Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, outubro 30, 2008

O Kosovo da Amazônia Predrag Pancevski

Kosovo é uma região no sul da Sérvia, país que fazia parte da antiga Iugoslávia. É um lugar muito especial para os sérvios, que o consideram o berço da sua civilização, e é o local onde se desenrolaram os mais importantes eventos de seus 2 mil anos de história.

Para reforçar a sua política de integração o regime autoritário do presidente Tito deu muitos incentivos às diferentes minorias étnicas, entre outras, à albanesa, já que a Albânia faz fronteira com Kosovo. Jornais de língua albanesa, noticiários, escolas... pouco a pouco, em razão dos incentivos governamentais, a população de Kosovo foi se tornando predominantemente albanesa. Quando do fim da União Soviética, seguido do desmembramento da Iugoslávia, os kosovares albaneses aproveitaram o momento oportuno para reivindicar a independência de Kosovo. Os sérvios, indignados, negaram qualquer possibilidade de acordo.

Criou-se uma polêmica entre os outros países. Juristas especializados em direito internacional consideravam a reivindicação improcedente. Por outro lado, muitos opinavam que a solicitação era justa dada a maioria esmagadora da atual população ser albanesa. Quem está com a razão?

É uma questão difícil de ser respondida e para cada argumento haverá um contra-argumento. Kosovo já proclamou unilateralmente a sua independência, apoiado pelas potências européias. A Sérvia vive um impasse político: recusar e perder para sempre a fonte da sua identidade cultural ou concordar, comprando assim o seu ingresso na União Européia.

Recentemente, a Rússia invadiu a Geórgia para garantir a autoproclamada independência da Ossétia do Sul, baseada no fato de que a população dessa região é predominantemente russa. Ante as críticas do Ocidente, a Rússia rebateu dizendo que a situação é idêntica à de Kosovo, em que os países ocidentais, liderados pelos EUA, reconheceram a proclamação unilateral da independência. No fundo, à margem de julgamentos éticos, cada país está apenas defendendo os seus interesses: os EUA minando a Sérvia, tradicional aliada dos russos e enclave estratégico nos Bálcãs, e a Rússia, em contrapartida, enfraquecendo a Geórgia, aliada dos norte-americanos.

O propósito deste artigo é alertar para a situação similar em que se encontra o Brasil em relação às reservas indígenas na Amazônia. Tomemos como exemplo a reserva ianomâmi, no extremo norte do Brasil. Não é de hoje que diversos países estrangeiros vêm questionando a soberania brasileira na Amazônia. Grande parcela da população no exterior considera a Amazônia patrimônio da humanidade e, portanto, defende a idéia de que o controle e a gestão desse "pulmão do mundo" não deveriam estar concentrados num único país. As notícias recorrentes de desmatamentos e queimadas monumentais, de descaso e corrupção das autoridades e da total falta de infra-estrutura do governo para fazer valer a lei não contribuem para melhorar a imagem do Brasil no exterior. Junte-se a isso o fato de que os índios na reserva se autodenominam "nação ianomâmi", de etnia, cultura e língua totalmente distintas, detentora de um vasto território fronteiriço e bem demarcado, e teremos uma situação potencialmente explosiva.

Os "nossos" índios, em sua maioria, vivem num limbo socioeconômico-cultural, marginalizados como brasileiros e vivenciando o pior da civilização moderna. Eles percebem o governo como o grande obstáculo que os impede de explorar os imensos recursos minerais, biológicos e energéticos das terras herdadas de seus antepassados.

Vamos imaginar um agravamento drástico das relações internacionais e uma deterioração das relações Brasil-EUA, a exemplo do que já ocorre entre os EUA e a Venezuela. Somemos a isso um eventual aprofundamento da ainda longe de ser superada crise boliviana ou o reaquecimento do confronto Venezuela-Colômbia, polarizando a geopolítica sul-americana. Vamos supor que a Rússia aumente ainda mais a sua presença militar no continente por meio de sua parceria com a Venezuela e com os outros aliados. Aproveitando a oportunidade, a "nação ianomâmi" declara a sua independência. Imediatamente, diversas entidades ambientais apóiam o ato, seguidas do reconhecimento diplomático dos EUA e dos países que estão na vizinhança do território. Outras reservas indígenas seguem o exemplo, desmembrando o Brasil.

A moeda de troca é fácil de encontrar: independência para os índios, dando-lhes o direito de usufruir os recursos minerais e ambientais de suas terras. Em contrapartida, ao mundo é feita a promessa de uma exploração racional dos recursos, implantação de lei e ordem na região, viabilizando a preservação do ecossistema. Aos EUA é dada exclusividade na produção e comercialização dos produtos e, principalmente, em acordos para a instalação de bases militares estrategicamente situadas no centro do continente, como contrapeso à expansão russa. A redução do poder brasileiro é vista com bons olhos pelos países vizinhos, ainda ressentidos das diversas disputas territoriais perdidas para o País no passado. Kosovo e Ossétia do Sul servem de jurisprudência e uma força internacional de "paz" é formada para garantir a independência dos novos países.

Imaginação fértil? Antes da crise balcânica, se dissessem a um sérvio que Kosovo seria anexado pela Albânia em poucos anos, ele certamente chamaria o interlocutor de insano. No entanto, é isso o que está acontecendo.

Num mundo cada vez mais dependente de espaços livres e recursos naturais, a pressão externa sobre a Amazônia será cada vez maior. Agir preventivamente, com a adoção de políticas adequadas e investimentos condizentes com a amplitude do problema, é a única forma de garantir a soberania para as gerações futuras.

Predrag Pancevski, mestre em Economia e Finanças, professor na Fundação Getúlio Vargas, nasceu em Belgrado, na antiga Iugoslávia E-mail: pancevski@fgvmail.br

A dobradinha do Fed com o FMI Rolf Kuntz

Nunca houve uma ação preventiva como essa. Desta vez, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Federal Reserve (Fed), o banco central (BC) dos EUA, decidiram agir ao mesmo tempo para limitar o efeito da crise nas economias com fundamentos ainda satisfatórios, como Brasil, México e outros grandes emergentes. A amplitude e a rapidez das novas ações podem atenuar os efeitos da escassez global de crédito e reduzir o risco de recessão em várias economias importantes. No Brasil, o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci tem um bom motivo para celebrar: parte das novidades corresponde a uma proposta sustentada por ele, durante anos, em reuniões do FMI.

As boas notícias foram anunciadas ao mesmo tempo, deixando clara, mais uma vez, a articulação entre o diretor-gerente do Fundo, o francês Dominique Strauss-Kahn, e as autoridades americanas. O Fed acertou linhas de swap cambial, isto é, de troca de moedas, com os bancos centrais do Brasil, do México, da Coréia e de Cingapura, para aliviar a escassez de financiamentos em dólares nesses países. O FMI anunciou a criação de uma linha especial de crédito para países com políticas econômicas saudáveis e acesso a mercados, mas com problemas temporários de liquidez.

A ação do Fed, semelhante a acordos já adotados com dez bancos centrais do mundo rico, é de fato uma operação especial de financiamento. O banco central dos EUA não precisa das moedas de nenhum dos quatro países para prestar assistência de liquidez ao mercado americano. De fato, não precisa das moedas da maior parte dos outros parceiros auxiliados anteriormente. Mas tem um bom motivo para essa iniciativa: os quatro países beneficiários são descritos em nota oficial como "economias grandes e sistemicamente importantes". É muito mais barato para todo mundo, nesta altura, jogar uma bóia para ajudar esses quatro grandes parceiros.

Com essa decisão, o Fed toma para si o papel destinado normalmente ao sistema financeiro privado e age, muito mais do que em qualquer outra circunstância, como um parceiro do FMI. Esse jogo combinado, ou aparentemente combinado, já havia ocorrido na primeira quinzena, quando Strauss-Kahn e outros diretores do Fundo insistiram, durante dias, numa ação mais audaciosa dos governos dos EUA e da Europa. A resposta veio no dia 10, uma sexta-feira, quando os ministros de Finanças do Grupo dos 7 anunciaram a disposição de capitalizar bancos privados com dinheiro público.

Cada um dos quatro BCs poderá dispor de US$ 30 bilhões até 30 de abril de 2009. Isso deverá aumentar substancialmente o poder de intervenção desses bancos para suprir créditos em dólares. No Brasil, esse reforço deverá ser especialmente importante, a curto prazo, para o financiamento à exportação. Em outubro, os empresários vinham encontrando muita dificuldade para obter as tradicionais antecipações de contratos de câmbio, essenciais à rotina de sua atividade.

A novidade informada pelo FMI corresponde, nos pontos essenciais, à linha especial de financiamento proposta durante vários anos pelo ministro Antônio Palocci e defendida em coro pelos ministros do Grupo dos 24, porta-vozes das economias em desenvolvimento. As características mais importantes são as mesmas: acesso fácil, desembolso rápido, montante equivalente a até cinco vezes a quota e sem as tradicionais e sempre detestadas condicionalidades, como políticas de ajuste e fiscalização de desempenho. "No entanto, espera-se dos tomadores do empréstimo o compromisso de manter um forte esquema de política macroeconômica", ressalva o FMI numa nota informativa divulgada ontem à tarde.

O ministro Palocci e vários de seus colegas defenderam a criação dessa linha de financiamento numa fase de prosperidade internacional, quando a maior parte dos clientes habituais do Fundo estava em boas condições. Desde o início, a proposta vinculou a concessão dessa ajuda a países com políticas econômicas consideradas saudáveis de acordo com os critérios do Fundo. Houve, no entanto, forte oposição de vários governos do mundo rico. Além disso, a nova linha de crédito era descrita como preventiva. Como não havia urgência, o assunto foi sempre deixado em segundo plano e retomado regularmente, em cada reunião, pelos porta-vozes do Brasil e do G-24. Na assembléia geral deste ano, a missão coube, mais uma vez, ao ministro Guido Mantega. Mas dessa vez havia uma crise, a maior desde os anos 30. Isso parece ter feito a diferença.

CELSO MING Perto do limite

Nos Estados Unidos, a decisão foi aliviar ainda mais. Aqui, foi não apertar ainda mais.

São políticas diferentes, com objetivos semelhantes e resultados provavelmente equivalentes. Como a decisão do Copom já foi comentada domingo, esta coluna vai focar a análise do passo dado pelo banco central americano, o Federal Reserve (Fed), que ontem derrubou os juros básicos (Fed funds) em mais meio ponto porcentual, para 1% ao ano.

Voltam assim para o nível em que estiveram por 12 meses, de junho de 2003 a junho de 2004. Esse período é parte do compreendido entre novembro de 2000 e novembro de 2004, que vem sendo apontado como o de maior fartura de recursos da história econômica recente.

O objetivo dessa política foi combater a recessão que se seguiu à crise da internet. Mas o Fed deixou tanto dinheiro à disposição que os mercados se puseram a assoprar uma bolha atrás da outra, processo que culminou nesta crise das hipotecas podres.

Desta vez, o Fed está usando os juros baixos para reverter a atual crise financeira, mais ou menos como o veneno de cobra é usado para curar picada de cobra. O crédito bloqueado nos Estados Unidos e os indicadores econômicos apontam para um panorama de forte recessão com tudo o que vem junto: redução do consumo, queda da produção, desemprego, quebra geral de rendas. Juros mais baixos ativam consumo e negócios e podem ajudar a reverter a paradeira.

São juros reais negativos, uma vez que a inflação americana está perto dos 5%. Mas juros tão baixos devem produzir outro efeito colateral: o de tirar capacidade de manobra do Fed na sua política monetária, como alguns comentaristas vêm observando.

É que, para combater a inflação, ele tem de aumentar os juros (tirar dinheiro do mercado), e, para combater a recessão, tem de reduzi-los (aumentar o volume de dinheiro). Juro zero ou quase zero, como é o caso do Japão, tira capacidade de injetar dinheiro pela política monetária, se vier a ser preciso.

Afora isso, já se vê que a fase aguda da crise pode ter ficado para trás. As autoridades dos Estados Unidos e da Europa estão conseguindo capitalizar os bancos e socorrer as instituições financeiras a perigo. Além de tentar desobstruir os canais de crédito, os bancos centrais assumiram tarefas até mesmo além do limite do seu mandato, como a de injetar recursos diretamente no caixa de empresas por meio do desconto de commercial papers (promissórias). O resultado é a volta de certo nível de confiança e o refluxo do pânico.

Falta atacar os problemas de fundo. Os analistas repetem que a recessão será profunda e prolongada. E o comunicado do Fed, emitido junto com a decisão do corte dos juros, fala que "o ritmo da atividade econômica parece ter-se desacelerado marcadamente". Como a política de juros chega a seu limite, se esse passo não for suficiente para reverter o problema, o próximo recurso será ampliar as despesas públicas (política fiscal).

E podem vir outros desdobramentos, hoje imprevisíveis, dado que essa crise é diferente das outras. Em todo o caso, conta com forte intervenção estatal coordenada. Por enquanto, o que tem de ser feito está sendo feito.

E veio a pausa - Como esperado, o Copom decidiu manter os juros básicos em 13,75% ao ano. Isso não significa que tenha desistido de aumentá-los, como sugeriam análises anteriores do Banco Central. Tudo vai depender de como evoluirá a crise.

DORA KRAMER Ao vencedor, o desmanche

Ao vencedor, o desmanche

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As piores previsões feitas quando da nomeação de Lina Maria Vieira para o comando da Receita Federal se concretizaram: o aparelhamento do aparato de fiscalização e arrecadação, uma das áreas ainda razoavelmente imunes ao loteamento partidário/sindical patrocinado pelo governo Luiz Inácio da Silva em setores-chave da administração federal.

Trata-se de um plano bem planejado e gradativamente executado. Portanto, enquanto estiverem no manche do poder governantes com esse tipo de visão (utilitária) do Estado, nada há a fazer. Não adianta reclamar, denunciar, apontar os malefícios, os retrocessos, a ótica distorcida, o espaço aberto a ilicitudes e as intenções subjacentes, porque para tudo há uma justificativa quando a decisão de governo está tomada.

Na Receita foram substituídos cinco dos seis secretários-adjuntos, os superintendentes de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e mais os responsáveis pelas regiões Norte e Nordeste, nos últimos três meses.

Uma remodelação dessa amplitude em tão curto espaço de tempo, se fundamentada em motivações exclusivamente profissionais, teria necessariamente de ser acompanhada dos devidos esclarecimentos.

Se algo andava mal na Receita, o contribuinte tinha o direito de saber. Se a partir da nova política de remanejamento de pessoal começaria a andar melhor, o governo seria o maior interessado na divulgação e poderia merecer aplausos.

No lugar disso, o que se viu muito bem relatado na reportagem da edição de ontem do Estado foram trocas paulatinas na estrutura central e nas superintendências regionais feitas com o oficioso objetivo de substituir a "turma do Everardo" para pôr fim à influência do secretário na gestão Fernando Henrique Cardoso, Everardo Maciel.

Mas, se o critério é nebuloso, a intenção é claramente exposta: dar lugar à "turma do Unafisco", o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais, de onde saíram os novos superintendentes. Concursados todos eles, aponta a reportagem.

Só que não é a condição legal ou a capacidade técnica o que se discute, mas o comprometimento dos sindicalistas com uma causa política e o retrocesso - para não dizer o risco - que isso representa no tocante ao uso partidário da máquina do Estado.

Numa área como a Receita esse tipo de controle pode ser uma arma de potência incomensurável sobre adversários, principalmente em períodos eleitorais.

Se o governo ganhar a próxima eleição presidencial, os poucos avanços obtidos na despolitização da burocracia no governo anterior continuarão sendo anulados - exatamente como fez a aliança PMDB/PFL na Nova República em relação à estrutura herdada do regime militar - até o limite do imprevisível.

Mas, se o vencedor for da oposição e tiver da administração pública uma visão profissional, vai se deparar com o desafio de desmontar o aparelho sindical antes mesmo de manifestar o tradicional repúdio ao loteamento partidário que preside as relações entre Legislativo e Executivo e impede o Brasil de ser governado por um projeto de País, mantendo-o atrelado a planos alternados de poder.

Há quem trema só de pensar no enfrentamento do próximo governo com o PT se o partido porventura voltar derrotado da batalha de 2010 diretamente para a trincheira da oposição.

Mas há quem lembre também que pior que o embate na base do grito e da cobrança será a resistência da aliança entre ideológicos e fisiológicos que, na defesa de seus interesses, vai se movimentar ainda na fase de escolha de candidaturas dentro dos partidos. De todos eles, os oposicionistas e os governistas por adesão ou por convicção.

Lugar ao sol

Sempre que algo ou alguém fortalece demais a posição do governador de São Paulo, José Serra, como candidato do PSDB à Presidência da República, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, cria um fato para lembrar que continua no jogo.

Foi assim no início do ano, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse que a melhor solução para os tucanos seria a reeleição de Gilberto Kassab na Prefeitura de São Paulo, Geraldo Alckmin candidato ao governo do Estado em 2010 e Serra na disputa pela Presidência.

Aécio de imediato deu início a um périplo de conversas multipartidárias, lançou a tese da convergência possível entre PT e PSDB e deixou prosperar a impressão de que poderia mudar de partido para ser uma espécie de candidato da "unidade", quem sabe até com o apoio do presidente Lula.

Agora acontece de novo. Quando Serra é saudado como o grande vencedor de 2008 e, por isso, apontado como a opção "natural" da oposição para 2010, Aécio prega a definição de candidaturas presidenciais mediante prévias.

Não quer briga nem se apresentar à disputa interna desde já. Só põe um tema na agenda de maneira a defender a parte que lhe cabe no latifúndio da cena política nacional.

PODCAST Diogo Mainardi Lula é PMDB


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28 de outubro de 2008


Lula é PMDB. É o que tenho a dizer sobre o resultado eleitoral do último domingo. Se o PMDB é um aglomerado de caciques, Lula é o cacique dos caciques, tendo repartido o território brasiliense em tribos, cada qual com seus costumes, com sua estrutura, com seu sistema de valores. Sobretudo isso: com seu sistema de valores. Se o PMDB é um emblema de fisiologia, Lula é seu maior representante, saltando alegremente de um lado para o outro, de acordo com as suas necessidades mais imediatas. Se o PMDB representa o poder local, Lula administra o governo da República como se fosse a prefeitura de Campina Grande. O PT perdeu no domingo, o PT foi ridicularizado no domingo, mas quem disse que Lula é do PT?

Uma idéia foi repetida continuamente nos últimos dias. A idéia de que é cedo para se pensar em 2010. Na realidade, o que políticos, banqueiros, empreiteiros e jornalistas pretendem fazer, a partir de agora, é apenas isso: pensar em 2010. Pode ser cedo para o eleitor comum, mas está mais do que na hora de firmar acordos, comprar aliados e leiloar apoios para a disputa presidencial. Por isso mesmo, é preciso descobrir qual será o papel de Lula. De um ano para cá, ele sempre deu a entender que bancaria a candidatura de Dilma Rousseff. Eu entendo sua escolha. Ele perdeu todos os outros candidatos. Só sobrou Dilma Rousseff. E se só sobrou Dilma Rousseff, ele tem de se arranjar com ela. Mas o que Lula realmente espera obter com isso? Ele conhece o eleitorado. Por mais que eu me esforce, por mais que eu tente me desfazer de meus preconceitos, sou incapaz de imaginar como os eleitores poderiam votar em Dilma Rousseff. Ela tem aquele ar impaciente de funcionária pública que se recusa a aceitar nosso documento porque a cópia tem de ser autenticada, e que aguarda ansiosamente a saída do trabalho para poder fazer sua aula de rumba. Imagino que Lula saiba que uma candidata dessas nunca será eleita.

É nesse ponto que surge o Lula peemedebista. Como todos os peemedebistas, ele tem um projeto pessoal, muito mais do que um projeto partidário. Para ele, bem mais importante do que eleger um sucessor petista é garantir que seus interesses pessoais sejam atendidos pelo novo governo. Seu maior interesse, hoje, é assegurar uma passagem de poder sem conflitos, sem ressentimentos, para que seu sucessor nem pense em importuná-lo mais adiante, fazendo uma devassa pública de suas contas, ou punindo os membros de seu círculo íntimo, ou afastando seus homens da máquina estatal. Se Lula concluir que a derrota eleitoral em 2010 é certa, sua melhor candidata é Dilma Rousseff. Ele poderá se engajar em sua campanha, mas sem ter de se imolar por ela, indispondo-se com seus opositores. Lula precisa negociar o futuro de sua tribo. Ele é PMDB. Por isso, acabará ganhando, mesmo se perder.


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quarta-feira, outubro 29, 2008

Schopenhauer e Freud Por Laurence Bittencourt Leite

Laurence Bittencourt Leite, jornalista

Shopenhauer foi o sujeito que disse que o mundo, entenda bem, é uma representação do que temos na nossa mente. O mundo é uma representação mental, disse ele. O mundo é aquilo que minha mente vê e crê. Isso dito pela primeira vez, soou tão original quanto a descoberta freudiana de que toda construção humana, material e não material, é uma sublimação de um desejo sexual infantil irrealizado. Mas a idéia de Freud é muito mais profunda.

Por falar nisso, o próprio Freud quando lhe disseram após a sua descoberta da pulsão (que alguns chamam erroneamente de instinto, que pertence ao reino animal) de morte, que sua teoria em muito era uma cópia da teoria de Shopenhauer, ele apenas acrescentou que não tinha recebido nenhuma influência direta porque não tinha lido o alemão o suficiente. Aqui, na frase de Freud, está exposta a teoria da influência do crítico literário americano Harold Bloom, que ele intitulou de angústia da influência. Estou resumindo, claro.

Demóstenes Torres - A porta da rua é a serventia da casa

O secretário especial de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, caso venha mesmo pedir demissão poderia aproveitar o tempo de folga para estudar um pouco os estatutos legais e rever os seus provectos conceitos. Vannuchi é um democrata simulado que não gosta da Constituição e pensa que o estado de direito é instrumento de amparo às suas convicções revanchistas.

Recentemente, em ato público contra a ditadura militar, teve arroubo de caçador de torturadores e declarou que garantiria de próprio punho o direito de defesa aos que agiram nos porões do regime de exceção. Agora, também publicamente, ameaça entregar o cargo ao presidente da República caso a Advocacia Geral da União (AGU) mantenha justamente a defesa do coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, acusado de comandar o DOI-Codi em ação movido pelo Ministério Público Federal.

Ocorre que, neste caso, a União se tornou ré na relação processual e cabe, por dever constitucional, à AGU defendê-la e com o argumento de sempre: a Lei de Anistia encerrou o assunto e ponto. Como não é possível rasgar a Carta de 1988 para satisfazer o capricho de Vannuchi, o natural é que ministro encontre a porta de saída do governo Lula. O contrário seria optar pelo crime de responsabilidade.

Vannuchi, em primeiro lugar, sustenta um absurdo jurídico do qual o próprio presidente da República, com muita razão, quer distância medida. Depois, a exoneração passa a ser um imperativo quando um subordinado chantageia em público o dono da caneta. Isto configura quebra explícita de confiança. O pior de tudo é que não há polêmica na matéria a não ser a própria vontade de Vannuchi de se cristianizar politicamente para encontrar alternativa honrosa à causa prescrita.

Particularmente acho pouca qualquer punição para infratores da lei, especialmente torturadores, e tenho repulsa total a qualquer arbitrariedade, mais ainda as cometidas pelo regime de 1964. Agora, também não posso concordar que pretendam, em nome de uma ancestralidade esquerdista, fulminar o ato jurídico perfeito consagrado pela Lei de Anistia. Revigorar um assunto tão bem pacificado no ordenamento legal e político do País é lançar mão do mesmo expediente de exceção daquele tempo.

Como isso trama contra a democracia, a demissão de Vannuchi terá até função educativa e pode ser o ponto de partida para o governo de uma vez por todas virar o disco e restaurar a sua autoridade. O presidente Lula precisa descer do muro e mostrar aos descontentes que a porta da rua é a serventia da casa.

Demóstenes Torres é procurador de Justiça e senador (DEM-GO)

Um futuro político muito duvidoso Por Giulio Sanmartini


Quanto mais se pensa e quanto mais se analisam estas últimas eleições municipais, que foram o aperitivo das presidenciais para 2010, aparece somente um grande derrotado: Luiz Inácio Lula da Silva. Não é simples entender como um político com os níveis de aceitação e popularidade jamais vistos na história da República (sem ironia), tenha essa dificuldade em transferir votos. Ou será que espertamente Lula tenha feito isso de propósito visando um terceiro mandato? Há uma coisa clara e cristalina: Lula só dá apoio e força a ele mesmo, o resto que se dane, que fique falando sozinho.

De todos os que fazia questão de eleger, elegeu um só, o um pouco mais que insignificante, Luiz Marinho, que conseguiu a prefeitura de São Bernardo (SP).

São Paulo, a maior cidade do pais, foi-lhe particularmente humilhante com a derrota de sua “grande” candidata, a prepotente e falastrona Marta Suplicy. Sua derrocada foi de tal monta (60% a 39%), como jamais se viu na história das eleições políticas paulistas e paulistanas.

Em outras cidades importantes para disfarças a derrota teve que engolir sapos. No Rio de Janeiro, “aceitou” como um bocada amarga, o candidato do governador Sérgio Cabral, Eduardo Paes, que venceu acidentalmente, por uma diferença abaixo do 2% dos votos, mas , que não há muito tempo, o chamou de “chefe da quadrilha” de mensaleiros e denunciou seus filhos em negócios escusos.

Assim seguiu em outras capitais, das 27 o Partido dos Trabalhadores, venceu sem arranjos amorais, somente em Vitória (Espírito Santo), com João Coser, apoiado pelo governador Paulo Hartung, PMDB; Rio Branco (Acre), com Raimundo Angelim; Porto Velho (Rondônia), com Roberto Sobrinho; Palmas (Tocantins), com Raul Filho.

Lula pegou a pecha de “pé frio” para os esportistas brasileiros, se depois destas eleições, pegar a de rei Midas ao contrário, isto é o que tocar ao invés de transformar-se em ouro, se transforme em (me perdoem) merda, seu futuro político e o do partido será difícil

(*) Texto de apoio: Sebastião Nery.

VINICIUS TORRES FREIRE O grande feirão de dinheiro barato



Crise justifica certos subsídios, mas medidas do governo tornam ainda mais obscuro o destino do dinheiro público

O GOVERNO aumentou o crédito para a agricultura. Os bancos do governo federal serão autorizados a comprar partes de empresas e bancos capengas. O governo vai obrigar um banco federal a oferecer crédito para a construção civil a taxas abaixo do mercado, segundo o ministro Guido Mantega. O governo pode até adiar o recolhimento de impostos, o que é um tipo de desconto nos tributos devidos.
Mais subsídios virão.
O governo "não vai socorrer empresas que especularam com o câmbio", dizia Mantega, aparentemente contradizendo o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Coutinho porém nega ter sido contraditado, pois não teria dito a tal coisa negada por Mantega -foi a "imprensa que leu errado". Mas Mantega e Coutinho dizem que o BNDES vai inventar alguma linha de crédito de curto prazo para as empresas. Como o público, e talvez nem o governo, não sabe "quem especulou com o câmbio", o governo enfim talvez venha a ajudar empresas que "especularam". Mais subsídios virão.
Muito bem (mal) que, aparentemente, o crédito para as empresas tenha secado e que algumas delas possam ter sido apanhadas de surpresa. É certo que o crédito ficou muito mais caro. As taxas "básicas" de juros no mercado aumentaram de modo demencial. O que incomoda bastante em toda essa fieira de medidas é que o público não tem e provavelmente não terá a menor idéia de quem de fato precisava de ajuda, por quais motivos, qual o tamanho do subsídio será dado e qual o interesse geral dessas medidas.
Não há nada de essencialmente maligno ou prejudicial em subsídios. Certas subvenções podem ter efeitos sociais e econômicos que compensam tanto seu custo como o privilégio inevitável a alguns setores. Mas o país já carrega nas costas uma larga quantidade de subsídios de dimensão desconhecida.
A cada medida provisória de política industrial ou similar inventam-se dezenas de isenções e subvenções que jamais são explicitadas -quem recebeu, quanto. O BNDES empresta dinheiro de fundos públicos a taxas subsidiadas. O Banco do Brasil também subsidia, embora com impacto menos direto nos cofres do público. Agora, a pretexto da crise ou até devido a ela, mais uma onda de subsídios virá. Como o destino desse dinheiro barateado não aparece no Orçamento, não vamos saber mais uma vez quem vai levar o quê.
Para piorar, empresários ou banqueiros irresponsáveis podem receber "socorro" de graça: os pacotes de ajuda ora anunciados não prevêem nenhum tipo de punição.
O Orçamento federal em si mesmo já é uma barafunda obscura. Um parte dos gastos da União é executada de maneira discricionária pelo Executivo; outra, enorme, é vinculada a certos gastos, aliás uma ineficiência. O Congresso se ocupa quase apenas de emendas paroquiais e de contrabandos tributários em medidas provisórias. Na sombra ficam as iniciativas dos bancos federais, cujos resultados indiretamente afetam as contas do governo, mas afetam.
Esta sombra tende a ficar maior, dada a batelada de "apoios" que o governo tem oferecido a empresas e a bancos. O controle público e democrático dos fundos públicos continua uma pilhéria no país.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN Contágio e conseqüência



Insistir em manter a demanda interna acelerada só trará mais depreciação cambial e mais inflação

HÁ PELO menos três canais por onde o impacto da crise nos afeta diretamente: comércio global, preços de commodities e, finalmente, fluxos de capitais.
A combinação deles deverá implicar não apenas a redução da taxa de crescimento, mas também uma alteração importante na sua composição, à medida que a demanda interna, fator preponderante da aceleração do crescimento nos últimos quatro anos, deverá encontrar limites bem mais claros à sua expansão.
De 2002 até meados deste ano a conjuntura internacional se mostrou extremamente favorável ao país. Sem desmerecer a adoção de políticas domésticas que, não tenho dúvida, ainda ajudarão o país a se diferenciar de vários de seus pares no futuro próximo, parcela relevante dos desenvolvimentos positivos no país se originou de fatores externos.
O país foi beneficiado, em primeiro lugar, pelo aumento de preços de commodities. Como exporta muito mais commodities do que importa, a alta resultou em preços de produtos exportados crescendo acima dos preços de importados, isto é, houve melhora dos termos de troca. Conjugada à expansão dos volumes exportados, em parte derivada da expansão do comércio global, essa melhora implicou forte elevação da capacidade de importar: entre 2002 e o terceiro trimestre de 2008, estima-se que o poder de compra das exportações tenha crescido 80%.
Esse processo permitiu que a demanda doméstica passasse a crescer acima da produção, o que não observávamos desde 1997/98, quando preços de commodities em queda haviam piorado nossos termos de troca. Obviamente, se a demanda doméstica cresce mais rápido que a produção, a diferença deve ser coberta com importações físicas crescendo acima das exportações físicas, o que foi possível principalmente pelo aumento do poder de compra das exportações. Completando esse quadro, a expansão da liquidez mundial barateou o financiamento, trazendo vastos volumes de capital estrangeiro, aparentes na expansão do investimento estrangeiro no país, em particular o investimento direto, que se acelerou de US$ 15 bilhões por ano entre 2002/5 para US$ 35 bilhões por ano em 2007/8.
Não há dúvida, porém, que esses três fatores mudaram de direção, isto é, podemos esperar queda de preços de commodities, desaceleração do comércio global e menores fluxos de capital. A resultante não poderia ser mais clara: a capacidade importadora se reduz e, portanto, também a diferença entre o crescimento da demanda doméstica e do produto deverá cair, revertendo o processo observado nos últimos anos.
Quem anuncia essa mudança, como seria de esperar, é o sistema de preços. Da mesma forma que a melhora externa se traduziu numa taxa real de câmbio mais forte, incentivando a demanda doméstica às expensas da demanda externa, a piora das condições internacionais requer o inverso, isto é, câmbio real mais depreciado, mesmo com a diferença entre os juros locais e os externos na verdade até mais alta do que no passado. Aliás, isso só demonstra o que venho há muito insistindo neste espaço, isto é, que a trajetória da taxa real de câmbio depende mais de variáveis externas do que a mera diferença de taxa de juros.
Em resumo, o choque externo reverteu as condições que permitiam o crescimento rápido da demanda doméstica com efeitos inflacionários mitigados (não eliminados) pela disponibilidade de importações. Insistir em manter a demanda doméstica acelerada só há de trazer mais depreciação cambial e inflação. Vamos tentar não repetir esse erro?

Miriam Leitão Água e vinho

Nunca antes na história deste Copom a realidade mudou tanto entre uma reunião e outra. A última foi antes de o Lehman Brothers quebrar. Era outro mundo! De lá para cá, a crise apareceu com toda a sua força. Neste momento, o Brasil precisa de uma redução do consumo, uma desaceleração da atividade.

Isso se faz com alta dos juros. Mas o Banco Central não deve, nem precisa, subir os juros.

Nos dias 9 e 10 de setembro, a situação não estava boa, mas nada que se compare ao que aconteceu nestes intensos, difíceis e assustadores 47 dias que separam uma reunião e outra.

Alguns dados: o dólar estava em R$ 1,78, acumulando uma inofensiva alta de 0,5% no ano. Daí para diante, disparou. Ontem fechou em R$ 2,18, alta de 22% entre uma e outra reunião do Copom.

Mas isso não diz tudo da mudança de água para vinho da questão cambial.

O dólar chegou a a R$ 2,38, mas houve momentos desses dias nervosos em que foi negociado a mais de R$ 2,50. O Banco Central, até meses atrás, era incentivado a comprar dólares. O governo chegou a fazer uma medida autorizando as empresas a deixarem dólares no exterior, para deter a entrada de dólar. Esse ambiente mudou completamente, e o BC teve que vender dólares para acalmar um mercado desesperado pela moeda americana.

O episódio dos prejuízos das empresas tem um grande símbolo: a Aracruz, que no pior cenário pode perder ao todo US$ 6 bilhões nos derivativos cambiais. Isso é equivalente a 10 anos de lucro.

O dólar subindo eleva a pressão inflacionária; se os juros subirem, o dólar, em épocas normais, cairia.

Agora, o país precisa conter a pressão inflacionária do dólar e ainda derrubar a cotação. Tudo indicaria o quê? A alta dos juros. Mas não é isso que o Banco Central deveria fazer hoje.

Em 10 de setembro, a Bolsa estava com 49,6 mil pontos.

Ontem, ela subiu 13,4% e fechou em 33,4 mil pontos.

Acumula queda de 32,7% desde a última reunião do Copom. O risco-país estava em 266 no dia 10 de setembro e já havia subido 17% no ano. Ontem, ficou em 537, um aumento de 101,8% desde a última reunião do Copom, e de 136,5% desde o começo do ano. Mas foi uma excelente notícia, porque na segunda-feira chegou a 624 e já ultrapassou 700 pontos neste ano.

Todos os dados mostram um tempo de turbulência vivida neste período em que os Estados Unidos entraram no pior momento da sua crise, seguidos pela Europa e pelo Japão, numa onda que se espalha pelo mundo.

As economias estão entrando em recessão no mundo desenvolvido. Forte recessão.

O índice de preço das commodities, feito pela Reuters e que tem 19 produtos, entre eles vários que o Brasil exporta, como soja, carne bovina, café, açúcar, cacau, suco de laranja, caiu 28% desde a última reunião.

E teve queda de 45% desde o pico do ano. A boa notícia: os preços das commodities em queda reduzem aquela pressão inflacionária que estava assustando o Banco Central quando ele começou o atual ciclo de alta de juros. Se eles caem, a inflação cai e, por isso, o BC pode derrubar os juros, então? O BC, em condições normais de temperatura e pressão, olharia para os dados de inflação. E lá não está havendo melhora. O IPCA acumulado em 12 meses subiu de 6,17% para 6,25%. As previsões do Focus para todas as inflações para os próximos 12 meses aumentaram ligeiramente entre um mês e outro.

Pela cartilha do Banco Central, ele teria que continuar subindo os juros para reduzir a inflação. Mas como o mundo mudou, a maneira de olhar os dados é outra.

A queda das commodities indicam que o Brasil não terá mais aquele mundo em que, com o aumento das exportações, ele financiava o aumento das importações.

O consumo dos últimos anos foi em grande parte sustentado pela abundância de dólar, que veio da exportação de commodities valorizadas. Dólar baixo, insumos caindo, vários preços em queda, e a população consumiu mais, com a ajuda do crédito abundante. Agora, o consumo precisa cair, mas o BC não precisa fazer nada. O mercado já fez.

— Há um aperto de crédito, as vendas de carros podem cair até 15% este mês em relação ao mesmo mês do ano passado, o DI de janeiro de 2010 está em 17,5%, indicando que estes são os juros para 2009. Portanto, é como se os juros já tivessem subido, mesmo que o Banco Central não o faça — diz o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros.

A realidade mudou tanto que a cartilha que o Copom sempre seguiu não serve para nada. Os dilemas são muitos. Se as commodities estão em queda, a inflação vai cair; mas se o dólar está em alta, a inflação vai subir.

A queda do nível de atividade virá como conseqüência da queda do crédito, da renda menor das empresas exportadoras e do adiamento de investimentos do setor privado.

O Banco Central deveria parar para ver. Deveria ser cuidadoso, cauteloso. Não é hora de subir os juros, mesmo sendo a inflação a primeira preocupação do BC.

Mas os tempos são extraordinários, a crise é diferente de todas as outras, os reflexos na economia são inesperados.

O BC adotou medidas pontuais e acertadas.

Hoje é dia de manter os juros onde estão. E eles já são altos para uma economia que já vai desacelerar, seja qual for a decisão.

O fator econômico Merval Pereira

NOVA YORK. Na geografia peculiar dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto, parece que somente agora as más notícias cruzaram o Atlântico aqui para o nosso lado e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já admite que a crise será longa e deixará seqüelas.

Também o presidente do PT, Ricardo Berzoini, pede juízo ao PMDB e lembra que a base aliada do governo tem uma crise econômica para enfrentar no próximo ano. Os resultados das eleições municipais, mesmo que não tenham uma ligação direta com as eleições nacionais, serviram para expor alguns fatos que certamente terão conseqüências no arranjo futuro das alianças políticas.

O presidente Lula, que pretendia usar as eleições para fortalecer sua base aliada, mostrou que acredita mais em alianças políticas do que o PT. Deu espaço para todos crescerem, não tentou interferir nos locais em que partidos da base disputavam o mesmo espaço e tentou ajudar os aliados onde o partido se batia contra a oposição.

Talvez convencido de que sua popularidade de 80% seria o bastante para eleger quem ele quisesse, se deixou levar pela disputa pessoal com o líder do DEM, senador José Agripino, e foi a Natal tentar derrotar Micarla de Souza, a candidata do PV que tinha o apoio do DEM.

Tão desatento à possibilidade de colocar em xeque sua capacidade de transferir votos, disse expressamente que estava ali para derrotar Agripino e, como não conseguiu eleger a candidata do PT, acabou tendo que engolir uma vitória de seu inimigo preferencial, transformando Agripino em um vitorioso emblemático.

O caso de Marta Suplicy em São Paulo era inevitável, o presidente não tinha como não entrar de cabeça na eleição da capital. Mas podia ter evitado falar demais, e nem precisava garantir que a candidata do PT venceria mesmo quando já estavam dadas as condições para uma vitória acachapante do prefeito do DEM.

Nesses dois locais, o presidente Lula transformou o DEM em seu adversário principal, e perdeu. A partir dessa crise econômica que relutou em aceitar como realidade nossa, o presidente Lula estará enfrentando sua verdadeira prova de fogo.

Tendo assumido com uma aprovação de 75%, registrados em abril de 2003, Lula amargou durante seu primeiro governo duas crises graves de popularidade, sempre com questões ligadas à corrupção: a primeira em 2004, devido ao caso Waldomiro, e a segunda um ano depois, no “mensalão”.

Em ambas as ocasiões, a avaliação de seu governo caiu a cerca de 20% na soma “ótimo+ bom”, mas a situação econômica era diferente. Em 2004, a economia cresceu 5,7% e os efeitos da crise se dissiparam logo.

O caso do mensalão, além de ter sido mais grave, ocorreu em um ano em que a economia caiu para um crescimento de apenas 2,9% do PIB, e sintomaticamente a crise levou seis meses para se dissipar, e quase afeta a capacidade de Lula concorrer à reeleição.

O percentual dos que não confiavam em Lula oscilou negativamente, de 52% em agosto para 51% em setembro, enquanto o daqueles que nele confiam passou de 43% para 44%. Há relatos recentes que revelam que os ministros da Fazenda, Antonio Palocci, e da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, chegaram a propor a Lula que fizesse um acordo com a oposição, se comprometendo a não se candidatar à reeleição para não arriscar perder o mandato.

A recuperação da popularidade de Lula mostra quão resiliente ele é, mas se ocorrer uma queda do crescimento do PIB como está sendo previsto devido à crise internacional, de uma média acima de 5% nos dois últimos anos para cerca de 2% a 3% nos próximos anos, será um teste para sua liderança carismática mas, sobretudo, para seu ego.

Será preciso ver para crer Lula com sangue frio para resistir à tentação de manter o crescimento econômico através de medidas de incentivo ao consumo interno, e se contentar em encerrar seu segundo mandato com a economia declinante.

Se, mesmo com esse cenário, o presidente Lula ainda tiver força política para conseguir eleger seu sucessor, sem que seja um político de luz própria, será o caso de a oposição desistir de se opor a esse fenômeno político.

O presidente Lula tem no momento 81% de aprovação, o mesmo índice de aprovação que o ex-presidente José Sarney atingiu em abril de 1986, e em julho do mesmo ano chegou a atingir pelo Ibope a inacreditável marca de 97,5%, no auge do Plano Cruzado. Mas amargou raquíticos 9% de apoio no final de 1988.

O Plano Cruzado, lançado em fevereiro de 1986, teve a breve duração de 9 meses, mas ajudou o governo a ter a maior vitória eleitoral da história da República, no dia 15 de novembro daquele ano: o PMDB elegeu a totalidade dos governadores, e quase dois terços da Câmara e do Senado e das Assembléias Legislativas.

O jogo virou logo depois da eleição, com a edição do Plano Cruzado II, que trouxe aumentos brutais como 60% no preço da gasolina; 120% dos telefones e energia; 100% das bebidas; 80% dos automóveis; 45% a 100% dos cigarros.

Já a popularidade de Fernando Henrique Cardoso chegou a 75% no ano da posse do primeiro mandato, em 1995, e girou sempre em torno de 40%, permitindo que se reelegesse no primeiro turno. Mas, logo após a posse, em 1999, a desvalorização do real e os problemas econômicos levaram a uma queda de seu prestígio popular que permaneceu até o final.

A avaliação do desempenho de Fernando Henrique Cardoso piorou em agosto de 2002, em plena campanha eleitoral para a sua sucessão, com 49,6% desaprovando o seu desempenho. A economia é determinante na política em qualquer país. O expresidente George Bush pai chegou a ter mais de 80% de aprovação depois da Guerra do Golfo, e perdeu a reeleição para Bill Clinton por causa da economia, estúpido.

O eleitor e os eleitos ROBERTO DaMATTA

Em muitas capitais e outras cidades importantes, temos uma nova leva de prefeitos legitimamente eleitos, após uma competição na qual eleitores e eleitos se manifestaram livremente na busca de apoio e na apresentação de suas propostas. O liberalismo também obrigou a mostrá-los em debates e acusações, como manda o figurino (que está longe de ser perfeito, mas é o menos pior) da democracia moderna.

O resultado agregado do processo como um todo promoverá um novo mapa eleitoral que será avaliado e estudado pelos especialistas. Índices, coeficientes, percentuais, gráficos e outros códigos de entendimento desse nosso modo de escolher e legitimar administradores públicos serão os indicadores de novos (e velhos) debates, tendências e revelações. Como sempre, a realidade vai promover suas surpresas e introduzir novidades nesse rito eleitoral que transforma milhões de microescolhas individuais num resultado visível que confirma ou infirma velhas expectativas e doutrinas; que coroa um candidato, colocando o seu adversário num segundo lugar que, nessa etapa do ritual, significa simplesmente a pêra sempre dura de engolir.

Antigamente, o governante era um escolhido de Deus porque sua legitimidade era dada por descendência divina. As antigas realezas haviam nascido no outro mundo e os reis eram um dos mediadores mais importantes entre deuses e homens.

Em muitos casos, eram uma prova cabal de que, afinal de contas, nós — seres nutridos também e sobretudo a sofrimento e morte — não havíamos sido totalmente abandonados pela divindade que nos concedeu a graça de termos uma linhagem e governantes abençoada nos céus.

Hoje, essa legitimidade é feita pela soma de escolhas individuais dos cidadãos que votam individual e, supomos, autonomamente, e não em grupo ou família.

Numa ponta há um laço intransferível, porque pessoal, entre o eleitor e o seu eleito (o candidato); num outro pólo, há o agregado produzido pela reunião de todos os votos individuais que elegem ou não o postulante. A química divina dos antigos é hoje a famosa e não menos misteriosa passagem da quantidade para e qualidade. Receber mais votos qualifica e, mais que isso, consagra o eleito. No processo, a tal campanha eleitoral que em todo lugar tem o feitio de uma peregrinação do famoso (e no Brasil, do superior, chamado de “homem”) em busca do pequeno (chamado coletivamente de “povo”), demarca-se um campo de disputa. Um jogo que, dependendo da experiência e do modo pelo qual a sociedade demarca a competição, pode surgir como algo claro e cordial, como uma briga de faca ou, pior que isso, como um concurso de cinismo e de hipocrisia.

No meu humilde entender, o que tipifica o processo eleitoral no Brasil é a sua imagem como uma luta na qual os disputantes podem e devem vencer a todo custo. O que não pode ocorrer é a derrota, ainda lida como algo vergonhoso porque, segundo a nossa cabeça fechada por muitas camadas de aristocratismo mal criticado e recalcado, só se entra numa disputa eleitoral (entendida como luta pelo poder — palavra forte no nosso pobre vocabulário político) para ganhar! Ora, se o treco é competitivo, tem uma marca do imponderável, desenha-se como uma disputa com regras claras, acordadas pelos competidores, se o apelo é individual e a decisão é livre, como pode ser vergonhoso perder, a menos que se tenha uma mente fascista? Quando eu, ainda jovem, escrevi — movido pela indignação e pelo sentimento de justiça — uma carta aberta contra um conhecido político e intelectual que atacava a instituição na qual eu trabalhava e dava todas as minhas forças para tornar um centro de estudos digno desse nome; e vi essa carta ser usada contra mim, ouvi de muitas pessoas um conselho estarrecedor. Ora — diziam — o uso de sua carta contra você faz parte da “política”. E em política e no jogo do poder, acrescentavam, vale tudo! O realismo contido nessa experiência deu-me uma medida exata da má consciência com a qual ainda hoje lemos o campo do poder e a área da política. Ela sempre surge como um ator onipresente nas disputas eleitorais, revelando a nossa dificuldade em ver o outro como um concorrente e não como um inimigo.

Mostrando como acreditamos piamente que o tal poder não pode ser entregue a qualquer um, pois só nós — “eleitos” — somos dignos dele e temos o direito de utilizá-lo. Ora, se isso não é uma mostra de uma total segregação entre os chamados “homens”, os poderosos, (que um dia foram eleitos) e que, hoje, nos governam e nós, então eu quero ver minha avó andar de bicicleta! Se isso não é o pior dos fascismos, esse último reduto dos que ainda pensam que podem governar porque fizeram (ou são) algo que lhes deu um equivalente ao “direito divino”, então eu quero ser mico de circo! Que os perdedores recebam minha simpatia e os eleitos, os meus parabéns.

Desejo que o Rio de Janeiro e minha querida Niterói tenham o melhor.

Espero que todos cobrem não apenas as promessas e os programas, mas sustentem, como novidade, o laço. O elo sagrado de uma confiança entre o eleito e o eleitor, sem o qual não há democracia.

Um tiro no pé de salto alto José Nêumanne

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) demonstrou muita sagacidade quando disse, ao votar em São Bernardo, que ele mesmo não foi derrotado na eleição de domingo, já que nenhum candidato falou mal dele explicitamente. Foi esperto, mas também foi verdadeiro. Da mesma forma como verdadeira é a afirmação de seu principal adversário político hoje no País, José Serra (PSDB), ao constatar, de forma cartesiana e quase acaciana, que o presidente não foi derrotado, pois não foi candidato. René Descartes e o conselheiro Acácio usariam o argumento para concluir que, por igual razão, o governador de São Paulo não pode ser apontado como o maior vitorioso no pleito de domingo. De fato, o maior dos vencedores foi o prefeito Gilberto Kassab (DEM), que esmagou sua adversária, a ex-prefeita Marta Suplicy (PT), sob uma avalanche impressionante, ao estabelecer uma vantagem de 1,3 milhão de votos sobre ela, superando o feito de Serra quatro anos atrás.

Esta só será, porém, uma meia-verdade se quem a proferir não reconhecer a participação efetiva do titular da chapa pela qual Kassab chegou à Prefeitura da capital há dois anos. A gestão municipal atual atende pela denominação Serra-Kassab pelo óbvio motivo de que, mesmo sendo de partidos diferentes, o prefeito reeleito manteve as diretrizes do antecessor em praticamente tudo, a exemplo do que Geraldo Alckmin havia feito no Estado com o legado que recebeu de Mário Covas. Mas entre reconhecer esta obviedade e estabelecer qualquer conexão entre os resultados municipais e o que ocorrerá nas campanhas estaduais e federal de 2010 vai uma larga e tortuosa distância. Kassab poderá até cumprir sua promessa de trabalhar pela candidatura do tucano à Presidência, mas não basta ter triunfado agora para vir a ungir sozinho o vencedor de daqui a dois anos. Jânio derrotou Fernando Henrique numa eleição municipal, mas se aposentaria depois, enquanto o derrotado seria duas vezes presidente da República. Maluf elegeu-se prefeito e fez de um poste chamado Pitta o sucessor, mas nem por isso voltou ao governo do Estado pelo voto ou teve condições de disputar para valer o troféu federal. Serra ganhou a disputa estadual saindo da Prefeitura, mas só isso não bastará para realizar suas altas pretensões.

Quanto a Marta, bem, a ex-prefeita acaba de mostrar que tem alguma dificuldade para perceber os fatos políticos e aprender com eles. Há quatro anos ela era aprovada pela maioria do eleitorado no dia da eleição, mas perdeu-a para o ex-ministro da Saúde que, dois anos antes, havia sido derrotado por Lula na disputa pela Presidência. Em vez de fazer uma autocrítica penitencial de sua arrogância imperial, que era desconhecida da maioria dos paulistanos antes de sua plena exibição no exercício do poder no maior município do País, ela preferiu jogar a culpa da aparente contradição nas costas largas do eleitorado. Nunca teve coragem de dizê-lo explicitamente, mas se comportou de maneira a fazer crer que considerou a população ingrata por tê-la preterido ao mesmo tempo que a aprovava. E, após o fiasco nas urnas, correu da cidade, relegando-a à própria falta de sorte nos últimos meses da gestão, em fatídico exercício de uma vingança mesquinha e pouco inteligente. Teria contribuído para reduzir a alta rejeição que interrompeu uma gestão aprovada pela maioria se tivesse agido com mais humildade e sabedoria, purgando os próprios pecados para poder agora ressurgir das cinzas.

Beneficiária do hábito de Lula de dar prêmios de consolação a companheiros recusados pelo eleitor, assumiu o Ministério do Turismo e exibiu indelicadeza, desprezo pelo desconforto alheio e autoritarismo na famosa sentença - "relaxa e goza" - disparada contra as vítimas do Caos Aéreo Nacional, de plena responsabilidade do governo federal. A frase teria tudo para ornar sua lápide política se não fosse pelo fato de o forte PT não ter outro nome para a Prefeitura e ela e seus companheiros acreditarem piamente na amnésia crônica do eleitorado. Erraram: estilhaços da frase infeliz a prejudicaram.

Mas os tucanos ajudaram o PT a avaliar mal as chances dela quando, numa insensibilidade incrível, lançaram candidato próprio numa disputa que até os postes sabiam que se travaria entre Marta e o prefeito. Isso, porém, não ficou claro no início da campanha porque o eleitor não identificava a gestão municipal, que aprovava, com Kassab, mas com o número um da chapa dos dois em 2004, Serra. Só que um eficiente trabalho de comunicação, capitaneado pelo jornalista Luiz Gonzalez, tratou de colar a figura do prefeito na gestão. Alckmin ajudou na tarefa: além de se pretender candidato da situação se opondo ao prefeito, um breve contra a lógica, o ex-governador mirou neste para garantir a passagem para o segundo turno e, então, se aproveitar da rejeição da ex-prefeita. Com isso ajudou a fixar na memória do eleitor a identificação de Kassab com a gestão iniciada por Serra. Tudo funcionou com tal sincronia que, para espanto generalizado, Marta, que chegou a pensar em ganhar no primeiro turno, ficou em segundo, com Kassab à sua frente. Esta surpresa desestabilizou a campanha dela a ponto de levá-la a estraçalhar o próprio currículo de defensora das minorias ao permitir em sua propaganda eleitoral uma insinuação insidiosa sobre o estado civil e a falta de prole do adversário: um tiro no pé calçado em salto alto.

O sórdido lance sibilino pode até não ter produzido todo o efeito maligno que se imagina na avalanche de votos que sepultou suas intenções de voltar à Prefeitura já. Devem-lhe ter sido mais fatais sua fé na transferência de prestígio de Lula para ela e a estratégia estulta, do ponto de vista da comunicação, de "desconstruir" o adversário atribuindo os próprios preconceitos ao eleitorado. Agora, para sobreviver a esta hecatombe Marta terá de aprender a respeitar os adversários e, sobretudo, os eleitores.

Como se nada fosse mudar O Estado de S. Paulo EDITORIAL,

Encerradas as eleições municipais, as especulações sobre as conseqüências de seus resultados para a sucessão presidencial de 2010 inundaram imediatamente o noticiário político dos jornais, rádios e televisões. A questão dominante é como se comportará o PMDB. O principal partido da coalizão lulista foi aclamado como o grande vencedor do ciclo eleitoral do ano, por ter acrescentado duas importantes capitais como Rio de Janeiro e Salvador ao seu disseminado patrimônio de um milhar de prefeituras em cidades pequenas e médias. É essa situação "nova, privilegiada", diz o presidente da sigla, deputado Michel Temer, com algum exagero, que a torna "peça política indispensável em qualquer conversa séria sobre 2010".

Mas, fosse o PMDB uma agremiação inteiriça e não apenas o maior conglomerado promotor de interesses fisiológicos do sistema partidário nacional, cujos cálculos de conveniência são uns na esfera federal e outros conforme os Estados e os municípios, decerto seria mais instrutiva essa conversa. E teria outro sentido implícito a expressão "noiva cobiçada", como já se fala da legenda, em alusão às expectativas, seja do governo, seja da oposição, de contar com a sua máquina para a próxima eleição presidencial. Aqui e ali, ouvem-se peemedebistas desejando dar ao partido uma identidade programática para resgatá-lo do oportunismo mais crasso.

É o caso do prefeito reeleito de Porto Alegre, José Fogaça. Ele reconhece que o PMDB não é levado a sério porque não tem unidade e, apesar do seu estoque de votos, está fadado a ser coadjuvante ou do PSDB ou do PT. Mas, para a imensa maioria de suas figuras de destaque, de dentro e de fora do governo Lula, isso pouco importa, desde que o partido a quem se aliem as recompense adequadamente. Em São Paulo, por exemplo, o ex-governador Orestes Quércia, que se acertou com o atual, José Serra, para apoiar a candidatura do prefeito Gilberto Kassab à reeleição, diz candidamente que a aliança já pressupunha um "entendimento sobre 2010" - ele para senador e Serra para presidente.

Já na Bahia, o ministro peemedebista da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, cujo correligionário João Henrique se reelegeu prefeito de Salvador (apoiado no segundo turno pelo DEM) contra o petista Walter Pinheiro, defende a manutenção da aliança com o PT para a sucessão de Lula, com o presidente no papel de "grande fiador", e cada qual por si na disputa concomitante pelo governo do Estado. Mas, onde quer e em que sentido se manifestem, os políticos parecem se preparar para o futuro como se o Brasil destes próximos dois anos pudesse continuar sendo o mesmo dos seis anos precedentes - os da era Lula.

Na realidade, como dizia o governador Serra, ontem, ao Estado, ainda falta muito para 2010. Não pelo transcorrer do tempo em si, mas pelo impacto sobre o processo político da crise econômica incomum que já se instalou e que os partidos parecem ignorar nas suas maquinações. A reviravolta no cenário de bonança, entre outros efeitos, obrigará o presidente a governar, como diz o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), e desafiará a oposição a assumir finalmente esse papel, o que a rigor só aconteceu na era Lula quando a questão em jogo dizia respeito à corrupção. Agora, caberá ao bloco oposicionista formular alternativas para circunscrever até onde é possível o contágio da crise, começando pela apresentação de mudanças substanciais à MP 443, a que dá ao Banco do Brasil e à Caixa o poder de comprar instituições financeiras e empresas em geral.

"Teoricamente", diz o presidente, "esta crise pode causar problemas ao Brasil." Não é teoricamente, de forma alguma. O País "não é aquilo que se disse inicialmente ou se deu a entender", contrapõe o governador Serra, "uma espécie de ilha de tranqüilidade num mar de tempestades". A asfixia do crédito, noticiou ontem este jornal, acertou em cheio, por exemplo, o setor sucroalcooleiro, no qual 75% das empresas já não conseguem pagar os salários em dia. Enquanto isso, os políticos não dão sinal de atentar para a conjuntura adversa nem tampouco para as suas repercussões eleitorais - certamente muito mais decisivas do que as que poderão resultar das, na realidade, insignificantes variações do equilíbrio de forças partidárias produzidas pelo pleito de domingo.

Os perigos do e-lixo Os perigos do e-lixo Tamanho do texto? A A A A

O avanço acelerado da tecnologia e o acesso fácil a equipamentos eletrônicos têm aumentado muito a produção, no Brasil, do chamado e-lixo, sucata que inclui desde microcomputadores até CDs, telefones celulares e pilhas, materiais com alta concentração de metais pesados, danosos ao meio ambiente e à saúde humana. Há mais de 130,5 milhões de telefones celulares hoje no País, aparelhos que são usados, em média, durante dois anos, trocados por outros e sucateados. Os computadores já são 50 milhões, número que deve chegar a 100 milhões em 2012, nas empresas e residências, e que são trocados a cada quatro ou cinco anos, transformando-se então em lixo, quase sempre com destinação incorreta.

Num esforço para conscientizar a sociedade sobre esse problema, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SMA) promoverá, nesta quinta-feira, em 372 municípios paulistas, o Mutirão do Lixo Eletrônico. Duas mil caixas de coleta serão instaladas nas cidades que aderiram à iniciativa. Em parceria com o governo do Estado, uma empresa de transporte e logística recolherá o material e o entregará a uma companhia especializada nesse tipo de reciclagem.

Pilhas, baterias, celulares, computadores, televisores, rádios, DVDs, CDs, lâmpadas fluorescentes e outros produtos formam o e-lixo que nos aterros comuns liberam substâncias como chumbo, cádmio, arsênio e mercúrio - metais pesados responsáveis por vários tipos de câncer, problemas do sistema nervoso central, dos rins, do fígado, dos pulmões, além de provocar má-formação de fetos em mulheres grávidas. Esses metais pesados se infiltram no solo, comprometem os mananciais e, assim, entram na cadeia alimentar. Além do que, equipamentos eletrônicos são normalmente de PVC e demandam séculos para se decompor.

Livrar o meio ambiente e a saúde pública dessa sucata se torna cada vez mais urgente, mas, apesar da rápida evolução do mercado de eletrônicos no Brasil, ainda não existe uma legislação que regulamente com eficácia o descarte dos produtos eletrônicos, fixando responsabilidades para evitar sua destinação inadequada.

O Brasil consome, anualmente, 1,2 bilhão de pilhas e 400 milhões de baterias de telefone celular. Das pilhas comuns, vendidas no País, estima-se que 40% sejam falsificadas, produzidas sem o menor cuidado e com teor de metais pesados superior ao permitido pela Resolução nº 257, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) - único instrumento legal sobre o emprego de substâncias tóxicas em pilhas e baterias e que obriga os fabricantes a manter coleta desses produtos e a encaminhá-los para reciclagem.

Regras tímidas, trabalho de conscientização esporádico e fiscalização praticamente inexistente agravam um problema que cresce em progressão geométrica. Apenas alguns fabricantes de telefones celulares instalaram em suas redes de assistência técnica o serviço de coleta de baterias usadas.

Essas ações isoladas só apresentarão resultados satisfatórios se uma campanha de conscientização for mantida para convencer consumidores a não enviarem esses produtos para aterros sanitários e lixões. Parcerias com o comércio varejista, com empresas de transporte público e com prefeituras podem permitir a instalação de caixas de coleta desses produtos em pontos de grande concentração de pessoas, como vem sendo feito pela Prefeitura de São Paulo, mas precisam ter sua função e seus endereços mais bem divulgados. Os contratos com as empresas de coleta de lixo também precisam contemplar a necessidade de segregar e descartar adequadamente essa sucata.

Aqui na capital, durante o Mutirão do Lixo Eletrônico, caixas de coleta serão instaladas em estações do Metrô, da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e em terminais da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (Emtu). Lojas da rede Carrefour, parques, órgãos do governo, subprefeituras e empresas também funcionarão como postos de coleta. Mas essa iniciativa não pode se restringir a um único dia no Estado de São Paulo apenas. Precisa se alastrar pelo País inteiro.

Diplomacia da inconseqüência O Estado de S. Paulo EDITORIAL,

A idéia de propor à ONU uma reunião de chefes de governo para discutir punições para os especuladores foi a única surpresa na conferência de ministros e presidentes de bancos centrais de 12 países sul-americanos, em Brasília, na última segunda-feira. Foi uma surpresa não por ser uma tolice, algo normalíssimo nesses encontros, mas porque é difícil prever até onde pode chegar o desvario de certos políticos da região. A sugestão foi apresentada - como não podia deixar de ser - pelo ministro de Finanças da Venezuela, Alí Rodríguez, e mencionada em linguagem vaga no comunicado final - um conjunto de dez parágrafos notavelmente fiéis à irrelevância do encontro.

Para o Brasil, essa reunião no Itamaraty só poderia ter, objetivamente, duas serventias. Os ministros da Fazenda e do Exterior poderiam combinar medidas contra uma invasão de produtos chineses, desviados de grandes mercados em recessão, e comprometer-se a não tomar novas medidas protecionistas contra os parceiros sul-americanos. As duas decisões pareciam altamente improváveis desde a proposta do encontro.

Nenhum dos dois pontos foi acertado. O ministro de Relações Exteriores da Argentina, Jorge Taiana, defendeu a elevação da Tarifa Externa Comum (TEC) do Mercosul para têxteis, móveis e produtos de couro. Mas nada foi combinado entre os 12 governos da região e esse detalhe nem consta do comunicado final. Além disso, Taiana reafirmou a disposição de seu governo de ampliar as barreiras contra produtos brasileiros. Ele cobrou do Brasil a regulamentação do Acordo de Adaptação Competitiva, uma aberração acordada em 2006 pelos governos dos dois países.

Segundo os ministros, "o comércio regional é um patrimônio valioso para todos os países da região", informa o comunicado. Mas em seguida vem a ressalva: "Não obstante, coincidiram na conveniência de realizar um monitoramento dos possíveis impactos da crise tanto nos mercados financeiros locais como nos níveis de produção e emprego." Em outras palavras: todos se reservam o direito de criar ou elevar barreiras comerciais contra os parceiros sul-americanos segundo as conveniências do momento.

Falou-se também vagamente sobre o uso de moedas nacionais no comércio entre todos os países da região, segundo o modelo já adotado oficialmente no intercâmbio Brasil-Argentina. A idéia pode ter alguma utilidade, mas com certeza muito limitada para os países de comércio mais diversificado - caso do próprio Brasil. A maior parte das importações brasileiras é originária de fora da América do Sul e o País precisa de dólares para sustentar esse comércio.

A maior parte da reunião foi dedicada principalmente à repetição da retórica sul-americana de integração regional. Voltou-se a falar da integração financeira e alguns ministros insistiram na ativação, no menor prazo possível, do Banco do Sul, "com vistas ao desenvolvimento mais harmônico, eqüitativo e integral da América do Sul". Como de hábito, os ministros da Venezuela e da Bolívia foram os que mais se empenharam na defesa desse objetivo. O Banco do Sul foi proposto inicialmente pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela, com apoio imediato do colega argentino Néstor Kirchner. O governo brasileiro resistiu à idéia no começo, mas acabou aderindo oficialmente. As discussões para formação do banco têm progredido com muita lentidão. Para o Brasil, não há interesse objetivo na constituição do Banco do Sul, mas o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca se dispôs a liquidar o assunto.

Sem competir com a proposta venezuelana de buscar punição para os especuladores internacionais, o governo brasileiro aproveitou a conferência para uma sugestão bem mais modesta, mas igualmente inócua: convocar o Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (Ecosoc) para um debate sobre a reforma do sistema financeiro internacional.

Essa proposta não tem o mínimo sentido prático. Uma reunião do Ecosoc, mesmo em nível ministerial, não produziria mais que discursos típicos de assembléias estudantis. Foros muito mais conseqüentes, como o Grupo dos 8, o Grupo dos 20 e o Fundo Monetário Internacional, já incluíram o tema na agenda. Se alguma inovação importante ocorrer, será a partir desse esforço. Depois de quase seis anos de governo, Lula deveria saber disso.

Virando a mesa Celso Ming

Com boa ajuda do Banco Central (BC), alguns dos maiores bancos brasileiros conseguiram reverter uma crise que poderia assumir proporções perigosas.

Na semana passada, houve princípio de corrida aos passivos de alguns dos principais bancos, acionado pela boataria e, principalmente, pela desinformação.

A questão mais séria não foi o envolvimento do setor com operações hipotecárias de alto risco no exterior. Foi a exposição a operações com derivativos no câmbio futuro. O imaginário compôs um quadro em que um punhado de grandes bancos tomou posições na perna errada da aposta cambial e caminhava vertiginosamente para o precipício.

A resposta do Unibanco e do Itaú, dois dos visados pela boataria, foi acionar o que tem de ser feito nessas horas. Apelaram para a transparência e abriram suas contas. Anteciparam a divulgação dos balanços trimestrais e deram ampla publicidade às suas posições com derivativos de câmbio. O Bradesco não precisou antecipar seu balanço, mas também cuidou de que nenhuma dúvida pairasse sobre o assunto.

Com isso, o banqueiro brasileiro, que cultiva um vício dos tempos em que a capacidade de enrustir era tida como virtude, deve ter entendido que é preciso ser mais franco com a sociedade e com o mercado.

O BC contribuiu decisivamente para dissipar as especulações ao trabalhar com eficiência o número mágico que circulava na praça. Não eram US$ 50 bilhões as posições a descoberto com derivativos de câmbio? Pois, então, o mercado tem à disposição US$ 50 bilhões em títulos de dívida com correção cambial. Com isso, as águas do câmbio podem agora voltar ao leito anterior do rio.

É cedo para tirar outras lições dos desdobramentos da crise até aqui, mas há pelo menos três avaliações a fazer.

A primeira é a de que o governo exigiu coisas incompatíveis. De um lado, pretendeu que grandes bancos comprassem carteiras de crédito de pequenos e médios (há cerca de cem deles no País) e, ao mesmo tempo, reativassem suas próprias linhas de crédito. Assim, além de manter munição para combater a corrida a seu caixa, os bancos precisavam juntar recursos para comprar carteiras de empréstimo. Convenhamos que, assim, a reativação do crédito fica mais difícil.

De outro lado, o BC conseguiu quebrar o tabu de que o compulsório (dinheiro do depositante que deve ser recolhido ao BC) mais alto do mundo (45%) pode ser reduzido sem que o sistema bancário desmorone.

Os bancos puderam reduzir suas reservas (outro nome para o compulsório) desde que comprassem carteiras de crédito de outros bancos. Também foi incentivada a incorporação de instituições financeiras com crise de liquidez.

O resultado dessa ação em pinça será forte concentração bancária, tanto no setor público como no privado. É um processo que parece inevitável. Mas a principal conseqüência será a redução da competição, que se pretendia ampliar para que pudessem cair também o spread (diferença entre juros de captação e juros nos empréstimos) e as tarifas, dois componentes que vêm aumentando substancialmente o custo de produção no Brasil.

Confira

Subindo - O Banco Central argentino vai tendo dificuldades para evitar a escalada do dólar no câmbio local. Apenas em outubro, a moeda americana já subiu 7,6% em relação ao peso.


Essa alta empurra as exportações. No entanto, a queda dos preços em dólar das commodities é maior do que a desvalorização cambial na Argentina.

O maior impacto dessa queda de preços ocorre na área fiscal. É o governo perdendo receitas com o Imposto de Exportações (retenciones), que correspondem a cerca de 13% de uma arrecadação anual de cerca de US$ 100 bilhões. E isso tem conseqüências políticas.

A hipocrisia e o mito da ''verdadeira América'' Rosa Brooks*

Os EUA hoje se parecem cada vez menos com os país que os fabricantes de mitos do Partido Republicano costumam enaltecer. Sarah Palin diz que ela e John McCain acreditam "que a melhor parte dos EUA está nas cidadezinhas, nos maravilhosos pequenos redutos do que se pode chamar de ?os verdadeiros EUA?, onde todos trabalham duro e são patrióticos".

Pois é. Recentemente, Sarah abandonou esse tipo de comentário, mas a equipe da campanha republicana e até mesmo McCain continuam insistindo nessa mensagem: Algumas partes do país - e alguns americanos - são mais autênticos e "pró-EUA" do que outros.

Dias atrás, por exemplo, a assessora de McCain, Nancy Pfotenhauer, sugeriu que, embora a Virgínia do Norte possa ter-se tornado "mais democrata", "a Virgínia verdadeira" ("a parte do Estado cuja natureza é mais sulista") "responderá generosamente ao apelo de McCain". O deputado republicano Robin Hayes, da Carolina do Norte, chegou a dizer num comício de McCain: "Os liberais odeiam os verdadeiros americanos que trabalham, que realizam, que cumprem, que acreditam em Deus."

Hayes, como Sarah, posteriormente abjurou seus comentários. Mas em seguida, no oeste da Pensilvânia - uma das poucas partes do Estado em que Barack Obama não tem nítida vantagem -, McCain fez um discurso parecido: " Essa é a parte dos EUA que mais ama a Deus, a mais patriótica", disse.

A retórica e os símbolos republicanos não são difíceis de desvendar: Há os EUA que poderão votar em Obama (uma parte suspeita do país, povoada por liberais com a moral típica das grandes cidades, e, indubitavelmente, pele escura), e há os "verdadeiros" EUA, onde as pessoas moram em cidadezinhas, acreditam em Deus e na pátria, e são ... ahn, brancas.

Tal retórica não é uma novidade. Mas a cada ano que passa, os EUA "autênticos" do mito republicano assemelham-se cada vez menos aos EUA da maior parte da população do país. Cerca de 80% dos americanos vivem em áreas metropolitanas e não em cidadezinhas. Hoje um terço pertence a minorias étnicas e raciais e esse percentual está crescendo.

Ainda, embora 88% dos americanos acreditem em Deus, 70% acham que as outras religiões constituem caminhos igualmente válidos para chegar à revelação. E embora 59% dos americanos achem que usar um broche com a bandeira americana é uma forma decente de mostrar seu patriotismo, um número maior (66%) acha que protestar contra políticas de seu governo às quais se opõe também é ser patriota. Por fim, mais da metade dos americanos diz que prefere o Partido Democrata ao Republicano.

Considerando tudo isto, por que a equipe de McCain e Sarah insiste em dizer que os EUA onde vive a maioria do eleitorado não são "autênticos"? Há algum tempo, o Partido Republicano tem perdido o sentido da verdade. "Quando agimos, criamos nossa própria verdade", disse um "assessor sênior de Bush" (supostamente Karl Rove) a um jornalista, em 2002.

É preciso saber disso para entender a convicção do ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld - compartilhada por McCain - de que os americanos seriam "saudados como libertadores" no Iraque. Para os republicanos, o Iraque que se revoltou contra a ocupação não era o "verdadeiro" Iraque.

Estamos vendo a mesma patologia na campanha de McCain e Sarah. Ambos olham para os EUA e vêem o que gostariam que existisse ali (e não o que existe de fato): uma América na qual eles serão saudados como os libertadores e os justos herdeiros do manto da liderança. Afinal, os EUA têm sido governados por anglo-saxões brancos por mais de dois séculos e, durante a maior parte dos últimos 40 anos, por republicanos. Mudar isso é quase impensável. Então a equipe de McCain elimina a parte inconveniente dos EUA - a que não é verdadeira, não pode ser real.

Não deixo de sentir pena deles. Apesar da raiva e da retórica do "nós contra eles", há nos comícios de McCain uma palpável sensação de deslocamento: a ansiedade dos que percebem que as coisas estão escapando do seu controle, que o mundo está mudando depressa demais e de forma desconfortável.

Mas sempre foi assim. Nossa cultura foi construída por sucessivas levas de imigração e moldada por guerras, levantes sociais e crises econômicas. Cada onda de mudanças foi penosa para os que estavam acostumados ao seu status quo - mas também nos tornou uma nação mais rica e mais forte.

Esses são os verdadeiros EUA: uma terra de mudanças e de perpétua renovação. E é isto que devemos defender.

*Rosa Brooks, especialista em Direito, escreveu para ?The Washington Post

DORA KRAMER O infiel da balança

O infiel da balança


A dinâmica eleitoral obedece mais ou menos à lógica das escolas de samba: quando um carnaval termina, os barracões engatam de imediato os preparativos para o próximo desfile.

Os principais partidos, PT, PSDB e PMDB, estão assim. Os ossos ainda nem foram contados, as feridas estão quase todas abertas, há cadáveres mal sepultos por todo lado, mas a próxima eleição já põe os três em estado de total estica e puxa.

Na realidade, petistas esticam e tucanos puxam, porque o PMDB, tranqüilo, tamborila sobre a mesa (de negociações?) os dedos da vitória como quem diz, ao molde do velho ACM, que eleição sem ele agora mesmo é que não vale.

E não se fala aqui apenas da presidencial, pois o partido está com tudo também nas disputas pelo comando da Câmara e do Senado. Com uma diferença crucial: no Legislativo ambiciona à ocupação das presidências, enquanto no Executivo pretende continuar sendo um coadjuvante mais e mais privilegiado.

Quem ouvir um pemedebista falando em candidatura própria para 2010 estará diante de um ilusionista ou de uma voz isolada. No conjunto, o interesse partidário é se firmar no lugar de parceiro cobiçado pelas forças de governo e oposição, ficando assim nesse lá e cá alternando desequilíbrios ao sabor das melhores circunstâncias.

Não adianta cobrar nem tentar adivinhar definições desde já. Oficialmente, o PMDB continua um parceiro fidelíssimo do governo Luiz Inácio da Silva, entre outros motivos porque não há razão para abrir mão de dois anos de proveitosa convivência com o poder.

Situação que não o impede de conversar com tudo e todos, se aliar ora com um ora com outro sem sofrer por causa disso nenhum tipo de admoestação nem correr qualquer risco de perder seus postos federais.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, tentou até simular autoridade sobre o companheiro de aliança quando pede a petistas e pemedebistas que tenham "juízo" na manutenção de uma política de boa vizinhança. Pura cena. Se alguém precisa de bom senso é o PT para não se atritar com o PMDB mais do que já se atritou na eleição municipal.

Em caso de dúvida, basta lembrar que foi o PMDB e não o PT quem impôs ao presidente Lula o roteiro dos palanques proibidos durante a campanha e, no fim, ainda comemorou junto com o PSDB a acachapante derrota sofrida pelo PT em São Paulo, enquanto o Palácio do Planalto assistia a tudo bem calado.

Não por gesto de espontânea elegância, mas por absoluta falta de alternativa.

Correção de rumo

Os receios sobre os efeitos eleitorais da crise financeira de modo geral se justificam. Só extrapolam o limite do razoável quando dão às dificuldades um caráter de ineditismo.

Nos últimos anos, o Brasil só passou por eleições em ambiente de tranqüilidade na economia em 2006. Em 1994 o Plano Real era um experimento, em 1998 a política econômica foi virada do avesso, em 2002 a vitória próxima do PT fez retroceder os bons indicadores e, antes disso, a inflação presidiu todos os pleitos.

De dois dias para cá, o governo federal caprichou no pessimismo em relação aos efeitos da crise. Como nada aconteceu de novo nesse meio tempo, parece estratégia para inversão de expectativas, fruto do evidente mau conselho dado pelo excesso de otimismo em relação ao resultado das eleições municipais.

Infalível

Muito mais significativo que listas de vencedores e vencidos - cuja validade depende das circunstâncias - é o efeito de vitórias e derrotas sobre determinadas situações partidárias.

O fracasso de Marta Suplicy fez desaparecer aquele clima de carinho da primeira fase da campanha em que a então candidata exibia contente o "companheiro Lula" como o melhor cabo eleitoral para chamar de seu.

Hoje o ambiente é de puro fel, com troca de acusações e caça a culpados inexistentes quando Marta saía pelas ruas cantando e dançando, confiante, ironizando as brigas internas no campo adversário, indiferente ao enorme índice de rejeição que já lhe dava notícias sobre as agruras a serem produzidas pelas urnas.

Do lado contrário, o sucesso de Gilberto Kassab deu sumiço às animosidades entre os tucanos que durante mais de seis meses produziram um espetáculo de autofagia cheio de cenas de insultos, mau-caratismo, cinismo, cobiça, traição e zero grau de compostura.

Agora o recinto recende a mel. Todos são amigos, defensores empedernidos de Kassab, seguidores fiéis da candidatura José Serra, analistas de primeira hora sobre "o inequívoco" fortalecimento do governador de São Paulo, até outro dia alvo de criteriosa desqualificação por parte dos mesmos personagens.

Mais que inerente à atividade política, o oportunismo é atinente à natureza humana. E esta, se por vezes tarda, nunca falha.

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