Entrevista:O Estado inteligente
- Índice atual:www.indicedeartigosetc.blogspot.com.br/
- INDICE ANTERIOR a Setembro 28, 2008
terça-feira, dezembro 13, 2011
Responde aí, Pimentel!-Ricardo Noblat
domingo, agosto 21, 2011
O herói e o antagonista-Ruy Fabiano
blog Noblat
5/2/10 atualissimo!
A política, como a literatura, serve-se de fórmulas e esquemas para revestir de encanto e carisma seus personagens. Tão importante quanto o herói, ensina Joseph Campbell, é o antagonista, o anti-herói. Não há como conceber um sem o outro, e o herói será tão mais fascinante quanto mais cruel for o antagonista.
O antagonista fabricado pelo PT para gerar o herói Lula chama-se Fernando Henrique Cardoso. Lula é o operário que, galgando as adversidades impostas por uma sociedade injusta e preconceituosa, triunfou. Já FHC, nascido em berço esplêndido, não só desdenharia dessas dificuldades, mas se empenharia em agravá-las.
Nasce desse esquema reducionista a idéia do “eles” (as elites) e “nós” (o povão), emblema dos discursos de Lula. Aplicado à história do Brasil, dá curso à versão do “nunca antes neste país”, que precede o anúncio de todas as realizações do governo Lula.
O Brasil popular e justo, dentro desse esquematismo, foi fundado em 2002; antes, pertencia às elites, que só o exploraram. Como o vilão perde força ao ser projetado abstratamente numa classe social, é preciso dar-lhe rosto, voz, perfil. FHC encaixou-se no molde, independentemente de sua biografia o desmentir.
Em política, ensinava a velha raposa José Maria Alckimin (não confundi-lo com Geraldo Alckmin, que nem seu parente é), vale a versão, não o fato. A própria frase, cuja autoria é de Gustavo Capanema, acabou atribuída a Alckimin, que com ela entrou para a história, atestando a veracidade de seu enunciado.
Nada disso, porém, resiste a um exame, ainda que superficial. As biografias de FHC e de Lula como homens públicos os colocam lado a lado até o momento em que o primeiro chega ao poder. Fernando Henrique apoiou os movimentos operários do ABC nos anos 80, que deram visibilidade a Lula.
E Lula foi um dos cabos eleitorais de FHC nas eleições para a prefeitura de São Paulo em 1985. Estiveram juntos nas campanhas pela anistia e pelas diretas já. As divergências começaram exatamente na redemocratização, quando o PT adotou a estratégia de isolamento partidário, para “não se contaminar” com os políticos tradicionais, sustentando que não havia diferença entre Tancredo Neves e Maluf, farinhas do mesmo saco, expressões das “elites”.
Era já a construção do mito, embora o maniqueísmo não fosse ainda tão nítido, o que ocorreria exatamente nos governos de FHC. Mas, em 1º de janeiro de 2003, ao receber a faixa presidencial de Fernando Henrique – e isso está devidamente registrado nos inúmeros vídeos feitos na época -, Lula disse emocionado, abraçando seu antecessor: “Fernando, aqui você terá sempre um amigo”.
Durou pouco a emoção. Já no dia seguinte, José Dirceu, todo-poderoso chefe da Casa Civil, fazia menção à “herança maldita” do antecessor. A expressão foi (e ainda é) repetida à exaustão, mesmo sem qualquer fundamentação, quando dificuldades precisam ser explicadas. Os fatos mostram, no entanto, que a herança é benigna, pois garantiu a estabilidade econômica e o êxito da plataforma desenvolvimentista que o governo Lula pôde pôr em cena.
O Fome Zero capitulou à fórmula anterior da Rede de Proteção Social, implementada por Ruth Cardoso – e criticada fortemente por Lula (há vídeos também, disponíveis no Youtube, que o atestam). O Bolsa Família descende dos programas sociais do governo FHC (Bolsa Educação, Vale Gás, Vale Transporte, Vale Alimentação).
Lula reuniu-os sob rótulo único e, graças a uma logística eficaz pré-estabelecida, pôde expandi-los, como certamente continuará a fazê-lo o seu sucessor, seja lá quem for. São conquistas cumulativas – e consolidadas.
Os números triunfais de hoje na economia e a resistência do sistema bancário brasileiro ao terremoto financeiro de 2008 decorrem de medidas adotadas para consolidar o Plano Real (ao qual o PT se opôs), como a Lei de Responsabilidade Fiscal (que em maio completa 10 anos) e o Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional), igualmente combatidos por Lula e PT.
Lula mostra imenso talento na sustentação do mito. Talento raro, que o projeta como um dos mais populares governantes da história. Critica as privatizações, mas capitaliza os seus resultados econômicos e sociais, como se não houvesse conexão entre ambos. Condena o “neoliberalismo”, mas o mantém a pleno vapor, sob o comando de um ex-tucano, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que Lula queria como vice de Dilma.
O desafio presente, mais complexo, é encaixar José Serra no figurino de anti-herói. Também ele é um emergente, de origem modesta. Também ele foi um perseguido político. Nada disso, porém, o impediu de tornar-se um economista renomado, experimentado no exercício de numerosos cargos técnicos e eletivos.
Daí a opção por uma campanha eleitoral plebiscitária, que mantenha em cena o vilão FHC em contraponto ao herói Lula. É uma fórmula que já deu frutos e Lula está certo de que continuará a dá-los. O problema é que o herói (Lula) não se parece nem um pouco com Dilma, nem o vilão (FHC) com Serra.
Ruy Fabiano é jornalista
Receita de ex-presidente Ruy Fabiano
Quando na Presidência, Lula, reiteradas vezes, queixou-se do que considerava protagonismo excessivo de FHC na política. Segundo ele, um ex-presidente deveria “ficar calado” e só falar quando solicitado. Deveria ser uma espécie de conselheiro da República, acima dos partidos, pronto a colaborar com quem estivesse no cargo.
As intervenções de FHC, diga-se, limitavam-se (e limitam-se) à publicação de artigos e eventuais entrevistas, a maioria em resposta a provocações do próprio Lula, que prometia:
“Quando deixar a Presidência, vou ensinar como se deve comportar um ex-presidente. Vou vestir um calção e tomar umas cervejas com os amigos em São Bernardo”.
Pelo andar da carruagem, ou Lula ainda não se percebeu um ex-presidente, pois não cumpre nada do que recomendava, ou sua receita só vale para os outros. Continua sendo o protagonista-mor da política brasileira, embora ex-presidente.
Além de ter indicado os mais importantes ministros de Dilma – quatro dos quais já demitidos, três por corrupção -, continua dando palpites em todos os temas e ensinando publicamente como deve agir a presidente que ele mesmo inventou.
Acha, por exemplo, que ela não deve prosseguir na faxina ministerial para não fustigar a base parlamentar, o que a expõe (a base) à pecha de corrupta in totum.
Ao inventar Dilma, Lula desafiou um paradigma da política brasileira: a síndrome dos padrinhos. Consiste na ruptura de relações por parte dos apadrinhados.
Sarney conhece bem o problema. Rompeu com seu padrinho, Vitorino Freire, ainda nos anos 60, e viu-se na mesma situação diante de numerosos afilhados que posteriormente lançou na política, inclusive o mais recente, Jackson Lago, cujo mandato cassou no TSE, transferindo-o à filha, Roseana, que governou sem ter sido eleita.
Em síntese, a síndrome funciona assim: incomodado com a tutela, o apadrinhado sente-se limitado em seus poderes e busca o rompimento. Dilma, porém, não tem autonomia política para fazê-lo.
Em suas primeiras movimentações, pode ter dado sinais de que o faria, dadas as sucessivas demissões ministeriais, que atingiram ministros indicados por Lula. Mas não foi assim.
A faxina deu-se (dá-se) à sua revelia, sob pressão de denúncias da mídia ou de atos voluntários (e claramente indesejados) da própria Polícia Federal.
A investida no Ministério do Turismo, por exemplo, não foi precedida por nenhuma notícia da imprensa. Ela apenas a acompanhou, surpresa.
Até então, o que se sabia daquele Ministério restringia-se às incursões ginecológicas de seu titular, sob os auspícios da verba de representação da Câmara dos Deputados, um escândalo que precedeu (e não impediu) sua posse.
Dilma vive o dilema entre seguir Lula, interrompendo a faxina, ou atender a opinião pública, que aplaude as demissões. Até aqui, tem preservado suas relações com Lula, o que, se não lhe garante a simpatia e confiança das bases, ao menos lhe cria a perspectiva de recompô-las. Neste momento, é o que mais lhe convém.
Lula, por sua vez, vê na crise uma oportunidade de protagonismo, que aumenta seu prestígio junto às bases, que anseiam pelo aprofundamento de sua influência.
Desde que as demissões começaram, um surto de nostalgia lulista perpassa a maioria governista no Congresso.
Já se fala em 2014, o que é uma piada, já que não se sabe o que ocorrerá nas eleições do ano que vem, prévia decisiva para qualquer prospecção.
Lula finge se incomodar com o tema, mas não se furta de sobre ele discorrer. E o que diz? Esta semana, declarou: “Quem decide se vou ser candidato sou eu em primeiro lugar e o PT em segundo lugar”.
Quanto a isso, nada mudou: o comando é dele - e o partido que trate de a ele se ajustar.
Dilma tem apenas oito meses de governo e já vê sua sucessão sendo discutida pelos próprios aliados. Nessa discussão, figura como hipótese secundária e condicional: “Se ela estiver bem até lá”, diz seu ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, “tudo bem”.
E se não estiver? A condicionante já embute a resposta e a ideia de que, neste momento, não está.
Noves fora tudo isso, uma conclusão: o governo Dilma ainda não começou. Começará?
sexta-feira, setembro 24, 2010
Liberdade até para os estúpidos-Ronald de Carvalho
É possível que algumas vezes, do alto da gávea, se possa bradar um “terra à vista” sem que haja terra ou se a vista estiver embaçada. Entretanto, com certeza há gaivotas no céu.
Em 40 anos de profissão, já cometi muitos erros e vi muitas imprecisões serem cometidas por jornalistas da minha geração. Apesar disso, jamais se cometeu uma infâmia. A imprensa pode ser imprecisa, mas jamais, cega, surda ou idiota. Quando comete um erro, corra, porque atrás da meia verdade dorme a verdade inteira.
O jornalismo é um vigilante de seu tempo. Cabe a ele escarafunchar o ilícito para que a Polícia, o Ministério Público e a Justiça cheguem à verdade da transgressão. Não exijam que uma reportagem seja perfeita. Ela foi feita para cometer erros.
Aos poderes públicos, pertence a função de corretor de ortografia da verdade. Todos os grandes escândalos comprovados nos últimos tempos, quando denunciados, continham erros que quase desmereciam a denúncia.
Entretanto, a partir da imprecisão, a Justiça lavou a roupa e encontrou as nódoas que envergonhavam a sociedade. Assim foi com Collor: a cascata da Casa da Dinda era uma cascatinha de jardim e, portanto, a capa da revista era cascata. Desse erro chegou-se à quadrilha de extorsão.
Da mesma forma foram as denúncias de Carlos Lacerda contra o bando liderado por Getúlio. O fato inicial não era verdade, mas chegou-se a Gregório Fortunato e a história mudou de rumo.
Aparentemente, os aloprados de São Paulo que pretendiam comprar um dossiê que incriminava seus adversários, era uma malvada invenção da imprensa. Entretanto, uma foto retratando um morrote de dinheiro ilustrou a primeira página dos jornais e jogou uma eleição presidencial para o segundo turno.
Assim é a imprensa: se nutre do erro, para cevar a verdade. Aos tiranos ocorre o pavor à liberdade de errar para que, pelo silêncio, manipulem a verdade. Nesta penúltima semana de setembro, a revista Veja publica um artigo do sociólogo Demétrio Magnoli que é aula a quem pretende exercer, eleger, entender ou criticar o poder.
O título A Liberdade Enriquece mostra a conservadores, revolucionários, mentes lúcidas ou idiotas em particular que a liberdade de expressão transita por qualquer regime que realmente procure a justiça das sociedades.
Rosa de Luxemburgo, a Passionária polonesa que tanto inspirou as esquerdas do século vinte, é citada para reproduzir um mantra que define a liberdade. ” Liberdade somente para os partidários do governo não é liberdade. Liberdade é sempre a liberdade daquele que pensa de modo diferente”.
Como se não bastasse tamanho soco que nos faz acordar para a responsabilidade social, o artigo nos premia com a pérola de uma frase, que se bem pensada, nos leva à emoção: “Liberdade não é um artigo de luxo, um bem etéreo, desconectado da economia. Liberdade funciona, pois a criatividade é filha da crítica”.
Enquanto isso, nos porões da estupidez e na catacumba da inteligência há quem continue a afirmar que há excesso de liberdade de expressão no Brasil e que aqueles que estão no poder são a opinião pública.
Leiam, estudem, pois ainda há tempo.
A liberdade também foi feita para os estúpidos.
segunda-feira, setembro 06, 2010
A banda podre-Mary Zayddan
do blog Noblat
Quando um presidente da República trata a quebra de sigilo fiscal do adversário como “futrica”, e sua candidata, líder absoluta nas pesquisas eleitorais, define esse crime como um simples “malfeito”, algo vai mal, muitíssimo mal. Mas sempre foi assim: quanto maior é o escândalo, mais o maestro e seu coro vigoroso tentam esconder os podres da banda. E como ela há anos reina sem concorrência, continua a agradar a maior parte dos convivas.
Ensaiados às pressas para uma contenda que não se imaginava vir à tona agora, os tocadores de bumbo, surdo e prato atravessaram brabo na melodia. O presidente da Receita, Otacílio Cartaxo, um dia disse uma coisa – “não há indícios de motivação política na quebra de sigilo” - , noutro fez outra, sempre sendo desmentido pelos fatos poucas horas depois.
A Receita desentoou de novo e quase implodiu a fanfarra quando garantiu provas de que fora Verônica Serra, filha do candidato do PSDB José Serra, quem pedira seus dados fiscais em uma agência de Santo André. Algo que um maestro experimentado como Lula sempre soube que não cabia nem em cantiga de ninar.
Para fugir da conotação eleitoral do enredo de horror instalado na Receita, o ministro da Fazenda Guido Mantega chegou a admitir que a então respeitada instituição pela qual deveria zelar é uma espécie de casa de mãe Joana, onde o número de quebras de sigilo é muito maior do que o dos políticos tucanos arrombados. Em qualquer país sério isso seria motivo de sobra para entupir a tuba.
Mas os ensurdecedores acordes desconexos não foram suficientes para inibir os animadores da banda. Ocupando todos os espaços possíveis, não faltaram trompas petistas para reverberar a falseta de que o próprio Serra teria armado o golpe contra a sua filha para obter ganhos eleitorais. Algo que só quem está acostumado com os labirintos dos esgotos poderia elucubrar.
Do outro lado, a trupe de José Serra continua sem achar o tom. Ora bate, ora assopra. Chega a produzir letra e música para o adversário, fornecendo-lhe todas as armas, como o fez ao entrar na Justiça Eleitoral para impugnar a candidatura de Dilma.
Hora e lugar errados.
Nada como uma sentença do TSE para embasar o discurso de que as vítimas são os algozes e que o PSDB queria era ganhar no tapetão. Melhor teria sido recorrer a outras esferas da Justiça, buscando não os trunfos eleitorais de que tanto precisa, mas o Estado de Direito. Cedo ou tarde o país aplaudiria.
Mas se Serra peca, o pecado capital vem do presidente Lula, que sempre se supera. Entoa a cantiga que quer. E nem se importa se desafina. Como general-mor da banda, faz o que o seu tino de poder manda. A seu bel prazer dispõe os melofones, fliscornes e pistões. E eles fazem tanto barulho que parecem ter êxito em esconder a desfaçatez de Lula ao admitir que soubera no início do ano - e dito pelo então governador de São Paulo - da hipótese de violação dos dados fiscais de Verônica. Nada fez, e ainda joga a culpa em Serra. “Ele não me alertou, ele se queixou”. E sua candidata Dilma Rousseff, é claro, segue a mesma partitura.
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa
sábado, agosto 21, 2010
Democracia e populismo por Ruy Fabiano
O populismo, historicamente, é fator de despolitização de uma sociedade, qualquer sociedade. Investe no culto à personalidade, colocando-a acima dos temas e desafios – e mesmo dos padrões morais mais elementares -, alçando-a à categoria de semideus.
Ainda que possa ocorrer em regimes formalmente democráticos, o populismo tem viés autoritário, uma vez que se expressa por meio de um líder que se sobrepõe às instituições e fala diretamente ao povo. A Venezuela se apresenta como um regime democrático – e assim o diz o texto de sua Constituição – mas, como o demonstram os fatos objetivos, não o é.
Frequentemente, as instituições são atropeladas pela fala do líder, Hugo Chávez, que se posiciona como “pai” da população. Nessa condição, censura a imprensa, prende adversários, silencia a oposição. Getúlio Vargas era “o pai dos pobres”. Idem, Juan Domingo Perón. Idem Mussolini, Hitler e tantos mais.
Eram pais da população e as críticas a eles dirigidas vistas como afronta à família nacional.
Outro ponto característico: o populismo divide o país. É hostil à sua parcela mais politizada, demonizada no discurso oficial como opressora da porção despolitizada. É fácil entender: quanto mais politizada população, mais infensa ao populismo.
O PT, ao se constituir, nos anos 80 do século passado, era crítico ferrenho do populismo. Lula recusou diversas vezes uma maior aproximação com Brizola por considerá-lo populista, herdeiro do varguismo, incompatível com o sindicalismo moderno que então expressava. Esse, aliás, foi um fator que o projetou como a grande novidade política do país.
No poder, porém, não resistiu à sedução da popularidade. Investiu na estratégia populista e divisionista e chega agora ao paroxismo do processo: apresenta-se como o “pai” do povo, a quem transmitirá como legado “uma mãe”, sua candidata à Presidência, Dilma Roussef. A eficácia eleitoral mede-se nas pesquisas, mas os prejuízos políticos são imensuráveis.
Despolitiza a campanha, reduzindo-a a mera disputa por fragmentos do prestígio do presidente, transformado em orixá pela máquina de propaganda oficial. Os temas essenciais são postos de lado ou vagamente tangenciados. As alianças estaduais são relativizadas e os paradigmas programáticos simplesmente inexistem. O resultado é a desorganização do quadro político-partidário. Desorganização da política, caminho mais fácil para o autoritarismo.
Diante de uma plateia de trabalhadores rurais, a candidata do PT põe o boné do MST e condena a criminalização dos movimentos sociais. Já quando a plateia é de produtores rurais, diz o contrário: condena as invasões de terras e diz que não permitirá que a lei seja descumprida. Jura fidelidade à liberdade de imprensa e rubrica um programa de governo que institui o “controle social da mídia” e institui instâncias de punição.
As incongruências não precisam ser explicadas. Basta dizer que tem o apoio de Lula e que Lula tem o apoio de mais de 70% da população. A política torna-se instância estatística, sem compromissos com outros valores. É um filme antigo, que já se supunha fora de cartaz, mas cujo final não costuma ser feliz.
Ruy Fabiano é jornalista
sábado, agosto 07, 2010
Ruy Fabiano - A moralidade e o direito
A Ficha Limpa, não obstante o clamor público que atende, viola dois princípios universais do direito, cláusulas pétreas da Constituição Federal brasileira: o inciso LVI, do artigo 5º (“ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”); e o inciso XL, do mesmo artigo (“a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”).
A Ficha Limpa subtrai direitos de quem ainda não recebeu sentença final – e pode ter as condenações iniciais revertidas - e retroage para punir. Mesmo sendo juridicamente anômala, tornou-se fator saneador das eleições, mas pode trazer complicações futuras.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, teme que um dos efeitos colaterais seja a impugnação de diversos eleitos após a posse, gerando crises políticas em série. Isso porque a impugnação de candidaturas, com base naquela lei, tem ensejado a apresentação de liminares que garantem o registro do candidato para julgamento do mérito a posteriori.
Se eleito, o réu, julgado no mérito, poderá ter seu mandato cassado. É o caso, por exemplo, do ex-governador do DF, Joaquim Roriz, impugnado esta semana pelo Tribunal Regional Eleitoral do DF, por ter renunciado ao Senado em 2007 para fugir à cassação por quebra de decoro. Roriz vai recorrer ao STF e pode obter liminar.
Outros já a obtiveram. Esse, porém, é apenas um aspecto dos problemas colaterais que a lei causa.
Há outros, mais graves. O ministro Eros Grau, que recém se aposentou do STF, falou deles, e causou grande controvérsia entre políticos e juristas. Disse que a lei da Ficha Limpa, pelas transgressões constitucionais já mencionadas, põe em risco nada menos que o próprio Estado democrático de Direito.
As boas intenções, diz ele, não atenuam o precedente que cria, de violação da Constituição. Se o problema está no Judiciário, na sua sobrecarga e nas leis processuais, não se pode simplesmente revogar o devido processo legal – e com ele o direito de defesa – em nome de uma boa causa. No futuro, o mesmo expediente poderá ser acionado em nome de uma má causa.
O que a Ficha Limpa pretende ninguém discorda: moralizar as eleições. Mas a moralidade pública, diz Eros, não é um dado subjetivo, “é a moralidade segundo os padrões e limites do Estado de Direito”. E explica:
“Essa é uma conquista da humanidade. Julgar à margem da Constituição e da legalidade é inadmissível. Qual moralidade? A sua ou a minha? Há muitas moralidades. Se cada um pretender afirmar a sua, é bom sairmos por aí, cada qual com seu porrete. Vamos nos linchar uns aos outros. Para impedir isso, existe o direito. Sem a segurança instalada pelo direito, será a desordem. A moralidade tem como um de seus pressupostos, no Estado de Direito, a presunção de não culpabilidade”.
O problema é que, depois de dizer o óbvio, Eros passou a ser chamado injustamente de defensor dos fichas sujas, quando, ao contrário, constatou e lamentou a precariedade de um sistema judicial e político que permitiu que proliferassem – e que pretende agora bani-los sacrificando o direito e a própria Constituição.
Vitor Hugo Soares - Um debate sueco
O que ele teria visto? No cenário do embate conduzido pelo jornalista-âncora Ricardo Boechat, aparecem Josá Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e Marina Silva (PV). Duas mulheres e dois homens da política brasileira, que os "senhores ouvintes e telespectadores" se acostumaram a identificar ao longo de décadas pelo estilo de cada um, mais para o "quente" que para o "frio", para usar a linguagem padrão dos comunicólogos dos anos 60/70, substituídos pelos marqueteiros e seus jargões atuais.
Os quatro candidatos são todos passageiros do trem da chamada esquerda brasileira, cujos destinos, de uma forma ou de outra, se cruzaram antes nos célebres e agitados anos de luta contra a ditadura (que não nos ouçam os chatos da objetividade jornalística e os politicamente corretos de agora).
É visível que todos eles dissimulam o quanto podem na implacável imagem da televisão - uns mais outros menos, evidentemente. Não fica claro o motivo, mas é como se cada um tentasse esconder a carapaça do passado de "jovem rebelde" , para vender a imagem "clean" de "bom moço", meio arrependido de traquinagens idas e vividas, na hora de disputar o voto sabidamente conservador da maioria dos eleitores do País, principalmente nas regiões onde as pesquisas indicam que o jogo anda mais apertado.
Serra, ex-agitador militante de Ação Popular (AP) e ex-presidente da UNE, ex-guerreiro das passeatas que foi parar no exílio chileno, é a gentileza em pessoa na tela. Esbanja elegância e "fair-play" de zagueiro do Fluminense, o "pó de arroz" carioca, como se recepcionasse em sua casa os demais convidados do debate. O candidato paulista não ri (como registra sua preocupada filha em um dos intervalos) mas também não se exaspera em nenhum momento.
Nem mesmo quando provocado mais diretamente por Plínio - o em geral enfezado comunista padrão, mas que se revela na TV o mais lépido e bem humorado candidato á sucessão de Lula. Diante da insistência do tucano em trazer para o cenário o tema da saúde, o candidato do PSOL pontua: "Agora eu entendo porque Serra é chamado de hipocondríaco".
Diante da estocada de Plínio em seu adversário mais direto nas pesquisas, Dilma quase se engasga ao tentar disfarçar o contentamento com um gole de água no copo colocado à sua frente. Imagem marcante que a câmera ágil e indiscreta registra em fração de segundos. Mas a ex-militante esquerdista da guerrilha urbana, temida também por suas tiradas explosivas em mais recentes reuniões do governo Lula (que o diga o ex-ministro da Defesa Waldir Pires), logo se recompõe, sem perder a elegância e sem molhar o alva roupa que ela ostenta no debate, em substituição ao tradicional terninho vermelho que costuma envergar nos encontros com companheiros trabalhadores metalúrgicos no ABC e em outros palanques e reuniões de campanha. "Vim em nome da paz", explica a petista aos que se surpreendem.
Marina Silva, já se sabe, é normalmente um doce de pessoa. No debate da Band, virou puro mel de mandassaia. A ex-militante petista, valente jaguatirica acreana, braço direito de Chico Mendes na preservação da mata amazônica e defesa da exploração dos recursos sustentáveis da floresta, esteve mais "ligth" ainda.
A candidata verde não mostrou as garras de felina nem quando Plínio também lançou um bote direto contra ela, acusada de ter virado uma "capitalista da luta ambiental" cujas posições não guardam mais "nenhuma diferença na comparação com o pensamento conciliador de Serra e Dilma" sobre política, economia e até a questão social. A jaguatirica responde com um riso discreto, compreensivo e quase filial ao atacante.
Suécia é pouco! Isso no tempo em que o país nórdico era mostrado nas escolas brasileiras como modelo mundial de boa educação, "terra de gente que não xinga, não fala alto, nem joga papel na rua". Talvez esteja aí a principal razão da baixíssima audiência do primeiro debate da campanha presidencial na TV Band, que variou entre 3 e 6 ponto percentuais (no pico), segundo revelado pela própria emissora paulista.
Números pífios (talvez seja esta a mais perfeita definição), principalmente quando o índice é comparado com o banho da concorrente Rede Globo, que bateu nos 44 pontos de pico ao transmitir o jogo Internacional x São Paulo pela Libertadores da América, no estádio do Morumbi. Bem pertinho da arena política.
No estádio de futebol, sim, se viu um jogo de verdade. Vontade de ganhar dos dois lados: garra, raça, valentia, jogadas de efeito e chutes para o mato quando necessário, no jogo de campeonato. Gente sem medo de correr riscos dentro de campo, sem temor dos urros e apupos vindos da galera nas arquibancadas. No fim um gaúcho, o Inter, vencedor no campo do adversário.
Um elixir contra o tédio, que não deixou ninguém desligar o aparelho, e muito menos dormir diante da TV antes do árbitro apitar o final da partida. Quanta diferença do debate presidêncial da quinta-feira. Se o marciano de Nelson Rodrigues mudou o canal, como muita gente de carne e osso, descobriu finalmente que conduzira sua nave espacial na rota certa.
"Estou mesmo no Brasil!", deve ter dito o E.T.
Previ é fábrica de dossiês do PT, diz ex-diretor
Previ é fábrica de dossiês do PT, diz ex-diretor
Folha.com
Ex-diretor e ex-assessor da presidência da Previ (fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil), Gerardo Xavier Santiago diz que o fundo funciona como "fábrica de dossiês" contra a oposição do governo Lula e máquina de arrecadação para o PT.
Gerardo foi gerente-executivo da Previ entre 2003 e 2007, sendo ligado diretamente ao ex-presidente do fundo Sérgio Rosa, que deixou o cargo em junho de 2010. Gerardo saiu da Previ após brigar com Rosa em 2007, quando deixou o PT.
As declarações sobre a espionagem foram feitas à revista "Veja" desta semana. À revista ele afirma que o fundo é "um bunker de um grupo do PT" e que "a Previ está a serviço de um determinado grupo muito poderoso, comandado por Ricardo Berzoini, Sérgio Rosa, Luiz Gushiken e João Vaccari Neto".
Segundo revelou a Folha neste mês, um dossiê sobre a filha do ministro Guido Mantega foi feito por essa ala do PT, ligada ao sindicalismo bancário. O Planalto atribui o dossiê ao grupo de Rosa, que perdeu espaço na campanha de Dilma Rousseff.
"Estranharia se na minha época tivessem me pedido coisa semelhante contra o Mantega. Uma coisa é fazer com o adversário. É uma involução do PT por causa da disputa interna", afirmou Gerardo à Folha. Ele também disse que concedeu a entrevista à "Veja" há dois anos e confirmou as acusações à revista nesta semana, antes da publicação.
O ex-diretor, que também já foi do Sindicato dos Bancários do Rio, disse à Folha que, além de montar dossiês, a Previ serviu a interesses do partido para aumentar a arrecadação. Segundo ele, a Previ montou uma rede de conselheiros ligados ao PT em empresas nas quais o fundo tem participação. A intenção era influenciar as doações das companhias para beneficiar o partido.
Santiago diz que o primeiro dossiê produzido por ele na Previ é de 2002, no governo FHC. O material deveria, diz ele, comprometer a gestão tucana e provar a ingerência do governo na Previ.
"Dossiês com conteúdo ofensivo, para atingir e desmoralizar adversários políticos, só no governo Lula mesmo, na gestão do Sérgio Rosa", diz o ex-diretor à "Veja".
Santiago lista os oposicionistas que teriam sido investigados com base em dados sigilosos, cujo acesso teria sido ordenado por Rosa: o senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), já morto, o governador José Serra (PSDB) e o então presidente do DEM Jorge Bornhausen.
O ex-diretor diz na entrevista que reuniu denúncias sobre eles em 2005, na CPI dos Correios, e que Rosa solicitou "informações sobre investimentos problemáticos da Previ que estivessem ligados a políticos da oposição".
O PT não se manifestou. A Previ disse que "a atual cúpula desconhece essa prática e está muito tranquila em relação a suas recentes práticas de governança". Rosa não comentou o assunto.
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Ricardo Noblat O apagão de Cabral
"Não se pode brincar com o solo. Não se pode ter construção perto de montanha e de espelho d"água" - Sérgio Cabral
E aí, Lindinho? Nem sequer de leve vai censurar o governador Sérgio Cabral (PMDB) por ter sumido nas primeiras 24 horas após o deslizamento de terras em Angra dos Reis? Ali morreram 44 pessoas. Lindinho é como chamam Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu, ex-aspirante a candidato do PT ao governo. E, até outro dia, crítico de Cabral.
Os dois chegaram a um acordo. Sob pressão de Lula, Cabral topou apoiar a candidatura de Lindinho ao Senado – e Lindinho topou transferir para daqui a quatro anos a pretensão de ser candidato ao governo. Benedita da Silva (PT), ex-governadora do Rio e também candidata ao Senado, detestou o acordo.
E aí, Bené? Como Lindinho, nada dirá a respeito do apagão de Cabral? Bobagem! Bené está impedida de dizer qualquer coisa que deixe Cabral aborrecido. Afinal, ela é Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos do governo dele. Reza para que não vingue o apoio de Cabral a Lindinho.
Tudo bem, mas Alessandro Molon, deputado estadual do PT, poderia perguntar a Cabral por que ele preferiu despachar para Angra seu vice Luiz Fernando Pezão, só aparecendo por lá um dia depois. No dia da tragédia, nem Lula conseguiu falar com Cabral. Sem o apoio de Cabral, Molon perdeu a eleição de 2008 para prefeito do Rio.
Molon calou-se. De sua parte, Cabral repeliu, indignado, a suspeita de que voara para o exterior. “Estão querendo plantar que eu estava fora do país? Eu estava em Mangaratiba”, jurou. Melhor que não estivesse. Mangaratiba fica a 57 quilômetros de Angra, que, por sua vez, fica a 157 quilômetros da cidade do Rio, de onde saiu Pezão.
Em julho de 2007, por causa da morte de 26 peregrinos poloneses em um acidente de ônibus entre Cannes e Grenoble, três ministros da França voaram para o local, distante 600 quilômetros de Paris. François Fillon, o primeiro-ministro, também voou, assim como Sarkozy, o presidente da República. E Lech Kaczynski, o presidente da Polônia.
Peregrino polonês vale mais do que ilhéu ou turista que visita Angra? Por que os políticos brasileiros são pouco solidários com a população? Sabem adulá-la atrás de votos. Na hora da dor, guardam distância. Lula, em julho de 2007, guardou distância de São Paulo onde se espatifara um Airbus da TAM, matando 199 pessoas.
O PT foi para cima do governador José Serra (PSDB) e do prefeito Gilberto Kassab (DEM) cobrando providências contra o recente alagamento de parte da cidade de São Paulo. O PT finge que o governo Cabral nada tem a ver com os estragos provocados pelas chuvas no Rio. Morreram 64 pessoas entre quarta-feira e sábado.
Os cariocas assistem conformados à reprise de um filme triste e antigo. No fim do filme, são eles que morrem varridos pelas águas. O governo de plantão joga a culpa nos governos passados. E de tragédia em tragédia, vai-se levando. Cabral anunciou que transformará em parque ambiental as áreas de Angra afetadas pelos deslizamentos.
“A ideia é identificar as casas que devem ser removidas. Orçamento não é problema. Vamos listar as famílias para depois indenizá-las”, prometeu. Ora, o decreto 41.921, de junho último, assinado por Cabral, afrouxou as regras de construção em áreas de preservação ambiental de Angra e de outras ilhas.
Uma petição com mais de cinco mil assinaturas exige a revogação do decreto, rejeitado pelas principais entidades ambientalistas do Estado, a representação do Ibama em Angra, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e... Sim, e Molon. O Ministério Público Federal considera o decreto inconstitucional porque não há lei que o ampare.
Molon apresentou na Assembleia um projeto de Decreto Legislativo que susta os efeitos de alguns artigos do decreto de Cabral. Se está de fato empenhado em evitar que ocorram novos desastres como o da Ilha Grande na madrugada da sexta-feira, de saída Cabral poderia revogar seu decreto infeliz. Mas isso só não basta, é claro.
sábado, novembro 21, 2009
Ricardo Noblat - Estatais põem anúncio de 2 páginas no NYT para exaltar economia do Brasil
deu em o globo
Bem na foto, mesmo paga
De Marília Martins:
Resultados da economia brasileira são destacados no exterior, mas o governo tem ajudado não só com medidas como também com propaganda. O jornal "New York Times" publicou ontem, em sua seção de negócios, um anúncio de duas páginas inteiras com material promocional que parecia simular uma reportagem sobre a economia brasileira. O título: "Brazil rising: an emerging economic super-power stakes its claim" ("Brasil cresce: uma potência econômica emergente reivindica a sua parte").
O texto do anúncio, patrocinado por grandes estatais brasileiras como Petrobras e Banco do Brasil, diz que a economia brasileira está vivendo um momento de dinamismo com a ofertas de oportunidades vantajosas para investidores americanos.
O texto, de propaganda e pago, não tem uma linha sequer sobre o apagão de terça-feira à noite, que atingiu 18 estados e mais de 60 milhões de brasileiros. É um material promocional, que apenas ressalta resultados positivos da economia pós-crise global.
"Nunca o momento foi tão propício para que empresas americanas invistam no Brasil", diz o texto do anúncio, redigido por Robert McGarney, um escritor free lancer que oferece seus serviços de redator pela internet e que já assinou mais de 1.500 textos, muitos deles em material publicitário que simula reportagens jornalísticas.
quinta-feira, novembro 19, 2009
Está nas mãos de Lula salvar a face do STF-Ricardo Noblat
Está nas mãos de Lula salvar a face do STF
Os defensores da permanência no Brasil do ex-ativista político italiano Cesare Battisti comemoraram a decisão tomada ontem pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão também foi comemorada pelo governo italiano que pediu a extradição de Battisti sob o argumento de que ele cometeu crimes comuns em seu país - e não políticos. Foram três assassinatos.
Um dos dois lados se frustará quando Lula disser o que fará a respeito.
O que sempre ocorreu até hoje em casos de pedidos de extradição?
O pedido chega no Ministério das Relações Exteriores. Dali segue para o Ministério da Justiça. Esse examina a legalidade do pedido. Dá seu parecer e o remete para o STF.
É a mais alta instância da Justiça que decide se o pedido deve ser acatado ou não. Foi sempre assim até agora.
Mais tarde, a decisão do STF, seja ela qual for, é enviada ao presidente da República para que ele a cumpra.
Se o alvo do pedido de extradição foi condenado por algum crime praticado no Brasil, o presidente então decide se ele cumpre a pena antes de ser extraditado ou se vai logo extraditado. O presidente é o juiz do calendário.
Não existe um único caso em que o presidente tenha feito o contrário do que o STF determinou.
O Comitê Nacional para os Refugiados, órgão do Ministério da Justiça, foi favorável à extradição de Battisti.
Tarso Genro, ministro da Justiça, preferiu conceder o refúgio. Ouviu Lula antes. Mas não precisava tê-lo ouvido.
O governo italiano apelou da decisão de Genro ao STF. E por 5 votos contra 4, o STF considerou o refúgio ilegal à luz da lei e do tratado de extradição firmado entre o Brasil e a Itália.
A discussão deveria ter terminado por aí.
Mas, não. A defesa de Battisti, espertamente, levantou a tese de que cabe ao presidente da República a palavra final. E pela primeira vez na História essa tese foi examinada pelo STF. Por 5 votos contra 4, o STF reconheceu que a palava final cabe ao presidente, sim.
Estabeleceu-se uma situação no mínimo bizarra.
O STF declara ilegal o refúgio de Battisti. Mas o presidente da República poderia mesmo assim manter o refúgio declarado ilegal pelo STF.
A ministra Ellen Gracie tem razão ao dizer que o STF criou um constrangimento político para Lula.
O que acontecerá se Lula considerar legal o refúgio avaliado como ilegal pelo STF?
O governo italiano entrará com um mandado de segurança junto ao STF pedindo que seja respeitada sua decisão favorável à extradição.
E o STF, o que fará? Recuará da decisão? Dirá: bem, para nós o refúgio é ilegal, mas para o presidente, não.
Que artigo da Constituição sustenta com clareza que em certos casos - ou que apenas em um caso - o presidente pode fazer o contrário do que decidiu o STF?
Está nas mãos de Lula salvar a face do STF. Não é curioso ou no mínimo irônico?
segunda-feira, novembro 16, 2009
Apagou geral por Ricardo Noblat
Apagão de bom senso: foi um micro incidente, segundo o ministro Tarso Genro, da Justiça. Não, não foi. Em extensão, foi o maior apagão da história do país. Afetou 18 estados e 88 milhões de pessoas. Sobrou para sete milhões de paraguaios. Durou cinco horas e 47 minutos. Pela primeira vez, pararam todas as turbinas da hidrelétrica de Itaipu.
Apagão de gestão: não é aceitável que um ou três raios no interior de São Paulo desliguem Itaipu e apaguem o país. Falhou o sistema de “ilhamento” capaz de confinar o problema a uma só região.
Apagão de responsabilidade: no instante em que se fez o breu, Lula sumiu. Dilma Rousseff, a ex-ministra de Minas e Energia que desenhou o novo modelo do setor, também sumiu. Edison Lobão, o atual ministro, foi escalado para ser "a cara do apagão".
Apagão de comunicação: o falatório desconexo das autoridades e dos técnicos adensou a escuridão. As explicações desencontradas comprovaram que o governo não tinha a mínima idéia sobre o que dizer à população no primeiro momento – nem no segundo. Foi então que Lula, assustado com o estrago que o episódio pode causar na imagem do governo, concluiu que o melhor seria todo mundo se calar. Mas antes... Bem, antes...
Apagão de compostura: quando parecia insustentável o sumiço da mãe de tudo o que o governo faz de bom, Dilma finalmente falou. Antes não o tivesse feito. Olha aqui, minha filha: em vez de explicações, Dilma foi grosseira com os jornalistas. Só faltou jogar nas costas da mídia a culpa pelo apagão. Lembrou o destemperado Ciro Gomes (PSB-CE) de 2002, que conseguiu perder a eleição presidencial para ele mesmo.
Apagão de respeito ao cidadão: em toda a algaravia produzida pelo governo havia apenas uma preocupação comum: bater forte na tecla de que o apagão da dupla Lula/Dilma não era tão grave quanto o apagão de Fernando Henrique Cardoso. A preocupação eleitoral ganhou linguagem marqueteira: FHC teve apagão; Lula/Dilma, somente um blecaute. Como se o escuro do apagão fosse diferente do escuro do blecaute.
Apagão de autoridade: empenhado em tentar esquecer o assunto, o governo atravessou a fronteira que separa o legítimo exercício do mando do deplorável exercício do autoritarismo. Sem mais nem menos, Dilma e Lobão deram o episódio por encerrado, como se fato ele pudesse estar, como se os cidadãos não tivessem o direito de cobrar uma investigação rigorosa sobre as causas do apagão.
Apagão de gerência: um setor técnico e estratégico como o de energia foi loteado entre os dois maiores partidos da base do governo: PT e PMDB. Agentes político-sindicais petistas comandam a área de geração - Itaipu, Petrobras - enquanto agentes das várias etnias do PMDB comandam a área de transmissão e distribuição - Furnas, Br Distribuidora. A Eletrobrás, que está nas duas pontas, é feudo do senador José Sarney (PMDB-AP).
Apagão de regulação: criadas no governo FHC para regular os principais setores estratégicos com base em critérios técnicos e a salvo de ingerências políticas, as agências foram desidratadas de recursos e aparelhadas politicamente. O poder de regulação escapou das mãos dos técnicos e foi devolvido às mãos dos ministros, esses políticos por excelência e, como tal, sujeitos às pressões dos partidos.
Apagão de hierarquia: para evitar guerra interna e sabotagens entre aliados que dividem o comando do setor de energia, Lula deu todo o poder a Dilma para comandar os comandantes. Resultado: ministros e presidentes de grandes estatais têm os cargos e as verbas, mas não têm o poder de fato. Em condições normais, governantes tendem a fazer o jogo de fugir às suas responsabilidades. O governo Lula acentuou tal característica.
É sempre assim: na hora de faturar acertos proliferam seus verdadeiros e falsos pais, mães e avós. Na hora de encarar problemas, some toda a família e a lambança fica órfã. O povo? Ora, fica no escuro.
Comentário sobre o artigo acima: Foi no atual governo que as agencias foram aparelhadas polidicamente e esvasiadas
Como disse Fernando Henrique Cardoso, no artigo, Para onde vamos?, publicado em 1/11/2009:
“Só que cada pequena transgressão, cada desvio vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarzinho, quase sem que se perceba, a se moldar a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.”
segunda-feira, novembro 09, 2009
Ricardo NoblatPor que Serra demora
Nada lucraria com isso. De resto, não há um só tucano emplumado que duvide da disposição de Serra para sair candidato.
À sombra, Serra tem trabalhado duro para pavimentar o caminho que poderá levá-lo a concorrer à presidência da República pela segunda e última vez. Se não concorrer ou for derrotado, dará adeus em definitivo ao sonho cultivado desde que começou a fazer política.
Lula perdeu três eleições consecutivas antes de vencer a primeira em 2002. Se depender dele, tentará um novo mandato em 2014. Estará com 69 anos – e Serra com 72.
A diferença de idade entre eles não é o que permite imaginar Lula eleito para um terceiro mandato e Serra metido em um pijama dentro de casa observando o crescimento da grama no seu jardim.
Lula deixará o cargo em janeiro de 2011 ostentando a privilegiada condição de o presidente mais popular da história do país. Falta ao PT outro nome capaz de disputar com ele a indicação para candidato em 2014. Quem ousaria?
A situação de Serra é bem distinta. Se fugir ao desafio de enfrentar Dilma Rousseff cederá a vaga a Aécio Neves, governador de Minas Gerais.
Mesmo que perca, é razoável que Aécio assegure o direito de concorrer em 2014. Terá apenas 54 anos. Terá ganhado com a derrota para Dilma a exposição nacional que hoje lhe falta. O PSDB não se dará ao luxo de desprezar uma estrela em ascensão. É um partido de poucas estrelas.
De 1989 para cá, Lula disputou todas as eleições presidenciais. Disputará mais uma. Onde se lê Dilma, leia-se Lula. O que Dilma tem até agora em intenções de voto foi o que Lula já lhe transferiu.
A transferência tende a aumentar. O brasileiro está satisfeito com a vida que leva. E reconhece que boa parte da satisfação decorre do desempenho de Lula e do seu governo. Eleitor satisfeito nunca votou para mudar. Nem aqui nem em parte alguma.
Há duas desgraças que Serra diligenciará para varrer do seu caminho – ele ou qualquer outro candidato. A primeira: trombar com Lula sem necessidade. Ou mesmo se for necessário. A não ser em caso extremo.
A segunda: passar a impressão de que uma vez eleito mudará o que o eleitor não quer que mude. Dilma dirá que representa a continuidade de Lula. Serra não poderá dizer isso, mas é tudo o que gostaria que o eleitor achasse dele.
Essa história de candidato “pós-Lula” inventada por Aécio é uma maneira mais refinada de afirmar: manterei tudo que Lula fez e ainda farei melhor. Serra pretende ir por aí.
O PT decidiu encarar a eleição como um confronto entre o Brasil pontilhado de crises de Fernando Henrique e o Brasil ladeira à cima de Lula. Votar em Serra é desejar a volta do Brasil das crises e do desemprego em alta. Votar em Dilma – bem, não vale a pena repetir.
O PSDB se empenhará em transformar a eleição em um confronto entre um candidato com larga experiência política e administrativa e uma candidata que não era nada até outro dia. Que virou candidata por vontade exclusiva de uma única pessoa.
Serra pergunta a seus botões: que vantagem levaria se partisse logo para a briga contra Dilma? É o que interessa a Dilma: polarizar cedo com ele para crescer.
A próxima tende a ser uma eleição curiosa. O PT olhará Serra e enxergará Fernando Henrique com todos os seus eventuais defeitos.
De sua parte, o PSDB olhará Dilma e enxergará o PT dos muitos escândalos, do aparelhamento e do inchaço da máquina do Estado, da cooptação por meio de grana dos movimentos sociais e da cumplicidade com o MST que invade e depreda fazendas.
Foi na eleição de 2002 que estreou Lulinha “paz e amor”. Na de 2010 estreará Serrinha “paz e amor” – pelo menos no que depender dele.
O ex-metalúrgico enfezado estará de volta
segunda-feira, outubro 26, 2009
Ricardo Noblat -Quem se importa?
26.10.2009
COMENTÁRIO

“Que semana infernal essa, não?” – perguntei por telefone a uma amiga que mora no Jardim Botânico, bairro de classe média alta do Rio. “Exagero. Circulei livremente e não ouvi um único tiro”, respondeu.
Do bairro de Vila Isabel, outro amigo me disse: “Fora a queda do helicóptero da polícia não aconteceu nada de extraordinário”. Provoquei: E a morte do cara do Afro Reggae? “Todo dia morre gente”.
Eu estava no Rio quando foi assassinada em 22 de novembro de 2006 a socialite Ana Cristina Giannini Johannpeter.
Ela dirigia sua caminhonete blindada Mercedes-Benz, modelo ML 500, e parou diante do sinal fechado na esquina da Rua General San Martin com Avenida Afrânio de Melo Franco, no Leblon, a cerca de 150 metros da 14ª Delegacia de Polícia. Cristina então baixou o vidro para fumar.
Dois bandidos, que passavam por ali em uma bicicleta, encostaram-se ao carro e um deles apontou para Cristina um revólver calibre 38, ameaçando-a: “Eu não quero o carro. Só as suas coisas. Eu vou atirar!"
Cristina entregou a bolsa, o celular, e ao se preparar para tirar o relógio do pulso, tirou sem querer o pé do freio. Como o carro era hidramático, movimentou-se sozinho. O bandido atirou na cabeça de Cristina.
Na companhia de amigos, fiz uma ronda por bares e restaurantes do Leblon na noite do dia seguinte. O assassinato de Cristina era o assunto na maioria deles.Mas para meu espanto, ouvi repetidas censuras ao comportamento da morta.
Como uma milionária era capaz de dirigir o próprio carro? Como não havia seguranças ao seu lado? Por que baixou o vidro para fumar? Como pôde ser tão descuidada a ponto de tirar o pé do freio?
A sociedade carioca está sedada pela violência que, no período de apenas uma semana, fez 46 mortos, vítimas da guerra entre facções rivais do tráfico e as forças da segurança.
No primeiro quadrimestre deste ano foram mortas 2.237 pessoas no Rio – 9,4% a mais que no primeiro quadrimestre de 2008.
Em agosto último, o número de mortos em confronto com a polícia foi 150% maior do que em agosto do ano passado.
O número de favelas no Rio cresceu de 750, em 2004, para 1.020 neste ano. Cerca de quinhentas são controladas pelo tráfico. A venda de cocaína rende algo como R$ 300 milhões por ano aos bandidos.
Quem sustenta o tráfico é quem tem dinheiro. E quem tem dinheiro mora no asfalto.
A violência é o pedágio que os cariocas pagam aparentemente conformados para que uma parte deles possa continuar se drogando.
O noticiário costuma informar: “A polícia invadiu o morro tal”. Como se os morros fossem territórios independentes da cidade, dotados de governos próprios que mantêm relações econômicas com outros países do continente, a exemplo da Bolívia, Paraguai e Colômbia.
E de certa forma é o que eles são. Nessas áreas de escandalosa exclusão social, a presença do Estado brasileiro é rarefeita ou inexistente.
Compete à Polícia Federal combater o narcotráfico. Quantas vezes este ano ela foi vista escalando morros?
Compete ao governo federal vigiar as fronteiras do país. É ridículo o número de policiais ocupados com a tarefa. Faltam equipamentos e gente para fiscalizar o desembarque de cargas nos portos.
Até agosto, para modernizar sua polícia, o Rio só havia recebido R$ 12 milhões dos quase R$ 100 milhões prometidos pelo governo federal.
Adiantaria ter recebido mais do que isso?
Em 2009, estão previstos investimentos de R$ 421 milhões na segurança pública do Rio. Só foram liquidados R$ 102 milhões até agora – 24,2% do total.
Em três anos de governo Sérgio Cabral, o total de investimentos em segurança está orçado em R$ 804.818,00. De fato, não mais do que 40% dessa grana já foram aplicadas.
Vez por outra, sob o impacto de algum episódio mais brutal, contingentes cada vez menores de cariocas vão às ruas pedir paz.
O poder público responde com invasões temporárias e parciais de morros, a morte de bandidos ou de meros suspeitos, a apreensão de armas e o afastamento de policiais corruptos.
Quando um capitão libera um assassino em troca de uma jaqueta e de um par de tênis é porque a instituição à qual pertence apodreceu.
O problema do Rio não é de paz – é de guerra. Não é de conciliação, mas de enfrentamento.
A situação de insurgência só se agravou com o descaso dos governos e a arraigada cultura local de simpatia ou de tolerância com a malandragem e o banditismo.
O Estado brasileiro carece de um plano consistente, amplo e ambicioso para salvar o Rio. E o que é pior: os cariocas parecem não se importar muito com isso.

sábado, outubro 24, 2009
Ruy Fabiano -O paradoxo chamado Serra
O PSDB convive com um paradoxo: dispõe do candidato favorito à sucessão presidencial – o governador de São Paulo, José Serra -, mas ainda não sabe se será ele mesmo o escolhido para a disputa.
Embora as sucessivas pesquisas atestem que ele supera com folga o seu oponente interno, o governador mineiro Aécio Neves, os aliados deste insistem em promover o embate.
A recente consulta aos parlamentares do DEM, em que a maioria optou pela solução Aécio, reavivou nos aliados tucanos do governador mineiro a esperança de derrotar José Serra.
Sustentam que ele pode agregar mais aliados em outros partidos, embora, até prova em contrário, não agregue mais votos entre os eleitores.
Isso, claro, acentuou a divisão no partido e fez com que Serra se retraísse ainda mais na definição de sua candidatura. Ele tem sido instado a formalizá-la, mas teme fazê-lo sem o consenso da base mineira.
Não quer repetir o fiasco de Alckmin, que, em 2006, se lançou em meio a uma disputa interna (com o próprio Serra) e não foi bem sucedido nos palanques.
O paradoxo de dispor do candidato favorito e contestá-lo internamente gera uma pergunta óbvia a quem está de fora: por que? Se em todas as pesquisas, sem exceção, feitas de um ano para cá, Serra lidera, enquanto Aécio, inversamente, perde para Ciro Gomes e empata com Dilma Roussef, qual a dúvida?
A resposta parece estar no perfil de Serra, tido como inflexível e impermeável ao jogo fisiológico. E é essa perspectiva – a ampla partilha de cargos e interesses - que, historicamente, move alianças no jogo político, sobretudo no plano da sucessão presidencial.
Serra é visto como independente demais. É respeitado, mas não é estimado. Embora seja esta a receita maquiavélica para um governante de sucesso, no caso de Serra sai pela culatra, pois ainda não chegou lá.
O temor é exatamente este: de que não faça concessões – ou que as faça em nível limitado, que não satisfaça todos os apetites. Serra tem sido crítico da política econômica desde os tempos do governo FHC.
Por essa razão, não obteve apoio integral do governo de que fizera parte, na sucessão de 2002. Foi crítico da política cambial de Gustavo Franco e da gestão de Pedro Malan no Ministério da Fazenda, mesmo sendo integrante do primeiro escalão de FHC, quando ocupou sucessivamente duas pastas: Planejamento e Saúde.
Essa autonomia assusta – e não é casual que tenha sido o DEM, cuja prática política clama por flexibilidade, o primeiro a expressá-la. Aécio é visto como mais ajustado ao jogo político tradicional. Não é visto, como Serra, como alguém detentor de idéias e convicções inabaláveis, que nada o demoveria de pôr em prática. Serra, em suma, ameaça o establishment econômico-financeiro; Aécio, não.
É capaz, como Lula tem sido, de ceder a interesses e administrar com maior habilidade o jogo de pressões e contrapressões. Serra, supõe-se, não investirá contra os movimentos sociais, embora tudo indique que não lhes dará a autonomia de que hoje desfrutam.
Aécio, de estilo contemporizador, dificilmente partiria para o enfrentamento. Manteria na economia as coisas mais ou menos como estão, sem mudanças bruscas.
Serra é visto como o anti-Lula; Aécio quer ser visto como o pós-Lula. Essas são algumas das percepções dos políticos tucanos e aliados, que mantêm em suspense a definição da candidatura oficial do PSDB, o que favorece a base governista na busca de ampliação de alianças.
Até aqui, a indefinição tucana já fez o PDT optar por Dilma e a maioria do PMDB hesitar em mudar de lado.
Lula celebra essa contradição, que o fortalece. E, para aumentá-la, continua a posar ao lado de Aécio, ambos sorridentes, em diversas solenidades oficiais, como o já célebre périplo eleitoral pelo Rio São Francisco.
O tempo conspira contra a oposição, mas Serra avisa que a definição só virá em março. Melhor para Lula.
sábado, outubro 10, 2009
Ruy Fabiano Direitos humanos de esquerda
Do Blog Noblat
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, em palestra em Belém, quarta-feira passada, em conferência promovida pela OAB, esclareceu que o governo Lula concedeu status de refugiado político ao ex-guerrilheiro italiano Cesare Battisti, com base numa premissa humanitária: a tradição brasileira de acolher quem lhe peça socorro, independentemente do conflito de que seja parte.
Simples assim. O ministro foi aplaudido como um humanista, sem que a alguém na platéia ocorresse uma pergunta igualmente simples: por que a mesma tradição não funcionou em prol dos boxeadores cubanos Guillermo Rigoundeaux e Erislandy Lara?
Eles, como se recorda, desligaram-se da delegação de seu país, na conclusão dos jogos pan-americanos de 2007, e pediram asilo ao governo brasileiro, alegando incompatibilidade com o ambiente político de Cuba.
O pedido foi recusado e ambos foram deportados de volta a seu país, num jato fretado pelo governo cubano.
Lá, como temiam, foram presos. As autoridades brasileiras alegaram que estavam sem documentos, o que, segundo a Polícia Federal, já seria motivo suficiente para a deportação.
Não se sabe se Battisti possui os seus documentos em ordem. Em geral, pessoas nessas condições não possuem.
A diferença entre os boxeadores e Battisti é que este foi condenado em instância final por crimes de homicídio em sua terra e por um tribunal de direitos humanos da União Européia.
Contra os boxeadores, nenhuma acusação pesava, a não ser o desejo de viver em uma democracia, regime desconhecido em Cuba há meio século.
Tem-se aí claramente um fenômeno de ideologização dos direitos humanos. Tratava-se, no caso dos cubanos, de atender a um governante ideologicamente afim ao governo brasileiro.
No caso de Battisti, que integrou organização paramilitar de esquerda na Itália dos anos 70, dava-se o contrário: estava em pauta o pleito de um governo democrático, reclamando, com base em tratado de extradição firmado com o Brasil, alguém condenado por três crimes de morte, aos quais não se deu o rótulo de “políticos”.
Em defesa de Battisti, o governo foi às últimas conseqüências. Enfrentou a reação do governo italiano, pondo em dúvida a justeza das sentenças condenatórias.
O ministro da Justiça, Tarso Genro, não hesitou em considerar que o Judiciário italiano não foi justo, gerando reações fortes naquele país. Somos humanitários e ponto final.
No caso dos cubanos, alegou-se apenas que eles não tinham documentos. O passaporte estava retido junto à delegação. O humanismo perdeu para o rigor burocrático da polícia e o governo, claro, não podia fazer nada.
O governou agiu ideologicamente, com pesos e medidas diferentes para cada caso, o que é característica dos governos. Pelo menos de alguns.
Também os governos militares brasileiros agiam ideologicamente, ao conceder asilo a ex-ditadores e a prender fugitivos de ditaduras do Cone Sul, nos anos 70 e 80.
Mas direitos humanos não têm ideologia. Não são de esquerda ou de direita. Não há direitos humanos socialistas ou neoliberais.
Onde quer que a integridade física, moral, psicológica ou cultural de uma pessoa ou de uma comunidade seja violada, ali se configura uma transgressão aos direitos humanos e deve ser combatida.
Cabe à imprensa um papel nesse processo: o de postar-se acima do jogo ideológico e denunciar. Nem sempre o faz, mas é ainda quem faz.
Por exemplo: sabe-se com freqüência – e repudia-se – as agressões aos integrantes do MST, mas sabe-se pouco (e minimiza-se) o que ocorre com os que habitam as propriedades por eles invadidas.
E há aí também inúmeros casos de violência, que ferem direitos humanos, quando não o bom senso (caso dos laranjais da Fazenda Cutrale, destruídos bestialmente há dias no interior de São Paulo).
Por essa razão, convém insistir na máxima de que direitos humanos não têm – não podem ter – ideologia, a não ser a expressa em sua própria essência: a defesa da integridade e dignidade do ser humano.
Fugir dessa premissa, relativizando-a, é fugir da própria missão. Como o fez agora o ministro dos (vá lá) Direitos Humanos.
Arquivo do blog
- Blog do Lampreia
- Caio Blinder
- Adriano Pires
- Democracia Politica e novo reformismo
- Blog do VILLA
- Augusto Nunes
- Reinaldo Azevedo
- Conteudo Livre
- Indice anterior a 4 dezembro de 2005
- Google News
- INDICE ATUALIZADO
- INDICE ATE4 DEZEMBRO 2005
- Blog Noblat
- e-agora
- CLIPPING DE NOTICIAS
- truthout
- BLOG JOSIAS DE SOUZA