Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 17, 2009

Ele é carioca Míriam Leitão

O GLOBO

Olha só o jeito dele... escrever: “o Pão de Açúcar, essa coluna de granito que sobe como uma diva da cortina de jade do Atlântico.” “Nas areias de Ipanema, debaixo do olhar do Cristo Redentor nos abençoando do alto do Corcovado”. “Por entre a densa vegetação se infiltra o horizonte de pedra e aço do Rio de Janeiro, um súbito lembrete de como é fugaz a fronteira entre o sublime e a agitação.”

Assim, com palavras esculpidas com carinho, o jornalista Mac Margolis fez uma reportagem na “ News week” sobre os bons passeios aqui no Brasil.

A reportagem fala também do Chile e da Argentina, mas não é o que eu quero ressaltar. O Brasil, além de uma apaixonada descrição das paisagens e das dicas de passeios que não custam quase nada no Rio de Janeiro — como as idas à praia, ao Cristo, à Floresta da Tijuca — ganhou também uma entusiasmada narrativa sobre o Pantanal.

Mac Margolis chegou ao Brasil nos anos 80 e ficou.

Está há 26 anos. É casado com uma brasileira, pai da pequena carioca Nina e dono de um português perfeito.

“O Brasil cresce em você”, escreveu ele na reportagem.

Mac conta que, ao chegar, seguiu o guia dos pontos turísticos clássicos do Rio, dançou de sandália de dedo no carnaval e enfiou seus pés na areia da praia nos dias de folga. Depois, com o tempo, descobriu “prazeres menos óbvios” ao rodar por parques, áreas de conservação e pontos de natureza mais selvagem. “O grande dilema no Brasil é por onde começar. O Brasil pode facilmente induzir o viajante a uma sobrecarga.

Os parques nacionais do país cobrem 28 mil quilômetros, o tamanho de Portugal e a Inglaterra juntos.” Ele sugere encantos ainda mais escondidos a um estrangeiro que queira conhecer o país.

Alerta que a Amazônia, com 720 áreas de conservação, parques, florestas densas, natureza preservada, pode ser a plenitude do andarilho. Mas avisa que a floresta tão vasta e selvagem pode ser uma visita cansativa e frustrante, por isso ele recomenda o Pantanal, que descreve como “a mais espetacular área de terra alagada do hemisfério ocidental e possivelmente do mundo.” Brasileiro que não foi ao Pantanal não consegue entender os adjetivos fortes escolhidos pelo jornalista americano para descrever a preciosidade. Palavras como “inacreditável” e “inigualáveis” para definir as belezas que se vê por lá. Fala da tradição pantaneira de contar histórias de onça para quem chega. “Quanto disso é verdade, quanto é fantasia para os ouvidos do gringo, é difícil dizer”, brinca ele.

Quem já foi ao Pantanal tem, ao ler o texto, uma saudade devastadora, e aquele medo enorme de que o bioma frágil, arrasadoramente belo, povoado de vida silvestre, ponto de escala de milhares de espécies de aves migratórias, seja mais uma vítima dos nossos descasos.

Mac não fala das ameaças que pairam sobre o Pantanal, ou sobre o Rio de Janeiro, que ele conhece bem. Como bom jornalista, tem se mantido informado sobre cada uma das nossas forças, fraquezas, erros e riscos. Mas é inevitável ter, diante de sua reportagem, sentimentos mistos: de orgulho e medo; de amor e tristeza.

Mesmo que ele nada diga lá, porque não é este o objetivo, não há como esquecer todos os senões que enfeiam o Rio: a desordem, a violência, a ocupação irregular, o ataque às áreas proteção, pontos que são frequentes em reportagens sobre o Brasil.

Mac iluminou apenas o lado bonito, porque essa era a intenção: falar ao turista americano, que por acaso vier, que há passeios e prazeres que custam pouco, um recado para estes tempos de crise.

A história da Floresta da Tijuca, que parece milenar e é apenas centenária, é contada lá. Como todos sabem, ela foi replantada depois que a vegetação natural tinha sido toda destruída pela plantação de café e os morros, sem sua mata, ameaçavam a cidade de avalanches e pedras e deslizamentos a cada tempestade.

“Foi preciso um imperador com a mente voltada para o futuro e uma queda pela flora tropical para resgatar a cidade dela mesma.” Mac define a Floresta da Tijuca como “a primeira campanha de reflorestamento em massa da América Latina.” Com seus 3.200 hectares ela é, talvez, “a única floresta nacional do mundo instalada no coração de uma megacidade.” Uma floresta no meio de uma capital, uma terra que as águas visitam, um enorme Cristo abençoando uma cidade à beira mar, natureza exuberante, as virtudes do Brasil vão sendo ressaltadas e ficam, no brasileiro que lê, aquela melancolia e o medo de perder tudo pelo desmatamento, pelo descaso e pela desordem que se espalham pelo país. Somos, sim, todo esse lado brilhante, temos todas essas belezas, refizemos uma floresta há 150 anos no meio de uma cidade, mas também somos o que esta reportagem não disse, e que, nem por isso, nos ameaça menos.

Mac sabe dos riscos e pode contar a qualquer hora, mas como ele é, a esta altura, meio carioca, meio brasileiro, deve ter ficado feliz de relatar o belo que ainda temos. Isso se nota pelo jeito que ele escreve.

Quanto a mim, leitores, sitiada pelas notícias da crise econômica, gostei de viajar no belo texto de Mac Margolis e descansar na foto de um ângulo inesperado: na borda da imagem, um alpinista no meio da escalada, e abaixo os morros verdes, a cidade e o mar. E a legenda: “Isso é o Rio: a Floresta da Tijuca, um assombro urbano cobrindo 32 Km de floresta tropical.”
para ler:Top Secrets in South America

Arquivo do blog