira reforma da previdência, em 81, saindo do sistema de repartição para o de capitalização. O México conseguiu desenvolver um mercado de títulos governamentais pré-fixados. A África do Sul tem uma das maiores relações de capitalização de bônus e ações em relação ao PIB. A Tailândia entrou em crise em 97 e saiu dela graças ao fato de que tem uma elevada taxa de poupança doméstica. A Polônia experimentou com sucesso o receituário dos organismos internacionais para construir um forte mercado de capitais.

E o Brasil? Aqui, um mercado financeiro robusto e desenvolvido dedica todas as suas energias a financiar a dívida pública em papéis pós-fixados e de curto prazo. Edmar Bacha, numa interessante introdução, compara o mercado com os portugueses do começo da colonização que, na visão de Frei Vicente, ficavam como caranguejos, apenas nas costas, sem se aventurar pelo sertão.

O mercado brasileiro de títulos privados tem defeitos óbvios. "A distância do mercado acionário brasileiro do padrão 'uma ação, um voto' é gritante, e não se pode continuar a deixar os acionistas minoritários preocupados toda vez que há transferência de controle", diz Bacha no texto introdutório.

Falta previsibilidade ao Brasil é o que dizem vários autores. Sobram fundos compulsórios, todos sem boa governança, transparência, portabilidade, tudo o que faz o sucesso de fundos modernos. O BNDES empresta a juros mais baixos e não há clareza sobre quanto custa isso ou quem paga. O banco usa o dinheiro de um fundo compulsório, o FAT, e empresta a juros bem menores do que o governo paga por seus papéis. O BNDES é assunto de quatro artigos, cada um com uma proposta diferente. Inclusive a de Cláudio Haddad, que é de acabar com o banco.

Nilson Teixeira acha que é preciso incorporar no orçamento do setor público consolidado todas as contas de subsídios, inclusive os que estão embutidos nos financiamentos do BNDES. Ele acredita que o mercado de capitais já está maduro e pode gerir os fundos, sem que eles sejam compulsórios.

Tese também de Pérsio Arida, que há tempos tem defendido mudanças nos fundos como FAT, FGTS. Ele acha que uma das esquisitices do Brasil são os mecanismos compulsórios de financiamento do investimento.

A idéia da incerteza jurisdicional está em vários dos textos dos livros. Ela foi desenvolvida inicialmente num artigo escrito a seis mãos por André Lara Resende, Pérsio Arida e Edmar Bacha. Eles levantam uma questão fundamental para explicar os nossos dilemas atuais: o mesmo investidor que aceita financiar o Brasil e as empresas brasileiras no exterior em prazo longo aqui dentro só financia no curto prazo; e olhe lá. O Brasil, suas leis, lentidão dos processos jurídicos, dificuldade de recuperação de prejuízo, incerteza legislativa, tudo faz com que um investimento aqui dentro seja muito mais arriscado do que os submetidos às leis e arbitragem internacionais.

Os caminhos para se entender o que nos faz um país diferente de outros chegam na regulação do mercado de capitais e a auto-regulação, assunto de Luiz Chrysostomo. O Brasil tem caminhado nessa direção tanto pelo incentivo na auto-regulação, dado pela Anbid, quando pelo Novo Mercado, desenvolvido pela Bovespa, no qual só entram os que aceitam as boas regras de governança e de eqüidade entre os acionistas.

Não há apenas uma mas, sim, várias barreiras ao desenvolvimento de um mercado de capitais no Brasil, como resume Armando Castelar. Marcos Lisboa conta parte da sua experiência no governo, durante a qual se dedicou às reformas microeconômicas, que não dão manchete, mas garantem o avanço na direção de o Brasil se parecer com os outros países.

O fato é que, no mundo, o mercado de capitais cresceu de forma impressionante. Houve muitas crises: as da Ásia no fim dos anos 90, do estouro da bolha da internet em 2000, das fraudes contábeis americanas em 2001. Apesar de tudo isso, o mercado acionário global triplicou de 90 até o fim de 2003, quando chegou a ser US$ 31 trilhões, quase três Estados Unidos. No Brasil, houve um salto importante no lançamento de ações em 2004. Mesmo assim, o fato inescapável é que o mercado de capitais, que em outros países financia o desenvolvimento, aqui vive principalmente de financiar o governo a juros absurdos.
oglobo

Luiz Garcia : A página e a Amazônia

Editoriais são vítimas freqüentes do pecado do nariz empinado, herança daquele tempo em que o mais importante num jornal era a sua opinião.


Os do "New York Times" não chegam a afirmar que valem mais do que o resto do jornal, mas certamente sugerem que, fora eles, o leitor só encontrará mesmo o resto. Não deve ser por acaso que, quando lhes dá na veneta, referem-se às suas opiniões como o julgamento "desta página", não "deste jornal".

Esta semana, a página se pronunciou sobre a Amazônia, condenando o desmatamento. É precisa — e preciosa — sua definição sobre o comportamento das autoridades brasileiras: afirma que elas agem com senso de responsabilidade "intermitente". Nada mais correto: tanto que a última medição do desmatamento — sobre os 12 meses terminados em agosto passado — registrou a maior perda de árvores desde 1995. É certo, por outro lado, que a má notícia embrulha um registro quase alentador: nos nove anos anteriores as notícias foram melhores. Mas é a notícia mais recente que realmente interessa, não é essa a regra? Tudo pesado e medido, impõe-se a conclusão de que a última grande floresta tropical tem de ser mais bem preservada. As intenções federais a respeito (o editorial elogia o trabalho da ministra Marina Silva) parecem louváveis. Embora, claro, insuficientes, além de sabotadas pela generalizada ineficiência da burocracia. Como se viu esta semana, com o registro de que madeireiros fazem o que querem em áreas indígenas e de proteção ambiental da Amazônia por pura incompetência do Ibama.

Para todas as mazelas o editorial do "Times" tem um só remédio: exigência externa de uma política ambientalista mais firme.

É aí, e a partir daí, que ele perde parte da razão. Sendo verdade que a Amazônia é uma defesa contra o aquecimento global, por que não condenar com a mesma ênfase os grandes responsáveis pelo aumento do aquecimento? Ou sejam, o governo e a indústria do país onde "esta página" é publicada? Se é imperioso preservar essa extraordinária reserva de biodiversidade, por não defender combate enérgico a quem a saqueia — e que, em grande número, não são nativos?

Está certo que a grande floresta é patrimônio da Humanidade. A atitude de exigir das autoridades brasileiras maior repressão a quem derruba árvores para plantar soja ou exporta madeira ilegalmente ganhará considerável peso moral se cobrança igualmente enfática for dirigida àqueles que, em empresas e governos de outros países — principalmente os mais ricos, acima de tudo os muito mais ricos — contribuem para que a cada dia se torne maior e mais ameaçadora a poluição da atmosfera em todo o planeta.

Essas ponderações não visam a reduzir a responsabilidade de qualquer grupo determinado de terráqueos na decadência de seu único planeta. Apenas lembram a conveniência de melhor distribuir as acusações.
o globo

Merval Pereira:Novos parceiros

Há uma convicção no governo de que os números ruins do primeiro trimestre não significam uma tendência, e, sobretudo, de que a economia entrará no ano eleitoral em crescimento acelerado, deixando para trás o clima pessimista que hoje ela provoca. Na mesma linha, repete-se na equipe econômica que não é possível calcular a carga tributária com base nos resultados trimestrais, pois o que conta é a média anual.

Esse raciocínio, se é correto tecnicamente, não tem ligação, porém, com a percepção do cidadão comum, que sente no dia-a-dia os apertos da política monetária e não aguarda a média anual para reagir a eles.

O que isso significa, em termos políticos, é que as pesquisas de opinião continuarão a registrar a queda da popularidade do presidente Lula enquanto os efeitos da política econômica não surgirem, o que pode afetar o clima político perigosamente, mesmo que os resultados comecem a aparecer no ano eleitoral.

Essa batalha entre o tempo político e o tempo econômico é crucial em um ano eleitoral, e por isso é relevante o compromisso assumido pelo presidente Lula de não fazer qualquer populismo para obter um crescimento de curto prazo que o beneficie eleitoralmente, mas prejudique o desenvolvimento da economia de longo prazo, que é no que ele e a equipe econômica continuam apostando.

É possível que nessa travessia até as eleições algumas peças vitais venham a ser substituídas, como por exemplo o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Mesmo que não se substitua a política monetária em vigor. Mas a simples troca pelo atual secretário executivo do Ministério da Fazenda, Murilo Portugal, pode dar um novo fôlego à política tão criticada. Meirelles estaria, além de tudo, muito abalado emocionalmente pela série de acusações que surgem contra ele, sentindo-se frustrado em seu projeto político pelo que considera uma campanha de cunho pessoal.

Além da confiança nos resultados de longo prazo da política econômica, o presidente Lula acredita que algumas medidas "alternativas" que seu governo adotou garantirão o crescimento da economia e o suporte popular para a reeleição. Além dos financiamentos do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica para incentivar a economia em setores cruciais como a construção civil, medidas como o Bolsa Família, os créditos consignados em folha de pagamento, os remédios a preços populares, o vale gás, serviriam para "soldar" o apoio popular à reeleição de Lula.

Essas medidas são classificadas de populistas pela oposição, mas o governo as considera superiores à simples assistência social. Existiriam estudos que mostram que esse tipo de dinheiro faz movimentar a economia com grande intensidade, e é capaz de garantir a base de um crescimento forte do PIB, contra a opinião da maioria esmagadora dos economistas.

O governo age como se o pior momento da crise política já tivesse sido superado, e rearticula sua base de apoio no Congresso para tentar acabar com as chances da CPI dos Correios. Ainda que a unidade da base aliada tenha sido conseguida menos por fidelidade, e mais pelo receio de que acusações de corrupção respingassem sobre todos, o fato é que a situação política hoje parece mais sob controle do Palácio do Planalto do que há alguns dias, e por isso há quem já pense no que fazer depois que a CPI for definitivamente derrotada pelo plenário da Câmara, como planeja o governo.

O problema é que, como sempre, existem no governo divisões básicas. Há o grupo que quer aprofundar a parceria política com o PMDB, e ao mesmo tempo afrouxar os laços que hoje unem o governo a partidos como o PTB e o PP, marcados na opinião pública pela imagem nada edificante de políticos como os deputados Roberto Jefferson e Severino Cavalcanti. Mas há também quem tema problemas políticos com o presidente da Câmara, ou aliados ressentidos como o ainda presidente do PTB.

Ampliar a força do PMDB tem também o objetivo de esvaziar a tese da candidatura própria do partido, inviabilizando os planos do ex-governador Garotinho de concorrer à Presidência da República com a legenda que tem a maior capilaridade entre os partidos políticos, e o maior número de vereadores espalhados pelo país.

A súbita mudança de posição do presidente do Senado, Renan Calheiros, que de manhã prometera ele mesmo nomear os integrantes da CPI dos Correios caso os partidos aliados do governo não o fizessem, e à tarde mudou de idéia, dizendo que esperaria a decisão da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara sobre a constitucionalidade da CPI, tem a ver com essa tendência do governo de dar ao PMDB uma posição de destaque na montagem de uma nova equipe ministerial e, em seguida, o lugar de parceiro na chapa presidencial.

A impressão de que as duas estratégias andam juntas veio logo depois, quando Renan "liberou" o Senado de se pronunciar sobre a decisão da CCJ, dizendo que basta a Câmara decidir, o que facilita muito a manobra do governo. A tal ponto que Renan teve que reunir os líderes para prometer imparcialidade. Só o tempo mostrará qual sua verdadeira posição. A oposição se prepara para o pior.

Quando o ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) propôs uma renúncia coletiva, não falava com autorização do presidente Lula, mas certamente sabia que o gesto facilitaria uma decisão do presidente, que se incomoda em demitir seus "companheiros", o que terá que fazer para preparar a campanha da reeleição.

Mas a tática, além de colocar em evidência essa característica de Lula que não é bem vista pela população — há pesquisas do PSDB, já citadas aqui na coluna, que mostram que começa a se disseminar na opinião pública a idéia de que Lula não decide — colocaria também em suspenso a única parte do governo que vem se mostrando eficiente, apesar de controversa: a política econômica.
o globo

quinta-feira, junho 02, 2005

Lula e cúpula do PT vivem seu pior momento KENNEDY ALENCAR


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Nunca estiveram tão ruins e distantes as relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT nos dois anos e cinco meses em que governam o país. Para a direção petista e ministros importantes, Lula assumiu comportamento autoritário. Isolou-se e toma decisões sem levar em conta a opinião do PT.
Já o presidente atribui ao seu partido a responsabilidade maior pela crise política e ouve de verdade o ministro Antonio Palocci Filho (Fazenda) e seu chefe-de-gabinete, Gilberto Carvalho. Irritadiço, Lula também demonstra mais intolerância a críticas e aumentou as queixas da imprensa.
"O PT tem 25 anos de história. Levamos dez anos construindo a vitória do Lula. Foi uma obra coletiva. Não dá para ele decidir tudo sozinho. Não dá mais", desabafou o ministro José Dirceu (Casa Civil), ainda com a roupa para exercícios que acabara de praticar, ao receber dirigentes do PT para um café da manhã em 6 de maio, uma sexta-feira.
O presidente do PT, José Genoino, não teve nem tempo de relatar a longa conversa que tivera com Lula na noite anterior. Genoino levara o diagnóstico de encontro reservado do início daquela semana no qual ele, Dirceu, Palocci e os ministros Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) e Jaques Wagner (Conselhão) fecharam acordo para pressionar Lula a demitir Aldo Rebelo (Coordenação Política) e a retomar, mesmo parcialmente, a reforma ministerial. Tal movimento fora facilitado pelo próprio Aldo, que havia pedido demissão duas vezes.

No limite
No desabafo, que repetiria em outras reuniões, como na terça-feira 24 de maio, dia em que deu a entender num encontro com moderados do PT que Lula era o principal responsável pela crise política, Dirceu disse que estava "no seu limite". Falou que se cansara de executar tarefas a pedido de Lula e vê-las desconsideradas.
Genoino interveio e disse que Lula já tinha uma solução. Deslocar Aldo para a pasta da Defesa, ocupada pelo vice José Alencar.
Em resposta à pergunta de como os militares reagiriam a um ministro fraco, pois seria demitido da articulação política, Lula disse a auxiliares que já tinha a solução. Para vitaminar Aldo, acertara com Palocci um aumento salarial para os militares.
Dirceu chegou a dizer que a articulação política deveria ser dada ao ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT-SP). Os participantes da reunião -ministros petistas e os líderes do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), e do PT na Casa, Paulo Rocha (PA)- disseram que o articulador deveria ser Dirceu.
No sábado 7 de maio, Genoino viajou para o Japão acreditando que retornaria com o assunto resolvido. Reportagens dando conta de que Aldo pedira demissão e de que a tendência era Dirceu ocupar o seu lugar contrariaram Lula. Uma declaração de Gushiken em 9 de maio, assumindo que o PT queria o lugar de Aldo, levou o presidente a dizer, mais uma vez, que não o demitiria sob pressão do PT, pois pareceria fraco. O presidente, porém, prometeu a auxiliares decidir até viajar para a Ásia em 22 de maio.
Enquanto não "oficializava" a saída de Aldo, Lula teve conversa secreta com Dirceu na Granja do Torto no domingo 15 de maio, um dia depois de a revista "Veja" ter chegado às bancas com a gravação em que um funcionário dos Correios embolsa propina de R$ 3.000 e diz ser agente de um esquema de corrupção em estatais para beneficiar o PTB.
Prevendo novos problemas na articulação política, que vinha de uma série de derrotas seguidas no Congresso, Lula pediu a Dirceu que assumisse na prática o comando da operação política e tivesse "paciência" porque tomaria decisão em breve sobre Aldo.
O ministro da Coordenação Política começou a arrumar as gavetas, e Lula passou a discutir a entrega de parte das atribuições da Casa Civil, especificamente as de gerenciamento de governo, ao Planejamento ou a uma secretária especial. Assim, aliviaria a Casa Civil, deixando-a com as tarefas políticas e jurídicas.

CPI
Durante a viagem de seis dias à Ásia, Lula tratou por telefone principalmente com Dirceu das manobras da fracassada operação para abafar a CPI dos Correios por meio de retirada de assinaturas de deputados do requerimento de criação da comissão.
Novamente, petistas ouviram de Lula que ele tomaria decisões na volta. Do Japão, na sexta-feira passada, pediu que ministros e auxiliares fossem chamados para uma reunião na Granja do Torto no domingo. O vazamento da informação fez com que cancelasse o encontro e a reunião de coordenação de governo na segunda.
Lula, então, convidou Dirceu para uma conversa a sós na Granja do Torto no domingo à noite. O presidente, que em conversas com auxiliares sinalizara que achava inútil e desgastante insistir no sepultamento regimental da CPI dos Correios, não tomou as grandes decisões que os petistas e Dirceu aguardavam.
O ministro da Casa Civil deixou a Granja do Torto contrariado. Julgou a conversa improdutiva.
Quando peemedebistas, petebistas e pepistas souberam que Lula e alguns petistas defendiam a instalação da CPI, procuraram Aldo e disseram que era loucura, que não existia CPI sob controle.
Na segunda, Lula ouviu boa parte da cúpula do PT e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que era a favor de enfrentar logo a CPI. Disse que a PF (Polícia Federal) avançara nas investigações e que esclareceria o caso dos Correios antes da CPI. Mas Lula aceitou a pressão dos aliados para insistir numa operação para matar a CPI na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, considerada de alto risco.

Desânimo
Na segunda, Dirceu retomou o foco nas ações administrativas. A amigos, disse que estava desmotivado e que não adiantava mais falar nada com Lula. Em reunião com ministros petistas à noite, foi enterrada a proposta de pedirem demissão para forçar Lula a mudar o governo.
Ontem e anteontem, um clima de desânimo dominou petistas. A última idéia era apelar ao exemplo do presidente francês, Jacques Chirac, para convencer Lula a agir para dar sinais de que não é refém da crise. Na França, consulta ao eleitorado resultou na rejeição da nova Constituição européia. Em menos de 48 horas, Chirac trocou o primeiro-ministro, numa manobra para tentar deixar para trás uma tremenda derrota política.
folha de s paulo

Falta transparência no uso de cartões de crédito

É duro ser governo.
Hoje você está empenhado em abortar uma CPI criada para apurar roubalheira nos Correios. Amanhã terá de dar um jeito para disfarçar os gastos com o uso de cartões de crédito corporativos.
Contra o voto dos senadores que apóiam o governo, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou ontem 36 requerimentos apresentados pelo líder do PSDB, Arthur Virgílio, pedindo informações sobre os gastos com o uso de tais cartões. Deles desfruta a nata da nata do governo - ministros e funcionários do primeiro e segundo escalões.
Da Folha de S. Paulo, hoje:
"A polêmica sobre o uso dos cartões corporativos ocorre porque o Tribunal de Contas da União realizou uma auditoria apontando "falta de transparência" nos gastos feitos no cartão. Isso porque as despesas não ficam discriminadas no sistema de acompanhamento de gastos federais. Consta apenas o pagamento da fatura ao Banco do Brasil.
Além disso, haveria risco de burlar a exigência de licitação para compras públicas, quando o gasto é superior a R$ 8.000.
Reportagem da Folha em 23 de janeiro mostrou que os gastos com cartões na Presidência haviam disparado no governo Luiz Inácio Lula da Silva.
No último ano do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando o uso de cartões foi autorizado, a fatura dessa modalidade de pagamento somou R$ 1,3 milhão. No ano seguinte, primeiro do governo Lula, os gastos foram multiplicados por sete.
Ao defender o uso de cartões corporativos, Aloisio Mercadante, líder do governo no Senado, insistiu na maior eficiência e controle nos gastos feitos dessa forma. Segundo a vice-líder do PT, Ideli Salvatti (SC), gastos em dinheiro "não deixam rastro", ao contrário dos cartões.
Porém outra reportagem da Folha, de fevereiro, mostrou que o uso desses cartões para saques em dinheiro superou as despesas faturadas em crédito. Assim, é anulada a vantagem que a fatura dá em termos de transparência.
Nos dois primeiros anos do governo, os gastos com cartões de crédito corporativos da Presidência somaram R$ 16,7 milhões. No segundo semestre de 2004, em toda a União, foram R$ 6 milhões em saques contra R$ 3,7 milhões em despesas faturadas.
O sigilo do uso da verba pública do Planalto é assegurado por ato de 2003 do Gabinete de Segurança Institucional, sob argumento da segurança do presidente"
BLOG Ricardo Noblat

R$ 18.500,00

Fernando Jorge Caldas Pereira (02/06/05 12:29)



Não creio que haja alguém de bom senso que não registre - ao lado dos méritos - os enormes problemas e distorções do Ministério Publico descontrolado e sem limites no qual cada procurador se agrupa como um núcleo partidário e age segundo sua "consciência". Dentre as muitas distorções uma delas é a de que a carreira de procurador é talvez a única onde o sujeito já entra no ponto de chegada.

Claro, ele pode depois se tornar subprocurador ou procurador geral, mas não existem niveis para progressão entre os que são procuradores como existe nas demais categorias do serviço público.

Assim, no campo das atribuições e competências não se faz diferença entre a experiência de quem milita há, digamos, 10 anos no MP ou quem acabou de sair da faculdade e passou num concurso. Cria-se assim o campo fértil e conhecido para as imaturidades, arbitrariedades e incompetências.

Para coroar isso, o Procurador Geral acaba de encaminhar ao Congresso um projeto de lei que entre tantas coisas fixa o salario inicial, isso mesmo, inicial, dos procuradores em R$ 18.500,00.
As demais carreiras do serviço público tem seu salário inicial , quando muito, em torno de R$ 2.500,00 a 3 mil reais mas os procuradores, aqueles que devem zelar pela lei, pela ética e pela moralidade pública acham que valem 6 ou 7 vezes o que os outros.

Será que algum deles irá - em nosso nome - denunciar esse abuso?

e-agora

Lula's mid-term blues



(02/06/05)

Heading for a slowdown?
In a disappointment for President Luiz Inácio Lula da Silva, new figures showed that Brazil's economic recovery is slowing, with GDP in the first quarter up only 0.3% on the previous quarter.

Brazil


Jun 2nd 2005 | SÃO PAULO
From The Economist print edition
Reuters

Problems familiar to his predecessors are dogging Brazil's left-wing president

SCANDAL, receding popularity and sagging economic growth are not the best preparation for an election. For the moment, at least, Brazil's president, Luiz Inácio Lula da Silva—who hopes to win a second term in office in a vote due in October 2006—is suffering all three. His government is fighting a losing battle to suppress a probe by Congress into corruption allegations. Figures released this week showed that after months of rising interest rates the economy grew a mere 0.3% in the first quarter of 2005, its slowest quarterly rate since 2003. Unsurprisingly, Lula's popularity, though still high, is slipping.

This dose of bad news is not in itself fatal to the president's electoral prospects. But it threatens to cripple his government, an ill-tempered coalition of left-wing, centrist and conservative parties.

Last month, Veja, a weekly magazine, published excerpts from a videotape showing a manager of the federal postal service taking a bribe. He claimed to belong to a bribe-collecting network headed by Roberto Jefferson, the boss of the Brazilian Labour Party (PTB), a member of the governing coalition. Mr Jefferson denies wrongdoing. The bribe-taker has since recanted. But allegations keep coming. Federal police are investigating charges that the state-owned reinsurance monopoly has funnelled money to a brokerage headed by a friend of Mr Jefferson.

Veja likens Mr Jefferson to a "human bomb" under the government. If so, he has not yet detonated. But Lula has reasons to worry. His own Workers' Party (PT) cannot avoid looking sordid by association. Many governments in Brazil have had to depend in Congress on rent-a-parties such as the PTB, which seek to reward followers with state jobs and pork-barrel spending. But milking public companies is a graver matter. People expected better of Lula's government. In opposition he righteously demanded inquiries into lesser scandals.

This time he has tried, but so far failed, to smother the inquiry. That is the latest in a string of congressional defeats inflicted not only by his coalition partners but also by rebellious members of the PT itself. In the lower house, 14 of the PT's 91 deputies signed the measure authorising the inquiry, along with nearly 80 others from supposedly allied parties. The government is now challenging the inquiry on constitutional grounds. If that fails, it will hope to guide its course.

Some damage has already been done. According to Sensus, a polling firm, Lula's approval rating has fallen to 57.4%, down from 66% in February. More than half the respondents—"a very high number for such a specific question", in the view of the pollster, Ricardo Guedes—knew about the scandals. The government's approval rating slipped, too, to 40%. At 30%, pundits say, Lula's re-election would look dicey.

People expected better of Lula's government

So the last thing he needs is a buckling economy. The central bank's battle to contain inflation by raising interest rates has chilled investment, already feeble, which dropped 3% in the first quarter. São Paulo's powerful industry federation warned of an "imminent risk of recession."

That is unlikely. The government has agreed a generous rise in the minimum wage, lifting other salaries and pensions linked to it. Public spending, unusually slow in the first four months of 2005, will probably quicken. There has been good news, at last, on inflation: an index that blends retail and wholesale prices dropped 0.22% in May, stirring hopes that the central bank will stop raising rates. A healthy trade surplus is partial protection against a rise in American interest rates, which could send the real tumbling and inflation shooting up again.

Even so, the government is likely to remain at bay in Congress. A cabinet reshuffle might help. Coalition partners complain that the PT has shared too little power, while the PT's left wing harangues the government for pandering to conservatives. Aldo Rebelo, the government's embattled political co-ordinator, claims that it has an "almost consensual agenda". This includes simplifying taxes, a reform of trade unions, and changes to regulatory agencies. Congress-watchers doubt much of this will get through. "As far as the major legislative agenda, this government has already ended," says Sérgio Abranches, a political analyst.


That is disappointing rather than dire. Investment, and thus economic growth, may remain stunted. But the government is unlikely to abandon fiscal and monetary caution, which has spared the economy a full-fledged crisis. There is little sign that Lula plans reforms to correct the flaws in the bureaucracy and political parties that lead to political appointees pocketing bribes. Rather, he seems to be hoping that by the time the election comes, voters will have forgotten about them.
The Economist


Tirem a The Economist de cima da mesa de Lula


Para não alimentar a impressão de que o mundo acabou, recomenda-se a Lula que, além de jornais, não leia a mais prestigiada revista de economia do mundo, a inglesa The Economist.
Na edição que começa a circular hoje, a revista publica extensa reportagem sob o título "Lula: tristezas no meio do caminho".
Aborda o desapontamento geral com o desempenho pífio do Produto Interno Bruto no primeiro trimestre, os escândalos de corrupção recentemente revelados pela revista Veja e a última pesquisa de opinião pública do Instituto Sensus que registrou queda na avaliação do desempenho pessoal de Lula.
Entretítulo da reportagem: "O povo esperava mais do governo Lula".
The Economist ouviu o cientista político Sérgio Abranches que disse: "Este governo já acabou".
BLOG Ricardo Noblat

O manifesto dos carteiros

Da Redação

Cerca de 70 funcionários da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) lavaram a entrada da sede da estatal na manhã de ontem, em ato de apoio às denúncias de prática de corrupção na estatal. A "lavagem dos Correios" atraiu a atenção de quem passava pelo Setor Bancário Norte, onde está localizada a sede da empresa.

Animados, os carteiros gritavam "fora corruptos" e pediam a exoneração de todos os membros da diretoria da estatal, inclusive do presidente João Henrique de Almeida Sousa.

Mas o ponto alto do protesto foi quando os trabalhadores começaram a cantar em coro o samba Reunião de Bacana, famoso pelo verso "se gritar pega ladrão/ não fica um, meu irmão". Até os seguranças dos Correios riam sem cerimônia. Alguns chegaram a cantar baixinho o refrão da música.
Correio Braziliense

How Mark Felt Became 'Deep Throat' By Bob Woodward

As a Friendship -- and the Watergate Story -- Developed, Source's Motives Remained a Mystery to Woodward

By Bob Woodward
Washington Post Staff Writer
Thursday, June 2, 2005; A01

In 1970, when I was serving as a lieutenant in the U.S. Navy and assigned to Adm. Thomas H. Moorer, the chief of naval operations, I sometimes acted as a courier, taking documents to the White House.

One evening I was dispatched with a package to the lower level of the West Wing of the White House, where there was a little waiting area near the Situation Room. It could be a long wait for the right person to come out and sign for the material, sometimes an hour or more, and after I had been waiting for a while a tall man with perfectly combed gray hair came in and sat down near me. His suit was dark, his shirt white and his necktie subdued. He was probably 25 to 30 years older than I and was carrying what looked like a file case or briefcase. He was very distinguished-looking and had a studied air of confidence, the posture and calm of someone used to giving orders and having them obeyed instantly.

I could tell he was watching the situation very carefully. There was nothing overbearing in his attentiveness, but his eyes were darting about in a kind of gentlemanly surveillance. After several minutes, I introduced myself. "Lieutenant Bob Woodward," I said, carefully appending a deferential "sir."

"Mark Felt," he said.

I began telling him about myself, that this was my last year in the Navy and I was bringing documents from Adm. Moorer's office. Felt was in no hurry to explain anything about himself or why he was there.

This was a time in my life of considerable anxiety, even consternation, about my future. I had graduated in 1965 from Yale, where I had a Naval Reserve Officers' Training Corps scholarship that required that I go into the Navy after getting my degree. After four years of service, I had been involuntarily extended an additional year because of the Vietnam War.

During that year in Washington, I expended a great deal of energy trying to find things or people who were interesting. I had a college classmate who was going to clerk for Chief Justice Warren E. Burger, and I made an effort to develop a friendship with that classmate. To quell my angst and sense of drift, I was taking graduate courses at George Washington University. One course was in Shakespeare, another in international relations.

When I mentioned the graduate work to Felt, he perked up immediately, saying he had gone to night law school at GW in the 1930s before joining -- and this is the first time he mentioned it -- the FBI. While in law school, he said, he had worked full time for a senator -- his home-state senator from Idaho. I said that I had been doing some volunteer work at the office of my congressman, John Erlenborn, a Republican from the district in Wheaton, Ill., where I had been raised.

So we had two connections -- graduate work at GW and work with elected representatives from our home states.

Felt and I were like two passengers sitting next to each other on a long airline flight with nowhere to go and nothing really to do but resign ourselves to the dead time. He showed no interest in striking up a long conversation, but I was intent on it. I finally extracted from him the information that he was an assistant director of the FBI in charge of the inspection division, an important post under Director J. Edgar Hoover. That meant he led teams of agents who went around to FBI field offices to make sure they were adhering to procedures and carrying out Hoover's orders. I later learned that this was called the "goon squad."

Here was someone at the center of the secret world I was only glimpsing in my Navy assignment, so I peppered him with questions about his job and his world. As I think back on this accidental but crucial encounter -- one of the most important in my life -- I see that my patter probably verged on the adolescent. Since he wasn't saying much about himself, I turned it into a career-counseling session.

I was deferential, but I must have seemed very needy. He was friendly, and his interest in me seemed somehow paternal. Still the most vivid impression I have is that of his distant but formal manner, in most ways a product of Hoover's FBI. I asked Felt for his phone number, and he gave me the direct line to his office.

I believe I encountered him only one more time at the White House. But I had set the hook. He was going to be one of the people I consulted in depth about my future, which now loomed more ominously as the date of my discharge from the Navy approached. At some point I called him, first at the FBI and then at his home in Virginia. I was a little desperate, and I'm sure I poured out my heart. I had applied to several law schools for that fall, but, at 27, I wondered if I could really stand spending three years in law school before starting real work.

Felt seemed sympathetic to the lost-soul quality of my questions. He said that after he had his law degree his first job had been with the Federal Trade Commission. His first assignment was to determine whether toilet paper with the brand name Red Cross was at an unfair competitive advantage because people thought it was endorsed or approved by the American Red Cross. The FTC was a classic federal bureaucracy -- slow and leaden -- and he hated it. Within a year he had applied to the FBI and been accepted. Law school opened the most doors, he seemed to be saying, but don't get caught in your own equivalent of a toilet-paper investigation.

A TWO WEEK TRYOUT: Coming to The Post

In August 1970, I was formally discharged from the Navy. I had subscribed to The Washington Post, which I knew was led by a colorful, hard-charging editor named Ben Bradlee. There was a toughness and edge to the news coverage that I liked; it seemed to fit the times, to fit with a general sense of where the world was much more than law school. Maybe reporting was something I could do.

During my scramble and search for a future, I had sent a letter to The Post asking for a job as a reporter. Somehow -- I don't remember exactly how -- Harry Rosenfeld, the metropolitan editor, agreed to see me. He stared at me through his glasses in some bewilderment. Why, he wondered, would I want to be a reporter? I had zero -- zero! -- experience. Why, he said, would The Washington Post want to hire someone with no experience? But this is just crazy enough, Rosenfeld finally said, that we ought to try it. We'll give you a two-week tryout.

After two weeks, I had written perhaps a dozen stories or fragments of stories. None had been published or come close to being published. None had even been edited.

See, you don't know how to do this, Rosenfeld said, bringing my tryout to a merciful close. But I left the newsroom more enthralled than ever. Though I had failed the tryout -- it was a spectacular crash -- I realized I had found something that I loved. The sense of immediacy in the newspaper was overwhelming to me, and I took a job at the Montgomery Sentinel, where Rosenfeld said I could learn how to be a reporter. I told my father that law school was off and that I was taking a job, at about $115 a week, as a reporter at a weekly newspaper in Maryland.

"You're crazy," my father said, in one of the rare judgmental statements he had ever made to me.

I also called Mark Felt, who, in a gentler way, indicated that he, too, thought this was crazy. He said he thought newspapers were too shallow and too quick on the draw. Newspapers didn't do in-depth work and rarely got to the bottom of events.

Well, I said, I was elated. Maybe he could help me with stories.

He didn't answer, I recall.

During the year I spent on the Sentinel, I kept in touch with Felt through phone calls to his office and home. We were becoming friends of a sort. He was the mentor, keeping me from toilet-paper investigations, and I kept asking for advice. One weekend I drove out to his home in Virginia and met his wife, Audrey.

Somewhat to my astonishment, Felt was an admirer of J. Edgar Hoover. He appreciated his orderliness and the way he ran the bureau with rigid procedures and an iron fist. Felt said he appreciated that Hoover arrived at the office at 6:30 each morning and everyone knew what was expected. The Nixon White House was another matter, Felt said. The political pressures were immense, he said without being specific. I believe he called it "corrupt" and sinister. Hoover, Felt and the old guard were the wall that protected the FBI, he said.

In his own memoir, "The FBI Pyramid: From the Inside," which received almost no attention when it was published in 1979, five years after President Richard M. Nixon's resignation, Felt angrily called this a "White House-Justice Department cabal."

At the time, pre-Watergate, there was little or no public knowledge of the vast pushing, shoving and outright acrimony between the Nixon White House and Hoover's FBI. The Watergate investigations later revealed that in 1970 a young White House aide named Tom Charles Huston had come up with a plan to authorize the CIA, the FBI and military intelligence units to intensify electronic surveillance of "domestic security threats," authorize illegal opening of mail, and lift the restrictions on surreptitious entries or break-ins to gather intelligence.

Huston warned in a top-secret memo that the plan was "clearly illegal." Nixon initially approved the plan anyway. Hoover strenuously objected, because eavesdropping, opening mail and breaking into homes and offices of domestic security threats were basically the FBI bailiwick and the bureau didn't want competition. Four days later, Nixon rescinded the Huston plan.

Felt, a much more learned man than most realized, later wrote that he considered Huston "a kind of White House gauleiter over the intelligence community." The word "gauleiter" is not in most dictionaries, but in the four-inch-thick Webster's Encyclopedic Unabridged Dictionary of the English Language it is defined as "the leader or chief official of a political district under Nazi control."

There is little doubt Felt thought the Nixon team were Nazis. During this period, he had to stop efforts by others in the bureau to "identify every member of every hippie commune" in the Los Angeles area, for example, or to open a file on every member of Students for a Democratic Society.

None of this surfaced directly in our discussions, but clearly he was a man under pressure, and the threat to the integrity and independence of the bureau was real and seemed uppermost in his mind.

On July 1, 1971 -- about a year before Hoover's death and the Watergate break-in -- Hoover promoted Felt to be the number three official in the FBI. Though Hoover's sidekick, Clyde Tolson, was technically the number two official, Tolson was also ill and did not come to work many days, meaning he had no operational control of the bureau. Thus, my friend became the day-to-day manager of all FBI matters as long as he kept Hoover and Tolson informed or sought Hoover's approval on policy matters.

EARLY TIPS: Agnew, and Then Wallace

In August, a year after my failed tryout, Rosenfeld decided to hire me. I started at The Post the next month.

Though I was busy in my new job, I kept Felt on my call list and checked in with him. He was relatively free with me but insisted that he, the FBI and the Justice Department be kept out of anything I might use indirectly or pass onto others. He was stern and strict about those rules with a booming, insistent voice. I promised, and he said that it was essential that I be careful. The only way to ensure that was to tell no one that we knew each other or talked or that I knew someone in the FBI or Justice Department. No one.

In the spring, he said in utter confidence that the FBI had some information that Vice President Spiro T. Agnew had received a bribe of $2,500 in cash that Agnew had put in his desk drawer. I passed this on to Richard Cohen, the top Maryland reporter for The Post, not identifying the source at all. Cohen said, and later wrote in his book on the Agnew investigation, that he thought it was "preposterous." Another Post reporter and I spent a day chasing around Baltimore for the alleged person who supposedly knew about the bribe. We got nowhere. Two years later, the Agnew investigation revealed that the vice president had received such a bribe in his office.

About 9:45 a.m. on May 2, 1972, Felt was in his office at the FBI when an assistant director came to report that Hoover had died at his home. Felt was stunned. For practical purposes, he was next in line to take over the bureau.

Yet Felt was soon to be visited with immense disappointment. Nixon nominated L. Patrick Gray III to be the acting director. Gray was a Nixon loyalist going back years. He had resigned from the Navy in 1960 to work for candidate Nixon during the presidential contest that Nixon lost to John F. Kennedy.

As best I could tell Felt was crushed, but he put on a good face. "Had I been wiser, I would have retired," Felt wrote.

On May 15, less than two weeks after Hoover's death, a lone gunman shot Alabama Gov. George C. Wallace, then campaigning for president, at a Laurel shopping center. The wounds were serious, but Wallace survived.

Wallace had a strong following in the deep South, an increasing source of Nixon's support. Wallace's spoiler candidacy four years earlier in 1968 could have cost Nixon the election that year, and Nixon monitored Wallace's every move closely as the 1972 presidential contest continued.

That evening, Nixon called Felt -- not Gray, who was out of town -- at home for an update. It was the first time Felt had spoken directly with Nixon. Felt reported that Arthur H. Bremer, the would-be assassin, was in custody but in the hospital because he had been roughed up and given a few bruises by those who subdued and captured him after he shot Wallace.

"Well, it's too bad they didn't really rough up the son of a bitch!" Nixon told Felt.

Felt was offended that the president would make such a remark. Nixon was so agitated and worried, attaching such urgency to the shooting, that he said he wanted full updates every 30 minutes from Felt on any new information that was being discovered in the investigation of Bremer.

In the following days I called Felt several times and he very carefully gave me leads as we tried to find out more about Bremer. It turned out that he had stalked some of the other candidates, and I went to New York to pick up the trail. This led to several front-page stories about Bremer's travels, completing a portrait of a madman not singling out Wallace but rather looking for any presidential candidate to shoot. On May 18, I did a Page One article that said, among other things, "High federal officials who have reviewed investigative reports on the Wallace shooting said yesterday that there is no evidence whatsoever to indicate that Bremer was a hired killer."

It was rather brazen of me. Though I was technically protecting my source and talked to others besides Felt, I did not do a good job of concealing where the information was coming from. Felt chastised me mildly. But the story that Bremer acted alone and without accomplices was a story that both the White House and the FBI wanted out.

THE STORY BREAKS: Secrecy Is Paramount

A month later, on Saturday, June 17, the FBI night supervisor called Felt at home. Five men in business suits, pockets stuffed with $100 bills, and carrying eavesdropping and photographic equipment, had been arrested inside the Democrats' national headquarters at the Watergate office building about 2:30 a.m.

By 8:30 a.m. Felt was in his office at the FBI, seeking more details. About the same time, The Post's city editor woke me at home and asked me to come in to cover an unusual burglary.

The first paragraph of the front-page story that ran the next day in The Post read: "Five men, one of whom said he is a former employee of the Central Intelligence Agency, were arrested at 2:30 a.m. yesterday in what authorities described as an elaborate plot to bug the offices of the Democratic National Committee here."

The next day, Carl Bernstein and I wrote our first article together, identifying one of the burglars, James W. McCord Jr., as the salaried security coordinator for Nixon's reelection committee. On Monday, I went to work on E. Howard Hunt, whose telephone number had been found in the address books of two of the burglars with the small notations "W. House" and "W.H." by his name.

This was the moment when a source or friend in the investigative agencies of government is invaluable. I called Felt at the FBI, reaching him through his secretary. It would be our first talk about Watergate. He reminded me how he disliked phone calls at the office but said the Watergate burglary case was going to "heat up" for reasons he could not explain. He then hung up abruptly.

I was tentatively assigned to write the next day's Watergate bugging story, but I was not sure I had anything. Carl had the day off. I picked up the phone and dialed 456-1414 -- the White House -- and asked for Howard Hunt. There was no answer, but the operator helpfully said he might be in the office of Charles W. Colson, Nixon's special counsel. Colson's secretary said Hunt was not there this moment but might be at a public relations firm where he worked as a writer. I called and reached Hunt and asked why his name was in the address book of two of the Watergate burglars.

"Good God!" Hunt shouted before slamming down the phone. I called the president of the public relations firm, Robert F. Bennett, who is now a Republican U.S. senator from Utah. "I guess it's no secret that Howard was with the CIA," Bennett said blandly.

It had been a secret to me, and a CIA spokesman confirmed that Hunt had been with the agency from 1949 to 1970. I called Felt again at the FBI. Colson, White House, CIA, I said. What did I have? Anyone could have someone's name in an address book. I wanted to be careful about guilt by association.

Felt sounded nervous. He said off the record -- meaning I could not use the information -- that Hunt was a prime suspect in the burglary at the Watergate for many reasons beyond the address books. So reporting the connections forcefully would not be unfair.

In July, Carl went to Miami, home of four of the burglars, on the money trail, and he ingeniously tracked down a local prosecutor and his chief investigator, who had copies of $89,000 in Mexican checks and a $25,000 check that had gone into the account of Bernard L. Barker, one of the burglars. We were able to establish that the $25,000 check had been campaign money that had been given to Maurice H. Stans, Nixon's chief fundraiser, on a Florida golf course. The Aug. 1 story on this was the first to tie Nixon campaign money directly to Watergate.

I tried to call Felt, but he wouldn't take the call. I tried his home in Virginia and had no better luck. So one night I showed up at his Fairfax home. It was a plain-vanilla, perfectly kept, everything-in-its-place suburban house. His manner made me nervous. He said no more phone calls, no more visits to his home, nothing in the open.

I did not know then that in Felt's earliest days in the FBI, during World War II, he had been assigned to work on the general desk of the Espionage Section. Felt learned a great deal about German spying in the job, and after the war he spent time keeping suspected Soviet agents under surveillance.

So at his home in Virginia that summer, Felt said that if we were to talk it would have to be face to face where no one could observe us.

I said anything would be fine with me.

We would need a preplanned notification system -- a change in the environment that no one else would notice or attach any meaning to. I didn't know what he was talking about.

If you keep the drapes in your apartment closed, open them and that could signal me, he said. I could check each day or have them checked, and if they were open we could meet that night at a designated place. I liked to let the light in at times, I explained.

We needed another signal, he said, indicating that he could check my apartment regularly. He never explained how he could do this.

Feeling under some pressure, I said that I had a red cloth flag, less than a foot square -- the kind used as warnings on long truck loads -- that a girlfriend had found on the street. She had stuck it in an empty flowerpot on my apartment balcony.

Felt and I agreed that I would move the flowerpot with the flag, which usually was in the front near the railing, to the rear of the balcony if I urgently needed a meeting. This would have to be important and rare, he said sternly. The signal, he said, would mean we would meet that same night about 2 a.m. on the bottom level of an underground garage just over the Key Bridge in Rosslyn.

Felt said I would have to follow strict countersurveillance techniques. How did I get out of my apartment?

I walked out, down the hall, and took the elevator.

Which takes you to the lobby? he asked.

Yes.

Did I have back stairs to my apartment house?

Yes.

Use them when you are heading for a meeting. Do they open into an alley?

Yes.

Take the alley. Don't use your own car. Take a taxi to several blocks from a hotel where there are cabs after midnight, get dropped off and then walk to get a second cab to Rosslyn. Don't get dropped off directly at the parking garage. Walk the last several blocks. If you are being followed, don't go down to the garage. I'll understand if you don't show. All this was like a lecture. The key was taking the necessary time -- one to two hours to get there. Be patient, serene. Trust the prearrangements. There was no fallback meeting place or time. If we both didn't show, there would be no meeting.

Felt said that if he had something for me, he could get me a message. He quizzed me about my daily routine, what came to my apartment, the mailbox, etc. The Post was delivered outside my apartment door. I did have a subscription to the New York Times. A number of people in my apartment building near Dupont Circle got the Times. The copies were left in the lobby with the apartment number. Mine was No. 617, and it was written clearly on the outside of each paper in marker pen. Felt said if there was something important he could get to my New York Times -- how, I never knew. Page 20 would be circled, and the hands of a clock in the lower part of the page would be drawn to indicate the time of the meeting that night, probably 2 a.m., in the same Rosslyn parking garage.

The relationship was a compact of trust; nothing about it was to be discussed or shared with anyone, he said.

How he could have made a daily observation of my balcony is still a mystery to me. At the time, before the era of intensive security, the back of the building was not enclosed, so anyone could have driven in the back alley to observe my balcony. In addition, my balcony and the back of the apartment complex faced onto a courtyard or back area that was shared with a number of other apartment or office buildings in the area. My balcony could have been seen from dozens of apartments or offices, as best I can tell.

A number of embassies were located in the area. The Iraqi Embassy was down the street, and I thought it possible that the FBI had surveillance or listening posts nearby. Could Felt have had the counterintelligence agents regularly report on the status of my flag and flowerpot? That seems highly unlikely, if not impossible.

A KINSHIP: Felt Knew Reporters' Plight

In the course of this and other discussions, I was somewhat apologetic for plaguing him and being such a nag, but I explained that we had nowhere else to turn. Carl and I had obtained a list of everyone who worked for Nixon's reelection committee and were frequently going out into the night knocking on the doors of these people to try to interview them. I explained to Felt that we were getting lots of doors slammed in our faces. There also were lots of frightened looks. I was frustrated.

Felt said I should not worry about pushing him. He had done his time as a street agent, interviewing people. The FBI, like the press, had to rely on voluntary cooperation. Most people wanted to help the FBI, but the FBI knew about rejection. Felt perhaps tolerated my aggressiveness and pushy approach because he had been the same way himself when he was younger, once talking his way into an interview with Hoover and telling him of his ambition to become a special agent in charge of an FBI field office.

It was an unusual message, emphatically encouraging me to get in his face.

With a story as enticing, complex, competitive and fast-breaking as Watergate, there was little tendency or time to consider the motives of our sources. What was important was whether the information checked out and whether it was true. We were swimming, really living, in the fast-moving rapids. There was no time to ask why they were talking or whether they had an ax to grind.

I was thankful for any morsel or information, confirmation or assistance Felt gave me while Carl and I were attempting to understand the many-headed monster of Watergate. Because of his position virtually atop the chief investigative agency, his words and guidance had immense, at times even staggering, authority. The weight, authenticity and his restraint were more important than his design, if he had one.

It was only later after Nixon resigned that I began to wonder why Felt had talked when doing so carried substantial risks for him and the FBI. Had he been exposed early on, Felt would have been no hero. Technically, it was illegal to talk about grand jury information or FBI files -- or it could have been made to look illegal.

Felt believed he was protecting the bureau by finding a way, clandestine as it was, to push some of the information from the FBI interviews and files out to the public, to help build public and political pressure to make Nixon and his people answerable. He had nothing but contempt for the Nixon White House and their efforts to manipulate the bureau for political reasons. The young eager-beaver patrol of White House underlings, best exemplified by John W. Dean III, was odious to him.

His reverence for Hoover and strict bureau procedure made Gray's appointment as director all the more shocking. Felt obviously concluded he was Hoover's logical successor.

And the former World War II spy hunter liked the game. I suspect in his mind I was his agent. He beat it into my head: secrecy at all cost, no loose talk, no talk about him at all, no indication to anyone that such a secret source existed.

In our book "All the President's Men," Carl and I described how we had speculated about Deep Throat and his piecemeal approach to providing information. Maybe it was to minimize his risk. Or because one or two big stories, no matter how devastating, could be blunted by the White House. Maybe it was simply to make the game more interesting. More likely, we concluded, "Deep Throat was trying to protect the office, to effect a change in its conduct before all was lost."

Each time I raised the question with Felt, he had the same answer: "I have to do this my way."

Video

Post's Bob Woodward

The Washington Post's Bob Woodward talks to washingtonpost.com's Ryan Thornburg about this week's revelation of Deep Throat's identity.


© 2005 The Washington Post Company

LUÍS NASSIF:E agora, José?

 Parem com essa história de que a queda do ritmo de crescimento é uma mera freada de arrumação. Paralisa-se o crescimento por alguns meses, acerta-se a inflação, depois se retoma o crescimento.
1) O primeiro passo para iniciar um círculo de crescimento é um choque de oferta ou de demanda que aumente a circulação de riquezas da economia. Na fase Lula, esse choque veio por meio do mercado externo, com economia mundial aquecida e câmbio desvalorizado. Move-se a primeira peça da engrenagem: o setor exportador.
2) Os trabalhadores do setor aumentam suas compras de bens de consumo, os empresários, as de equipamento. E a riqueza começa a transbordar para setores leves, como alimentos, bens de consumo e equipamentos leves. Adicionalmente, o Ministério da Fazenda produziu um choque de crédito, com o empréstimo em folha.
3) O setor de bens de consumo passa a produzir mais, colocando-se em movimento. É a segunda engrenagem a se mexer. Com a ampliação do exército de consumidores, a riqueza transborda também para o setor de serviços.
4) Com o consumo crescendo em duas frentes -a externa e a interna-, a capacidade instalada da economia começa a ser ocupada e chega-se, então, ao momento decisivo: se o empresário acredita que o crescimento irá continuar, toma a decisão de investir. Aí a engrenagem começa a mover também o setor de bens de capital.
5) Com todas as engrenagens funcionando, a demanda continuará crescendo, mas, a essa altura, acompanhada pelo aumento da oferta (dos investimentos).
6) Na fase de transição, ocorre alguma fricção nos preços. Em alguns setores, os investimentos poderão demorar um pouco mais a aparecer, provocando aumentos localizados. Administrados esses problemas com bom senso, se houver sinais claros de que o crescimento continuará, haverá a antecipação da oferta para aguardar a nova demanda. Aí se entra no círculo virtuoso, com queda na vulnerabilidade externa (com os superávits comerciais) e na interna, com a queda na relação dívida/PIB (pela redução dos juros e aumento do PIB).
O que faz o Banco Central? Quando começam as primeiras fricções de preços, aumenta violentamente os juros. Corta o consumo pela ponta da demanda interna, encarecendo os financiamentos, e da externa, apreciando o câmbio.
Abortada a perspectiva de crescimento da demanda, o empresário volta atrás em sua decisão de investir. E toda a engrenagem começa a emperrar, peça por peça, matando a oportunidade do salto para o novo patamar de produção.
De onde virá a próxima retomada? Novo crescimento de exportações dependerá de nova desvalorização cambial -já que a herdada pelo governo Lula foi jogada pela janela-, com todas as implicações inflacionárias. Dependerá do dinamismo da economia internacional, que está em queda. Dependerá do aumento dos investimentos -que foram abortados pela alta dos juros e redução do câmbio.
E ainda há eleições no ano que vem.
folha de s paulo

DEMÉTRIO MAGNOLI:A desconstrução da Europa

"O confronto entre Leste e Ocidente era uma "cola" que nos unia. Agora, alguma outra coisa tem de substituir a força coesiva que emanava da ameaça comum". (Kurt Biedenkopf, governador do Estado alemão da Saxônia, 1993). O projeto europeu deitou raízes no solo geopolítico da Guerra Fria. A aliança franco-alemã era o motor da unificação européia. O temor comum do "expansionismo soviético" era a "cola" que unia França e Alemanha. O grande "non" francês ao tratado constitucional revela a falência desse motor.
Os franceses votaram na nação, contra a Europa. Não há surpresa nisso: ao contrário do que reza a lenda, o projeto europeu nasceu e se consolidou sob o influxo das motivações nacionalistas. O Plano Schuman, de 1950, que integrou a siderurgia franco-alemã na Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca), foi o instrumento da França para prender a Alemanha na teia da Europa. O método da fusão de soberanias, que gerou o Mercado Comum, servia ao empreendimento americano de "invenção" de uma Europa Ocidental anti-soviética, mas, sobretudo, proporcionava à França a segurança de saber que o destino da Alemanha estava enlaçado ao seu.
O projeto pós-nacional da integração européia repousa sobre o interesse nacional francês. A reunificação da Alemanha, em 1990, ressuscitou o fantasma de uma "Europa alemã", que freqüenta os pesadelos franceses desde 1871. A solução, negociada entre François Miterrand e Helmut Kohl, foi o Tratado de Maastricht, pelo qual a Alemanha pagava o preço da unidade nacional sacrificando o marco no altar da Europa. O método da fusão de soberanias servia, uma vez mais, a objetivos nacionais: "Toda a Alemanha para Kohl, metade do marco alemão para Miterrand", na síntese espirituosa da época.
A campanha do referendo francês representou um exercício de interpretação do interesse nacional. Jacques Chirac e os principais líderes socialistas defenderam o tratado constitucional como meio de consolidação de uma Europa-potência, capaz de contrabalançar o poder dos EUA e da China. O argumento esbarrou no ceticismo popular, alimentado pelas divisões européias em torno do Iraque e pela degradação da influência francesa numa União Européia de 25 membros.
Os defensores do "non", um arco-íris ideológico estendido entre os dois extremos do espectro e equilibrado sobre o dissidente socialista Laurent Fabius, acusaram o texto constitucional de ameaçar os fundamentos da nação francesa. A sua pregação ressoou entre os trabalhadores e entre os jovens assustados com o desemprego, com a imigração, com as reformas trabalhistas e com os planos de flexibilização de direitos sociais. Marianne e Joana D'Arc, os símbolos contraditórios da França revolucionária e da França eterna, reconciliaram-se na rejeição ao "atlanticismo", ao "modelo anglo-saxônico" e à uma "Europa ultraliberal".
O empreendimento europeu nasceu de duas guerras totais e da Guerra Fria. Jean Monnet, o genial diplomata francês que elaborou o Plano Schuman, desenhou-o na forma sedutora dos Estados Unidos da Europa. Mas o projeto europeu, formulado pelas elites num tempo de catástrofes, nunca foi mais do que um expediente de resgate de Estados arruinados. A Europa carece do estofo que anima as nações: isso é o que os franceses disseram.
folha d e s paulo

clóvis rossi:Jabuticaba podre

SÃO PAULO - Em agosto do ano passado, a ata do Copom (Comitê de Política Monetária, o que decide a taxa de juros) dizia o seguinte: "Mesmo que o cenário inflacionário venha a requerer um ajuste na taxa de juros básica, é importante reiterar que isso não acarretará prejuízos ao processo de crescimento sustentado da economia brasileira".
Bom, nove meses depois de uma sucessão de "ajustes", nasce o rebento dessa afirmação absolutamente contrária ao mais elementar sentido comum: "desaceleração geral" da economia brasileira.
Em qualquer país sério, em qualquer governo minimamente sério, o presidente do Banco Central e todos os diretores que fazem parte do Copom seriam demitidos por justa causa. Ou mentiram, para justificar o injustificável, ou seja, mais aumentos numa taxa de juros já obscenamente alta, ou não têm a mais leve idéia nem sequer do bê-á-bá.
Em qualquer lugar do mundo, até bebê de colo sabe que juro alto é inimigo da atividade econômica, porque, como é óbvio, encarece o custo de um insumo fundamental como é o dinheiro. Pretender que, no Brasil, não haveria "prejuízos ao processo de crescimento sustentado da economia" é querer inventar o juro jabuticaba, que só existiria no Brasil.
Vê-se agora, pelos dados do IBGE, que tampouco no Brasil existe juro alto que não iniba a atividade econômica, o que, aliás, 11 de cada 10 analistas sérios vêm dizendo faz um monte de tempo.
Mas, como o presidente da República também gosta de suas jabuticabas, o governo inventou que basta o brasileiro "levantar o traseiro da poltrona" para que os juros caíam. Vai ver que o BC, ao aumentar continuamente os juros, estava só testando a mobilidade dos traseiros tupiniquins.
Enfim, está aí a ata do Copom de agosto e estão aí os números da economia. Mostram que a jabuticaba apodreceu. Vai-se mudar o Copom ou é melhor demitir os números?
folha de spaulo

VALDO CRUZ:Risco e ousadia

 BRASÍLIA - O crescimento medíocre de 0,3% da economia no primeiro trimestre fez crescer entre os aliados a sensação de que o presidente Lula pode jogar fora sua grande oportunidade de dar uma virada no país.
Lula estaria, na visão desse grupo, acreditando cegamente no discurso dos economistas do seu governo. Qual seja: o país cresce, neste ano, pelo menos 3,5%; no próximo, chegaria perto dos 5% do PIB de novo.
Seria o melhor dos mundos. Crescer forte exatamente no ano eleitoral, o da reeleição do presidente. Lula se tornaria praticamente imbatível.
A turma do BC alega que, se não tivesse adotado o tão criticado caminho atual, de juros elevados, a inflação sairia do controle. Aí, sim, Lula teria sérias dificuldades para ganhar um novo mandato.
Pode dar certo? Sim. Os economistas do BC argumentam que foram criticados em passado recente e os números lhe deram razão. O mesmo se repetiria agora.
Mas pode dar errado. A inflação voltar a subir logo depois de os juros começarem a cair e o real se desvalorizar. Para afastar esse risco, o que alguns aliados pedem a Lula é mais ousadia, uma virada na economia.
Alguma mágica? Não. A receita, bastante amarga, seria radicalizar no arrocho fiscal. Tornar permanente o que ocorreu no mês de abril, quando o governo economizou o suficiente para pagar toda a conta de juros e ainda sobrou dinheiro. Ou seja, zerar o déficit nominal.
Estaria pavimentado o caminho para reduzir os juros, liberando o setor privado para tocar o crescimento do país. Gente do próprio governo acredita ser essa a melhor solução. O problema é que há uma ala petista que prefere o Estado gastador.
A palavra final estaria com o presidente Lula. Aí a coisa complica mais ainda. Nos últimos meses, tudo o que ele tem feito é não decidir nada.
folha de s paulo

ATENTADO À LÓGICA

 É inoportuno o projeto de lei do deputado Roberto Gouveia (PT-SP), aprovado pela Câmara, que torna os medicamentos para a Aids não-patenteáveis, na mesma categoria do que seja "contrário à moral, aos bons costumes, à segurança, à ordem e à saúde pública".
Não se contesta, é evidente, que a saúde pública deva ter prioridade sobre interesses comercias. Tampouco minimiza-se a gravidade da epidemia de Aids. A questão é que o projeto, ainda à espera da apreciação do Senado, é essencialmente ilógico.
Não faz sentido transformar os medicamentos para a Aids em artigos não-patenteáveis deixando fora dessa categoria todas as drogas destinadas a curar ou controlar outras moléstias. Não há nem mesmo um critério consistente a orientar a decisão, pois a Aids está longe de ser a doença mais mortal ou prevalente do planeta ou do Brasil. Como justificar que fármacos para a síndrome sejam de domínio público, mas não os para a pressão alta, malária e câncer?
Como se não bastasse, o dispositivo é ocioso, pois a Lei de Patentes (9.279/96), já contém o mecanismo da licença compulsória em casos de emergência nacional (art. 71), o que permitiria às autoridades quebrar a patente de medicamentos na hipótese de grave crise sanitária. Na verdade, praticamente todas as legislações de patente do mundo contam com algo semelhante, e o Ministério da Saúde já negocia o preço dos medicamentos para a Aids com os laboratórios que os produzem utilizando-se explícita ou veladamente da possibilidade de valer-se dessa prerrogativa.
De fato, a licença compulsória é mais útil como um trunfo de negociação do que como uma ameaça efetivada, embora o Brasil não deva ter receio, em caso extremo, de quebrar a patente. O país não precisa, portanto, dessa pirotecnia legal, que atenta contra o bom senso.
folha de s paulo editorial

A AÇÃO DE FONTELES- células-tronco

 A indiscutível competência técnica do procurador-geral da República, Claudio Fonteles, parece ter sido abalada por suas convicções religiosas. Essa, afinal, é a mais plausível das explicações para a ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra o artigo da Lei de Biossegurança que autoriza a utilização de células-tronco de embriões humanos para pesquisa ou tratamento de doenças que o ilustre jurista propôs ao Supremo Tribunal Federal (STF).
A argumentação de Fonteles tem proveniência católica. Partindo do pressuposto de que a vida começa com a concepção, o procurador-geral sustenta que a permissão para as pesquisas -que, por ora, implicam a destruição do embrião- viola o caput do artigo 5º da Constituição.
O problema está no fato de que a tradição jurídica brasileira não corrobora a tese de que a vida começa com a fertilização do óvulo. A chamada personalidade civil -o que de mais próximo a uma definição de vida o direito tem a oferecer- só surge quando o bebê nasce com vida (artigo 2º do novo Código Civil). É razoável que essa seja a ordem jurídica, ou todas as mulheres que tenham concebido e perdido o embrião (estima-se que de 2/3 a 3/4 dos óvulos fecundados jamais se fixem no útero) se tornariam, pelas regras da sucessão, herdeiras de quem as fecundou.
É claro que o mesmo Código Civil também protege os direitos dos nascituros "desde a concepção". Mas esses direitos não são os mesmos concedidos a um ser vivo com personalidade jurídica, ou a lei jamais poderia autorizar o chamado aborto necessário (art. 128 do Código Penal), que é aquele exercido por médico para salvar a vida da mãe.
E vale notar que a Lei de Biossegurança autoriza, para fins de relevante pesquisa médica, a destruição apenas de embriões que sobram de tratamentos de fertilidade, isto é, que nem foram implantados num útero, sendo assim nulas suas chances de vir a nascer. O destino desses blastocistos seria a destruição ou permanecer congelados para sempre.
Como procurador-geral da República, Fonteles pode e deve agir segundo sua consciência. Só não deveria esquecer o que aprendeu na faculdade de direito.
folha de s paulo editorial

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