Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 10, 2010

Mauro Chaves -Honra ao mérito

- O Estado de S.Paulo
A partir de hoje surge a oportunidade de recuperar-se, no País, a valorização do mérito; o gosto de servir das pessoas públicas; a noção de bem comum, de espírito republicano, de direitos humanos - sem os disfarces que não passam de abrigo a intolerâncias -; o insubstituível esforço do aprendizado; a lealdade, a solidariedade, a confiança no outro; a recusa ao uso da violência para a imposição de ideias; o respeito à bela língua portuguesa; o repúdio a baixar-se o nível intelectual e cultural para ficar-se no nível do chefe - e fingindo julgá-lo o maior dos sábios -; a majestade do cargo de comando maior da República, escoimando-o de chulices e vulgaridades; o respeito à Justiça, sem dar-se o exemplo de escárnio a suas decisões; a deferência e o apreço às instituições do Estado, aos Poderes da República - dando tratamento digno aos representantes do povo no Parlamento, sem forçar senadores da República a dormir pensando numa coisa e acordar pensando em outra -, à classe política - pelo entendimento de que política é uma atividade nobre, exercida por pessoas honestas, e não um valhacouto de bandidos -; o estímulo à harmonia entre as unidades da Federação - e não à disputa entre Estados e regiões do País, criando ou reavivando rivalidades e conflitos entre populações pacíficas e solidárias desde o Império - ou entre os diversos grupos sociais, ou entre as diferentes formas de convicção, crença e opinião; o apoio à plena liberdade de expressão - sem a qual os regimes políticos não passam de farsas democráticas -; a rejeição ao silêncio e à cumplicidade em relação a malfeitos de companheiros, correligionários e apaniguados; a coragem de se opor aos que desobedecem às leis e reconhecem privilégios de impunidade usufruídos por pessoas não pertencentes à mera categoria de cidadãos comuns; o respeito aos presos políticos - não os comparando aos bandidos comuns -; a demonstração de afinidade do País com os regimes democráticos, e não com as ditaduras de nosso continente ou de outras partes do mundo; a defesa dos interesses do Brasil nas negociações internacionais - deixando de ceder em tudo e sempre favorecer aos interesses dos concorrentes -; os investimentos reais em educação, concentrados na qualidade do ensino, premiando o aperfeiçoamento profissional dos professores, e não destinados à proliferação de ignorantes diplomados; a reversão de um esvaziamento mental geral, que faz até as letras dos jovens compositores se tornarem repetitivas, pouco imaginativas, chapadas, fruto de um arsenal cultural cada vez mais encolhido e da aceitação cada vez maior da mediocridade; a escolha de pessoas competentes para a administração pública, que conheçam de fato a área de governo que se dispõem a dirigir - em contraste com o aparelhamento e inchaço da máquina pública com companheiros políticos sem nenhuma qualificação técnica para a função -; o uso austero das facilidades e mordomias postas à disposição dos governantes, tais como meios especiais de transporte, abastecimento de residências, uso doméstico de servidores públicos - sem deixar-se que esse uso se torne abuso das famílias, dos amigos das famílias e dos amigos dos amigos das famílias dos que exercem o Poder maior -; o exemplo de parcimônia, seriedade, eficiência e compostura dado à sociedade, para que o dispendioso desleixo comportamental não seja tomado como modelo geral de sucesso na vida, na substituição do esforço pela esperteza, dos que não veem vantagem alguma no conhecimento, na aptidão real e na seriedade laboral, se a qualidade dos serviços não é compensada - nem a falta de qualidade é cobrada - desde a mais alta cúpula governamental; o respeito ao direito constitucional à propriedade, aos meios legítimos de produção, sem permitir o esbulho, as depredações e os vandalismos praticados por grupos fora da legalidade que se arvoram em representantes autênticos de "movimentos sociais"; o incentivo ao verdadeiro sindicalismo, aos sindicatos e centrais independentes, defensores dos reais interesses das categorias profissionais, e não do peleguismo chapa-branca, subsidiado com polpudos recursos lhes repassados compulsoriamente pelos que trabalham, assim como as fartas verbas públicas calam e compram a cumplicidade dos que já tiveram a coragem cívica dos caras-pintadas; o combate ao descarado tráfico de influência, praticado até por políticos com mandato cassado que obtêm consultorias milionárias para negócios com estatais, que os tornam figuras badaladas do jet set internacional; o combate à prática das chantagens, dos falsos dossiês; a valorização do conteúdo das palavras, com a abolição do já arraigado costume do "dito pelo não dito" no espaço público-político; o rubor na face ante as evidências flagrantes e exuberantes das falcatruas, ou a vergonha na cara, que impeça o cinismo de se tornar o indício maior de talento na articulação política e na comunicação marqueteira; a exigência de que as empresas respeitem efetivamente os direitos do consumidor, especialmente naquilo que se refere a seu bem mais precioso - que é sua saúde e sua vida -, e, da mesma forma, as entidades governamentais respeitem os cidadãos-contribuintes, cuja parcela substancial de esforço de trabalho as sustenta; a revitalização de conceitos que pretenderam, nos últimos anos, jogar na lata do lixo da obsolescência, tais como o da lisura, o dos princípios, o dos escrúpulos, o do patriotismo, o da liberdade, o do caráter, o do brio, o da honra.

Sim, neste sábado pode estar começando no Brasil o processo de recuperação da honra ao mérito

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