Em visita a Havana no dia em que o dissidente cubano Orlando Zapata Tamayo morreu após quase três meses sem comer, o presidente já havia criticado o uso da greve de fome para pressionar o governo. Ao lado de Lula, o presidente cubano Raúl Castro lamentou a morte do dissidente, afirmando que "era resultado da relação com o Estados Unidos" e garantindo que o dissidente não foi torturado porque essa prática "não existe em Cuba".A oposição cubana luta agora para salvar a vida do dissidente Guillermo Fariñas, que no dia seguinte à morte de Zapata começou uma greve de fome, na cidade de Santa Clara. Em reação a Fariñas, que está sem comer há duas semanas, o jornal oficial "Granma" afirmou que o governo cubano não aceita "chantagens". O dissidente recusou uma proposta de um diplomata espanhol que o informou da decisão do governo cubano de permitir sua viagem à Espanha. Ele insistiu que seria melhor liberar os presos políticos doentes no país.
Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, março 10, 2010
OAB critica Lula por comparar dissidentes cubanos a bandidos
Em visita a Havana no dia em que o dissidente cubano Orlando Zapata Tamayo morreu após quase três meses sem comer, o presidente já havia criticado o uso da greve de fome para pressionar o governo. Ao lado de Lula, o presidente cubano Raúl Castro lamentou a morte do dissidente, afirmando que "era resultado da relação com o Estados Unidos" e garantindo que o dissidente não foi torturado porque essa prática "não existe em Cuba".A oposição cubana luta agora para salvar a vida do dissidente Guillermo Fariñas, que no dia seguinte à morte de Zapata começou uma greve de fome, na cidade de Santa Clara. Em reação a Fariñas, que está sem comer há duas semanas, o jornal oficial "Granma" afirmou que o governo cubano não aceita "chantagens". O dissidente recusou uma proposta de um diplomata espanhol que o informou da decisão do governo cubano de permitir sua viagem à Espanha. Ele insistiu que seria melhor liberar os presos políticos doentes no país.
sábado, dezembro 05, 2009
Miriam Leitão Cena do clima
Cena do clima
Uma hora antes de o presidente Lula anunciar as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa, quase tudo deu para trás. Uma conversa paralela entre o ministro Carlos Minc e a ministra Dilma Rousseff sobre hidrelétricas demorou, e Lula quis saber se podia adiar. Dentro do governo, adversários das metas aproveitaram a deixa e quase tudo ficou no ar.
O debate esquentou entre os vários ministérios envolvidos, mas o presidente acabou decidindo anunciar as metas naquele dia. Foi assim, por um triz, que o Brasil escapou do papelão de continuar se recusando a adotar objetivos voluntários de redução dos gases de efeito estufa. Dias depois, o ministro Reinhold Stephanes estava dentro do governo defendendo a ideia-bomba que ele carrega grudada ao corpo de que devem ser simplesmente eliminadas as reservas legais dos biomas brasileiros. Não é nem reduzir de 80% para 50% na Amazônia a área que tem que ser protegida. É pior que isso: é acabar com tudo. O argumento dele é que isso não existe em nenhum lugar do mundo e deveria acabar essa limitação ao desmatamento no Brasil.
Esses dois fatos já seriam suficientes para mostrar como a posição do Brasil de assumir compromissos de redução de emissão de gases de efeito estufa ainda não foi entendida e aceita dentro do próprio governo. Mas tem mais. A escolha da ministra Dilma Rousseff como chefe da delegação é um despropósito.
Ela nunca demonstrou qualquer interesse, apreço ou simpatia pelo tema. E foi escolhida unicamente pelo fato de ser candidata e estar sendo pendurada em todo o palanque que o presidente Lula consegue armar para ela. É um equívoco fazer isso num tema dessa relevância. Nada deveria ser improvisado, nem servir a propósitos eleitorais nesta conferência.
Oficialmente, a reunião começa neste fim de semana, mas já começou, na verdade. O negociador-chefe do Brasil, embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, já está em Copenhague em reuniões preparatórias e em contatos com o governo dinamarquês, que comanda a Conferência. O presidente Barack Obama passará por lá no dia 9. Os outros chefes de Estado só vão nos dias 17 e 18. O Itamaraty recebeu uma indicação de que, apesar disso, Obama estará disponível nos dias das reuniões. Não se sabe se para voltar lá ou para ter contatos telefônicos.
Essa ida antes da hora é ruim. Vai lá, tira a foto, anuncia suas metas e apenas porque está no caminho de Oslo. Não terá interlocutores além do governo da Dinamarca porque ninguém terá chegado. Analistas do governo brasileiro acham que Obama terá que pôr um asterisco em suas metas para informar que elas são provisórias. Em Barcelona, na última reunião preparatória, o chefe-negociador americano Todd Stern deixou claro que o governo não pode perder um único voto no Senado. Se o fizer pode perder a votação de lei que estabelece metas. Teme que qualquer movimento possa ser considerado um rolo compressor sobre o Senado. Por isso ele anunciou 17% de queda sobre 2005, $é o que foi aprovado na Câmara dos Deputados.
A situação melhorou muito nessa reta final para Copenhague e por isso ela será marcante, ainda que não se chegue ao acordo ideal. O Brasil fez o movimento quando faltavam dois minutos para terminar o segundo tempo. Mas fez o movimento certo e antes dos Estados Unidos, China e Índia. Se aquela reunião do anúncio de metas tivesse sido adiada, o Brasil perderia a hora certa.
A dificuldade agora é como transformar esses anúncios políticos dos diversos países em números comparáveis. A Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável divulgou ontem uma tabela tentando dar uma unidade ao tamanho do esforço dos Estados Unidos, Brasil, China, União Europeia, Rússia, Indonésia. Pelos números, a proposta brasileira representa chegar a 2020 com 15% de emissão a mais do que tinha em 1990 e 22% menos do que em 2005 (veja em meu blog o estudo). O da China significa aumento em relação a 1990 (253%) e em relação a 2005 (90%).
A grande dúvida que esse trabalho suscita é que os números brasileiros são vagos, a base de dados, frágil, o inventário de emissões é preliminar, as projeções, pouco transparentes. Como, em cima de dados assim, se pode fazer qualquer outro cálculo? Além do mais, se for isso mesmo, o Brasil perdeu uma enorme chance de divulgar que o objetivo era uma queda de 22% em relação a 2005. Ficaria muito melhor na foto, do que falar em corte das previsões futuras da emissão no cenário Business As Usual, como foi dito.
O debate global sobre como proteger o planeta, que mobiliza tanta gente madura e fala ao coração dos jovens, mergulhará nos próximos dias no mundo árido dos números, semântica e siglas. Alguns documentos e declarações de especialistas lembram conversas em sânscrito. Nem parece que falam sobre o mais decisivo tema para definir a qualidade de vida — ou a vida sobre o planeta Terra.
Sérgio Leitão, do Greenpeace, me disse que Copenhague já é um sucesso "de público, de crítica, de presença"; Rubens Born da Vitae Civilis lembra de quando ele rodava as redações brasileiras na reunião de Kioto explicando para jornalistas desinteressados a importância do tema. Desta vez, nada precisa ser explicado, os jornalistas brasileiros estão de malas prontas. Vários vão para a segunda semana que será mais decisiva. Eu vou já. Embarco domingo à noite. O assunto invadiu todas as áreas, inclusive a economia. Tanto que quando eu falei para o meu editor, Rodolfo Fernandes, que queria ir a Copenhague, ele respondeu: "Faz todo o sentido." Mandarei notícias, a partir da coluna de terça. Espero que elas façam sentido
terça-feira, novembro 17, 2009
Apagão: explicação do governo não convence especialistas, que veem falha humana
Publicada em 13/11/2009 às 00h42m
Ramona OrdoñezRIO - Técnicos em engenharia elétrica e especialistas não acreditaram nas explicações do governo federal, de que o mau tempo teria provocado o blecaute que ocorreu na noite da última terça-feira atingindo 18 estados , entre os quais São Paulo e Rio de Janeiro. Técnicos ouvidos pelo GLOBO não descartaram a possibilidade ter ocorrido uma falha humana na operação do sistema.
O professor de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ Carlos Manuel Portela, considerado um dos maiores especialistas em linhas de transmissão no Brasil, acha difícil um número grande de descargas elétricas ter se concentrado em um período pequeno em uma região, atingindo as três linhas de transmissão de Itaipu. Portela disse ter estudado com profundidade blecautes de grande porte ocorridos em outros países, que sempre registraram como um dos motivos a falha humana.
- Não pode ter sido um raio que derrubou as três linhas quase que ao mesmo tempo. Em todos os blecautes importantes ocorridos no mundo, houve bobagem humana - afirmou Portela.
Diretor do CBIE defende tecnologias mais inteligentesPara o professor, o sistema elétrico brasileiro é moderno e usa as tecnologias mais modernas do mundo. Segundo Portela, por mais avançados e automáticos que sejam os equipamentos, por mais inteligentes, sempre é fundamental a participação do ser humano.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires Rodrigues, também não acredita nas explicações oficiais. Ele afirmou que é preciso investir em novas tecnologias, mais inteligentes, para aumentar a segurança do sistema. Por outro lado, segundo Adriano Pires, houve uma falha na gestão do sistema elétrico. Isso porque, explicou, a operação do sistema deve levar em conta a confiabilidade do sistema e a modicidade tarifária. Ele disse ainda que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), ao planejar a operação, parece estar preocupado somente com os menores custos.
- Por que concentrar uma geração tão elevada apenas em Itaipu? Por que não se acionou em escala menor alguma termelétrica? Porque eles estão levando em conta apenas custos menores de operação - destacou Pires.
Segundo o executivo do CBIE, um sistema de energia como o do Brasil não pode cair por causa de um fenômeno atmosférico. Se a causa for essa, é fundamental o país investir mais em novas tecnologias mais inteligentes. Adriano Pires citou o caso da Smart Grid, que já está sendo usada em alguns países. Esse é um sistema de geração inteligente quase individual. Com ele, um consumidor pode ter sua geração própria de energia, que automaticamente pode entrar na rede ou não, dependendo das oscilações dos custos de energia.
- Hoje o autoprodutor gera energia mas joga na rede interligada, o que o deixa vulnerável em caso de blecaute no sistema. O Smart Grid é uma geração individual de energia - explicou Adriano Pires.
'Não acredito que foi um raio', diz engenheiro
O engenheiro elétrico Clayton Vabo também não acredita que problemas atmosféricos tenham provocado o blecaute. Ele não descarta a possibilidade de alguma falha humana na operação do sistema.
- Não dá para entender o que aconteceu. Todos nós estamos muito apreensivos. Se houve falha nos equipamentos, deveria ter ocorrido uma recuperação mais rápida - disse Vabo.
Para o engenheiro, se for comprovado que houve falhas, será necessário o setor desenvolver e adotar novos sistemas de redundância para evitar um novo blecaute dessas proporções:
- Tem um mistério muito grande. Não acredito que foi um raio. Pode ter sido uma manobra errada, uma falha humana.
Na quarta-feira, em entrevista ao GLOBO, o diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, levantou a hipótese de um erro de computador ou de decisão humana.
segunda-feira, novembro 16, 2009
Apagou geral por Ricardo Noblat
Apagão de bom senso: foi um micro incidente, segundo o ministro Tarso Genro, da Justiça. Não, não foi. Em extensão, foi o maior apagão da história do país. Afetou 18 estados e 88 milhões de pessoas. Sobrou para sete milhões de paraguaios. Durou cinco horas e 47 minutos. Pela primeira vez, pararam todas as turbinas da hidrelétrica de Itaipu.
Apagão de gestão: não é aceitável que um ou três raios no interior de São Paulo desliguem Itaipu e apaguem o país. Falhou o sistema de “ilhamento” capaz de confinar o problema a uma só região.
Apagão de responsabilidade: no instante em que se fez o breu, Lula sumiu. Dilma Rousseff, a ex-ministra de Minas e Energia que desenhou o novo modelo do setor, também sumiu. Edison Lobão, o atual ministro, foi escalado para ser "a cara do apagão".
Apagão de comunicação: o falatório desconexo das autoridades e dos técnicos adensou a escuridão. As explicações desencontradas comprovaram que o governo não tinha a mínima idéia sobre o que dizer à população no primeiro momento – nem no segundo. Foi então que Lula, assustado com o estrago que o episódio pode causar na imagem do governo, concluiu que o melhor seria todo mundo se calar. Mas antes... Bem, antes...
Apagão de compostura: quando parecia insustentável o sumiço da mãe de tudo o que o governo faz de bom, Dilma finalmente falou. Antes não o tivesse feito. Olha aqui, minha filha: em vez de explicações, Dilma foi grosseira com os jornalistas. Só faltou jogar nas costas da mídia a culpa pelo apagão. Lembrou o destemperado Ciro Gomes (PSB-CE) de 2002, que conseguiu perder a eleição presidencial para ele mesmo.
Apagão de respeito ao cidadão: em toda a algaravia produzida pelo governo havia apenas uma preocupação comum: bater forte na tecla de que o apagão da dupla Lula/Dilma não era tão grave quanto o apagão de Fernando Henrique Cardoso. A preocupação eleitoral ganhou linguagem marqueteira: FHC teve apagão; Lula/Dilma, somente um blecaute. Como se o escuro do apagão fosse diferente do escuro do blecaute.
Apagão de autoridade: empenhado em tentar esquecer o assunto, o governo atravessou a fronteira que separa o legítimo exercício do mando do deplorável exercício do autoritarismo. Sem mais nem menos, Dilma e Lobão deram o episódio por encerrado, como se fato ele pudesse estar, como se os cidadãos não tivessem o direito de cobrar uma investigação rigorosa sobre as causas do apagão.
Apagão de gerência: um setor técnico e estratégico como o de energia foi loteado entre os dois maiores partidos da base do governo: PT e PMDB. Agentes político-sindicais petistas comandam a área de geração - Itaipu, Petrobras - enquanto agentes das várias etnias do PMDB comandam a área de transmissão e distribuição - Furnas, Br Distribuidora. A Eletrobrás, que está nas duas pontas, é feudo do senador José Sarney (PMDB-AP).
Apagão de regulação: criadas no governo FHC para regular os principais setores estratégicos com base em critérios técnicos e a salvo de ingerências políticas, as agências foram desidratadas de recursos e aparelhadas politicamente. O poder de regulação escapou das mãos dos técnicos e foi devolvido às mãos dos ministros, esses políticos por excelência e, como tal, sujeitos às pressões dos partidos.
Apagão de hierarquia: para evitar guerra interna e sabotagens entre aliados que dividem o comando do setor de energia, Lula deu todo o poder a Dilma para comandar os comandantes. Resultado: ministros e presidentes de grandes estatais têm os cargos e as verbas, mas não têm o poder de fato. Em condições normais, governantes tendem a fazer o jogo de fugir às suas responsabilidades. O governo Lula acentuou tal característica.
É sempre assim: na hora de faturar acertos proliferam seus verdadeiros e falsos pais, mães e avós. Na hora de encarar problemas, some toda a família e a lambança fica órfã. O povo? Ora, fica no escuro.
Comentário sobre o artigo acima: Foi no atual governo que as agencias foram aparelhadas polidicamente e esvasiadas
Como disse Fernando Henrique Cardoso, no artigo, Para onde vamos?, publicado em 1/11/2009:
“Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarzinho, quase sem que se perceba, a se moldar a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.”
sexta-feira, novembro 13, 2009
Raios e Trovões-Adriano Pires
o Globo on line
O apagão da última terça-feira deixou como lição principal o fato da vulnerabilidade do setor elétrico brasileiro. Existem várias hipóteses para explicar as causas do apagão que vão desde uma possível sabotagem até uma sobrecarga no sistema. O governo afirma que o motivo foi atmosférico, ou seja, raios e trovões.
Seja qual for o motivo, é inadmissível querer explicar um apagão que atingiu 18 estados brasileiros, 60 milhões de brasileiros, através de problemas atmosféricos. O que chama a atenção em primeiro lugar foi o fato de 18 turbinas da usina de Itaipu estarem ligadas numa terça-feira às 22 horas, enquanto apenas 1000 MW de térmicas. A primeira conclusão é que o governo abriu mão da confiabilidade do sistema elétrico em favor da chamada modicidade tarifária. E por que isso teria ocorrido?
No ano passado quando os reservatórios estavam vazios, o governo ligou as térmicas a óleo e gás natural que são mais caras que as hidrelétricas, principalmente as térmicas a óleo. Isso gerou uma conta de R$ 2 bilhões que foram repassados às tarifas de 2009, o que ocasionou um aumento justo num ano de crise econômica. Como este ano o consumo de energia elétrica caiu em função da crise e os reservatórios estão cheios, o governo decidiu despachar somente usinas hidroelétricas. Caso, por exemplo, o governo tivesse despachado mais usinas térmicas a gás e menos energia de Itaipu, o apagão poderia ter sido evitado ou no mínimo a sua extensão seria menor, caso a causa tenha sido realmente atmosférica.
Vamos torcer que o governo tire lições desse evento, elaborando políticas de médio e longo prazo que incentivem mais investimentos para implantação de uma gestão baseada em tecnologias novas que permitam uma maior segurança nas linhas de transmissão, a construção de mais linhas e uma maior diversificação da matriz elétrica brasileira. Por exemplo, possibilitar geração a bagaço de cana daria uma maior segurança ao estado de São Paulo, energia eólica ao nordeste. Vamos tratar a questão energética e o resto dos setores da infra-estrutura de uma forma menos politizada e ideológica e mais técnica. A infra-estrutura não pode continuar sendo o ponto de estrangulamento ao crescimento da economia brasileira.
terça-feira, fevereiro 24, 2009
Depois de Jarbas, Pedro Simon critica PMDB
'O PMDB está à venda', diz o senador Pedro Simon
Publicada em 24/02/2009 às 15h05m
O GloboRIO - Alguns dias depois de o senador Jarbas Vasconcellos (PMDB-PE) causar polêmica ao dizer em entrevista à revista "Veja" que "boa parte do PMDB quer mesmo é corrupção" , o senador Pedro Simon (RS), do mesmo partido, disse, em entrevista publicada na segunda-feira pelo jornal O Tempo, de Minas Gerais, que o PMDB está à venda e "se oferecendo para ver quem paga mais". Simon afirmou que todas as relações do partido são baseadas em interesse e que a decisão de quem apoiar para a sucessão presidencial em 2010, PT ou PSDB, será feita seguindo a lógica do "quem paga mais" que ele afirma ter tomado conta do partido.
Simon não poupou críticas ao atual comando do PMDB, que acredita não estar "à altura do partido" que ajudou a fundar. O partido é presidido pelo deputado federal e presidente da Câmara Michel Temer.
O senador disse ainda que, à exceção de alguns poucos colegas de legenda, a moeda de negociação com o governo federal é a ocupação de espaço na máquina pública, política feita pelo partido também durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Segundo ele, "o PMDB fez de tudo para agradar Fernando Henrique e conseguiu 'carguinhos'. Agora faz a mesma coisa com Lula".
Leia mais:Simon diz que critica o PMDB há mais tempo que Jarbas Áudio: Pedro Simon fala sobre as denúncias da "Veja" e critica a cúpula dsegunda-feira, setembro 01, 2008
Oposição ameaça pedir impeachment de Lula
Revista revelou grampo nos telefones do presidente do STF e do Senado.
DEM quer se articular com PSDB para oposição tomar posição conjunta.
Da Agência Estado
Além de pedir a demissão de toda a diretoria da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a oposição ameaça denunciar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por crime de responsabilidade, abrindo caminho para um processo de impeachment por conta da escuta clandestina da agência nos telefones dos presidentes do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, e do Congresso, senador Garibaldi Alves (PMDB-RN).
"Ou o presidente toma uma atitude rápida e aponta os responsáveis pelo grampo, ou, se continuar calado e omisso como está, ficará como responsável perante a sociedade e terá de responder por isto com base na lei do impeachment", advertiu ontem o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ).
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"O que a lei diz é que, ou o presidente é o responsável, ou alguma autoridade de seu governo o é", completa Maia, referindo-se à Lei nº 1.079/50, que embasou o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em dezembro de 1992.
O artigo 7º da Lei do Impeachment estabelece que é crime de responsabilidade contra o livre exercício dos direitos políticos, individuais e sociais "servir-se das autoridades sob sua subordinação imediata para praticar abuso do poder, ou tolerar que essas autoridades o pratiquem sem repressão sua". Também define como crime "violar patentemente qualquer direito ou garantia individual". Maia lembra, ainda, que fica sujeito à abertura de processo de impeachment presidente, governador ou prefeito que se opuser "ao livre exercício dos Poderes Legislativo e Judiciário"
O DEM quer se articular com o PSDB, para que a oposição tome uma posição conjunta. Os tucanos marcaram para quarta-feira (3), em Brasília, uma reunião da Executiva Nacional, "para discutir o momento político e a crise entre poderes".
Diante da denúncia publicada pela revista "Veja", de que três senadores do PSDB teriam sido grampeados - Tasso Jereisatti (CE), Álvaro Dias (PR) e o líder Arthur Virgílio (AM), o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra (PE), também divulgou nota no sábado (30), convocando a reunião.
"Esse tipo de atentado, além de ilegal, é uma grave ameaça contra os direitos e os valores democráticos duramente conquistados pela sociedade brasileira", afirma Sérgio Guerra.
Em tom bem mais agressivo, a nota do DEM diz que a democracia brasileira encontra-se "à beira do precipício" do momento em que "órgão sob o comando do presidente da República" faz escutas ilegais.
O texto dos democratas faz outras cinco observações críticas. A segunda delas diz que "a responsabilidade pelos atos criminosos que se sucedem no âmbito da Presidência da República é do presidente Lula da Silva, o chefe de um governo que se caracteriza pela mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política e a delinqüência institucional".
No encerramento da nota, o DEM denuncia a "escalada criminosa do governo de índole autoritária conduzido pelo presidente Lula da Silva" e exige respeito à Constituição e ao Estado de Direito, e o fim do "estado policial".
Listado por "Veja" como outro alvo das escutas telefônicas da Abin, o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), propõe que sejam identificados todos os aparelhos "guardiões" (de escuta telefônica) existentes em território nacional.
Nos casos em que o aparelho tenha sido adquirido de forma legal, para executar serviços policiais, Virgílio sugere que sejam submetidos à auditoria para verificar quais as escutas autorizadas pela Justiça e quais foram feitas pelo livre arbítrio de autoridades. O líder também quer que o governo promova uma "blitz" para localizar os "guardiões ilegais" e "enquadrar de pronto" seus portadores.
O PPS também divulgou nota oficial de "repúdio à espionagem". No documento assinado pelo presidente do partido, Roberto Freire, o PPS pede que sejam demitidos os diretores da Abin e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional , general Jorge Felix.
Freire também quer uma "investigação independente do episódio", comandada pelo Ministério Público, e afirma, na nota, que tomará medidas judiciais e também legislativas para tornar sem efeito o decreto que dá acesso automático da Abin às bases de dados da Polícia Federal, Receita Federal, Exército, Marinha e Aeronáutica.
quarta-feira, julho 16, 2008
A GLOBO mostra como delegados foram afastados
Delegados são afastados da operação
Na reunião com a Cúpula da Polícia Federal, não foi dito quem vai assumir as investigações na próxima semana. A saída de Protógenes Queiroz do caso representa um episódio inédito na instituição
O repórter César Tralli mostra como foram os bastidores da reunião em que ficou decidido o afastamento dos delegados que atuam no inquérito da Operação Satiagraha.
Prédio da Policia Federal em São Paulo. Foi na sala da Superintendência, no 9° andar, que o comando da Operação Satiagraha recebeu o comunicado do afastamento do caso.
A reunião de emergência, marcada por queixas, troca de insultos e acusações, durou três horas e meia na tarde desta segunda. Participaram do encontro 10 delegados, sendo três representantes da cúpula da Polícia Federal.
O superintendente em São Paulo, Leandro Daiello Coimbra, o diretor de combate ao crime organizado, Roberto Troncon, e o diretor de combate a crimes financeiros, delegado Paulo Tarso Teixeira.
Também estavam na mesa os delegados responsáveis pela investigação contra Daniel Dantas, controlador do grupo Opportunity. Protógenes Queiroz, Carlos Eduardo Pellegrini, Karina Murakami Souza e Vitor Hugo Rodrigues Alves.
É Vitor Hugo que finge aceitar a proposta de US$ 1 milhão para excluir Daniel Dantas e parentes dele da operação policial. Os delegados ouviram da cúpula da Polícia Federal que eles não poderiam mais continuar no caso porque estavam emocionalmente envolvidos com a investigação.
Ainda segundo os relatos de quem estava na reunião, o delegado Protógenes Queiroz foi duramente criticado por insubordinação. Na véspera das prisões, semana passada, Queiroz se negou a entregar aos superiores cópia da decisão judicial com nomes e endereços dos alvos da operação. Durante a reunião desta segunda, o delegado justificou a atitude alegando que temia vazamentos dentro da própria polícia.
De acordo com os delegados presentes, Protógenes reafirmou o desejo de continuar no comando das investigações. Ele teria dito que o curso que fará na semana que vem em Brasília não o impediria de prosseguir nas apurações.
Oficialmente, a Cúpula da Polícia Federal atribui a saída de Queiroz exclusivamente à participação dele no curso de aperfeiçoamento. No entanto, segundo os delegados do caso, não restou dúvida no encontro de emergência que a decisão de afastá-los das investigações era definitiva e irrevogável.
Durante a reunião com diretores da Policia Federal, os delegados também reclamaram de falta de apoio. Foi cobrada dos superiores uma resposta para o pedido de reforço na equipe.
Segundo os delegados, na semana passada, eles já haviam solicitado peritos, escrivães e agentes para analisar toda a documentação recolhida em 58 endereços por ordem da Justiça.
Passados oito dias da Operação Satiagraha, uma tonelada de material apreendido sequer começou a ser examinada, de acordo com os delegados afastados. “As pressões sobre esses delegados que conduziram a operação estavam sendo muito grandes, muitos fortes. Não só de dentro da Polícia Federal, da direção geral, que talvez tivesse alguma censura a respeito da conduta de algum deles. Que nós não concordamos na realidade. Mas também de fora da instituição”, afirmou Amauri Portugal, diretor sindical dos delegados da Polícia Federal.
Na reunião entre os delegados e Cúpula da PF, também não foi dito quem vai assumir as investigações a partir da próxima semana. Cada delegado do grupo vai para um lado. Karina Murakami Souza será transferida para a Corregedoria da instituição. Carlos Eduardo Pellegrini volta para o Departamento Anti-Drogas. Vitor Hugo Rodrigues Alves já reassumiu funções no interior de São Paulo.
Protógenes Queiroz vai se dedicar integralmente ao curso de especialização na Academia Nacional de Polícia.
Queiroz é o mais antigo do grupo: está na Polícia Federal há 10 anos e já comandou grandes investigações, como as que levaram para a cadeia Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo, o filho dele Flávio, o contrabandista Law Kin Chong e juízes de futebol envolvidos no escândalo conhecido por ‘máfia do apito’.
A saída de Queiroz do caso Daniel Dantas, Naji Nahas representa um episódio inédito na Polícia Federal.
É a primeira vez que um delegado deixa o comando de uma grande operação no auge das investigações. Nesta quarta-feira à tarde, o procurador da Republica em São Paulo, Rodrigo de Grandis, encaminhou oficio à direção da Polícia Federal pedindo o retorno imediato da equipe de delegados ao comando da investigação.
sexta-feira, junho 27, 2008
Lucia Hippolito - A personagem do semestre
A personagem do semestre
Depois do presidente Lula, naturalmente, Dilma Roussef foi a principal personagem da política brasileira no primeiro semestre de 2008. Por conta dos eventos do PAC, alcançou grande visibilidade. Sempre ao lado do presidente, Dilma teve fantástica presença na mídia.
A personagem é polêmica, e está longe da unanimidade. Muito longe.
Seus aliados a consideram uma técnica competente, rigorosa na fiscalização da atuação dos outros ministros, firme no trato com os subordinados. Sob sua administração, o PAC é um sucesso.
Seus opositores a consideram truculenta, autoritária, ríspida, atrabiliária, e não muito competente, haja visto que muitas obras do PAC são pura ficção, nem saíram do papel, enquanto pipocam notícias de que a Polícia Federal prende envolvidos com corrupção em obras do PAC em várias regiões do país.
(Esta divisão entre aliados e opositores não corresponde necessariamente à divisão entre governo e oposição.)
Dilma também foi protagonista dos dois escândalos que agitaram a política no primeiro semestre: a elaboração e divulgação de dossiê com despesas pessoais do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, a antropóloga Ruth Cardoso, e o escândalo da venda da Varig.
Quando os gastos com cartão corporativo por membros do governo Lula ameaçavam tornar-se assunto de CPI, Dilma afirmou a empresários, num jantar em São Paulo, que o governo estava preparando munição para reagir às acusações da oposição.
Quando começaram a sair as primeiras notícias de um dossiê com as despesas do ex-presidente, Dilma telefonou pessoalmente a Ruth Cardoso e negou categoricamente a existência do tal dossiê.
Depois, quando foi confirmada a existência do dossiê, Dilma afirmou que se tratava de um “banco de dados”.
Finalmente, descobriu-se que, não só o dossiê existia, mas tinha sido elaborado dentro da Casa Civil da Presidência da República e foi vazado por obra e graça de um alto funcionário da Casa Civil, petista histórico.
No segundo escândalo, Dilma foi acusada por Denise Abreu, ex-diretora da Anac, de pressionar pela venda da Varig, atendendo a interesses do advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula.
Como sempre, quando é apanhada em falso, a ministra Dilma negou tudo, afirmando mesmo que jamais tinha recebido o advogado Roberto Teixeira no Planalto.
Confrontada com a publicação das várias visitas de Roberto Teixeira ao Planalto, Dilma lembrou-se de que, sim, tinha tido duas reuniões com Roberto Teixeira e sua filha, para tratar da venda da Varig.
Fica parecendo que a ministra Dilma Roussef tem relações cerimoniosas e distantes com a verdade.
Finalmente, Dilma termina o semestre investigada pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República. A Comissão vai avaliar se ela pressionou a Anac no caso da venda da VarigLog e se cometeu deslize ético quando teve duas reuniões com o advogado Roberto Teixeira.
(Neste caso, as reuniões não constavam da agenda pública da ministra. O Decreto nº 4.334, de 12.08.2002, que dispõe sobre as audiências concedidas a particulares por agentes públicos – caso das reuniões da ministra com o advogado Roberto Teixeira, nas dependências do Palácio do Planalto – é taxativo: estas reuniões devem ser acompanhadas por outro servidor e registradas, com a anotação das pessoas presentes e dos assuntos tratados. Não foi o que ocorreu.)
É altamente improvável que a Comissão recomende ao presidente Lula a demissão da ministra Dilma Roussef. Mas que ela descumpriu um decreto da Presidência da República, parece não haver dúvida.
Por tudo isso, por toda a exposição e por suas estripulias, a ministra Dilma Roussef é, indiscutivelmente, a personagem do primeiro semestre.
Não tem para ninguém.
sábado, junho 14, 2008
terça-feira, maio 27, 2008
terça-feira, abril 22, 2008
Chapa-branca Por Ali Kamel
Chapa-branca
Publicada em 21/04/2008 às 22h23m
Por Ali KamelEugênio Bucci presidiu a Radiobrás do início do governo Lula até abril do ano passado, um período longo. Para fazer o balanço de seus anos à frente da estatal, acaba de lançar um livro, "Em Brasília, 19 horas, a guerra entre a chapa-branca e o direito à informação no primeiro governo Lula". Em 292 páginas, Bucci tenta demonstrar que, em sua gestão, a Radiobrás procurou imprimir "uma direção apartidária, impessoal, para servir à sociedade, atendendo o direito à informação". Em uma das muitas avaliações que faz de seu trabalho, ele declara: "Alinhada com essa tendência, a gestão da Radiobrás entre 2003 e 2007 procurou exercer até o limite as suas atribuições, mantendo a devida distância entre os interesses de governo e os critérios jornalísticos que pautavam a edição das notícias".
Não posso concordar. A Radiobrás não foi diferente do que era nas gestões passadas. Ela cumpriu fielmente o decreto que define a sua missão: "Divulgar as realizações do governo federal nas áreas econômica, política e social e difundir para o exterior conhecimento adequado da realidade brasileira." No livro, o próprio Bucci, depois de contar a história legal da empresa, conclui em relação a este decreto: "Não é nada maravilhoso, mas melhorou um pouco, e é o que está em vigor".
Apesar disto, Bucci afirma por todo o livro que fez a Radiobrás produzir bom jornalismo, apartidário, ético, afastado da propaganda, com a única exceção do programa "Café com o presidente". E, como prova, usa o artifício de revelar quatro ocasiões em que teria sofrido pressões contrárias à linha autônoma que diz ter seguido na Radiobrás. A primeira delas, ainda em 2003, foi uma reprimenda do presidente Lula, irritado porque a Radiobrás divulgara uma declaração de Nilmário Miranda, então ministro-chefe da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, segundo a qual o aumento do trabalho infantil naquele ano fora conseqüência do "arrocho econômico". Depois, em junho de 2004, vieram dois bilhetes que José Dirceu, então ministro-chefe da Casa Civil, enviara a Luiz Gushiken, que ocupava a chefia da Secretaria de Comunicação, a que a Radiobrás estava subordinada. No primeiro, Dirceu discorda de Bucci, que defendia o fim da obrigatoriedade da "Voz do Brasil", e desabafa: "Já não basta a Radiobrás e sua 'objetividade', que na maioria das vezes significa um misto de ingenuidade e na prática mais uma emissora de 'oposição'?" No segundo, Dirceu repete a reclamação, e pergunta: "Você tem acompanhado o conteúdo do noticiário da "Radiobrás?" Um ano depois, Ricardo Berzoini, então ministro da Previdência Social, reclamou com Gushiken de uma nota que a Radiobrás divulgara sobre uma paralisação de servidores. No bilhete, ele diz: "Tem coisas na Radiobrás que eu não entendo. Tudo bem que a agência não deva ser um 'Diário Oficial' ou ser submetida à censura prévia. Mas fazer propaganda de um movimento minoritário puxado pelo PSTU e PFL, claramente em oposição ao governo, e que apregoa mentiras sobre a política de RH de nosso governo, é demais para meu espírito democrático." Em meio ao relato desses bilhetes, Bucci diz a seu favor que durante o escândalo do mensalão, a Agência Brasil, da Radiobrás, teria publicado 3500 "reportagens" sobre o assunto e que "não sofreu uma única acusação de sonegação de dados."
Comecemos pelo fim. Como todos nós, jornalistas, estamos acostumados ao padrão chapa-branca da Radiobrás, não chega a surpreender que não tenha havido uma só acusação de sonegação de dados. Aceite Bucci ou não, jornalistas não julgam o trabalho da Radiobrás por este prisma, simplesmente porque ela não tem importância. Ninguém segue o noticiário da Radiobrás à cata de furos nem cobra dela que vigie o poder, ela que é subordinada ao poder. É preciso ressaltar também outro aspecto da questão. Se a intenção de Bucci era dar autonomia jornalística à Radiobrás, por que motivo não atuou no sentido de mudar o decreto que, ainda hoje, faz a empresa ser legalmente chapa-branca? Se o seu projeto era sincero, por que não propor mudanças legais que livrassem a estatal da influência de governos? Dizer que o decreto que rege as atividades da empresa "não é maravilhoso, mas melhorou" é expressar conformismo com o status quo. É falar de mudanças, mas sem o desejo real de implementá-las.
Sobre os bilhetes e a reprimenda do presidente, eles suscitam em primeiro lugar uma pergunta: se representavam uma pressão inaceitável, como agora quer fazer crer Bucci, por que ele os aceitou? Por que não denunciou na hora, por que não se demitiu? Por que ficou ali até abril de 2007? Só encontro duas respostas: ou Bucci foi enquadrado, e por isso ficou, ou os bilhetes foram tentativas vãs de pressão e, por isso, não deveriam ter sido revelados por quem serviu o governo calado durante cerca de 1600 dias. Eu fico com a primeira hipótese. O que os bilhetes revelam é uma guerra entre governismos, um mais chapa-branca do que o outro, mas todos chapa-branca. Aos olhos dos que acreditam num jornalismo livre, a Radiobrás continuou subserviente ao poder como sempre; aos olhos dos que têm alergia a jornalismo e sonham com medidas extremas (como censura prévia), o jornalismo dela, mesmo objetivamente subserviente, pode ter parecido "objetivo" ou "de oposição". Isso não quer dizer que tenha sido uma coisa ou outra.
A questão fica ainda mais clara quando Bucci discute as "Cartas Críticas", uma análise diária sobre mídia que Bernardo Kucinski, então assessor de Lula, escrevia para o presidente. Bucci se indignou com duas referências negativas de Kucinski à Radiobrás. A primeira coisa a notar é que a reação de Bucci foi imediata: ele, que se diz um democrata, tratou de propor o afastamento de seu crítico do Conselho da Radiobrás logo depois da primeira crítica, uma atitude típica do discurso autoritário que ele diz denunciar. A primeira manifestação de Kucinski foi em dezembro de 2004 e criticava a Radiobrás por não ter mandado ninguém ao Haiti cobrir o envio de novas tropas brasileiras àquele país: "Se não desenvolvermos e não disseminarmos a nossa visão dos fatos, perderemos a batalha da informação". Bucci, em vez de se orgulhar de não ter posto a Radiobrás a serviço do governo, esforça-se no livro para provar que a crítica era injusta, afirmando: "[Kucinski] escondia de seus leitores a grande cobertura realizada por nós nos meses anteriores". Bucci teve a mesma reação quando, seis meses depois, Kucinski, em um relatório enviado ao chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, criticou a hierarquização das manchetes na página da Agência Brasil e propôs uma nova redação para elas, bastante governista, para destacar "quatro pautas positivas para o governo". Bucci entendeu que ele acusava a Radiobrás de omissão e, no livro, mais uma vez se esmera para provar que não houve omissão alguma, a Radiobrás dera todas as notícias reclamadas por Kucinski! Para provar o que diz, Bucci detalha todos os títulos. A leitura deles é constrangedora: "Ministro do trabalho toma posse prometendo lutar por salário mínimo", "Lula diz que Marinho tem capacidade de negociar para defender os trabalhadores", "Lula afirma que Berzoini volta à Câmara para ser um defensor do governo", "Recuperação do salário mínimo é meta do novo ministro do Trabalho", "Silas Rondeau descarta risco de apagão até 2009", "Produção industrial cresce em todo o país" e "Lula anuncia nova etapa da reforma ministerial."
Esse é o jornalismo "apartidário e impessoal" que Bucci diz ter praticado na Radiobrás. Na verdade, esses títulos demonstram o que eu quis dizer ao falar em guerra de governismos.
Bucci, porém, se apega num ponto da crítica de Kucinski para provar o seu apartidarismo: o assessor de Lula reclamara também do título da nota "CGU: prejuízo dos Correios passa de R$ 54 milhões". Para mostrar que Lula investigava a denúncia de corrupção, Kucinski preferia a palavra "Governo" em vez de "CGU", uma sigla que o povão não conhece. Trata-se, mais uma vez, de uma discussão semântica entre governistas, pois, nos dois títulos, a intenção é a mesma: mostrar que o governo agia. Bucci, feliz com a oportunidade que a crítica de Kucinski lhe dá, garante que a Agência Brasil cobriu, intensamente, tudo o que se referia às CPIs e às denúncias de corrupção. Mas, acrescenta, "sem se dobrar nem ao governismo, nem ao sensacionalismo". Pelos títulos que citei anteriormente, dá exatamente para se ter uma noção do que, para ele, esse caminho do meio representava.
Não, a Radiobrás cumpriu sempre as suas atribuições de "divulgar as realizações do governo federal", como ainda manda o decreto que rege suas atividades. Embora o propósito do livro seja provar o contrário, aqui e ali Bucci deixa os fatos à mostra. É chocante o relato que ele faz de 2006. Ele diz com todas as letras: "Nos cinco primeiros meses do ano eleitoral de 2006, o presidente Lula pôs o pé no avião e girou o país de um lado para o outro, dobrando o número de viagens em relação ao mesmo período do ano anterior: viajou 65 vezes, para 53 destinos diferentes, contra 32 vezes e 27 destinos nos cinco primeiros meses de 2005." Com atividade eleitoral tão frenética, Bucci conta que o dinheiro acabou, ficaram "lisos, sem um tostão". O que fez Bucci? Esforçou-se pessoalmente, de maneira intensa, para liberação de mais recursos. No fim, conseguiu mais R$ 200 mil, dinheiro que "daria para mais um mês, se tanto." No livro, ele conta: "Assim foi: de gota em gota, de mês em mês, um sufoco em prestações." Novamente pergunto: é assim que deve agir alguém preocupado com uma gestão "apartidária e impessoal"?Jamais. O certo era esclarecer a quem de direito que atividades de presidente são atividades de presidente e que campanha eleitoral é campanha eleitoral. Uma coisa deve ser coberta pela Radiobrás, a outra, não.
Bucci não percebe isso ou finge não perceber? Eu creio que não percebe e atribuo o fato à sua falta de experiência na linha de frente do jornalismo. Ao longo de sua carreira, ele esteve sempre fora do que se convencionou chamar de "hard news". Foi editor da Playboy, diretor de redação da Quatro Rodas, diretor de redação da Superinteressante, uma revista de curiosidades, e ocupou o cargo de secretário editorial da Editora Abril, mas sem influência alguma em "Exame" e "Veja", principais veículos do grupo. Essa lacuna em sua biografia, aliada ao seu partidarismo, contaminou sempre a sua capacidade de análise nas vezes em que vestiu a camisa do crítico de mídia. No livro, ao analisar a si próprio, sofre do mesmo mal, mas em sentido contrário. Antes, onde havia bom jornalismo, via oposicionismo. Agora, onde há governismo, vê bom jornalismo.
Isso talvez explique confissões surpreendentes, como a que ele faz no capítulo sobre o "Café com o presidente", um programa que ele mesmo admite não ser jornalismo, mas propaganda: "Quando o governo começou, dei um jeito de me meter nas conversas sobre o projeto de um programa de rádio do presidente Lula. Sabia que aquilo era comunicação de governo, que não figurava na lista de atribuições da Radiobrás, mas enxerguei ali uma oportunidade de nos credenciar aos olhos do presidente." Como é que é? Então o jornalista que passa o livro inteiro dizendo que seu objetivo era fazer jornalismo "apartidário e impessoal" chama para si a tarefa de fazer propaganda para se "credenciar aos olhos do presidente"? Não, não era credenciar a Radiobrás, como ele quer fazer crer ao usar o "nos credenciar". É credenciar Eugênio Bucci. Por que digo isso? Porque na página 19, ele deixa claro que usará sempre a primeira pessoa, explicando os motivos: "Usar o 'nós' para encobrir o 'eu' seria apenas um protocolo demagógico e desinformativo, mais que majestático." De acordo.
Na última parte do livro, como prova de que de fato fez um jornalismo "apartidário e impessoal" à frente da Radiobrás, Bucci cita editoriais e comentários de vários jornalistas e de vários jornais, inclusive O Globo, em que é elogiado. Como isso se deu? No fim de 2006, Bernardo Kucinski, já fora do governo, escreveu um artigo à agência Carta Maior, repetindo as restrições que fazia à Radiobrás em suas "Cartas Críticas". Em resposta, Bucci deu uma longa entrevista ao Estado de S. Paulo, pregando o apartidarismo da Radiobrás. A imprensa o apoiou, mas baseando-se menos no que ele fez e mais no que ele pregou.
Não, não tenho nada contra Eugênio Bucci na Radiobrás. Creio que ele fez ali o que seus antecessores fizeram. Mas não acho ético, não acho correto que alguém que tenha decidido servir a um governo, a um partido, e que tenha feito isso com esmero e dedicação, venha, tanto tempo depois, dourar sua biografia, passar a sua história a limpo, vendendo-se como vestal do jornalismo apartidário quando, na verdade, fez exatamente o que aqueles que o convidaram para o cargo queriam que ele fizesse.
ali.kamel@oglobo.com.br
domingo, outubro 21, 2007
Acervo de Jorge Amado deve ir para os EUA por falta de recursos
Acervo de Jorge Amado deve ir para os EUA por falta de recursos
Plantão Globo on line | Publicada em 21/10/2007 às 13h50m
EFESÃO PAULO - O acervo do escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001), com cerca de 250 mil peças de valor histórico e literário, poderá ser doado a uma universidade americana por falta de recursos para preservá-lo, informou este domingo sua família. O neto do escritor, considerado um dos maiores autores do país, João Amado, afirmou em entrevista à TV que vê acontecer com seu avô algo diferente de outras personalidades.
"Outros passaram dificuldade em vida e foram reconhecidas depois de sua morte. Com meu avô foi o contrário", disse o neto do autor de "Dona Flor e seus dois maridos". "Ele recebeu homenagens em vida. Mas agora todo mundo o esqueceu".
O acervo de Jorge Amado está dividido entre a Casa de Cultura de Salvador, na capital da Bahia, e na residência em que o escritor e sua esposa, a também escritora Zélia Gattai, de 91 anos, receberam personalidades da política e da literatura de todo o mundo.
Com freqüentes internações hospitalares por complicações de saúde, a viúva de Jorge Amado deixou há alguns anos de cuidar da casa do Rio Vermelho, onde também estão as cinzas do escritor enterradas ao pé de uma grande árvore.
O escritor João Ubaldo Ribeiro, amigo de Amado e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), lamenta a situação em que se encontra o acervo, que inclui prêmios, documentos cinematográficos e fotográficos de sua obra, e os originais dos livros traduzidos em 19 idiomas, entre outros.
Para Ribeiro, a mudança do acervo para uma universidade americana - a Harvard é uma das que mostrou interesse - "seria uma perda lamentável para a história literária brasileira" e uma falta de respeito "para nosso maior escritor".
Gil, sem Jorge você talvez fosse uma hipótese por João Ubaldo Ribeiro
domingo, outubro 14, 2007
ENTREVISTA Arnaldo Jabor
O cronista e comentarista que hoje fala com 50 milhões de pessoas no rádio, no jornal e na TV vai ter seu lado cineasta revisto a partir de terça-feira com a abertura no CCBB da mostra “Arnaldo Jabor: 40 anos de opinião pública”.
O título homenageia seu primeiro longa-metragem, “A opinião pública”, que aborda questionamentos da classe média. Com curadoria de Eduardo Ades e Mariana Kaufman, terá exibição de filmes e de programas de TV, e debates, um deles com Jabor, que prepara novo filme, 16 anos após “Amor à primeira vista”, feito para as TVs francesa, italiana e inglesa.
“A suprema felicidade” será uma espécie de “Amarcord”, inspirado em reminiscências do cineasta.
Mauro Ventura
O GLOBO: Como é este novo filme?
ARNALDO JABOR: Chama-se “A suprema felicidade”. Não é autobiográfico no sentido literal, mas é uma espécie de “Amarcord” brasileiro. Passase naquele período, fim dos anos 50, em que o Rio vivia um momento muito feliz, especial, esperançoso. As coisas pareciam que iam dar muito mais certo do que deram. Havia o surgimento de uma vida urbana, tinha a bossa nova, o chorinho, a liberdade sexual. É um filme de reminiscências, da minha infância na Urca, para onde fui aos 10 anos. Divide-se entre a vida angustiante da família e a liberdade que havia fora. É a história de um rapaz entre 10 e 18 anos. É o que na literatura se chama de romance de formação. Retrata a formação desse adolescente, a descoberta da sexualidade. Tem uma cena no Mangue. É a história desse rapaz, da família e da cidade ao mesmo tempo.
Mostra as pessoas em volta dele, o avô malandro, típico carioca, que tocava em orquestra de zona e era casado com uma polaca da Lapa. Tem os tipos cariocas, o pipoqueiro, o vendedor de bilhete da loteria, o garrafeiro. E tem o lado infantil, do colégio jesuíta. Vai ser produzido pelo Francisco Ramalho Júnior. É um filme muito musical. Vou chamar os melhores chorões para trabalhar. Tem uma coisa carioca forte, musical, um visão comunal que hoje está muito escondida. Atualmente ela está muito mais no subúrbio que no Leblon. A alegria está no Méier, onde eu nasci.
Por que falar desse período?
JABOR: Quero falar das minhas lembranças boas, quero falar de felicidade. Você liga o rádio e só vê bode. Liga a TV, aparece uma paisagem linda, falam da geleira, mas aparece alguém dizendo que elas estão derretendo. Não tem curtição nenhuma. Tem sempre um ecólogo dizendo que vai acabar. Moro em São Paulo, mas vou muito ao Rio. Aqui em São Paulo tem uma pujança, uma atividade noturna e cultural muito intensa. O Rio está muito deprimido. Por isso quero falar do Rio feliz, do meu Rio, do meu Brasil. O filme é cheio de esperança. A gente está sentindo falta disso. A barra está muito pesada. É importante falar da ternura, do emocional.
Por que voltar ao cinema, depois de tanto tempo?
JABOR: Vou fazer por prazer, não preciso mais viver de cinema. E quando você trabalha com cobra você acaba envenenado. Falar só de Renan Calheiros, Wellington Salgado, Almeida Lima, Romero Jucá faz mal à saúde. Fiquei até doente, tive uma infecção estranhíssima. Estava muito mexido. Quem trabalha no Butantã acaba mordido. Estou com vários processos em cima, mas me orgulho deles, só me honram. Fico orgulhoso de estar sendo processado por pessoas e entidades de quinta categoria. Isso só me enobrece. E tudo que eu faço é muito sozinho, ao contrário de cinema. Política faz mal à saúde.
Mas fazer cinema no Brasil também não faz mal à saúde?
JABOR: Faz. Cinema mata, porque fica oscilando entre dois sentimentos: ansiedade e frustração. O esforço de fazer cinema no Brasil é muito grande, tudo conspira contra. Entre 1980 e 1988 morreu um porrilhão de cineastas, de Glauber Rocha e Leon Hirszman a Joaquim Pedro de Andrade e Fernando Coni Campos. Collor foi o tiro de misericórdia.
Em que pé está o novo filme?
JABOR: Estou acabando de escrever o roteiro, feito com Ananda Rubinstein, formada em ciência política. Daqui a uns 20 dias está pronto. Já estamos captando patrocínio, já tem distribuidora americana. Não é um filme muito caro, mas tem muito ator, depende muito da qualidade dos intérpretes. Tenho alguns em mente. Não quero atores muito conhecidos, mas não posso adiantar os nomes porque não falei com eles ainda. A idéia é filmar em maio.
Seu primeiro longa-metragem, “A opinião pública”, está completando 40 anos. Qual o balanço que você faz do filme?
JABOR: É muito importante porque retrata o comportamento da classe média quando ela não era importante. À época, só se falava de burguesia e proletariado. Era um documentário em pretoe-branco que estreou em nove cinemas do Rio e foi muito bem recebido.
Qual seu melhor filme?
JABOR: “Tudo bem”. É o melhor trabalho que já fiz. Se algo fica na minha pobre vida, é ele. E a Casablanca realizou um trabalho magnífico de revitalização, que fez com que o filme ficasse exatamente como eu queria. O som e a imagem não tinham qualidade. “Eu sei que vou te amar”, acho muito legal, é o filme mais trabalhado do ponto de vista da ourivesaria, mais bem-acabado cinematograficamente. Fez cinco milhões de espectadores, falava sobre desejo, amor, busca de carinho. Era uma grande discussão da relação. Transformei a história num romance, que acaba de chegar às livrarias. “Toda nudez” também ficou, tem uma verdade de sentimentos extraordinária, uma vitalidade que resiste.
“Pindorama” foi um fracasso de público e de crítica...
JABOR: Não deu certo, foi feito sem prática profissional, tinha que se esconder da Censura.
Mas tem um valor histórico e cinematográfico. Foi danificado pela época em que foi feito.
O que você tem visto de bom nos cinemas?
JABOR: O último filme lindo que vi foi “Santiago” (de João Moreira Salles). Adoro “Madame Satã” e “O céu de Suely”, o Karim Aïnouz é um talento. “O cheiro do ralo” (de Heitor Dhalia) é extraordinário. Tem aquele Sérgio Machado, seu “Cidade Baixa” é bem-feitérrimo. “Tropa de elite”, não sei se é bom ou ruim, mas achei interessantíssimo. A gente vira personagem do filme. O outro filme do José Padilha, “Ônibus 174”, é uma obra-prima. O Brasil é um país muito cinematográfico, há uma espécie de epidemia de cineastas.
Muitos filmes nacionais não estão repetindo a temática do Cinema Novo, denunciando miséria, violência, injustiça?
JABOR: Sim, mas de forma não tão brechtiniana, não tão crítica. O Cinema Novo era mais intelectualizado em relação a isso. Os de hoje são mais viscerais, o impacto da violência brasileira é mostrado de maneira não lapidada, não é teorizado, é jogado na cara da gente, o que pode ser bom ou ruim. Os do Cinema Novo eram mais analíticos que propriamente viscerais.
E filmes estrangeiros?
JABOR: Não perco nenhum do Wong Kar-Wai, é o cineasta mais interessante que tem por aí. Um filme interessantíssimo que vi foi “A vida secreta das palavras”. Mas sinto falta do “grande filme”, de esperar o próximo Bergman, o próximo Fellini, o próximo Antonioni. O único por quem sinto isso é o Kar-Wai. Prefiro pegar um DVD e assistir a um Tarkovsky do que ver bobagem.
Você se acha melhor escrevendo ou filmando?
JABOR: Cabe ao público decidir. São coisas próximas. De certa forma, faço cinema na TV. Esses dias cantei na televisão. Faço filme de mim mesmo na TV. Uma frase que ouço muito na rua é: “Você diz tudo aquilo que eu gostaria de dizer.” Minha função é tentar encontrar sentido para o caos. Sou um mercador de sentido num mundo que não tem mais sentido.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Êxito no fracasso Por Sérgio Costa
Publicada em 30/08/2007 às 16h19m
A decisão do Supremo Tribunal Federal de acolher as denúncias contra os 40 envolvidos no denominado "mensalão" faz voltar o tema da participação do Partido dos Trabalhadores no cenário político nacional. Desde a sua criação, o PT foi visto por diversos setores da sociedade como um partido anti-sistema, condição que a ciência política não invalida para o funcionamento de um sistema político.
A sua atitude em relação à Constituição de 1988, o sobressalto financeiro causado em 2002 pela sua ascensão ao poder e a hospedagem concedida a movimentos sociais que violam a Lei constituíram um legado de dúvidas e questionamentos quanto à praticabilidade da participação do partido no jogo político que o acompanhou até a posse de seu líder como presidente da República, em janeiro de 2003, respaldado por uma maciça votação que só foi superada no Ocidente pela reeleição de Ronald Reagan nos Estados Unidos em 1984.
O pleito de 2002 teve uma feição plebiscitária, quando uma expressiva parcela de votantes que anteriormente havia rejeitado a proposta petista expressou seu descontentamento em relação à administração que terminava o mandato, elegendo Lula presidente da República.
O mesmo não pode ser dito, com segurança, em relação à reeleição em 2006, a qual se deveu principalmente à extensão dos programas de transferência de renda que beneficiaram às classes mais pobres e à desarticulação da oposição aferrada exclusivamente à via da exploração política dos escândalos e que não pode ou não quis debater idéias e projetos. O PT conseguira inverter a equação que o mantivera fora do poder durante três eleições presidenciais, superando o contingente de leitores que o havia rejeitado.
A ascensão do PT ao poder em 2003 trouxe perspectivas novas ao cenário político brasileiro e, exceto por uma rejeição ideológica "a priori", pode ser vista como uma oportunidade de evolução e consolidação do quadro político nacional. O PT era um partido de massas que assumia a responsabilidade de governar um grande país, com uma grande economia e problemas exponenciais a essas extensões. Caracterizando-se como de centro-esquerda, respeitando acordos anteriormente firmados pelo governo brasileiro e praticando um discurso moralizante e desenvolvimentista, o PT ascendeu ao poder bafejado por um expressivo apoio popular, muito além de seu fiel eleitorado militante ou simpatizante.
O fracasso brasileiro em tornar o PT um partido afim ao sistema político se consumou na maneira como ele operou o sistema de coalizão característico da governabilidade do país nesta 5ª República e que culminou na decisão do STF, a qual contém um inequívoco julgamento da prática política que se antecipa ao julgamento penal. Hoje, isso tem uma implicação bem mais significativa e profunda do que em 2003. Por estar no poder de um sistema onde a hegemonia do executivo se traduz em deslavados clientelismo e assistencialismo, um PT anti-sistema enquanto partido traz a perspectiva da sua imposição pelo continuísmo, direta ou indiretamente, uma hipótese que não precisa de inspiração estrangeira.
A alternativa direta, pela eleição ou reeleição de candidato próprio, ou a indireta, pela participação na chapa vencedora, participação majoritária na base de apoio e domínio da burocracia estatal serão analisadas pela direção do partido que irá optar por uma delas no momento oportuno. A consistência da democracia brasileira irá passar por um sério teste nos próximos anos.
Surgiu, porém, uma vertente inesperada nessa dinâmica da qual se antecipam os rumores. A Justiça, representada pela sua mais alta corte, demonstrou que não ficará alheia ao processo político, uma novidade benfazeja à Nação. Do fracasso da política salvou-se a constitucionalidade do país, o grande êxito até aqui e talvez a uma única certeza que todos devemos preservar.
Sérgio Costa é historiador
quinta-feira, agosto 30, 2007
Merval Pereira - O futuro do PT
| O Globo |
| 30/8/2007 |
O 3º Congresso Nacional do PT começa amanhã com um roteiro que não estava previsto. Os petistas estão tão desorientados que a senadora Ideli Salvatti chegou a levantar a hipótese de uma conspiração ter colocado tão próximos no calendário a reunião partidária e a decisão do Supremo Tribunal Federal que mandou para o banco dos réus toda a cúpula petista, base política do primeiro mandato do presidente Lula. A idéia da conspiração, embora muito presente na lógica petista, só se sustenta porque a decisão do STF foi contrária a seus dirigentes. Ao contrário, já estava sendo armada uma grande montagem política para que o ainda hoje homem-forte do PT, o ex-ministro José Dirceu, chegasse nos braços da militância para o congresso caso fossem rejeitadas pelo Supremo as denúncias contra ele, de corrupção ativa e chefe de quadrilha. A coincidência seria, então, politicamente conveniente para os planos de Dirceu de dar início a uma campanha a favor de sua anistia política, com base na qual os petistas ganhariam fôlego novo para as campanhas eleitorais que enfrentarão até 2010 sem o seu principal, diria mesmo único, líder político de peso nacional, o presidente Lula. Dirceu, "inocentado" pelo Supremo, seria esse símbolo político a reboque do qual o PT tentaria limpar sua imagem diante do eleitorado. Com a decisão histórica do STF de transformar em réus todos os 40 acusados pelo procurador-geral Antonio Fernando de Souza, o PT se debate entre fingir que nada aconteceu, a exemplo do próprio governo, ou discutir seu futuro tendo como pano de fundo não mais o passado glorioso que inventou como promessa de redenção para os seus seguidores, mas um passado manchado por suspeitas de atuação criminosa. Suspeita que não se limita aos delitos que começarão a serem julgados pelo STF em ação criminal inédita, pela abrangência dos casos e importância dos envolvidos, mas recuam a tempos muito anteriores, quando o PT começava sua escalada ao poder pelos municípios do interior do país, especialmente em São Paulo. Foi destes tempos que vieram as denúncias que inviabilizaram a permanência no governo do ministro da Fazenda Antonio Palocci, levado pelo passado a cometer delitos no presente, como a quebra do sigilo fiscal de um caseiro que denunciara sua presença constante em uma casa que reunia os fantasmas da República de Ribeirão Preto. Diz-se que a orientação vinda do próprio Lula é para que a decisão do Supremo não seja debatida no Congresso do PT, como se ela não fosse o fato político mais importante do momento, com repercussões futuras inegáveis, especialmente para o próprio PT. Lula não quer que o congresso petista se transforme numa sessão de autoflagelação, assim considerada a autocrítica que o grupo minoritário liderado pelo ministro da Justiça Tarso Genro considera imprescindível para a reabilitação do partido. Mas Lula também não quer que o Campo Majoritário, do qual sempre fez parte e que continua dominando o partido sob o comando forte do ex-ministro José Dirceu, transforme o congresso em ato de desagravo aos petistas transformados em réus pelo STF. Ontem, ele já avisou que não sairá em defesa de ninguém, o que, considerados os antecedentes, pode acontecer ou não. Lula já se disse traído pelos ancestrais dos aloprados, mas em outra ocasião exortou-os a abaixar a cabeça, pois não deviam nada a ninguém. Qualquer coisa pode acontecer, desde que beneficie seu projeto político próprio. O que Lula não quer mesmo é que o emocionalismo de um lado ou de outro inviabilize seu plano de fazer com que o PT aceite abrir mão de ter uma candidatura própria em 2010 para apoiar uma chapa consensual da base aliada. No momento, nada indica que o PT tenha capacidade política para sustentar isoladamente uma candidatura, e com o resultado do julgamento do STF fica mais difícil do que sempre foi imaginar-se um futuro politicamente promissor para um candidato petista à Presidência que não seja Lula. Como o presidente já jurou que não aceitaria disputar um terceiro mandato seguido, e, mais que isso, já tem feito movimentos em várias direções em busca de um candidato que possa vencer a eleição de 2010, é preciso raciocinar com base na normalidade constitucional atual. Embora seja prudente não deixar nunca de lado a possibilidade de que a situação política mude e Lula, de alguma maneira, possa vir a disputar um terceiro mandato seguido. Um defeito original da tese do candidato único é considerar que essa "base aliada" é leal ao governo Lula. Ao contrário, ela é leal a qualquer governo, já foi a mesma base de sustentação dos dois governos anteriores de Fernando Henrique e poderá vir a ser a mesma base do próximo governo, seja presidente Ciro Gomes, José Serra, Aécio Neves, Marta Suplicy, Fernando Collor ou qualquer outro que surja. Esse grupo político, quase todo ele envolvido no esquema do mensalão, vira para onde o vento sopra, e, sem Lula na disputa, se adaptará às circunstâncias que forem se apresentando. Portanto, o projeto de Lula, embora correto do seu ponto de vista político, provavelmente não resistirá à realidade, motivo pelo qual a "base aliada" dificilmente terá uma chapa única, a não ser que o candidato seja o próprio Lula. Mortalmente ferido pelo processo do mensalão, o PT está em uma encruzilhada: não quer abrir mão de indicar um candidato, mesmo porque sabe que o sucesso relativo na eleição do ano passado se deveu muito mais à presença de Lula do que à força própria do partido. Por isso mesmo, no entanto, como considera Lula, estará fraco politicamente para atuar isoladamente. |
domingo, fevereiro 04, 2007
Para sociólogo Francisco de Oliveira, exploração segue sem ameaça no país
Publicada em 03/02/2007 às 18h25m
Lydia Medeiros - O Globo
RIO - O sociólogo pernambucano Francisco de Oliveira está inquieto. Em entrevista concedida ao jornal O Globo, publicada na edição deste domingo, o marxista de 73 anos, professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da USP, avalia que a vitória do ex-metalúrgico Lula criou no país uma espécie de acordo: a classe dominante aceitou ceder aos dominados o discurso político, desde que os fundamentos da dominação que exerce não sejam questionados.
Chico de Oliveira deixou o PT em 2003filiou-se ao Psol, mas acabou votando em Lula no segundo turno. Admite que se equivocou, e afirma que este governo não mudará o país porque Lula se transformou num mito, acima da política, dos conflitos e das classes sociais.
Leia a íntegra da entrevista:
No segundo turno da eleição presidencial, depois de ter votado em Heloísa Helena, o senhor afirmou que votaria em Lula porque acreditava que haveria espaço para a esquerda no segundo governo dele. Recentemente, num artigo, mostrou-se desiludido com essa perspectiva. Arrependeu--se do voto?
FRANCISCO DE OLIVEIRA: Não me arrependi de nada. Sou um herege sem arrependimento. Achei que como ele (Lula) dependia de votos — porque todo o PT estava de salto alto, achando que levaria de lavada e teve de ir para o segundo turno e foi obrigado a tentar recuperar os votos que havia perdido — pensei que numa conjuntura como essa talvez a esquerda — a esquerda que eu considero — pudesse pressionar (não impor condições) para ampliar uma brecha possível. Mas aí ele ganhou o segundo turno muito folgadamente, com a colaboração do senhor Geraldo Alckmin, que perdeu dois milhões de votos — o que e inconcebível. É um feito alguém ganhar e perder depois votos que não mudaram de classe, não mudaram de lugar. E o salto alto voltou ao PT e a Lula e as primeiras declarações dele já foram não contra a esquerda, mas contra tarso Genro e Dilma Rousseff, de que não ia haver modificação nenhuma. Minha posição mais recente tem a ver com o reconhecimento de que eu me equivoquei. Mas não estou arrependido de nada porque a tentativa era exatamente abrir um espaço maior para a esquerda que reivindica mudanças e tirar o salto alto do PT. Arrependimento, só no amor. Em política não cabe, cabe análise.
Qual o espaço de atuação da esquerda hoje, então?
OLIVEIRA: Nenhum. A esquerda foi massacrada. Não tem nenhum espaço. Nem a que está fora do PT. O próprio PSOL, com o qual tentei contribuir, não existe praticamente, está reduzido a uma representação parlamentar de três deputados e um senador, e fora do Parlamento também não existe. E nem outras frações da esquerda, inclusive as que permanecem no PT. Não sou sectário de achar que só existe esquerda fora do PT. Até penso o contrário: sem a esquerda que ficou no PT não há mudança possível no Brasil. Mas essa também está acuada. Essa vitória retumbante de Lula no segundo turno tirou qualquer perspectiva de esquerda, dentro ou fora do PT.
Por que?
OLIVEIRA: Porque Lula converteu-se num mito, e o mito é antipolítico por excelência. Ele se coloca acima das classes, dos conflitos. Com o mito você não faz política. E Lula converteu-se num mito.
As urnas legitimaram esse mito?
OLIVEIRA: Sem dúvida nenhuma as urnas, por caminhos que são quase impossíveis de decifrar completamente, legitimaram. São 60 milhões de votos. E este programa do Bolsa Família é extremamente perigoso, deste ponto de vista. Cria o que chamei de hegemonia às avessas.
O que significa isso?
OLIVEIRA: O Bolsa Família é a base dessa hegemonia torta. É bem pelo avesso, não é o contrário da hegemonia. Quando a gente bota uma roupa do avesso, ela não é o contrário da roupa, é outra roupa. A hegemonia às avessas é esse processo. A ficha me caiu quando eu vi um filme sobre a África do Sul, que nem trata de política. O título em português é “Infância roubada”. É uma coisa meio piegas e nem sei se era a intenção do diretor. Sugere que na África do Sul as crianças pobres não têm infância porque são obrigadas a entrar em gangues e fazer tráfico. Mas certamente o que você no filme é outra coisa. Os africanos do Sul derrotaram um dos regimes mais nefandos do século XX — século em que houve nazismo, facismo, stalinismo e, conforme esse livro que estou lendo (aponta para “Mao”, livro de Jung Chang e Jon Halliday, Cia das Letras, 2006), o maoísmo, que é uma coisa terrível, qualquer coisa fora da escala humana. O apartheid era tão nefando quanto esses regimes, embora não tenha tido o genocídio que tiveram. Pois bem, a África do Sul, exatamente através de um mito, que é Mandela, derrotou o apartheid. Para que? Para as enormes favelas da África do Sul (pausa). Joannesburgo é um horror. Adota a política neoliberal mais orotodoxa possível, foi derrotado pelo neoliberalismo. É a hegemonia às avessas. Você derrota o apartheid para servir aos senhores do apartheid.
O senhor vê um paralelo dessa situação no Brasil com a vitória de Lula?
OLIVEIRA: Vejo. Talvez não tenha as mesmas cores dramáticas da África do Sul. Esses processos de comparação são perigosos em qualquer terreno. Mas vejo no governo do Lula algo parecido. Você derrota a poderosa discriminação social brasileira, derrota o preconceito de classe absurdamente alto num país com tradição racista, para que? Para governar para os ricos. E os ricos consentem, desde que os fundamentos da exploração não sejam postos em xeque. É o que o PT faz. É o que o governo do Lula faz.É ao avesso, portanto. A hegemonia é um conceito trabalhado por Antonio Gramsci que mostra que a dominação de calsses, ou qualquer dominação, se dá sempre por uma mistura de consentimento e violência. Como sou do Nordeste, tenho muita experiência nisso. Você percebe que há um consentimento do dominado e o dominante tem obrigações que decorrem desse consentimento.
É o coronel que provê.
OLIVEIRA: É o coronel que se sente obrigado a socorrer seu morador quando ele fica doente. É uma reciprocidade. Você tem consentimento do dominado, o reconhecimento do dominante de que ele deve obrigações a seu meeiro, seu posseiro, seu pequeno agricultor, e isso é devolvido pelo dominado sem questionar a dominação. Saldo, evidentemente, em períodos de tensão e em períodos, que são mais raros do que a gente pensa, revolucionários. Algo disso passa-se no caso brasileiro e na África do Sul, sendo pelo avesso: os dominantes aceitam ser conduzidos politicamente pelos dominados. Desde que não sejam contestados. Olavo Setúbal (banqueiro) no ano passado, na “Folha de S. Paulo”, deu-se ao luxo de dizer que Lula e Alckmin eram mais conservadores do que ele.
Na campanha Lula se apresentou, e se apresenta ainda hoje, como o presidente dos pobres. Criou-se inclusive uma dicotomia de um Brasil de ricos e de um Brasil de pobres. Eleito, ele reclamou por que não era o presidente dos ricos, já que lucraram tanto em seu governo. Existe essa dicotomia ou isso foi também o exercício do mito?
OLIVEIRA: É o exercício do mito. Ele mesmo não entende. Segundo a lógica do Lula, que é elementar — todo mundo acha que ele é um gênio político; não é gênio de coisa nenhuma — como você favoreceu certas capas da sociedade, elas deviam retribuir com o voto nele. Isso é uma coisa elementar. Ele se sente injustiçado. É mais além da compreensão dele. Mas é o mito em ação. Ele anula ou simula uma anulação dos conflitos sociais, ele suspende o efeito dos conflitos. Hoje no Brasil se vê o maior consenso. Todo mundo achando que “bom, o governo não é nenhma maravilha, mas tem o Bolsa Família”. Isso é um desastre. E é por isso que esquerda não tem espaço nenhum. Vá convencer algum elemento popular de que o Bolsa Família é um seqüestro da sua capacidade democrática de optar!
Na eleição, ninguém ousou fazer essa abordagem. Nem Heloísa Helena. Há saída?
OLIVEIRA: Não tem. A curto prazo não tem saída. Como num país com essa desigualdade você vai se pôr contra um programa que é para da5 alimentação básica aos extratos mais pobres? É preciso ser muito cara de pau. Seria massacrado. Há um ciclo histórico que está marcado por isso. E não tem força humana capaz de desfazer.
Num prazo maior, que conseqüências o senhor prevê que essa política produza?
OLIVEIRA: As conseqüências são sérias. A exploração predatória que é feita no Brasil está legitimada. Claro que olhando outros exemplos a gente acha que no Brasil é até moderado. Joanesburgo é igual a qualquer frade cidade brasileira O décor são as enormes favelas. Uma miséria absoluta, como qualquer favela de São Paulo ou do Rio ou do Recife. Já vi isso em muitas partes. Cidades da Colômbia, por exemplo, são um desastre. Nada mais parecido com o Rio do que Medelín. São favelas subindo o morro. A legitimação da exploração é de tal ordem que em Medelín eles renunciaram a eliminar as favelas. Não passando o trator, mas através de uma ascensão de renda. Os morros são verticais. Fizeram um metrô de favela, que é uma coisa do Doutro Silvana, o gênio do mal. É uma espécie de bondinho do Pão de Açúcar que vai subindo o morro e a cada intervalo pára.
Não é o caso do Rio?
OLIVEIRA: O Rio caminha para isso, foi o que pensei. Quando visitei Medelín — Brizola, o velho caudilho gaúcho não tinha morrido — pensei que o político carioca que descobrisse aquilo se reelege para o resto da vida. É uma solução moderna que funcionaliza a coisa mais miserável. É isso que esse tipo de mito consolida, a desigualdade fica legitimada, há uma capitulação, uma renúncia a combater as causas estruturais dessa desigualdade.
O senhor não vê nesse govern nenhuma chance de atacar essas causas?
OLIVEIRA: nenhuma, nem nesse nem nos próximos. Isso é muito poderoso e é afincado nas bases da sociedade brasileira.
Essa hegemonia às avessas não é uma situação antiga, como na frase de Lampedusa, em “O Leopardo”: “Vamos mudar para que tudo fique como está”?
OLIVEIRA: Não é igual ao passado. No passado, sem nenhum romantismo, a política passava pelo conflito de classes. A característica da hegemonia às avessas é que a política não passa por esse conflito. Ela desviou-se.
Porque a classe dominada acredita que está no poder com Lula?
OLIVEIRA: Acha. Por que Lula está tão perdido no segundo mandato, mesmo com uma votação contundente? Porque perdeu o inimigo de classe. Do mesmo jeito que Fernando Henrique. Por que Fernando Henrique, esse luminar das Ciências Sociais, está, como se dizia na minha terra, mais perdido que cachorro em procissão? A imagem popular é engraçada. Numa procissão, você só vê as canelas das pessoas. Não dá para ver quem é. O cachorro não ataca porque não sabe quem é o inimigo. É assim na política brasileira. Lula perdeu a noção de quem é o adversário nessa luta, para não dizer de inimigo. Do mesmo jeito que Fernando Henrique perdeu. Por que o mais eminente sociólogo brasileiro não acerta uma? Porque pedeu a noção de adversário. Esse processo começou há 30 anos, são mudanças radicais, que nenhum partido levou a sério. Fernando Henrique, se tivesse juízo, trataria de construir a imagem dele no futuro como alguém que mudou o Brasil. Ele mudou de fato. Não ele, mas os processos que ele acelerou depois do Collor. Mas ele fica insistindo no velho viés da política, e aí erra todas. Um pouco porque uma política que não passa pelo conflito é inútil
Não é política.
OLIVEIRA: Não é. E é o que ocorre com Lula, de uma forma grave, porque é governo, e com os outros. Quem acreditaria que um dos candidatos fortes à presidência da Cãmara era um comunista? Só no Brasil. Comunismo não quer dizer absolutamente nada. É assim nos outros países? Não. No Brasil, é o presidente da República que se apresenta pelo partido Comunista do Brasil, que aliás era o mais radical de todos. Aquele que apagou a luz quando a luz da esquerda escureceu. Foram todos perdidos. Fernando Henrique a fazer declarações que erram o alvo todo o tempo, e o Lula a atentar uma coalizão de todo mundo com todo mundo. Isso não é política.
E com essa coalizão ele não será forte no segundo mandato?
0LIVEIRA: Será fraco. Basicamente porque perdeu a noção de quem é o adversário. Não é porque dá ministérios. É porque perdeu a noção de quem trabalha contra o desenvolvimento do país. A gente antes sabia disso. Hoje, não. Hoje há o consenso. Está todo mundo a favor do crescimento e ele se faz a 2,5% ao ano. Qual é o mistério? O mistério é que a política perdeu a capacidade de processar o conflito de classes.
Há alguma saída fora da política?
OLIVEIRA: Não, não há, porque a política é uma invenção grega pela qual você intervém nos negócios do Estado. Aqueles que não têm propriedade podem intervir nos negócios do estado. É a criação mais inventiva da História humana. O sistema capitalista não é, como a esquerda sempre pensou, a coisa mais descarada. Não. Ele não domina sem consentimento do dominante. A democracia é uma forma de consentimento. Você aceita que pelas regras do jogo você pode mudar a sociedade, pode mudar uma diretriz do estado. Não é para dizer que a democracia serve só aos ricos. pelo contrário. Ela devia servir muito mais exatamente aos dominados. Quando ela perde essa capacidade, fica isso que está aí.
O senhor quer dizer então que Lula, ex-metalúrgico, líder siondical, que se fez com discurso de esquerda, ao chegar ao poder minou a esquerda brasileira, no sentido de sua capacidade de mudança?
OLIVEIRA: Não é ele ao chegar ao poder. O Lula sempre foi de direita. Isso é uma ilusão. Nâo quero me colocar como vidente, mas dei uma entrevista ao jornal Em tempo, nos anos 80, em que digo exatamente isso. Lula não passa o horizonte de uma classe média relativamente reacionária. Nunca foi de esquerda. O PT era de esquerda. E num processo muito complicado, era a liderança principal do partido. Vestia uma camisa da qual ele não gostava. É o mesmo que um palmeirense ser obrigado a jogar pelo Corinthians. No caso dele, o contrário (Lula é corintiano). Ou de um flamenguista jogar pelo Vasco. Só mesmo Romário é capaz dessa malandragem. Lula foi empurrado por uma série de conjunturas para a esquerda. A fração de esquerda que existe no PT, e existiu mais fortemente no passado, soube aproveitar essa conjuntura e deu ao PT a cara que ganhou para a História. Esse processo vem sendo erosionado há muito tempo. Por processos estruturais de mudança da economia, da sociedade, entre os quais está o enfraquecimento da classe operária, uma restruturação produtiva poderosa, que enxugou os quadros do operariado. Os bancários, por exemplo, que foram a segunda categoria mais importante na criação do PT, não são nada, porque todos os bancos são informatizados. Cada máquina em que se tira dinheiro ou extrato rouba 20 postos de trabalho, senão mais. E nenhum de nós quer voltar atrás. Processos desse tipo tiraram a força do movimento sindical. Do outro lado, e contraditoriamente, o sindicalismo ganhou centralidade no mundo das finanças. Fez-se o que nenhum capitalista conseguiu fazer, tornar os trabalhadores sócios do êxito do capital financeiro.
O senhor já chamou os dirigentes dos fundos financeiros estatais de uma nova classe social. É um fenômeno brasileiro?
CHICO DE OLIVEIRA: São uma nova classe social. E este é um fenômeno especificamente brasileiro. Evidentemente os processos da social-democracia e do welfare state mudaram muito a cara dos trabalhadores no mundo todo. Porque esses processos, ao contrário do que a crítica da esquerda dizia, foram exitosos em mudar o capitalismo. Imagine na Alemanha demitir uma pá de empregados. É fora de questão. Com esses processos, o capital necessitava desses fundos, os partidos políticos e os sindicatos ganharam poder de veto sobre decisões dos capitalistas. Esse é um processo universal, sobretudo nos países do ocidente capitalista. Esses processos foram lesionados pelo que a gente chama de neoliberalismo quando as luzes vermelhas se acenderam. Mas de fato o estado de bem estar punha em xeque o controle do capital sobre os fundos do Estado. Quando se tem uma economia comoa a da Holanda, em que 50% do PIB passa pelo estado, isso se torna decisivo. Então, o inimigo era real.
Mas essa classe de dirigentes no Brasil, é um fenômeno típicamente nacional?
CHICO DE OLIVEIRA: Da forma que se apresenta, é brasileiro. A própria Constituição criou o FAT, que é o Fundo de Amparo ao Trabalhador, gerido pela classe trabalhadora. Na verdade é gerido pelo Bndes, mas tem lá um membro das centrais sindicais no conselho de adminsitarção do FAT, que é maior fonte de recursos do BNDES. Então há uma hegemonia às avessas.
A ascensão dessa classe de sindicalistas à gestão, ao controle dos fundos financeiros, além desses processos sociais e econômicos, levou ao fim do sindicalismo que produziu Lula?
CHICO DE OLIVEIRA: Levou. É isto que eu chamo de perder a noção de quem é o adversário. Porque com esse capitalismo em que a dominância financeira determina a direção dos processos de crescimento econômico e de acumulação de capital, você tornou-se aliado do êxito do capitalismo. Imagine um dirigente sindical no conselho do FAT. Chega um projeto, pelo BNDES, para restruturação de determinada fábrica. Essa reestruturação bota para fora, de um contingente de 5 mil trabalhadores, mil. Qual é sua escolha? É entre o projeto que vai dar uma taxa de retorno para o capital do FAT ou manter mil empregos. É um dilema real. Não levo minhas análises quase nunca para o lado moral. As forças em ação sçao tão mais poderosa que o caráter dos homens conta pouco. O que você faz: essa taxa de retorno é a garantia da aposentadoria futura dos membros desse sindicato; ou você diz, não, vou manter os empregos e dane-se a taxa. É essa decisão que está na frente deles todos os dias. E isso, como o velho Marx dizia, muda sua forma de pensar. É infame isso, porque é pelo estômago que o pensamento passa. sem nenhuma condenação. O processo é muito forte.
Não é contraditório que Lula antes de várias decisões chame as centrais sindicais, consulte sua burocracia, quando os sindicatos representam cada vez menos trabalhadores?
CHICO DE OLIVEIRA: É puro ritual. Até porque como a origem dele é operária, faz esse jogo de cena. Não tem importância nenhuma. Nenhuma não digo. O ritual tem importância. Não é à toa que a Igreja Católica sempre cercou suas cerimônias da maior pompa.
Política é feita de rituais.
CHICO DE OLIVEIRA: Política é um jogo de aparências, que é importante. Você nunca pode ver a realidade. Ela só pode ser vista através de conceitos. Aquilo é o real depois que aprendi certos conceitos.
Parte da esquerda do PT migrou para o PSOL. O discurso da representante do partido na eleição, Heloísa Helena, tinha muito de socialismo cristão e programas como a ampliação de presídios . Há crise de identidade na esquerda?
OLIVEIRA: Há, uma forte crise. Essa crise, todo mundo sabe e isso é lugar comum, o baque da URSS foi decisivo.
E a esquerda não se levantou ainda?
OLIVEIRA: Não, e é muito difícil se levantar.em prazos que sirvam à nossa previsão da política; A eternidade não adianta. Não é plausível que forças contrárias ao esquema que está aí tenham alguma chance real de de mudança nos próximos 20 anos. Sua antIga base social foi fortemente afetada; as novas formas de capitalismo confundem interesses que antes eram antagônicos. Tudo isso retirou a base social de mudança. O que resta é uma situação social de miséria muito grande. Se miséria fizesse socialismo, a Índia já era socialista.
E qual é uma plataforma plausível para a esquerda hoje?
OLIVEIRA: É investir poderosamente em mecanismos de distribuição de renda, tais como a Previdência Social. Fiquei até feliz que o discurso do Lula sobre Previdência mudou. Não sei qual foi o Santo Antônio que baixou junto dele. Porque esses cretinos vivem pensando que Previdência Social é custo. Agora apareceu um discurso diferente, dizendo que o déficit é a forma de justiça social que o país escoheu. Está correto isso. Todos os estudos no mundo mostram que a Previdência foi o mecanismo mais efetivo de redistribuição de renda. E no Brasil também. A aposentadoria rural, os benefícios de auxílio-maternidade, de auxilio-doença; é preciso investir nisso. Fazer um esforço enorme de inclusão social.
E o Bolsa Familia mnão se inclui entre esses mecamismos?
OLIVEIRA: Não. Você tem que transformar algo como o Bolsa Família em numa coisa ligada e administrada pela Previdência, que venha a fazer parte da renda dos extratos mais pobres. Por aí há perspectivas de mudança.
Incorporar o Bolsa Família?
OLIVEIRA: E ampliar também muito mais. Você tem um enorme exército informal de reserva que não vai ter emprego estável. Temos que incluí-los. Como? Pela Previdência. O programa que a esquerda deve ter é de inventar uma Previdência para quem não é empregado e não vai ser.
Quem banca esse custo?
OLIVEIRA: O Estado, através da punção dos lucros escandalosos do capitalismo no Brasil. E isto não é revolucionário. Isto ajuda ao capitalismo mais que qualquer coisa. Só que em outro nível. Não podemos reduzir tudo ao mínimo denominador comum. Você tem de se livrar do estigma da Africa do Sul. Sem isso, não anda. Ou pode andar com uma concentração de renda que é uma ... (pausa). Isso construirá um sistema cada vez mais concentrador do que já é. O próprio fato de precisar do Bolsa Família é um estigma. Isto é uma vergonha. Você capitulou frente a um sistema concentrador, dominador. O desafio do socialismo às antigas era vencer a miséria. O socialismo do Lula e de outros é conviver com ela. É inteiramente diferente.
Não são apenas os partidos ditos de esquerda que estão em crise. Vê-se que todos estão divididos , sem rumo, e falam em “restabelecer ligações com a sociedade”.
No entanto, para um quatro dos eleitores, as eleições não interessaram. Eles faltaram ou anularam o voto. Acabou a política partidária?
OLIVEIRA: Está no finzinho. Essa política partidária pela qual o conflito de classes não passa não diz nada. Essa crise atinge todos.
Com esse quadro de desinteresse, o que esperar do novo Congresso?
OLIVEIRA: Não espero muita coisa. Ninguém menos que Tancredo Neves, que era um grandissíssimo conservador, disse certa vez, numa mudança de legislatura, que não foi aquela que o elegeu presidente, que nunca havia visto um Congresso tão conservador. Imagine Tancredo falando de conservadorismo! É o que está aí. Não imagino que esse Congresso tenha capacidade de articular qualquer esratégia diferente. O Congresso é uma instituição decrépita em todos os países. Salvo algumas tradições nacionais em que é muito forte, a experiência ocidental está a dizer que o Congresso é uma instituição decrépita.
A democracia representativa faliu?
OLIVEIRA: Ainda não faliu inteiramente, mas vive uma crise profunda. A sociedade é mais complexa do que o Congresso tem capacidade de representar. Quais as clivagens reais no Congresso? Correspondem ao título dos partidos? De jeito nenhum. São evangélicos pentecostalistas, ruralistas, é por aí que o Congresso se divide. Aí você pega as siglas partidárias e seus programas e vê que têm pouco a ver com a clivagem real da representação. Tal como acontece com os trabalhadores e seus fundos de pensão, acontece com os representantes do Congresso. Não é novo. Durante mais de um século o divórcio não avançou no Brasil porque a Igreja Católica vetava. O divórcio só passou não quando o peso da Igreja deixou de ser decisivo, mas quando as orientações da Igreja não encontraram mais respaldo social. Então, qual o Congresso real? O das siglas e programas ou o das clivagens reais que cortam a sociedade? Por isso a política partidária é anacrônica.
A chamada democracia direta é alternativa para aumentar a representatividade? O ministro Tarso Genro é um defensor desses instrumentos.
OLIVEIRA: Não. Democracia direta é muito difícil. Tarso Genro é um tolo que diz coisas banais com uma retórica formidável. Foi prefeito de Porto Alegre e diz-se que ele ampliou o orçamento participativo. Estudei o orçamento participativo em São Paulo. Aqui foi uma fraude, apesar dos esforços das pessoas interessadas. Ele é incapaz de ser aplicado numa sociedade complexa. Ele é territorial e não pretensamente por classes sociais. Em Porto Alegre, ganhou certa representatividade, mas não pode ser aplicado numa sociedade complexa. Que orçamento representativo ou democracia direta se pode fazer com 180 milhões de habitantes? Teria de haver pelo menos um milhão de representantes. E com isso você reintroduziu a clivagem e a não participação direta automaticamente. Em outras palavras, você vai ter que ter partidos. Quem pensa mais lucidamente sobre democracia participativa é Fábio Comparato, advogado brilhante. Ele não pensa em eleger representantes, mas em convocar a sociedade para decidir sobre questões que são o que ele chama de cláusulas pétreas. Estão acima do mandato que eu e você demos a nosso representante.
Por exemplo?
OLIVEIRA: Por exemplo, as privatizações. Você não podia ter deixado ao Congresso e ao presidente da República a decisão sobre certas empresas, porque está acima do mandato que dei a meu deputado. A Vale do Rio Doce, tipicamente. Foi um esforço colossal, de meio século. Aquilo não podia ser decidido por voto dos senadores e deputados. Eu tinha de ser chamado para dizer se estou de acordo com a privatização e em que condições. E isso não é utópico. Um estado americano como a Califórnia usa isso.
Os plebiscitos ajudariam a aumentar a representatividade das decisões?
OLIVEIRA: Sim, e a introduzir as clivagens reais da sociedaee. A eleição mostrou. A privatização parecia resolvida e adormecida. No segundo turno, Lula jogou na cara do Alckmin e aquilo rendeu votos a ele.
Rendeu pelo discurso de Lula ou pela incompetência de Alckmin e do PSDB em defender as privatizações?
OLIVEIRA: Pelo discurso de Lula. As pessoas se perguntaram o que estavam fazendo. Vai ser possível privatizar a Petrobras? A Petrobras interfere em cada ato da sua vida cotidiana. Não pode ser tratada como uma empresa comum. O Banco do Brasil também, assim como a Vale, que não interferia em cada ato da minha vida, mas era muito importante para uma enorme soma de brasileiros.
Mas com a privatização a Vale não se tornou uma empresa muito maior e o Estado certamente não teria condições de chegar esse resultado?
OLIVERA: É uma ilusão. Qual a mágica da privatização? Um aritmético comum decifra em um minuto. Você tem o numerador e o denominador de uma equação. No numerador está o resultado da sua atividade produtiva. No denominador está o passivo que representa seu capital. Com a vale antiga, a conta dava que ela era deficitária. Qual a mágica da privatização? Abaixar o denominador pelo qual as empresas foram vendidas. Isso transformou a Vale na empresa mais lucrativa. Mas é mentira, ela já era lucrativa. Só que pelos livros da contabilidade, o passivo da Vale era enorme. Veio a privatização, vendeu-se a Vale por uma bagatela e a contabilidade reformulou os termos da equação. O que a Vale já vendia, que era uma enormidade, ficou lá no numerador. E o denominador, que era o passivo, ficou reduzido a um terço. De um dia para o outro, a Vale apereceu como uma enorme empresa lucrativa. E, evidentemente, isso tem efeitos sobre o futuro. A Vale detém o monopólio real sobre a vida de porções importantes do território brasileiro. Você não faz nada no estado do Maranhão, sobretudo da rota de Itaqui; em parte do estado do Pará, em Carajás; no Espírito Santo e numa parte considerável de Minas sem a Vale do Rio Doce. Ela tem poder de veto real sobre a sua vida.
E no caso da telefonia. O cidadão hoje tem celular, trabalha com ele. Não faltou convencimento do PSDB em mostrar que isso era bom para vida das pessoas?
OLIVEIRA: Faltou. Aliás, esses tucanos são ruins demais. Nem no que acertaram eles conseguem transmitir à população. Usam um tremendo de um salto alto. Quem melhor definiu Fernando Henrique foi José Simão: “Maria Antonieta do Planalto” — “Se não tem pão, comam brioches”. É exatamente no que Fernando Henrique converteu-se como político. Ele não era assim. Fui amigo dele por 15 anos. No Cebrap, éramos colegas de gabinete, viajamos juntos. Ele não tinha nada do que transformou-se na Presidência. Pelo contrário. Era um sujeito bem humorado e brincalhão. Desaprendeu tudo. Ficou rancoroso, chamando os outros de jurássicos. Mas eles (do PSDB) consideram que estão acima do povão de uma forma tão desigual que não se sentem na obrigação de dar satisfação a ninguém. Podia ser uma empresa privada (para a telefonia). Não há nenhum dogma que tudo tem de ser estatal. Quando tudo vira estatal a ineficiência vai junto. Não por causa da competição — isso é um dogma liberal idiota. O que se perde é a capacidade do poder público regular os conflitos entre as empresas. As agências (reguladoras) são uma brincadeira. É uma brindadeira de mau gosto a Agência Nacional do Petróleo regular a Petrobras. O problema era lograr de fato uma regulação dos conflitos para que você tenha direitos. E os tucanos nunca souberam dizer isso.
Os tucanos erraram na escolha do candidato na eleição?
OLIVEIRA: Erraram feio. Esse Alckmin é um picolé de chuchu.
José Serra seria diferente?
OLIVEIRA: Não gosto dele, mas seria diferente. Ele morde.
Mas o mito Lula já não estava acima da discussão, não importando quem fosse o candidato?
OLIVEIRA: Não estava ainda. Foi no segundo turno. Esse mito é muito perigoso em política. Miguel Arraes foi um mito em Pernambuco. Na segunda eleição dele, não na primeira, em que venceu a classe dos usineiros com a ajuda dos latifundiários do sertão. Na segunda, quando voltou do exterior, estava elevado à categoria de mito, acima do bem e do mal. Nas eleições, as pessoas usavam o santinho dele como remédio; faziam chá com a figura dele e davam a quem estava com gripe, com calo seco. E foi um desastre o segundo mandato de Arraes.
O Lula mito colocará esse segundo mandato em risco? Que marca o senhor imagina que terá esse governo?
OLIVEIRA: Não vai deixar marca nenhuma. A marca vai ser a ampliação do Bolsa Família. É a consolidação do mito e dessa política sem conflito de classes. Como, mais uma vez, na África do Sul. Mandela se elegeria quantas vezes quisesse. Ele não quis, porque como havia passado 27 anos na prisão, quis conhecer um pouco o mundo. É justo.
O senhor acredita que Lula, como disse o professor Leôncio Martins Rodrigues à Folha, pode tentar o terceiro mandato?
OLIVEIRA: Está na cabeça dele, mas não vai. Porque aí, de fato, exigiria que fosse capaz de mobilizar e não é capaz. Lula, para usar uma metáfora de futebol, não entra em bola dividida. Quer ser consagrado como pai dos pobres e estar acima da política. Coisa que ele já conseguiu. Para entrar nessa (um novo mandato) teria de reentrar na política. E aí o mito se esboroa. Que o seduz muito, seduz. Seduz sobretudo ao lulismo. Aí você teria um domínio de 30 anos sem contestação, mas isso exige reentrar na divisão da política e Lula não fará isso.
Ele tem mandado recados aos amigos da América do Sul contra isso.
OLIVEIRA: Tem mandado recados. Lula já acha que está acima do bem e do mal e não tem mais que entrar nisso. Acha que ele pode voltar aos portões da Volkswagen vestindo os ternos que veste? Tem de manter-se fora da politica para manter-se como mito. A política não suporta mitos.
2010 será a primeira eleição pós-redemocratização sem Lula. Como imagina que chegaremos lá?
OLIVEIRA: É difícil imaginar. Fácil seria dizer “o PT vai perder feio”. Mas não tem para quem. Essa dissolução atinge a todos. Os tucanos perderam todas as penas na última eleição.
Serra e Aécio não são nomes que podem ter chances?
OLIVEIRA: Podem, a partir de suas bases estaduais. Minas e Sâo Paulo representam certamente uns 40% do eleitorado. Mas têm de esquecer o partido. Se botar o partido de novo na dança, eles dançam. É voltar à política dos governadores.
Então a próxima eleição será personalista?
OLIVEIRA: Não. Pode ser pior. Pode ser uma espécie de Brasil desenvolvido contra o Brasil subdesenvolvido, coisa que temi muito que acontecesse na última eleição. Porque Lula é um nordestino, operário, ignorante. E o discurso de Sâo Paulo é o discurso da competência. Isso pode voltar a aparecer, porque só vai ter Minas e São Paulo (no páreo). Os outros estados não têm eleitorado para garantir nenhum candidato. Os tucanos só reaparecerão pela via dos dois estados principais. Fora disso, é difícil imaginar cenário de embate eleitoral.
É a volta do café com leite?
OLIVEIRA: É, voltando ao café com leite. Estamos andando para trás. O grande momento da política partidária no Brasil foi a ascensão do PT, quando você realmente mudou as regras do jogo político. Mas com a erosão do PT, a política volta a caminhos que já foram batidos. A política partidária deixa de ter importância. Vai ter política, sim, mas seus senderos serão outros. Não mais os partidos.
O senhor acredita em aliança PT-PSDB?
OLIVEIRA: Está no desejo de lulistas, petistas, peessedebistas. Mas não vai acontecer porque já se constituíram como donos de certos pedaços da política. E ninguém cede nada em politica. Você só cede em política quando tem troco para receber. E nesse caso, não há.
A questão da ética foi um debate importante nesses dois anos e foi parte das discussões na eleição dos dirigentes do Congresso. Acredita que haverá mudanças nesse aspecto?
OLIVEIRA: Não. Isso vai passar logo. Acho que haverá mais cuidado, que não vamos ver novos escãndalos, mas a centralidade desse assunto vai desaparecer. Tem muita cois a a ser distribuída, muito cargo, e isso nunca é compatível com uam discussão sobre ética. Em nenhum lugar. O fogo vai baixar, porque há muitos arranjos a serem feitos. O presidente da França — e arrogância e rigor é com os franceses — nomeia, ao assumir, 300 cargos. Há uma velha burocracia estabelecida e não tem partido que vá mudar isso. É uma coisa republicana. Dizem que o presidente brasileiro nomeia 20 mil. Já ouvi um número menor, mas é muita gente. Mexe com muitos interesses concretos, não são ideológicos. São reais, é a vida das pessoas. Um presidente de uma estatal como a Petrobras, quanto ganha? Nem sei! Isso logo abaixa o fogo do discurso ético, porque não tem discurso que resista a isso. Não é exclusivo do PT nem de seus aliados nem da oposição. Como a taxa de renovação foi muito baixa, os realistas chegam logo.
O senhor perdeu amigos com suas críticas ao PT, que vêm de longe e algumas foram premonitórias?
OLIVEIRA: Perdi. Perdi muitos amigos. Os mais caros amigos não perdi, Aqueles que eu amo, que tenho prazer de estar com eles, que é a turma da pizza, a “pizza marxista”. Ela se realiza aos domingos, numa pizzaria da rua Oscar Freire. É um conjunto de gente muito boa, simpática. E a gente fofoca sobre tudo. Tenho um conjunto de amigos do petito e com esses não houve o menor abalo. Mas muitos outros já nem falam comigo. E com outros a relação é só cordial, não há mais empatia. Todos eles sabem que estou de olho neles.
Ainda tem algum contato com Fernando Henrique?
OLIVEIRA: Nenhum. Cortei relações na primeira eleição. Detesto palácio.
E com Lula?
OLIVEIRA: Nenhum. Na primeira eleição tive. Num comitê chamado de intelectuais que se reunia e cOnversava com deputados, candidatos a ministro. Lula sabia que daí vinha uma oposição à
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