Não é de hoje, ou não é pelas difíceis conversas com a simpaticamente dura Condoleezza Rice, secretária de Estado dos EUA, que o governo brasileiro tem a convicção de que o afastamento de Hugo Chávez da Presidência venezuelana se inclui nas "ações preventivas" que, bem a propósito, foram uma idéia muito repetida e realçada no discurso de Bush para inaugurar seu segundo mandato. Mas a preocupação daí decorrente não está só no grupo presidencial nem é só ideológica: é também de natureza militar, em razão dos aspectos geopolíticos que envolvem a Amazônia.
Seja no caso de transbordamento das más relações entre Colômbia e Venezuela, seja em caso de ação explícita ou encoberta dos EUA para destituir Chávez, o entendimento político e o militar coincidem na conclusão de que pesadas sobras recairiam sobre o Brasil. No primeiro caso, porque os colombianos teriam a companhia dos americanos, já presentes no seu território a título de orientar o combate à guerrilha. No outro caso, porque Chávez dificilmente deixaria de reagir e os americanos dificilmente deixariam de aumentar sua participação. Nos dois casos, as fronteiras do Brasil estariam sujeitas a violações muito prováveis, com problemas complexos para a defesa da integridade da Amazônia brasileira.
De outra parte, a eclosão de uma crise aguda teria conseqüências arruinadoras para o projeto de ação conjunta, como um bloco mesmo, dos países da América do Sul no plano internacional.
É óbvio que os EUA se sentem prejudicados por tal bloco, e esse é mais um dos seus motivos para desejar a Venezuela de volta, verdadeiramente ao lado de sua vizinha Colômbia, à "fraternidade pan-americana" regida de Washington.
Na crise em andamento, mais uma vez se assiste à exacerbação transformadora de fatos pelo menos toleráveis, senão mesmo justificáveis, em pretextos insuportáveis. É o que se constata de duas das três acusações principais feitas à Venezuela de Chávez. Para começar, a acusação de que a Venezuela provocará um ameaçador desequilíbrio militar na região, com seu plano de importar armamentos da Espanha, do Brasil e da Rússia. Esse desequilíbrio já existe, desde que o governo Bush iniciou o programa de US$ 1 bilhão em ajuda militar à Colômbia, mandou soldados para o território colombiano e, ainda, militares para o Equador, em acordo com o destituído Lucio Gutiérrez.
Outra acusação é a de rompimento injustificado e unilateral do acordo de cooperação militar EUA-Venezuela, idêntico a muitos outros feitos na América Latina durante a Guerra Fria. Hugo Chávez acusou os instrutores americanos na Venezuela de pregar contra o seu governo. O Brasil também acabou há anos com esse acordo, os instrutores americanos também foram dados aqui como insufladores em questões políticas (acusação aliás fundada) -e daí? Daí, só uns dias de noticiário e nada mais.
O terceiro argumento apresentado pelo governo Bush é o da falta de liberdade para a oposição venezuelana, com evidência de restrições numerosas à democracia. Não há dúvida de que na Venezuela não vigora democracia plena, nem a democracia como consta no discurso americano, nem mesmo a democracia que muitos crêem existir em seus países, como é o caso do Brasil. Por aí se entra, porém, em uma polêmica sobre temas tão velhos quanto inconclusivos: pode-se falar em democracia onde a riqueza se concentra em poucos e a pobreza se distribui em multidões? Eleições significam democracia? Ou até onde o fazem? O reformismo social é mesmo uma ameaça à democracia, como é dito na América Latina sempre que emergem intenções reformistas? E assim vai. Ou melhor, nunca vai.
O noticiário dos últimos dias foi pródigo em produções ficcionais. Ainda se sabe muito pouco dos pormenores conversados entre Condoleezza Rice e os representantes do governo brasileiro. Mas o pouco que se sabe, sobre o clima geral, é simples e indicativo: as amenidades da secretária ficaram para suas exposições externas.
FOLHA DE S.PAULO
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, abril 29, 2005
JANIO DE FREITAS :Mensageira da crise
FHC concedeu coletiva formal ao menos oito vezes
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DA REPORTAGEM LOCAL
Nos dois mandatos presidenciais do tucano Fernando Henrique Cardoso, ele concedeu pelo menos oito coletivas formais no Palácio do Planalto. Foram cinco no primeiro mandato (1995-1998) e três no segundo (1999-2002). Na média, FHC deu uma coletiva clássica por ano no Planalto. Lula, em dois anos e quatro meses de gestão, dará hoje a sua primeira entrevista desse tipo.
Antes mesmo da posse, FHC falou à imprensa. Foi logo após a eleição, em 6 de outubro de 1994, no Teatro Nacional, em Brasília, quando respondeu a 22 perguntas, uma por veículo.
Sua primeira coletiva oficial, porém, foi em 16 de fevereiro de 1995, após apresentar ao Congresso o primeiro lote de propostas de reforma constitucional. FHC fez apresentação de 35 minutos. Depois, respondeu a 20 perguntas.
Na ocasião, só perdeu a calma na última pergunta, da Folha, sobre o que faria se ganhasse R$ 70, o salário mínimo da época. "Não sobreviveria", respondeu ele, dizendo que, "por isso", defendia a reforma da Previdência. "Temos que ser sérios e não engraçadinhos", afirmou depois.
No período FHC, não havia restrições a réplicas dos jornalistas, imposição adotada pelo atual governo e que restringe a atividade de imprensa ao impedir contra-argumentação.
Apesar de não haver proibição a réplicas, FHC decidia se respondia novamente ao jornalista ou se seguia adiante. Em 8 de março de 2001, FHC, respondendo a réplica da Folha, fez ataque bem-humorado ao então aliado e senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), envolvido em duelo na época com o presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA).
"A posição do senador Antonio Carlos é igual à do Requião [Roberto Requião, crítico do tucano e ainda hoje governador do Paraná]. Um trombone isolado na orquestra", afirmou FHC.
Nos anos tucanos, o limite máximo e usual de perguntas era 20. O limite mínimo eram 12 perguntas, como na entrevista coletiva dada em 17 de janeiro de 1996.
Devido ao grande número de jornalistas credenciados, a assessoria de FHC fazia sorteio entre os veículos que mantinham cobertura diária e com assento no comitê de imprensa. Na coletiva de 21 de agosto de 1995, o Planalto limitou a 15 o número de perguntas. Na ocasião, grandes veículos de comunicação não foram sorteados e, assim, não perguntaram.
Na comparação com Lula, FHC era mais amistoso com os jornalistas e concedia coletivas rápidas em maior número nas viagens domésticas e internacionais. Em suas viagens, Lula, muitas vezes, não falou com a imprensa.
Em dias de notícia de muito impacto, FHC também ia à sala de briefings para responder a perguntas específicas e acabava falando de tudo. Em algumas visitas de autoridades estrangeiras, FHC deu coletivas, algo que Lula evita. (KENNEDY ALENCAR E CATIA SEABRA)
FOLHA DE S.PAULO
CLÓVIS ROSSI :Todos são frágeis
SÃO PAULO - Se é para valer a sua definição para democracia, Condoleezza Rice, a secretária norte-americana de Estado, terá de incluir todos os países latino-americanos na relação dos "Estados frágeis".
Retornemos à definição, conforme o relato de Eliane Cantanhêde e Cláudia Dianni na Folha de anteontem: "Democracia não é só eleição", começou Rice. Engatou: "Nosso trabalho tem que ser buscar políticas que dêem à democracia uma chance não apenas de realizar eleições mas também de realmente oferecer isso [educação, saúde e oportunidade para todos] a seu povo".
Como é óbvio, o Brasil não oferece nem educação, nem saúde, nem oportunidades para todos. Logo, seria igualmente um "Estado frágil". Vale o mesmo para qualquer outro dos países latino-americanos, grandes ou pequenos.
Olhe-se agora um pouco mais para o norte: na Nicarágua, começa a se instalar um cenário, digamos, "equatoriano" (ou "boliviano"? Ou "argentino", se a memória recuar para 2001?). Ontem, o presidente Enrique Bolaños foi agredido com pedras e sacos de água e de lixo. Escapou ileso, mas seu filho sofreu cortes na cabeça. Não é exatamente uma situação corriqueira em Estados sólidos.
É evidente que a América Latina não é uma região homogênea, por mais que tenha algumas características comuns. Mas supor que Belize e Brasil, Uruguai e Haiti, por exemplo, tenham algum parentesco grande é iludir-se.
Não obstante, todos os países do subcontinente caem na categoria "não oferecer oportunidade para todos", uns mais, outros menos, mas mesmo os "menos" têm um fenomenal déficit social.
Se os Estados Unidos estão mesmo preocupados com a democracia na América Latina, deveriam dar atenção a esse déficit, muito mais ameaçador do que os desvarios do presidente Hugo Chávez.
FOLHA DE S.PAULO
ELIANE CANTANHÊDE :Pelo mundo afora
SANTIAGO - Ninguém leva muito a sério essa história de o Brasil mover mundos e fundos para tentar reformular a ONU e ganhar uma vaga permanente no Conselho de Segurança. Não leva a sério porque acha que o Brasil não tem estatura para isso e não se interessa muito porque o assunto é chato mesmo e não se sabe direito para que esse raio desse conselho serve. Para impedir invasões do Iraque é que não é.
Mas é assim, devagar e sempre, que o Brasil está chegando lá. Tem apoio em todos os continentes e de quatro dos atuais cinco membros permanentes: Reino Unido, França, China e Rússia. Só falta um, que, não é nada, não é nada, é o principal, uma espécie de dono da ONU: os EUA.
Mas Lula e Celso Amorim não desistem. Conversaram sobre o assunto com o ex-secretário de Estado Colin Powell, voltaram à carga com sua sucessora, Condoleezza Rice, e acham que, se os EUA não atrapalharem, já estarão ajudando bastante.
O discurso tanto de Powell como de Condoleezza é o de que é preciso reformar profundamente a ONU e incluir países emergentes. Além disso, eles não se cansam de repetir o bordão de que o Brasil é "uma potência na região" e um líder em ascensão no cenário internacional.
Somando "a" com "b" e com "c", a resposta pode ser: Brasil no conselho. Mas não pode ser alardeada, para não melindrar países da região, como o México e a Argentina.
Enquanto isso, o Brasil despacha Amorim para se meter a líder regional no conflagrado Equador, onde ele chega hoje com os chanceleres da Bolívia e do Peru. E despacha Dirceu e Marco Aurélio Garcia para uma reunião em Montevidéu de partidos de esquerda que assumiram o poder na América do Sul.
Eles não brincam em serviço. Quando a gente menos esperar, o Brasil pode estar disputando seriamente, sim, uma vaga permanente no conselho da ONU. E, quando cair a nossa ficha e a deles, começa outro problema: para que mesmo?
FOLHA DE S.PAULO
NELSON MOTTA:Coisas da política ou burrice mesmo?
RIO DE JANEIRO - "Fulano é honesto como um comunista". Sempre me diverti com essa frase de um amigo italiano, nos anos 80, que se aplicava muito bem aos comunistas em funções públicas na Itália. Eram raríssimos os casos de corrupção entre eles, embora um ou outro acontecesse, senão não seriam humanos. E muito menos italianos. Os socialistas da época, liderados pelo premiê Bettino Craxi, eram vistos, junto com os políticos da Democracia Cristã, como os mais corruptos. Já a extrema direita, neofascista, até os inimigos reconheciam, era formada por políticos "honestos como comunistas".
Imagine-se um ranking da corrupção no Brasil e certamente se encontrariam muito menos corruptos entre os comunistas e a extrema esquerda do que no PMDB ou no PFL. Claro, questão de tamanho, de volume. Mas também de história. No PT, ainda são poucos os corruptos "oficiais", mas aumentam todo dia. Porém ainda estão longe do PP e do PTB.
Não é uma acusação, apenas um fato: o PMDB é o partido que, proporcionalmente, tem mais políticos processados por corrupção, talvez por ser o maior e mais heterogêneo, talvez por ter entre seus quadros pessoas de perfil agatunado. É justamente com esse partido que o PT "ético" está fazendo tudo para se integrar. Em troca, terá de dar aos vorazes caciques peemedebistas nacos do poder e da administração. E dividirá a casa e a conta com os bandoleiros, quando poderia estar em muito melhor companhia.
Porque os petistas sabem que, analisando lógica e objetivamente, de cabeça fria, é muito melhor trabalhar e dividir responsabilidades com os políticos e quadros técnicos do PSDB de FHC, Serra e Aécio do que com políticos de perfil suspeito. Mas isso nunca foi cogitado. Coisas da politica... e dane-se o Brasil.
FOLHA DE S.PAULO
Dora Kramer: PFL quer espaço para Cesar
Embora o prefeito e pré-candidato à Presidência da República pelo PFL, Cesar Maia, tenha dito que buscaria reparação à intervenção federal no sistema de Saúde do Rio de Janeiro pedindo, entre outras providências, o impeachment do presidente Luiz Inácio da Silva, não é esse o entendimento do presidente do partido, senador Jorge Bornhausen.
Para ele, eficaz mesmo para a recuperação do dano político, depois que o Supremo Tribunal Federal julgou inconstitucional o ato do Ministério da Saúde, seria a concessão do direito de resposta para que Cesar Maia pudesse ocupar cadeia nacional de rádio e televisão, como fez o ministro Humberto Costa em março ao anunciar a intervenção.
"Se o Governo federal usou horário nobre para dar publicidade a um ato ilegal, por dever de justiça acho que temos o direito de ocupar o mesmo espaço para dar conhecimento à Nação a respeito da ilegalidade cometida".
Bornhausen argumenta que a decisão do STF teve alcance muito mais reduzido que o pronunciamento do ministro Humberto Costa, "expondo a todo o País o prefeito Cesar Maia como um mau administrador".
Segundo o senador, houve um impacto negativo para o prefeito do Rio medido por pesquisas internas feitas pelo PFL. Essas mesmas consultas registraram uma subida de 42% para 80% no índice de conhecimento de Cesar Maia no plano nacional.
"É claro que é positivo o fato de hoje o dobro de pessoas conhecerem o candidato, mas não se pode negar que o conhecimento foi de uma face negativa e, como baseado numa ação declarada inconstitucional, acho que temos condições de recuperar isso".
O PFL ainda vai decidir hoje os detalhes da ação contra o Governo, mas a posição de Bornhaunsen deve prevalecer por ser mais realista.
Objetivamente, um pedido de impeachment não tem chance de ir a lugar algum. Mais não fosse porque à oposição interessa cumprir o calendário em vigor.
Politicamente, o pedido de resposta, se concedido, seria o melhor palanque que qualquer pré-candidato de oposição à Presidência jamais poderia sonhar a um ano e meio das eleições.
Desempenho global
O papel de chanceler intinerante é a terceira missão especial que o ministro José Dirceu, recebe no Governo.
A primeira, a articulação política, naufragou já na escolha do interlocutor autorizado junto ao Congresso Nacional, o senhor Waldomiro Diniz.
Da segunda, a gerência administrativa, nunca mais se falou, bem como ignoram-se notícias a respeito da produção dos inúmeros conselhos, grupos de trabalho e comissões coordenadas pelo ministro.
Nada impede que a terceira tentativa dê certo.
"Way of life"
Episódio protagonizado pela ex-embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, quando servia na Venezuela diz algo sobre a política externa norte-americana e explica muito a respeito da recente preocupação do país com Hugo Chávez.
Donna Hrinak conversava com um grupo de parlamentares brasileiros de passagem por Caracas de volta de uma viagem a Cuba e, a certa altura, passou-se a comentar as parlapatices populistas de Chávez.
"Os Estados Unidos não se preocupam com discursos, na América Latina há hablaciones demasiadas", explicou.
"E quando é que um presidente começa chamar atenção dos Estados Unidos?", quis saber o deputado Paulo Delgado (PT-MG), que agora relata o encontro.
"Quando não fala muito, quando pára de falar ou quando começa a comprar e vender coisas", ensinou Hrinak.
Chávez continua em suas "hablaciones", mas agora começou a comprar armas.
Exceção
O presidente Lula passou o dia de ontem em preparação intensiva para a entrevista coletiva que dará hoje. Teve atenção especial de Duda Mendonça e foi sabatinado por assessores no molde dos simulados feitos com candidatos às vésperas de debates eleitorais.
Louvável o empenho do presidente em preparar-se previamente – para qualquer situação –, mas injustificável tanto espalhafato em torno de uma entrevista, em tese ato que já deveria estar integrado ao cotidiano do presidente da República com dois anos e quatro meses de mandato.
Segundo sentido
O líder do PSDB na Câmara, deputado Alberto Goldman, diz que não entendeu um trecho de artigo sobre as críticas aos juros em que Severino Cavalcanti é citado e Goldman, referido como "discípulo" posando ao lado dele.
Segundo o tucano, nunca posou ao lado de Severino, "muito menos como discípulo". Além do mais, afirma, se opôs à idéia do presidente da Câmara de rever as atribuições do Comitê de Política Monetária.
O líder não entendeu mesmo. A frase não tinha um sentido literal, buscava só traduzir sua recente, e conveniente, aliança com Severino Cavalcanti.
O DIA
Miriam Leitão:Dificuldade à vista
Some tudo. O principal formulador da política econômica deixa o governo. Um integrante da dupla decisiva da política monetária também sai. O Banco Central está num córner: os juros subiram oito meses seguidos e a inflação não cedeu. Pior: as previsões continuam sendo revistas para cima e há risco de que a inflação do ano bata em 7%. O BC está sob ataque de uma base política que o governo não consegue controlar. Na semana que vem, o Supremo voltará a discutir o pedido do procurador-geral da República de abertura de inquérito contra Henrique Meirelles.
Adicione os seguintes condimentos: o governo está aumentando seus gastos em termos reais há dois anos, o crescimento está em desaceleração e o ano eleitoral de 2006 chegou em 2005.
Existem atenuantes que o governo ontem tratou de explorar muito bem: primeiro, não deixou cadeira vaga, numa estratégia, já usada na área econômica na época de Luiz Augusto Candiota, de anunciar a saída já com o nome do sucessor. Segundo, o nome de Murilo Portugal é forte, é um funcionário público experiente, sabe tudo sobre controle de gastos e fará a ponte entre o Banco Central e a Fazenda, porque seu ex-assessor Alexandre Tombini vai para o lugar de Eduardo Loyo na Diretoria de Estudos Especiais.
Marcos Lisboa — que sai anunciando a mais velha de todas as explicações, a clássica "motivos pessoais" — está, sim, recém-casado e com filho nascendo. Porém é igualmente verdade que tem ficado sem espaço. Todas as reformas microeconômicas que costurou, para ocupar o tempo em um governo que não quer fazer as grandes reformas, estão paradas num Congresso que não anda. O governo perdeu há tempos o controle da pauta legislativa. Na Câmara, o partido do governo não pode apertar nenhum dos botões que a fazem andar, aprovar, deixar de aprovar, adiar votação, arquivar ou pôr em votação. Quem comanda o painel é a mesa da Câmara, onde o partido do governo, como se sabe, perdeu todas as cadeiras.
As reformas microeconômicas eram necessárias e aumentariam a eficiência da ação do governo. Marcos Lisboa costumava, nos painéis de debate sobre política econômica, apresentar uma grande lista delas e dizer que fariam uma enorme diferença. Mas, agora, nada é votado. A Câmara está entregue a quem está em busca de notoriedade. Todo dia, o deputado Severino Cavalcanti vai criar uma encrenca, fazer uma declaração despropositada, vocalizar um setor descontente para ganhar espaço nos telejornais e na imprensa escrita. Tem conseguido ocupar esse espaço com sucesso. A Câmara está à deriva porque o governo foi incapaz de comandar a unidade da sua base política, ocupar os postos estratégicos e apresentar uma agenda de projetos necessários.
A crise política, como já disse aqui, está fazendo com que o governo perca o melhor momento econômico. O melhor desse momento econômico está passando, enquanto o governo continua vendo apalermado, a cada dia, um novo factóide saindo diretamente da sua base política, como essa de entregar o Copom a quem paga juros.
O governo aumentou os gastos, contratou muito, continua com problemas de desempenho na gestão e ainda não conseguiu até agora aprovar uma PPP sequer. No ano passado, o crescimento garantiu a cobertura do aumento do gasto, mas o crescimento está em queda, prenunciando um 2006 mais difícil.
A única boa notícia que está na linha do horizonte é a chance de anunciar as primeiras duas PPPs: uma obra ferroviária, uma boa rodoviária. Devem ser as Ferrovia Norte Sul e a Rodovia 116. Mas, antes do edital, será preciso fazer as audiências públicas e outros trâmites burocráticos. Se tudo for feito rapidamente, pode ser que essas obras sejam iniciadas para começar a desengargalar o país. Mas, a partir de abril do ano que vem, não pode ser feita qualquer contratação de gasto para ser executado em 2007, por determinação da Lei de Responsabilidade Fiscal.
O governo está chegando ao fim, muito cedo, exatamente pelo erro que cometeu. Na campanha eleitoral, o presidente da República ficará mais feliz, porque ele tem um gosto especial, como se sabe, pelo palanque. Deve ter sido com um olho já na campanha que ele venceu a resistência à imprensa e decidiu dar hoje a primeira entrevista coletiva do seu governo, iniciado há dois anos e meio.
O Banco Central está num beco sem saída. Aumentou as taxas de juros a níveis altíssimos e ontem divulgou uma ata em que não dá qualquer conforto de que essa temporada de elevações tenha terminado. A inflação tem aumentado. O economista Luiz Roberto Cunha acha que há um grande risco de que termine o ano em 7%. Os bancos ainda estão prevendo algo em torno de 6%, mas todo dia um banco divulga a seus clientes a revisão da previsão. Semanalmente, o Banco Central colhe essa informação na sua pesquisa Focus.
A política monetária era decidida principalmente pela dupla Eduardo Loyo-Afonso Bevilaqua. Mais por esse último, é verdade, que é o diretor de Política Econômica. Mas os dois, por afinidades, por terem amizade, por terem trabalhado juntos na PUC, operavam em dupla. Loyo vai agora para o FMI. Os novos tempos exigirão muito mais arte, perícia e prestígio do ministro Antonio Palocci.
O GLOBO
Luiz Garcia :Tiros sem misericórdia?
No artigo de terça-feira, confessei a suspeita de que a campanha do desarmamento, com plebiscito marcado para outubro, estava perdendo alento. A reação ao artigo, mesmo sem ter o rigor de uma pesquisa de opinião, sugere que nossa pólvora está mesmo molhada.
Não faltam baldes d'água nos e-mails recebidos. São aparentes algumas dúvidas e restrições sinceras — assim como equívocos aparentemente honestos. Vamos a uma amostra. Mas antes é irresistível a tentação de abrir os trabalhos com a mais espetacular de todas as denúncias. Literalmente: "Prezado amigo: O desarmamento é uma prática dos comunas antes de tomarem o poder pelas armas. Quem viver, verá. O preço da Liberdade é a eterna vigilância." Não identifico o signatário dado o risco de terem feito brincadeira de mau gosto com o nome de algum inocente cidadão.
Vamos a quem, aparentemente, falou sério:
1. "...não acredito mais nessa história de desarmamento no Brasil de hoje. Minha opinião é que falta vontade e competência do governo para fiscalizar o comércio de armas, reprimir o tráfico bélico e garantir o acesso às armas legalizadas somente aos cidadãos preparados para tal... Detesto esses fabricantes de armas e seus lucros e lobbies nojentos, mas as armas nunca deixarão de existir enquanto houver homens dispostos a matar para alcançar seus objetivos. O Estado organizado deveria ser a resposta da civilização aos bárbaros. Mas, onde está o Estado? Os bárbaros, esses, estão à nossa frente."
2. "Discordo do seu ponto de vista que a Câmara está cheia de machistas. Ela representa, mal ou bem, as expectativas da população, e com certeza eles já consultaram as bases e verificaram que a quantidade de pessoas que quer ficar indefesa frente ao banditismo crescente, diminuiu, graças às falácias deste governo que prometeu muito na área de segurança no ano passado e resultou num parto de montanha. Na Suíça, talvez seu comentário seja válido."
"O 'x' da questão está exatamente na noção, em nenhum momento negada, de que a Campanha do Desarmamento levaria a uma queda geral nos índices de criminalidade. Esta foi a percepção da população e esta é a visão de muitas das ONGs que participam da campanha. A prova está na outra campanha Eu Sou Da Paz e nas diversas passeatas e manifestações pedindo paz. Como diz o Jabor, estão pedindo paz pra quem?! Pra mim é que não é!!! Se uns acham que colocar uma camiseta e soltar balões brancos vai afetar o pensamento da bandidagem, a recente chacina da Baixada deixou claro que não..."
Procurei selecionar reações que não me pareceram originárias do lobby das armas. Posso ter pecado por ingenuidade; não será a primeira vez. Seja como for, aí está o disponível retrato do desencanto com o desarmamento: é menos amor às armas do que desalento com a solução proposta.
Ainda com alento, lembremos aos de boa-fé que continua óbvio o que era evidente no começo da campanha: com armas de fogo por perto, brigas de amantes, parentes ou amigos sempre terão mais chances de terminar em tiros — inclusive nas crises românticas entre adolescentes. Acontece todos os dias. Às vezes, morrem um ou dois, protagonistas ou testemunhas.
Também é notícia freqüente a história do neurastênico que acaba com a festa no playground de seu prédio com rajadas de tiros. Não raro, atingindo crianças. Às vezes, morrem uma ou duas.
Continuam igualmente comuns as histórias de meninos que mostram aos amigos, às vezes em casa, outras no banheiro do colégio, como funciona o revólver do papai. Às vezes, morrem um ou dois.
Essas são histórias tristes comuns nos jornais.
Se você ainda exige outros tipos de argumentos, responda por favor: quantos episódios conhece em que um cidadão brasileiro, valente mas amador nesse tipo de ação, empunhou seu .38 e botou para correr os bandidos que invadiram sua casa ou o cercaram numa rua ou estacionamento e ameaçaram sua família e seu patrimônio? Três, duas, uma? Ou, seja franco, nenhuma?
Compreende-se, com a necessária dose de piedade, a teimosia dos que adoram uma teoria conspiratória. Mas é duro entender quem sai da briga por desalento ou falta de fôlego ético.
Repito que estamos arriscados a perder a boa luta. Será triste uma derrota para os bobalhões que acreditam no direito da força. Pior ainda se o vencedor da briga vier a ser o nosso próprio desânimo.
O GLOBO
Merval Pereira:Barrando o terror
A dez dias do início da Cúpula América do Sul-Países Árabes, o governo brasileiro ainda negocia alterações substanciais no documento final que foi preparado na Tunísia, sob a coordenação do secretário-geral da Liga Árabe, o ex-chanceler egípcio Amre Moussa. O ponto mais polêmico, e que já havia sido motivo de inquietação por parte do governo dos Estados Unidos depois que jornais americanos vazaram partes do texto do comunicado, é o que trata do combate ao terrorismo, abordado nos parágrafos 2.9 - 2.10.
A proposta dos países árabes, antecipada por uma defesa da necessidade de enfatizar "a importância de se combater o terrorismo em todas as suas formas e manifestações, através de uma ativa e eficiente cooperação internacional, através das Nações Unidas e organizações regionais", baseada no estrito cumprimento à lei internacional, pede uma conferência internacional "para se estudar este fenômeno, atacar suas raízes e definir o crime de terror".
O interessante é que um texto inicial sugeria que essa reunião fosse feita sob os auspícios da ONU. Na última versão, está definido que os Estados Unidos a organizariam, o que pode indicar já um resultado das pressões americanas junto a países árabes amigos.
Mas, na definição de terrorismo, os países árabes querem incluir no documento a distinção entre terrorismo e "o legítimo direito das pessoas de resistir à ocupação estrangeira com vias a alcançar uma independência nacional de acordo com a lei internacional e aval das Nações Unidas".
Os Estados Unidos e Israel estão se movimentando politicamente para evitar que essa distinção seja tornada oficial no documento, pois ela legitimaria, no seu entender, a atuação de grupos que são considerados terroristas. O Brasil está propondo que essa distinção seja retirada do texto, e que nele sejam incluídas referências a convenções internacionais que tratam dos direitos humanos, lei dos refugiados e lei internacional humanitária.
A questão aqui é se o terrorismo pode ou não ser justificável em certas situações, o que alguns países árabes defendem e causa arrepios aos Estados Unidos e também a Israel. Na recente reunião do Clube de Madri para discutir terrorismo, que antecedeu a divulgação do documento de reforma da Organização das Nações Unidas (ONU), essa discussão surgiu com muito vigor.
O ponto mais importante do documento divulgado na ocasião foi a definição do que seja ato terrorista, em coincidência com o que propôs Kofi Annan dias depois oficialmente aos membros das Nações Unidas: deve ser considerado terrorista todo aquele que ataca civis indefesos com o objetivo de impor suas idéias, sejam elas de que tendência política forem.
A definição proposta por Annan, e o documento do Clube de Madri, estão em consonância com o que desejam consagrar os Estados Unidos em sua luta contra o terrorismo. Segundo o documento de Madri, "não existe justificativa para atacar civis e não-combatentes por meio da intimidação e de atentados mortais" e "em nenhum caso as diferenças políticas e filosóficas sobre a natureza do terrorismo podem constituir uma escusa para a inação".
Outra questão delicada, e que diz respeito diretamente a Israel, está no parágrafo 2.6. A proposta dos países árabes reafirma princípios já aceitos por Israel, como o programa Terra por Paz, tema principal de Yitzhak Rabin e Shimon Perez, definido na reunião de Oslo de 93; resoluções do Conselho de Segurança e da Assembléia Geral da ONU, e a implementação do plano americano Mapa da Paz "de tal maneira que assegure a materialização dos legítimos direitos nacionais dos palestinos, incluindo o direito ao retorno e a autodeterminação e estabelecimento de seu estado independente".
Um ponto, porém, é inaceitável para Israel, e o Brasil está tentando retirar do documento final: definir Jerusalém Oriental como capital da Palestina, onde está localizado o Muro das Lamentações, o lugar mais sagrado do judaísmo. Além disso, esse parágrafo trata da retirada de Israel "de todos os territórios árabes ocupados para as linhas de 4 de junho de 1967, incluindo as Colinas de Golan e Fazendas de Sheba", o que também causa discordâncias entre árabes e israelenses.
Mesmo não tendo autorizado os Estados Unidos a participarem da reunião como observadores, como insistiu a secretária de Estado americana Condoleezza Rice em sua recente visita, o governo brasileiro está tomando todas as precauções para evitar que a reunião com os países árabes ganhe uma dimensão política além do que se pretende: uma cúpula para fortalecer os laços comerciais e fazer a "aproximação de duas regiões inteiras do mundo em desenvolvimento, ambas de proporções continentais, fora da programação regular de trabalho das Nações Unidas. Nela subjaz uma proposta de integração bi-regional Sul-Sul", conforme definição do Itamaraty.
O fato é que essa aproximação de duas regiões, representadas por organismos como a Liga Árabe e o Mercosul ampliado, tem um peso político inegável, que se refletirá em um comunicado conjunto assinado por 34 países, sendo 22 árabes. A representatividade das delegações será também outro ponto importante. Há sinais de que os Estados Unidos tentam esvaziar a reunião convencendo alguns países amigos a não enviarem chefes de Estados, mas representantes econômicos. E o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, está sinalizando mais uma vez com sua ausência, numa demonstração de que se opõe à liderança regional do Brasil e com isso enfraquecendo o Mercosul.
O GLOBO
Villas-Bôas Corrêa: A conversão de Severino
29.04.2005 | Ainda não foi desta vez que o agitado deputado Severino Cavalcanti repetiu o gol de placa da sua eleição a presidente da Câmara, na rebelião do baixo clero que engrossou com adesões, garantindo os 300 votos que tontearam o governo.7
Com a inusitada proposta de acabar com a autonomia ditatorial do Comitê de Política Monetária (Copom), na definição da taxa de juros, Severino acertou na trave, criando mais um embaraço para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Não parece provável que vingue a idéia, lançada sem prévia sondagem, de alterar a composição do Copom. Mas, a cutucada na ferida, arrancou sangue. No próximo lance anunciado, Severino pretende criar uma comissão para "retirar do Copom a competência de, isoladamente, conceber o aumento da taxa de juros". Falou grosso: "Do jeito que está, não pode continuar".
O oportunismo da jogada não esvazia a sua contundência. Severino surfou na onda da prepotência dos sábios do Comitê de Política Monetária na insensata escalada de aumentos que alcança a incômoda liderança mundial, com as calamitosas repercussões na dívida pública. De saída, recebeu o apoio do vice-presidente José Alencar, um crítico intransigente da política econômica do ministro Antonio Palocci, da Fazenda.
Insistindo no tiroteio, não apenas errou a pontaria como acabou atingido pelo ricocheteio das balas azaradas. A causa até que é justa. E não é de hoje que o Congresso resmunga e grita contra o excesso de Medidas Provisórias que entopem a pauta e trancam as votações. No embalo da catilinária atirou a esmo e esqueceu a cautela: "É o Executivo fazendo a agenda do Legislativo. Falta muito pouco para se igualar aos sombrios tempos do regime militar.Trata-se de um virtual fechamento do Congresso Nacional".
Remendos na biografia não tapam as cicatrizes da incoerência. O estouvado presidente da Câmara resguardou-se, durante os 21 anos da ditadura militar, de eventuais dissabores com a cautelosa militância no bloco governista. Desde o primeiro mandato como prefeito de João Alfredo (PE), de 1964 a 66, debaixo do guarda-chuva da UDN, até os sucessivos mandatos como deputado estadual por Pernambuco, bailou sem perder o compasso com as siglas do buquê ditatorial, saltitando, quando da imposição do bipartidarismo pelo AI-2, de 27 de outubro de 1965, para a Arena, em cujo ninho aconchegou-se até o final do regime militar.
A ambivalência tem lá suas comodidades, mas expõe a máscara da contradição. A crise que corrói até o cerne a autoridade moral do Legislativo não é curável por paliativos, como a varredura da poeira que tranca a pauta das votações. Muito mais profunda, a exigir a coragem cívica de medidas radicais, com a poda da praga das mordomias, das vantagens, dos privilégios desmoralizantes, como a verba de R$ 50 mil para a farra do nepotismo da contratação de assessores para os gabinetes dos parlamentares e o despudor da verba indenizatória de R$ 15 mil para as despesas de fim de semana.
Se a Câmara dos Deputados coça-se de ansiedade por votar, deve começar por restaurar o costume dos velhos tempos, com a semana útil de segunda a sexta-feira, como faz todo mundo que trabalha. Nem que à custa do sacrifício de morar em Brasília, que a maioria dos parlamentares detesta.
Severino, na versão de guardião da independência e do conceito do Congresso, poderia começar por dar a sua contribuição à cruzada moralizadora.
Até aqui, noves fora o recente surto de inquietação com o virtual fechamento do Congresso e da revisão sobre "os sombrios tempos do regime militar", o ilustre presidente da Câmara sempre jogou no outro time.
Nunca é tarde para mudar de camisa.
no mínimo
quinta-feira, abril 28, 2005
Lucia Hippolito: A hora das explicações
"Parece que agora tudo tem explicação. O Palácio do Planalto está promovendo uma ofensiva de divulgação para dizer que o presidente Lula não queria dizer o que ele realmente disse.
Ou ainda, que, quando disse o que disse, o que Lula realmente pretendia era "propor uma aliança nacional contra os juros altos que travam o crescimento da economia".
Deixe ver se eu entendi. Segundo esta versão que está sendo insistentemente veiculada pelo Planalto, o presidente da República não quis agredir a classe média quando foi grosseiro, deselegante e simplório.
Ainda segundo o Planalto, Lula não revelou um desconhecimento primário da vida de 90% dos brasileiros que ele governa, quando demonstrou ignorar completamente a situação dos correntistas de bancos e as atividades bancárias.
Não. Segundo esta versão do Planalto, foi tudo de propósito. Lula queria mesmo era chocar os interlocutores para "propor uma aliança nacional contra os juros altos que travam o crescimento da economia".
Ah, bom. Se é assim, tudo fica mais simples.
O trabalhador que vive de contracheque depositado em banco e paga tarifas escorchantes para serviços básicos não precisa se sentir agredido.
Da mesma forma, a classe média não precisa se sentir esbofeteada e pode continuar sentada para assistir aos improvisos do presidente Lula.
Tudo isso, e mais as acusações contra o ministro Romero Jucá, a gastança do governo com funcionários em cargos de confiança, o aparelhamento da máquina pública para empregar companheiros petistas, o escândalo Waldomiro Diniz, que atuava dentro do Palácio do Planalto, o fracasso da reforma ministerial, a dificuldade de demitir subordinados incompetentes, enfim, tudo isto poderá ficar definitivamente esclarecido a partir de amanhã, depois das 10:30h da manhã.
Depois de se negar durante dois anos e meio de mandato, o presidente da República vai finalmente conceder uma entrevista coletiva à imprensa brasileira.
É uma oportunidade imperdível para que muitas perguntas comecem a encontrar respostas.
Frente a frente com jornalistas, Lula poderá esclarecer estes e outros pontos que ainda imploram por uma explicação."
BLIG Ricardo Noblat
CÂMBIO VALORIZADO
Há várias semanas a cotação do dólar no Brasil se mantém em expressiva tendência de queda. Movimento semelhante ocorreu em meses passados e suscitou variadas manifestações, inclusive de representantes do governo, sobre os problemas que essa circunstância poderia criar para a manutenção do bom desempenho das contas externas.
O fato é que após pesadas intervenções do Banco Central, que ajudaram a elevar a cotação da moeda norte-americana, o dólar voltou às vizinhanças de R$ 2,50 -sem que esse fenômeno venha gerando reações equivalentes às anteriores. Contribui para isso o fato de que as exportações continuam a bater recordes sucessivos, dando a impressão de que são imunes à perda de rentabilidade e competitividade que o real valorizado fatalmente causará.
Ocorre que os efeitos de uma valorização cambial sobre os fluxos de comércio demoram para se materializar. Os produtos que hoje estão sendo embarcados para o mercado externo foram vendidos há meses -e essas operações comerciais não serão canceladas, mesmo que tenham se tornado menos rentáveis. O que pode, sim, ser sustado, ante uma valorização mais prolongada do câmbio, são os investimentos em projetos voltados à exportação. E esse é o grande risco, pois estaria sendo comprometida a futura expansão da capacidade de exportar.
O nível elevadíssimo dos juros é um fator fundamental a alimentar esse processo de valorização -o que só reforça a necessidade de uma revisão da política monetária e do sistema de metas de inflação. Como isso não está no horizonte, é de esperar, ao menos, que uma nova rodada de intervenção do BC venha a interromper a acentuada e preocupante tendência de apreciação do real.
FOLHA DE S.PAULO EDITORIAIS
CLÓVIS ROSSI :Quem manda na economia?
SÃO PAULO - As sucessivas declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre juros revelam tão desumano desconhecimento do bê-á-bá da economia que obrigam a perguntar: quem é que comanda a política econômica se o presidente revela estar completamente desconectado da vida real, pelo menos no que diz respeito a juros?
Já há uma disseminada suspeita por aí de que Lula faz as vezes de rainha da Inglaterra. Viaja, representa o país (há controvérsias sobre se o faz bem ou mal), discursa, tira fotos com os mais diferentes grupos, trajes e bonés, mas quem governa de fato seria o ministro Antonio Palocci.
Talvez. Mas convenhamos que, por muito aplicado que seja -e é-, Palocci também não tem exatamente pinta de futuro ganhador de um Prêmio Nobel de Economia. É mestre em reproduzir o bê-á-bá econômico (pelo menos o faz corretamente), mas desafio o leitor a encontrar uma só idéia original do ministro a respeito dos desafios da economia em países em desenvolvimento.
Aliás, o desafio vale para a grande maioria dos outros ocupantes da Esplanada dos Ministérios. O PT tinha meia dúzia ou uma dúzia de diagnósticos quando era oposição.
Ao chegar ao poder, Lula descartou-os como "bravatas". Pena que nem ele nem os outros caciques do partido tenham sido capazes de elaborar alguma coisa diferente que faça sentido e que não seja o "non sense" total e absurdo sobre os juros.
Os adeptos das teorias conspiratórias dirão que quem comanda a economia é Henrique de Campos Meirelles, o presidente do Banco Central. O melhor que se pode dizer dele, no entanto, é que foi um bom dirigente de banco; jamais um ideólogo.
Nesse deserto, é natural que todos, no PT e no governo, prefiram o silêncio quando o presidente diz os absurdos que disse. É melhor preservar a "boquinha" do que abrir a boca.
FOLHA DE S.PAULO
ELIANE CANTANHÊDE :"Milhões desse tipo"
BRASÍLIA - "Podem especular à vontade, o José Dirceu é uma pessoa importante do governo brasileiro, do Partido dos Trabalhadores, e foi discutir com uma pessoa com a qual temos relações muito próximas. Podem se preparar, porque faremos outras milhões desse tipo."
A declaração é do assessor internacional da Presidência, Marco Aurélio Garcia, ao falar sobre a ida de Dirceu a Caracas para uma conversa misteriosa com Hugo Chávez. Aviões pra lá e pra cá, versões, especulações. Tudo meio cinematográfico e ao gosto de velhos militantes que viviam espetacularmente, trocando de país, de identidade e até de rosto.
Dirceu falou com seu amigo Fidel Castro, depois encontrou-se em Washington com Condoleezza Rice, agora esteve com Chávez em Caracas e voltou rapidinho a Brasília para novamente se encontrar com Condoleezza. Pela lógica e pelas especulações de quem é do ramo, ele tenta uma intermediação dos EUA com Havana e com Caracas antes que eles todos se explodam.
Tentar, veja bem, não significa conseguir. E o que se diz à boca pequena em Brasília, em meio a fantasias aumentadas e realidades mal contadas, é que Dirceu foi dizer a Chávez o que queria (contra os últimos movimentos dele anti-EUA) e acabou ouvindo o que não queria (que o Brasil não tem nada com isso).
Como disse Marco Aurélio, todos devemos nos preparar, porque, a par da diplomacia oficial, haverá ainda "milhões" de reuniões políticas de Dirceu no continente. Outra delas, aliás, já será hoje e amanhã, em Montevidéu: ele e Marco Aurélio vão papear com peixes graúdos dos partidos de esquerda que estão no poder na Argentina, no Uruguai e no Chile para discutir o continente.
A esquerda quer continuar sendo de esquerda, mas se modernizando, disputando mercados e falando de amiguinho para amiguinho com os EUA. O problema, como sempre, é Chávez. Enquanto o resto afina o discurso, ele engrossa suas armas.
FOLHA DE S.PAULO
DEMÉTRIO MAGNOLI:Preto no branco
Nos EUA , as políticas de ação afirmativa de cunho racial começaram na década de 70. No decênio anterior, a parcela de negros abaixo da linha de pobreza reduziu-se de 47% para 30%. Na "década das cotas", a redução atingiu apenas um ponto percentual. Na África do Sul, o fim do regime do apartheid, em 1994, deu lugar a um programa ambicioso de ação afirmativa. Contudo, entre 1995 e 2000, a renda média das famílias negras reduziu-se em 19%, uma ínfima elite negra associou-se à elite branca e a desigualdade nacional de renda aumentou. O arcebispo Desmond Tutu, líder histórico antiapartheid, acusou o programa de "beneficiar não a maioria, mas uma elite que tende a se reciclar".
Ação afirmativa e aprofundamento das desigualdades sociais andam juntas, pois a primeira é um elemento das políticas compensatórias implantadas por governos que adotam orientações econômicas ultraliberais. Sob essas orientações, os fundos públicos destinados a assegurar direitos universais (educação, saúde, transporte etc.) são desviados para subsidiar a acumulação privada de capital, enquanto as políticas compensatórias funcionam como instrumentos de legitimação dos governos e cooptação dos movimentos sociais.
O programa de cotas raciais surgiu nos EUA como reação conservadora ao movimento pelos direitos civis e propagou-se, entre ativistas negros, sob o patrocínio de instituições do establishment como a Fundação Ford. A ruptura do movimento negro americano com a plataforma anti-racial de Martin Luther King adquiriu dimensões internacionais na Conferência da ONU contra o Racismo (Durban, 2001). As resoluções de Durban expressam o acordo entre o pensamento ultraliberal americano e a "elite que tende a se reciclar" da África do Sul. Elas tornaram-se doutrina oficial do governo Lula, implementada pela Secretaria da Igualdade Racial e pelo MEC.
O Prouni evidencia a função das políticas de ação afirmativa. A compra das vagas ociosas representa vasto subsídio público ao ensino superior privado sob a forma de isenções tributárias. O programa não abre uma única vaga nova nas universidades públicas, mas funciona como meio de cooptação política de entidades estudantis (UNE) e ONGs do movimento negro (Educafro), que hoje atuam quase como tentáculos do Estado.
A operação de cooptação estatal de ONGs do movimento negro tem seu núcleo no programa de cotas "raciais" nas universidades públicas. Em torno dele, elabora-se um discurso racista de desprezo ao princípio da igualdade política dos cidadãos, que é apresentado como farsa destinada a congelar as desigualdades sociais. O apelo racial desse discurso contorna a falácia argumentativa pelo recurso à acusação de que os opositores representam um "olhar branco" ou os interesses de uma "raça branca".
A cooptação funciona, pois as cotas raciais atendem aos interesses imediatos das ONGs do movimento negro, mesmo se nada significam para os negros da base da pirâmide social. A nova agenda política dessas ONGs não prioriza os interesses da maioria dos negros, como a reconstrução da educação pública ou a restauração do poder de Estado nas favelas do Rio de Janeiro. É uma agenda conservadora de natureza clientelista, que pede privilégios a poucos e acomoda-se à expansão das desigualdades sociais.
FOLHA DE S.PAULO
LUÍS NASSIF :As prestações sem juros
Periodicamente se encontram bodes expiatórios para "explicar" as altas taxas de juros no país. O último é a prática das redes varejistas de embutir os juros no preço à vista e depois anunciar a venda em prestações sem juros. Para muitos, esse seria o ponto central que explicaria os abusos das taxas de juros e dos direitos dos consumidores.
Há desconhecimento de princípios financeiros nessa história.
Grosso modo, na hora de vender o produto, o comerciante forma o preço incluindo custo de aquisição do bem, seus próprios custos operacionais, impostos e a margem de lucro. A margem pode ser de 10%, 20% ou 100%, pouco importa. Não existe nem tabelamento de preço nem de margem. O que define a margem é o mercado. Em setores mais competitivos, a margem é menor; em setores mais oligopolizados, a margem é maior.
Suponha que, para determinado produto, o preço de aquisição seja 50 e os custos operacionais do comerciante sejam 30. O custo total do produto é 80. Suponha que o comerciante coloque uma margem de 50%, o preço salte para 120 e ele ofereça ao distinto público dez prestações de 12. O que é margem, o que são juros? É impossível determinar e não tem a menor relevância na discussão sobre o custo do dinheiro no país.
Se o financiamento for feito com capital próprio do comerciante, a parcela atribuível aos juros corresponderá ao chamado custo de oportunidade da aplicação -ou seja, quanto os recursos renderiam se aplicados em um investimento alternativo. Se captar o recurso no mercado, a taxa de juros corresponderá ao custo desse dinheiro tomado.
Suponha que a taxa de juros embutida seja de 5% ao mês. A conta fica assim:
1) custo do produto: 50;
2) juros cobrados: 27;
3) margem do comerciante: 13.
Suponha que se considere uma taxa de juros de 3% ao mês:
1) custo do produto: 80;
2) juros cobrados: 17,7;
3) margem do comerciante: 22,3.
Sem cobrança de juros:
1) custo do produto: 80;
2) juros cobrados: 0
3) margem do comerciante: 40.
É um mero jogo de número, uma conta de chegada que não leva a nenhuma conclusão.
Em qualquer circunstância, se o comerciante chama o preço a prazo de preço à vista sem juro ou não, essa discussão sobre juros embutidos é uma boutade, que só tinha significado nos tempos em que os preços e as margens eram controlados.
A maneira de analisar o custo do dinheiro é quando a mercadoria negociada é dinheiro. Quando se toma um crédito direto ao consumidor, paga-se uma taxa de cheque especial, tomam-se recursos para capital de giro. Aí se está medindo efetivamente o custo do dinheiro, comparando preço à vista com preço a prazo.
Por qualquer critério que se observe, por qualquer taxa que se analise, é evidente que as taxas são extraordinariamente elevadas.
Problema regulatório, excesso de tributos sobre a intermediação, cartelização de mercado, taxa Selic excessiva, qualquer que seja o motivo é um problema de política econômica.
FOLHA DE S.PAULO
Dora Kramer:À sombra dos bumerangues
O vice-presidente, José Alencar, tão criticado e massacrado por companheiros de Governo quando levantou a bandeira do combate à política de juros do Governo por ele vice-presidido, venceu.
Ganhou a companhia do presidente Luiz Inácio da Silva na polêmica, recebendo também a adesão do ministro Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, na liderança de uma "cruzada" nacional contra as altas taxas.
Furlan inclusive prega um levantamento geral, dando caráter cívico ao soerguimento nacional de "derrières" defendido pelo presidente da República. "As pessoas precisam tomar uma atitude", convida o ministro.
A questão em suspenso é saber aonde querem chegar. Tanto Furlan quanto Alencar e Lula estão chamando o País a combater uma política adotada por eles mesmos. Se isso não faz parte de um plano estratégico de objetivo ainda imperceptível a olho nu, nenhum deles se dá conta do efeito bumerangue contido em suas ações.
Na melhor e mais evidente das hipóteses, Lula acaba de chancelar a polêmica em torno da política econômica e a contestação à posição do ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Portanto, ponto para o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ponto para a esquerda do PT e que busquem por eles próprios o chão abaixo dos pés aqueles até então fiéis à política monetária, mesmo em contrariedade às próprias convicções, por observância a uma questão de Estado.
Este é o cenário mais organizado dos efeitos prováveis dessa inusitada autodeclaração de guerra.
A conseqüência mais desarrumada que se pode vislumbrar remete a episódios frescos na memória nacional. Guardadas as devidas e as indevidas proporções, o Governo arrisca-se em terreno semelhante ao experimentado pelo então presidente Fernando Collor quando, acuado, pediu ao povo que saísse às ruas de verde e amarelo para defendê-lo.
A população saiu, mas foi de preto.
Custa crer que presidente e ministros não enxerguem o potencial de risco de adotar o ataque como arma de defesa, justamente num ponto do qual o Governo está totalmente impossibilitado de se desvincular, pois é da política econômica que vem sobrevivendo objetiva e politicamente falando.
Sem contar o flanco que se abre à oposição. Ontem estava o senhor Severino Cavalcanti a ocupar microfones dando palpites sobre as atribuições do Comitê de Política Monetária. Posando ao lado como discípulo, o líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman.
A ambos coube apenas deitar e rolar. A oportunidade foi criada pelo presidente, o vice, o ministro e sabe-se lá quem mais se disponha ao papel de cruzado desse louco combate.
Tais posições erráticas têm finalidade ainda obscura. Mas fazem suspeitar que o presidente da República já esteja em busca de alguém em quem pôr a culpa na campanha de 2006. Como ao antecessor será difícil imputar toda a responsabilidade, o presidente faz do juro um vilão independente.
O problema é a natureza fantasiosa, e por isso artificial, da situação da qual todos – à exceção do Governo – se dão conta: a taxa de juros oficial não é obra da classe média nem fruto da inspiração do Espírito Santo, é resultado da política econômica do Governo cujos integrantes têm nome, sobrenome, CPF e endereço profissional conhecido.
Frases com efeito
As críticas presidenciais à inércia da população ante os juros altos contradizem o lema da campanha "o melhor do Brasil é o brasileiro".
Quando o departamento oficial de propaganda e marketing não convence nem o presidente da República, algo de muito errado há.
E o slogan da segunda fase da campanha? A frase "um bom exemplo, tudo começa por aí" pode ser usada pelos referidos comodistas para devolver a bola ao seu devido lugar: o Banco Central.
Hamlet total
Começa de novo a se desenhar no PSDB o movimento de ser ou não ser já visto nas três mais importantes decisões eleitorais do partido nos últimos 11 anos: as candidaturas presidenciais de Fernando Henrique e José Serra, em 1994 e 2002, e o lançamento de Serra para a Prefeitura de São Paulo, em 2004.
A decisão para 2006, que não parecia tão difícil assim dada a aparente precedência dos governadores Geraldo Alckmin e Aécio Neves sobre outras opções tucanas, tornou-se complicadíssima com a entrada forte em cena do nome de José Serra.
A complicação não está apenas na dificuldade de explicar ao eleitorado paulistano que ele votou em Serra, mas terá de ficar com o vice Gilberto Kassab (PFL).
É difícil, quase impossível, para o PSDB ignorar os índices da pesquisas – caso continuem registrando mesma tendência – que mostram o prefeito de São Paulo como o candidato de oposição mais bem colocado e já vestido no figurino de anti-Lula.
O DIA
Miriam Leitão:Erro de identidade
O presidente Lula, quando quis chegar ao poder, tratou de organizar um partido. O presidente Hugo Chávez, quando quis o poder, armou um golpe, foi preso e só ao ser indultado é que tentou a via eleitoral. Lula negociou para formar maioria após ser eleito e aprovar, a duras penas, a reforma que achava necessária. Chávez dissolveu o Congresso, convocou novas eleições, aproveitando-se da lua-de-mel logo após a posse. Controlando o Legislativo, transformou-o em constituinte e reformou a Constituição como bem quis. Os dois são diferentes; alguém precisa dizer isso ao presidente Lula.
Os caminhos de Chávez são inaceitáveis. Lula tenta unir grupos políticos com pensamentos diferentes. Tem fracassado até em juntar os cacos dos partidos da base, mas usa a arma do convencimento. Chávez dividiu seu país de uma forma dramática e talvez irreversível. Lula já nomeou quatro ministros do Supremo, por direito constitucional, mas nenhum deles está lá para dizer amém ao governo. Chávez mudou a composição da Suprema Corte para ter o controle do Judiciário. O mesmo golpe que o nosso hóspede Lucio Gutiérrez tentou no Equador e não emplacou.
Chávez usa as instituições democráticas contra a democracia. A imprensa o detesta e cometeu o absurdo erro de aderir até a tentativa de golpe de Estado. Para vencê-la no tapetão, que é onde sabe brigar, o presidente venezuelano aprovou uma lei dos meios de comunicações restritiva e antidemocrática. Essa idéia Lula até tentou copiar através dos fracassados Ancinav e Conselho Federal de Jornalismo. Quando o Brasil disse claramente a Lula que não queria aquele caminho, ele recuou, retirou as propostas e, por enquanto, não fala mais do assunto. Chávez foi até o fim e acabou transformando em crime de desacato criticá-lo.
A tricéfala diplomacia brasileira gosta muito de defender o presidente venezuelano, argumentando que ele venceu o plebiscito convocado para tirá-lo do poder. Venceu mesmo, mas, de novo, foi à maneira Chávez: tentou evitar o quanto pôde o mecanismo introduzido por ele mesmo na Constituição; quando foi obrigado a fazê-lo, aproveitou-se de um raro bom momento econômico, distribuiu dinheiro da estatal de petróleo em campanhas populistas e assim venceu o plebiscito. Outra técnica usada por ele é bem conhecida das ditaduras populistas: enfraqueceu os partidos e estabeleceu relação direta com as massas. Isso faz com que nem se saiba quem vai concorrer com ele nas eleições do ano que vem, nas quais pode garantir sua permanência no poder até 2013. Não basta ser eleito, tem que ser democrático.
O Brasil deve se relacionar com todos os governos, mesmo os que são bem diferentes do país. É claro. Mas, desde o início do mandato, o governo do presidente Lula vai além do que diz o manual diplomático das relações cordiais e integração econômica. Quer ser o defensor de Chávez, mostra excessiva intimidade e alinhamento com suas posições internacionais.
O governo americano comete erros primários na relação com o presidente venezuelano. Adota atitudes que só ocorrem às mentes em que o excesso de ideologia revoga a inteligência. Quando os poderosos do gabinete de guerra de Bush dão demonstração de hostilidade em relação a Chávez, ele fica com a faca e o queijo na mão: pode posar de herói da resistência e justificar todas as suas atitudes bizarras. Ele, evidentemente, não tem capacidade de se armar o suficiente para enfrentar militarmente os Estados Unidos. Seu poderio bélico servirá aos seus propósitos, de intimidar cada vez mais qualquer oposição. É para isso que ele vem montando seu exército particular, as chamadas Brigadas Bolivarianas.
Gastar uma viagem de Condoleezza Rice ao Brasil nesse tipo de querela é perda de tempo. Os Estados Unidos são o nosso maior parceiro comercial individual. Para ele é que mandamos um de cada cinco dólares exportados pelo Brasil. É para ele que todos querem exportar. Há barreiras ao comércio a serem removidas, há diálogos truncados a serem esclarecidos. Mas o Brasil prefere adotar a infantil postura do antiamericanismo, jactar-se de ter dito não à potência e comemorar o fracasso da negociação da Alca.
HOJE a Itaipu Binacional vai anunciar um corte no orçamento, que inclui custeio e investimentos. Como a tarifa da empresa é dolarizada e o dólar não pára de cair, o preço da energia vendida às distribuidoras está cada vez mais baixo. Faz parte do pacote o lançamento de um plano de demissão voluntária.
A OIT no Brasil será chefiada por uma mulher. Laís Abramo, especialista em desigualdade de gênero, assumirá o cargo deixado vago por Armand Pereira, que foi promovido e está de mudança para Washington.
O GLOBO
Merval Pereira:Sentimentos ambíguos
Quando o então ministro das Relações Exteriores do governo Fernando Henrique, Celso Lafer, aceitou retirar os sapatos em uma inspeção de segurança num aeroporto americano, nos momentos tensos que se seguiram aos atentados terroristas de setembro de 2001, o PT oposicionista fez um escândalo, denunciando a "subserviência" do representante brasileiro.
O que fariam hoje, quando o principal ministro político do governo, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, é mandado às pressas à Venezuela para tentar tirar de Hugo Chávez uma boa notícia para dar à secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, que visitava o país?
Mesmo tendo Dirceu retornado sem uma garantia de Chávez de rever o rompimento do acordo militar com os Estados Unidos, o governo brasileiro foi de uma solicitude que poderia ser confundida com subserviência por um crítico mais ácido. Mas que certamente contará pontos no relacionamento com o governo americano.
Esta nossa política externa multifacetada é assim mesmo, capaz de atitudes que podem ser criticadas por excessiva boa vontade com os Estados Unidos, e logo depois tomar outra que cheire a um antiamericanismo infantil. Isso acontece não apenas porque o governo petista é assim mesmo, dependendo do grupo que toma a decisão no momento, vai para um lado ou para o outro. Especialmente no Itamaraty, que agora tem quatro cabeças pensando nossa política externa, e não necessariamente na mesma direção.
Mas as ambigüidades da nossa política externa têm uma razão mais objetiva: nossa liderança regional, exaltada pela secretária de Estado, só será respeitada se não formos identificados como meros "paus mandados" dos Estados Unidos. Por isso, embora na prática tenha sido o que fez, de maneira açodada (Dirceu viajar à Venezuela), o país recusou o pedido de Condoleezza para ser um intermediário formal nas relações de Chávez com os Estados Unidos, preferindo manter a independência que lhe possibilitou criar o "grupo dos amigos da Venezuela".
Os Estados Unidos, depois de muita desconfiança, parece que já entenderam o papel que o Brasil pode desempenhar na região, daí a "descoberta" do canal José Dirceu para atuar em uma região crescentemente esquerdista e com instabilidades políticas evidentes, onde Cuba continua sendo um problema.
O governo brasileiro admite que o relacionamento com os Estados Unidos é um tabu nas esquerdas, mas está convencido de que uma "não política" com os Estados Unidos é insuficiente para o Brasil. Porém, para fortalecer sua posição nas negociações internacionais, o Brasil precisa de um Mercosul forte, e esse hoje é o principal problema nosso, devido à reação argentina à crescente liderança regional brasileira. O presidente Néstor Kirchner já deixou de comparecer a diversas reuniões regionais sem razões fortes, e considera que o Brasil de Lula é muito subserviente aos interesses americanos e aos organismos internacionais.
Kirchner se apresenta como uma esquerda independente e, embora não tenha força política nem econômica para ser uma alternativa à liderança brasileira, tem capacidade de enfraquecer o Mercosul, que volta e meia sofre também o "fogo amigo" brasileiro, como no caso da candidatura frustrada à presidência da OMC, quando o candidato uruguaio já havia se lançado.
O projeto brasileiro para a América do Sul é ambicioso politicamente, e Dirceu defendeu sempre sua integração como uma prioridade da política externa brasileira, uma integração física e de infra-estrutura, mas que tem como objetivo de longo prazo uma moeda única e até mesmo a "integração militar".
Condoleezza disse, na sua passagem por Brasília, que os Estados Unidos estão "ansiosos" por ajudar os países da América do Sul, e citou como um sucesso a ação americana na Colômbia, com o combate ao narcotráfico e a redução dos crimes. Essa é justamente uma das preocupações do governo brasileiro, que quer atuar na região para impedir que os Estados Unidos o façam, com receio de que ocupem a Colômbia e, por extensão, a Amazônia.
Mesmo que às vezes o faça açodadamente, outras com atitudes de esquerdismo infantil, é esse o papel a que o Brasil se dispõe, não em benefício dos Estados Unidos, mas no da região de que é líder reconhecido. E é por isso também que vem negociando o acordo de livre comércio com os Estados Unidos, através do Mercosul, de maneira dura, que superou o ranço ideológico inicial para se ater a questões comerciais concretas.
Teremos que enfrentar barreiras à negociação, as principais sendo a agricultura e a propriedade intelectual. Para o Itamaraty, são barreiras que expressam "de modo emblemático as assimetrias do processo de negociação, e o fosso que separa as prioridades de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento", na definição do embaixador Adhemar Bahadian, negociador do Brasil.
O governo brasileiro considera que o protecionismo agrícola dos países ricos e as tentativas de imposição de novas regras nas relações comerciais, em questões que já estão definidas pela OMC, agravam a fragilidade econômica, política e social na América Latina, e vão de encontro ao desejo do governo americano de fortalecer a democracia no mundo.
Depois que o chanceler Celso Amorim conseguiu, num contorcionismo etimológico, reincluir a Alca na pauta de negociações, desdizendo de maneira elegante o que o presidente Lula havia bravateado, vamos agora para as negociações fortalecidos pelo reconhecimento de nossa liderança regional, mas enfraquecidos no Mercosul pela dissidência da Argentina.
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