Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, junho 02, 2008

Mendigos de Montreal e crianças de São Paulo Claudia Costin

o estado de s paulo



Em minhas caminhadas pelas ruas de Montreal, encontro com freqüência mendigos. Muitos me cumprimentam e sempre respondo, quase íntima, dada a recorrência de certos percursos. A maioria deles tem cachorros, todos de raça e bem tratados. Causou-me curiosidade o fato de que não vi negros ou latinos mendigando no meu percurso usual. Parecem jovens universitários de férias e em conflito com a família.

Mas, ao descer e subir a Avenue Mont-Royal, há algo que nunca vi: crianças mendigando. Fruto de um país rico onde ser mendigo é uma escolha? Talvez, mas ao me lembrar das nossas crianças nos faróis, com adultos vigiando a distância, numa clara exploração de trabalho infantil, tolerada por autoridades que recomendam cuidado para não criminalizar a pobreza, não pude conter um momento de tristeza e indignação.

Possibilidades de resolver este problema, no entanto, existem e começam a ser adotadas. Em editorial de 13 de setembro de 2007, o Estado apontava a diminuição expressiva de crianças em situação de rua em São Paulo. Levantamento da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) mostrou que havia 1.842 crianças e adolescentes vivendo nas ruas no ano passado. Ora, em 2005 eram 4.030, ou seja, temos hoje, se mantido o número de 2007, menos da metade.

A Secretaria de Assistência Social do Município se equipou mais, aumentou as equipes que abordam esses jovens e procuram reconstruir sua vida, junto à sua família, se possível, ou em centros de acolhida, assegurando a freqüência escolar e o estabelecimento de vínculos próprios de uma infância sadia. Curiosamente, Floriano Pesaro, à frente tanto desta bem-sucedida iniciativa como de outra que ajudou também a combater a pobreza e - ao cobrar contrapartidas dos pais que recebiam o dinheiro do Bolsa-Escola (depois transformado em Bolsa-Família) - a retirar crianças das ruas, afirmava na ocasião que a solução do problema em São Paulo passaria pela integração de políticas públicas adotadas na região metropolitana.

As crianças que mendigam em faróis não necessariamente moram na rua. Pesquisas feitas pela Prefeitura mostram que 85% delas moram com sua família, em bairros periféricos ou em municípios da Grande São Paulo, e vão para os cruzamentos da capital a cada dia, com um adulto ao lado, que explora seu trabalho (basta olhar os arredores que se encontrará alguém à espreita, nem sempre um familiar). A situação de desigualdade ainda forte no Brasil, embora tenha certamente mostrado melhoras importantes (o coeficiente de Gini, que reflete a concentração de renda, caiu 5% entre 2001 e 2005, levando-nos ao mais baixo índice dos últimos 30 anos), trouxe-nos uma atitude de aceitação da mendicância infantil como uma conseqüência natural da pobreza, expressa por fórmulas como "assim pelo menos comem".

A mendicância das crianças nos faróis é trabalho infantil e qualquer tolerância da sociedade com esta prática é inaceitável. Também o são a guarda de veículos, a venda de flores, a coleta de material para reciclagem ou outras formas de trabalho que lhes roubam tempo dos estudos ou dos folguedos. Naturalmente, o trabalho infantil é proibido por lei (exceto na condição de aprendiz a partir dos 14 anos), mas só recentemente se criaram um consenso e os instrumentos para combatê-lo com mais eficácia. No governo Fernando Henrique foi criado o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), agora corretamente articulado com o Bolsa-Família, exigindo-se 85% da freqüência escolar para que os pais destes trabalhadores mirins sejam compensados pela decisão de mantê-los na escola. Afinal, as perdas geradas por um cotidiano privado de estudo, brincadeiras, afeto, esporte e lazer são enormes para as crianças e geram um ciclo de transmissão intergeracional de pobreza. A menina ou o menino que trabalha tem baixo rendimento escolar, alto índice de repetência e termina por abandonar os estudos. De acordo com pesquisa realizada pela USP, com base em dados da Pnad, quem trabalha a partir dos 7 anos de idade chega a receber um salário cinco vezes menor do que quem começa a trabalhar aos 14 anos.

Passando por São Paulo rapidamente, em maio, notei a ausência de crianças nos cruzamentos por que costumo passar em meus trajetos. A situação econômica favorável certamente explica parte deste resultado, mas políticas públicas competentes como o Peti e as adotadas por Floriano Pesaro, no Município de São Paulo, foram essenciais para o resultado. Afinal, só entre 2005 e final de 2006, mais de mil crianças foram retiradas de faróis, no programa "Dê mais que esmola. Dê futuro".

Essa experiência se inspirou em outra igualmente bem-sucedida, iniciada por Cássio Taniguchi em Curitiba, onde hoje desapareceram as crianças pedintes. Em 2003 e nos anos seguintes era comum ver na cidade faixas desestimulando a esmola: "Criança quer futuro. Não quer esmola." Logo abaixo do slogan se via o nome do fundo de ajuda social mantido pela Prefeitura, para onde deveriam ser destinadas as doações. Deu tão certo que foi mantida por seu sucessor. Em Curitiba o número de crianças nas ruas girava em torno de 600 em 2002, zerando o número em 2006. Até hoje crianças que chegam às ruas não permanecem mais que três horas - são abordadas pelo serviço social e levadas de volta para casa. A sociedade curitibana percebeu a situação de exploração e rechaça a permanência de crianças nas ruas, seja qual for o motivo.

A economia das esmolas a crianças nas ruas mobiliza hoje, em São Paulo, cerca de R$ 2,1 milhões por mês, segundo estimativas da Prefeitura. Certamente há uma forma inteligente, aos moldes do trabalho iniciado pelo ex-secretário Pesaro, de utilizar esses recursos para acabar de retirá-las e responsabilizar quem explora seu trabalho. São Paulo merece.

Claudia Costin, professora do Ibmec-SP e da Universidade de Montreal, foi ministra da Administração e Reforma do Estado e secretária de Cultura do Estado de São Paulo

Drogabras CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O GLOBO



Três magistrados da 6a-Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) absolveram um condenado em primeira instância por porte de 7,7 gramas de cocaína. O autor da polêmica decisão foi o juiz José Henrique Rodrigues Torres, que considerou inconstitucional o artigo 28 da lei 11.323/06, que criminaliza, embora de maneira mais branda, o porte de drogas ilícitas. A decisão, por óbvio, cairá no Supremo Tribunal Federal (STF), pois a inconstitucionalidade ou não de uma lei não poderia ser feita nessa instância.

O objetivo, certamente, foi provocar polêmica e levar o assunto para a agenda da mídia.

A decisão reforça o discurso do lobby pró-legalização.

Repercutiu-a, de imediato, a jurista carioca Maria Lúcia Karan. Em recente entrevista ao jornal "Estado de S. Paulo", Karan defendeu a descriminação do uso de drogas com um entusiasmo inusitado: "A descriminalização significa reafirmação da liberdade individual" (...). "É preciso descriminalizar e legalizar a produção, o comércio e o consumo de todas as drogas." Só faltou sugerir a criação de uma drogabras. Paira no ar a pergunta óbvia: será que Fernandinho Beira-Mar forneceria ao governo as drogas que seriam repassadas aos usuários? A decisão do magistrado, certamente bem-intencionada, mas influenciada pelos fundamentalistas do lobby pró-liberação, foi tomada de costas para a dura realidade da dependência química.

A descriminação das drogas, sobretudo da maconha, não ajudará em nada. Ao contrário.

Como afirmou o respeitado psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), "os artigos recentes mostram de uma forma inquestionável que o consumo de maconha aumenta em muito o risco de os jovens desenvolverem doenças mentais". E sublinhou o especialista: "Do meu ponto de vista, essa geração que consome maiores quantidades de maconha do que a geração anterior pagará um alto preço em termos de aumento de quadros psiquiátricos." Não considero correto fazer jornalismo opinativo desvinculado da realidade dos fatos. Por isso, conversei com especialistas, ouvi relatos de dependentes químicos, conheci serviços especializados e comunidades terapêuticas que apresentam elevados índices de recuperação. Mas o que mais me impressiona é o depoimento daqueles que sofrem a tragédia da dependência química.

Suas declarações não têm o tom maneiro de certos textos de gabinete, mas transmitem a força persuasiva do sofrimento vivido.

"Sou filho único. Talvez porque meus pais não pudessem ter outros filhos me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei nove meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha.

Nessa época já cursava medicina e convenci os meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas.

Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina, que é um opiáceo. Sofri uma overdose e somente não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho.

Após esta fatalidade decidi me internar em uma comunidade terapêutica e hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava nas drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque." A.S.N, médico, ex-interno na Comunidade Terapêutica Horto de Deus, Taquaritinga, interior de São Paulo (www.hortodedeus.org.br).

O dependente químico não deve ser tratado como criminoso. Não o é. Precisa ser ajudado, apoiado, tratado. Outra coisa, totalmente diferente, é a defesa da descriminação. A dependência química não admite romantismo. Reclama, sim, seriedade e realismo.

Ricardo Noblat Sirva-se à vontade

O GLOBO

O ilegal nós fazemos logo. O inconstitucional leva um pouco mais de tempo". (Henry Kissinger, ex-diplomata americano)

O cardápio nacional de transgressões está para lá de variado. Que tal o retorno de um imposto revogado há pouco pelo Congresso? É o que o governo tenta, batizando a antiga CPMF com outro nome.

Que tal a libertação de um deputado preso por chefiar quadrilha que vendia proteção a criminosos? Foi o que garantiu a Assembléia Legislativa do Rio.

O governo pode propor uma nova CPMF, sim — embora seu gesto soe como uma afronta à decisão tomada pelo Congresso em dezembro último de enterrar a CPMF original, e embora Lula tenha dito à época que jamais bancaria a criação de imposto semelhante. Mas o governo deveria pelo menos se sentir dispensado de encenar a farsa de que nada tem a ver com a iniciativa dos seus líderes no Congresso.

Inventou-se a CPMF para sustentar os gastos com Saúde. O dinheiro arrecadado acabou pagando despesas de outras áreas.

Com o mesmo fim, inventase agora a Contribuição Social para a Saúde.

Se o governo se recusa a assumir publicamente a paternidade do novo imposto, por que deputados e senadores que o apóiam deveriam fazê-lo? E logo em ano eleitoral? Com a internet e o celular disponíveis para disseminar a lista dos que votaram a favor? Está maluco, ô cara! Inclua-se fora dessa! Aproxime-se para lá! De impostos estamos fartos.

O governo só faz aumentar seus gastos. A Receita bate sucessivos recordes de arrecadação. A carga tributária do Brasil é uma das maiores do mundo.

E continua medíocre a qualidade dos serviços oferecidos pelo Estado.

A Assembléia Legislativa do Rio poderia, sim, ter mandado soltar o deputado Álvaro Lins (PMDB), ex-chefe de polícia durante o governo Garotinho, detido sob a acusação de comandar quadrilha armada que acobertava criminosos e extorquia dinheiro de delegados.

A decisão está amparada pela Constituição. Ocorre que a Assembléia não estava obrigada a adotá-la. Teria sido preferível deixar o caso por conta da Justiça.

Mas o que esperar de uma Assembléia onde 33 dos 70 deputados foram denunciados por crimes de estelionato, improbidade, formação de quadrilha e até homicídio? É uma assembléia de gente suspeita.

Por 419 votos contra oito e três abstenções, a Câmara dos Deputados aprovou na semana passada Proposta de Emenda à Constituição que aumenta de 51.748 para 59.302 o número de vereadores.

Há quase três anos, por 10 votos contra um, o Supremo Tribunal Federal havia reduzido o número de vereadores em 8.528. As Câmaras Municipais são ineficientes, não valem o que custam e funcionam como porta de entrada para o mundo do crime. Quer um único exemplo? O Ministério Público pediu o afastamento e o seqüestro de bens dos 17 vereadores de Campos, acusados de desviar cerca de R$ 15 milhões somente em 2007.

Diz antiga lenda que um jornal do sertão de Pernambuco publicou editorial ao cabo da 2aGuerra Mundial onde lembrava que advertira Hitler com antecedência sobre a derrota iminente do nazismo. Lamentava por não ter sido ouvido. Neste espaço, no dia 11 de fevereiro passado, escrevi que a CPI do Cartão Corporativo seria uma "CPI de mentirinha".

Lamento que tenha sido.

Não investigou eventuais gastos irregulares do governo. E ignorou o dossiê montado na Casa Civil sobre despesas sigilosas do governo passado. Na próxima quinta-feira, finalmente se dissolverá deixando um rastro de falta de vergonha.

Sob pressão de um grupo de governadores do Norte, o novo ministro do Meio Ambiente, Carlos ("Jovens Tardes de Domingo") Minc, assinou portaria concedendo crédito de R$ 1 bilhão a produtores rurais de 100 municípios que desmataram muito além do permitido pela lei. De fato, quem assim procedeu ganhou dinheiro com a venda de madeira e merecia ser processado — mas não: terá direito a empréstimo barato para reparar o mal que fez. Lula não dispensa apoios para governar. É a real politic, meu caro — algo que serve para justificar qualquer tipo de transgressão.

MERVAL PEREIRA

O GLOBO

Clientelismo

As acusações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, e não
estadual como escrevi ontem, de formação de quadrilha contra o
ex-governador Anthony Garotinho e o deputado estadual Álvaro Lins,
antigo secretário de Segurança, são conseqüências de uma longa
história de conivências, clientelismo e corrupção que marcam a
política do Estado do Rio de Janeiro e que, na opinião do economista e
pesquisador Mauro Osório, professor de Economia Política da Faculdade
Nacional de Direito da UFRJ e especialista em planejamento urbano, tem
sua origem remota nas cassações nos anos 60, que, segundo ele,
"prejudicaram particularmente o Rio e geraram a possibilidade do
surgimento desse marco de poder, pelo fato de que no Rio não foram
cassados apenas a esquerda e os 'corruptos', mas também a visão mais
conservadora".

O conceito de "marco de poder", que no caso do Rio seria o
fisiologismo e a corrupção, é do Prêmio Nobel de Economia Douglass
North, segundo quem, determinados "marcos de poder" favorecem o
desenvolvimento e outros prejudicam.
Para Mauro Osório, esse marco de poder, ao menos até 2006, não foi
quebrado no Rio, e todos os governadores que chegam ao poder após o
segundo governo Chagas Freitas "ou entram articulados com esse marco
ou dele se tornam prisioneiros".
O problema, diz ele, não é a existência de clientela, mas a ausência
de contrapesos. Ele culpa também a "fragilidade das instituições
regionais e ausência de tradição de discutirmos temas regionais, pela
nossa cultura e história de centro nacional".
A existência de um "marco de poder" nesse nível gera, para Mauro
Osório, "desestruturação seja no poder Legislativo, seja no
Judiciário, seja no Executivo. Mesmo no Executivo Federal, as
indicações acabam passando em algum nível pelos políticos eleitos pelo
estado".
Ele lembra que, entre os deputados apontados como membros da bancada
dos "sanguessugas" estavam em torno de 10% do Congresso e 30% da
bancada do Estado do Rio de Janeiro. Essa situação continuada gera
naturalizações, articulações de interesses e uma tendência à sua
manutenção, diz Osório.
Para ele, a situação do Estado do Rio deriva de uma especificidade da
política local, onde nos anos 60 existiam duas lógicas, "uma nacional
e radicalizada, com base na qual o carioca votava referenciado no
debate nacional, e uma lógica localista e fragmentária, com uma Câmara
dos Vereadores que tinha pouco poder e importância no dia-a-dia dos
cariocas".
Havia, então, uma enorme fragmentação por vários partidos, e eleição
hegemonizada por candidatos que defendiam interesses particularizados
e uma lógica principalmente clientelista. "Quando ocorrem as
cassações, a partir de 1964, inicialmente, no Rio, a esquerda é
cassada, tendo perdido seu mandato oito dos dez deputados federais
eleitos pelo PTB em 1962.
Posteriormente, a UDN, que aqui era lacerdista, também sofre
fortemente com as cassações, a partir da criação da Frente Ampla de
Lacerda com JK e João Goulart".
Essa situação gerou "um vazio político na cidade do Rio de Janeiro,
que vai ser ocupado por Chagas Freitas, então deputado federal, dono
do maior jornal de circulação popular na cidade do Rio e em sua
periferia, e presidente do Sindicato Patronal de Jornais e Revistas da
cidade nos anos 50 e 60, instalando esse 'marco de poder' baseado no
clientelismo político", destaca Osório.
O deputado Chico Alencar, candidato a prefeito do Rio pelo PSOL,
considera que os esquemas clientelistas continuam em vigor e denuncia
que as inspetorias setoriais de fiscalização tributária "são
disputadíssimas por deputados estaduais fisiológicos".
Segundo Alencar, "há muitas notícias de que ali, a exemplo de
delegacias de polícia, montava-se um esquema de arrecadação, achacando
supermercados, locadoras e vendedoras de automóveis etc".
Ele destaca o fato de Garotinho ser o presidente regional do PMDB no
Rio, partido do governador Sérgio Cabral, e a deputada federal do PPS
Marina Magessi, ex-delegada de polícia ligada a Álvaro Lins, estar
também sendo investigada sem que seu partido se manifeste, como
demonstração de que "o sistema político-eleitoral é a matriz da
corrupção, e no nosso estado isso é galopante".
Já o professor Mauro Osório destaca algumas medidas que, segundo
acredita, "contribuem para a possibilidade de uma superação desse
marco de poder", entre elas, uma maior articulação de um debate no
âmbito regional, "a partir de ampliação de matérias na mídia, do
surgimento de instituições como o Rio Como Vamos, e de articulação de
debates e propostas pelas principais entidades empresariais".
Por parte do Governo do Estado, Osório destaca que, nas áreas de
Segurança e de Fazenda "ausentaram-se as indicações políticas". Além
disso, "retoma-se a prática de concursos públicos, ao contrário das
terceirizações que tanto escândalo geraram.
Na área do Detran, ocorre o primeiro concurso público de sua história.
Na área ambiental, pela primeira vez em muitos anos, o dinheiro do
fundo ambiental é preservado para a área".

Recebo de Cosmo Ferreira, ex-promotor de Justiça do Rio de Janeiro e
procuradorregional da República aposentado, velho colaborador da
coluna, a seguinte mensagem: "A pecha de 'evidente ilegalidade da
prisão em flagrante', apontada em sua coluna, não procede. O crime de
'Lavagem' ou Ocultação de bens, direitos e valores, previsto no artigo
1oda lei no9.613 de 3 de março de 1998, é classificado,
doutrinariamente, como crime permanente. De sorte que, enquanto durar
a ocultação permanece o estado de flagrância.
Tal crime é inafiançável, na letra do artigo 3odo referido diploma legal".
Sendo assim, endosso sua crítica à omissão do Ministério Público
Estadual e da Assembléia Legislativa do Rio.

Mario Vargas LlosaAs lições dos pobres

O ESTADO DE S PAULO
Quando seu pai morreu, Aquilino Flores tinha 12 anos e sabia que em
sua terra, Huancavelica, um dos departamentos mais pobres da serra
peruana, seu o futuro só seria de insegurança e fome, que conhecia
desde que nasceu.

Então, como milhares de conterrâneos, ele emigrou para Lima. Ali,
começou a ganhar a vida lavando carros nos arredores do Mercado
Central. Era um rapaz simpático e trabalhador e, um dia, o
proprietário de um dos carros propôs que ele vendesse algumas camisas
pólo que fabricava informalmente. Deu a Aquilino 20 peças e disse que
podia ficar com elas o tempo que precisasse. Mas, num único dia,
Aquilino vendeu as 20 peças. E, assim, antes de chegar à adolescência,
ele passou de lavador de carros a vendedor ambulante de roupa no
centro da Lima colonial.

Aquilino tinha pouca instrução, mas era esforçado, inteligente e com
uma intuição quase milagrosa para identificar o gosto do público
consumidor. Um dia perguntou ao seu fornecedor de camisas se podia
confeccioná-las com estampas coloridas, que eram as preferidas de seus
clientes. Como o fornecedor não fabricava roupas estampadas, Aquilino
subcontratou o serviço de um tintureiro, também na informalidade, para
acrescentar algumas estampas e imagens nas camisas que vendia. Às
vezes ele próprio sugeria os desenhos e cores.

Como o negócio ia bem, Aquilino trouxe de Huancavelica seus irmãos
Manuel, Carlos, Marcos e Armando para trabalhar com ele. De vendedores
ambulantes passaram depois a comerciantes estáveis no Mercado Central.

Para conseguir os melhores locais no Mercado, chegavam ao local às
4h30 e não se mexiam dali até o anoitecer.

De intermediários e vendedores, eles se tornaram produtores. Começaram
com uma máquina de costura em uma garagem, depois outra, outra e
muitas mais.

O grande salto do negócio artesanal de Aquilino Flores começou no dia
em que um comerciante de Desaguadero, cidade fronteiriça entre o Peru
e a Bolívia, paraíso do contrabando e da economia informal, lhe fez um
pedido de US$ 10 mil de camisas com estampas coloridas. Aquilino quase
desmaiou. Mas nunca recusava um desafio e aceitou a proposta.

Imediatamente, subcontratou todas as oficinas de confecção do bairro
e, trabalhando a um ritmo veloz, chegou a entregar os US$ 10 mil de
camisas pólo no prazo combinado. Desde aí, a família Flores
dedicou-se, além de vender, a produzir roupas para os peruanos de
baixa renda e distribuir suas mercadorias não só em Lima, mas também
nas províncias, e a exportá-las para o exterior.

Quarenta anos depois de sua chegada a Lima com uma mão atrás e outra
na frente, o ex-lavador de carros e ex-camelô é proprietário da Topy
Top, a mais importante empresa têxtil do Peru, com vendas anuais de
mais de US$ 100 milhões, e dá emprego direto a cerca de 5 mil pessoas
(dois terços delas são mulheres) e indireto a umas 30 mil.

Possui cinco entrepostos no Peru, três na Venezuela e várias fábricas
e um próspero sistema de cartões de crédito para o consumo em
sociedade com um banco local.

Continua um homem simples, orgulhoso de suas origens humildes, que
trabalha sempre 12 horas por dia e sete dias da semana. Seus filhos,
ao contrário dele, estudaram nas melhores universidades e contribuíram
como profissionais para a formalização e modernização de suas
empresas, um modelo no gênero, e não só no Peru.

Todos esses dados sobre Aquilino Flores e a Topy Top eu obtive de um
penetrante estudo do economista Daniel Córdova e uma equipe de
colaboradores, que consta de um livro recém-publicado nos Estados
Unidos, Lessons from the Poor (Lições dos pobres), editado por Álvaro
Vargas Llosa para o The Independent Institute, fundação que promove a
cultura liberal.

O livro enfoca quatro casos de empresas e clubes de troca que surgiram
na Argentina durante a crise financeira de 2001/2002. As empresas,
duas da América Latina e duas da África que, como as da família
Flores, nasceram sem nenhum capital, por iniciativa de pessoas muito
humildes e de educação precária e que, com esforço, perseverança,
intuição, e um aproveitamento astuto das condições do mercado,
conseguiram crescer e se converter em poderosos conglomerados que hoje
operam no mundo inteiro, dando emprego a dezenas de milhares de
famílias, e contribuem para o progresso de seus países.

É um livro estimulante e prático, que mostra, com provas palpáveis,
que a pobreza pode ser derrotada por quem tem olhos para ver e
consciência para aprender com os bons exemplos.

O extraordinário é que todas essas empresas progrediram, apesar de
operarem em contextos sociais e políticos hostis ao livre mercado e à
empresa privada, envenenados de populismo, intervencionismo estatal e
corrupção, onde a propriedade privada era, com freqüência, violada e
as regras do jogo da vida econômica mudavam o tempo todo, segundo os
caprichos de governos demagógicos e incompetentes.

O que esta investigação mostra é que a necessidade e a vontade de
viver dos pobres conseguem, às vezes, superar todos os obstáculos que,
nos países do terceiro mundo, são erigidos contra a iniciativa
individual e a liberdade, como o estatismo, o nacionalismo econômico,
o coletivismo e outras ideologias antimercado. E também que a falta de
capital e de formação profissional pode, em casos extremos, ser
compensada pela experiência prática e esforço.

Se os Flores e os Añaños, no Peru, se a cadeia de supermercados
Nakamat, no Quênia, e as empresas de desenho industrial Adire, na
Nigéria - os casos analisados no livro -, apesar de tantos obstáculos
e dificuldades, alcançaram a prosperidade que hoje desfrutam, não é
difícil imaginar o que ocorreria se os pobres do terceiro mundo
pudessem trabalhar num contexto propício, que estimulasse o espírito
empresarial, em vez de asfixiá-lo com regulamentos e uma tributação
confiscatória e, no lugar da insegurança jurídica, seus comerciantes,
artesãos e industriais contassem com regras de jogo estáveis, claras e
eqüitativas.

Um outro ensinamento desta investigação é que o melhor auxílio que os
países desenvolvidos e organismos financeiros internacionais podem
prestar para combater a pobreza e o subdesenvolvimento não são as
doações nem os subsídios que, contrariamente aos generosos objetivos
que os animam, só servem para entorpecer a iniciativa e criar atitudes
passivas, de dependência e parasitismo, além de estimular a corrupção,
sem criar condições de liberdade e competência que permitam que os
pobres trabalhem e usem seus próprios meios para melhorar suas
condições de vida e progredir.

Abrir os mercados agora fechados aos produtos originários de países
desenvolvidos é, segundo todos os economistas que escrevem em Lessons
from the Poor, a melhor ajuda que os países ricos podem oferecer para
fomentar o desenvolvimento na África e América Latina, as duas regiões
mais atrasadas do mundo, porque a Ásia, à exceção de tiranias como
Mianmar, parece já estar decolando.

Os pobres sabem melhor do que ninguém, porque sofreram na própria
carne, que não serão os Estados ineficientes do terceiro mundo,
paralisados pelo câncer da burocracia e corroídos pela incapacidade,
os tráficos criminosos, o compadrio e outras deficiências, que irão
tirá-los da pobreza. Sabem, como Aquilino Flores quando suava a camisa
lavando carros ou girando pelas ruas de Lima vendendo camisas, que a
sua sobrevivência depende somente do seu talento, seu trabalho e sua
vontade de superação.

Essa energia pode mover montanhas, desde que não se esgote e seja
castrada na luta contra obstáculos artificiais que sempre surgem com a
intromissão estatal. Os heróis civis, cujas façanhas são descritas
nesse livro, são um exemplo vivo de que a pobreza em que vivem
centenas de milhões de pessoas ainda hoje no mundo não é uma
fatalidade irredimível, mas um mal que pode ser combatido e vencido
com armas cujo emblema cabe em quatro palavras: trabalho, propriedade
privada, mercado e liberdade.

Miriam Leitão - A ameaça é nossa

O GLOBO


O debate brasileiro sobre a Amazônia entrou naquele desvio favorito
que o leva para longe do ponto principal. Voltou a tese xenófoba de
que a ameaça à região são os "estrangeiros". Se há estrangeiros
cometendo ilegalidades, isso é caso de polícia, mas números, fatos e
evidências mostram que são os brasileiros que estão pondo abaixo a
floresta. Infelizmente somos nós a principal ameaça.

É confortável a idéia de que o mundo cobiça e ameaça destruir o que é
nosso e que protegemos bem. O berço é esplêndido, mas não podemos
dormir com essa. Especuladores e picaretas estrangeiros sempre
existirão por lá.

Gente oferecendo pedaços do paraíso a preço barato para inglês ver em
terra onde a maioria dos títulos de propriedade é falsa sempre vai
aparecer. Mas a verdade dolorosa é que foram os brasileiros que, em
dez anos, abriram uma cratera do tamanho do Estado de São Paulo na
floresta mais rica e biodiversa do planeta. Somos nós, os donos, que
estamos pondo em risco nosso próprio patrimônio.

No debate dos últimos dias, autoridades públicas pediram o direito de
não cumprir a lei. O governador de Mato Grosso afirmou que só 25% dos
produtores do seu estado estão preparados para provar a regularidade
fundiária e ambiental exigida pela resolução do Conselho Monetário
Nacional. Ou seja, 75% dos produtores de Mato Grosso não respeitam as
leis ambientais. Um absurdo que só pode ser dito impunemente porque
nos acostumamos com o inaceitável.

Em entrevista que me concedeu na Globonews, Blairo Maggi disse que os
produtores precisam de seis meses para cumprir a resolução; ao GLOBO,
ele disse outra coisa, defendeu a extinção da resolução. O ministro
Mangabeira Unger defendeu que quem "tem o gozo da posse da terra goze
das prerrogativas da propriedade".

Será que o ministro está dizendo que quem grilou deve ficar com a
terra pública? Ainda não se sabe se é para valer a resolução que diz
que a lei é para valer, pois o presidente disse que tem 30 dias para
pensar. Ela tem prazo até 1ode julho para entrar em vigor. Tudo é
surrealista.

Antes de propor essa resolução ao CMN exigindo respeito a lei
fundiária e ambiental, o Ministério do Meio Ambiente estudou o tema e
preparou uma nota técnica. Os dados são claros.

Quando o financiamento aumenta, o desmatamento cresce. Os municípios
que mais desmatam são os que mais recebem financiamento.

Há uma correlação direta entre volume e localização do crédito e a
ampliação do crime. O país está financiando a destruição do seu
próprio patrimônio.

Aos dados: em 2006 e 2007, os estados de Mato Grosso, Pará e Rondônia
receberam 81% do crédito rural oficial para a região e foi justamente
nestes três estados onde houve 85% do desmatamento. A curva do
desmatamento e a da concessão do crédito são imagens no espelho. A
nota técnica compara os piores e os melhores na lista dos 12
municípios que mais desmatam no Pará e nos 19 que mais desmatam em
Mato Grosso. Assim: foi feita uma lista desses municípios críticos dos
quatro que mais desmataram para comparar com os quatro da lista que
menos desmataram. No Pará, os quatro piores receberam 128% mais
crédito e desmataram 300% mais que os quatro municípios melhores.

Em Mato Grosso, os quatro piores receberam 221% mais crédito e
desmataram 48% mais que os quatro municípios que menos desmataram.

Quem tem se aproveitado do crime? Nós mesmos. A madeira ilegal é
consumida no próprio Brasil. O gado que cresce nas pastagens
recém-feitas após a queima da mata vai para os açougues brasileiros. O
carvão feito lá vai para os fornos das nossas produtoras de
ferro-gusa.

É nosso o desleixo que faz com que os recursos biogenéticos da
Amazônia sejam desconhecidos. O temor da biopirataria é curioso.

Se achamos que piratas querem nos roubar, é porque temos consciência
do tesouro que guardam as matas da Amazônia; mesmo assim, as
destruímos; se sabemos que há tesouros lá, por que não tentamos nós
mesmos descobrir, usar, patentear e industrializar esses bens? Por
isso é bemvinda a proposta da Academia Brasileira de Ciências (ABC),
preparada por cientistas do nível de Bertha Becker e Carlos Nobre, de
que sejam feitos investimentos pesados na formação de pesquisadores e
em centros de pesquisas de institutos tecnológicos na Amazônia. A
proposta completa está no site da ABC (http://www.abc.org.br).

O coração verde-amarelo bate forte quando alguém sugere que ONGs,
piratas e milionários estrangeiros querem ocupar a nossa terra e nos
roubar, mas foge da luta quando é para defendêla dos crimes cometidos
por próprios brasileiros. O primeiro risco é, em parte, imaginário; o
segundo é totalmente real.

O sueco Johan Eliasch precisa explicar melhor o que disse e o que
pretende, mas, tomado pelo valor de face, está ludibriando a boa-fé
dos europeus oferecendo o que não tem; a seita do Reverendo Moon tem
imensas terras na região e é um mistério o que acontece nelas;
madeireiras da Malásia, anos atrás, foram aceitas na região, quando se
sabe o que elas já fizeram na própria Malásia.

Existem biopiratas fingindo-se de ONGs humanitárias, mas são
minoritários diante das ONGs estrangeiras, ou brasileiras, que têm
parte do seu financiamento de instituições internacionais e que estão
por lá lutando sinceramente pela preservação.

Que a xenofobia, açulada recentemente, não nos impeça de ver quem são
os inimigos e quem são os aliados.

Diplomacia fragmentada

FOLHA DE S PULO EDITORIAL
A DIPLOMACIA do governo Lula não raro viola princípios consagrados que norteavam a atuação do Itamaraty. Depois de abster-se na moção que exigia o julgamento dos responsáveis pelo genocídio de Darfur (Sudão) e de coonestar a fraude eleitoral no Zimbábue, o Brasil decidiu agora ficar de fora do tratado internacional que bane as bombas de dispersão, as quais representam uma grave ameaça à população civil.
Na sexta-feira, 111 países reunidos em Dublin, na Irlanda, assinaram o acordo que proíbe a fabricação e prevê a destruição dos estoques hoje existentes desse gênero de armamento. O Brasil, ao lado de Estados Unidos, Rússia, Índia, Paquistão, Israel e Colômbia, foi uma das 34 nações que optaram por não aderir ao tratado.
O Itamaraty procura justificar-se com desculpas esfarrapadas, como a de que haveria foros mais adequados para esse tipo de assunto. Mais diretos, os militares brasileiros afirmam considerar que esse gênero de artefato amplia o poder de fogo do Estado e desencoraja ações bélicas contra o país. O Brasil fabrica e exporta bombas de dispersão, inclusive para áreas de conflito como o Oriente Médio.
O problema com as bombas de dispersão é que seu potencial de destruição se prolonga muito além do confronto. Trata-se de um grande artefato que espalha centenas de microbombas por uma área equivalente à de dois ou três campos de futebol. Entre 10% e 40% dessas submunições não chegam a explodir e passam a representar um risco permanente à população, em especial para crianças que podem encontrar e inadvertidamente detonar uma dessas microbombas décadas depois de lançada.
Não há pragmatismo diplomático, dissuasão militar ou saldo comercial que justifique a posição adotada pelo Brasil.

O que falta fazer

FOLHA DE S PAULO EDITORIAL
 
Confirmada a liberdade de pesquisa com células embrionárias, é hora de conter expectativas e investir com inteligência

ASSENTADA a poeira revolvida ao longo de mais de três anos pela Procuradoria Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal (STF) acerca da constitucionalidade da pesquisa com embriões humanos, os estudos podem agora ser retomados. Nem todos foram interrompidos, mas a insegurança gerada pela hipótese de decisão negativa mantinha em suspenso o financiamento de pesquisas. Todavia, já se informa que brasileiros poderão produzir em meses a primeira linhagem nacional de células-tronco embrionárias.
Foi por muito pouco que a liberdade de pesquisa terminou reafirmada em sua plenitude: 6 votos a 5. Um único sufrágio poderia ter condenado essa área promissora a um novo e longo período de indefinição.
O voto do ministro Carlos Alberto Direito retirou peso da controversa questão religiosa e concentrou-se em condições para que a permissão contida na Lei de Biossegurança pudesse ser considerada constitucional em sua aplicação. Na prática, seria reinstaurada a insegurança. Outros ministros seguiram o caminho, mas não em número suficiente para reverter o resultado.
Agora os pesquisadores se apressam a desencorajar o excesso de esperança nas células-tronco embrionárias. De fato, têm um longo percurso pela frente. E o resultado que colherão ao final, como costuma acontecer com o investimento em ciência, é de todo incerto.
Para se tornarem úteis em terapias regenerativas, é crucial desenvolver métodos de controlar as células embrionárias. Não se conhecem bem, ainda, os meios tanto para desativar seu potencial tumorígeno quanto para obter as células diferenciadas (especializadas) para uso no tecido ou órgão por tratar.
Há mais problemas a enfrentar. Um deles é o diminuto acervo de embriões disponíveis para pesquisa, sem solução à vista (dadas as limitações da lei brasileira). Outro está na concorrência das células pluripotentes induzidas, que parecem reunir a versatilidade das embrionárias, mas podem ser obtidas de células adultas. Afastam a necessidade de destruir embriões, mas as próprias iPS, como são conhecidas em inglês, encontram outra sorte de restrição ética, pois envolvem manipulação genética.
Por fim, cabe lembrar que não basta a liberdade de pesquisa -é preciso igualmente prover os meios. Não só financiamento mas um programa coordenado e ambicioso para concertar os esforços dos laboratórios brasileiros na área. Embora o governo tenha reduzido parte da burocracia, há ainda pendências para simplificar a importação de equipamentos e reagentes de pesquisa biomédica, uma das principais desvantagens competitivas dos cientistas brasileiros.
O STF levantou uma barreira ao estudo de células-tronco embrionárias, mas as terapias que elas prometem não virão tão cedo. Parte dos obstáculos são inerentes à pesquisa e à complexidade da biologia; já os restantes só dependem de maior prioridade para a ciência entre governantes e legisladores.

FERREIRA GULLAR Os novos corruptos

FOLHA DE S PAULO


A conclusão é que o Brasil parece tão pródigo em corruptos quanto é em craques de futebol

A CORRUPÇÃO entre nós está mudando. Essa é a impressão que tenho. Não me arvoro a entendido no assunto mas, até onde consigo perceber, de alguns anos para cá, a corrupção passou a apresentar características muito especiais. Não diria que ela evoluiu, porque, como se sabe, arte não evolui e, conforme se deduz do célebre livro atribuído ao padre Manuel da Costa, escrito no século 17, há uma arte de furtar, como há uma arte de corromper em que, aliás, como ele já observava, os políticos são mestres.
Não saberia dizer, com segurança, se se rouba mais hoje do que ontem, embora a impressão que se tem, pelo que a mídia noticia, é de que a corrupção aumentou muito. Há, porém, que observar que essa é uma impressão ilusória. Argumenta-se que, atualmente, a Polícia Federal ampliou o combate a esse tipo de crime, decorrendo daí a falsa impressão de que se rouba mais agora do que se roubava antes. Na verdade, segundo aqueles observadores, o que aumentou foi o combate a ela, ou seja, em termos relativos, a roubalheira se mantém a mesma.
Pode ser e pode não ser. São palpites, creio, já que desconheço algum estudo mais aprofundado do tema capaz de nos dizer quanto roubavam os ladrões do passado e quanto roubam os de hoje. Se for verdade que já se roubava, antes, tanto quanto agora, devemos tirar o chapéu aos ladrões de outrora, por conseguirem tão invejáveis resultados com tão pouca tecnologia e muito menos dinheiro. Afirmo isso porque, nada entendendo desse tipo de arte, a intuição me diz que o roubo e a corrupção crescem na razão direta da riqueza produzida, da grana que entra nos cofres públicos, se bem que, em casos extremos, rouba-se até moeda do pires do mendigo, ou seja, mal comparando, de prefeituras do interior que não arrecadam nem o suficiente para pagar o funcionalismo.
Estou convencido de que o cara nasce ladrão, como nasce pianista ou jogador de futebol. Nisso concordo com o mestre Machado, para quem não é a ocasião que faz o ladrão: a ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito. A conclusão é que o Brasil parece tão pródigo em corruptos quanto em craques de futebol. Pena é que aqueles prefiram continuar atuando no país.
Mas, se de fato, como a arte, a corrupção não evolui, apenas muda, cumpre observar que, nestes últimos anos, ela nos tem revelado facetas inusitadas. E isso se deve, justiça seja feita, à indiscutível contribuição do PT, que, como se sabe, nasceu para mudar o Brasil. Se não mudou as relações de propriedade, instaurando o socialismo, inventou pelo menos uma nova maneira de apropriar-se do dinheiro público, ou de fazê-lo impunemente.
A inovação, no entanto, vai além disso, como se viu no caso do mensalão, quando uma complicada rede de transações financeiras e "laranjas" tornou possível ao governo comprar deputados de sua própria base. Na hora em que o escândalo pôs as falcatruas à mostra, os dirigentes petistas -a começar pelo próprio presidente Lula- disseram que não sabiam de nada, ou que eram despesas não-contabilizadas, ou que assinaram um papel sem saber que se tratava de um empréstimo.
Não menos surpreendente foi o episódio do hotel Íbis, em São Paulo, quando a Polícia Federal prendeu, em 2006, dois petistas com R$ 1,7 milhão. O dinheiro era para comprar um dossiê contra José Serra, então candidato a governador. Com essa falcatrua estavam comprometidos desde o presidente do PT até um assessor especial do presidente da República, sem falar em seu churrasqueiro. Donde saíra aquela montanha de dinheiro?
Ninguém sabia, nem mesmo -ou, aliás, principalmente- o sujeito que o trouxera na mala. A esse novo tipo de corrupto sem memória, que Lula chamou de aloprado, prefiro chamar mesmo de cara-de-pau.
Nessa mesma linha de neocorrupção, deu-se recentemente o vazamento do dossiê que a Casa Civil da presidência de República preparara com as despesas do governo FHC. No começo, a Dilma afirmou que não havia dossiê nenhum, enquanto o ministro da Justiça o reduziu à condição de mero conceito. Depois, havia, mas era obra de algum inimigo do governo infiltrado no Planalto. Finalmente, a Polícia Federal descobriu que ele fora elaborado por altos funcionários do governo e que havia sido vazado, nada mais nada menos que pelo senhor José Aparecido Nunes Pires, secretário de Controle Interno da Casa Civil. Provado que o dossiê saíra de seu computador, cuja senha só ele conhece, teve que admitir que o vazara, mas o fizera -vejam vocês- sem saber, sem querer, por simples distração! Que fofo, não?

domingo, junho 01, 2008

Amartya Sem *Os ricos estão mais famintos

O ESTADO DE S PAULO
A crise dos alimentos que está ameaçando as vidas de milhões de
pessoas vai abrandar-se ou se agravará com o passar do tempo? A
resposta é: ambas as coisas. A alta recente dos preços dos alimentos
foi causada em grande parte por problemas temporários, como seca na
Austrália, na Ucrânia e em outros países. Embora a necessidade de
vultosas operações de ajuda seja algo da maior urgência, a crise
profunda dos dias de hoje deve chegar ao fim.

Entretanto, subjacente a essa crise se encontra um problema
fundamental que só poderá intensificar-se, a não ser que nos
conscientizemos dele e procuremos solucioná-lo.

É a história de dois povos. Segundo uma versão da história, um país
onde os pobres são muito numerosos registra repentinamente uma
expansão econômica, mas apenas a metade da população participa dessa
nova prosperidade. Os que se beneficiam com ela gastam grande parte da
renda recém-adquirida em alimentos e, se a oferta não aumentar com
bastante rapidez, os preços poderão disparar. O restante dos pobres
agora enfrenta uma alta dos preços dos alimentos, mas não da renda, e
começa a morrer de fome. Tragédias como esta ocorrem repetidamente no
mundo.

O exemplo mais devastador é a fome no Bengala, em 1943, nos últimos
dias do governo britânico na Índia. Os pobres que viviam em centros
urbanos experimentaram um aumento acelerado da renda, principalmente
em Calcutá, onde os enormes gastos com a guerra contra o Japão
provocaram uma explosão que quadruplicou os preços dos alimentos. Os
pobres que moravam na zona rural experimentaram esses aumentos
vertiginosos dos preços com um aumento mínimo da renda.

Uma equivocada política do governo acentuou essa divisão. As
autoridades britânicas tentaram evitar o descontentamento urbano
durante a guerra, e o governo passou a adquirir alimentos nas aldeias
e a vendê-los nas cidades, a preços altamente subsidiados, numa medida
que contribuiu para uma alta ainda maior dos alimentos na zona rural.

Nas aldeias, as pessoas que ganhavam remunerações mínimas começaram a
morrer de fome. Na carestia que se seguiu, assim como na esteira dela,
morreram de 2 milhões a 3 milhões de pessoas.

Neste momento, discute-se intensamente, como não poderia deixar de
ser, a divisão entre a população afluente e a não afluente na economia
global, mas os pobres do mundo também estão divididos entre os que
registram uma elevada expansão e os que não se beneficiam dela. O
rápido crescimento econômico em países como China, Índia e Vietnã
tende a aumentar acentuadamente a demanda de alimentos. Evidentemente,
isto é excelente em si, e se esses países conseguirem reduzir a
desigualdade da divisão interna do crescimento, mesmo os que não são
beneficiados comerão muito melhor.

Mas esse crescimento também pressiona os mercados globais de alimentos
- às vezes mediante o aumento das importações, outras vezes, por meio
de restrições ou proibições das exportações, como ocorreu recentemente
em países como Índia, China, Vietnã e Argentina. Os mais
particularmente afetados foram os pobres, principalmente na África.

Há também uma versão da história dos dois povos que tem a ver com a
alta tecnologia. Produtos agrícolas como milho e soja podem ser usados
para produzir o etanol utilizado como combustível automotivo.
Portanto, os estômagos dos famintos também precisam competir com os
tanques de combustível.

Nesse caso, também influi uma equivocada política governamental. Em
2005, o Congresso americano começou a exigir que se aumentasse o uso
do etanol nos veículos. Prevendo um subsídio para a utilização desse
produto, a lei criou um florescente mercado de milho nos EUA, mas ao
mesmo tempo fez com que recursos agrícolas fossem desviados dos
alimentos para a produção do combustível, o que torna ainda mais
difícil a concorrência para os estômagos famintos.

O uso do etanol pouco contribui para evitar o aquecimento global e a
deterioração ambiental, e, se os políticos americanos permitissem,
deveriam ser implementadas com urgência reformas muito claras na
política. O uso do etanol poderia ser restringido, em vez de ser
incentivado e subsidiado.

O problema global dos alimentos não é provocado por uma tendência de
queda da produção mundial, ou da produção de alimentos per capita (o
que tem sido muitas vezes afirmado sem muitas evidências). Ele é o
resultado da aceleração da demanda. Entretanto, um problema induzido
pela demanda também exige a rápida expansão da produção de alimentos,
o que pode ser feito mediante uma maior cooperação global.

Embora se deva atribuir ao crescimento populacional apenas uma modesta
parcela da crescente demanda de alimentos, ele pode contribuir para o
aquecimento global, e, no longo prazo, as mudanças climáticas podem
ameaçar a agricultura. Felizmente, o crescimento populacional já está
diminuindo, e existem provas esmagadoras de que o aumento do número de
mulheres capacitadas para exercer funções de responsabilidade (bem
como a ampliação da educação para as jovens) poderá rapidamente
reduzi-lo ainda mais.

O problema maior é elaborar políticas eficientes para tratar das
conseqüências de uma expansão extremamente assimétrica da economia
global. Há uma crucial necessidade de reformas nacionais no âmbito da
economia em muitos países que apresentam um lento crescimento, mas há
também uma grande necessidade de uma maior cooperação e assistência
globais. A primeira tarefa consiste em compreender a natureza do
problema.

*Amartya Sem, que leciona economia e filosofia em Harvard, recebeu o
Prêmio Nobel de Economia em 1998. Mais recentemente, escreveu
"Identity and Violence: The Ilusion of Destiny". Ele escreveu este
artigo para o ?The New York Times

Mailson da Nóbrega Instituições e desenvolvimento

O ESTADO DE S PAULO
Ao conceder o grau de investimento ao Brasil, a Standard & Poor?s e a
Fitch assinalaram o papel dos avanços institucionais para a nova
classificação, realçando a autonomia operacional do Banco Central.
Essa realidade, ainda pouco valorizada por aqui, é parte essencial do
atual processo de desenvolvimento.

No Brasil, as instituições são vistas como pertencentes ao território
da política, mas incluem as regras que promovem o capitalismo, a
atividade econômica e o bem-estar.

O sistema capitalista derivou das mudanças institucionais que puseram
fim ao absolutismo na Inglaterra no século 17. Distintos tipos de
pré-capitalismo existiram na Antigüidade e formas avançadas ocorreram
nas cidades-estado italianas, mas agora se tratava de uma revolução.

O poder supremo foi transferido ao Parlamento. O fim do arbítrio
monárquico desaguou na independência do Judiciário. Novas leis
definiram direitos de propriedade. A segurança jurídica (contratos e
direitos de propriedade seriam respeitados) criou incentivos para
empreender e assumir riscos.

Adam Smith foi o primeiro a entender o novo ambiente e a teorizar
sobre suas conseqüências. Observou que o produtor não mirava
diretamente o interesse público, mas, guiado por uma "mão invisível",
promovia um fim que não integrava seus planos. "Não é da benevolência
do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que nós devemos esperar
nossa refeição, mas da busca de seu interesse."

Cerca de dois séculos depois, Ronald Coase, Douglass North e outros
economistas descobriram as razões que levam o empresário a investir e
a promover o interesse público descrito por Adam Smith. Por trás desse
processo, estão as instituições. Instituições são as regras do jogo,
que moldam a interação humana e alinham incentivos para ações de
natureza política, social ou econômica. As instituições, segundo
North, são formais ou informais. As primeiras são as regras criadas
pelos governos. As últimas são as convenções e os códigos
estabelecidos pelos indivíduos.

As organizações podem ser consideradas como parte do arcabouço
institucional, pois contribuem para a interação humana. Na verdade, as
organizações - o Congresso, os partidos, os ministérios, as agências
reguladoras, as empresas, os sindicatos, as igrejas, etc. - surgem à
medida que as instituições são construídas.

As instituições são constituídas também das crenças da sociedade e da
mídia. As crenças determinam as nossas escolhas e assim contribuem
para promover mudanças institucionais. A mídia - livre e independente
- fornece informações à sociedade e vocaliza opiniões, constituindo
instrumento para melhorar a educação e permitir o exercício de
pressões em favor de avanços nas instituições.

A intolerância da sociedade brasileira à inflação e a competência da
mídia são duas positivas conseqüências da evolução desses dois
aspectos das instituições. Altas de inflação erodem a popularidade e,
assim, criam incentivos para conduzir políticas econômicas
responsáveis. Informações abalizadas ajudam os mercados a avaliar o
ambiente econômico e político. Podem detectar e estabelecer preços
para riscos de políticas públicas insensatas.

A estabilidade macroeconômica dos últimos 14 anos é o efeito mais
visível desse novo quadro, particularmente durante a era Lula. Sua
extraordinária intuição - associada à percepção de que a inflação é
ruim para os pobres e para sua popularidade - lhe permitiu entender
essa realidade e resistir a pressões por guinadas que poriam a perder
a conquista da estabilidade.

O presidente do Brasil ainda detém poderes arbitrários, como o de dar
uma ordem ao Banco Central para reduzir de forma voluntarista a taxa
de juros e decretar a moratória da dívida interna e externa. Fora do
poder, Lula demandou ações dessa natureza. No poder, mudou de opinião,
manteve a política econômica de seu antecessor e descartou propostas
inconseqüentes (tomara que aja assim com o "fundo soberano").

A Lei de Responsabilidade Fiscal, a autonomia do Banco Central, as
novas crenças e a qualidade da mídia asseguram a estabilidade, tornam
o País previsível e nos livram da volatilidade do passado. Muito resta
a fazer, mas esses e outros avanços constituem uma das mais
auspiciosas transformações de nossa história.

Alberto Tamer Mundo supera 5 meses de crise

O ESTADO DE S PAULO
Nestes primeiros cinco meses, a economia mundial entrou num processo
de acomodação que, tudo leva a crer, deverá prolongar-se até o fim do
ano. Ela encerra maio superando tensão e medo. Recuou, mas sem o
choque dramático da recessão que todos esperavam.

Na verdade, este é um fim de mês até feliz para todos. Nos EUA, o PIB
no trimestre cresceu não 0,6%, como se previa, mas 0,9%, afastando
ainda mais a recessão.

Afora a inflação, vai tudo bem, inclusive no Brasil. Ganhamos o
reconhecimento de mais uma agência de risco, a Fitch, o governo
anunciou que vai cortar US$ 13 bilhões de gastos para evitar pressão
na demanda e conter a inflação. Ainda é pouco, mas representa uma
significativa mudança do presidente. Ele sabe que cortar gastos e
aumentar juros é impopular e desagradável, mas necessários em momentos
de pique inflacionário, com as projeções mirando os 6%.

MEIRELLES ?ESQUERDISTA?

Mas tem eleição aí e uma delegação do PT foi perguntar ao presidente
do BC, Henrique Meirelles, como explicar o aumento dos juros aos
eleitores, pois está claro que vão subir novamente.Meirelles foi curto
e usou uma dose de ironia: expliquem que atacar a inflação com aumento
de juros é defendê-los, é fazer uma política de "esquerda" porque
protege o povo. Se o preço sobe, o eleitor tem de comprar menos ou
deixar de comprar produtos menos essenciais. Por exemplo: carne,
frutas, queijo, iogurtes. Mesmo um aumento do salário não adianta
porque não cobre a alta dos preços de 6% ou 20% no feijão com arroz.

E os juros, Meirelles? Ora, esse aumenta e pesa menos que os preços,
deve ter dito ele aos políticos atarantados. Esta é uma situação de
emergência que exige medidas de emergência.

NOS EUA E NO MUNDO

Também no mercado financeiro, foi um mês tranqüilo. Bolsas andando de
lado, equilibradas, e a nossa batendo recordes. Houve muito dinheiro
indo de um lado e indo para outro, mas a liqüidez permanece. Ninguém
está seriamente ameaçado de quebrar.

Mais importante: a economia americana continuou resistindo, o consumo
aumentou 0,2%, as empresas registraram lucros e a inflação permanece
estável, nos limites previstos pelo Fed. A preocupação maior continua
sendo o preço da energia, com o petróleo bailando em torno de US$ 130.
É serio porque a oferta continua apertada, a demanda mundial não
desacelerou. Mais ainda, em alguns meses as refinarias estarão
refazendo os estoques para enfrentar o inverno no fim do ano.

AS SAFRAS CHEGAM! E A FOME?

Ela continua aí, açoitando 30 países da África, da Ásia e do Caribe,
com a ONU socorrendo os famintos como pode. Ela ainda espera os
recursos suplementares que pediu, mas só chegam a conta-gotas. Nesta
semana, mais uma notícia que até poderia ser considerada positiva, se
houvesse mais sensibilidade dos países desenvolvidos.

O mundo vai ter em 2008/09 safra mundial recorde de trigo, de 650
milhões de toneladas, e muito boa de milho, de 763 milhões de
toneladas. Há bom tempo nos EUA, na Europa, na Índia e em todo lugar
as lavouras florescem. O Brasil, um dos maiores produtores, também com
recordes, está ajudando a alimentar o mundo. Nunca este País produziu,
consumiu e exportou tanto produto agrícola, e oferecendo, de sobra,
volumes crescentes de etanol.

MAS OS PREÇOS NÃO CAEM

A FAO, Organização da ONU para Alimentação e Agricultura, estima que
os preços continuarão altos ainda por mais 9 anos. Isso apesar das
boas safras. Há vários motivos, como o contínuo aumento da demanda, a
má distribuição e as distorções nos preços provocados pela fuga de
investidores das bolsas para os fundos de commodities, que movimentam
hoje U$ 260 bilhões, 20 vezes mais que em 2000. Um fator
preponderante, porém, é o protecionismo agrícola. O Congresso
americano acaba de rejeitar veto do presidente e aprovar subsídios de
US$ 290 bilhões para seus agricultores e a União Européia, mais de US$
75 bilhões.

Os 30 países mais ricos, que integram a Organização para a Cooperação
e o Desenvolvimento Econômico, oferecem subsídios agrícolas de,
acreditem, US$ 283 bilhões por ano. São dados oficiais deste ano.
Esses países jogaram no mercado um excesso de alimentos baratos,
desestimulando a produção em países menos desenvolvidos.Foi a "fase da
comida barata", que durou de 1900 a 2003. Eles eram até doados - o
Brasil recebeu no passado muito trigo de graça, num gesto de uma
generosidade relativa, pois tinham em vista não só ajudar, mas
desestimular a concorrência. Para os países receptores era mais fácil
receber de graça ou comprar por preços baixos do que produzir
internamente. Não deve ser à toa que só neste ano, com a explosão dos
preços,que o governo decidiu estimular a auto-suficiência em trigo.

PERDA DE US$ 100 BILHÕES

O Banco Mundial estima que as exportações subsidiadas pelos países
ricos provocaram uma perda anual de US$ 100 bilhões nos países pobres
e menos desenvolvidos. Essa era da comida barata acabou porque, em
parte, o consumo explodiu, há ainda grandes reservas de grãos, que
serão consideravelmente aumentadas com as novas safras, mas ela está
estocadas nos armazéns do governo. Eles podem fazer isso porque também
tiveram subsídios para estocar parte das safras.

É por isso que a ONU, com extrema coragem, afirma que o problema da
fome não é econômico, só de escassez de alimentos, mas político. A
brutal distorção é que a era da comida barata acabou, mas a dos
subsídios dos países ricos, não.

Suely Caldas* O pior legado de Lula

O ESTADO DE S PAULO
Nunca antes na história deste país a corrupção foi tratada com tanta
tolerância, e vulgaridade, como algo natural, instintivo, inerente ao
ser humano, que acontece, vai continuar acontecendo e anormal seria se
não acontecesse. Nunca antes um presidente do Conselho de Ética da
Câmara dos Deputados teve o cinismo de vir a público justificar a
corrupção: "Na minha terra cachorro que não tem pulga teve ou vai ter.
Defeitos todos temos", disse o deputado Sérgio Moraes (PTB-RS) ao
frear o processo contra o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho,
(PDT-SP), acusado de embolsar propina para liberar empréstimos do
BNDES. E o Conselho que ele preside é de Ética!

Nunca antes em 55 anos de sua história o BNDES teve seu nome associado
a uma quadrilha que, segundo a Polícia Federal, se apossava de
dinheiro de seus créditos cobrando propinas. Mesmo no sistema fechado
da ditadura militar, em que não havia fiscalização e tudo era
encoberto pelo regime de força, nunca houve registro de fraudes com
dinheiro público manejado pelo BNDES. Havia no banco uma espécie de
muralha humana de funcionários dedicados e capacitados a impedir que
prosperassem ou até fossem iniciadas ações mal-intencionadas de gente
de dentro e de fora do banco. E sua maior fonte de recursos, o Fundo
de Amparo do Trabalhador (FAT), sempre teve ali seu conselho
funcionando e integrado por dirigentes das centrais sindicais como
hoje. Mas os corruptos precisavam de um ambiente de abertura,
incentivo e tolerância com a corrupção para começar a agir. E isso o
governo Lula lhes deu.

Personagem central das investigações da Polícia Federal no BNDES, o
deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva,
entendeu o sinal dado pelo governo e se animou a agir - em duas
frentes até onde se conhece: na intermediação de créditos do BNDES e
na liberação de verbas do Ministério do Trabalho para ONGs ligadas a
seu partido. Sua reação foi seguir o velho, batido e desacreditado
ritual dos acusados sem argumentos de defesa: "Sou vítima de
perseguição política de setores conservadores." Seria a Polícia
Federal?

Os afagos do presidente, a absolvição antecipada e incondicional dos
corruptos, a justificativa de que a corrupção sempre existirá como
barganha na divisão de poder na democracia dão força para eles agirem,
estimulam quem antes hesitava. É este o pior legado que o governo Lula
deixará para a presente e para as futuras gerações. Muito diferente do
que pregava quando era oposição e acusava todos os partidos de
corruptos avocando para si o monopólio da honestidade, ao assumir o
poder, o Partido dos Trabalhadores (PT) mostrou não que era igual a
todos, mas simplesmente o pior deles. Permitiu, usou e incentivou
práticas corruptas, ocupou cargos técnicos, outros estratégicos para a
proteção do Estado, com pessoas despreparadas, indicadas por partidos
aliados que levam para o governo a idéia de que ali estão para servir
ao seu partido político, não ao País.

A retomada da democracia brasileira é jovem, tem pouco mais de 20
anos, as instituições que a fortalecem e protegem ainda estão em
construção, ainda engatinha a definição de regras de autonomia e
independência de funções do Estado em relação ao governo. Nesse campo
as únicas instituições nas quais o presidente Lula respeitou a
autonomia foram a Polícia Federal e o Banco Central, e hoje colhe os
frutos de uma economia estável, próspera e em crescimento.

Mas maltratou as agências reguladoras, tornou-as submissas aos
ministros, minguou verbas para seu funcionamento e nomeou diretores
por indicação partidária, sem nenhum preparo técnico. Em todo o mundo
as agências existem para regular e fiscalizar serviços públicos e
proteger interesses dos seus usuários. No Brasil elas perderam
condições de exercer tal função. A Comissão de Ética do serviço
público, cuja função é garantir conduta ética de servidores e agentes
do Estado, foi desautorizada por Lula quando exigiu que o ministro do
Trabalho, Carlos Lupi, optasse entre a presidência do partido ou o
Ministério.

A era Lula será lembrada no futuro pela retomada do crescimento
econômico, pelos avanços na área social, mas também ridicularizada
pelos dólares na cueca, pelo mensalão, sanguessugas, aloprados, malas
de dinheiro, ONGs e intermediários avançando sobre o dinheiro público.
Será lembrada pelo estrago histórico causado pela desconstrução das
instituições que alicerçam a democracia.

*Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-RJ.
E-mail: sucaldas@terra.com.br

Celso Ming A terra é nossa

O ESTADO DE S PAULO
De tempos em tempos, como agora, surgem pressões para que o governo
imponha restrições à aquisição de terras por estrangeiros, sob o
argumento de que é preciso garantir a defesa da soberania nacional.

Hoje, o campeão da causa é o presidente do Incra, Rolf Hackbart. Ele
vê o risco de "ocupação desenfreada de terras em nível nacional, em
especial no âmbito da Amazônia Legal, por estrangeiros".

A lei já prevê restrições. A mais importante delas é não permitir
aquisição ou arrendamento em área localizada a 150 quilômetros da
fronteira do País sem assentimento do Conselho de Segurança Nacional,
hoje função desempenhada pela Controladoria-Geral da União.

Pelo levantamento do Incra, há 33.228 imóveis (0,64% do total)
registrados como propriedade de estrangeiros. Cobrem 5,6 milhões de
hectares, ou 0,97% da área cadastrada no Sistema Nacional de Cadastro
Rural.

O que aparentemente mais impressiona o Incra é o fato de que 55% das
terras de estrangeiros (pessoas físicas ou jurídicas) estão na
Amazônia Legal e cobrem 3,2 milhões de hectares.

Há duas questões relevantes à procura de resposta. A primeira consiste
em saber até que ponto a ocupação de terras por estrangeiros atenta
contra a segurança do País. E a segunda é se novas restrições seriam
eficientes para o objetivo pretendido.

Quando se pergunta por que estrangeiro proprietário de terras no
Brasil é perigoso para a segurança ou para sua soberania, as respostas
variam e podem ser um tanto vagas. Menciona-se freqüentemente o
desmatamento das florestas e a destruição do meio ambiente. Mas, como
observa o especialista da Pinheiro Neto Advogados Associados, Werner
Grau Neto, "a proteção do solo e do meio ambiente independe da
nacionalidade do proprietário, seja com objetivo de obter lucro ou
não". Madeireiros, posseiros, grileiros e especuladores brasileiros
provavelmente cometem mais atentados à segurança ambiental do que
estrangeiros.

Outros temem a excessiva concentração da propriedade em mãos
estrangeiras. Os números acima estão longe de apontar para essa
tendência. O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues afirma ter
conhecimento de que pelo menos 12 grandes fundos internacionais
(fundos de hedge e fundos de investimento) estão comprando terras no
País. "Mas esses fundos não querem comprar o Brasil. Eles sabem que o
preço da terra por aqui vai duplicar em três ou quatro anos e só
querem ganhar com isso. Depois, vão embora."

E aí já entramos em outra linha de argumentação: a dos que defendem
mais restrições a estrangeiros para evitar o encarecimento da terra
quando exposta a uma corrida.

Não há dúvida de que os preços estão em alta. Subiram 16,3% nos
últimos 12 meses terminados em abril, como aponta o Instituto FNP. Mas
é um equívoco afirmar que essa valorização seja conseqüência direta do
aumento da procura por parte de interesses estrangeiros. O preço da
terra sobe e desce de acordo com a dança das cotações dos grãos ou da
arroba do boi em pé.

Falta examinar se restringir o acesso às terras a estrangeiros seria
eficiente. É assunto para outra coluna.

dora kramer Tudo dominado

O ESTADO DE S PAULO
Anthony Garotinho provavelmente recebeu o golpe mais forte, mas a
operação da Polícia Federal que prendeu dois chefes de polícia em sua
gestão e o apontou como o chefe de uma quadrilha que operava na
Secretaria de Segurança Pública não atingiu apenas o ex-governador.

Expôs todo o aparato de Estado do Rio de Janeiro, que durante os sete
anos abrangidos pela investigação da PF no mínimo fez vista grossa,
podendo ter acobertado e até mesmo compactuado com os crimes de
corrupção passiva, lavagem de dinheiro e facilitação de contrabando,
apontados pelo Ministério Público Federal.

A despeito da abrangência do esquema, ninguém nos Poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário estaduais jamais rompeu o acordo tácito do
silêncio.

A Polícia Federal mesmo só conseguiu romper essa rede de proteção e as
restrições legais que asseguram a autonomia das autoridades locais
depois de muita espera e de se valer da oportunidade criada por uma
outra investigação.

Anthony Garotinho, o deputado estadual Álvaro Lins, chefe de Polícia
Civil do Rio entre 2000 e 2006, e as outras dez pessoas acusadas de
participar do esquema obviamente não estavam sozinhos em suas
atividades nem são responsáveis pela invenção dessa roda.

Encontraram-na pronta para usufruto. A estrutura de Estado no Rio de
Janeiro está esgarçada há tanto tempo e o crime campeia por dentro
dela de maneira tão evidente que só os muito cínicos ou os muito
ingênuos estão autorizados a enxergar a cena como um caso isolado. A
operação da PF no Rio não conta a história de um governador, seu chefe
de polícia, dois laranjas e meia dúzia de delegados.

A operação da PF conta um pouco - mas muito pouco mesmo - sobre a
longa, obscura e não se sabe o quão abrangente história da conivência
entre o Estado e a criminalidade. Parceria que não é prerrogativa do
Rio, diga-se.

O inédito nesse episódio é a prisão em flagrante de um deputado, não
obstante a imunidade parlamentar, e a denúncia diretamente dirigida a
um ex-chefe de Poder Executivo. Isso nunca se viu.

Agora, é preciso que não se perca de vista o cenário como um todo.
Chefe de polícia nenhum põe a Secretaria de Segurança Pública a
trabalhar em prol de seu enriquecimento durante seis anos sem a
conivência - mesmo por omissão - do governador, que por sua vez não
sobrevive sem a colaboração da Assembléia Legislativa e a inércia da
Justiça.

O dinheiro arrecadado nesse tipo de esquema vai apenas em parte para
as compras de luxo do corrupto. Há que sustentar toda a rede de
cúmplices, mas o grosso mesmo vai para o velho caixa 2, financiador de
campanhas eleitorais.

É aí que se encontram as excelências mais insuspeitas. É aí que no
PMDB de Garotinho - para nos atermos ao caso em tela, embora o padrão
seja universal - muita gente se esbarra, gente de estofo federal,
estadual e municipal.

É aí também que se apresenta a encruzilhada. Se a investigação
prosseguir desenrolando a meada, pode ajudar a esclarecer, por
exemplo, por que 33 dos 70 deputados da Assembléia Legislativa do Rio,
que na sexta-feira votou a toque de caixa uma resolução para tirar
Álvaro Lins da prisão, têm débitos com a Justiça.

Pode auxiliar a desvendar o mistério da multiplicação de prestígio e
poder de deputados federais ligados (direta ou indiretamente) a
Garotinho que, do dia para a noite, de nulidades se transformaram em
sumidades dignas de ocupar postos de importância estratégica na Câmara
dos Deputados.

Mas, como reside também aí o grande perigo de começar a destrinchar os
caminhos do conluio entre o poder constituído e a criminalidade, o
mais provável é que a rede se movimente e assegure a devida proteção
aos seus.

Isto na melhor das hipóteses. Na pior, terminam os investigados
exigindo escusas dos investigadores. Para deixarem de ser ousados
antes de saberem com quem estão falando.

Negócio da China

O PT virou, mexeu e voltou ao ponto de origem na aliança entre o
governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel, em Belo
Horizonte.

Se no fim era para aprovar a aliança "informal", a direção nacional do
PT não precisava ter feito tanto estardalhaço na encenação do
espetáculo do veto.

Bastava deixar as coisas seguirem o curso natural da aliança
não-oficial, construída por Aécio e Pimentel nesses moldes desde o
início, quando os dois combinaram lançar candidato filiado a um
terceiro partido, o PSB.

Depois de dois meses de vaivém, os fiadores da aliança ganharam
repercussão nacional, propaganda eleitoral gratuita no plano local e
posaram de mocinhos - os heróis da conciliação.

E o PT? O PT perdeu 60 dias debatendo o nada, criou um novo mote de
divisão no partido e ainda saiu na foto como o vilão da história.

Sergio Fausto O negócio da política

O ESTADO DE S PAULO
Por que, mesmo antes de surgirem os indícios mais veementes, a maioria
das pessoas informadas já presumia a culpa do deputado Paulinho da
Força no esquema de corrupção desvendado pela Polícia Federal? Porque
o padrão de atuação revelado é típico do modo pelo qual, com
desenvoltura cada vez maior, as organizações sindicais e seus
representantes se estruturam para capturar pedaços do aparelho estatal
e fatias de recursos públicos.

Nesses esquemas pode ou não haver desvio de recursos para o
enriquecimento pessoal (no geral, há). O que sempre está presente é o
uso simultâneo do aparelho sindical como trampolim eleitoral e
ferramenta de extração de vantagens junto aos órgãos do governo.
Trata-se de um movimento duplo, que se reforça mutuamente, uma vez que
a conquista do mandato parlamentar facilita o acesso aos cofres
públicos, o que, por sua vez, fortalece a organização sindical e
vice-versa.

Estudos recentes, como os da professora Maria Celina D?Araújo e do
professor Leôncio Martins Rodrigues, documentam o aumento da
participação de sindicalistas entre os membros do Executivo e do
Congresso, respectivamente. Em teoria, o ingresso de novos personagens
na cena principal da vida política, combinado com a alternância no
poder, da qual tivemos um belo exemplo em 2002, seria um sinal de
vitalidade da democracia. As barreiras de classe estariam sendo
superadas e o universo da representação de interesses se abrindo a
quem antes dele não participava. Do governo "de poucos" estaríamos
passando para o governo "de muitos".

Esse é o lado bom da história. O lado ruim é que a incorporação de
sindicalistas tem significado não maior transparência no trato dos
assuntos e recursos públicos, mas, ao contrário, a reiteração, sob
novas formas, das piores tradições de apropriação privada e/ou
corporativa do espaço da representação e dos recursos públicos no
Brasil. Novos personagens, velhos vícios, o que põe em xeque os
benefícios da democratização "quantitativa" da elite política.

O corporativismo sindical não é novidade no Brasil. Nem é
exclusividade dos trabalhadores. Muito longe disso. A base
institucional de poder sobre a qual se ergue a representação setorial
do empresariado é a mesma. Para não falar no poder de fogo próprio que
os empresários têm para fazer valer seus interesses, maior do que o
dos trabalhadores, por razões óbvias.

As duas faces da estrutura corporativa nasceram sob as asas do Estado
Novo, no final dos anos 1930. A novidade está no papel que a
representação corporativa dos trabalhadores, ou melhor, da cúpula
sindical, passou a ter. As cúpulas sindicais - sobretudo agora que
parte do imposto sindical passará a fluir automaticamente para os
cofres das centrais - jamais contaram com tantos recursos cativos (e
sem fiscalização alguma, já que o presidente Lula vetou o artigo da
lei que previa a necessidade de prestação de contas ao TCU). Jamais
contaram com acesso à deliberação sobre recursos públicos tão vultosos
(fundos de pensão e FAT, principalmente). E jamais tiveram tanto poder
sobre os partidos. Comparem-se os casos do velho PTB, que subordinava
sua máquina sindical aos interesses partidários mais amplos, com o
caso do atual PDT, seu suposto herdeiro, tomado de assalto pelas
forças sindicais.

A utilização de privilégios garantidos pelo Estado para acumular
capital político e financeiro tem outros exemplos. As máquinas
político-empresarial-religiosas de algumas denominações evangélicas,
que alugam siglas partidárias e têm lugar de destaque na elite
política atual, não poderiam ter sido construídas sem o acesso a uma
das mais cobiçadas prebendas estatais: a doação, sob a mera
formalidade da concessão, de licenças para operação de emissoras de
televisão e rádio Brasil afora.

Não espanta que haja descrédito crescente em relação à política e aos
políticos. Nesse quadro, haveria espaço para a representação política
dos interesses mais difusos e universais da cidadania? A verdade é que
a captura crescente do espaço público por corporações e interesses
organizados se faz à custa do político comprometido com a
representação dos interesses mais abrangentes da sociedade. Políticos
assim são cada vez menos freqüentes. Animais em extinção, uma espécie
da qual recentemente o Brasil perdeu duas figuras exemplares: Artur da
Távola e Jefferson Péres.

A conseqüência é grave e pode agravar-se mais ainda. A gravidade está
em que a desmoralização da vida pública, em geral, e da atividade
parlamentar, em particular, faz com que delas fujam os jovens de maior
talento e melhor formação moral. Os danos para a imagem e o
funcionamento do Congresso são imensos. Em nosso sistema político, o
presidente é uma figura singular, para bem ou para mal. A ele se
admite dizer que "não sabia", diante de uma grave falha moral ou
funcional de seus auxiliares. O mau comportamento de alguns
parlamentares contamina toda a instituição, que já goza de má fama.

O problema não é só brasileiro. Em todas as pesquisas e em todos os
países, a reputação do Congresso e dos parlamentares não é das
melhores. Em vários há queixas e críticas quanto à deterioração da
qualidade dos representantes no Legislativo. Onde as tradições e
instituições são mais sólidas, os riscos para a democracia são
menores. Onde aquelas são mais frágeis, estes são maiores. Uma coisa é
certa: não pode haver vida longa para a democracia onde o Congresso e
os parlamentares não desfrutem de uma reserva razoável de prestígio.
No Brasil, para recuperá-la é preciso refazer os elos perdidos ou
jamais estabelecidos entre os representantes e os representados:
reforma do sistema eleitoral. Mas também reforma do Estado, para
proteger os cofres públicos dos negócios da política.

Joaquín Morales Solá Néstor Kirchner ordenó tensar el conflicto

Néstor Kirchner volvió frontalmente a hacerse cargo del país. Adiós a
los disimulos de los últimos meses. Sus interlocutores lo llaman
"presidente" a secas por su condición de presidente del partido
oficial. Con premeditación o no, los propios dirigentes rurales
entendieron que estaban ante la última instancia política cuando
Kirchner les blandió un documento de órdago. Volvieron a la protesta
en el acto. Nadie ha hecho tanto por eclipsar la gestión de Cristina
Kirchner como su propio esposo. Argumenta éste que hay que "blindar"
la gestión de la Presidenta de las acechanzas de sus enemigos.
Kirchner ha probado, mejor que nadie, que hay amores que matan.

El sistema de toma de decisión está en discusión. ¿Cómo se decide en
el gobierno de Cristina Kirchner? ¿Quiénes lo hacen? ¿Cuáles son, en
última instancia, las líneas que prevalecen? Todo confirma la
suposición de que nada ha cambiado desde el 10 de diciembre pasado. Un
grupo de cuatro personas suelen cambiar ideas, pero la última palabra
la tiene siempre Néstor Kirchner. La modificación protocolar del
matrimonio presidencial (ella es la jefa del Estado y él es el jefe
del partido) ha convertido en aún más cerrado y hermético ese círculo.
El intercambio de ideas ahí adentro y las consiguientes diferencias no
deben trascender jamás, porque la idea que se impone es la del esposo.

Néstor Kirchner le dictó a la pluma más prolija del secretario legal y
técnico de la Presidencia, Carlos Zannini, que integra con Alberto
Fernández aquel cuarteto deliberativo, el documento que acusó al campo
de golpista y agorero. Dos días después, el propio Fernández hizo un
gesto corto, escaso e insuficiente de acercamiento con los ruralistas,
pero gesto al fin. ¿Puede un gobierno democrático ceder a la presión
de los golpistas? ¿Es eso lo que han hecho los Kirchner? ¿O, acaso,
hay una línea dura y otra más moderada dentro del propio Gobierno? Los
mensajes son confusos.

En la mañana del viernes, la dirigencia agropecuaria se proponía
liberar las rutas a partir del martes. No cesaría la movilización, que
se trasladaría a los centros de pueblos y ciudades, pero los
productores no estarían en las rutas. Los dirigentes temían actos de
violencia en las rutas o, en el otro extremo, una lenta extinción del
fenómeno campesino al costado de los caminos.

En la tarde del viernes, sucedió la violenta detención de ocho
dirigentes rurales en San Pedro por parte de la Prefectura, que
responde a órdenes directas de Néstor Kirchner. Un fiscal pedía, al
mismo tiempo, la citación en calidad de imputados de dos presidentes
de entidades rurales, Mario Llambías y Eduardo Buzzi, y de la
dirigente política Margarita Stolbizer, entre otros, por haber
participado de actos que bloquearon la ruta 9. El sábado no había un
solo dirigente agropecuario en condiciones de garantizar que el martes
se liberarían las rutas. La radicalización del conflicto había sido
promovida en los hechos por Néstor Kirchner.

Pocos fiscales se movieron para reclamar por los piqueteros que cortan
calles y rutas, y esto sucede desde hace más de cinco años. La
práctica es deplorable, la ejerza quien la ejerza, pero en la
Argentina todavía rige el principio de la igualdad ante la ley.
Algunos piqueteros hasta se han convertido en amigos del Gobierno y
hacen las veces de fuerza de choque del ex presidente.

La foto de Kirchner acompañado por Luis D Elía y otros dirigentes
piqueteros pareció más una amenaza encubierta que un encuentro
político. D Elía la emprendió luego contra Washington y una supuesta
conspiración norteamericana que une en un mismo plan a la Argentina y
a Bolivia. ¿Son lo mismo ambos países? ¿Cristina Kirchner es igual que
Evo Morales? Sólo el desvarío político puede unir lo que es distinto.

En esas mismas horas, la Presidenta mantenía una cordial reunión con
el influyente senador demócrata norteamericano Christopher Dodd. El
experimentado legislador salió optimista de la reunión. Si hubiera un
problema entre los dos países, la verdad es que no se notó , le dijo a
su comitiva. Pero ¿cuál política es la que prevalece? ¿La que
protagoniza la Presidenta o la que ampara su esposo?

El ex presidente cree que los ruralistas andan con ganas de
desestabilizar al Gobierno. ¿Dónde está el partido en condiciones de
hacerse cargo del poder? ¿Dónde está el militar que mandaría a su casa
a los Kirchner? El sistema democrático no corre ningún riesgo, pero
Néstor Kirchner tiene algo de razón cuando busca un propósito
desestabilizador. Lo que está en riesgo de ser desestabilizado es una
forma centralizada de mando que duró cinco años.

Esa manera de gobernar reconoció la voluntad de una sola persona y
esquivó todos los límites institucionales. Un sector social y
económico decisivo del país le acaba de decir no por primera vez. Le
hemos dicho basta. Así, no , reconoce uno de los principales
dirigentes rurales. Néstor Kirchner, que ha confundido a la República
y al Estado con su propia persona, está convencido de que esa
impugnación a una forma unipersonal de gobernar es una
desestabilización de las instituciones.

¿No es producto de esa confusión la afirmación del gobierno de que el
conflicto con el campo se cifra en manos de quiénes quedarán unos 1300
millones de dólares, la diferencia entre las retenciones a la soja que
se cobraban hasta el 11 de marzo y las que se cobran ahora? En rigor,
ese monto de dinero tenía un dueño hasta marzo y cambió de propietario
con una resolución inconsulta. Discutir ahora en manos de quién
quedará es concebir el Estado como dueño de la riqueza nacional, de la
pública y de la privada.

Nadie sabe cuándo gobiernan ciertos gobernadores. Algunos han estado
en todos los actos partidarios o gubernamentales de la semana que pasó
como testigos de una historia que escriben otros. No fue una
casualidad. Kirchner entrevé (y entrevé bien) que una llamarada de
sublevación comienza a expandirse dentro del peronismo desde Córdoba,
Entre Ríos y Santa Fe.

El jefe del peronismo entrerriano, Jorge Busti, ha estado hablando
todos los días con el gobernador cordobés Juan Schiaretti y con el
senador Carlos Reutemann. Cerca de ellos se llegó a mencionar la
posibilidad de la partición del peronismo. Kirchner los desafía: el
peronismo detesta a los piqueteros.

Reutemann le escribió a Kirchner para aclararle que el sector
agropecuario es para Santa Fe lo mismo que los hidrocarburos para
Santa Cruz. Fue una manera elegante de decirle al ex presidente que él
no comprende la complejidad de la Argentina y que no aprendió nada en
cinco años. Una irreverencia inédita.

Felipe Solá, el viejo aliado de los Kirchner que los Kirchner
olvidaron, faltó a la reunión de los bloques parlamentarios peronistas
con el ex presidente. Solá no coincide con el documento que acusó a
los ruralistas de desestabilizadores. Quizás el ex gobernador supone
también que el enorme ruralismo bonaerense está necesitando un líder
político que lo contenga.

Nos quedaremos en el partido si se abriera una instancia de diálogo y
consulta, pero buscaremos un peronismo más abierto si se nos niega esa
posibilidad, dijo uno de ellos. El debate se plantea ahora entre un
peronismo consensual o un peronismo venezolano , apuntó otro.

El peronismo nunca se distrae. La protesta rural señaló el nacimiento
en la Argentina de un nuevo sujeto económico, social y, tal vez,
político.

Mariano Grondona Lo único que falta es el jefe de la oposición

Según las encuestas serias, no encargadas por el Gobierno, la
presidenta Fernández de Kirchner se ha vuelto decididamente
minoritaria. ¿Esto quiere decir que si mañana hubiera elecciones sería
vencida? No necesariamente porque, para pronunciar este dictamen,
haría falta lo que todavía no ocurre: que algún representante de la
oposición gozara de una aprobación mayoritaria . La oposición, sumada
en el papel, ya "venció" ajustadamente a Cristina en las elecciones de
octubre, por cuanto ésta obtuvo menos de la mitad de los votos. Hoy,
la diferencia de votos entre la oposición sumada y el oficialismo ha
de haber aumentado sustancialmente en función del desmoronamiento de
Cristina. Sin embargo, como la oposición sigue fraccionada, aun un
oficialismo más minoritario que antes podría vencerla.

El pensador "maquiavelista" Gaetano Mosca sostuvo en su ensayo La
clase dirigente que, en política, una minoría organizada vence a una
mayoría desorganizada. Pese a un desgaste que empieza a notarse, bajo
la férrea conducción del ex presidente Kirchner, el oficialismo es
todavía una "minoría organizada". Pese a que sus índices de aprobación
aumentan en la medida en que los del Gobierno disminuyen, la oposición
continúa siendo una "mayoría desorganizada". Si ya se hubiera unido
bajo un solo liderazgo, el triunfo de la oposición sería cuestión de
tiempo. Pero esto, aún, no está ocurriendo. La única condición que
deben llenar los opositores para vencer al kirchnerismo es encontrar
el único líder que los represente. ¿Está entonces la oposición en
condiciones de darse un único líder de aquí a las elecciones de 2009?
¿Puede adquirir el país en los próximos meses un jefe de la oposición?

Sin bipartidismo

Estén en Europa, América del Norte o América del Sur, los regímenes
políticos más exitosos de nuestro tiempo son "bipartidarios" porque
aseguran la continuidad de las políticas del Estado sin caer por eso
en el continuismo de un solo caudillo en el poder. Es que el
continuismo , aunque dure algunos años, nunca puede asegurar las
décadas que necesita el desarrollo. El continuismo personalista tiene,
en suma, patas cortas. Sólo la continuidad entre dos partidos que se
alternen periódicamente en el poder sin alterar el rumbo fundamental
del Estado garantiza el éxito de los regímenes políticos. Fuera de
América del Sur, éste es el rumbo que siguen Europa occidental y
América del Norte. Dentro de América del Sur, es el rumbo de Brasil,
Chile y Uruguay, ninguno de cuyos presidentes ha caído en la trampa
del reeleccionismo indefinido en que cayeron la Venezuela de Chávez y
sus satélites.

Aunque no ha sido fácil de lograr, el mecanismo que genera el éxito de
las democracias bipartidarias es sencillo. En el comienzo, gana la
elección un partido cuyo jefe empieza a gobernar. Con el tiempo,
inevitablemente, sobreviene el desgaste. Cuando el partido del
gobierno se desgasta, el partido de la oposición se prepara para
reemplazarlo. El jefe del gobierno es sustituido oportunamente por el
jefe de la oposición hasta que a ésta, ya en el gobierno, también le
llega el desgaste y, con él, la sustitución en favor de su antiguo
vencido, que, casi siempre, ha renovado su propio liderazgo. El papel
del pueblo es asignar los turnos de los gobernantes y de los
opositores pero, como esos turnos llegan pacíficamente en medio de la
estabilidad institucional, ambos partidos terminan por asegurar la
continuidad de las políticas de Estado que apuntan al desarrollo
económico y social.

Basta esta descripción de lo que les parece obvio a las democracias
exitosas de nuestro tiempo para advertir la doble falla de nuestro
sistema político, que si de un lado obedece hoy a un liderazgo
personalista como el de Néstor Kirchner, del otro no consigue crear al
jefe de la oposición que podría interrumpir el curso de su insaciable
poder. Nos sobra ambición de poder en la cumbre y nos falta vocación
de unidad en el llano. Este es nuestro problema. Hasta podría decirse
que es nuestro único problema porque es fácil ver que, si la Argentina
pudiera resolver este dilema, tanto sus talentos y recursos naturales
como la extraordinaria situación internacional que la rodea
permitirían augurarle un futuro impar en el concierto de las naciones.

Cinco candidatos

Aun a riesgo de simplificar, podríamos decir que Kirchner está cercado
hoy por cinco oposiciones principales. En Santa Fe, predomina la
socialdemocracia de Hermes Binner. En la Capital Federal, el Pro de
Mauricio Macri. Hay que agregar a Elisa Carrió, la más votada en el
país después de los Kirchner. Pero en esta breve lista faltan dos
presencias formidables. Una es la del campo, que arrastra la masiva
irrupción federal del interior. La otra es el creciente disenso del
"peronismo republicano", no kirchnerista, que empieza a desbordar la
dura disciplina del ex presidente.

El problema principal de esta amplia lista no kirchnerista no es tanto
que sea incompleta (lo es), sino que aún no se sabe cómo coordinarla.
Al rompecabezas de la oposición le falta, por lo visto, su pieza
esencial, y lo único que podemos hacer por ahora es enumerar los
factores favorables que podrían acelerar y los factores desfavorables
que podrían frustrar la convergencia de los opositores.

Un primer factor favorable es que la oposición a los Kirchner viene de
abajo. Hasta hace poco tiempo, aquellos a quienes les disgustaba el
unicato del ex presidente se sentían aislados. Hoy, después de haberse
producido en Rosario la mayor manifestación masiva de los últimos
tiempos, han caído las vallas que les impedían encontrarse. La
consigna federal que han adoptado es vasta y fuerte. Kirchner une
detrás de sí a numerosos operadores en función de su famosa "caja",
pero sin querer también está movilizando a millones de ciudadanos cuyo
disenso desborda el tema puntual de las retenciones.

Un segundo factor favorable es la comprobación de que a millones de
argentinos no les gusta ni el unicato en la cúpula del poder ni la
ciega subordinación en sus alrededores, y esto a un punto tal que ya
les es difícil a gobernadores e intendentes circular por sus distritos
de origen.
LA NACION
El tercer factor favorable a la oposición es otro que nadie juzga
favorable para el país: la creciente inflación. A ello hay que agregar
que la mentira oficial sobre las cifras reales de la inflación es
vivida por muchos como un agravio inaceptable.

Pero también hay factores que trabajan contra la convergencia de los
opositores. Quizás el principal de ellos es que tiende a prevalecer el
particularismo en vez del espíritu de unión. ¿Piensan algunos
opositores en obtener la conducción exclusiva del disenso? ¿Piensan
otros en elaborar acuerdos apresurados y superficiales como el que
frustró a la Alianza en 1999?

No debe subestimarse por otra parte el empeño combativo del propio
Kirchner. Si se siente arrinconado, ¿qué armas estará dispuesto a
usar? Dada su alta cuota de agresividad y su enemistad con tantos
actores de la vida nacional, si estos rasgos lo aíslan de un lado cada
día más, del otro lado aún inspiran fuertes temores. ¿Se inclinará
entonces el ex presidente a pensar que lo que viene no es una
competencia democrática por el poder, sino una ruleta rusa a todo o
nada?

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