O GLOBO
A decisão das quatro maiores economias de países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China (Brics), de atuar de forma coordenada na reforma do sistema financeiro internacional, tomada na primeira cúpula dos chefes de Estado realizada ontem em Yekaterinburgo, na Rússia, é apenas parte do que está por acontecer. O "pano de fundo, a raiz profunda, que vai demorar ainda a transparecer", tem muito mais densidade, na opinião do ministro de Planejamento Estratégico, Mangabeira Unger, e tem o poder de mudar nossa política externa.
Para ele, embora o sistema financeiro seja um tema premente, tornado conhecido pelas discussões do G-20, e haja uma tendência nessas reuniões de evitar colocar temas controversos e difíceis nos comunicados, seria "um grande equívoco" interpretar o que está ocorrendo como uma mera continuação das discussões do G-20.
O ministro, que participou de reuniões preparatórias ao encontro, considera que o eixo central dessa discussão "é o esforço para desvincular os objetivos de abertura econômica e de segurança política da imposição de uma fórmula institucional ao mundo".
Mangabeira vê como ponto comum entre os quatro países o "desejo de criar uma ordem que ofereça mais espaço para as alternativas, os experimentos, as divergências, as heresias".
Rejeitar a tese da convergência institucional forçada tem a ver, segundo ele, com "a busca interna em cada um dos Brics de um modelo de desenvolvimento baseado em ampliação de oportunidades econômicas e educativas. Nas discussões entre os Brics sobre as respostas à crise há uma determinação de colocar o foco na economia real e na ampliação e democratização da base produtiva" para que a economia que venha depois da crise não reproduza a mesma lógica que foi superada por ela.
Este evento dos Brics pode marcar um momento importante para o país e, na opinião pessoal de Mangabeira Unger, o projeto brasileiro para a América do Sul e sua ligação com os Estados Unidos e a União Europeia será altamente impactado pelo movimento dos Brics.
Ele diz que os projetos de integração regional "são um corpo sem espírito". Um projeto comum de desenvolvimento seria preciso para que o processo de integração se assemelhasse ao da União Europeia.
Mas Mangabeira Unger não é muito animado com a nossa situação na América do Sul que, de acordo com ele, pode ser descrita "sem anestesia" e em caráter pessoal da seguinte forma: o bom é que não temos inimigos, mas estamos cercados "de um lado por países muito bem organizados, muito ordenados, admiráveis sob muitos aspectos, mas que não primaram pelas inovações institucionais".
Refere-se especialmente ao Chile que, admite, será o primeiro país a ter indicadores econômicos e sociais semelhantes à Espanha na região. "Não estou desmerecendo o significado do que o Chile alcançou. Mas ele e outros são países que aceitaram uma estratégia de integração no espaço econômico dos outros, em particular dos Estados Unidos, o que não queremos para a América do Sul".
De outro lado, diz Mangabeira, temos vizinhos "muito rebeldes, mas muito confusos, que ameaçam afundar num pântano de populismo, de autoritarismo, de desorientação".
Não citou nomes "por um mínimo de prudência", mas é fácil inferir que falava de Venezuela, Bolívia, Equador e que tais.
Mangabeira acha que o avanço em relação aos Brics está ocorrendo mais depressa, "e com isso realça a imperfeição do que já conseguimos na América do Sul".
Ele lamenta, por outro lado, que o Brasil, sendo "o país do mundo mais parecido com os Estados Unidos, é surpreendente que nós praticamente não tenhamos uma relação com ele".
Ele define nossa relação com os Estados Unidos como "cordial, mas estreita e superficial.
Tratamos os Estados Unidos como um vendedor e comprador".
Mangabeira diz que o movimento dos Brics já está despertando muita preocupação lá, e é visto como "um jogo de contenção de poder americano", o que considera "um equívoco".
A consolidação dos Brics, segundo ele, vai colocar nossa relação com os EUA "em uma encruzilhada, mas ao mesmo tempo em que tensiona, cria uma grande oportunidade de dar uma reviravolta e engajar os Estados Unidos na discussão sobre um projeto interno ampliador de oportunidades e uma ordem mundial mais pluralista".
O ministro do Planejamento Estratégico acha que "não deveríamos esperar, deveríamos propor a eles projetos de ampliação de oportunidades nas Américas".
Ele acha que "avançamos muito na construção de uma relação estratégica" com a União Europeia, em particular com a França, e cita os campos de tecnologia de defesa; uso pacífico da energia nuclear, tecnologia para pequenas e médias empresas e desenvolvimento sustentável como pontos em que a colaboração já tem seu peso.
Segundo Mangabeira, o movimento dos Brics vai colocar um desafio para a Europa, em particular para a França, que tem sido mais sensível a esse novo mundo pluralista.
Mangabeira Unger está convencido de que o movimento dos Brics "vai mexer de uma maneira profunda com toda nossa política exterior" e, embora esclareça que não é um crítico dela, diz que "uma das condições para aumentar nosso grau de iniciativa é estabelecer a política exterior como tema da política interna do país, e entender que a política exterior não pode ser delegada aos diplomatas, que não formulam, devem apenas executá-la".
Para Mangabeira, a política exterior "é construída no debate nacional e definida pelo governo eleito", e não é "um ramo do comércio, mas um ramo da política". "Os temas comerciais, por importantes que sejam, são acessórios aos temas geopolíticos", afirma.
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