O GLOBO
Como já tinha feito em 2006, assisti ao debate dos candidatos à presidência no auditório da TV Globo anteontem. Dessa vez fiquei dividido entre a torcida pelo segundo turno e o medo de que isso transformasse a campanha numa briga de foice, mais do que já estava sendo. Para surpresa geral, porém, em vez disso, não houve baixarias e o clima foi até morno, talvez mais por cautela do que por civilidade. O cuidado de não se ofenderem chegou a levar Dilma e Serra a não dirigirem perguntas um para o outro. Plínio teve momentos engraçados, como sempre, Dilma melhorou seu desempenho, Serra demonstrou mais uma vez que seria melhor presidente do que é candidato, e Marina assumiu o papel de fiel da balança, acreditando que possa haver prorrogação.
A metáfora futebolística é inevitável: com medo de perder a partida no final, os adversários preferiram a defesa ao ataque. Foi um ambiente completamente diferente do que se tem visto nos jornais e na internet. Estive há dias em Brasília e São Paulo, e poucas vezes vi jornalistas se xingarem tanto. Quem viveu os tempos da guerra UDN x Vargas, com direito a atentado e a suicídio, sabe aonde pode chegar a marcha da insensatez em política. Por isso, tive vontade de chamar o Ancelmo para pedir: calma, gente.
Mesmo para os que leem Merval Pereira todos os dias - e isso é imprescindível para quem se interessa por política, concordando ou não com ele - o seu livro "O lulismo no poder" não deixa de ser atual, pois o que foi escrito no calor da hora ganhou uma organização por blocos temáticos que dá aos artigos unidade e sequência.
Merval estuda um fenômeno que costuma provocar ou adesão ou aversão. E muitos equívocos, desde o começo. Ao surgir no ABC paulista, Lula foi classificado pelos comunistas de "invenção" do general Golbery, guru do regime militar. Quarenta anos depois, a oposição cometeu erro parecido, ao achar que ele era um mero aprendiz de Chávez, sem perceber que o personagem é mais complexo - é pragmático e não ideológico, nem de esquerda nem de direita, muito pelo contrário, e cujo governo foi capaz de promover do bom - inclusão social e estabilidade econômica - e do pior - aparelhamento do Estado, corrupção e tráfico de influência.
Mesmo não gostando do seu objeto de análise, o autor procura reconhecer sua importância e evita idiossincrasias, já que pertence a uma escola de repórteres que teve como mestres Carlos Castello Branco e Villas-Boas Corrêa, para os quais o fato é sagrado, não a simpatia política, e a opinião só vale quando endossada pela informação. Como o botânico que não escolhe a planta pela forma ou pela cor, o colunista do GLOBO vem há anos estudando o lulismo e seu criador. O resultado saiu na hora certa.
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