Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 07, 2010

Por pontos MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/08/10

O clima morno, quase anestesiante, imposto ao debate da TV Bandeirantes pelos dois principais concorrentes à Presidência da República, na noite gélida de quinta-feira em São Paulo, parece ter sido fruto de um acordo de bastidores, pois interessava aos dois lados.
O tucano José Serra, com maior domínio cênico pelo hábito de participar de debates televisivos e pela própria experiência em campanhas, saiu-se melhor, mas não se arriscou a procurar um nocaute da sua contendora, talvez contando que ela se enrolasse nos próprios erros — o que realmente aconteceu, mas não ao ponto de inviabilizá-la.

A candidata oficial Dilma Rousseff estava nervosa, dava para sentir na abertura do debate, mas terminou razoavelmente bem, com algum controle da situação que lhe permitiu até ser irônica a certa altura, quando disse que “não achava prudente” esquecer o passado, numa alusão ao governo FHC.

Mas houve quem cronometrasse: Dilma levou uma hora e meia para falar pela primeira vez em Lula.

Nos bastidores, a questão era uma só: o que estava por trás desse aparente esquecimento? A resposta era dada pelos próprios petistas. Dilma queria marcar uma imagem de independência.

Mas no encerramento, que pode ser considerado bom para seus objetivos, foi quando falou mais longamente da experiência de trabalhar com seu líder Lula, e chegou a demonstrar toda a veneração que nutre por aquele que está lhe dando a chance de uma vida.

Para seus seguidores, não deve ter sido constrangedor tamanha submissão.

A jornalista Olga Curado, responsável pelo media training de Dilma, tem o que comemorar: sua pupila está aprendendo.

Mas como ficou claro que ainda tem muito a aprender, Olga pode ficar tranquila que tem emprego garantido pelo resto da campanha.

A indecisão inicial de Dilma, e mais a radicalização do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, provocaram um comentário maldoso que o dirigente do Partido Verde Alfredo Sirkis atribuía a um presente não identificado, provavelmente para não assumilo diretamente: “O Plínio está gagá e a Dilma, gaga”.

De fato, a candidata de Lula chegou a gaguejar em vários momentos do debate, principalmente no início, quando teve dificuldades de começar a falar, deixando um silêncio no ar que pareceu demorar vários minutos.

Já o candidato do PSOL resolveu assumir o papel de “macaco em casa de louças”.

Plínio quer se apresentar como alternativa, mas, com posições políticas mais à esquerda do que o PSTU, não parece uma possibilidade real de poder.

Plínio foi ao debate para afirmar sua posição socialista, e parecia ter entrado na máquina do tempo para voltar à época em que foi um dos fundadores do PT.

Atingiu o auge da dessintonia com a realidade quando, dirigindo-se às câmeras, chamou a atenção para algum fato “de você camponês que nos vê”.

Passava da meia-noite, e nem mesmo o trabalhador paulistano que tem televisão devia estar sintonizado no debate da “Bandeirantes”, que terminou com cerca de 2% de audiência.

Imagine o camponês do Plínio, a quem ele anunciava que seu projeto de impedir propriedades privadas de mais de mil hectares provocaria uma farta distribuição de terras para os pequenos lavradores.

O interessante é que todos os candidatos discordaram da proposta do PSOL, mas não houve nenhum que tivesse a coragem de explicitar que a medida destruiria o agronegócio brasileiro, o grande sustentáculo da economia do país.

Paradoxalmente, depois do debate Plínio aderiu ao Twitter, modernizando a maneira de divulgar suas ideias antigas. Virou uma febre no Twitter, e corre o risco de se transformar no Cacareco moderno.

A radicalização de Plínio favoreceu Dilma, que pode se colocar como uma moderada diante daquela série de propostas radicais anacrônicas, mas prejudicou a candidata verde Marina Silva, que não encontrou seu espaço entre PT e PSDB para se apresentar como uma alternativa viável.

Serra saiu-se bem, sem parecer arrogante ou querer sobressair-se muito, contido de maneira pensada.

Em algumas ocasiões, no entanto, não conseguiu disfarçar o menosprezo pelo que diziam seus adversários.

Ficava de costas para eles, olhando para a plateia, mas para sua sorte as regras do debate não permitiam que as câmaras mostrassem a reação dos candidatos quando alguém estava falando.

Serra conseguiu defender o governo de Fernando Henrique Cardoso sem prejudicar sua intenção de falar mais do futuro do que do passado, e mesmo quando Dilma falou do número de empregos criados no governo Lula em comparação com os do governo FHC, não houve dano para o tucano, que conseguiu colocar os números dentro do contexto da economia internacional.

Dilma, no entanto, demonstrou claramente que encaixara um golpe ensaiado com o marqueteiro João Santana. Fora do alcance das câmeras, ela sorriu com malícia para seus assessores logo depois de citar os números.

Entre os assessores estava o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, que acabou virando tema de uma das melhores intervenções de Serra, que lembrou que Palocci elogiava a política econômica tucana quando ministro.

Serra escorregou feio quando se referiu a propriedades de 80 hectares na reforma agrária do Chile como sendo, no Brasil, de “chácaras de fim de semana”.

Em que mundo o candidato José Serra vive, em que as “chácaras de fim de semana” têm 800 mil metros quadrados?

Superávit imaginário EDITORIAL O ESTADO DE SÃO PAULO

07/08/10


Tudo indica que o governo está escondendo o jogo com relação às contas públicas. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, afirma categoricamente que o setor público (União, Estados, municípios e empresas estatais) cumprirá a meta de superávit primário de 3,3% do PIB. O ministro Guido Mantega, porém, já deixou entrever que podemos não chegar à "meta cheia". Isso pode significar que, nos últimos meses de 2010, ou seja, decorrido o período eleitoral, o governo fará o arranjo que lhe parecer mais conveniente para disfarçar o descumprimento da meta. Para muitos analistas, a dúvida está em saber que tipo de casuísmo contábil o governo vai colocar em prática este ano.

Se a economia estivesse crescendo no mesmo ritmo do primeiro trimestre, a arrecadação poderia amenizar o problema, mas essa saída é cada vez mais improvável. Embora os últimos números não tenham sido divulgados, o Tesouro já admite que, com o relativo desaquecimento da economia, a arrecadação federal deixará de bater recordes a cada mês, como vinha ocorrendo. Pela mesma razão, as receitas dos Estados e municípios tenderão a ser menores, o que se refletirá em sua contribuição para o superávit.

Se desse lado a situação não é tão confortável como o governo desejaria, as despesas correntes tomaram o espaço das disponibilidades para investimento, especialmente no tocante às empresas estatais. Previa-se que as empresas sob o controle do governo apresentassem, em termos primários, um saldo positivo de 0,20% do PIB (R$ 7,04 bilhões) em 2010, mas o que se verifica é que, no primeiro semestre, elas apresentaram um déficit de R$ 1,96 bilhão, correspondente a 0,12% do PIB, que dificilmente será revertido, se obedecidos seus cronogramas de investimentos.

Segundo dados do Ministério do Planejamento, as estatais investiram R$ 37,9 bilhões no primeiro semestre, uma expansão de 27% com relação aos primeiros seis meses de 2009. Mas o grosso deve ser gasto na segunda metade do ano, uma vez que os investimentos das estatais, apesar desse grande aumento, só alcançaram 40% da dotação orçamentária de R$ 94,4 bilhões. O Grupo Eletrobrás, por exemplo, investiu R$ 1,7 bilhão nos últimos seis meses, mas a intenção é acelerar os seus investimentos, que poderão somar R$ 9 bilhões até o fim do ano, não se sabendo se isso inclui as aventuras internacionais que a estatal planeja.

Uma forma de driblar esse obstáculo seria excluir a Eletrobrás das contas do setor público, a exemplo do que já foi feito com a Petrobrás. Assim, não se teria de cortar fundo nos investimentos para cumprir a meta ou chegar próximo dela. O governo tem ainda outros truques na cartola. Um deles seria abater da meta de superávit 0,9 ponto porcentual do PIB, taxa que, alegadamente, corresponderia a um excesso de investimentos no PAC. Outra opção seria usar os recursos do Fundo Soberano do Brasil (FSB). Um dos sustentáculos do FSB, como anunciou o governo, seria um superávit nominal das contas públicas (receitas menos todas as despesas, inclusive juros). Acontece que, em termos nominais, o setor público apresenta um déficit de 3,02% do PIB nos últimos 12 meses terminados em junho. Esses expedientes, portanto, pertencem ao reino da imaginação.

O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, tem razão para ser cético. Sua estimativa é de que o superávit primário ficará em 2% do PIB este ano, taxa muito próxima da que se verificou nos últimos 12 meses (2,07% do PIB), se não houver um fator extraordinário - como foi no ano passado a apropriação contábil, para efeito do cálculo do resultado das contas públicas, dos depósitos judiciais, e este ano pode ser o FSB. Velloso considera que o governo, se achar que essa taxa é muito baixa, poderia reduzir os investimentos, elevando o superávit primário para 3% do PIB.

Isso, porém, é altamente improvável em um ano eleitoral. O governo, por certo, vai dar um jeito de maquiar as contas públicas. Retornar à estabilidade fiscal, de modo a garantir o crescimento sustentável, permanecerá como desafio para o seu sucesso

Dora Kramer Debate ainda é o melhor remédio

O Estado de S.Paulo - 07/08/10\



Quem se saiu melhor no debate - eis a questão, cuja resposta depende do critério usado para o julgamento.

No quesito figura mais vistosa em cena Dilma Roussef venceu, bem como Plínio de Arruda Sampaio arrebatou primeiro lugar em matéria de desenvoltura, Marina Silva confirmou-se imbatível em elegância de expressão verbal, mas José Serra foi de longe o mais "presidente", com domínio absoluto sobre o conteúdo dos assuntos debatidos e a forma de apresentá-los.

Não há sequer termos de comparação, é a constatação do óbvio até pelas diferenças de carreira, trajetória e experiência entre os quatro concorrentes à Presidência da República.

Ocorre que para ganhar eleição não basta ser o melhor, é preciso conquistar o racional e tocar no emocional das pessoas para convencê-las de que será capaz de ser o melhor para elas. Isso nem sempre guarda relação com atributos de qualificação.

No último debate de 2002, por exemplo, era evidente a superioridade qualitativa de José Serra sobre Luiz Inácio da Silva. Mas o eleitor queria votar em Lula e dali a dois dias assim o fez de acordo com a percepção de que encarnava seus desejos naquele momento.

E agora, qual é essa demanda, continuidade? Serra não desmontou o atual governo, mas apontou falhas de procedimentos importantes, enquanto Dilma puxou para si as realizações entendidas como positivas. O problema é que para explicar isso usava termos como "oligopolizados" e "spread" sem explicar do que se tratava.

O importante no debate da Band foi que houve o encontro face a face entre os candidatos e isso se deu de maneira civilizada e até proveitosa não obstante as regras que buscam evitar a possibilidade de imprevistos.

O debate entre candidatos ainda é o que melhor há na campanha para o cotejo do eleitorado e a exclusão de nanicos sem representação no Congresso, indispensável ao andamento dos trabalhos.

Dilma sobreviveu e saiu com uma vantagem: nos próximos três até a eleição só pode melhorar, tantos foram os erros de desempenho.

Nervosa, insegura, começou olhando durante sete segundos para a câmera sem perceber que deveria começar a falar, ficou quase de costas para o telespectador, não conseguiu dizer o que precisava no tempo regulamentar, foi prolixa, "numérica" em excesso e o sorriso confiante que a abandonou no segundo bloco não voltou a aparecer. Bem vestida, penteada e maquiada, mas antipática, sobressaltada e fora d"água.

Plínio foi o tempero que dá gosto e Marina não tem bossa suficiente para fazer o papel de coqueluche. O candidato do PSOL pode tomar o lugar dela na preferência dos alternativos e, infelizmente para Lula, é mais duro com o governo que todos os caciques e índios da oposição juntos porque fala com autoridade _ "quem fez o programa de reforma agrária do Lula fui eu" _ de petista de raiz.

sexta-feira, agosto 06, 2010

Barbas, cabelos e bigodes NELSON MOTTA

O Globo

Minha experiência pessoal com barba é péssima.

Uma única vez, num distante verão, tentei deixar crescer uma barba. Mas, depois de três semanas sofrendo com o calor, o suor e coceiras torturantes, raspei. Além de uma sensação de frescor e limpeza, passei a ouvir dos amigos que encontrava: “Você está parecendo mais jovem, fez botox ?” Tinha só tirado a barba.

Alguns usam a barba para melhorar o desenho do rosto, para encobrir lábios muito finos, ou grossos demais, ou disfarçar uma papada.

Uns, para se esconder, outros para se exibir. A verdade é que a barba protege bem o rosto em climas frios — mas é muito incômoda nos trópicos.

Esta chateação diária masculina, movida a espuma e gilete, ou ao zumbido do barbeador elétrico — e, pior, enfrentando o espelho — ou a opção preguiçosa ou vaidosa pelos pelos, virou uma questão política no Brasil.

A barba se tornou a cara do PT.

Nunca na história deste país um partido político, além de se apresentar como mais ético, honesto e solidário do que os outros, exibia a sua diferença com uma identidade visual — as barbas bravias de seus líderes e militantes, inspiradas nos barbudos de Sierra Maestra. Nos bares, surgia um novo tipo popular urbano: o “barbudinho do PT”. Se fosse marketing, a estratégia do branding capilar se tornaria um case de sucesso, paralelo à trajetória da barba de Lula, que de eleição em eleição foi sendo aparada e tratada, enquanto o sapo barbudo passava a príncipe barbado.

Quando o careca e barbeado Marcos Valério e o barbudo Delúbio fizeram coisas cabeludas no mensalão, os petistas puseram as barbas de molho. Os bigodudos Tarso, Luís Dulci e Mercadante queriam refundar o partido, mas as barbaças e barbichas sindicais se eriçaram. Seria fazer o jogo sujo da direita bem barbeada. A direita é glabra.

Hoje, as barbas aparadas de Antonio Palocci, Marco Aurélio Garcia, Celso Amorim e Jaques Wagner estão em unidade capilar com os bigodudos e com os cavanhaques leninianos de Zé Dutra, Berzoini e Genoino.

Não há no primeiro time petista, tirando Marta e Dilma, ninguém de cara limpa. Só o neocabeludo Zé Dirceu.

Agito telefônico Miriam Leitão

O Globo - 06/08/2010

O mercado de telecomunicações do Brasil começou a se mexer na semana passada e não deve parar. A possibilidade de que a Vodafone compre uma porta de entrada através da Telecom Itália mostra que as pedras vão continuar se mexendo no tabuleiro. A Embratel, que é do grupo Telmex, ou seja, Carlos Slim, quer ser a dona integral da Net.

Há bons motivos para a agitação. Primeiro, grupos brasileiros, espanhóis, mexicanos, portugueses, italianos e franceses brigam por um mercado de 185 milhões de linhas de telefonia móvel; quase 70 milhões de usuários de internet; 43 milhões de linhas de telefonia fixa e oito milhões de assinantes de TV por assinatura.

Em celular, o Brasil é o quinto maior do mundo. Segundo, hoje as empresas de telecomunicação não veem apenas o telefone. Querem oferecer celular, fixo, banda larga e TV por assinatura.

Muita gente se perguntava por que grandes empresas da Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos ou Japão não tiveram interesse no Brasil. No caso da Vodafone, que, segundo matéria de Bruno Rosa ontem no GLOBO, quer entrar no Brasil através da TIM, o movimento tem para o país a vantagem de incluir a segunda maior empresa do mundo.

Isso resolve também um nó do mercado brasileiro. A Telefónica, que agora virou a dona absoluta da Vivo, tem 42% da empresa que controla a Telecom Itália, dona da TIM. Pela Lei Geral de Telecomunicações, no Brasil uma mesma empresa não pode estar no bloco de controle de duas companhias de celular na mesma área.

— A Anatel criou restrições para a Telefónica. Ela não pode, por exemplo, participar de reuniões da Telecom Itália quando o assunto for a estratégia para a TIM Brasil — explicou o economista Luiz Schymura, ex-presidente da Anatel.

Se ela vender a participação para a Vodafone, o Brasil terá outra empresa grande no mercado. A TIM tem 20% da telefonia celular brasileira, mas não tem os outros serviços de telecomunicação.

Com novo dono poderá ter uma estratégia mais definida. Para a Telefónica, a vantagem é reduzir o custo de ter comprado toda a participação da Portugal Telecom na Vivo.

De acordo com a consultoria Teleco, entre 2005 a 2009 quase dobrou número de usuários de Internet no Brasil. Nosso mercado de celular está atrás apenas da China, Índia, Estados Unidos e Rússia.

O número de linhas deve chegar a 235 milhões em 2012. O mercado de TV por assinatura deve crescer 47% em dois anos, e o de banda larga, 49% no mesmo período.

— Somente em 2010, está havendo um aumento de 26 milhões de linhas de celular.

Isso é duas vezes o mercado de Portugal — explica o presidente da Teleco, Eduardo Tude.

As empresas terão um cronograma pesado de investimento nos próximos anos. De acordo com José Roberto Mavignier, da consultoria Frost & Sullivan, um dos pontos principais é a ampliação da rede móvel para a Copa do Mundo: — As Olimpíadas serão no Rio, que já tem uma rede mais implementada. Na Copa do Mundo, haverá jogos em cidades como Manaus e Cuiabá.

É crucial investimento em rede móvel porque haverá jornalistas e turistas de todo o mundo conectados com laptops e aparelhos celulares.

Também é preciso investir nas saídas internacionais do Brasil, para que não haja problema nas ligações para o resto do mundo. Além disso, é preciso interligar as redes aqui dentro — disse.

A carga tributária de um serviço de telefonia pode chegar a até 45%, reclama o presidente da GVT, Amon Genish.

Isso significa que um consumidor que pagar R$ 100 por um produto está entregando R$ 45 aos cofres do governo em forma de impostos.

O governo está ressuscitando a estatal — Telebras — para instalar banda larga em áreas remotas, numa decisão ainda confusa.

José Roberto Mavignier diz que ainda há poucas informações sobre o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL): — O plano foi anunciado, mas não sabemos quem estará envolvido, se haverá outros agentes além do governo e se haverá garantia de qualidade do serviço prestado — afirmou.

Com as mudanças, o grupo espanhol Telefónica mirou o estado de São Paulo ao ampliar sua participação na Vivo.

A Portugal Telecom quis ficar e para isso comprou os 22,4% da Oi. O governo brasileiro abandonou a ideia de ter uma tele só brasileira. Em Portugal, o que se discute é que a empresa não pagará imposto pelo enorme lucro com a operação porque a sede da companhia que vendeu o ativo fica na Holanda. O grupo Slim consolida a ClaroEmbratel-Net. A Vivendi ficou com a GVT, que é pequena mas tem crescido. A Vodafone pode ficar com a TIM.

Enquanto toda essa divisão do mercado ocorre no Brasil, no México, cujo modelo de privatização não foi como o nosso, que incentivou a competição, a situação é de quase um monopólio.

— A Telmex foi vendida integralmente e não dividida como foi aqui. O grupo que comprou, o de Carlos Slim, tem também 90% da telefonia celular — diz Schymura.

A analista-chefe da Ativa Corretora, Luciana Leocádio, diz que grupos de países desenvolvidos deixaram o país por dificuldade de adaptação de como fazer negócios na América Latina.

— Já houve mais grupos, canadenses, franceses, mas que saíram aos poucos porque não tinham muita estratégia para a região — explicou.

Schymura lembra que a Bell South também entrou no Brasil, mas depois saiu porque havia dúvida sobre se o país respeitaria os contratos. Hoje, 12 anos depois da privatização, o mercado está consolidado e crescente.

Devotos de Francisco Dora Kramer

O Estado de S.Paulo - 06/08/2010

Não há disfarces, constrangimentos nem meias palavras. A campanha eleitoral de Dilma Rousseff abriu a temporada de distribuição de lotes na administração federal a políticos e partidos aliados para assegurar a fidelidade de deputados e senadores à candidata.


Como quem diz: o fisiologismo grassa no governo Luiz Inácio da Silva e suas excelências podem ficar tranquilas que continuará grassando desbragadamente se Dilma for eleita presidente.

É um dando que se recebe estilizado, por antecipado. Agora o parlamentar dá sua contribuição à campanha empenhando-se na eleição de Dilma e mais à frente, quando (e se) ela for eleita presidente, recebe a sua parte em cargos e/ou boa vontade do Executivo na liberação do dinheiro das emendas ao Orçamento da União.

Não há outra maneira de interpretar duas reuniões ocorridas nesta semana em Brasília, uma com senadores outra com deputados federais, ambas com a presença de ministros de Estado sob a coordenação do ministro das Relações - note-se - Institucionais, Alexandre Padilha.

O objetivo dos encontros foi o mesmo: conectar as demandas dos parlamentares ao engajamento de cada um à campanha de Dilma. As reuniões foram feitas na hora do almoço a fim de que a máquina pública fosse usada sob os auspícios do cinismo, mas de consciências tranquilas.

Do encontro dos mais de 100 deputados com 13 ministros pouco transpirou. Apenas o suficiente para se delinear o quadro: reclamações de liberações de verbas, queixas sobre convênios e garantias de que as coisas nessa seara transcorrerão mais escorreitas.

Já do almoço dos senadores se soube mais. Pela voz do candidato a vice e presidente da Câmara, deputado Michel Temer, foi anunciada a "integração absoluta" entre ministros e senadores que recebiam naquele momento a tarefa de tocar a campanha de Dilma nos respectivos Estados, mediante um compartilhamento governamental mais adiante.

A frase literal foi a seguinte: "Isso aqui é uma integração absoluta, uma troca de informações entre o governo que está e o governo que estará. Estamos aqui partilhando o pão e queremos compartilhar com vocês o próximo governo."

Depois, quando o candidato do PSDB, José Serra, o chama de "mercadoria" Michel Temer acha ruim. Reclama da "grosseria inominável".

E o cidadão que vê uma coisa dessas acha o quê, uma manifestação de elegância cívica?

O deputado - note-se - presidente da Câmara pregando no altar de São Francisco ("é dando que se recebe") já com a autoridade de protagonista. Conforme, aliás, ele mesmo definiu o papel do PMDB caso Dilma venha a ser eleita.

E isso porque a eleição ainda está equilibrada e só acontece daqui a dois meses. Se ocorrer realmente a vitória, o plano engendrado pelo partido é repetir o governo José Sarney.

Para os mais jovens, uma explicação: Sarney não apenas inaugurou o primeiro governo civil (eleito indiretamente) pós-ditadura, como estreou a sistemática do fisiologismo deslavado a título de "governabilidade". Ali (1985) o PMDB imprimiu sua nova marca, passando de partido de luta contra a ditadura para uma agremiação com fins lucrativos no que tange à ocupação de espaços governamentais.

Pelo jeito, prepara uma nova edição da mesma obra, a tutela fisiológica.

Sopão. Sob inspiração do presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), presidente do PR mineiro e vice-governador de Minas no primeiro governo de Aécio Neves, Clésio Andrade, será instalado em Belo Horizonte um comitê único de apoio a Dilma Rousseff, Hélio Costa, Aécio Neves e Fernando Pimentel.

Será na próxima segunda-feira. Oficialmente o nome é comitê suprapartidário, mas na prática é uma maneira de constranger publicamente o ex-governador Aécio Neves e o caminho mais curto para enfurecer Itamar Franco.

Mesmo tendo candidato ao governo, Antonio Anastasia, Aécio não pode recusar apoio, acreditam os idealizadores do comitê que será chamado de "o melhor de Minas" e exclui Itamar, candidato ao Senado, desse rol.

Eleições separadas Merval Pereira

O Globo - 06/08/2010

Não é à toa que os partidos políticos estão pressionando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para alterar a decisão que verticalizou a propaganda eleitoral.

Proibindo que um partido que tenha candidato a presidente apresente em seu programa o apoio a candidatos de outros partidos para governador ou senador, o TSE interferiu na bagunça de legendas nas disputas regionais e ficou completamente fora da realidade.

Se a realidade definida em lei pelo TSE é mais coerente do que a que está sendo disputada nas urnas, essa é outra questão.

O fato é que as coligações regionais são tão disparatadas em relação ao quadro partidário nacional que tentar organizá-las com a campanha já em movimento é uma temeridade.

Mas não é apenas o TSE que tenta interferir nas eleições para torná-las mais coerentes, como se a incoerência dos políticos fosse uma falha, e não uma maneira de manter o poder regional.

Também o presidente Lula pretende usar seu imenso prestígio popular para tentar montar um Congresso à feição de sua candidata oficial, Dilma Rousseff.

O presidente está preocupado em legar para sua candidata um Congresso dócil, especialmente o Senado, que lhe deu muito trabalho nesses oito anos de mandato, tornando-se uma barreira às suas pretensões de reinar acima dos partidos e dos demais poderes da República.

Lula também não se esquece da derrota sofrida na extinção da CPMF.

O Senado, onde o governo tinha uma maioria apenas teórica, que se desfazia diante de qualquer projeto mais polêmico, só prestou vassalagem ao governo quando seu interesse corporativo combinou com o interesse político do governo.

Nesses casos, foi a força pessoal dos senadores José Sarney ou Renan Calheiros que ajudou o governo a sair das crises sem grandes perdas.

Por enquanto, porém, são três eleições totalmente distintas que estão sendo disputadas.

A do Congresso não está atrelada a nada e pode trazer surpresas. A de governador é totalmente desgarrada, e a de presidente tem em Lula uma influência que pode ser decisiva.

O PT só concorre a governos em dez estados dos 27, e tem chance de vencer em apenas 4 — Acre, Sergipe, Bahia e Rio Grande do Sul.

A popularidade de Lula não transfere voto para o Aloizio Mercadante em São Paulo, para Ideli Salvatti em Santa Catarina; não retira de Ana Júlia Carepa a carga de ter o governo mal avaliado por mais de 50% do eleitorado, que atribuem a ele as cotações de ruim e péssimo.

No Amazonas, o senador Arthur Virgílio, do PSDB, está garantindo a segunda vaga, já que o ex-governador Eduardo Braga já parece estar eleito.

Tanto nesse caso, quanto nos do Ceará e do Rio Grande do Norte, o presidente Lula insinua que tem interesse especial em derrotar Virgílio, o ex-presidente do PSDB nacional Tasso Jereissati — que é, por enquanto, o preferido do eleitorado para uma das vagas no Senado — e José Agripino Maia, do DEM, que está disputando a segunda vaga, pois uma delas parece estar assegurada para a ex-governadora Wilma Faria.

As recentes pesquisas de opinião mostram uma vantagem para a candidata oficial, mas o resultado ainda não parece definido, pois ainda permanece a impressão estatística de que o país está dividido por regiões entre governo e oposição, quase na mesma proporção registrada no primeiro turno da eleição de 2006: Sul e Sudeste na oposição; Norte e Nordeste com o governo e o CentroOeste dividido, com ligeira vantagem governista.

Resta confirmar a vantagem, dentro da margem de erro, de Dilma no Sudeste, registrado pelo último Ibope.

Uma nova pesquisa hoje poderá tirar dúvidas.

Mas as campanhas estaduais não acompanham o resultado nacional, embora a média das pesquisas Datafolha e Ibope mostre Dilma em ascensão, mesmo onde perde, e Serra caindo, mesmo onde ganha.

No Nordeste, por exemplo, onde Dilma domina com 55% dos votos, o PSDB está bem colocado para o governo em alguns estados: Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e Bahia, embora a maioria dos prováveis vencedores seja do PT e de seus aliados.

No Norte/Centro-Oeste, Dilma lidera com nove pontos de vantagem: tem 48% contra 39% de Serra. Mas também aí o PSDB disputa com boas chances governos importantes como Pará, Goiás, Distrito Federal — na coligação com o PSC de Roriz, agora apanhado pela Ficha Limpa — e Mato Grosso.

No Acre, terra da candidata Marina Silva, do PV, a liderança ainda está com Serra, embora o candidato a governador praticamente eleito é o senador Tião Viana.

No Sul, onde Serra lidera com 52% dos votos contra 38% de Dilma, a diferença fica por conta de Tarso Genro, do PT, que é favorito ao governo do Rio Grande do Sul, e num segundo turno com José Fogaça do PMDB continua vencendo, mesmo com a possibilidade de o PSDB de Yeda Crusius (ou por causa disso) apoiá-lo.

No Paraná, o quase vice de Serra Osmar Dias é uma ameaça à liderança de Beto Richa, do PSDB.

No Sudeste, Serra caiu para 45% e Dilma chega a 41%, vantagem ainda influenciada pelo resultado do Datafolha. O Ibope já dá Dilma liderando na região, dentro da margem de erro.

Essa seria uma mudança de tendência importante, que denotaria que a influência do lulismo na eleição está se dando com mais intensidade, transformando Minas Gerais em um estado petista.

O ex-governador Aécio Neves tem a tarefa difícil de firmar sua liderança elegendo seu escolhido, Antonio Anastasia, e revertendo o quadro em favor de Serra, o que não parece ser uma prioridade política no estado, mas pode vir a ser.

Deformações do BNDES - Celso Ming

O Estado de S. Paulo - 06/08/2010


Ontem, 12 entidades que representam interesses da indústria publicaram manifesto orquestrado em que defendem o BNDES de críticas, inclusive desta Coluna, pelo favorecimento arbitrário de umas poucas empresas em detrimento de outras.


Os próprios signatários reconhecem que têm entre seus associados empresas beneficiadas por essas iniciativas. Elas não constituem grupos de mendicância. São responsáveis por faturamento superior a R$ 673 bilhões e por 2,5 milhões de postos de trabalho.

Não há divergência em que o BNDES seja uma instituição que vem desempenhando papel importante no fomento da capacidade produtiva do Brasil. No entanto, para que esse papel possa ser mantido e aperfeiçoado, é preciso erradicar certas deformações e práticas viciadas que tomaram corpo ao longo do governo Lula. E, para isso, esse manifesto não deu contribuição.

A principal crítica é a de que o Tesouro está aumentando a dívida pública, em nada menos que R$ 180 bilhões, para dar munição ao BNDES. Com isso, repete o que aconteceu no regime militar, que estimulou o investimento com dívida e não com poupança. Essa crítica não foi rebatida. Os empresários justificaram o artifício como necessário para garantir o investimento. Levadas às últimas consequências, então seria ainda melhor se o Tesouro não parasse nessa moleza e que continuasse criando moeda junto ao BNDES, não só no volume de R$ 180 bilhões, mas já na casa dos trilhões. Seria mais investimento, para o bem da economia. Ou não seria?

Outra crítica não respondida é a que aponta os financiamentos do BNDES como um dos fatores que impedem a queda dos juros básicos. Explicando melhor, os juros subsidiados do BNDES, inferiores aos estabelecidos pelo Banco Central (Selic), obrigam a autoridade monetária a puxar a Selic para cima de forma a compensar com mais restrição monetária a generosidade no crédito proporcionada nos investimentos. As entidades que defendem o BNDES reconhecem que são favorecidas com os subsídios, mas justificam a concessão dessas vantagens como única forma de garantir o investimento, porque, argumentam, o rendimento proporcionado pela Selic é alto demais e equivale ao retorno do investimento. Portanto, financiamentos equivalentes aos da Selic não servem para o investimento; precisam custar menos. Mas essa lógica está quebrada. Os lucros das grandes empresas brasileiras giram em torno dos 20% ao ano, o dobro do que paga a Selic.

Também não respondem à crítica de que a política do BNDES não se preocupa em fortalecer a capacidade de competição dos mais fracos, mas, antes, favorece as empresas mais competitivas, que já têm acesso a recursos baratos, especialmente no mercado financeiro externo.

Nem foram capazes de repelir a denúncia de que um grande número de financiamentos do BNDES nada mais é do que uma especial alavancagem para que a empresa beneficiária seja depois repassada a capitais externos, como aconteceu com a Ambev, com inúmeras empresas do setor de autopeças e, agora, com a Oi.

Este foi o país que inventou deformações como os cemitérios de investimentos da Sudam e da Sudene, a reserva de mercado para a informática e a construção de dinossauros que deveriam se tornar - e não se tornaram - a indústria de equipamentos para o setor nuclear. É o que se pretende evitar com a correção de rumos da atual política do BNDES.

Confira
O Estado empresário
Na edição que vai para as bancas nos próximos dias, a revista inglesa The Economist publica reportagem de capa (Leviathan Inc) em que ataca a volta do Estado empresário. A mesma edição traz matéria que critica o BNDES por promover um "carnaval de crédito", crescer rápido demais, ser pouco transparente e não favorecer a competição.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Porta voz do Comitê Internacional contra Apedrejamento envia carta aberta a Lula


Mina Ahadi, porta voz do Comitê Internacional contra a Execução e do Comitê Internacional contra o Apedrejamento

"Esse regime é um governo que apedreja e executa, que prende pessoas todos os dias e corta suas mãos e pés", escreveu Mina Ahadi a Lula (AFP)

A iraniana Mina Ahadi, porta voz do Comitê Internacional contra a Execução e do Comitê Internacional contra o Apedrejamento, escreveu uma carta aberta ao presidente Lula. Nela, agradece a oferta de asilo feita pelo Brasil a Sakine Ashtiani, iraniana acusada de adultério e por isso condenada à morte pelo método bárbaro do apedrejamento, mas pede ao presidente que, acima de tudo, deixe de prestar apoio ao regime dos aiatolás. Lula tem feito reitaradas declarações em favor do governo iraniano. Nesta terça-feira, em reunião do Mercosul em San Juan, na Argentina, Lula voltou a criticar o Conselho de Segurança da ONU por impor sanções àquele país. "O Irã é um país com um regime criminoso e brutal", diz Mina. "Um governo que apedreja e executa, que prende pessoas todos os dias e corta suas mãos e pés." Abaixo, a íntegra do texto endereçado ao presidente Lula:

Carta aberta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva
Um regime que apedreja não deveria ser reconhecido

Caro presidente Lula da Silva,

Sua oferta de conceder asilo no Brasil a Sakine Ashtiani, sentenciada à morte por adultério, é um passo importante para salvá-la, assim como a seus filhos. Espero que, com os esforços internacionais e com as ações de milhares de pessoas, nós possamos salvar Sakine. Que ela e seus filhos se abracem novamente em breve.

Enquanto escrevo esta carta, vejo à minha frente o rosto de Maryam Ayoubi, que foi apedrejada até a morte em 2001. Vejo os rostos de Shahnaz, Shahla, Kobra e dezenas de outras mulheres que foram enterradas até o peito e mortas por pedras arremessadas contra elas. Eu ainda vejo tudo isso diante dos meus olhos. As vozes das crianças que me ligaram para dizer: "Nossa mãe foi apedrejada até a morte" – ainda consigo ouvi-las. Esse é o regime islâmico. Os governantes do Irã não sobreviveriam um dia sem execuções e terror, sem espalhar o medo. Mesmo que o regime islâmico tenha retrocedido um pouco por conta da pressão em favor de Sakine, ele ainda  espalha o medo na sociedade executando outros prisioneiros, especialmente os políticos.

Hoje, dia 2 de agosto, nove prisioneiros foram sentenciados à morte em Kerman. Em Teerã, seis prisioneiros políticos foram sentenciados à morte, entre eles Jafar Kazemi, que pode ser executado a qualquer momento. Zeynab Jalalian, um outro prisioneiro político, também corre o risco de ser morto em breve. Há mais pessoas na lista de execução: Mohammad Reza Haddadi foi setenciado à morte enquanto era menor; acaba de completar 18 anos e pode ser executado a qualquer momento. Há mais de 130 menores na prisão, com penas semelhantes. O regime islâmico é o único do mundo que executa menores.

Presidente Lula da Silva, hoje há 17 famílias de prisioneiros políticos em greve de fome na frente da prisão de Evin, em Teerã. Elas prestam solidariedade à greve de fome que seus filhos começaram lá dentro, dias atrás. Esse é um protesto contra a brutalidade das autoridades carcerárias com os presos políticos. O destino de três jovens alpinistas americanos e as lágrimas de suas mães também entristeceram a população. Esse regime prendeu parentes do senhor Mostafaei, o advogado de Sakine Ashtiani, e os levou como reféns até que ele se entregue.

Presidente Lula da Silva, o Irã é um país com um regime criminoso e brutal. É um regime assassino que deve ser condenado por todas as pessoas e governos. Permita-me, como uma representante do povo oprimido do Irã, dizer que não quero apenas salvar Sakine e abolir o apedrejamento, mas também pedir a todos os líderes nacionais que não reconheçam o regime islâmico como representante dos iranianos, mas sim como o assassino desse povo.

Esse é um regime que apedreja e executa, que prende pessoas todos os dias e corta suas mãos e pés. Nenhum outro governo do mundo realiza tantas execuções per capita quanto ele. Tal regime não deveria ser reconhecido por organizações internacionais ou chefes de estado.

Cordialmente.
Mina Ahadi
Porta voz do Comitê Internacional contra a Execução e do Comitê Internacional contra o Apedrejamento


Fim da História? Miriam Leitão

O Globo - 05/08/2010

Se você quer que seja mantido o equilíbrio fiscal, controle da inflação e o câmbio flutuante é simples: basta votar em um dos três candidatos mais competitivos nas eleições presidenciais de outubro.

Os três prometem que não vão mexer no “tripé”: as três políticas implantadas pelo governo Fernando Henrique e mantidas pelo governo Lula.

Há sinceridade no que dizem?

Se há, não há mais diferenças entre os candidatos.

Estamos portanto numa espécie de fim da História: não há mais divergência ou dúvida sobre política econômica no Brasil. Seria bom se fosse simples assim — até porque há vários outros temas exigindo atenção —, mas neste, como em vários outros assuntos desta difícil campanha, há pouca verdade no que os candidatos dizem e muito truque de marqueteiro.

“É o tripé que está dando certo e em time que está ganhando não se mexe”, resumiu numa declaração originalíssima o presidente do PT, José Eduardo Dutra. Vamos pular aquela parte em que o mesmo PT dizia que tinha recebido uma herança maldita e que essa eram políticas neoliberais.

Nesta reta final do governo Lula, políticas têm sido adotadas diariamente que quebram a longo prazo um pé do tripé. Os aumentos de gastos públicos, a criação de despesas permanentes, a construção de atalhos fiscais para o endividamento público, a ressurreição da política industrial do governo militar, as exceções criadas na Lei de Responsabilidade Fiscal, tudo isso está, na prática, minando as bases do equilíbrio fiscal.

A política de metas de inflação que vigora há 11 anos pressupõe a não interferência nas decisões do Banco Central. O BC sozinho não resolve o problema, tem que ser ajudado pelo primeiro pé do tripé, mas é condição essencial a autonomia do Banco. Todos os candidatos disseram que respeitarão a autonomia do Banco Central. Há dúvidas razoáveis sobre a real intenção de pelo menos os dois com maiores intenções de voto. O ex-governador José Serra já mostrou em várias entrevistas que esse é um assunto que não está pacificado em suas convicções.

Ele acha que o BC errou nos últimos anos, já deu declarações contraditórias o suficiente para se duvidar da sua convicção quando diz que, se eleito, manterá a política atual. Sobre a ex-ministra Dilma Rousseff repousa a mesma dúvida. Sua formação econômica incipiente e seu entorno fomentam a certeza de que algo de diferente ela vai tentar. Por enquanto, ela está repetindo as frases e palavras que o ex-ministro Antonio Palocci a ensinou.

A sua formação leva a crer que o que ela tem dito não passa de mais um truque de marketing.

A candidata do PV, Marina da Silva, é a menos conhecida dos três por vários motivos. Nunca falou muito desses assuntos econômicos e a imprensa tem obsessivamente perguntado a ela sobre outro tripé: célula tronco-criacionismocasamento gay. Quando consegue fugir dessa pauta pobre, Marina tem admitido que votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal e contra o Plano Real, mas que mudou de ideia, se convenceu de que estava errada, por isso defende a consolidação dos ganhos dos últimos 16 anos dessa política.

Os pés do tripé estão relacionados. Dilma acredita no expansionismo do gasto público, tem demonstrado que sustenta os mesmos ideais do governo militar no que se refere à ampliação da estatização.

Para fazer frente a uma política fiscal frouxa decorrente dessas convicções, a política monetária teria que ser mais e mais apertada. Alguém realmente acredita que Dilma toleraria altas das taxas de juros sequenciais sem interferir? Lula compensou seu parco conhecimento do tema com uma visão profundamente pragmática e sua capacidade de aprender com os dados da realidade. Visto que a inflação sob controle era garantia de popularidade, ele jogou fora a velha cartilha do PT e manteve o que prometeu que mudaria.

O terceiro pé é o câmbio flutuante. Está relacionado aos outros dois. Altas taxas de juros atraem capital especulativo, principalmente em momentos de boom internacional, e isso aprecia a moeda nacional. Os exportadores reclamam. Tanto o entorno de Dilma Rousseff, quanto o candidato da oposição, José Serra, já demonstraram que são sensíveis ao lobby exportador.

A única forma de manter o tripé é fazer um aperto fiscal forte, uma política de austeridade que significaria fazer escolhas difíceis, rever a excessiva estatização e os subsídios extravagantes dados às grandes obras iniciadas neste fim de governo Lula, ser capaz de cortar gastos correntes, abandonar a política dos anos 70 que voltou a vigorar no BNDES.

Uma verdadeira política de austeridade criaria um círculo virtuoso: reduziria a necessidade de elevação das taxas de juros, o que reduziria a apreciação cambial. Se o eleito ou a eleita continuar mantendo um discurso de ambiguidade em relação ao Banco Central, a instituição terá que, de novo, conquistar reputação, o que significa manter juros altos por mais tempo.

Por tudo o que os candidatos têm escondido do que realmente pensam sobre a política fiscal, monetária e cambial; por tudo o que já disseram; por suas ambiguidades; pelo que dizem em assuntos que estão relacionados com esses, a verdade é que mesmo hoje, 16 anos depois da maior vitória que o Brasil teve na luta contra a inflação, não há garantias. Ao contrário do que se poderia esperar, alguns candidatos mais que outros estão prontos para cometer erros velhos. Profissões de fé no chamado “tripé” convencem pouco quem tem mente treinada.

Direitos relegados Merval Pereira

O Globo - 05/08/2010

A proposta oficial brasileira para que a ONU passe a tratar os países que violam os direitos humanos com mais condescendência, evitando críticas públicas aos regimes autoritários, revelada pelo “O Estado de São Paulo”, se por um lado dá um ar de coerência à posição do governo brasileiro desde que Lula chegou ao poder, em 2002, por outro revela que, muito mais que decisões pragmáticas, se abster em votações contra Cuba com relação à violação dos direitos humanos ou mesmo votar contra uma condenação do governo do Sudão sobre Darfur, onde um conflito étnico matou mais de 200 mil pessoas, faz parte de uma política de Estado que o governo Lula vem adotando sem que a mudança tenha sido debatida pela sociedade.

Coreia do Norte, Irã, Sri Lanka são outras ditaduras que obtiveram do Brasil ultimamente posições conciliatórias quando foram acusados de abusos dos direitos humanos nos organismos internacionais.

A ONG Conectas Direitos Humanos já havia denunciado alteração no padrão de votação do governo brasileiro no Conselho de Direitos Humanos da ONU, seguindo geralmente interesses políticos e comerciais.

Em relação à China, por exemplo, o Brasil mudou sua posição, votando a favor da no-action motion em 2004, ajudando a evitar assim a condenação daquele país por violações de direitos humanos.

Em situação similar em 2001, o governo brasileiro se abstivera de votar. Houve uma mudança também em relação à resolução que condenava a situação dos direitos humanos na Chechênia.

Da abstenção em 2001 e 2002, o governo brasileiro passou a votar explicitamente contra a condenação da Rússia em 2003 e 2004.

O padrão de votação parece seguir o interesse geopolítico e comercial do governo brasileiro, e não tem relação direta com o conceito de direitos humanos em si.

A denúncia pública da ONU, considerada pelas ONGs internacionais que lutam pelos direitos humanos como Anistia Internacional e Human Rights Watch, e pelos governos democráticos, especialmente da Europa, como a principal forma de pressão, é vista pelo governo brasileiro como detonadora de crises internas nesses países.

Além de criticar a conduta como sendo ineficaz, o governo brasileiro considera, embora informalmente, que o Conselho de Direitos Humanos da ONU está muito politizado, controlado pelos EUA, que têm influência para nunca terem sido advertido pelas transgressões aos direitos humanos ocorridas na prisão de Guantánamo, por exemplo.

Essa posição do governo brasileiro, que já havia sido explicitada nas negociações com o governo do Irã sobre a política de energia nuclear daquele país, agora ganha relevância com o caso da mulher iraniana condenada a morrer a pedrada por adultério.

Essa posição leniente do governo brasileiro com ditaduras que violam os direitos humanos, a pretexto de ampliar o diálogo, é o reflexo da dificuldade pessoal que o presidente Lula tem em criticar seu velho amigo Fidel Castro, ou seu mais recente amigo de infância Mahmoud Ahmadinejad, e tem como pano de fundo uma política externa que procura ser um contraponto à influência dos Estados Unidos.

Por isso Lula não deu uma palavra sobre a morte por greve de fome do preso político dissidente Orlando Zapata Tamayo, ocorrida no mesmo dia em que chegou a Cuba, e comparou os prisioneiros da ditadura cubana aos presos comuns brasileiros.

A mesma dificuldade ele revelou no caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, começando por afirmar que não poderia se intrometer nos assuntos internos do Irã, pois “é preciso cuidado, porque as pessoas têm leis, as pessoas têm regras... Se começam a desobedecer às leis deles para atender ao pedido de presidentes, vira uma avacalhação”.

Com a pressão da opinião pública, interna e externa, Lula sentiu que mais uma vez seu prestígio internacional afundaria mais ainda, sem contar o prejuízo eleitoral que poderia afetar sua candidata preferida Dilma Rousseff.

Deixando claro o apelo eleitoreiro que vê no tema, Lula se utilizou de um palanque para anunciar que ofereceria asilo à iraniana.

Mas o fez de maneira a não ferir a sensibilidade de seu amigo Ahmadinejad: — Eu tenho que respeitar a lei de um país, mas, se vale minha amizade e o carinho que tenho pelo presidente do Irã e pelo povo iraniano, se esta mulher está causando incômodo, nós a receberíamos no Brasil — afirmou.

A pobre mulher, portanto, seria recebida pelo governo brasileiro para deixar de causar incômodo ao ditador iraniano, não por que seja uma barbárie condenar uma mulher por adultério, e ainda mais à morte, e, além disso, a pedradas.

O governo iraniano, além de ter minimizado a interferência de Lula, classificando sua atitude como consequência de um espírito “emocional”, mas, sobretudo, de desinformação, ainda por cima disse que o mundo ocidental estava distorcendo os fatos com o propósito de prejudicar o Irã.

Esse é um argumento que toda ditadura, de direita ou de esquerda, utiliza para fugir de suas responsabilidades.

Mas já há uma generalizada posição a respeito.

O respeito aos direitos humanos como condição preliminar para o diálogo entre as culturas foi um das decisões centrais da mais recente reunião da Academia da Latinidade, no início do ano em Córdoba.

O tema já havia sido abordado em outras reuniões, e o consenso entre intelectuais e acadêmicos de várias partes do mundo sempre foi o de que os direitos humanos não podem ser encarados como instrumentos de dominação ocidental, e devem ter caráter universal, na definição do secretário-geral da Academia da Latinidade, o brasileiro, Candido Mendes.

A Constituição de 1988 define que o Brasil deve reger suas relações internacionais pela prevalência dos direitos humanos, e os tratados internacionais de que o país é signatário são incluídos como parte integrante dos direitos e garantias fundamentais.

Para o exportador, um rato Celso Ming

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010


Agora é o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, justamente quem comanda o comércio exterior do Brasil, que reconhece que o governo brasileiro "é lento e tímido" no apoio aos exportadores.
Exportar produtos industrializados está cada vez mais difícil e isso não tem nada a ver com a crise financeira, que derrubou o consumo global. Está mais difícil porque novos competidores, especialmente os asiáticos, estão em condições de colocar produtos no mercado internacional a preços cada vez mais baixos.
Os anúncios de que o governo brasileiro vai dar mais apoio ao esforço exportador são recorrentes neste governo. Mas tudo se esgota nos anúncios. Há cinco meses, o governo alardeou que criaria uma linha de financiamento das exportações nos moldes do Eximbank dos Estados Unidos. Mas o que saiu desse parto da montanha foi um rato insignificante.
Ontem, anunciou as novas regras para a devolução do crédito do PIS e Cofins aos exportadores. E foi outra ninharia. O que o cliente estrangeiro encomenda ao fornecedor brasileiro são mercadorias e não impostos. Não há nenhuma razão para que o produto exportado seja gravado por essas contribuições que não existem no resto do mundo. Se tem de sair dos portos inchado de PIS e Cofins, o produto nacional já perdeu competitividade em relação ao da concorrência.

O ressarcimento dos impostos deveria ser automático. E, no entanto, a regulamentação ontem divulgada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, está cheia de condicionalidades. As empresas que podem se candidatar a apenas 50% desse crédito (e não mais) têm de ser exportadoras há pelo menos quatro anos e apresentar coeficiente exportador de no mínimo 30% do faturamento nos últimos dois anos.

Às vezes os próprios exportadores marcam gol contra, especialmente quando concentram suas reivindicações na forte desvalorização do real e se esquecem do principal. O grande inibidor das exportações brasileiras é o altíssimo custo Brasil, que, no passado, era compensado com um "câmbio favorável". À medida que o Brasil se torna grande exportador de energia, alimentos e matérias-primas, fica crescentemente mais difícil contar com essa cotação camarada do dólar num regime de câmbio flutuante. As condições favoráveis às exportações de produtos industrializados têm de ser obtidas por meio da compressão dos fatores que encarecem o produto brasileiro. É a carga tributária elevada demais, de cerca de 37% do PIB; são os juros escorchantes cobrados do setor produtivo, como os 38,4% ao ano no desconto de duplicatas e 28,5% ao ano no financiamento de capital de giro; e é a enorme ineficiência e o alto custo da infraestrutura brasileira.

No mais, se o ministro Miguel Jorge, encarregado do comércio exterior no Brasil, critica o apoio "lento e tímido" às exportações, fica claro que não há por parte do governo Lula, do qual o ministro faz parte, interesse pela solução definitiva do problema. A atual administração também não mostrou interesse pelo aumento do mercado externo brasileiro, condição que se obtém por meio de acordos comerciais, cuja negociação está emperrada.

Nós falamos, Eles exportam Alberto Tamer

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010


E o Mercosul assinou um tratado de livre comércio com o Egito. Viva o grande mercado com a pujante economia de US$ 187 bilhões. É o segundo acordo bilateral, depois de Israel. De acordo com nota do Itamaraty, isso reafirma o interesse dos países do bloco em negociar acordos comerciais "ambiciosos". Sim, ambiciosos. Está lá na nota oficial do Itamaraty. E Estados Unidos, União Europeia, China? Ora, não têm grande importância. O nosso negócio é a África dos ditadores eternos, com a qual nossa diplomacia se enamorou.
Apesar da nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores continua acreditando ingenuamente nos acordos multilaterais. Está negociando há mais de dez anos com a União Europeia e enterrou o das Américas. Ah! ia esquecendo a Rodada Doha, aquele acordo de liberalização agrícola que morreu antes de nascer e não contaram para Brasília.
Multilateralismo definha. Definha sim. Os países que pesam verdadeiramente no comércio mundial foram deixados de lado, negociam e fecham acordos regionais ou bilaterais. Só o Brasil, não. A OMC, coitada, tentou resistir, mas fracassou. "São perigosos, distorcem as relações comerciais", não parava de conclamar Pascal Lamy. Ninguém ouviu.
267 acordos no mundo! Aí, diante da sua impotência e vendo o barco afundar, a OMC teve a ideia de fiscalizar os acordos bilaterais e regionais. Pretendia, pelo menos, ver se obedeciam as regras de comércio internacional, aceitas por todos os países que a integram. O projeto hoje é uma lenda em Genebra. E sabem por quê? Porque existem hoje, acreditem, 267 acordos notificados na OMC e mais de 100 estão em negociação... Sim, tudo isso. Os países, quando muito informam, viram as costas e continuam a negociar. Entre os emergentes, o Chile lidera. Nada menos que 57! Estados Unidos, México, países do Pacifico, com todo o mundo. Por isso, não quis entrar na camisa de força do Mercosul, onde até o pequeno Uruguai atrapalha. E imaginem agora com essa ideia de trazer para o bloco a Venezuela bolivariana protecionista e em profunda recessão... Aí é que não vai dar mesmo. Cuba dos dois Castros...E que tal a Coreia do Norte?

Quem atrapalha. Dizem que no Brasil, é a agricultura e a indústria que atrapalham. Querem se proteger, impõem condições inaceitáveis pelos nossos pretensos parceiros. Não é verdade. Isso também acontece nos Estados Unidos, onde o governo enfrenta um Congresso hostil e mais difícil que o ameno Brasil. Ninguém pode afirmar que a agricultura americana, crescendo na estufa acolhedora dos subsídios e do protecionismo, tem menos importância política que a brasileira nas negociações internacionais. O mesmo para a União Europeia que fechou nada menos que 16 acordos bilaterais e regionais. O Brasil se arrasta penosamente na negociação de meia dúzia.

O que muda? Muda que na União Europeia e nos Estados Unidos há uma diplomacia comercial agressiva. É a diplomacia de resultado, não de palavras, de reuniões. Eles se cansaram de nós. E têm razão. A União Europeia ainda finge fazer reuniões solenes com o Brasil, com promessas que se adiam. Os Estados Unidos, não. São mais práticos. Nós queremos reuniões, eles querem negócios. Como não têm aqui, vão buscar em outros lugares.

E então? É a pergunta que se repete em fins de coluna. E então, que as exportações brasileiras crescem pouco, as importações aumentam, e ficam aí dizendo em Brasília que é por causa do aquecimento da economia nacional, do câmbio, que é consequência da crise internacional.... Só que os EUA, a União Europeia e a China continuam exportando mais. E nós? Ora temos algumas reuniões e missões diplomáticas para realizar... Afinal, temos agora o Egito, não temos?

Nem gregos nem troianos Dora Kramer

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010


Definitivamente, o governo do presidente Luiz Inácio da Silva caminha para um final melancólico em matéria de política externa.

Foi chamado de ingênuo pelo governo dos Estados Unidos por cair na conversa de Mahmoud Ahmadinejad; admoestado pela oposição cubana por causa de suas ironias e indiferença em relação aos dissidentes da ditadura castrista; condenado pelo presidente da Colômbia que considerou "deplorável" sua posição sobre o conflito com a Venezuela; menosprezado pelo amigo iraniano para quem os apelos de Lula em favor da mulher condenada à morte por adultério são frutos de falta de informação.

Isso em pouquíssimo tempo, convenhamos, representa uma conjunção de repreensões públicas bastante significativas e contrastantes com a quase unanimidade de 80% de aprovação no âmbito interno.

Dirão os que se indignam com o fato haver no Brasil quem se manifeste em oposição a tão adorado presidente, que o mundo conspira, exercita o preconceito das elites, ou quem sabe, é tucano?

Não, o mundo apenas está tomando contato com o Lula real, em contraposição ao herói da resistência que nunca existiu a não ser na fantasia romântica alimentada por falta de informação e açodamento na expiação de culpas ancestrais.

Como o senso crítico mundo afora e os critérios para avaliação de governantes são mais rígidos que os vigentes no Brasil, Lula foi perdendo o charme na proporção que iam crescendo suas impropriedades em âmbito internacional.

Entrou errado numa seara delicada, a dos direitos humanos. Sem capacidade pessoal para avaliar conexões mais elaboradas e sem disciplina nem paciência de ouvir quem poderia lhe ensinar, achando que da mesma maneira que as coisas dão certo aqui podem dar certo de toda parte, o presidente pôs os pés pelas mãos.

Agora propõe à ONU que evite censurar países violadores dos direitos humanos, argumentando que a denúncia pública e dura de atrocidades não é eficaz.

Como se a política de boa vizinhança do Brasil com ditaduras tivesse rendido algum avanço ou benefício para as populações desses países.

Como se alguma ditadura entendesse a linguagem do diálogo e da negociação. Opressor que se preze - e os amigos do governo Lula são convictos no ramo - não dialoga, oprime.

Só afrouxa o torniquete quando é da conveniência do próprio regime opressor fazer alguma concessão.

Essa proposta encaminhada pelo Itamaraty à ONU pretende que o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas mude seus critérios de funcionamento e passe a adotar os parâmetros do governo Lula.

Se a ONU aceitasse, de uma hora para outra o governo brasileiro teria "lavado" seus procedimento que não seria mais condenado nem condenável. Passaria a ser o modelo de correção.

Se essa hipótese já soaria fora de cogitação em outros tempos, hoje que Lula perde o glamour e a credibilidade no exterior, soa absurda.

Revisão. José Serra não sossegou - fez de tudo e mais um pouco enquanto não conseguiu que Fernando Gabeira fosse candidato ao governo do Rio em aliança com a candidatura presidencial do PSDB.

Hoje o partido - com a concordância do próprio - avalia que foi um erro. A começar pela candidatura de Marina Silva a presidente até as rusgas internas provocadas pela resistência do PV à companhia do DEM, a coligação rendeu m ais problemas que soluções.

Na interpretação dos tucanos paulistas, quem escolheu um candidato a vice no Rio em outro partido saberia escolher um candidato ao governo no PSDB.

Fundamento. O que é mais importante, o nome das coisas ou o que as coisas realmente são? Partindo do princípio de que a designação não altera o significado de nada, o sentido é o que importa.

Por tanto, não interessa se o nome é dossiê, banco de dados ou carta anônima. A boçalidade da intenção é a mesma: pressionar alguém a curvar-se à vontade de outrem mediante ameaça de exposição da intimidade seja ela lícita ou ilícita, falsa ou verdadeira, tanto faz.

Uma lição que não vamos tirar Carlos Alberto Sardenberg

O Globo - 05/08/2010




Todo esse zum-zum-zum em torno da última decisão do Banco Central se foi tomada por motivos técnicos ou eleitorais simplesmente não existiria se o BC fosse uma instituição independente por força de lei.

Conclusão: a melhor lição que o momento sugere, formalizar a independência do BC, não será tirada.

Há um BC com autonomia legal bem aqui ao lado, no Chile. A Constituição define as funções do banco, garantir a estabilidade monetária, e assegura sua autonomia técnica. A diretoria é formada por cinco membros, cada um com mandato de dez anos. Os diretores são designados pelo presidente da República, com aprovação do Senado. Detalhe crucial: os mandatos dos diretores não coincidem. Vence um a cada dois anos. Como o mandato de presidente da República é de quatro anos, sem reeleição, este nomeia apenas dois diretores do BC.

Os diretores podem ser demitidos? Podem, mas apenas mediante acusação e consequente processo na Corte de Apelações de Santiago, com motivos determinados.

O BC do Chile é dos mais eficientes do mundo. Na última reunião, julho, elevou a taxa básica de juros para 1,5% ao ano, com a inflação correndo no ritmo anual de 1,2%. A meta é de 3%.

No Brasil, o BC trabalha no regime de metas desde 1999, fixa as taxas de juros nas reuniões de seu Comitê de Política Monetária, mas não é independente na letra da lei. Tem uma autonomia concedida pelo presidente da República, prática que se iniciou com Fernando Henrique Cardoso e foi mantida com Lula. Mas a gente sabe: autonomia concedida pode ser retirada a qualquer momento, assim como os diretores, a começar pelo presidente do banco, podem ser demitidos a qualquer momento pelo presidente da República, que não precisa apresentar motivo para isso.

Ao longo desses quase oito anos em que está na presidência do BC, Henrique Meirelles construiu um poderoso capital de confiança e responsabilidade, aqui e lá fora. Pelas suas atitudes, pelas suas decisões e pelo retrospecto trouxe a taxa real de juros de 15% para 6%, com a inflação (pelo IPCA) caindo de mais de 12% para as redondezas dos 4,5%, sempre anuais a praça sempre acreditou que o BC de Meirelles decidia estritamente conforme os rigorosos padrões da ciência econômica.

Ainda assim, especialistas nesse ramo de política monetária costumavam dizer que a independência legal do BC brasileiro derrubaria alguns pontos da taxa básica de juros. A lógica: tendo de provar a todo instante que é independente na prática, o BC tende a ser mais conservador do que o necessário, ou seja, mantém juros acima do que seria o necessário para colocar a inflação na meta.

E, apesar de todo o retrospecto positivo, quando o BC, às vésperas da última reunião (de 21 de julho), começou a abandonar o ponto de vista de que havia um superaquecimento na economia brasileira, para adotar o entendimento de que a desaceleração já estava em curso e era muito forte, a praça foi tomada pela boataria e pela desconfiança. O BC estaria mudando só para abreviar e encerrar logo o ciclo de alta de juros, de modo a ajudar a candidatura de Dilma Roussef.

A desconfiança não é absurda: José Serra colocou o BC e os juros, os mais altos do mundo, no palanque eleitoral. Disse que o BC de Meirelles fez muita besteira, que a política monetária atrasava o Brasil e condenou qualquer autonomia, legal ou não. Informou que, como presidente, cuidaria pessoalmente da taxa de juros e impediria que o BC fizesse erros escandalosos.

Dilma se defendeu corretamente.

Mostrou como a inflação tem sido controlada, na meta, lembrou que os juros têm uma tendência de queda e defendeu Meirelles e o modo como o BC atuou.

Claro, não poderia fazer outra coisa.

Mas é evidente que, se o BC não elevar mais os juros nas vésperas da eleição, isso tira do palanque um tema desconfortável para ela. A militância política de Meirelles, que quase saiu candidato a vice de Dilma, ajudou na tese da politização.

De sua parte, porém, e em consequência desse clima, o BC desenvolveu e desenvolve um intenso trabalho de proselitismo para demonstrar que sua mudança de posição foi determinada por fatos econômicos estritos.

Confusões desnecessárias. Se o BC tivesse a independência na lei, a oposição saberia que a taxa de juros não poderia ser manipulada para prejudicála. Nem a de câmbio, aliás. Para a candidata do governo, isso tudo não seria um tema de campanha. Para o país, aliás, não seria tema, como não tem sido no Chile, por exemplo.

E, entretanto, nem Dilma nem Serra implementarão essa autonomia legal. Para parte da turma de Dilma, isso é neoliberalismo, um pecado.

Foi o pessoal que não deixou andar o projeto de independência, que dorme no Congresso. Para Serra, é bobagem, ele sempre saberá mais que o BC.

A experiência mundial mostra que BCs autônomos colocam a inflação na meta (sempre menor que a nossa), com menos juros e mais tranquilidade no processo.

Eis a lição que não vamos tirar, mais uma.

Na dúvida, muda-se a acusação para manter a pena William Yong

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010



A resposta do Irã às críticas internacionais à sentença de morte por apedrejamento de Sakineh Ashtiani foi alegar que ela não só é culpada de adultério, mas também de assassinato.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o Brasil poderia receber Sakineh "se ela estivesse causando problemas no Irã". O brasileiro inicialmente havia se recusado ouvir ativistas dos direitos humanos para interceder no caso, dadas suas boas relações com o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Mas mudou de ideia durante um comício de sua candidata à presidência.

Na terça-feira, na primeira resposta de Teerã à oferta brasileira, um porta-voz da chancelaria iraniana disse que Lula não estava bem informado sobre "os detalhes da acusação" e, portanto, o regime cuidaria de deixar isso "claro". O comentário foi feito pouco depois de a agência iraniana Jahan ter publicado, sem citar fontes, que Sakineh seria culpada pela morte de seu marido, mas que nenhum juiz havia dado detalhes à imprensa porque o crime era "horrível demais". No mês passado, o Judiciário postergou uma decisão final sobre o caso. Aparentemente, para decidir se ela seria enforcada ou apedrejada.

Ministério da utopia Demétrio Magnoli

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010



Intelectuais tendem à utopia, pois ela precisa de uma descrição e eles são seus autores. Isaiah Berlin não está entre os filósofos mais célebres precisamente porque é um pensador antiutópico. "As utopias têm o seu valor - nada amplia de forma tão assombrosa os horizontes imaginativos das potencialidades humanas -, mas como guias da conduta elas podem se revelar literalmente fatais", anotou Berlin. As utopias almejam a completa realização de um conjunto de premissas, com a exclusão de todas as outras. É um caminho muito perigoso, "pois, se realmente acreditamos que tal solução é possível, então com certeza nenhum preço será alto demais para obtê-la".

A democracia constitui um sistema político avesso à utopia porque, por definição, rejeita atribuir estatuto de verdade incontestável a qualquer conjunto de premissas ideológicas. Os intelectuais utópicos têm um lugar na democracia - o de instigadores do debate público. Mas o sistema democrático de convivência de ideias contraditórias se estiola quando eles são alçados à posição de sábios oficiais e suas utopias são convertidas em verdades estatais.

Samuel Pinheiro Guimarães, até outro dia secretário-geral do Itamaraty, foi guindado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). No novo cargo, elaborou um documento intitulado O Mundo em 2022, ainda em versão preliminar, que circula no governo e no Itamaraty. Trata-se de um delineamento das tendências do sistema internacional, com propostas de políticas estratégicas do Brasil. Dito de modo direto, é a plataforma de uma utopia ultranacionalista, a ser aplicada num hipotético governo de Dilma Rousseff, que colide com os valores e as tradições da democracia brasileira.

Num texto escrito em português claudicante, o intelectual utópico expõe uma doutrina antiamericana que solicita uma curiosa articulação estratégica entre Brasil, Rússia, Índia e China "para reformar o sistema internacional e torná-lo menos arbitrário". Os Brics, acrônimo cunhado no interior de um banco de investimentos, constituem um "bloco" apenas na acepção restrita de que seus integrantes passaram a influenciar a governança econômica global. Eles, porém, não compartilham interesses geopolíticos relevantes - uma evidência clamorosa que escapa por completo à percepção de Guimarães, moldada por um obsessivo antiamericanismo.


Os equívocos teóricos pouco significam, perto das prescrições políticas. Nostálgico do "Brasil-potência" dos tempos de Ernesto Geisel, Guimarães atribui ao Estado os papéis de "estimular o fortalecimento de megaempresas brasileiras (...) para que possam atuar no cenário mundial globalizado" e de conduzir um programa de investimentos em pesquisa e desenvolvimento de amplas implicações militares. Os significados desta última proposição podem ser entrevistos na passagem em que o autor define o Tratado de Não-Proliferação Nuclear como o "centro" de um processo ameaçador de "concentração de poder militar". A leitura do documento oferece indícios sugestivos para a compreensão da lógica subjacente à aproximação entre Brasil e Irã e à operação diplomática brasileira de cobertura do programa nuclear iraniano.


No programa ultranacionalista, ausências falam tanto quanto presenças. Ao longo de 54 itens, não há nenhuma menção aos direitos humanos. Não é surpreendente: um livro de Samuel Pinheiro Guimarães, publicado em 2006, qualificou a defesa dos "direitos humanos ocidentais" como uma forma de dissimular "com sua linguagem humanitária e altruísta as ações táticas das Grandes Potências em defesa de seus próprios interesses estratégicos". A militância do governo Lula contra a política internacional de direitos humanos - expressa na ONU, em Cuba, no Irã, no Sudão, na China e em tantos outros lugares - não é um fenômeno episódico, mas reflete uma visão de mundo bem sedimentada. Lastimavelmente, as ONGs brasileiras de direitos humanos financiadas pela Fundação Ford trocaram a denúncia de tal militância pela aliança com o governo na difusão da doutrina dos "direitos raciais".

A utopia regressiva de Samuel Pinheiro Guimarães colide com a Constituição, que veta a busca de armas nucleares e situa a promoção dos direitos humanos no alto das prioridades de política externa do Brasil. Se a sua plataforma política aparecesse na forma de artigo, isso não seria um problema - e, talvez, nem mesmo uma fonte de debates interessantes. As coisas mudam de figura quando ela emerge como documento de Estado, produzido num Ministério encarregado de formular as diretrizes estratégicas do País.

O governo Lula exibe, sistematicamente, inclinação a partidarizar o Estado. A contaminação ideológica da política externa é uma dimensão notória dessa inclinação. Há, contudo, um antídoto contra a doença, que é a supervisão parlamentar das diretrizes estratégicas de política externa. Nos EUA, uma nação presidencialista como a nossa, as prioridades e os orçamentos do Departamento de Estado são submetidos ao crivo do poderoso Comitê de Relações Exteriores do Senado, expressão do controle social, bipartidário, sobre uma política de Estado. O Senado brasileiro tem uma Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Entretanto, sua gritante ineficácia, que exprime uma carência quase absoluta de poder real, proporciona ao governo as condições para a continuidade da folia ideológica em curso.

A SAE foi concebida como uma jaula dourada para acomodar (e ridicularizar) Roberto Mangabeira Unger, quando ele aderia ao governo que definira como "o mais corrupto da história". Agora, sob Guimarães, a jaula transforma-se em linha de montagem de uma utopia ultranacionalista que funcionaria como a régua e o compasso da inserção internacional do Brasil. A Nação tem o direito inalienável de se proteger contra o Ministério da Utopia, sujeitando a política externa ao escrutínio democrático dos parlamentares.

Manada de elefantes brancos Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo - 05/08/2010



Elefantes brancos costumam também designar alguma coisa de valor, da qual seu proprietário não pode dispor e cujo custo, inclusive de manutenção, é muito alto relativamente à sua utilidade. Segundo a Wikipédia, a expressão veio de animais desse tipo mantidos no passado por monarcas de países como Laos e Camboja, no Sudeste da Ásia. Ganhar um deles de um rei era uma bênção e uma maldição. Bênção porque sagrado e sinal de prestígio perante o monarca, maldição porque tinha de ser guardado e cuidado, sem utilidade que compensasse o custo de mantê-lo.

Uma pequena manada fixou raízes no Rio de Janeiro, com os Jogos Pan-Americanos de 2007, e tudo indica que virão duas maiores, uma com a Copa de 2014 e outra na Olimpíada de 2016. O Brasil vai recebê-las dos sagrados reinos da Fifa e do Comitê Olímpico Internacional. Vamo-nos limitar à de 2014.


O assunto recebeu ampla matéria de Marta Salomon neste jornal, no domingo. O texto abre com a afirmação de que as obras dos estádios já "reúnem indícios de superfaturamento, desperdício de recursos e negócios arriscados para os cofres públicos". Ou seja, já começou mal no criatório.

O custo das obras nos locais pré-selecionados alcança hoje um total de R$ 5,1 bilhões, e é importante datar esses custos, pois sua tendência é para o alto. Desse total, R$ 3,3 bilhões seriam financiados pelo BNDES. Uma de suas exigências é a demonstração da viabilidade econômica dos estádios no longo prazo. Se não se mostrarem lucrativos, os governos estaduais deverão cobrir os prejuízos. Será preciso fazer piruetas enormes para demonstrar essa viabilidade, e o BNDES que se cuide, pois pode ficar mal nessa história.

Tal viabilidade depende muito do uso do estádio para fins esportivos, da frequência que receberá, do valor dos ingressos e dos custos de manutenção, entre outros aspectos. Rendas também poderão vir da utilização para outras finalidades, como shows e festas. Eu gostaria de ver estádios-escolas, estas construídas embaixo das arquibancadas, mesmo que não ficassem bem arquitetonicamente. Se houver alguma outra restrição à ideia, que alguém me diga, pois gostaria de saber.

O certo é que o uso alternativo tem sido mínimo no Brasil. Mesmo com o futebol, segundo matéria de Luciano Máximo no jornal Valor de 1.º/6, a frequência no Brasileirão de 2009 teve a média de 17.807 espectadores - no campeonato alemão essa média foi de 42.565; no inglês, de 35.600; no espanhol, de 29.124; e no italiano, de 25.304, e sabe-se que lá os ingressos custam bem mais. Na Copa de 2006, na Alemanha, 9 dos 12 estádios utilizados eram privados. Aqui, ao contrário, serão 9 estatais dentre os 12, faltando ainda São Paulo por definir.

Em geral os clubes brasileiros não têm condições de arcar com os investimentos de um grande estádio, pois não têm dinheiro e o retorno é baixo. Assim, a Copa e seus estádios serão uma aventura predominantemente estatal e será difícil demonstrar a viabilidade econômica de projetos nessa área, prenunciando, assim, uma manada de elefantes brancos.

E há outros alertas. Na reportagem deste jornal há um do Tribunal de Contas da União (TCU) abordando estádios de Brasília, Manaus, Recife e Cuiabá, nestes termos: "O risco de elefantes brancos pode ser considerado alto em virtude de serem locais com pouca tradição de futebol." Há também um estranho caso de parceria público-privada (PPP), responsável pela reconstrução do Estádio da Fonte Nova, em Salvador, ao custo de R$ 591,7 milhões, num projeto que envolve uma taxa de retorno de 16,7% (!) ao ano para o investimento do parceiro.

Entrevistado, o secretário executivo da PPP defendeu essa taxa argumentando que é semelhante à da reforma do Mineirão, em Belo Horizonte. E que no caso do novo estádio no Recife, onde há outra PPP, o acordo garante ao sócio privado que o Estado bancará o prejuízo caso a bilheteria não renda R$ 75 bilhões por ano, um valor que considera superestimado. É como um elefante a justificar o outro.

A matéria também diz que, das 11 arenas que menciona, praticamente todas estão atrasadas, o que levanta um aspecto particularmente aterrorizante, o de que na última hora os governantes sejam pressionados por mais verbas, e com superfaturamento.

Outra notícia veio ontem na Folha de S.Paulo, indicando que a nova arena a ser construída pelo Palmeiras, em parceria com uma organização privada, já é dada como certa. Sua importância está também no fato de que poderá servir para comparar seus custos e prazos com os das obras sob o guarda-chuva do setor público. E, também, a questão da viabilidade econômica.


Como a manada da Copa já se afigura como inevitável, talvez fosse o caso de replicar também a Ordem do Elefante Branco, de oito graus, outorgada pelo governo da Tailândia, e que aqui poderia ser atribuída aos Estados que mais se destacassem na criação dos bichos.


E há à frente a enorme e séria tarefa de segurar seus custos, na qual será fundamental o papel do Ministério Público, da imprensa, do TCU e de seus congêneres nos Estados. Outra razão é que manadas desse tipo costumam vir acompanhadas de outros coletivos detestáveis. Assim, quando fui confirmar se manada era o de elefantes, reencontrei também outros coletivos que podem vir junto. Alguns festivos, como bandas e buquês, mas há o risco de alcateias, bandos, cambadas, corjas, pragas e nuvens. Deixo para o leitor a tarefa de voltar a seus tempos de ensino básico para rever o significado desses coletivos.


Na mesma lista que vi aparece trouxa como coletivo de roupas, mas faltou um coletivo para trouxas, todos nós, que pagaremos a enorme conta dessa aventura.

terça-feira, agosto 03, 2010

Lição de jornalismo-Fernando de Barros e Silva,folha

Folha de S Paulo
 SÃO PAULO - Um dos bons capítulos da imprensa brasileira dos últimos anos foi escrito pelos perfis publicados na revista "piauí". "Vultos da República", lançado agora pela Companhia das Letras, reúne nove deles, dedicados a personagens do mundo político. Estão lá os presidenciáveis: Dilma Rousseff, em dois textos de Luiz Maklouf Carvalho; José Serra ("Na hora da decisão") e Marina Silva ("A verde"), retratados por Daniela Pinheiro.
"O consultor" José Dirceu, o ex-ministro Marcio Thomas Bastos e Sérgio Rosa, ex-presidente da Previ, são figuras de destaque, das luzes e das sombras, verdadeiros vultos da era Lula. O perfil de Francenildo dos Santos Costa, "o caseiro" cujo sigilo bancário foi violado pelo governo, é especial. Todo "companheiro" petista deveria lê-lo na cama, antes de dormir.
Mas o grande momento do livro é o texto de abertura, "O andarilho", perfil de FHC assinado por João Moreira Salles, uma obra-prima do jornalismo. No posfácio, Humberto Werneck destaca, com razão, que o autor procede como havia feito em "Entreatos", documentário sobre a campanha de Lula em 2002: gruda no personagem e o acompanha, buscando interferir o mínimo possível naquilo que ouve e vê (apesar da consciência de que sua presença faz parte da cena e a altera).
FHC concedeu intimidades ao interlocutor, um Moreira Salles, provavelmente sem esperar que ele ali fosse antes um João jornalista. O resultado, muito humano, fisga o âmago do personagem.
"O objeto fala, o narrador pode se calar", escreveu o próprio Moreira Salles no posfácio à edição brasileira do livro de perfis do editor da "New Yorker", David Remnick. Ali, ele aponta que a revista criou e cultiva uma espécie de "retórica das coisas, de acordo com a qual o personagem se revela não só pelo que diz, mas também pelo que o cerca". O que não deixa de ecoar a convicção de Flaubert: "Para que uma coisa seja interessante, basta olhá-la durante muito tempo".

segunda-feira, agosto 02, 2010

Em Sucupira, nem todos são Odorico -Ferreirra Gullar

Folha de S Paulo


Ao contrário dos que fingem que trabalham, Bernardinho trabalha; o técnico é exemplo para nós


NUM PAÍS onde impera a safadeza -onde se faz que faz, mas não faz, onde se faz comício para assinar contrato de obras que não serão feitas-, país que é, na verdade, a Sucupira de Odorico Paraguaçu, uma personalidade como Bernardinho, técnico da seleção brasileira de vôlei, tem que servir de exemplo.
Ao contrário dos que fingem que fazem, ele faz; ao contrário dos que fingem que trabalham, ele trabalha; ao contrário dos enganadores irresponsáveis, ele é responsável, competente, dedicado inteiramente ao compromisso que assumiu. Um exemplo para todos nós, cidadãos de Sucupira!
Fora isso, ele é mesmo um exemplo de técnico, um exemplo não só de dedicação, mas também de competência. Seria um absurdo atribuir simplesmente à sorte a quantidade de vitórias que conquistou, culminando agora com o nono título de campeão da Liga Mundial de Vôlei. Até domingo passado, o Brasil empatava com a Itália, de oito a oito. Com a vitória sobre a Rússia, ultrapassou os italianos.
No futebol, acho um exagero quando se atribui tudo ao técnico, se o time ganha e, especialmente, quando perde: se perder várias vezes seguidas, dança. Acho injusto, porque o jogo se decide no campo, não basta o técnico ser bom. Mas, e no vôlei, o jogo não se decide na quadra? Por que então atribuir o êxito ao Bernardinho?
O argumento é procedente: no vôlei, como no futebol, se ganha é jogando bem e não é o técnico que joga por todos ali. Sim, mas há uma diferença, que tem a ver com o tamanho da quadra de vôlei, muito menor que o campo de futebol e onde há menos gente jogando. Daí a influência maior do técnico no resultado de uma partida de vôlei.
É uma teoria, claro. Penso o seguinte: no vôlei, como há menos jogadores num espaço menor, pode o técnico ter mais controle sobre as probabilidades das jogadas, como atuará o adversário, que possibilidades tem de neutralizá-lo etc.
Já no futebol, com tantos jogadores em campo, deslocando-se num espaço enorme e com muito maior liberdade, o grau de probabilidades é muito alto, e, por isso, foge à previsão do técnico. É claro que, tanto num caso como noutro, o talento dos jogadores é decisivo, uma vez que, com maus jogadores, nenhum técnico montará um time vencedor, tanto no futebol quanto no vôlei.
Mas é impossível ignorar que, numa disputa como esta da Liga Mundial de Vôlei, que o Brasil acaba de vencer, em que todos os times são excelentes e os jogadores, do mais alto nível, por que, então, o Brasil vence sempre? E mais: o time que venceu domingo passado era quase todo de novos jogadores. Se os jogadores mudaram e o time continuou vencendo, temos que reconhecer que o craque maior desse time é mesmo o Bernardinho.
E já que falei em Sucupira e em Odorico Paraguaçu, é quase inevitável perguntar: e se o Bernardinho se candidatasse a prefeito ou governador? Nem pensar!
A análise que fiz, comparando futebol e vôlei, vale muito mais para a política: aqui, não só o campo de atuação é muito maior, o número de "jogadores" também é maior. Neste jogo, ninguém obedece às regras: pelo contrário, está todo mundo a fim de burlá-las. Vence quem "dribla" mais...
E já que falei em Sucupira e Odorico Paraguaçu, falo agora de "Odorico, o Bem-Amado", peça de Dias Gomes, que, depois de enorme sucesso na televisão, chega agora ao cinema. Fui ver o filme dirigido pelo talentoso Guel Arraes e me diverti muito. O Zeca Diabo, de José Wilker, está genial.
E durante o tempo todo me lembrava de meu amigo e parceiro, um de nossos maiores dramaturgos que, morto, não tem recebido as homenagens que merece, embora os personagens que criou tenham se incorporado à nossa vida. Há, no Rio, cidade onde viveu quase toda a sua vida, algum teatro, alguma rua, algum beco, com seu nome?
Não, mas há uma estátua do grande Ibrahim Sued, na avenida Atlântica. E por que a TV Globo, quando se refere a suas novelas e minisséries, não lhe cita o nome? É que a TV Globo as escreveu, virou dramaturga?
Mistérios difíceis de decifrar. E agora o "Bem Amado" se torna filme, mas aparece como sendo "baseado na obra de Dias Gomes". Baseado?! A história é a mesma, os personagens os mesmos, as falas as mesmas, as piadas as mesmas, a trama a mesma, o desfecho o mesmo. Quem é então o autor?.


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