Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, novembro 30, 2007
quinta-feira, novembro 29, 2007
OS PATIFES DAS ZAMÉRICAS
Evo Morales chegou ao poder na Bolívia anunciando pagar uma "dívida histórica" com os povos de origem indígena, como ele. Tudo certo se para alcançar a presidência ele não tivesse pregado, no lugar de oportunidades iguais aos povos desiguais, um confronto entre um e outro. Ao estilo esquerdopata patife que quer estabelecer o caos para estabelecer sua primazia. Esse pensamento anódino é recorrente na esquerda latina, aquela que quando chega ao poder, chega com o objetivo de extravasar todo seu rancor e recalque. Esse modelo que reúne populismos, autoritarismo, uma dose de demência e muito, mas muito cinismo, não deu certo em nenhum lugar do mundo. Mas esta nova geração de esquerdinhas aprendizes de déspotas latino-americanos, parece que não ter percebido que são projetos falidos.
Na Bolívia está iniciando um confronte de classes. Para se proteger e por não confiar no exército boliviano, Evo Morales convocou sua própria milícia, o Ponchos Vermelhos. Um grupo formado por índios aymaras radicais (mesma origem de Evo), cerca de 100 mil homens, segundo seus dirigentes, que de tão primitivos, na semana passada, durante uma assembléia no planalto andino (com a participação de outros grupos milicianos pró-Evo), realizaram um ritual onde degolaram dois cachorros, como uma amostra aos opositores de Evo do que eles são capazes de fazer. Edgar Patana, dirigente da Central Operária Regional de El Alto, anunciou que "começou a batalha decisiva, a última que esperava o povo".
Morales não só legitimou esse grupo miliciano antes ilegal, como concedeu a ele status militar e comparou a missão do grupo à do exército boliviano. O ato aconteceu em janeiro, durante a comemoração do primeiro ano de Evo Morales na presidência, quando o grupo Ponchos Vermelhos, desfilou pelas ruas de La Paz empunhando fuzis. Foi sob as ordens de Morales que o Ponchos Vermelhos marcharam na semana passada até Sucre, capital oficial da Bolívia, para defender a Constituinte. O confronto matou quatro jovens.
A situação que Evo Morales e o seu partido MAS está criando na Bolívia fere de morte a democracia, por outro lado atende exatamente aos projetos expansionistas do "patife mor das Zaméricas", Hugo Chávez.
Perceba que existe uma simetria nos discursos dos neo patifes. Evo não faz um só discurso sem que jogue toda a culpa da miséria de alguns nas costas dos "fazendeiros", que são contra as alterações na constituição por serem contra o povo indígena oprimido, ou seja, querem continuar explorando o povo boliviano, esse é o discurso de Evo. Ao mesmo estilo, aqui Lula diz retoricamente que "rico não gosta de ver pobre melhorando de vida".
Chávez conquistou o direito de permanecer no poder. Evo propôs isso na sua nova Constituição. Lula está armando seu 3º mandato e só não conseguirá se não quiser.
Agora vamos perceber a movimentação do "patife mor das Zaméricas". Na Bolívia, existe a suspeita de que Chávez tenha financiado a modernização do armamento de grupos paramilitares. No ano passado Evo e Chávez assinaram um acordo autorizando, caso haja confronto na Bolívia, que Chávez faça uma intervenção no país. Na Colômbia este desequilibrado estava tentando uma manobra para se aproximar das FARC com a desculpa de intermediar a libertação de seqüestrados. Lá o presidente Uribe o colocou para correr. Disse de forma certeira o que muitos já perceberam, que enquanto Chávez fala de imperialismo americano, suas pegadas mostram que ele deseja expandir o território venezuelano, e usa discursos e ideologias para conquistar o seu objetivo. No Brasil o "patife mor das Zaméricas" costuma manter contato direto com João Pedro Stedile, que comanda uma organização clandestina, pois o MST não existe juridicamente. Chávez entra e sai do Brasil sem ser anunciado como chefe de estado, apenas para se reunir com o MST.
E assim a América Latina perde mais uma oportunidade de se desenvolver, atrapalhada mais uma vez pela recorrência de déspotas de mierda, só que agora de esquerda. Enquanto o mundo se moderniza e discute assuntos relacionados ao seu desenvolvimento, nossos "chefes latinos" ainda discursam sobre luta de classes, um discurso de um século atrás, e que ainda existe apenas nas cabeças desses fascistas. É, o continente asiático já sentiu na prática e na pele o que é o socialismo, e nem de longe vemos que o desejam de volta. Quem sabe é a hora da América Latina sentir o peso real do socialismo. Na Ásia, só na China 70 milhões de pessoas perderam suas vidas, quantos morreriam na América Latina?
E assim começa a nascer a nova "ditadura democrática" na América Latina, banhada de sangue e liderada por esses patifes.
Publicado em 29/11/2007
Alberto Tamer - Brasil, feliz, não vê mais nada
| O Estado de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
A turbulência voltou, nesta semana, ao mercado financeiro internacional. Não chegou ainda à economia real, mas provocou novos temores de recessão. As bolsas, inclusive no Brasil, oscilam fortemente. Tudo isso levou o vice-presidente do Fed (banco central americano), Don Kohn, a admitir que os ganhos anteriores de normalização dos mercados foram perdidos nas últimas semanas. Mas ele acalmou um pouco os ânimos ao afirmar que o Fed está atento e vai analisar isso na reunião de 11 de dezembro. Esse pronunciamento e a promessa do próprio Fed, há alguns dias, de que oferecerá tanta liquidez quanto for necessária para dar suporte ao sistema financeiro, levou o mercado a entender que ele baixará o juro nessa reunião. Era quase unânime, ontem, a impressão de que essa redução seria de 0,50 ponto porcentual. Seguramente, tal decisão, se ocorrer, trará mais tranqüilidade, embora as oscilações bruscas e as tensões tendam a perdurar ainda por muito tempo, mais de um ano, de acordo com o secretário do Tesouro americano, Henry Paulson. Será um processo longo de reajuste. UM FUNDO DE DÍVIDA Este é, para nós, um cenário atípico. O que está acontecendo lá fora ainda não chegou ao Brasil, como temos dito nesta coluna. Enquanto EUA, Europa e Ásia já foram atingidos e lutam para evitar o pior, aqui tudo parece tranqüilo. A não ser na Bolsa, que sobe e desce, tudo parece bem. A economia continua sustentando um crescimento de 4,7% e até um possível 5%, o aquecimento da demanda interna se intensifica e há no ar uma espécie de antecipada alegria natalina. Chega-se até a anunciar um fundo soberano (do governo) para financiar investimentos, mas alimentado por compras de dólar do Tesouro - não do Banco Central - com a receita de venda de títulos, gerando maior endividamento. Queremos imitar a China e os Emirados Árabes, entre outros, que estão investindo bilhões de dólares no Ocidente. Sem dúvida, uma ousadia perigosa e inoportuna, pois o cenário externo, vivendo um clima de instabilidade crescente e perigosa, não nos dá nenhuma segurança. Está tudo bem, aqui, mas não somos uma ilha de estabilidade num mar de incerteza. BRASIL PRECISA DE CAUTELA A correspondente do Estado em Nova York, Nalu Fernandes, registrou ontem declarações da diretora de rating da Standard & Poor’s, Lisa Schineller, alertando o Brasil para evitar complacência com as políticas fiscal e monetária. Essa seria a pior hora para mudar o que está dando certo, principalmente, porque são essas políticas que reconquistaram a confiança do investidor externo. Mas o que poderá acontecer se a política econômica mudar? Para Lisa, poderá haver uma aversão dos investidores externos até agora interessados no Brasil. Nuno Camara, do Dresdner Kleinwort, afirma que, pela primeira vez neste ano, o investidor está preocupado com o Brasil. A analista prevê que devemos passar de um superávit de US$ 9 bilhões em conta corrente, este ano, para um déficit de US$ 2,8 bilhões em 2008. A coluna se estendeu sobre o tema porque é importante mostrar que a turbulência financeira internacional está nos afetando, sim, quer pelo menor crescimento das exportações, redução de investimentos financeiros (não os diretos, menos afetados, que se contentam com a demanda interna); o significativo aumento das importações e a, no mínimo, delicada valorização do real. Está tudo turvo, inseguro, sombrio para bravatas e ousadia infundadas. CUSTA CARO CRESCER Nesse período de semiabundância, parece que empresários e, principalmente, governos não compreenderam que um crescimento auspicioso de 5% este ano e nos próximos anos tem custo elevado. Mesmo com alguns valores mais elevados, os investimentos privados e oficiais (esses quase nulos) ainda são escassos diante das exigências desse ciclo de crescimento. Ele precisa ser mantido para reduzir o grau de miséria, que não acaba só com o Bolsa-família. Não temos ainda uma política realista de educação, a maioria das universidades privadas é ineficiente; pouco se fez para disseminar os cursos profissionalizantes, de menor duração e menos caros, empurrando os estudantes para faculdades que não os preparam para o que o mercado de trabalho precisa. Só em infra-estrutura, incluindo usinas hidrelétricas, serão necessários R$ 100 bilhões. RANZINZICE? Muitíssimo pouco está sendo feito nessa área vital para continuarmos a crescer. Pessimismo ranzinza? Nem um pouco. Como vocês, leitores, eu também estou feliz com essa nova fase que o Brasil começa a viver; também reconheço os méritos do governo, este ano, que soube capitalizar a bonança externa e atrair investimentos; também estou feliz com mais trabalhadores com emprego, ganhando e consumindo mais. Mas sou realista. Também estou preocupado com a falta de sensibilidade ao não se ver a conturbação do cenário externo, que até agora tanto nos havia favorecido. Não poderemos mais muito contar com ele. E O QUE VEM POR AÍ? Na verdade, ninguém sabe a força da tempestade que se forma lá fora. Podemos perder mercados, investidores e enfrentar uma fuga de capitais. Isso já está acontecendo. Crescimento não se mede só por anos, mas por ciclos, e depende de fatores internos e externos. Qualquer mudança acende o alerta. E esse sinal já disparou no mercado financeiro internacional. Estamos felizes e por isso não vemos nada do que se passa lá fora. *E-mail: at@attglobal.net |
O pior entre os melhores
| editorial |
| O Estado de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
Se o presidente Lula não fosse o supra-sumo do triunfalismo e conservasse um mínimo de senso de proporção ao falar do seu governo, não chamaria a atenção a moderação que demonstrou diante do relatório da ONU, lançado anteontem em Brasília, com os mais recentes Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) de 177 países, referentes a 2005. A discrição é significativa por evidenciar que nem mesmo o pendor presidencial para a fanfarronada fez o Planalto ir além das tamancas na comemoração da mudança da posição do Brasil no ranking do IDH. O País deixou de ser o 69º nessa classificação - o que o situava entre as nações de desenvolvimento humano apenas médio - para se tornar, no 70º posto do rol, a última das sociedades consideradas de alto IDH. Não há de fato motivo para prosopopéias. Primeiro, porque no relatório de 1998, elaborado com números de 1995, já estávamos nesse bloco de países cujo índice precisa ser de pelo menos 0,800, numa escala de 0 a 1. Ocorre que, em 1999, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), responsável pelo levantamento, mudou a forma de calcular o PIB por habitante dos países estudados, um dos componentes do índice, ao lado da expectativa de vida ao nascer, das taxas de matrícula nos vários níveis de ensino e do porcentual de adultos alfabetizados. Com a alteração, o Brasil e outros países acabaram rebaixados para o bloco dos médios. A segunda razão a desaconselhar fanfarronadas são as limitações inerentes a modelos estatísticos do gênero. O IDH discrimina com evidente fidedignidade os extremos - por exemplo, mede com precisão a distância abissal entre os 20 ou 30 países do topo e os outros tantos do rés-do-chão mundial. Mas as comparações se embolam tanto mais quanto mais perto se está do meio do campo. Assim, enquanto confere com os dados empíricos conhecidos o ordenamento que coloca Argentina, Uruguai, Costa Rica, Cuba e México à frente do Brasil em matéria de desenvolvimento humano, nos termos em que o Pnud o define, causa compreensível estranheza encontrar o Brasil abaixo de países como Romênia, Albânia e Macedônia - que despejam sem cessar legiões de emigrantes na Europa Ocidental -, para não falar de Líbia, Tonga, Maurício e assemelhados. Pouca diferença faz, portanto, se nessa contabilidade o Brasil está melhor ou pior que Dominica, Santa Lúcia, Casaquistão... Mas o que melhor expõe a modéstia do "avanço" de agora é o fato de ele ter-se verificado quase que totalmente entre 1995 e 2000, quando o índice aumentou 4,78%, passando de 0,753 a 0,789, ou seja, 36 milésimos de 1 ponto. O aumento entre 2000 e 2005 foi de 1,39%, o que nos levou de 0,789 a 0,800 - aumento de 11 milésimos de 1 ponto. E isso se deve basicamente ao impacto do Bolsa-Família para a elevação do PIB per capita brasileiro. É uma constatação agridoce. De um lado, por demonstrar que o programa funciona. Isso porque "foi implementado através de um sistema político descentralizado", avalia a ONU, "mas com forte apoio federal em termos de definição de regras". Não é pouco. O drama é o outro lado. Não está em curso nenhuma transformação qualitativa no desenvolvimento humano nacional - o que se revelaria caso o avanço no IDH se explicasse não por políticas assistenciais, mas por políticas de modernização da infra-estrutura que o Estado nacional não tem recursos para realizar, apesar do crescimento da economia. Teria se não jogasse dinheiro fora. Por isso, a universalização da educação básica e o crescimento da matrícula nos níveis médio e superior convivem com padrões indigentes de ensino. Nesse passo, o Brasil continuará por muito tempo a ser o país do futuro. Não menos importante é quão pouco ainda se aplica ao País a noção de alto desenvolvimento humano, na acepção de qualidade de vida, que lhe é indissociável. Trata-se do subdesenvolvimento brasileiro em relação ao que o filósofo político Avishai Margalit, de Princeton, denominou "sociedade decente". É amarga a coincidência, nesse sentido, do noticiário sobre o IDH com os desdobramentos da tragédia da jovem L., largada às feras pela polícia paraense. O seu sobrenome, comentou o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, é Brasil. Por isso, sugeriu que se falasse em "caso Brasil".
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Míriam Leitão - Mundo novo
| PANORAMA ECONÔMICO |
| O Globo |
| 29/11/2007 |
Um comprador novo, com US$3 trilhões no bolso para comprar ativos. A principal economia do planeta ficando proporcionalmente menor em relação ao mundo. O dólar se desfazendo. As análises apostam no inédito: a economia mundial continuará crescendo, mesmo numa eventual crise nos Estados Unidos e em meio a um choque do petróleo. O mundo está muito mudado. Tanto que está difícil para os analistas fazerem suas previsões. Normalmente, quando a economia americana engasgava, o mundo tossia. Quando os Estados Unidos desaceleravam, o mundo perdia ritmo e podia cair numa recessão. Os países em desenvolvimento sentiam mais rapidamente o baque pela dependência em relação ao mercado americano. Qualquer choque do petróleo levava a uma cadeia de eventos que podia produzir uma recessão mundial. Uma crise imobiliária e de crédito nos Estados Unidos era disparo de uma crise generalizada. E agora? Idéias novas circulam pelo mundo. Primeiro, a de que houve uma separação entre as economias emergentes e as avançadas, o que pode fazer com que os emergentes não apenas se segurem, como também possam mudar de papel. Em vez de resgatados de suas crises por empréstimos dos grandes países, podem passar a fazer parte da equipe de resgate. Talvez parte desse socorro venha em forma dos assustadores, pouco conhecidos e endinheirados Fundos Soberanos. Esses fundos são criados pelas reservas e riqueza nas mãos dos governos dos países emergentes. Por um lado, provocam temores. Por outro lado, podem injetar ânimo na economia americana. Qualquer um desses três choques é capaz de derrubar a economia dos Estados Unidos: uma disparada dos preços do petróleo, uma crise imobiliária que reduza o consumo e uma forte depreciação do dólar que encareça produtos importados. Aconteceram os três ao mesmo tempo. E a economia americana desacelera, mas pode escapar da recessão, segundo algumas análises, como a do FMI. Um dos motivos é que a desvalorização é tão forte que pode acabar catapultando as exportações e, com isso, aumentar o ritmo de atividade da economia americana. Outro é a atuação dos fundos soberanos. Terceiro, os países emergentes respondem por parcelas cada vez maiores do PIB mundial. Este ano, China e Índia agregaram mais ao PIB mundial que os Estados Unidos. Os BRICs explicam metade do crescimento do planeta. Já os Estados Unidos, que há cinco anos absorviam 19% das importações internacionais, hoje compram 14%. Todos esses sinais de mudança indicam que velhas equações precisam ser revistas. Não está certo ainda que o mundo possa passar por tantos choques sem sofrer forte reversão em seu crescimento. Há sinais de redução do ritmo do mercado americano, mas a maior aposta ainda é que o país não vai ter recessão. Os fundos compostos pelas enormes reservas de vários países têm muito dinheiro disponível para investir, e são eles este ator novo no mercado. No Brasil, discute-se como fazer um fundo soberano; e isso já está criando polêmica. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central já disseram que o país vai constituir o fundo, mas garante-se, no governo, que não será com as reservas cambiais e que não se sabe se os dólares serão comprados no mercado pelo próprio BC ou pelo Tesouro. O cálculo que se faz hoje é que os fundos soberanos têm pouco menos de US$3 trilhões em ativos. Antes, eles investiam basicamente em títulos do tesouro americano, mas agora buscam retornos maiores. Há quem aposte que esses fundos vão financiar eventuais problemas que a economia americana possa enfrentar. - Esses fundos são tão grandes que hoje não estão mais só em renda fixa; já podem ir buscar investimentos mais arriscados. Países produtores de petróleo já atuam nessa área há um bom tempo. Mas há muitos outros; o próprio Chile tem um fundo por causa do cobre. No caso do Brasil, agora é que estamos com muitas reservas, então ainda é novidade - diz Ricardo Amorim, do WestLB. Uma reportagem recente da "Business Week" conta que, quando o Barclays pensava em comprar o ABN Amro, o presidente do Barclays, Bob Diamond, foi até Cingapura e conseguiu, em um dia, US$5 bilhões do fundo Temasek. Esse fundo soberano de Cingapura tem um retorno anual de 18% e investe em negócios tão diversos como mídia indiana, indústria de vacinas na Áustria ou bancos asiáticos. Uma das visões que se têm é que esses fundos podem ajudar a manter o equilíbrio dos mercados mundiais, pois são investidores de longo prazo, mas até onde eles podem ir? Como será a reação se um fundo da China ou do Oriente Médio comprar um grande banco americano? Esta semana, o fundo de reservas de Abu Dhabi injetou US$7,5 bi no Citibank. Mas eles são ainda muito pouco transparentes. A reportagem da "Business Week" dá como exemplo exatamente o fundo de Abu Dhabi, que deve ter algo como US$875 bilhões, mas nada informa sobre suas operações. Todas essas novidades tornam a economia cada vez mais imprevisível. |
Merval Pereira - A reboque
| O Globo |
| 29/11/2007 |
A Junta de Defesa do Continente, que o presidente Lula pretende propor na 3ª reunião de chefes de Estado da União Sul-Americana de Nações, em Cartagena, na Colômbia, nada mais é do que uma das principais linhas da política militar de Hugo Chávez. O governo brasileiro estaria assumindo essa iniciativa como sua para retirá-la do contexto da política antiamericana chavista, segundo versões oficiais, ou, de acordo com seus críticos, estaria simplesmente validando a escalada militar bolivariana na região. O grupo seria formado pelos ministros da Defesa de todos os países, teria como principal missão proteger a Região Amazônica e as fronteiras marítimas, e substituiria, este é o temor, a Junta Inter-Americana de Defesa, da qual participa os Estados Unidos. Segundo o cientista político Amaury de Souza, em artigo para a revista "Digesto Econômico" da Associação Comercial de São Paulo, "para contra-arrestar a ameaça militar norte-americana, três linhas de ação vêm sendo implementadas: 1) uma nova visão estratégica de defesa nacional no marco de uma guerra assimétrica; 2) a defesa integral da nação com base em uma aliança cívico-militar; 3) o fortalecimento e a preparação da Força Armada Nacional, com a modernização de seu equipamento e a criação de uma força conjunta para a defesa da América do Sul". O deputado federal Raul Jungmann, do PPS, membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, não concorda com a postura do governo brasileiro na região. Segundo ele, o Brasil adota um "pragmatismo de shopping" diante das graves crises políticas que se desenrolam no continente, "assistindo a tudo e abrindo mão de sua liderança". Jungmann define a postura brasileira diante da exportação da "revolução bolivariana" pelo continente como de "paralisia pela ideologização" e critica o fato de "uma certa esquerda enquistada no governo ter a Venezuela de Chávez como paradigma". O que tem sido menos perceptível no esquema militar chavista, segundo Amaury de Souza, "são os esforços em prol de uma integração militar e geopolítica paralela à integração econômica da região e do desenvolvimento de um pensamento militar autóctone". Segundo ele, "tem-se travado nas organizações militares do continente um debate sobre as vantagens de um esquema hemisférico de defesa, com a participação dos Estados Unidos, e de esquemas regionais, que não requerem necessariamente sua participação". Estes últimos enfatizam a cooperação multilateral de defesa com especial atenção às particularidades de cada país e da América do Sul, sem excluir ou hostilizar os Estados Unidos. "Precisamente o contrário foi proposto no âmbito da defesa dos membros da ALBA (Cuba, Nicarágua, Venezuela e Bolívia). Trata-se de um pacto militar para a defesa conjunta contra os Estados Unidos". Consequência grave dessa tendência é a tentação de intervir militarmente em um país vizinho, adverte Amaury de Souza, lembrando que acordo de cooperação militar entre a Venezuela e a Bolívia concede à primeira o direito de acantonar tropas e construir bases militares nas fronteiras da Bolívia. Prevê-se a construção de um porto da Marinha em Puerto Quijarro, no departamento de Santa Cruz de la Sierra, a 200 quilômetros de Corumbá e da fronteira com o Paraguai, e de um forte militar em Riberalta, no departamento de Beni, próximo à fronteira com o Brasil. Essa militarização pode ensejar conflitos com países vizinhos, ou até incentivar aventuras externas para galvanizar a opinião pública em apoio ao governo, comenta Amaury de Souza. "Não por acaso, as novas bases se localizam em áreas onde é forte a oposição ao governo de Evo Morales, deixando entrever a possibilidade de que as tropas sejam usadas para reprimir manifestações políticas", analisa o cientista político. Também o deputado Raul Jungmann, que visitou a Bolívia recentemente, garante que a segurança pessoal do presidente Evo Morales é feita por agentes venezuelanos. Para Jungmann, além do fator ideológico que rege nossa política externa na região, depois que o conflito leste-oeste foi encerrado, a diplomacia brasileira perdeu os parâmetros da política externa, ao mesmo tempo em que a América do Sul deixou de ser do interesse dos Estados Unidos, preocupados com as questões do Oriente Médio e do terrorismo internacional. A ousadia de Chávez e os petrodólares abundantes transformaram a Venezuela no novo pólo diplomático na região, e o Brasil está seguindo a reboque, "numa postura sindicalista", acusa Jungmann. Segundo ele, pela primeira vez depois da democratização está sendo aberta uma janela para a discussão do papel dos militares, justamente pela mudança que está havendo na região. "A América do Sul não é mais uma área pacífica e a tendência à nuclearização da região é uma ameaça concreta", diz o deputado do PPS, referindo-se aos acordos que a Venezuela está fazendo com países como o Irã, a Coréia do Norte e a Rússia. No momento em que já não existem mais "alinhamentos automáticos" no mundo, raciocina Jungmann, cada país começa a realizar seus próprios alinhamentos, segundo interesses imediatos, e é o que está levando a Venezuela a expandir seu "socialismo do século XXI". "O Brasil, diante dessa realidade, não age como protagonista que é na região, numa política pragmática que leva em conta de um lado as supostas vantagens comerciais, e de outro a ideologia política". Exemplo dessa incoerência é o fato de que, ao mesmo tempo que admite retomar os acordos com a Bolívia sobre o gás, mesmo depois da quebra de contratos anteriores e com a situação de crise política aguda, o Exército brasileiro já fez manobras perto da fronteira, preparando-se para a hipótese, cada vez mais presente, de haver uma guerra civil e os brasileiros terem de ser evacuados. |
Eliane Cantanhede - Chávez e as Farc
| Folha de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
Com as crises internas na Venezuela e na Bolívia, marcadas por grandes manifestações e até mortes, talvez estejamos subestimando uma ameaça bem mais grave: o recrudescimento do confronto entre a Venezuela e a Colômbia. Crises internas são mau sinal. Crises entre países são piores. |
Dora Kramer - Tiros no peito
| O Estado de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
Há um mês, um pouco menos, ninguém ousaria sequer aventar a hipótese de o governo perder a parada da CPMF, não conseguindo aprovar a prorrogação até 31 de dezembro, de forma a preservar a arrecadação integral do imposto em 2008. Mesmo a oposição fazia suas graças, mas considerava o assunto matéria vencida. De uma hora para outra, o vento virou. O mais provável continua sendo a vitória governista no prazo previsto, mas, além de o custo - político, inclusive - sair mais alto que o imaginado, o risco da derrota passou a freqüentar o ambiente já não como possibilidade remotíssima. É verdade que o governo faz charme quando fala em retirada da proposta e admite a existência de um plano B até outro dia negado com veemência. Não quer posar de arrogante porque há o risco e, nessas horas, o pessimismo serve para unir a tropa e iludir o inimigo. As ameaças de aumentar Imposto de Renda, suspender obras do PAC e restringir o Bolsa-Família também soam inverossímeis. Em ano eleitoral o presidente Luiz Inácio da Silva não mexe no bolso do contribuinte, muito menos investe contra as jóias de sua coroa. Seria mais que um tiro no pé, dispararia contra o próprio peito. Já bastam os vários petardos que o governo dirigiu contra si nesse processo de tramitação da CPMF e que contribuíram sobremaneira para a alteração do rumo dos ventos e podem ser listados por ordem de entrada em cena. A absoluta imprevidência de deixar uma questão como essa, a única realmente importante da agenda parlamentar do governo e com data marcada para acontecer desde a última renovação há quatro anos, para a última hora. O governo sabia das dificuldades no Senado, mas as menosprezou. A arriscada imprudência de confiar na força da pressão dos governadores do PSDB, acreditando que, com isso, poderia livrar-se do varejo na base aliada e sair da história vangloriando-se da negociação altiva, de mérito. A total ausência de senso de oportunidade ao deixar que seus aliados alimentassem a discussão sobre a possibilidade de um terceiro mandato ou alguma outra forma de continuidade no poder que não a disputa eleitoral conforme as regras atuais. Abriu, óbvio, guarda à oposição e sacudiu os brios adormecidos do PSDB. A perigosíssima mistura do caso Renan Calheiros com a votação da CPMF, num acordo desastrado - até por desnecessário - que deu aos opositores a oportunidade de atrasar os trabalhos em duas semanas. As atabalhoadas ações da líder do bloco governista no Senado, Ideli Salvatti, que conseguiu com muita habilidade e empenho fazer o PTB se desvincular de sua liderança. E, por fim, a assinatura, de próprio punho, do presidente da República no aval à tese de que o governo não precisa da CPMF para fazer frente a compromissos indispensáveis, mas para gastar a rodo na construção do projeto de permanência no poder. Com tudo isso, só não surpreende que a situação não tenha fugido totalmente ao controle porque, como ensinam os experientes, governo quando quer uma coisa e se empenha por ela, ganha sempre. Diante da comédia de erros, a oposição se animou. Contabiliza 33 votos contra. Se for verdade, deixa o governo com apenas 48, 1 a menos que o mínimo necessário. Há tempo, porém, para o Planalto se rearticular. Os oposicionistas sabem disso e correram para apressar a tramitação da CPMF, para brilhar no momento de conturbação e também obrigar o governo a, na urgência, suar a camisa, explicitar a busca de votos mediante troca de favores, nomeações, liberações de emendas e fazer mais cara a conta da, apesar dos pesares, ainda provável vitória. Preliminar A aprovação por 17 a 3, na Comissão de Constituição e Justiça, do relatório pedindo a cassação de Renan Calheiros não antecipa nem autoriza previsões sobre o julgamento final no plenário, terça-feira próxima. Basta ver o voto de Romero Jucá, líder do governo e por diversas vezes atuante como advogado de defesa de Calheiros no Conselho de Ética. Ontem julgou-se a constitucionalidade do processo. No mérito, outros quinhentos valerão. A preço de ontem, a surpresa será a absolvição. Vento que venta A má notícia que vem da Bolívia e da Venezuela é o recrudescimento da pressão e repressão de Evo Morales e Hugo Chávez sobre seus adversários. A boa é que há adversários. As duas Constituições, feitas à imagem e semelhança de seus comandantes, sofrem pesada reação. E, assim, quedam-se por ora apenas feridos os arautos da mistificação da ditadura travestida de democracia direta na América Latina. Por aqui, os defensores da proposta da Constituinte exclusiva para fazer a reforma política sob a alegação de que o Congresso não a faz, se ingênuos ou calculistas, não interessa. Importante é que observem como as coisas só dão certo até o momento em que começam a dar errado. |
Clóvis Rossi - Exaltação da mediocridade
| Folha de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
Fernando Haddad, o ministro da Educação, telefona para dizer que jamais afirmou que "nunca" a escola pública será tão boa quanto a particular. |
Celso Ming - Força nova
| O Estado de S. Paulo |
| 29/11/2007 |
Seja qual for o desfecho da Oferta Pública Inicial das ações da BM&F, a economia deve comemorar o rápido desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil. Preconceitos de várias procedências ainda mantêm em certas áreas da sociedade brasileira a impressão de que mercado de ações é cassino ou jogo bruto de especuladores. Muita gente ainda desconhece que um saudável mercado de ações é a maneira mais rápida e mais barata de capitalizar a empresa brasileira e de garantir crescimento econômico. A Bolsa, ou mercado secundário de ações, é apenas um instrumento que assegura mercado para o acionista que precisa se desfazer de suas posições. E, assim, mantém as condições gerais para que a empresa brasileira possa continuar a se abastecer de capitais para sua expansão. Ao longo das duas últimas décadas, o grande obstáculo ao desenvolvimento do mercado de capitais do Brasil foi a enorme dívida pública que obrigava o Tesouro a despejar títulos no mercado e a pagar juros altos demais para isso. Enquanto conseguiu ganhar no mole financiando o Tesouro, o brasileiro não se interessou em se arriscar na compra de ações de empresas que podiam a qualquer momento ser vítimas da política econômica de um governo quebrado e irresponsável. À medida que as coisas se foram arrumando, que a inflação foi controlada, que os juros caíram e que a economia ficou mais previsível, o mercado brasileiro de capitais encontrou condições para se desenvolver. Contribuiu para isso a miopia dos bancos que seguiram cobrando dos seus clientes juros e spreads extorsivos. As melhores empresas não vacilaram em se livrar da ditadura do crédito: ou abriram seu capital ou tomaram crédito, bem mais barato, de outras empresas. A tabela mostra como as Ofertas Pública Iniciais de ações evoluíram nos últimos quatro anos. Só neste ano, foram 62. Boa parte desse sucesso foi assegurado pelas novas exigências de excelência em governança corporativa e pela incorporação dos valores éticos institucionalizados pelo chamado novo mercado. Hoje, a Bolsa de São Paulo movimenta a média de R$ 4,7 bilhões diários, duas vezes mais do que a média do ano passado. Importante conseqüência nesse desenvolvimento ocorreu na cabeça do trabalhador. Ele já entendeu como esse mercado funciona e o que esperar dele, um objetivo que se pretendia alcançar na década de 70 com a criação dos chamados Fundos 157, que fracassaram pela sua má e, em alguns casos, fraudulenta administração e pelo pouco compromisso das nossas autoridades com a defesa do interesse do pequeno aplicador. Quando, em 2000, o governo permitiu que o Fundo de Garantia pudesse ser usado para a compra de ações da Petrobrás, houve forte reação contra a iniciativa por parte dos sindicatos e do próprio PT. Para eles, dinheiro sagrado do trabalhador estava sendo desviado para a jogatina. E, no entanto, a forte valorização da aplicação (de mais de 1.100% até agora) e o sucesso da empreitada deram grande contribuição para o amadurecimento deste mercado, que agora começa a produzir seus frutos. Confira Capital de risco - A entrada de Investimento Estrangeiro Direto (IED) continua forte. Nos dez primeiros meses do ano atingiu US$ 31,2 bilhões, ou 66,1% acima do que em igual período do ano passado. Vem mais - O Banco Central prevê para todo o ano entrada de US$ 32 bilhões, uma projeção conservadora. Pode vir mais - Como o Brasil está em alta lá fora, é provável que em novembro e dezembro entrem no País mais do que os US$ 3,2 bilhões de outubro. Se for assim, teremos para todo este ano entradas perto de US$ 35 bilhões. |
Contra o interesse nacional
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