Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, junho 02, 2005
Idiotas! PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Na semana passada, soube que saiu o novo álbum da banda Automata, de Salvador. O que vem fazer uma banda de rock numa coluna de economia? Simplesmente o seguinte: uma das músicas do disco foi inspirada em artigo publicado neste espaço em 2002, sob o título "Revisitando o triunfo do idiota". Quando soube, fiquei exultante. Que outro economista, pergunto, pode ostentar algo assim no seu currículo?
Fiquei pensativo, também. Há muito tempo não escrevo sobre o triunfo do idiota. E, no entanto, ele é cada vez mais completo e avassalador. O tema chega a ser perigoso.
Um dos que lançaram essa discussão (talvez tenha sido o primeiro) foi o grande filósofo e ensaísta espanhol Ortega y Gasset, no seu livro "A Rebelião das Massas", de 1930. Anos depois, o nosso Nelson Rodrigues retomou a tese (com mais graça).
O fenômeno é relativamente recente. Os idiotas sempre foram maioria, desde tempos imemoriais. Só que antigamente o idiota era submisso e humilde. Não se aventurava fora de limites estreitos e bem definidos. De repente (mais precisamente no século 20), ocorre a sublevação jamais vista, nunca imaginada. Os idiotas descobrem o óbvio: "Somos maioria, esmagadora maioria". E passaram o trator por cima dos melhores. Começaram a se projetar em escala global (a própria "globalização" é, no essencial, obra límpida e inequívoca dos idiotas).
Os papéis se inverteram. Funções e responsabilidades antes reservadas aos melhores passaram a ser exercidas por idiotas de babar na gravata. Qualificações exigidas: alguma habilidade, marketing, jogo de cintura, palavra fácil e audácia. Com base nisso, passaram a governar países, dirigir empresas, dar aulas, publicar livros, proferir conferências, conceder entrevistas etc.
Na nossa época, os inteligentes, os sensíveis, os profundos vivem totalmente acuados. Para não serem massacrados, muitos simulam idiotice. Nelson Rodrigues falava dos "falsos cretinos", sujeitos inteligentes e até excepcionais que se vêem, entretanto, compelidos a disfarçar o seu talento como se se tratasse de alguma mácula, algum pecado, alguma tara vergonhosa.
É claro que em outras épocas sempre havia um ou outro idiota em posição de destaque. Mas agora os idiotas estão em todas as áreas e dominam grande parte da cena.
Exemplos? Vamos começar pelo alto: o "companheiro Bush". Quem sou eu para julgar o presidente do país mais poderoso do mundo? Deixo a tarefa para um dos gênios brasileiros do século 20: Oscar Niemeyer. Em solenidade anteontem no Rio de Janeiro, o grande arquiteto referiu-se ao companheiro Bush assim: "É um idiota". Na minha opinião, John Kerry perdeu a eleição fundamentalmente por não ter sabido dissimular a sua esmagadora superioridade. Foi considerado arrogante e elitista. Caixão.
Na verdade, era da política de juros e câmbio que eu pretendia falar hoje (o espaço está acabando). A direção do Banco Central está reeditando os aspectos mais idiotas da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso. A combinação de juros estratosféricos e câmbio fortemente sobrevalorizado ajuda a combater a inflação e poderá permitir que ela fique dentro do intervalo estabelecido pelo Conselho Monetário Nacional para 2005.
Mas, santo Deus, a que preço! A economia encontra-se em franca desaceleração, o que afetará cada vez mais as taxas de desemprego e os salários. A produção industrial e os investimentos estão em queda. As taxas de juro sobrecarregam o custo da dívida pública e promovem concentração da renda nacional em um país que já apresenta uma das piores distribuições de renda e de riqueza do planeta. A valorização cambial prejudica fatalmente as contas externas e reforça a tendência à estagnação.
Idiotice? Não creio. Os diretores do BC são todos inteligentíssimos. Só há uma conclusão possível: a política de moeda e câmbio está nas mãos de "falsos cretinos", que operam sob intensa pressão dos idiotas de todas as procedências.
Faço então um apelo enfático: idiotas do Brasil inteiro, por favor, dêem um descanso à diretoria do BC!
folha de s paulo
Lucia Hippolito:Que o presidente cumpra com seu dever
"De vez em quando, renasce das cinzas esta idéia estapafúrdia de renúncia coletiva do ministério.
Só no governo Lula, já é a segunda vez que alguém propõe que todos os ministros entreguem o cargo, para facilitar uma possível reforma ministerial promovida pelo presidente.
Mas não é privilégio deste governo. No governo Fernando Henrique mesmo houve uma iniciativa parecida. E o resultado foi o seguinte: os ministros do PMDB fizeram cara de paisagem, não pediram demissão coisa nenhuma, e a história da renúncia coletiva morreu rapidinho.
Agora, a desculpa é ajudar o presidente Lula a reformar o ministério sem precisar magoar companheiros. Não dá. Governar é fazer escolhas, e de vez em quando alguém sai magoado, sim senhor.
Mas esta história da renúncia coletiva é profundamente injusta com os ministros competentes e trabalhadores. Uma renúncia deles seria extremamente confortável para os ministros incompetentes, inoperantes ou envolvidos em grossa irregularidade.
Por que um ministro que trabalha tem que pedir demissão para que aquele que não trabalha não seja exposto ao constrangimento?
No governo Lula, que tem um ministério enorme, os ministros competentes e trabalhadores estão em franca minoria. Seus nomes, todo mundo sabe quais são. Por que cargas d´água deveriam pedir demissão, se estão trabalhando direitinho? Só para facilitar a vida do presidente?
Como muito bem lembrou o ministro Palocci, os cargos de ministro estão permanentemente à disposição do presidente, a quem cabe a responsabilidade de nomear e demitir.
Avançar sobre esta prerrogativa do presidente da República pode ser encarado como uma tentativa de usurpar uma parte do poder que o eleitorado deu a Lula em 2002.
Além disso, renúncia coletiva é uma forma de tornar ainda mais pública uma dificuldade do presidente Lula: a de demitir auxiliares e aliados, novos ou antigos. Ele é amigo de seus amigos e não deixa companheiro ao relento.
Mas explorar esta faceta do temperamento do presidente é papel da oposição, não de companheiros do mesmo partido.
Renúncia coletiva de ministério pode ser um equívoco perigoso. Mesmo em tempos normais.
Imaginem, então, nesses tempos tumultuados de CPI, desarticulação política e desconfiança generalizada."
BLOG Ricardo Noblat
Merval Pereira :Vôo solo
Maníaco por análises de pesquisas eleitorais, o resultado que o coloca entre 7% e 8% nas intenções de voto não o desanima porque acredita que, neste momento, "as intenções de votos ainda não têm, para o eleitor, o sentido do seu dia-a-dia, precisam ser bem cruzadas para significarem alguma coisa". Para Cesar Maia, as perguntas mais importantes das pesquisas "são as que tratam de avaliações que os eleitores fazem daquilo que podem julgar, pois se trata de seu cotidiano".
Ele avalia que sua candidatura "emplacará se se tornar competitiva", mas explica que não se mede essa condição por porcentagens "mas pela capacidade de crescimento", tecnicamente chamada de "taxa de contaminação". "Se isso não acontecer, fico quietinho aqui", garante Cesar Maia, sinalizando que não pretende concorrer ao governo do estado.
Segundo ele, a corrida presidencial em situação de reeleição, num regime presidencialista "é uma luta do governo contra ele mesmo". Analisando os últimos números das pesquisas, ele vê a situação de Lula aproximando-se de "um quadro crítico".
Entre dezembro de 2004 e maio de 2005, os indicadores de apoio vêm piorando em todos os setores. Política econômica: 41% eram a favor e 35% contra; agora é de 38% a favor e 45% contra. Área social: 43% x 34% para 41% x 43%. Política: 36% x 36% para 36% x 47%. Ações do governo federal: 40% x 36% para 39% x 45%. Corrupção no governo Lula: aumentou para 31%, diminuiu para 17%. Renda nos últimos seis meses: aumentou para 13%. Diminuiu para 31%. Saúde nos últimos seis meses: melhorou para 20% e piorou para 48%. Educação nos últimos seis meses: melhorou para 31% e piorou para 32%, índice pela primeira vez negativo na série. Pobreza nos últimos seis meses: melhorou para 9%, e piorou para 65%.Violência nos últimos seis meses: melhorou para 4% e piorou para 83%.
Cesar Maia diz que se Lula se aproximar dos 50% de aprovação — hoje ele está com índice de 57%, tendo fechado 2004 com 65% — e/ou passar dos 20% do ruim/péssimo — hoje já está com índice de 19% — "estará prontinho para perder a eleição, e deixa de ser favorito num segundo turno". Mas acha que o adversário para bater Lula não sairá do PSDB: "2005 e 2006 serão anos medíocres na economia, mas o segundo mandato de FHC foi muito pior. A memória está viva nas pesquisas", diz ele.
Pela sua análise, depois de ter sido duas vezes presidente, só Fernando Henrique é efetivamente testado nestas pesquisas contra Lula. E com resultados ruins: "No mano a mano com Lula, pela pesquisa Sensus, FHC obteve 22,9% em abril e 20,9% em maio. Lula caiu de 56,8% para 52,8% e FHC veio junto, mostrando muita fragilidade. É muito pouco para um ex-presidente duas vezes".
Cesar Maia garante que tem pesquisas que mostram que o ex-presidente Fernando Henrique "contamina o Alckmin, Serra e Aécio, quando se cola quaisquer dos três a ele". Nessas pesquisas, à pergunta "Você votaria num candidato do FHC?" a resposta negativa, segundo ele, "tem um índice muito alto, chega às vezes a mais de 60%".
Ele acusa o PSDB de ter se beneficiado do que chama de "operação delenda Cesar Maia", a intervenção federal na saúde do Rio. Cesar Maia não deixou escapar que no programa de TV regional do Rio, "o PSDB trouxe seus três candidatos para tratarem do tema da saúde aqui, esquecendo que o secretário é do PSDB", diz ele, referindo-se ao deputado federal Ronaldo Cezar Coelho, seu secretário municipal de Saúde.
Ele também discorda da avaliação generalizada de que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi o que teve avaliação mais positiva na pesquisa Sensus por ter sido considerado o melhor governador por 18,4% dos entrevistados, seguido de Aécio Neves com 16,6% e Rosinha com 13%. Como o Sudeste responde por 44,2% do eleitorado brasileiro, e considerando que na pesquisa Sensus não foram feitas entrevistas no Espírito Santo, Cesar Maia chega aos seguintes "pesos eleitorais" dos estados do Sudeste: São Paulo, 23,1%; Minas, 11,2%; Rio, 9,5%.
Por isso, afirma que, ao contrário, o governador de São Paulo "foi o pior avaliado" pois obteve um percentual de aprovação inferior ao peso de São Paulo, "ou seja, só ficou na frente porque o número de eleitores de São Paulo é muitíssimo maior do que os do Rio e Minas".
Cesar Maia destaca que na própria pesquisa encomendada pelo PSDB, "quando retirado o Estado de São Paulo, Alckmin vem para quarto lugar, cabeça a cabeça com a Heloísa Helena". Ele acha, por sinal, que a senadora Heloísa Helena, fundadora do P-SOL, "entrou na classe média". Calcula que se ela tiver um pouco de exposição na televisão, "vai certamente para uns 10%. E se adotar um modo de vestir Hillary ( referindo-se à ex-primeira-dama dos Estados Unidos, senadora Hillary Clinton), vai crescer mais ainda".
O prefeito do Rio diz que as análises do PSDB, que apontam sua candidatura como estagnada, não levam em conta "que em São Paulo eles entram com um nome só, e aqui no Estado do Rio Garotinho e eu dividimos os demais votos". Ele diz que uma pesquisa com dois mil eleitores realizada no Estado do Rio entre 21 e 24 de maio, deu a Lula 27,7% das intenções de voto, "muito menos que em São Paulo".
o globo
Miriam Leitão:Ajuste na previsão
O problema é que há sazonalidade também nos preços e eles costumam subir mais fortemente no segundo semestre. A esperança é de que a elevação dos juros e a queda do dólar, enfim, permitam a redução dos preços. Os juros ocupam espaço tão exagerado no debate brasileiro quanto no esforço fiscal do país. Até agora, a discussão foi sobre o fim do período de aumento das taxas. Em junho, há uma grande chance de que o ciclo de alta seja interrompido. Aí começa uma segunda etapa da interminável discussão sobre o tema: quando eles começarão a cair.
O IPCA de maio deve cair para perto de 0,60%. Em junho, vai cair de novo; para perto de 0,40%. O problema é julho, quando pode voltar a subir por causa de alguns aumentos de preços administrados, entre eles energia em São Paulo.
A intensidade dessa queda vai determinar o rumo da política de juros. Por enquanto, a esperança é de que em setembro os juros comecem a cair. A grande dúvida é o que acontecerá com o ano eleitoral de 2006. Se houver novos episódios de alta de inflação, será possível subir de novo a Selic num momento em que o governo estará lutando por mais um período de quatro anos?
A agropecuária, que segurou o PIB no primeiro trimestre, deve, em algum momento, mostrar na estatística o efeito da quebra de 20% da safra de grãos, que aconteceu no Sul do país pelo longo período de seca. Os economistas acham que o setor agrícola, que foi o que mais cresceu no primeiro trimestre de 2005, fechará o ano com crescimento zero. Por enquanto, os dados ainda estão positivos, mostrando o efeito das altas do café e da carne no mercado internacional. Mas o setor como um todo está com problemas.
Diante dos dados divulgados esta semana, os economistas tentarão projetar o que será preciso acontecer para que se chegue ao crescimento do PIB imaginado para 2005. Com apenas 0,3% de crescimento no primeiro trimestre, o país precisaria crescer 1,6% a cada trimestre até o fim do ano para se chegar a um crescimento de 4%. Se for 3,5%, o crescimento trimestral terá que ser de 1,2%. Por isso, os analistas começam a ajustar seus cenários. Como não farão a mudança todos ao mesmo tempo, as próximas semanas vão mostrar essa queda lenta para um patamar de crescimento menor. Em março deste ano, a média das previsões era de um crescimento de 3,7%. Está em 3,5% e vai cair para 3%.
O ano não está perdido. Ainda há muita coisa boa acontecendo. Os bancos acham que, nas próximas semanas, deve se confirmar o cenário de queda da inflação, apesar de o segundo semestre ser sazonalmente de números piores. A perspectiva é de que aconteça o oposto e a queda do câmbio chegue finalmente aos preços. Os empresários trabalhavam com a hipótese de que o câmbio valorizado era temporário, mas agora já vêem esse patamar como uma tendência. Isso vai acelerar a passagem da queda do câmbio para os preços. Se assim acontecer, a inflação cairá no segundo e no terceiro trimestres, permitindo a redução dos juros.
No setor externo, as notícias continuam boas; quando se comparam as previsões feitas meses atrás com as de hoje, dá para ver quanto o cenário melhorou. No começo do ano, a previsão dos bancos e consultorias era de um saldo da balança comercial de US$ 26 bilhões. Agora é de US$ 35 bilhões, US$ 9 bilhões a mais, apesar de o dólar em queda favorecer a importação. Aliás, no setor externo, a velocidade e a profundidade da mudança do cenário impressionam. No começo de 2003, quando convidados a estimar o balanço externo em 2005, os bancos e consultoria disseram que haveria um déficit de US$ 7 bilhões na conta de transações correntes. Agora apostam em um superávit de US$ 9,4 bilhões. Os dados já confirmados mostram que o país saiu de um déficit de US$ 23 bilhões em 2001 para um superávit de US$ 11 bilhões em 2004. Ou seja, um ajuste de US$ 34 bilhões em três anos.
Mas esses bons números impressionam apenas os especialistas; os profissionais que vivem de analisar, estimar e calcular as previsões dos indicadores econômicos é que valorizam a virada externa. A população tem se mostrado cada vez mais pessimista. Os dados da pesquisa de opinião pública, divulgados esta semana pela CNT-Sensus, mostram que 45,2% dos entrevistados acham que a economia está sendo administrada de forma equivocada, cinco pontos a mais que na última pesquisa. Isso representa uma parcela de 54,6% dos que responderam a questão.
O pessimismo econômico pode aumentar ainda mais o pessimismo político. E vice-versa. Apenas 17% acham que a corrupção no governo Lula diminuiu e 77% acham que ficou igual ou aumentou. Esse não é o momento para o governo jogar com armas tão discutíveis, como tem jogado, para evitar uma CPI.
O eleitor brasileiro, decepcionado com a constatação de que o PT não era um partido melhor que os outros, como apregoava, vai enfrentar uma conjuntura econômica sem brilho, em que as más notícias serão preponderantes.
o globo
Dora Kramer:Palocci em campo minado
Palocci tem o que falta ao chefe da Casa Civil, José Dirceu: moderação, sutileza, boa imagem, serenidade, credibilidade, trânsito na oposição, respeito aos pares, habilidades em sintonia fina e a autoridade moral perdida por Dirceu quando seu braço direito, Waldomiro Diniz, foi flagrado em ato de corrupção explícita.
E aqui a comparação é feita com José Dirceu e não com Aldo Rebelo porque é ao chefe da Casa Civil que são atribuídas qualidades de grande articulador político.
Para Rebelo, sobra apenas a conta da responsabilidade pelos equívocos inspirados na lógica da ação rígida, bem ao gosto de Dirceu.
Mas voltando ao ministro da Fazenda, agora ungido (não oficialmente, mas de fato) ao centro da cena política. À primeira vista, o Governo realmente parece ter tudo a ganhar.
No tocante à crise aguda, se Palocci atuar, não será tão improvável a hipótese de o Palácio do Planalto desta vez escapar de uma CPI. Ele vai ao ponto quando esmiuça a razão pela qual é essencial para o Governo evitar a instalação de um processo político de investigação.
Segundo Palocci, "os meninos do PT" não têm preparo profissional nem resistência emocional para enfrentar uma CPI. Palocci exibe cabeça fria e pés no chão e, para concordar com ele, basta observar o desempenho da quase totalidade (são pouquíssimas as exceções) dos deputados e senadores petistas diariamente na Câmara e no Senado.
A maioria é simplesmente inepta, e os melhores quadros têm um certo constrangimento em assumir determinadas posições. A união de gosto pela coisa e com boa formação e atuação aparece em poucos.
O ministro da Fazenda também foi bem na estréia ao não deixar que seguisse adiante a proposta do ministro Luiz Gushiken de os ministros apresentarem suas renúncias coletivamente a fim de "permitir" ao presidente da República fazer a reforma ministerial mais à vontade.
Para a oposição, cujo novo lema é que o presidente não manda nem desmanda, seria um excelente prato pois, ato contínuo à renúncia, tucanos e pefelistas sairiam dizendo que Lula não tem iniciativa nem poder para mexer em sua equipe.
Esta, a questão da autoridade, é um dos problemas – o menor deles – que podem resultar das novas funções do ministro da Fazenda. Por isso, a solução não rende só benefícios e apenas na teoria é um achado.
Na prática, denota fragilidade e reforça a tese do presidente sem capacidade de comando e organização, que entregou a economia a Palocci e agora entrega também a política.
Outro problema, este bem maior, é o risco de o ministro da Fazenda ser contaminado pela barafunda da área política.
O cenário é desgastante, em algumas ocasiões torna-se mesmo degradante, e pode não ser apropriado o ministro Palocci deixar a redoma blindada de um setor bem avaliado para travar batalhas em campo minado.
As chances de ganhos são poucas, e os riscos de perdas, absolutamente monumentais.
Pauta popular
Tucanos como o governador Geraldo Alckmin e o líder do PSDB no Senado, Artur Virgílio, incorporaram na última semana em seus discursos frases fortes para desqualificar os predicados de comando do presidente da República.
Outros oposicionistas irão nessa linha. Pautados por pesquisa do instituto Ipsos-Brasil. Na parte qualitativa da pesquisa, em que os consultados opinam, 57% deles concordaram com a afirmativa: "Falta comando e liderança no Governo. Lula tem menos autoridade do que eu esperava".
A frase "Lula cede demais a pressões e termina não fazendo as coisas acontecerem" teve a concordância de 58% dos pesquisados; 48% aceitaram como verdade que "as coisas não acontecem porque Lula não comanda os ministros" e igual percentual apoiou a assertiva: "Lula se comove com os problemas do País, mas não põe a mão na massa para resolver".
Diante disso, os analistas da pesquisa recomendam aos tucanos reforço na idéia de "um Lula fraco, sem pulso, que se cercou de amigos e correligionários dos quais não tem coragem de se livrar nem para melhorar o desempenho do Governo".
Pronto ou parado
O ministro José Dirceu disse que a adoção do pregão eletrônico via Internet para as compras do setor público nada tem a ver com as denúncias de corrupção e licitações suspeitas nos Correios.
"O pregão foi anunciado na hora em que ficou pronto", afirmou.
Não foi, não. A divulgação do pregão ocorreu há 70 dias,em 25 de março, por intermédio do próprio José Dirceu, que na mesma ocasião anunciou: "Vamos transformar 2005 no ano da eficiência".
o dia
quarta-feira, junho 01, 2005
Quanto vale Deep throat
01.06.2005 | A revista The Washingtonian, uma das primeiras a ter blog em tempos recentes, parece ter sido a primeira a acertar a identidade correta do Garganta profunda, em 1974. Lá, pouco após a publicação do livro Todos os homens do presidente, publicou:
Quem tinha o motivo e a oportunidade e o método? Quem odiava o que Nixon estava fazendo consigo? Quem tinha acesso a todo material? Quem tinha os meios para montar um sistema de vazamento?
Era o FBI. A turma das antigas, os caras de Hoover que estavam sendo pressionados e ofendidos e demitidos por Nixon [...] Você quer desmontar a organização que John Edgar Hoover construiu por quatro décadas? Quer que um bando de garotões espertos com suas camisas para fora das calças nos dizer como fazer o trabalho?
Leia as transcrições das conversas presidenciais de 28 de fevereiro e 13 de março e então preste atenção num sujeito como Mark Felt. Um cara leal a Hoover, homem número dois de Pat Gray, tinha todas as razões e acesso para liberar a história sobre Watergate e destruir Nixon.
Segundo eles, em cima do lançamento, a derrubada de Richard Nixon foi também a última jogada de xadrez de J. Edgar Hoover, mestre diretor chantagista do FBI entre 1924 e 72. Talvez estivessem errados nos motivos, quem há de saber? Talvez estivessem mais que corretos nos motivos. Mas isso é conjectura. O furo é todo da Vanity Fair. Durante décadas, um bocado de gente teve boas teorias – elas não são difíceis de construir. A Vanity Fair teve coisa diferente, um sujeito dizendo "eu sou Deep throat". Era ele mesmo.
Segundo o Washington Post, jornal responsável pela série de reportagens sobre o escândalo Watergate, o advogado John O'Connor procurou a revista com a história faz dois anos – mas queria dinheiro para a família de Felt em troca do furo. Então o advogado procurou pelo mercado editorial em busca de um acordo financeiro para um livro – fracassou, retornou à Vanity Fair.
O testemunho de O'Connor não bastava. Quinze editores e repórteres da revista checaram com fontes as mais diversas o testemunho do advogado, inclusive gente próxima à família, deixando o texto enxuto e irrepreensível. Todos os envolvidos na feitura assinaram acordos de confidencialidade. Agora, o trecho curioso na matéria do Post:
Na verdade, o Post foi furado, após ter mantido o segredo de Felt por mais de três décadas.
O editor-chefe do Post, Leonar Downie Jr, disse ontem que Woodward "fez a coisa certa ao manter seu acordo de confidencialidade" com Felt. "Ele concordou em não revelar sua identidade até ser liberado da promessa ou que a fonte morresse, e fez isso."
Embora Woodward tivesse contato periódico com a família de Felt e estivesse escrevendo um livro a respeito de sua relação com Deep throat, Downie disse que nunca ninguém da família de Felt disse a Woodoard que ele planejava ir a público. "Bob não tinha como agir" porque Felt nunca sugeriu que o acordo havia terminado, disse Downie.
A reportagem vai além, mas ambas, a primeira teoria de 74 e a matéria de hoje do Post sugerem que cá este blogueiro foi um quê romântico demais em sua coluna.
Felt agiu como agiu para defender o FBI de J. Edgar Hoover, um manipulador de primeira categoria. Hoover, que costumava montar dossiês com dados sexuais daqueles em Washington para a chantagem eventual em troca de poder, sustentou-se dos anos 20 à morte, em 72.
Mas fica parecendo que o velho número dois do FBI perdeu por completo a capacidade de decidir por si próprio – e sua família saiu ao mercado, por meio de um advogado, para angariar algum lucro com a identidade. Passaram a perna no repórter do Post, acostumado a contratos milionários para livros. Qual a real história? Melhor apostar na definição definitiva, ainda por vir, na coletânea da apuração porvir. via Political wire
weblog no mínimo
Lucia Hippolito:O povo está atento à corrupção
Quando perguntados sobre os motivos para os cidadãos não sentirem orgulho do Brasil, a campeã das respostas foi a corrupção, superando mesmo a violência e a miséria, que lideravam em pesquisas anteriores.
Assim também quando perguntados sobre a principal causa da violência, o desemprego vem em primeiro lugar, e a corrupção vem em quarto lugar.
Mas quando perguntados sobre o que fazer para resolver o problema da violência, a campeã de respostas foi: "punições mais rigorosas". Ou seja, há uma perfeita compreensão de que a impunidade é prima-irmã da violência e da corrupção.
Outro momento importante é a pergunta sobre a corrupção durante o governo Lula. Enquanto 31% consideram que a corrupção aumentou, 45% acham que ficou como sempre esteve, e apenas 17% dos entrevistados acham que a corrupção diminuiu durante o governo Lula.
Estas percepções são importantes porque ajudam a explicar a forte queda na popularidade do presidente Lula que, em três meses, caiu quase nove pontos percentuais, de 65,3% em fevereiro, para 57,4% na pesquisa divulgada ontem.
O mesmo fenômeno aconteceu com a popularidade do presidente a partir de fevereiro do ano passado, quando explodiu o escândalo Waldomiro Diniz. A popularidade de Lula estava em 65,3%, caiu para 59,6% em março e para 54,1% em junho. Queda de mais de 11 pontos percentuais em três meses.
O que mostra que a população está atenta às denúncias de corrupção e, sobretudo, à reação do presidente. No ano passado, a operação abafa para impedir a instalação da CPI para investigar Waldomiro Diniz foi bem sucedida.
Mas agora o governo não está tendo o mesmo sucesso na tentativa de abafar a CPI dos Correios. Além disso, há uma sensação de que presidente Lula é alguém que não manda, que é excessivamente tolerante com amigos, aliados e auxiliares envolvidos em irregularidades, como alguém que tem dificuldade de demitir e de botar ordem na casa, além de ter dado um cheque em branco para um deputado que está no centro da crise política.
Tudo isto não pode deixar de sangrar a popularidade do presidente."
BLOG Ricardo Noblat
LUÍS NASSIF:Liberalismo à brasileira
À luz desses dados, vamos comparar o raciocínio de um economista brasileiro internacional com outro internacionalizado. Em entrevista ao "O Globo" de segunda-feira, o economista José Alexandre Scheinkman -o internacional- dizia não conseguir saber a razão de o BC não avaliar os impactos dos juros sobre a dívida pública.
Se vai afetar de forma definitiva o futuro, se a queda da relação dívida/PIB é fundamental, por que esses dados não são levados em conta na definição da taxa Selic?
Sobre a inflação, diz ele que a "moderna teoria" das metas inflacionárias considera errado incluir no núcleo da inflação (o que serve de base para fixar as metas) preços sobre os quais os juros não exercem nenhum impacto -tarifas públicas e preços administrados em geral.
Essa crítica vem sendo feita há muito por analistas internos, valendo-se apenas do bom senso. E sempre foi rebatida com o argumento de que a "moderna teoria" não recomendava excluir preços administrados. Com a validação internacional de Scheinkman, é possível que o bom senso possa finalmente se impor.
Na análise dos gastos sociais, Scheinkman é taxativo. O Brasil gasta mal, mas está melhorando, o Bolsa Família é um avanço, embora possa ser melhorado, e é malicioso o estratagema de levantar exemplos pontuais de desperdício para justificar corte dos gastos sociais. E enalteceu o trabalho do Ministério da Fazenda de aprimoramento de políticas microeconômicas.
Em suma, vai direto aos pontos que interferem diretamente na construção do país e da competitividade: educação, políticas sociais, políticas microeconômicas e crítica aos excessos da política macroeconômica, sem incorrer em populismo fiscal.
Compare-se, agora, com as afirmações de Armando Castellar Pinheiro, economista do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), em artigo no "Valor" de sexta-feira passada.
Castellar constata que os gastos sociais são mal empregados no Brasil. A economia vai mal porque o flanelinha, a empresa na informalidade, os assaltos, a ocupação de propriedades aumentam os gastos das famílias. E a carga fiscal é elevada. Aponta desperdícios pontuais nos programas sociais e conclui que a única maneira de crescer será cortar gastos com aposentadoria e programas sociais, especialmente os voltados para os idosos. Passa ao largo das despesas com juros, da perda de tributação com os fundos "offshore", dos golpes corporativos.
Ambos são ortodoxos. Mas há uma diferença de fundo entre o liberalismo bebido na fonte e esse liberalismo à brasileira.
Coisa nossa
A modelo Noemi Campbell se ofereceu para divulgar a marca "Brasil" no exterior. De graça. Recentemente, um jogador brasileiro no exterior, do mesmo nível de Ronaldo, procurou a Embratur e se ofereceu para o mesmo trabalho. Por US$ 300 mil.
folha de s paulo
Charlton Heston e eu por EDUARDO GRAEFF
Meu receio não é que a proibição do comércio de armas seja só inócua. É que ela agrave o mal que deveria remediar |
O uso que fazemos das leis no Brasil às vezes me lembra essa anedota. No campo penal é recorrente. Toda vez que algum caso mais escabroso aguça a sensação geral de impunidade, alguém sai com a proposta: "Aumenta a pena! Transforma em crime hediondo".
A polícia arquiva uma quantidade espantosa de inquéritos sem apontar culpados. A morosidade da Justiça deixa criminosos identificados escapar da punição graças à prescrição legal. Milhares de mandados de prisão não são cumpridos por falta de vaga nas penitenciárias. Mas tudo bem: se não conseguimos aplicar a lei na vida real, por que não deixá-la mais dura no papel e dar uma satisfação para a coitada da sociedade?
Receio que algo parecido possa acontecer com a proibição do comércio de armas de fogo. A lei já proíbe o porte de arma pelos cidadãos em geral; a venda de armas a pessoas com antecedentes criminais; a posse de armas classificadas como de uso restrito; disparar arma de fogo em área habitada ou via pública; o comércio não autorizado de arma de fogo. E pune as violações com penas que vão de um a oito anos de prisão. Que bom, não é? Melhor, só se fosse de verdade.
Acontece que o Estado não tem conseguido fazer cumprir essas e outras tantas proibições legais mais do que razoáveis e apoiadas pela esmagadora maioria da sociedade.
Que dizer então de uma proibição que para boa parte da sociedade poderá parecer pouco razoável?
No lugar onde eu me criei era normal ter um revólver dentro de casa e aprender a usá-lo. Imagino que no interior do Brasil em geral ainda seja esse o costume. Certo, o mundo mudou. Hoje, nas cidades grandes, quem ensina os meninos a mexer com arma de fogo pode não ser o pai ou um tio, mas o gerente local do narcotráfico. Mas, a quem a nova proibição legal se endereça? Ao traficante e seus pupilos? Diante da lista de artigos do código penal que já violam, não acredito que eles vão ficar muito impressionados. Nem deve passar pela cabeça deles comprar e registrar legalmente uma arma. Muito menos para deixar em casa.
Agora eu me ponho no lugar do homem que, certo ou errado, por amor à tradição ou horror à modernidade, acredita que precisa de uma arma em casa para espantar algum mal-intencionado que venha a forçar a entrada. Será que por causa de uma lei a mais a confiança dele na proteção do Estado vai aumentar tanto a ponto de se convencer de que não precisa de arma nenhuma? Se ele se convencer, ótimo. Mas, e se ele não se convencer? Se, teimosamente, continuar achando que precisa proteger a si mesmo? E se não tiver dinheiro para botar um segurança armado na frente de casa, como muitos de nós fazemos? A quem ele vai atender: à ordem do Estado ou à voz da sua própria necessidade?
Meu receio não é que a proibição do comércio de armas seja simplesmente inócua. É que ela acabe agravando o mal que deveria remediar e esse brasileiro teimoso acabe sendo empurrado para os desvãos entre a lei e o costume onde habitam os jogos de azar (exceto as loterias federais e estaduais) e o tráfico e uso de drogas (exceto as engarrafadas por multinacionais).
O contrabando de armas pesadas já é um rico filão do crime organizado. Qual o problema de botar mais uns revólveres, pistolas e a respectiva munição no catálogo para a clientela que hoje se abastece nas lojas de armas?
Tenho inveja dos lugares do mundo onde as pessoas nem pensam em ter uma arma em casa porque acham desnecessário. E dos lugares onde em todo caso não usam arma de fogo para atacar ou se defender de outras pessoas. Mas não me consta que esses lugares tenham chegado lá por decreto. Se for conferir, antes de restringir ou eventualmente proibir a oferta, eles passaram por mudanças sociais, políticas e culturais que diminuíram a demanda de armas na mesma proporção em que sedimentaram a confiança das pessoas na proteção do Estado.
Em dois minutos você e eu poderíamos listar uma dúzia de medidas que ajudariam a aumentar a nossa confiança no Estado. Um primeiro item modesto, mas promissor, seria confiscar os telefones celulares que os chefes do crime organizado usam para comandar seus soldados de trás das grandes. Se nem isso conseguimos... Bem, pode ser que seja mais fácil tomar as armas dos cidadãos tementes da lei. Ou não.
Na dúvida, tenho que admitir: se houver o tal referendo, voto contra a proibição do comércio de armas. Em desagravo às professorinhas e em tributo à minha insegurança ancestral.
folha de s paulo
FERNANDO RODRIGUES:Queda lenta e constante
A comparação a ser feita é com o governo anterior. No seu primeiro mandato, num levantamento com a mesma metodologia do CNT/Sensus, a administração de FHC teve 42% de aprovação em março de 1997. Em setembro do mesmo ano, havia recuado para 36%.
O percentual de maio de 1997 (quando o tucano tinha dois anos e cinco meses de Palácio do Planalto) não está disponível. Mas é correto inferir que o patamar de "bom" e "ótimo" de FHC regulava com o obtido agora pelo seu sucessor petista.
Hoje há mais informação à mão. Por exemplo, a maioria dos eleitores considera inadequada a condução da economia, o ritmo do desenvolvimento, a atuação política e ações em geral do governo Lula.
Os eleitores continuam a gostar mais de Lula do que de seu governo. A imagem pessoal do presidente (aprovação de 57,4%) é melhor do que a da sua administração (39,8%).
Como se não bastassem os sinais amarelos da pesquisa CNT/Sensus, ontem saiu o crescimento do PIB no primeiro trimestre: só 0,3% sobre o período anterior. Pior: o número de 2004 foi de 4,9%, e não os 5,2% anunciados anteriormente.
Essa enxurrada de dados desagradáveis deve ser levada em conta para o que mais importa na política: as chances de Lula se reeleger em 2006. Hoje ele ainda é o favorito. Em outubro do ano que vem, não se sabe.
Em 1998, FHC se reelegeu com o discurso do medo. Era "ou eu ou o caos na economia". O PSDB avalia ser inviável Lula usar esse argumento. Petistas e tucanos hoje pensam da mesma forma nessa área. Prometer esperança e moralidade também não deve colar com facilidade. Na falta de opção, Lula se agarra aos Robertos Jeffersons e aos PTBs da vida. Não deixa de ser uma escolha.
folha de s paulo
CLÓVIS ROSSI:Insulto
Ainda mais que, se você se enquadra no perfil do leitor médio desta Folha, está na classe média, justamente aquela que mais sentiu o baque das duas décadas perdidas da economia tupiniquim. Logo, você PRECISA investir para melhorar de vida, certo? Bom, o governo brasileiro está na situação acima relatada: gasta por dia, de juros, mais do que investe em um país afogado em necessidades primárias.
O que choca não é só o fato em si, já de deixar qualquer um estupefato (há muito tempo não usava essa palavra; espero que o Cony aprove). É justamente não haver um estado de estupor coletivo, uma gritaria contra uma situação que supera os limites da mais pura insanidade.
Pior: não é um fato novo. Aqui mesmo, neste espaço, logo no início do governo Lula, critiquei o fato de o governo conseguir ser incompetente para gastar, uma raridade no setor público de qualquer país. Entende-se, embora não se justifique necessariamente, que um governo seja incompetente para poupar, ainda mais em um país tão cheio de carências e demandas como o Brasil.
Mas é incompreensível que, nesse mesmíssimo país, grávido de necessidades, o governo seja incompetente para gastar. Eu não concordo, mas sou capaz de entender que a gestão Lula economize 4,25% do PIB para pagar os juros.
Agora, economizar 7,26% do PIB para pagar juros, como está ocorrendo, é um insulto ao bom senso.
folha de s paulo
Zuenir Ventura: Tão bela e tão suja
Se de fato a Comlurb é uma das instituições mais simpáticas e que melhor funcionam, como se explica o paradoxo? Por que o aparato de que dispõe a cidade como nenhuma outra proporcionalmente — 50 mil lixeiras e nove mil garis — não dá conta da sujeira que produzimos diariamente? Por que o lixo jogado no chão representa 40% do total do município, enquanto em outras grandes cidades do Primeiro Mundo não passa de 5%?
A resposta é simples: apesar de ser um povo asseado individualmente, que gosta de água desde o tempo dos tamoios, o carioca é imundo coletivamente — limpo por dentro e sujo por fora. Ou seja, é capaz de manter brilhando o seu espaço privado, cuidando como poucos da higiene pessoal e doméstica — do corpo, da roupa íntima, da casa e do carro — mas joga toda a sujeira na rua, transformando o espaço público numa grande lixeira.
A mesma dama da Zona Sul que exige da empregada deixar impecável o chão do seu apartamento é a que acha normal levar o cachorro para fazer cocô na calçada ou nos canteiros. O motorista que paga ao porteiro para lavar seu automóvel três vezes por semana, quando não todo dia, é o mesmo que não tem o menor pudor de jogar fora pela janela garrafas de plástico, sacos de papel amassado e latas de refrigerante.
Talvez, quem sabe, isso seja herança do velho hábito colonial de guardar os excrementos e dejetos domiciliares em barris, que eram transportados pelos escravos, os "tigres", e jogados à noite em terrenos baldios ou no mar.
O pior é que, por falta de educação e por mau hábito, o lixo vem aumentando oito ou nove vezes mais do que a população nesses últimos 20 anos. E não há muito o que fazer, a não ser aplicar a lei que desde 2001 prevê multa e sanção para quem polui o espaço público. Mas, como sempre, não se consegue fazê-la cumprir. Como disse uma vez o presidente da Comlurb, "experimente dizer para alguém não jogar lixo na rua. A pessoa ri na cara".
o globo
ELIO GASPARI: A patrulha da nova moral petista
Buarque se aborreceu quando o senador Eduardo Suplicy lhe contou que recebeu centenas de mensagens eletrônicas (911) felicitando-o por apoiar a criação da CPI: "E eu estou recebendo agora e-mails e cartas dizendo que o único homem sério do Senado é você", queixou-se o ex-ministro da Educação.
Chinaglia se contrariou com a conduta dos doze deputados petistas que ajudaram a criar a CPI: "Não acho justo com o conjunto (?) porque ficam parecendo que são melhores que os outros, e não são."
Buarque e Chinaglia ofendem a Lei de Serpico, o detetive nova-iorquino que tomou um tiro na cara numa boca-de-pó do Harlem (Al Pacino no filme): "É o policial corrupto quem deve ter medo do policial honesto e não o contrário."
Cristóvam Buarque se aborrece porque dizem que Eduardo Suplicy é o único "homem sério do Senado". O doutor poderia ter apoiado a criação da CPI e, nesse caso, receberia uma parte das 911 mensagens recebidas pelo colega. Pode sustentar que agiu de acordo com seus princípios ao negar apoio à CPI, mas não pode se queixar das mensagens recebidas por Suplicy. Pela Lei de Serpico o senador paulista fez o certo.
Chinaglia não acha justo que os doze da CPI fiquem parecendo "melhores que os outros". Parecendo para quem? Para o comissário José Dirceu e para o companheiro Roberto Jefferson? Certamente não. Talvez façam gosto à patuléia, mas nesse caso haveria dois caminhos: os doze não pediam a CPI e ficariam parecidos com "os outros". Ou, "os outros" assinavam o requerimento e ficariam parecidos com os doze.
Quando batalhava, em 1995, pela CPI das maracutaias no Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam, certamente Chinaglia via as coisas de outra maneira. Também pensava diferente quando coletou assinaturas para formar uma CPI que apurasse a compra de votos de deputados pelo Planalto. Em 1998 sua paixão pelas CPIs o levou a defender a criação de uma que cuidasse, entre outras coisas, do Dossiê Cayman, a falcatrua lançada contra FFHH. (É justo que se registre: Lula desdenhou esse papelório.)
Em 1994 verificou-se que mais da metade dos recursos arrecadados legalmente pelo PT para a campanha de José Dirceu ao governo de São Paulo tinha saído das arcas das empreiteiras. Nessa ocasião, Chinaglia reconheceu que a generosidade dos maganos criara "constrangimento" para o partido. Passaram-se mais de dez anos, os empreiteiros se apaixonaram pelas PPPs do BNDES e Chinaglia acha que diante do caso da ECT (e do IRB) o melhor a fazer é constranger quem pede CPI. Faria muito melhor o doutor se batalhasse para que o Ministério da Saúde obtivesse para os hospitais públicos o ressarcimento do que eles gastam com clientes dos planos de saúde privados. Pelo menos era isso que pedia ao governo dos outros quando estava na oposição.
Não se trata de pedir a Cristóvam Buarque e Arlindo Chinaglia que, como governistas, tenham a combatividade que mostraram na oposição, Pede-se apenas que respeitem a inteligência alheia, como conseguiam que se respeitasse a deles quando tinham apenas idéias e propósitos.
o globo
Miriam Leitão:A queda
A última vez em que o consumo das famílias caiu foi no segundo trimestre de 2003, coincidentemente após um longo período de alta da Selic, que levou os juros a 26,5%. A partir do terceiro trimestre de 2003, (veja gráfico) o consumo aumentou em todos os trimestres.
— Foi o que mais me preocupou — disse o economista Luiz Roberto Cunha.
Roberto Padovani, da Tendências, ficou surpreso com a queda do investimento e acha que isso é que vai ser determinante:
— Se o investimento não se recuperar, o crescimento do ano pode ficar em 2,5%. O cenário otimista, no qual a Tendências acredita, é que ele fique em 3,5%, mas, claro, se houver retomada do investimento.
O que determina a interrupção do investimento? É o ambiente regulatório ainda muito incerto, a crise política ou a renda e o crédito? Padovani diz que tende a acreditar no impacto maior da renda e do crédito:
— Se o consumo se recuperar, pode puxar o investimento e aí acontece o cenário otimista de 3,5%. Acho que 4%, a esta altura, não dá mais.
Nas próximas semanas, o Boletim Focus do Banco Central, que capta as previsões do mercado, deve trazer queda na expectativa de crescimento. Hoje, a média das previsões está em 3,5%, mas deve cair.
Nilson Teixeira, economista-chefe do CSFB, havia divulgado no boletim diário do banco a previsão de 0,3% para o crescimento do PIB no primeiro trimestre, com queda do investimento. Exatamente o que acabou se confirmando. Apesar disso, ele continua apostando num crescimento do PIB no ano de 3,4%:
— O número não nos surpreendeu. Nós achamos que o investimento pode ter um crescimento expressivo no segundo trimestre e isso por razão metodológica — afirma.
Segundo ele, o índice da construção civil não residencial é muito impactado por aços longos. No último trimestre do ano passado, houve formação de estoques de aços pelo medo de elevação de preços.
— Isto trouxe, no primeiro trimestre, uma queda forte nos aços longos. Uma recuperação desse produto elevará o resultado da construção civil — avalia Nilson.
Outros economistas temem exatamente a queda maior do nível de atividade no segundo trimestre, porque acham que só então o país estará sentindo mais fortemente o efeito da política monetária apertada.
José Júlio Senna, da MCM Consultores, também diz que não se surpreendeu, mas aposta num crescimento no ano de, no máximo, 3%. Ele acredita que há uma grande chance de ser abaixo de 3% o crescimento de 2005:
— O número do primeiro trimestre foi muito fraquinho. Dá, anualizado, algo em torno de 1,2%. E pior é que a ficha ainda não caiu dentro do governo.
Senna acha que o país está prisioneiro de uma armadilha: elevou os juros para adequar a demanda à oferta e abrir o que os economistas chamam de "hiato de produto", para derrubar a inflação. Contudo, não se criou esse espaço, a oferta está no limite da capacidade, o investimento está em queda, e a inflação subiu.
— Em maio do ano passado, a inflação estava em 5,2% em 12 meses e agora está em 8% — destaca Senna.
Olhando por dentro, o número de ontem é ainda pior do que parece. O PIB da Indústria caiu 1%, apesar de a exportação ter crescido 3,5%. É hora de o governo recolher todos aqueles auto-elogios com que sempre se brinda e analisar o panorama com objetividade.
A FUNÇÃO de um procurador-geral da República, quando entra no Supremo contra alguma lei, é levantar dúvidas jurídicas ou defender convicções religiosas?
o globo
Merval Pereira: Números e percepções
Suficientemente altos para mostrar que Lula continua imbatível, seja contra que candidato for, mesmo atravessando já há alguns meses crises políticas sucessivas.
A executiva nacional do PSDB, por seu lado, analisou uma pesquisa qualitativa — onde se mede a percepção do eleitor — que dá indícios de que essa queda está fortemente ligada a uma imagem de fraqueza, de falta de comando do presidente, que tem tudo para se intensificar à medida que a crise política se acentue.
É possível avaliar que o carisma do político Lula é tão forte que segura os muitos defeitos de seu governo. Mas é possível também, do ponto de vista da oposição, ter expectativas de que o desgaste da imagem levará o PT a uma derrota na eleição de 2006, derrota que era completamente imprevisível há poucos meses. Cruzando as informações das duas pesquisas, é possível dizer que o governo tem dois problemas sérios: a corrosão da sua imagem ética, talvez a bandeira mais emblemática do PT, e a ineficiência administrativa.
Com relação à corrupção, mais uma vez temos maneiras diferentes de ver os números da pesquisa CNT/Sensus: para o governo, o fato de que cerca de 48% dos entrevistados não tenham informação sobre a CPI dos Correios é alvissareiro. Mas há o contraponto: tecnicamente, é muito alto o índice de 51% de entrevistados que têm conhecimento do assunto, e mais indicativo ainda que a maioria dos que estão informados seja a favor da CPI.
Ainda assim, a percepção de que o governo Lula tem menos corrupção do que o de Fernando Henrique continua prevalecendo, embora esteja em franca decadência. A corrupção no país já é a principal causa de preocupação dos brasileiros, superando pela primeira vez a violência.
A avaliação cada vez pior do governo, reafirmada pela pesquisa de ontem, indica que o que segura uma candidatura vitoriosa à reeleição é a figura pessoal de Lula. Segundo a pesquisa dos tucanos, o PT é visto como um partido que trouxe para dentro do governo suas brigas internas, o que atrapalha o país, além de ter perdido sua identidade de quando era oposição.
Por essa leitura, a atuação da esquerda do PT é uma permanente esperança de que o governo pode retomar os rumos do que seria um verdadeiro "governo de mudanças", e serve para manter no partido boa parte dos militantes.
Ao mesmo tempo, porém, a permanente "ameaça" de que o "verdadeiro PT" uma hora acabe dominando o governo faz com que boa parte dos eleitores tema uma eventual ruptura num segundo mandato de Lula. A ligação dos eleitores com Lula é mais afetiva do que baseada em resultados, diz a pesquisa do Orjan Olsen, do Instituto Ipsos Opinion. Por isso, a imagem do candidato tucano competitivo deveria unir o respeito afetivo pelo eleitor ao administrador experiente, com resultados concretos para se contrapor ao governo Lula, considerado fraco, e que se salva mais pelas intenções do que pelas realizações.
A campanha do PSDB não pode ser negativista, alertam os marqueteiros tucanos. O eleitorado mostrou nas pesquisas qualitativas que, apesar do sentimento de frustração, precisa continuar acreditando em dias melhores quer manter "a esperança que venceu o medo". Um conselho recorrente é que o PSDB se mostre unido para se contrapor às brigas petistas.
Por isso, ou talvez por simples senso de sobrevivência, o prefeito paulistano José Serra e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que num primeiro momento ensaiaram jogar a culpa das enchentes um no outro, logo se uniram para anunciar planos conjuntos de obras.
O eleitor já não se contentaria com as brigas políticas vazias, indica a pesquisa qualitativa, mas quer ver seus interesses defendidos. Por isso, a contraposição da imagem de um bom "gerente", o mote inicial da campanha de Alckmin, a um governo ineficiente pode render bons dividendos. Há desconfiança, no entanto, que definir o candidato apenas como um bom gerente seja um raciocínio frio demais, insuficiente para superar a imagem afetiva que Lula transmite. Por isso, no programa do PSDB, o governador de São Paulo passou a ser chamado de "Geraldo", e o lema "gente em primeiro lugar" tenha aparecido como a marca dos governos tucanos.
As pesquisas eleitorais feitas pela CNT/Sensus mostram um Lula imbatível, no mesmo nível de 2002, mesmo diante de José Serra que, com o chamado "recall" -— lembrança — das eleições presidenciais, é o tucano que mais se aproxima do presidente.
A questão é que os números de hoje não refletem o que será a campanha eleitoral, muito mais acirrada do que as anteriores. O presidente Lula, pelas características históricas do PT e pelo pragmatismo que caracteriza seu governo, estará exposto a situações novas para ele.
Será atacado pela esquerda radical, hoje representada não apenas pelo PSTU mas pelo P-Sol da senadora Heloísa Helena; pela esquerda moderada, representada por PPS, PDT e PSDB; pelos liberais, que no momento têm Cesar Maia como candidato e que poderão ter até mesmo o vice-presidente José Alencar candidato pelo PL. Sem contar com o populismo evangélico do hoje inelegível Garotinho, que aparece em segundo lugar em várias das projeções feitas pela pesquisa CNT/Sensus, embora sem força para ir para o segundo turno. E, pior que isso, Lula terá que defender pela primeira vez em uma campanha teses que nunca foram suas: juros altos; superávit primário, pagamento da dívida. Estará exposto, enfim, ao bombardeio que sempre comandou.
o globo
Dora Kramer:Olho vivo e faro fino
Seus líderes deram uma folga às armas de ataque, ocuparam uns após os outros as tribunas do Parlamento para ressaltar ações positivas da administração federal e, nos bastidores, começaram a admitir a hipótese de o Palácio do Planalto abandonar o tom de guerra santa na tentativa de barrar a CPI dos Correios e optar por uma convivência civilizada – não obstante controlada pelo peso da maioria – com o inevitável.
"O PT está na defensiva e, nessa posição, nunca vi ninguém ganhar um jogo", diz um destacado líder governista integrante da tropa dos moderados que defende suas idéias sob anonimato, "para não criar mais confusão", pelo menos até elas prevalecerem como orientação oficial.
A definição da linha de atuação seria dada pelo presidente Luiz Inácio da Silva depois de uma série de conversas com líderes e ministros entre ontem à noite e, no máximo, amanhã.
Apesar da ordem unida aos aliados para tentarem liquidar a fatura na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, aprovando a inconstitucionalidade da CPI, nem os mais otimistas acreditavam no sucesso desse resultado.
O mais provável, apostavam os moderados, é a CCJ aprovar a comissão com uma agenda restrita às investigações nos Correios e em nenhuma repartição pública mais.
Na prática é uma providência inútil, porque o que surgir no decorrer da apuração não poderá ser deixado de lado deliberadamente só porque o assunto não consta da agenda original.
Diante da quase impossibilidade de se evitar a CPI, há um grupo dentro do Governo que já há algum tempo é contra as ações abertas e desesperadas para impedir o funcionamento da oposição, porque o custo é alto e o benefício, nenhum.
Até agora, porém, essa ala perdeu para a outra, que acha melhor impedir a CPI sem pensar nos custos do que correr o risco de ser surpreendido por fatos desagradáveis.
Ocorre que o desgaste da operação-abafa-que- não-consegue-abafar-coisa-alguma só aumenta, culminando ontem com a pesquisa CNT/Sensus mostrando 86% de apoio popular à realização da CPI.
Diante disso, cresceu a impressão dentro do Governo de que o risco do sangramento de imagem em praça pública pode chegar a um ponto sem retorno.
Há séria preocupação com o destino das bancadas do PT no Legislativo porque o partido é em sua grande maioria sustentado pelo eleitorado de opinião. Petista dificilmente tem – diferentemente de muitos de seus recentes parceiros – votos de cabresto.
Deputados e senadores em geral são oriundos de movimentos organizados e informados. Nesses setores, a questão ética tem um peso crucial. Daí a reação violenta dos senadores petistas contra o gesto de Eduardo Suplicy de assinar sozinho o requerimento de apoio à CPI.
Suplicy ficou com a boa causa, faturou a imagem de herói da resistência e, ao restante da bancada, coube receber reprimendas dos eleitores pessoalmente, por e-mail, cartas e telefonemas. Aos milhares, por sinal.
Bob, mui amigo
O deputado Roberto Jefferson talvez não saiba, mas o senador Ney Suassuna não vai aceitar calado a pecha de intermediador de chantagistas.
Afinal, foi nessa posição que o presidente do PTB o colocou quando, em discurso na Câmara há duas semanas, disse ter sido alvo de tentativa de chantagem por parte de um ex-oficial da Marinha conhecido como "Molina", que recebeu em seu gabinete a pedido de Suassuna.
"É mentira, o rapaz é amigo dele de infância, o chama de Bob. Aliás, é uma pessoa de bem que vai processar o deputado e provar que não é chantagista coisa alguma".
Como o senador Suassuna reclamou de referência feita a ele aqui no sábado passado, baseada exatamente naquele relato feito por Roberto Jefferson, natural, pois, perguntar a ele por que não dirigia seus reclamos ao deputado.
"Vou fazer isso na hora certa", informou. Sobre a razão que levou o presidente do PTB a envolvê-lo assim no caso, a simular desconhecer um "amigo de infância" e ainda acusar esse amigo de um crime, o líder do PMDB não tem convicção firmada.
"Não sei, acho que ele pode ter confundido as pessoas, no caso do Molina. No meu caso, pode ser que por algum motivo tenha pretendido envolver o PMDB na história, mas também não sei direito".
Da vida dos outros, o senador diz que não cuida. Só não quer é ficar parecendo "vigarista", como considera ter sido retratado no artigo de sábado passado.
Santa de casa
o dia
Palocci assume comando da operação "Abafa CPI"
"O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, assumiu na prática o comando das ações do governo contra a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios no lugar dos chefes da Casa Civil, José Dirceu, e da Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais da Presidência da República, Aldo Rebelo. Palocci alojou-se numa sala do terceiro andar do Palácio do Planalto, à esquerda do gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e perto de onde despacha o porta-voz André Singer. É de lá que ele transmite instruções aos parlamentares aliados.
Na nova função, o ministro não desgruda de Lula. Segundo outro integrante do primeiro escalão, quando Palocci tem de ir ao prédio do Ministério da Fazenda, procura resolver, rapidamente, as tarefas para voltar logo ao Planalto. O esforço é para poupar Lula de pressões. Todos os telefonemas para o presidente são agora filtrados por Palocci - mesmo os de amigos, de antigos companheiros do PT ou de parlamentares.
A preocupação de Palocci com a CPI aumentou na semana passada, durante a viagem de Lula à Coréia do Sul e ao Japão. Um ministro conta que o titular da Fazenda integrava a comitiva e ficou impressionado com a tensão sobre o presidente, mesmo do outro lado do mundo. Palocci testemunhou uma reação irritada de Lula. "Não tenho nada com isso! Ninguém vai me pegar! Que façam a CPI!", disse o presidente. O ministro da Fazenda ponderou: "Não. Não podem fazer. Isso terá conseqüências gravíssimas na economia."
O temor de Palocci é que o agravamento da crise política forneça aos adversários da política econômica a oportunidade de forçar mudanças de rumo. No exercício da função informal de coordenador político, Palocci conta com um aliado: o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo. Os dois conhecem o Congresso e dão-se muito bem com os parlamentares. Além disso, têm a caneta que libera verbas para atender às emendas de deputados e senadores ao Orçamento da União.
Meninos - A bancada do PT, na avaliação de Palocci, não está preparada para enfrentar uma CPI. O ministro considera que boa parte dela padece de instabilidade emocional e seria suscetível à cobrança dos eleitores tradicionais do PT durante os trabalhos de investigação parlamentar.
Com isso, não dariam segurança ao governo. Esse grupo, apelidado de "meninos do PT", teria dificuldade de enfrentar de igual para igual os experientes parlamentares escalados pela oposição para a CPI."
BLOG Ricardo NOBlat
Miriam Leitão:Não é a economia
A economia brasileira vai bem e poderá passar pela turbulência de uma CPI. Desta vez, não há crise externa, corrida contra a moeda, reformas importantes sendo votadas no Congresso; os biombos nos quais os governos sempre quiseram se esconder de CPI. Pelo contrário: o remédio institucional mais efetivo será mostrar que os responsáveis por abusos serão punidos. A economia nunca deve ser impedimento a que se apurem os fatos obscuros. Muito menos agora, quando está bem.
Do que vimos de CPIs passadas, elas podem servir, sim, de palanque eleitoral e exageros. O PT conhece bem a fórmula pela qual uma necessária investigação vira um palanque. Mas, no fim, o que fica é o que tem consistência. O histrionismo é espuma, faz impacto na hora, depois se desfaz. Os fatos que vimos relatados nos jornais e revistas dos últimos dias são absurdos intoleráveis. O risco que o país correria era a sensação do cidadão de que tudo fica por isso mesmo no país da pizza.
Na economia, o Brasil teve ontem uma boa notícia: a inflação medida pelo IGP-M caiu para o negativo. Foi deflação de 0,22%. Isso aumenta a esperança de que a torturante onda de aperto monetário tenha chegado ao fim. Foram nove meses de alta de juros, que elevaram a taxa quase quatro pontos percentuais; uma enormidade para padrões internacionais.
Hoje vai ser divulgado o PIB do primeiro trimestre. Em geral, o mercado acredita que será um crescimento pequeno; uns estão mais, outros estão menos otimistas. O professor Luiz Roberto Cunha, da PUC, acredita que deve ficar em 0,5%, ou um pouco menos, o crescimento dessazonalizado. No quarto trimestre, o crescimento foi de 0,4% contra trimestre anterior, mostrando redução do ritmo em relação ao melhor momento do ano passado. Agora ficaria de novo nesta faixa. Isso ainda é compatível com um crescimento entre 3% e 3,5% no ano.
— O número a ser observado é o do investimento. Acredito que pode haver queda do investimento de 2%. Em parte, porque a quebra da safra reduziu o investimento em máquinas agrícolas, mas em parte porque está havendo uma redução do investimento de forma geral — diz o professor.
O economista Roberto Padovani, da Tendências, também acredita em algo semelhante:
— Nossa previsão para o PIB dessazonalizado é de 0,4%; o que dá 3,6% no trimestre contra o mesmo trimestre de 2004 e 1,6% anualizado. É impressionante como o dado trimestral anualizado vem perdendo força. Uma das razões é que acabou o impulso da queda de dez pontos percentuais nos juros que houve entre 2003 e 2004. A grande dúvida que divide os economistas é quanto ao investimento, que vem caindo nos últimos dois trimestres. Aqui na Tendências, nós achamos que a renda fará com que ele reaja.
Os dados de amanhã serão olhados em minúcias e há divergências entre economistas sobre o ritmo com que a economia está andando. Luiz Roberto acha que, se o investimento continuar caindo, pode ser sinal de dosagem forte demais nos juros:
— O Banco Central repetiu novamente na ata de maio que ficou surpreso com as vendas de duráveis. O que todos têm dito é que a expansão do crédito está tornando menos efetiva a política monetária, e ela pode estar afetando apenas o investimento — afirma.
Segundo o professor, os dados mostram é que os problemas da economia estão na economia; e não na política.
A maioria dos analistas acha que os números mostrarão que não há risco de que o nível de atividade excessivamente forte exija novas altas de juros. Portanto, apesar do que trouxe a última ata do Copom, os juros deverão ficar estáveis em junho. A impressão será confirmada se os índices ao consumidor começarem a mostrar a mesma queda já registrada nos índices do atacado. O que pode acontecer no IPCA de maio, que será divulgado dia 10 de junho.
Ontem o país mostrou um impressionante superávit primário em abril, de R$ 16,335 bilhões, derrubando um pouco mais a relação dívida/PIB para 50%. O Brasil cresce diminuindo o ritmo excessivo que tanto preocupava o BC; a inflação está cedendo; o dólar está baixíssimo e isso começa a se refletir nos índices de inflação. Ou seja, vai tudo bem na economia. O espantoso, como sempre, é o fato de o governo com tal conjuntura econômica produzir um tsunami político em que a onda se eleva semana após semana.
A política não faz economia nos problemas. O governo erra, erra e depois, cansado de tanto errar, erra de novo na condução da sua relação com o Congresso, nas suas indicações políticas para cargos nevrálgicos da administração pública e, assim, vai dilapidando seu capital de forma devastadora.
O que a população tem deixado claro de todas as formas é que não tolerará mais episódios como esse do ex-chefe do Departamento de Administração e Contratação dos Correios, Maurício Marinho. Na reportagem publicada no GLOBO no fim de semana, o repórter Francisco Leali mostrou que Marinho tentou fraudar compra de sapato. O caso é exemplar porque o que se vê é um funcionário do governo organizando um cartel de fornecedores, conspirando contra os cofres públicos e aumentando os lucros da empresa privada. Mesmo se não houver qualquer comissão, aquilo lá já é crime suficiente. Exige uma boa apuração.
o globo
Cooptei !
Pois não é que é exatamente isso? Para se segurar no governo sem competência política e administrativa, para manter o controle da situação sem qualquer projeto, só mesmo cooptando. O que é um eufemismo para dizer 'comprando'. Ou 'barganhando'. Onde será que foi parar aquele velho PT que acreditava na opção consciente das pessoas? Como tudo que é sólido...
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