Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, maio 04, 2005

Merval Pereira:Democracia ameaçada


A Câmara dos Deputados comemorou ontem à sua maneira o Dia do Parlamento: com uma sessão solene, e a decisão da Mesa Diretora de arquivar o processo contra o presidente do PP, deputado Pedro Corrêa, apanhado em escutas telefônicas feitas com a autorização da Justiça durante investigações sobre sonegação fiscal e adulteração de combustível.

Não por acaso o deputado, cuja fixação em nomear o presidente dos Correios valeu-lhe o apelido de "Pedro Correios", é aliado do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. A decisão pode indicar que a leniência do Legislativo com seus pares levará à absolvição do deputado André Luiz, também apanhado por uma gravação chantageando o bicheiro Carlinhos Cachoeira e até mesmo confessando assassinatos.

A eleição de Severino, e a sucessão de desmandos que vem comandando com uma visão corporativista do cargo, se agrada a um grande número de deputados, incomoda alguns, que começam a se organizar para resgatar a imagem do Parlamento e sua preservação como instrumento político. Assim como no chamado movimento "republicano" no Senado, apartidário e esboçado por senadores como Cristovam Buarque (PT), Jefferson Perez (PDT) e Marco Maciel ( PFL), já abordado aqui na coluna.

Também apartidário, o movimento na Câmara reúne deputados como Chico Alencar, do PT, Fernando Gabeira, do PSB , Raul Jungman, do PPS, e Luiza Erundina, do PSB. Jungman, por exemplo, define Severino como "uma denúncia ambulante de nossas mazelas". As vaias que ele recebeu no Dia do Trabalho seriam já a indicação da rejeição popular à sua figura e, por extensão, aos políticos.

Não se trata, como ressalva Gabeira, de um movimento contra ninguém, nem a tentativa de formação de uma elite política. Preocupa a esses deputados que, dentre as instituições nacionais que os institutos de pesquisa consideram "clássicas" — governo, Justiça, Forças Armadas, igrejas, etc — o Parlamento, ou Legislativo, seja a que obtém menores índices de credibilidade, rivalizando em desprestígio com os partidos políticos.

O deputado Chico Alencar lembra que das instituições citadas, o Parlamento é o mais exposto, o mais socialmente controlado, e o mais democrático, por renovar-se integralmente pela escolha popular a cada quatro anos — "embora sete de cada dez eleitores se esqueçam de em quem votaram um ano após o pleito". Para ele, o desprestígio crescente do Legislativo, em todos os níveis, "é uma ameaça à democracia, bem como manter o quadro político-eleitoral atual, sem reforma política". Para Jungman, o modelo político em vigor está "absolutamente esgotado", mas é o mais difícil de ser reformado, "o que só acontecerá através da crise".

Os deputados já detectaram que crescem na sociedade duas campanhas: a pelo voto nulo ano que vem, que Chico Alencar admite acontecer "principalmente devido à reversão de expectativas que o governo Lula e o meu PT geram em parcela da população", e a da renovação de 100% do Congresso Nacional ("Não vote em quem tem mandato").

O deputado Raul Jungman lembra da campanha pelo voto nulo durante a ditadura, e ressalta que ela era válida para denunciar a inutilidade do Congresso num regime de força. Agora, a campanha seria também para denunciar a inutilidade do Congresso, mas causada pelos erros do próprio Congresso.

O deputado Fernando Gabeira, por sua vez, lembra que essa mesma atitude da população aconteceu recentemente no Equador. Gabeira acha que defender a renovação da Câmara é uma atitude correta, mas a negação total dos que têm mandato é nivelar todos por baixo e matar a memória do Parlamento que precisa dela para funcionar bem.

O grupo pretende propor aos líderes partidários e à Mesa Diretora uma "agenda positiva" com vários pontos: votação em plenário da redução do recesso parlamentar; regras definitivas para todo e qualquer reajuste de remuneração na Casa, que só valeria para a Legislatura seguinte; vedação do nepotismo; nova regulamentação para plebiscitos e referendos, e a revisão do papel da Corregedoria da Câmara, para evitar que o corporativismo predomine na análise dos processos contra deputados.

Os deputados estão preocupados também com a produtividade da Câmara, que consideram muito baixa. Para melhorá-la, acham imprescindível uma nova regulamentação para tramitação das medidas provisórias, que segundo Jungman transformaram o Congresso em mero homologador das decisões do Palácio do Planalto. Gostariam também de ver aprovado um percentual mínimo de apreciação de projetos do próprio Legislativo, e levar à sociedade uma campanha permanente, educativa, sobre o papel do Poder Legislativo.

O deputado Jungman define a situação: "A base do Parlamento, do mandato, é a confiança". Para ele, o que classifica de "corporativismo terminal" que se instalou no Congresso "rompe o pacto entre representantes e representados".

A auto-concessão de aumentos "indignos e desrespeitosos" é apontada por Jungman como uma razão da quebra de confiança do eleitor. O deputado Fernando Gabeira admite que há uma discussão interna muito grande sobre a verba de gabinete, que foi aumentada recentemente.

Ele se recusa a usá-la, mas muitos deputados consideram que podem usá-la para melhorar as suas atuações. Fernando Gabeira acha que pelo menos deveria haver cortes de custos no Congresso para que a verba de gabinete fosse aumentada. A idéia é reunir o maior número de deputados, juntar-se ao movimento no Senado, e tentar conseguir mudar o regimento, para democratizar a tramitação dos projetos.
O GLOBO

Miriam Leitão:Insustentável dólar

Um grande banco fez uma previsão na semana passada: se o dólar caísse abaixo de R$ 2,50, o Banco Central provavelmente entraria comprando. Ontem à noite, com o dólar abaixo disso, o BC avisou novamente que não voltará a fazer leilão reverso, que equivale a comprar dólar no futuro. Hoje, para o BC, comprar dólar é o pior negócio do mundo: fica com um ativo que rende 3% ao ano em troca de uma dívida ao custo de 19,5%.
Desde meados de março, o Banco Central não faz mais a operação que vinha fazendo e que retirava um pouco da enorme quantidade de dólares que entra no país. Entra por quê?


— Não tem mistério: com esse diferencial de juros e com essa balança comercial, o resultado só podia ser mesmo a valorização do real — diz o ex-diretor do Banco Central, hoje sócio do Gávea Investimentos, Ilan Goldfajn.

A expectativa do mercado é que o dólar continuará fraco, com pouca chance de recuperação a curto prazo. A maioria não acha que o Banco Central vai intervir para garantir um patamar maior para o dólar.

— A expectativa, na verdade, é de que o real vá continuar apreciado e ninguém espera que o Banco Central intervenha — afirma o economista chefe do CSFB, Nilson Teixeira.

Ninguém no mercado previa uma queda tão forte para o dólar. Mas alguns dados ajudam a explicar o fato, depois do ocorrido.

A balança comercial acumulou um superávit comercial de US$ 38 bilhões em doze meses. Resultado totalmente inesperado.

Até porque o previsível era que o saldo comercial caísse com a queda do valor do dólar. Os economistas procuram explicações para a continuidade da exportação, e até um aumento das vendas num contexto cambial como esse:

— Há várias explicações, todas verdadeiras, e eu tenho uma explicação favorita: primeiro, tem uma defasagem temporal. O dólar cai e a exportação só vai sentir isso tempos depois, por causa dos contratos; segundo, a mudança estrutural que houve no setor exportador brasileiro foi muito grande; terceiro a taxa real de câmbio não teve a mesma queda. Mas o mais importante é que toda a produção no Brasil paga imposto demais, o único setor quase sem taxação é o exportador. Continua sendo um bom negócio exportar — diz Ilan.

Outro fator que derruba o dólar é a taxa de juros altas demais. O problema é que os números do Banco Central não confirmam a tal entrada excessiva de dinheiro especulativo, que estaria sendo atraído pelo diferencial de juros. Os dados que vêm sendo divulgados mostram que o fluxo financeiro está negativo.

Ou seja, há mais saída do que entrada de dólar. Para se ter uma idéia, o fluxo financeiro está negativo em US$ 2 bilhões até a terceira semana de abril, apesar de a entrada de investimento direto ter sido de US$ 3,5 bilhões. Com todo esse dinheiro entrando, o saldo ficou negativo porque saiu mais do que entrou. Começo de ano sempre há muitas remessas de dividendos de empresas instaladas aqui.

Ilan explica que o efeito do diferencial de juros afeta a economia, mesmo que não haja entrada de dólar:

— A pressão se dá nos derivativos. Alguém está correndo o risco contra o dólar e a favor do real e faz suas posições no mercado futuro. Isso acaba afetando o preço do dólar à vista, mesmo que não haja entrada da moeda.

Tem outra razão, segundo Roberto Padovani, da Tendências:

— Os exportadores estão trazendo dinheiro mais rápido para o Brasil por causa da taxa de juros. Hoje trabalhamos com um dólar a R$ 2,65 no fim do ano. Começamos 2005 com R$ 2,90; é uma queda grande. Por enquanto, temos ouvido que setores como o de móveis, têxteis e calçados têm sentido realmente o câmbio valorizado, mas isso só deve estar nas estatísticas mais adiante, já que há a garantia dos contratos de venda.

Quando o assunto é contas externas, tudo tem que ser explicado, porque nada parece atender à lógica econômica tradicional.

Por exemplo, os juros americanos subiram ontem com indicação de que vão subir mais no futuro. Isso deveria ter atraído mais investidores para o mercado de dívida americano e, portanto, desvalorizado as moedas de países emergentes. E aconteceu o contrário: o dólar aqui caiu.

Quando o dólar cai, as exportações tendem a cair. No Brasil, está acontecendo o oposto. Aqui, o saldo comercial está subindo e o superávit de transações correntes se ampliando para US$ 15 bilhões.

Quando o dólar cai, a inflação tende a cair, porque isso afeta os preços importados, ou os produtos com cotação no mercado internacional, os chamados comercializáveis, mas a inflação continua alta. É bem verdade que os comercializáveis estão com uma inflação em três meses e meio de 1,1%, o que dá uma taxa anualizada de 3,5%. Os não comercializáveis já acumularam 3,59%, o que dá taxa anualizada de 11,2%.

Mesmo com o preço da moeda americana, o Banco Central não está interessado em acumular mais reservas. É que, para comprar dólares, o BC teria que vender títulos públicos. E nem ele é doido de querer pagar juros tão altos!

O GLOBO

terça-feira, maio 03, 2005

Liszt:La Campanella

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AUGUSTO NUNES:A sombra do medo envolve a Baixada

 Os primeiros movimentos das autoridades sugeriram que, desta vez, tudo seria diferente: a Chacina da Baixada reafirmara o banimento das fronteiras da infâmia, decretado com sangue, anos antes, pelos massacres da Candelária e de Vigário Geral. A contra-ofensiva agora haveria de consumar-se com rapidez e rigor.

A identificação dos matadores não demorou: eram policiais militares aborrecidos com medidas moralizadoras adotadas por comandantes de quartéis. A prisão de alguns exterminadores noturnos encorajou testemunhas a participar de sessões de reconhecimento de suspeitos.

Moradores de Nova Iguaçu e Queimados ousaram juntar-se na missa de 7º dia, numa manifestação de protesto sem precedentes naquelas paragens atormentadas, desprotegidas, assustadiças. Compareceram ao ato centenas de otimistas. Milhares de vizinhos acharam prudente ficar em casa. E se o andar das viaturas retomasse o ritmo de sempre? E se o barulho em torno do caso fosse pouco duradouro? Quem zelaria pelos órfãos do Estado?

Um mês depois de um extermínio de 29 inocentes - uma tríplice e desmoralizante afronta aos governos federal, estadual e municipal -, o episódio segue estacionado na fase de inquérito. Tal lentidão é mais que um atestado de incompetência dos serviços de segurança. É um estímulo à bandidagem fardada. É, sobretudo, a reiteração do recado enviado regularmente aos alvos preferenciais das periferias: cada um que cuide de si.

O cinema já mostrou em dúzias de filmes como funciona nos Estados Unidos o programa de proteção a testemunhas, monitorado pelo FBI. Testemunhas que se sentem ameaçadas se inscrevem no programa e, acompanhados das famílias, virtualmente desaparecem. Mudam os documentos e o endereço, guardado em sigilo. Recebem dinheiro para despesas e proteção permanente. O escudo funciona exemplarmente.

Existe no Brasil, desde 1996, um Programa de Proteção a Testemunhas subordinado à Secretaria Especial de Direitos Humanos. Há tantas semelhanças entre o modelo americano e essa versão tropical quanto as existentes entre a Quinta Avenida e a Baixada Fluminense. "Temos capacidade para proteger 930 pessoas, mas só 650 são atendidas no momento", diz a coordenadora-geral Nilda Turra.

Sobram vagas. Mas nenhum dos moradores da Baixada que aceitaram identificar os assassinos procurou abrigo no programa, contemplado com quase R$ 12 milhões no orçamento para 2005. Preferem refugiar-se em casas de parentes e amigos.

"Para inscrever-se, basta procurar qualquer delegacia", informa Nilda. Aí é que mora o perigo, sabem brasileiros expostos à violência conjunta de bandidos de bermudas ou fardados que procurar a polícia pode ser o caminho mais curto para a cova rasa: querem proteção, podem colidir com cúmplices dos executores. Estão em toda parte.

Se conseguirem um lugar no programa, saberão que, no Brasil, proteção tem prazo: dois anos, prorrogáveis por igual período, se os avaliadores federais assim decidirem. Liberados, voltarão ao local dos crimes. E à alça de mira dos criminosos impunes. Não é uma hipótese animadora.

Quase dez anos depois de criado, o programa brasileiro não saiu da infância. Ainda engatinhava e já causava sustos. Em 1999, por exemplo, o ex-deputado Hildebrando Paschoal, cassado e preso por numerosos assassinatos, viajou de Brasília para o Acre num vôo de carreira. Sentou-se no banco do meio. À direita, um policial federal. À esquerda, uma testemunha que topara falar contra o bandido. Estava sob a proteção do programa - e, ao menos nos ares, sob o domínio do medo.
JB

Lula: Brasil já era para estar na ONU desde 1945......

Na coletiva, ao responder a Carla Mendes (Agência Lusa) sobre as Nações Unidas, Lula afirmou: "Você sabe que o Brasil já era para estar na ONU desde 1945, quando foi criada a ONU. O Brasil não entrou"... Lula não sabe, mas o País que preside é fundador da Organização das Nações Unidas.

O DIA

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Lucia Hippolito na CBN:Paralisia do Congresso é culpa do governo


"Na última sexta-feira, durante a entrevista coletiva, o presidente Lula elogiou a atuação do Congresso que, segundo ele, teria votado reformas importantes, como a reforma do Judiciário e a reforma tributária.
O presidente deve estar com uma agenda muito carregada, porque não teve tempo de prestar atenção ao fato de que a reforma tributária não foi aprovada. Está paralisada na Câmara dos Deputados.
Até agora foi votado apenas o que interessava ao governo, isto é, a prorrogação até 2007 da CPMF e da DRU, a Desvinculação das Receitas da União, que permite ao Executivo utilizar livremente 20% do Orçamento da União.
Ainda falta votar a maior parte da reforma tributária, como por exemplo, a unificação da legislação do ICMS, a criação de um fundo de exportações para completar a Lei Kandir e o aumento de um ponto percentual, de 22,5% para 23,5%, nos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.
Acontece que o governo federal agora está experimentando uma dose de seu próprio remédio.
Desta vez, são os prefeitos e os partidos de oposição que querem fatiar a reforma tributária e votar apenas o aumento dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios.
Mas o governo perdeu completamente o controle sobre a pauta da Câmara, pois como todo mundo sabe, o PT não tem nenhum cargo na Mesa Diretora, que é responsável pela organização da pauta de votações.
Assim, as oito Medidas Provisórias que estão trancando a pauta da Câmara são uma bênção para o governo, que não está conseguindo organizar sua própria base. Por isso, está atrasando a votação das medidas.
Até agora, o que o governo está conseguindo são coalizões de veto, isto é, consegue obstruir as votações. Mas não consegue construir uma coalizão de voto, para aprovar as propostas que estão paradas no Congresso.
Daqui a pouco o semestre acaba, e periga o Legislativo votar ainda menos do que votou no segundo semestre de 2004, quando ficou paralisado pelas eleições municipais e pela discussão sobre a reeleição das mesas da Câmara e do Senado.
Mas agora, a paralisia é responsabilidade única e exclusiva do governo federal, que não consegue uma articulação que ponha a base governista para trabalhar."
BLOG Ricardo Noblat


LULA NO PALANQUE

É possível dizer que, desde sua eleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais desceu do palanque. Nos últimos 28 meses, Lula continuou a exercitar regularmente seus dons de líder de massas, com calorosos improvisos, recheados de metáforas populares, muitas promessas e também alguns deslizes. Mais recentemente, entretanto, essa incontível vocação de Lula vem assumindo notório -e apressado- caráter eleitoral, como se constatou em seu discurso do Dia do Trabalho.
No púlpito, por ocasião de uma missa celebrada em São Bernardo do Campo, o primeiro mandatário realizou um balanço de sua administração e prometeu que até 2008 cumpriria o "compromisso" de levar energia elétrica aos 12 milhões de residências que ainda não são beneficiadas por esse serviço básico.
Por mais que o ministro da Casa Civil, José Dirceu, tenha se apressado em dizer que Lula se referia a um "programa de governo e não do seu governo", a conotação eleitoral da promessa é flagrante. Embora o sistema político brasileiro tenda, por ocasião das eleições municipais, a antecipar movimentações com vistas aos pleitos para a Presidência e os governos de Estado, seria de esperar que o Planalto trabalhasse para evitar uma campanha precoce.
Não é o que se observa. Ao contrário, o próprio presidente vai se encarregando de renovar os sinais de que a reeleição já está na agenda do governo. Não é casual que a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), o ministro Ricardo Berzoini (Trabalho) e o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Luiz Marinho, também tenham aproveitado o 1º de Maio para defender um segundo mandato para Lula.
Seria recomendável que esse ímpeto eleitoreiro fosse guardado para a ocasião adequada. Há coisas muito mais importantes para o país neste momento do que a obsessão petista de reeleger o presidente -a começar pelo deplorável espetáculo encenado no Congresso, onde o governo, na defensiva desde o desastroso episódio da eleição do presidente da Câmara, não consegue avançar em matérias relevantes, dedicando-se simplesmente a obstruir votações.
EDITORIAIS DA FOLHA DE S.PAULO

CRISE COM A ARGENTINA

Basta comparar meia dúzia de números oficiais para reconhecer que o Brasil é um país maior, mais rico e tecnologicamente mais capacitado do que a Argentina, o que já o credencia a desempenhar um papel diferenciado como liderança regional. Existem, entretanto, formas e formas de exercer essa primazia.
O Brasil vem caminhando por uma rota que não garante a consecução do objetivo de conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU, mas é suficiente para despertar as piores desconfianças no país vizinho. Embora a diplomacia brasileira não deva pautar a sua atuação pelas opiniões dos governantes argentinos, as suscetibilidades do principal parceiro no Mercosul não podem ser ignoradas.
Com efeito, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao procurar posições de destaque para o país, o faz de modo ruidoso e um tanto megalômano, sempre assinalando que o Brasil quer ser "líder" de alguma coisa. É nesse contexto que se deve interpretar a irônica frase atribuída pelo diário argentino "Clarín" ao presidente Néstor Kirchner: "Se há um lugar na OMC, o Brasil o quer; se há um lugar na ONU, o Brasil o quer; se há um lugar na FAO, o Brasil o quer. Até quiseram fazer o papa".
São, evidentemente, muitos os fatores que contribuíram para a piora nas relações entre Brasil e Argentina. Além dos já citados, deve-se mencionar a sensação local de que está em curso uma "invasão" econômica brasileira e o fato de o governo Lula não ter apoiado Kirchner em sua inflexível renegociação da dívida.
Segundo informes publicados pela imprensa platina, a irritação de Kirchner ameaça converter-se num posicionamento mais duro da Argentina em relação ao Brasil. Essa perspectiva não é boa e deveria servir de alerta para que o governo brasileiro se empenhasse em restabelecer um clima de entendimento.
Se o país realmente deseja consolidar-se como protagonista da região, deve comportar-se de maneira mais habilidosa, ouvir as queixas dos vizinhos e fazer as concessões certas.
EDITORIAIS DA FOLHA DE S.PAULO

ELIANE CANTANHÊDE:Paciência tem limite


BRASÍLIA - O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, almoça hoje em Brasília com Lula. Pelo menos 11 chefes de governo ou de Estado (incluindo reis) do Oriente Médio já confirmaram presença na cúpula árabes-sul-americanos. O chanceler Celso Amorim acaba de discursar sobre democracia no Chile e de marcar presença na crise do Equador.
Mas todo esse esforço pode ir por água abaixo por causa de um parceiro teimoso: a Argentina.
Como venho dizendo, Néstor Kirchner não está aí para brincadeiras, só se forem de mau gosto. Toda hora é uma canelada. Ou ele não aparece nas reuniões de presidentes, ou veta a participação de seu chanceler, ou solta uma nota irônica.
Pode ser ciúme, por causa do decantado "protagonismo" brasileiro, da balança comercial francamente favorável ao Brasil ou desse ar de bom-moço que o governo Lula assumiu com organismos internacionais e com o tal do mercado.
Seja o que for, essa posição beligerante da Argentina é perigosa para o Mercosul, que está balança-mas-não-cai e é imprescindível como alavanca para os sonhos grandiosos do Brasil na área externa.
Além disso, não é nada alvissareira num continente já cronicamente debilitado por milhões de miseráveis e pela instabilidade política. Neste mesmo momento, há insegurança na Bolívia, no Peru, no Equador, na Colômbia, crise aguda na Nicarágua e há aquele nosso velho amigo Hugo Chávez, cada vez mais atrevido diante de Washington.
Bater de frente com a Argentina não é prudente, mas mesmo os diplomatas mais experientes começam a achar que o Brasil está apanhando quieto demais. Não será surpresa se, diante de um fato novo, o Brasil saia da candura e parta para a ignorância. Até na diplomacia um bom solavanco às vezes ajuda que é uma beleza. Só falta o vice-chanceler Samuel Pinheiro Guimarães deixar. Azedo como ele só com os EUA, ele é um doce com a Argentina. Tudo tem limite.
FOLHA DE S.PAULO


CLÓVIS ROSSI:Blair e Lula

PARIS - Tudo indica que, na quinta-feira, Tony Blair será reeleito para um terceiro mandato consecutivo, inédito para os trabalhistas.
À primeira vista, a segunda reeleição de Blair indica que Luiz Inácio Lula da Silva tem imensas chances de ser, ele também, reeleito no ano que vem. O que o Reino Unido tem a ver com o Brasil? A rigor, nada, exceto pelas características da disputa política contemporânea que é apenas "a escolha entre personalidades e estilos antes que sobre programas políticos", como disse ao jornal francês "Le Figaro" o analista da Universidade Oxford Theodore Zeldine.
Se é assim, Lula é o favorito menos porque sua personalidade e seu estilo são esfuziantes e mais porque a oposição não tem, por enquanto, um nome capaz de despertar emoções fortes (para o bem ou para o mal, como é o caso do próprio Lula), salvo, talvez, Fernando Henrique Cardoso.
Se é assim à primeira vista, uma olhada em águas mais profundas indica, no entanto, que Blair tem muito mais sensibilidade social que Lula, embora sua imagem, no Brasil, seja a de uma Margaret Thatcher de paletó e gravata.
Primeiro, Blair criou o salário mínimo, que não existia no Reino Unido. Nos seis anos seguintes (até 2005), o aumento do mínimo foi de 40%, a uma média anual, portanto, superior a 6%. No Brasil de Lula, a média anual é de apenas 3,6%.
Segundo, os oito anos de Blair viram o desemprego recuar de praticamente 7%, em 1997, para os 4,8% do ano passado. No Brasil, o desemprego diminui microscopicamente.
Terceiro, parte do crescimento econômico havido nesses oito anos (23,5% no total) se deveu a investimentos públicos, coisa que o "new PT" parece ou abominar ou ser incompetente para fazer.
O Reino Unido de Blair está de longe de ser o paraíso na Terra, mas, ao menos, o trabalhismo ficou confiável para a ortodoxia sem perder totalmente a face, coisa que o PT não soube fazer.
FOLHA DE S.PAULO

LUÍS NASSIF:Severino, o político

 
É inacreditável o que vem falando o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). Não pelo que diz, mas pelo fato de ser o único homem público que está verbalizando pontos fundamentais de defesa da cidadania e dos fundamentos sociais do país. Nossa elite pirou, não tem mais cérebro, está perdendo os músculos políticos, e nem sinal da mais leve sensibilidade em relação a um projeto de país.
Tirando os aspectos folclóricos de sua sabatina na Folha, ontem, Severino deu uma aula de cidadania e de sensibilidade política, um valor que foi se perdendo ano após ano, obstruído pelo discurso econômico mais primário, pela defesa de valores falsos, por esse arremedo de internacionalismo provinciano desses Ph.D.s que absorveram fórmulas nos cursos no exterior, mas não os valores centrais que levaram à construção de civilizações melhores que as nossas.
Nem o PT nem o PSDB encontraram maneiras de romper com essa falsa ciência, que permitiu o predomínio do financismo mais rastaqüera e nocivo, que massacrou empresas e empregos, que impingiu uma carga tributária obscena, ao mesmo tempo em que criava todo tipo de facilidade para a circulação do grande capital -o legal e o ilícito.
Nesses anos todos, crucificou-se o Legislativo por pontos menores, insignificantes perto das conseqüências sobre o país das taxas de juros altas, mas facilmente assimiláveis por uma opinião pública ainda pouco informada e por uma cobertura insuficiente.
Todos os parentes de deputados empregados não representam um milionésimo do que se perde no país com a alta de meio ponto na taxa Selic. Todas as reformas de gabinetes de deputados não representam um centavo do custo tributário acarretado por essa libertinagem com empresas "offshore". O atendimento de uma demanda de eleitor não significa nada, perto do custo regulatório do país, da falta de fiscalização de uma CVM ou de um Banco Central sobre os "pirañas" financeiros.
A elite brasileira achou ser possível montar esse jogo de revezamento entre PT e PSDB fazendo todas as concessões possíveis ao grande capital, esmagando pequenas e microempresas, esmagando o setor produtivo que opera na legalidade, expulsando cidadãos sérios para a ilegalidade, utilizando toda sorte de manobras estatísticas para justificar corte nos gastos sociais. De repente, do nada surge Severino Cavalcanti, tosco e objetivo como um sertanejo, sem um pingo de ideologia, mas trazendo de volta um valor inestimável: a sensibilidade política para os problemas do cidadão comum.
Na saída do Teatro Folha, jovens universitários ironizavam seu vocabulário, sua falta de estudos e mais um conjunto de estereótipos criados nestes anos todos para desqualificar todo setor que levantasse pontos de vista contrários a essa liberalização à brasileira. Todos são filhos de uma classe média que a cada diz mais se pauperiza, mas não se dá conta de onde está o problema.
O discurso de Severino Cavalcanti é o único choque de realidade capaz de fazer com que a dita elite política do país -PT e PSDB- comece a acordar.
FOLHA DE S.PAULO

JANIO DE FREITAS:Pinga-pinga

As viagens internacionais de José Dirceu estão suscitando críticas, por aparente intromissão em atividade que estaria reservada, nos cânones da burocracia, ao pessoal das Relações Exteriores. No caso do atual do governo, as críticas se abastecem ainda mais com a existência de um assessor pessoal de Lula para assuntos de política internacional, Marco Aurélio Garcia, que assim ocuparia
função própria do ministro do Exterior em relação ao presidente.
As críticas, para não dizer mais do que isso, estão desfocadas. Emissários pessoais de presidente são velho instrumento, de grande utilidade para missões a que não convém dar a natureza de ações de governo, nelas comprometendo por algum modo o próprio país.
Durante a Guerra Fria, por exemplo, alguns desses representantes pessoais tiveram até mais importância do que os diplomatas oficiais, caso, para lembrar um dos mais famosos, de Averell Harrimann, pelos presidentes democratas dos EUA. E, pelo lado dos republicanos, os dois Rockfeller, Nelson e David, ficaram famosos na América Latina, dadas as tantas missões que por aqui desempenharam, sem jamais deixar de enriquecê-las com as conveniências para os negócios familiares.
No governo Lula poderia haver, sem prejuízo das missões, maior clareza, até em benefício de menos especulações e críticas equivocadas. Não se sabe quem é quem nessas missões, ou por que ora é um, ora é outro representante, e de repente é o próprio ministro, e em que medida o chefe do Gabinete Civil está como representante pessoal do presidente ou também do governo, senão de si mesmo.
Mas também se pode dizer que, com maior clareza, objetividade e critério, não seria talvez o governo Lula.

Para vítimas
O argumento principal dos advogados que defendem indenização para os soldados combatentes contra a guerrilha do Araguaia, durante a ditadura, em síntese baseia-se no fato, por alguns assim referido explicitamente, de que os dois lados travavam a mesma luta.
No argumento está esquecido o essencial na idéia que criou as indenizações, por mais descriteriosa que se mostre a sua concessão pelas comissões específicas. As indenizações não são atribuíveis a ex-guerrilheiros por terem participado de luta, mas pelo que passaram nas mãos de militares que cometeram crimes, definidos em leis brasileiras e em convenções internacionais, quando agiam em nome do Estado.

Querer e não ter
Ricardo Berzoini, aquele da fila de velhinhos para provar estarem vivos, volta na sua melhor forma. Agora ministro do Trabalho, para tranqüilidade dos idosos e preocupação dos jovens, afirma que a promessa lulista de criar 10 milhões de empregos "será cumprida":
"Considerados os empregos informais, já foram criados 4,5 milhões a 5 milhões de empregos. Então, será possível chegar a 10 milhões em 2006".
O problema é que emprego informal não é emprego. É viração, é quebra-galho. É, exatamente, a denúncia mais irrespondível da falta de emprego.
FOLHA DE S.PAULO

Dora Kramer:Festa tucana terá contra-ataque

O Governo federal não está disposto a deixar que o PSDB transforme o dia de amanhã, aniversário de cinco anos da Lei de Responsabilidade Fiscal, numa jornada de acusações contra a "gastança" dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto e adjacências.

"Pressinto que vai haver uma bateria de duros ataques", diz o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, referindo-se à festa de comemoração que os tucanos farão em Brasília, com direito à presença do patrocinador da lei, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e de boa parte de seus auxiliares de Governo.

Considerando a altíssima chance de o "pressentimento" do ministro vir a ser a mais pura expressão da realidade, Paulo Bernardo está reunindo dados para mostrar que, apesar de o segundo mandato de FH ter transcorrido sob a regra do ajuste fiscal, "no primeiro, quando ainda não havia a lei, os tucanos gastaram a valer e, por isso, não podem posar de donos da austeridade e da responsabilidade".

O ministro do Planejamento ainda não sabe de que forma fazer, mas acha imprescindível divulgar os gastos do Governo anterior no período de 1995 a 2000, quando foi aprovada a lei.

Aprovada, diga-se, à revelia do PT que tudo fez para derrotá-la. Hoje, no Governo, só falta assumir-lhe a paternidade, tão aguerrida é a defesa da área econômica da contenção de despesas públicas.

Paulo Bernardo talvez seja um dos poucos petistas a poder falar do assunto sem incorrer no pecado da incoerência e da desfaçatez, pois foi também dos poucos a apoiar a aprovação da LRF à época.

Ele ressalta que, agora, não se trata de subtrair dos tucanos o direito de comemorar e buscar os dividendos políticos da instituição de um instrumento de organização de contas públicas.

"É legítimo o Fernando Henrique organizar um ato no aniversário da lei, mas não podemos deixar os tucanos nos desossarem em praça pública e ainda venderam a imagem de que são irrepreensíveis, porque não são".

O Planejamento divulgará dados dos últimos 10 anos, para mostrar que "a farra fiscal" do primeiro mandato de FH teve como conseqüência o aumento da carga tributária e da dívida pública.

Exibirá também números comparativos para demonstrar que o Governo Lula, em relação ao antecessor, reduziu os gastos com pessoal e custeio da máquina.

Paulo Bernardo, cujas relações com o tucanato vão um pouco além da amabilidade – em alguns casos revelam total identidade – vai logo explicando tratar-se de "uma legítima esgrima de dados".

É uma defesa política, justifica, "jamais um ato de desqualificação da Lei de Responsabilidade Fiscal ou uma intenção de tirar do Governo anterior o mérito por tê-la aprovado".

Não existe, porém, o menor risco de alguém acreditar que haja outra coisa além da briga eleitoral por trás dos movimentos de ambas as partes: dos tucanos, com a comemoração do aniversário de uma lei em ato público, e dos petistas, com a reação para dividir as atenções de não deixar o PSDB carregar sozinho a bandeira da austeridade nos gastos públicos.

Benefícios fantasmas

O estandarte do rigor fiscal será mesmo carregado pela oposição como tema de campanha e, por isso, o Governo está tão preocupado com atos como o preparado pelo PSDB que podem de fato contribuir para a construção da imagem do PT-gastador.

O ministro do Planejamento reconhece que é preciso mais que propaganda de dados para impedir o sucesso da empreitada oposicionista. É necessário o Governo produzir realidades para sustentar o contra-ataque.

Uma delas, de acordo com Paulo Bernardo, é a contenção do déficit da Previdência onde, apesar das reformas, ainda ocorrem descalabros consideráveis. Um exemplo: pelo IBGE, são dois milhões os aposentados com mais de 80 anos existentes no Brasil, mas, um milhão a mais, três milhões, são os que "recebem" de acordo com o cadastro da Previdência.

"O que é isso?", pergunta o ministro Paulo Bernardo, dando ele mesmo a resposta: "Um misto de fraude, leniência da burocracia e incapacidade administrativa".

Ele ressalva confiança na capacidade – embora lamente a oportunidade tendo em vista o ambiente de acusações – de o ministro Romero Jucá dar um jeito nisso, mas não dispõe de explicações para o fato de tal situação persistir dois anos e meio de Governo Lula depois.

Da mesma forma, o ministro do Planejamento não tem justificativa – fora suspeição de corrupção ou boicote nos escalões inferiores da burocracia – para o fato de apenas uma pequena parcela das compras do Governo serem feitas pelo sistema de pregão eletrônico.

A experiência de Paulo Bernardo no Governo de Mato Grosso do Sul e na prefeitura de Londrina indica que há possibilidade de se economizar cerca de 10% nessa forma de aquisição de bens e serviços.

"Sem contar os medicamentos, o Governo gastou R$ 14 bilhões em compras no ano passado. Só pregão eletrônico, que impede os vícios das licitações, como corrupção e acertos entre concorrentes, nos permitiria economizar R$ 1,4 bilhão".
O DIA

Merval Pereira:Reeleição virtual

Assim como o filósofo francês Jean Baudrillard utilizou a metáfora hegeliana do mestre (senhor)/escravo para analisar a situação hegemônica dos Estados Unidos no mundo, numa palestra feita em Istambul no início do mês que comentei na coluna de domingo, podemos também fazer uso dela para analisar a relação do governo Lula com o Fundo Monetário Internacional, sob o ponto de vista da esquerda petista.

Tudo indica que a relação do FMI com o governo brasileiro já passou da fase de dominação, como era classificada pelos petistas que gritavam "Fora FMI", para se transformar, no governo Lula, em hegemonia, quando o escravo, mesmo emancipado, interioriza o senhor.

Assim, o fim do acordo com o Fundo Monetário Internacional não provocou qualquer alteração nos rumos da economia traçados por Antonio Palocci (Fazenda). Ao contrário, o rompimento "amigável" trouxe para dentro do governo, no segundo posto na hierarquia do Ministério da Fazenda, justamente Murilo Portugal, o representante brasileiro no FMI, ex-secretário de Tesouro da equipe de Pedro Malan .

Na entrevista coletiva da semana passada, o que se viu foi um presidente defendendo, de tal maneira enfático, a necessidade de se fazer o superávit fiscal, de se atingir o centro da meta de inflação, de não se fazer aventuras na economia, que desmontou, por exemplo, o discurso do ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont, da facção trotkista Democracia Socialista.

Um dos três candidatos já lançados pelas muitas esquerdas do PT contra a reeleição de José Genoino, o candidato do Campo Majoritário, de onde controlam o partido Lula, José Dirceu, Palocci; Pont assumiu um discurso que aparentemente é a favor de Lula e contra a política econômica de seu governo, como se isso fosse possível. "Lula não é a favor dessa política de juros altos", diz Pont, para quem sua vitória à presidência do PT daria os meios políticos para Lula dar uma guinada em seu governo. Como se Lula quisesse.

Pois Lula deixou claro na entrevista coletiva que não quer fazer qualquer tipo de "mágica" na economia, ao apoiar incondicionalmente a política ortodoxa que o ministro Antonio Palocci vem adotando. Como a entrevista foi vista como a peça mais consistente até agora da campanha pela reeleição que já começou, ficou clara ali a estratégia que será adotada: como em 2002, não haverá lugar para polêmicas, para guinadas radicais, estará de volta o Lulinha Paz e Amor que se sente tão seguro da reeleição que já promete luz para todos até 2008, no meio de seu virtual segundo mandato.

Virtual aqui no sentido de factível, não a virtualidade baudrillardiana de que é acusado pela oposição, que seria um governo existente apenas em potencial, sem correspondência na realidade. Esse governo virtual é mais uma vez produção de Duda Mendonça, que, recuperado da depressão depois de ter sido preso em uma rinha de galos de briga, treinou o presidente Lula para a entrevista coletiva e cuidou tão bem de seu visual que o consultor de modas Julio Rego disse que Lula "parecia até um estadista".

Ficou claro na coletiva que quanto mais se aproxima a corrida pela sucessão, menos espaço vai haver para os arroubos dos petistas insatisfeitos com os rumos do governo, e mais espaço será aberto para as alianças políticas heterodoxas, como a com o "aliado" Severino Cavalcanti. Pragmático como só um líder sindical sabe ser, Lula entende que se sua popularidade estiver em alta no início do próximo ano, terá a maioria dos partidos políticos disputando um lugar na sua chapa.

Mas sabe também que será inexoravelmente abandonado se o faro dos políticos indicar que o vento está mudando de direção, que a opinião pública já não tem mais paciência para as promessas que não se realizam e para as críticas ao governo feitas pelo próprio Lula, como se ele fosse um ente superior, acima dos erros do seu governo.

Até agora tem dado certo, e ele tem mais popularidade que seus ministros. Mas Lula está diante de um paradoxo ameaçador: sua popularidade deve-se essencialmente à sua capacidade de se comunicar com o público, principalmente os mais pobres. Ao mesmo tempo, a capacidade de dizer besteiras aumenta proporcionalmente à quantidade de vezes que fala de improviso.

E se as besteiras não são compreendidas pelo povão, que pode até mesmo gostar de ver o presidente mandar os com-conta bancária "levantar o traseiro", elas, junto com a ineficiência do governo, afastam cada vez mais o presidente da classe média, que foi parte importante — para alguns analistas até mesmo decisiva — da vitória em 2002.

Mas, voltando à relação mestre/escravo, Baudrillard diz que a hegemonia é o estado supremo da dominação, e ao mesmo tempo sua fase terminal. No caso da relação do governo brasileiro com o FMI, é possível dizer que ao interiorizar os conceitos do FMI e adotá-los sem que nada o obrigue a isso, o governo petista passa a se comportar como os governos que xingava de neoliberais, e a ser vítima das mesmas acusações que fazia ao governo de Fernando Henrique. (Por falar em "xingar" de neoliberais, é interessante notar que na ridícula cartilha politicamente correta que o governo pretende distribuir, é considerado ofensivo chamar alguém de comunista, mas não de neoliberal).

Desta vez o governo será alvo das críticas não apenas dos partidos de esquerda radical como o PSTU e o PSOL da senadora Heloisa Helena. O PT será atacado pela oposição formal, talvez com candidaturas separadas do PSDB e do PFL, e também pelo representante do populismo religioso, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, provavelmente com a legenda do PMDB. Vai ser preciso fazer muita pirotecnia virtual na telinha para escapar do próprio veneno.



O GLOBO

Luiz Garcia:Lição antiga

O Vietnã fez anos na semana passada e o general Giap soprou as velinhas do bolo. Trata-se de um dos dois últimos sobreviventes (o outro é Henry Kissinger) dos principais protagonistas de uma guerra de muitos heróis e pouco senso.


Para quem nasceu outro dia: foi nos campos de arroz da antiga Indochina colonizada pelos franceses — expulsos graças ao gênio militar do mesmo Giap — que os Estados Unidos perderam mais de 40 mil homens na defesa de uma teoria que não existia na prática. Era a "teoria dos dominós". Se você enfileirar adequadamente uma quantidade de peças de dominó, basta derrubar a primeira que todas as outras cairão em série. O chato é que isso só funciona com dominós.

Mas já em 1954, o então presidente Eisenhower mencionava a teoria ao afirmar que as democracias ocidentais tinham perdido 450 milhões de cidadãos asiáticos para ditaduras comunistas — e era imperioso deter esse processo: não havia dominós a perder. Davam-lhe razão, aparentemente, a Guerra da Coréia e uma iminente (ou assim parecia na época) invasão de Formosa pela China Comunista. Os países ameaçados incluíam, disse ele com sincera convicção, o Japão, as Filipinas e a Austrália.

O risco de um dia cangurus desfilarem na Praça Vermelha justificou a tentativa de deter a queda dos dominós na antiga Indochina francesa. Mas a derrota dos americanos no Vietnã não produziu uma progressiva "comunização" da Ásia. Pequim tinha outras prioridades, hoje conhecidas e potencializadas pelo fim do comunismo na URSS. Transformou-se em poderoso parceiro comercial das democracias ocidentais e não manifestou, mesmo quando a guerra fria ainda estava a pleno vapor, qualquer interesse em fortalecer o regime comunista no Vietnã ou em ajudar a elevar o nível de vida de seu povo. E mostrou o mesmo solene desprezo pelos coadjuvantes do elenco, os vizinhos Camboja e Laos. Nas relações internacionais, vizinhos raramente são bons amigos.

A festa de aniversário em Hanói não escondeu a realidade de um país paupérrimo, que pratica uma forma local do velho ideário marxista. E, ironicamente, ganha mais dinheiro hoje com turistas americanos na velha Saigon (hoje Ho Chi Minh) do que com investimentos e ajuda de Pequim. Talvez seja mais uma prova, hoje talvez desnecessária, de que Marx estava mais certo na crítica do que nas propostas.

No clima da guerra fria, talvez a aventura americana no Sudeste da Ásia parecesse inevitável. Mas existiam outras receitas — do cardápio capitalista, como seria natural — de deter a expansão do comunismo. Foi o que Washington descobriu na década de 80, com êxito impecável.

Tanto para os homens como para as grandes potências, o sucesso a longo prazo depende em grande parte de não se acreditar na própria propaganda — pelo motivo óbvio de que ela é concebida para uso externo. Mas parece que a tentação é freqüentemente irresistível. Como parece estar acontecendo em Washington, nestes dias, em que o terrorismo é apresentado como ameaça equivalente ao velho comunismo.

Condoleezza Rice fisicamente não se parece nem um pouco com Foster Dulles, pioneiro e caixeiro-viajante da guerra fria nos anos 50.

Mas é só abrir a boca...

O GLOBO

Arnaldo Jabor: Arte e pensamento estão num beco sem saída


O que foi que nos aconteceu? Hoje as antigas palavras que eram nosso muro de arrimo foram esvaziadas de sentido e ficamos à deriva. Por exemplo: "futuro". Antes, era um lugar a que chegaríamos, um lugar no espaço-tempo que nos redimiria de sofrimentos, linha de chegada da esperança. Agora, vivemos diante de um futuro que não chega e de um presente que nos foge sem parar. Isso nos faz saudosos do presente como se ele fosse um passado. Se tínhamos conceitos e até deliciosos dogmas para explicar o mundo, agora só temos uma leve vertigem permanente de que o "tempo não pára e de que as idéias não correspondem mais aos fatos", como cantou Cazuza. Isto está virando um bordão filosófico, mas vamos lá...

No Brasil, vivemos a angústia do provisório. "Ah... os juros vão cair quando fizermos as reformas, depois que o Estado se enxugar!..." Mas... quando isso virá? Ninguém sabe, pois não há ideologias administrativas claras e isso nos danifica o presente e desmoraliza o futuro. O campo está aberto para loucuras populistas, para radicalismos burros, como vemos na América Latina, onde a democracia vai caindo em descrédito, com provocadores boçais como Hugo Chavez, incensado por idiotas terceiro-mundistas. Intelectuais e artistas vivem em pânico, pois seu reinado de sínteses se extinguiu. Os acontecimentos vão ficando incompreensíveis, impalpáveis. Hoje, no tempo das informações infinitas, na internet, na revolução audiovisual, nada se fecha em conclusões. Pipocam religiões novas e irracionalismos autoritários que nos dêem alguma certeza, nem que seja a do chicote em nossas costas, pedras em nossas cabeças ou guerras sangrentas que nos purifiquem.

Vivemos a dor de uma transição dos tempos do Sentido para uma era indefinível, o que nos dói como uma mudança de pele, sem saber se vamos para uma Renascença ou uma Idade Média. Todas as reflexões filosóficas ficaram céticas, deprimidas, descrevendo impossibilidades e becos sem saída. Nunca imaginávamos que o século XXI seria parecido com o século VII, quando Maomé se declarou o único profeta. Se antes tínhamos grandes narrativas cheias de esperança, hoje só nos resta louvar o fragmentário, deixando o Sentido para as grande corporações; só elas têm uma "racionalidade" fria que permanece. Mesmo no absurdismo dos anos 40-50, havia uma esperança de liberação individual — no existencialismo, no marxismo reformado — mas hoje caímos numa afasia que os pensadores tentam transformar em sabedoria do nada. Seria até um avanço filosófico saber que nunca chegaremos a lugar algum, que a História é assim mesmo, retalhada, fragmentária, que as sínteses morreram... Mas todo mundo quer certezas e assim... choverão fundamentalismos...

Na arte, então, tudo ficou também um bode negro. A destruição que vemos na vida, o império da sordidez mercantil, a ignorância no poder, o fanatismo do terror, a boçalidade da indústria cultural, a destruição ambiental, em suma, toda a tempestade de bosta que nos ronda está muito além de qualquer "denúncia" artística; o mal é tão profundo que denunciá-lo mecanicamente destruindo a própria arte como uma "prova do crime" acaba virando quase uma cumplicidade.

Sobrou para os artistas uma atitude geral masoquista, se mutilando na body art , se furando, querendo recuperar uma importância que tiveram nos tempos do modernismo, nem que seja pela destruição de si mesmos, para evitar o terrível sentimento de que talvez a arte tenha virado mesmo a mera produção de objetos descartáveis, desnecessários. Aceitar o efêmero da arte é vivido como a aceitação da morte. Aceitar apenas a produção de objetos vendáveis para as salas da burguesia é a derrota consumada. A morte da "aura" da arte está mais difícil de aceitar do que se pensava. Assim, o artista se vê como um profeta abandonado, e ele mesmo passou a usar a luz da "aura", passou a ter "aura", como um halo, como uma coroa de espinhos para sua solidão. O artista quer virar a obra de arte. E tudo faz para esquecer seu abandono, mesmo que seja expor seus excrementos numa latinha na Bienal de Veneza.

Caiu-me nas mãos uma revista velha com entrevista de Brad Holland, um ensaísta sacana e brilhante. Ele fala da arte de hoje e, de tabela, refere-se ao beco sem saída a que me refiro desde o início deste artigo-cabeça. Diz ele: "Duchamp fez uma obra-prima que foi um urinol. E chegou no fim da vida jogando xadrez como se fosse um objeto artístico. Meu avô também, acabou num urinol, jogando xadrez.(...) Tanto o dadaísmo como o surrealismo estão superados. É impossível distinguir esses movimentos estéticos da vida cotidiana." Holland também sacaneia o expressionismo abstrato: "As multinacionais não podiam enfeitar seus "halls-Bauhaus" com retratos de palhaços tristes e casinhas de campo. Por isso, o abstracionismo foi inventado". E depois: "Estamos tentando romper com as normas é, hoje, o slogan do anúncio do McDonald's". E a frase suprema: "Antigamente, o artista de vanguarda chocava a classe média; hoje, a classe média choca o artista de vanguarda".

E, aí, vemos a verdade: a arte contemporânea está muito aquém da realidade. Que performance ou happening será mais contundente ou expressivo que a destruição de Nova York, do WTC? Que cadáver exposto dentro de garrafas ou latinhas de bosta ou tubarões podres ou latas de lixo são mais assustadores que a eternidade da guerra Israel-Árabe ou do inferno do Iraque? Sobrou uma denúncia tola (que aliás absolve gentalha sem talento), muito aquém da complexidade do horror de hoje. E não só na arte — em tudo. Na filosofia, na política, na economia.

É isso aí. Eu ia escrever sobre a entrevista do Lula, mas me deu uma depressão pânica e desisti de criticar o óbvio. Fiquei com saudades da arte, fugi em busca da "beleza" e deu nisso: mais um beco sem saída. Não tem solução; só o cianureto de potássio.
O GLOBO

Miriam Leitão:Vontade de aparecer

Parte das crises entre Brasil e Argentina é pura fumaça. Do lado de cá, a mistura do voluntarismo com marketing que está presente em algumas posições da política externa brasileira. Do lado de lá, o estilo de governar do presidente Kirchner, criando conflitos e explorando o ressentimento em relação ao Brasil. Esse sentimento aumentou depois que o Brasil comprou três símbolos da burguesia industrial argentina.

Perez Companc, a empresa petrolífera argentina, foi comprada há alguns anos pela Petrobras. Depois foi a Quilmes; pela AmBev. E, mais recentemente, a maior indústria cimenteira do país, a Loma Negra, foi comprada pela Camargo Corrêa. Outras grandes empresas foram vendidas ao capital espanhol e até ao chileno, mas o que dói neles são as compras do Brasil.

Esse tipo de sentimento, de quem já foi a maior economia da América do Sul e perdeu peso, não tem muita solução. Mas agrava-se com o presidente Néstor Kirchner. Diariamente ele cria conflitos com os mais variados setores e, de quando em vez, ataca o Brasil com suas farpas.

A reunião dos embaixadores argentinos nos Estados Unidos era para fazer um balanço da política externa argentina. Alguns dos temas conversados saíram nos jornais. O que mais tem apelo jornalístico é a série de alfinetadas no Brasil. Isso é o que detonou a última crise. Deve-se levar em conta que o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Rafael Bielsa, está também atrás dos holofotes: é candidato a candidato nas próximas eleições parlamentares em outubro. Kirchner gosta ele mesmo de assumir as funções de ministro das Relações Exteriores e tem tratado Bielsa como se fosse um assessor para assuntos externos. O resultado é que o ministro nunca teve o prestígio externo de um Guido di Tella, o ministro do governo Menem.

Do lado de cá da fronteira, as coisas também não têm sido fáceis. As missões confiadas por Lula a Marco Aurélio Garcia e ao ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, dão a impressão de que é uma diplomacia multicéfala.

A atitude do governo, na área externa, tem sido a de dar um ar de ineditismo a todas as ações, por mais que elas sejam seguimento de outras que ocorreram no passado. Ontem no programa de rádio, o presidente disse que quer "negociar com autonomia. Negociar defendendo os interesses soberanos do Brasil". Como se em outros governos não se negociasse defendendo os interesses soberanos do Brasil. É bom lembrar que o chanceler Celso Amorim já foi ministro antes, além de ser quadro de carreira do Itamaraty. Pode atestar que a qualidade da nossa política externa não depende de governos. São funcionários do Estado brasileiro. As vitórias nas questões na OMC, que o atual governo sempre se atribui, o ministro Celso Amorim também sabe que são conquistas que atravessam governos. Ele, que exerceu as funções diplomáticas em Genebra de forma muito aguerrida, sabe que as queixas contra os subsídios do algodão, do açúcar, são velhas brigas que vêm de outros governos.

Na conflituosa relação com a Argentina, o Brasil não precisa nem de dar motivos. Eles sempre encrencam com alguma coisa. No caso do asilo dado ao ex-presidente Lucio Gutierrez, o Brasil não tinha alternativa. Pelos tratados que assinou, pela tradição latino-americana, ele teria que conceder o asilo, e não tinha por que convocar reunião regional para decidir. Em outras iniciativas, no entanto, tem que consultar os parceiros. A própria reunião de cúpula com países árabes foi definida, por um especialista em política externa, como uma iniciativa individual brasileira, à qual a Argentina e outros países aderiram.

O voluntarismo também esteve presente na fracassada candidatura para a Organização Mundial do Comércio. O Brasil tem a tradição de articular bem suas candidaturas externas. Pode perder, mas não ser acusado de improvisação. Nesse caso, não. O candidato do Uruguai foi criticado pessoalmente e a candidatura do embaixador Seixas Correia não foi previamente articulada.

Apesar de toda a fumaça, o comércio entre Brasil e Argentina continua se recuperando. No primeiro trimestre, as exportações brasileiras cresceram 35%, depois de terem crescido 61% no ano passado e 94% no ano anterior. As importações de produtos argentinos tem crescido, mas de forma menos dinâmica: 8% neste primeiro trimestre e 19% no ano passado. A agressividade das exportações brasileiras de manufaturados é outra fonte de ressentimento argentino. Mas, nesse caso, o Brasil não tem que se culpar por ser competitivo.

O GLOBO

segunda-feira, maio 02, 2005

AUGUSTO NUNES: O poder do movimento dos quadris


O Lula metalúrgico modernizou o movimento sindical. O Lula político chegou ao Palácio do Planalto à frente de um movimento popular. O presidente Lula acaba de ser seduzido pelo movimento dos quadris, cuja força lhe parece suficiente para materializar milagres. Por exemplo, erradicar as piores pragas da economia, começando pelos juros que flutuam na estratosfera.

Nenhuma demasia. Lula acha que ninguém segura este país se milhões de endividados renunciarem ao comodismo, levantarem os traseiros e saírem à caça de bancos mais clementes. Precisam transferir a conta para instituições menos vorazes com quem toma empréstimos ou estoura o cheque especial.

Como se houvesse diferenças notáveis entre os bancos. Como se a taxa básica de juros, a mais alta do planeta, não fosse fixada pelo Banco Central. Como se o Banco do Brasil não cobrasse taxas igualmente obscenas. Como se a culpa não fosse do governo.

Esculpida pelo próprio Lula, a Teoria dos Traseiros conduziu ao corolário previsível. Multidões de devedores não gostaram de saber que, apesar de vítimas, haviam sido escalados por Lula para o papel de culpados. Muito menos de ouvir que só lhes falta dinheiro porque sobra preguiça. Fiquem mais tempo de pé, ordenara o chefe de governo. Fique mais tempo sentado, replicou o coro dos indignados. Sentado na cadeira presidencial, trabalhando mais e falando menos.

Em 28 meses de mandato, Lula não chegou a ficar 500 dias em Brasília. Não necessariamente no Planalto: a contagem inclui os fins de semana, reservados ao descanso do guerreiro. Os restantes foram consumidos em viagens pelo Brasil e excursões ao exterior. Aparentemente, Lula julga possível governar o Brasil à distância do local de trabalho. Para mandar recados, solta improvisos (de pé). Em vez de audiências individuais com ministros ou despachos com assessores, promove reuniões circunscritas ao grupo dos altíssimos companheiros.

Pendências à espera de soluções atulham gavetas da mesa presidencial. Adversários do presidente dizem que Lula trabalha pouco. O que se pode afirmar é que trabalha mal.

A constatação foi escancarada na Folha de S.Paulo pelo professor de História Marco Antônio Villa. Pesquisador minucioso, examinou a agenda de Lula. Fez descobertas desoladoras.

Uma delas demonstra que o presidente não se interessa por assuntos administrativos, é avesso a estudar detidamente os grandes e graves problemas nacionais. ''A agenda de trabalho é pobre, desconexa e, em vários dias, quase totalmente vazia'', conferiu Villa. Em 6 de janeiro de 2004, por exemplo, foram recebidos no gabinete dois presidentes: o da fábrica de pneus Michelin e o do Flamengo. Em outros dias úteis, ninguém.

Para ministros, despachar a sós com o chefe é um privilégio, a materialização do sonho longamente perseguido. Em 2003, Ciro Gomes, ministro da Integração Nacional, não conseguiu nenhuma audiência. A graça foi alcançada em fevereiro de 2004. A exemplo da antecessora Emília Fernandes, a ministra Nilcéa Freire, da Secretaria da Mulher, mereceu um encontro. Com duas conversas, a dupla feminina empatou com Zeca Pagodinho. O artista logo retomará as visitas ao amigo Lula. Só não tem aparecido no Planalto por andar muito ocupado.

Trapalhões vão à luta por ''Lucho''

Existe a ONU, existe a OEA, existe a entidade encarregada de lidar especificamente com turbulências tão rotineiras na América do Sul. Uma delas poderia cuidar da crise no Equador. Mas o Brasil sempre foi um país com pressa, o governo petista sonha com o papel de bondoso gendarme do subcontinente.

O presidente Lucio Gutiérrez já despencava da cobertura do palácio em Quito quando altos companheiros instalados no Planalto e no Itamaraty ainda planejavam a montagem de um ''grupo de amigos do Equador''. Em janeiro de 2003, o ''grupo de amigos da Venezuela'', liderado pelo Brasil, ajudara Hugo Chávez a manter-se no poder. Por que não repetir a dose?

Faltou tempo. Rápido no gatilho, o povo equatoriano ordenou ao Congresso que arranjasse uma saída. Os parlamentares destituíram Gutiérrez por ter abandonado o país.

Ele nem saíra de casa. Informado da decisão, tratou de fazê-lo às pressas, para pedir asilo aos amigos. O primeiro refúgio que lhe ocorreu foi a casa do embaixador brasileiro.

Os equatorianos deduziram que o presidente Lula resolvera proteger o companheiro ''Lucho''. Não gostaram desse capítulo: aos berros, a multidão cercou a residência.

Gutiérrez e parentes tentavam camuflar o medo. O dono da casa também, sobretudo ao perceber que a turba preparava a invasão. A coisa ficou feia. Ficaria ainda pior com a entrada em cena dos grandes canastrões do elenco.

O chanceler oficioso Samuel Guimarães não descansou até manifestar seu profundo descontentamento, por telefone, a um interlocutor à espera de identificação. Pode ter sido um dos novos caciques. Pode ter sido a telefonista do palácio.

O chanceler oficial Celso Amorim declarou inconstitucional a queda do aliado. Os trapalhões só sossegaram com o resgate de ''Lucho'' pela FAB. Melhor fariam se só formassem grupos de amigos de um bairro. Ou museu.

Ministro dos índios subestimou dissidentes

A homologação da reserva indígena Raposa Serra do Sol fez o ministro Márcio Thomaz Bastos trocar a placidez que lembra um bispo em recesso pelo sorriso de um mestre de bateria. Demarcado o mundão de terras, avisou que o governo cuidaria de conter a cobiça dos plantadores de arroz. Para tanto, enviaria à região dezenas de agentes da Polícia Federal e, se preciso, tropas do Exército. Os índios já não precisavam temer os brancos.

Pouco familiarizado com certas singularidades do lugar, não sabia que a decisão do governo causara ondas de ira em muitas malocas, habitadas por inimigos da demarcação. Os agressivos macuxis defendem a expansão do cultivo de arroz. Agricultores brancos bloquearam a estrada principal. Macuxis seqüestraram quatro agentes da PF. Os caciques da Funai confabulam. Os índios que aplaudiram o ministro se mantêm em prudente silêncio.

Visitas ao absurdo

O senador Marcelo Crivella comandou um grupo de forasteiros influentes na incursão por Queimados. Na escala mais relevante do roteiro, pretendiam examinar, ao vivo e de perto, o hospital fantasma que o governo federal esqueceu meses depois de iniciadas as obras. Vistoriado o esqueleto, Crivella promete brigar pela ressurreição. É um começo. Tomara que dê certo, e não só em Queimados.

Estão à espera de visitas ilustres e providências urgentes os hospitais do Rio dizimados pela guerra entre Humberto Costa e Cesar Maia. Faltam remédios, faltam médicos, falta misericórdia. Sobretudo, falta vergonha. O ministro descansa em Brasília. O prefeito circula pelo país. Os pacientes aguardam na fila o socorro que não virá.

Sai capital, entra o país

Ao deixar a Secretaria de Política Econômica, Marcos Lisboa desencadeou uma seqüência de mudanças que terminou com Murilo Portugal instalado no posto de principal assessor do ministro Antonio Palocci. Secretário do Tesouro durante o governo Fernando Henrique, representante do Brasil no FMI, o novo número 2 da equipe econômica foi um dos nomes cogitados para a presidência do Banco Central na fase de montagem do novo governo.

No campo das idéias, Portugal é parecido com Henrique Meirelles. Mas ao presidente do BC é pouco estimulante a sensação de ter por perto quem poderia estar no seu cargo. Só na quinta-feira Lula foi apresentado por Palocci ao prato feito: Lisboa saíra, Portugal chegara. Deve ter gostado: país é maior que capital.

Pedir socorro à polícia pode ser um perigo

Nos Estados Unidos, o programa de proteção a testemunhas, monitorado pelo FBI e financiado sem sovinice pelo governo americano, exerce efeitos tranqüilizantes sobre os mais assustados acusadores de réus ultraperigosos. Convencida a depor, a testemunha é inscrita no programa e virtualmente desaparece da face da terra. Pouquíssimos inscritos foram alcançados por emissários da morte.

No Brasil, o Programa de Proteção a Testemunhas, criado em 1996, subordinado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência, inspira menos confiança. Nenhum dos brasileiros que ousaram identificar os autores da Chacina da Baixada se alistou no programa. Faz sentido.

Nos EUA, agentes morrem para proteger testemunhas. No Brasil, policiais podem matá-las para proteger-se.

Jucá merece um Ministério das Fazendas

Romero Jucá foi ministro da Previdência por um dia. No segundo, já estava no olho do furacão feito de denúncias e suspeitas. Nomeado para uma pasta grávida de problemas, tornou-se um deles. No momento, é o mais complicado.

Se for culpado, não pode ficar no cargo. Se for inocente - alega que se meteu em confusões por ter confiado em amigos malandros - também deve sair: como confiar em equipes formadas por quem não consegue escolher nem amigos?

O ministro não é homem de renunciar. Lula não sabe demitir. Configurado o impasse, que tal criar um Ministério das Fazendas para Jucá? Fiador de um empréstimo bancário de bom tamanho, deu em garantia sete fazendas inexistentes. Sem nada gastar, saberá inventar latifúndios suficientes para o grande programa: ''Fazenda para Todos''.


JB

Lula culpa EUA pela valorização do real


"Todo empresário sabe que [a desvalorização do dólar] é um problema da política americana", afirma o presidente em discurso para metalúrgicos; depois, na Fiesp, conclama empresários a parar de chorar

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, nesta segunda-feira, que a desvalorização do dólar no Brasil é resultado da política econômica dos

Estados Unidos. Não caberia a ele, portanto, resolver esse problema, do qual os exportadores brasileiros tanto se queixam.

"A gente deveria fazer uma comitiva para ir se queixar do câmbio onde efetivamente está a razão da desvalorização do dólar, que não é no Brasil. Todo empresário sabe que o câmbio tem um problema com a política americana, e não é um problema para que nós resolvamos do jeito que alguns imaginam. A gente deveria fazer uma comitiva para ir se queixar do câmbio onde efetivamente está a razão para a desvalorização do dólar, que não é no Brasil", disse.

O presidente, que discursou na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), na solenidade em comemoração da fabricação do carro de número 15 milhões da montadora no país, afirmou ainda que, apesar da depreciação da moeda norte-americana, as vendas externas brasileiras vão bem, e os dados positivos da balança comercial são resultado do trabalho de empresários e políticos que "aprenderam a vender tudo de bom que o Brasil tem".

As palavras do presidente também contemplaram os críticas dos juros altos. A eles sugeriu que formem cooperativas de crédito. Para ele, essa é uma forma de fazer os bancos baixar os juros dos empréstimos.

Lula se declarou de tal forma entusiasmo com o modelo de cooperativas que, para dar exemplo, filiou-se, juntamente com a primeira-dama, Marisa Letícia,  à Cooperativa de Crédito dos Metaúrgicos do ABC (CredABC). Ele disse esperar que sua atitude estimule as pessoas a fazer o mesmo. "Sou amante das cooperativas, e o meu sonho é que o Brasil tenha a predominância de várias cooperativas", disse. Segundo uma nota da CUT datada de 29 de março, a "CredABC tem 561 sócios e já fez mais de 350 empréstimos, com valor médio de R$ 1,3 mil cada".

Mais discurso
À tarde, o presidente fez outro discurso, desta vez na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), onde foi realizada a solenidade de comemoração dos cinco anos do jornal Valor Econômico, e novamente voltou a falar de câmbio. Desta vez, no entanto, recomendou aos empresários que poupem as reclamações porque o governo não vai interferir na apreciação do real. Ele afirmou que vê "pessoas querendo que o [ministro Antonio ] Palocci determine o valor do dólar, os mesmos que, algum tempo atrás, pediam par que o dólar fosse flutuante".

Segundo ele, o governo trata com tal seriedade a política econômica que adotou que não hesitou em elevar os juros às vésperas da eleição do ano passado, mesmo correndo o risco de perder a disputa em cidades importantes. "Vocês estão lembrados que faltavam 15 dias para a eleição da Prefeitura de São Paulo e nós aumentamos os juros, coisa que não é habitual fazer no Brasil. No Brasil, normalmente as pessoas esticam a corda até passar as eleições. Passaram as eleições, solta a corda, e fica quem quiser com o prejuízo. Por experiência, eu sei que arrebenta do lado mais fraco", afirmou.

De acordo com Lula, se o atual patamar do câmbio permite que os produtos chineses invadam o Brasil, "ao invés de ficarmos chorando, temos que nos preparar" e "é preciso que a gente pare de se achar coitadinho". A solução, na sua opinião, é  procurar novos mercados, como tem feito sua gestão.

Agora, segundo ele, "o Brasil tem um leque de opções para fazer comércio exterior sem precisar ficar dependendo apenas das duas economias já consolidadas", os Estados Unidos e a União Européia, grandes parceiros aos quais o Brasil precisaria se "dedicar um pouco mais".

Sem mencionar o caso, mas numa referência clara à sua declaração de que o Brasil havia tirado a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) da pauta, disse que o que seu governo fez foi tirar a "carga ideológica muito forte que estava na questão da Alca", o que implicou romper com o parâmetro segundo o qual ser favorável ao bloco era ser subserviente aos EUA. "Não concordar com a Alca tal como ela estava, a partir dos próprios documentos da Federação das Indústrias de São Paulo, era ser xiita, radical e antiimperialista", discursou.

Para mudar isso, Lula disse foi preciso "correr o mundo e fazer com que as opções do Brasil se alargassem", aumentando o comércio com a África, com o Oriente Médio e com a América do Sul e apostando que esse mercado pode crescer ainda mais.

Para isso, é preciso ter em mente, disse o presidente, "que o mundo é maior do que as relações costumeiras que estávamos habituados a fazer e que mercados como os Estados Unidos e a União Européia, que são extremamente importantes, também têm uma certa limitação, na medida em que eles, pela sua forte economia, são as relações preferenciais de todos". Segundo ele, a EU é a "noiva que todo mundo quer ter", e os EUA, "o noivo que todo mundo quer ter", mas "nem todos conseguem chegar perto com a força que deveriam chegar".

Lula disse que "os americanos são duros na queda" e que ele não quer afrontá-los, mas sim encontrar um novo modelo de relacionamento. "Nós não queremos afrontar os americanos não, não sou louco! O que nós queremos é tratá-los como eles nos tratam, é dizer a eles que nós queremos os mesmos direitos que eles querem. E, na lógica comercial, é a única chance de nós levarmos, pelo menos, o jogo para o empate e não perder de goleada, como sempre perdemos."

Para o presidente, responsabilidade e negociação valem mais que o confronto no tratamento dos problemas. Ele lembrou o tempo em que era a favor do rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e comparou com o atual, em que o país dispensou um novo acordo com a instituição.

 "Eu, que passei parte da minha vida gritando 'fora FMI', não sei se aqui alguém gritou; eu gritei muito. De repente, eu sou presidente da República e nós saímos do FMI pela porta da frente, sem um único grito, apenas dizendo: olha, construímos a base necessária para que a gente possa sair, não precisamos mais. Se um dia precisarmos, voltaremos de cabeça erguida, porque somos cotistas do FMI. Não precisei fazer nenhum discurso ideológico. Pelo contrário, até pedi voto para o atual presidente do FMI, veja que evolução", afirmou.

Reação

O presidente da Federação Fiesp, Paulo Skaf, respondeu ao presidente Lula. Disse que os empresários não choram e trabalham duro, mas que não é fácil ser empresário no Brasil por causa da taxa de juros, da falta de crédito, do excesso de burocracia e da altíssima carga tributária.


Preconceito
Metalúrgicos não precisam necessariamente acompanhar o noticiário econômico nem saber a opinião de especialistas. Não é parte de seu ofício. Mas o presidente tem obrigação de falar a verdade a quem quer que seja. Ou não falar nada

Por Liliana Pinheiro

Será que para uma platéia de empresários e de economistas, o presidente Lula diria que a cotação do dólar diante do real é definida pela política norte-americana? Se sim, Lula mostra um despreparo para governar que já nem deve ser motivo de crítica — a essa altura, inútil —, mas de profunda preocupação. Se não, ele está tratando com preconceito seus ex-colegas metalúrgicos, negando-lhes a verdade porque se fia na ausência de conhecimentos específicos da categoria acerca de mágicas cambais e outros tantos truques de sua administração.

Metalúrgicos não têm a obrigação de saber que os juros elevados do Banco Central propiciam um ambiente de especulação para o capital internacional. E que a busca pela maior remuneração do mundo é o que faz com que o real perca valor diante do dólar — mais no Brasil do que nos demais países, que mantêm a variável cambial sob grande vigilância. Metalúrgicos não precisam necessariamente acompanhar o noticiário econômico nem saber a opinião de especialistas. Não é parte de seu ofício. Mas o presidente tem obrigação de falar a verdade a quem quer que seja. Ou não falar nada — se isso contraria o interesse nacional. Se deseja ser apenas didático, que use mais uma de suas inúmeras metáforas — o talento da comunicação fácil jamais lhe fez falta.

Mais tarde, na solenidade de aniversário do jornal Valor Econômico, e falando para a elite econômica, o presidente evitou bobagens desse quilate. Em vez da tal "comitiva" para reclamar do câmbio nos EUA, ele propôs aumento do comércio com os Estados Unidos, avisou que não vai intervir no câmbio e informou que pretende se reunir com setores que se sintam prejudicados com a valorização do real para ajudá-los a encontrar novos mercados. 

Embora também nesse segundo discurso a simplificação da realidade fique evidente, não está presente o engodo vendido aos metalúrgicos como fina teoria econômica.

De todo modo, ninguém engana a todos durante todo o tempo. Fazer política não é privilégio de petistas, e na Volkswagen um grupo de trabalhadores deu mostras de que também está disposto a trabalhar nesse terreno. Uma faixa de protesto aqui, uma palavra de ordem ("Arrocho!") acolá, e a festa populista de Lula deixou o campo da perfeição. As vaias a sindicalistas da CUT assombraram a solenidade, por mais que eles tenham se profissionalizado na política a ponto de nem piscar diante de manifestações assim.

A oposição sindical na Volkswagen tem certa força e há muito incomoda a turma do presidente. Mas é óbvio que ela não se atrevia a aparecer havia muito pouco tempo, quando Lula ainda enfeitiçava platéias com um discurso de oposição. De fato, lá se vai o último território brasileiro em que petistas podiam se movimentar sem uma única contestação quanto a seus métodos e idéias. Mesmo em casa, o amor ao líder deixou de ser incondicional. Melhor assim, do ponto de vista dos interesses do cidadão comum, este que pagará caro se as exportações perderem o fôlego por causa do câmbio e se as empresas pararem de investir por causa dos juros altos.

No mais, a balança comercial, por ora, vai muito bem, está certo o presidente em relação ao retrato do momento. Inevitável é lembrar que um desastre não se constrói do dia para noite, mas na insistência em um princípio equivocado. O Brasil já viveu isso em relação ao câmbio fixo. Já incorreu em outro erro, o tabelamento de preços. No começo, toda idéia simples dá certo — como a atual, de controlar preços deixando o dólar se desvalorizar e, ao mesmo tempo, deixando os juros nas alturas.

Devagar, porém, os sintomas de esgotamento da mágica vão transformando a virtude em vício. A desaceleração da atividade industrial já deveria ser um sinal de alerta, assim como a queda das vendas do varejo e o aumento do desemprego.

Além disso, embora quase todo o tempo o presidente Lula tenha falado em exportações — parece que a única obra de peso a ser mostrada —, um bom observador político certamente está de olho em outro resultado, mais modesto, desimportante nas grandes análises, quase um acessório a ser mencionado só depois de lembrados outros grandes números da economia: a inadimplência.

Esse indicador, que deu um salto gigantesco neste ano, está comunicando o que se passa nos orçamentos familiares dos eleitores.


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