Entrevista:O Estado inteligente

sábado, janeiro 05, 2008

Internet Microcrédito e filantropia democratizados na rede

O Orkut da filantropia

Site se inspira na rede de relacionamentos
para financiar pequenos empreendedores


Naiara Magalhães

Reuters
Página do Kiva na internet e o ex-presidente Bill Clinton:
elogios ao pioneirismo do projeto

Há dezessete anos a equatoriana Alexandra Castro ganha a vida vendendo frutas em uma barraca na cidade de Guaiaquil. Começou ajudando os pais e hoje sustenta três filhos. Em 2006, a feirante deu um passo importante em seu negócio. Tomou um empréstimo de 925 dólares e, com o dinheiro, passou a comprar mercadorias no atacado, a preços mais baixos. Com a operação, aumentou a margem de lucro. Depois do impulso inicial, foi possível dar outro passo. Hoje, além de vender frutas, Alexandra as distribui a outros comerciantes. O pequeno financiamento que melhorou seus negócios não veio de uma instituição bancária tradicional, onde os mecanismos para a concessão de crédito são repletos de filtros. Alexandra cadastrou-se no Kiva, o primeiro site de relacionamentos a possibilitar que empreendedores de baixa renda encontrem pessoas ao redor do mundo que estejam dispostas a ajudá-los on-line, sem intermediários. Em apenas dois anos de existência, o Kiva virou sucesso mundial. Suas operações já movimentaram 19 milhões de dólares e chegaram a quase quarenta países (veja quadro). Tudo com o uso de apenas duas ferramentas: um computador e um cartão de crédito.

kiva.org website

A rede de empréstimos foi criada em 2005 pelo casal Matt e Jessica Flannery, dois jovens californianos. A idéia surgiu após uma viagem de Jessica à África, onde coordenou uma pesquisa sobre o impacto de doações módicas utilizadas por pessoas para abrir ou ampliar pequenos negócios. Lá, Jessica tirou as seguintes conclusões: 1) os pobres têm forte espírito empreendedor e são ótimos pagadores; 2) histórias de superação pessoal têm um poder inacreditável de encantar potenciais investidores; 3) com a ajuda da internet, é possível multiplicar exponencialmente o número de financiadores individuais. Com base nessas três premissas, Jessica e o marido criaram o site Kiva – palavra que significa "ação conjunta" no idioma suaíli, falado em nações africanas como Quênia e Tanzânia. O sistema do Kiva é simples: como no Orkut, microempresários inscrevem seu perfil na página da internet, com fotos e dados pessoais. Mas, em vez de citar filmes e músicas preferidos, descrevem o tipo de negócio em que atuam, estimam a quantia de que necessitam para incrementá-lo, dizem como investirão o dinheiro tomado em empréstimo e em quanto tempo poderão pagá-lo. Potenciais financiadores em qualquer parte do mundo escolhem os perfis que mais lhes agradam. Cada um pode emprestar o total pedido pelo empresário ou apenas uma parte (25 dólares, no mínimo), que será complementada por outros financiadores. O dinheiro é inicialmente transferido para os fundos do Kiva, em nome do empreendedor escolhido, por meio de uma transação on-line via cartão de crédito. No prazo estabelecido para o pagamento do empréstimo, os credores recebem o dinheiro de volta, sem juros nem correção. Nessa via de mão dupla entre empresários e financiadores está o grande mérito do programa – não se trata de benemerência a fundo perdido, com resultados momentâneos, mas de empréstimos com retorno seguro e impacto social imenso. Segundo Afonso Cozzi, coordenador do Núcleo de Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, a grande vantagem do Kiva sobre as instituições de microcrédito tradicionais é ter uma rede ampla que multiplica as chances de os pequenos empresários conseguirem ajuda.

Outra razão do sucesso do Kiva é o alto grau de confiabilidade e transparência das operações. Para garantir a segurança do empréstimo, o site mantém parceria com instituições locais de microcrédito que atuam em cada um dos 39 países atendidos atualmente – não há, por enquanto, entidades cadastradas no Brasil. Cabe a esses parceiros selecionar empresários idôneos e produzir relatórios periódicos sobre o andamento do negócio financiado, permitindo ao credor acompanhar pela internet todo o processo. Desse modo, desaparece a figura do intermediário tradicional, em geral entidades assistencialistas que, apesar de receberem vultosas quantias, estão muito interessadas em se perpetuar e refratárias à prestação de contas desses recursos. A seriedade do Kiva é reforçada pelo fato de que as próprias entidades parceiras são avaliadas no site – as estrelinhas que, no Orkut, servem para indicar a popularidade do internauta, no site sinalizam o grau de confiabilidade da instituição, de acordo com seu tempo de associada, quanto dinheiro administra e a taxa de inadimplência das pessoas que atende (a média geral é de apenas 0,2%). Para fazerem seu trabalho, as instituições parceiras cobram juros de 20% ao ano. A taxa, similar à praticada pelas empresas de microcrédito, não é propriamente pequena. É preciso entender, no entanto, que empreendedores de baixa renda não têm acesso a essas instituições financeiras, que exigem garantias e não dispõem de linhas de crédito de pequeno valor. Portanto, os pequenos comerciantes são obrigados a se submeter ao mercado paralelo da agiotagem, onde a cobrança de juros é extorsiva.

Divulgação
Jessica e Matt Flannery: jovens californianos são os pais da idéia


E como o Kiva se sustenta? Além de receber doações, seus criadores encontraram outra solução: embora os tomadores do empréstimo devolvam o dinheiro em parcelas mensais, os financiadores ao redor do mundo só recebem o dinheiro de volta quando toda a dívida for amortizada – em média, no prazo de um ano. Durante esse período, os recursos ficam em uma conta remunerada e os rendimentos são usados para bancar as operações do site. Toda a idéia surpreende pela simplicidade e pela capacidade de atrair simpatizantes de peso. O Kiva conseguiu chamar a atenção de personalidades como a apresentadora Oprah Winfrey e o ex-presidente Bill Clinton, que também têm os próprios programas de ação humanitária. Em um dos elogios públicos que fez ao site, Clinton resumiu com clareza as razões da rápida popularidade alcançada pelo projeto: "É como se você conhecesse aquelas pessoas, soubesse como elas vivem e como tocam seus negócios. E você ainda pode ajudá-las. Tudo isso pela internet. É fantástico".

As balas perdidas fizeram a festa no réveillon carioca

Não eram só fogos

Festa de fim de ano no Rio de Janeiro
teve participação especial de balas
de revólver e fuzil


Marcelo Bortoloti e Ronaldo Soares

O céu de Copacabana riscado por balas luminosas: tiros de fuzil durante a queima de fogos


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Nesta reportagem
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Quadro: Probabilidade de um disparo para o alto atingir alguém

No réveillon deste ano, os tradicionais fogos de artifício da Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, misturaram-se no céu aos riscos luminosos de balas disparadas por fuzis. Trata-se de uma já tristemente conhecida maneira que a bandidagem encontrou de saudar o ano-novo – além de, como sempre, demonstrar seu poder de fogo. Poderia ter sido essa a causa de um inédito saldo da maior festa carioca: seis pessoas feridas a tiro na praia, sendo quatro atingidas por balas que vieram de cima. Mas a perícia preliminar já descartou que os ferimentos tenham sido provocados por balas de fuzil. Foram tiros de revólver ou pistola, muito provavelmente disparados por pessoas que estavam na praia, durante a queima de fogos.

A tradição de atirar para cima durante comemorações ou homenagens não existe apenas no Brasil. É um costume que persiste principalmente porque não se conhecem seus riscos. Imagina-se que um projétil lançado para cima simplesmente desaparece no ar, ou volta com força desprezível. A prática, no entanto, mostra o contrário. A bala atirada para cima tem pela lei da gravidade uma inapelável trajetória de retorno. Ela chega ao solo em média com um terço da velocidade com que foi disparada. Se é um tiro de fuzil, ainda que o projétil pese apenas 10 gramas, quando volta ao chão seu impacto pode chegar ao de 1 tonelada. É mais que suficiente para matar alguém.

A pedido de VEJA, o diretor do Núcleo de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), Ronaldo Leão, calculou as trajetórias possíveis desse tipo de disparo e suas conseqüências. Como mostra o quadro, um revólver calibre 38 é capaz de disparar balas a uma velocidade média de 1.000 quilômetros por hora. Num ângulo de 90 graus, o projétil sobe 500 metros e volta ao chão a 400 quilômetros por hora. É o bastante para perfurar o corpo humano. Se atinge a cabeça, o pescoço ou o tronco até a altura do abdômen, pode ser fatal. Quando o tiro é disparado a 90 graus, a bala pode cair em qualquer lugar num raio de 10 metros. Mas, se a arma estiver levemente inclinada, a 80 graus, por exemplo, o projétil cairá a até 70 metros. Dependendo da inclinação, fuzis do tipo AR-15, FAL ou AK-47, que são utilizados pelos traficantes cariocas, podem atingir pessoas a mais de 1 quilômetro de distância. Em 2006, 205 pessoas foram feridas por balas perdidas no Rio. A esmagadora maioria foi vítima de confrontos armados entre policiais e bandidos, e não de tiros dados para cima. Os cariocas e seus convidados de todo o mundo poderiam ser poupados desse risco numa festa que sempre foi pacífica. "Dar tiros para o alto como forma de comemoração é coisa típica de país subdesenvolvido. E mostra a quantidade de armas em poder da população. Não por acaso, é muito comum vermos manifestações como essa em lugares como o Rio de Janeiro, a Palestina ou o Iraque", diz José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

Certifica.com

O cerco ao cigarro na França

Cigarro só do lado de fora

A França, pátria sentimental dos fumantes, proíbe
o cigarro em locais fechados, como cafés, bares
e restaurantes. É a Europa se curvando à América


Victor De Martino

Mychele Daniau/AFP
Bar em Rennes, noroeste da França: medida antitabaco ajudará a reduzir as mortes de fumantes passivos

Os cafés franceses nunca mais serão os mesmos. No último dia 2, entrou em vigor na França a proibição do fumo em lugares públicos fechados. A medida atinge também bares, restaurantes e cassinos e sepultou um prazer que era caro aos existencialistas dos anos 50, aos artistas da nouvelle vague dos anos 60, aos ativistas de esquerda dos anos 70 e aos que vieram depois: saborear um cigarro nos ambientes já esfumaçados dos cafés de Paris. Em fevereiro do ano passado, a França já havia abolido o tabaco em escolas, universidades, prédios públicos, hospitais, shoppings e empresas. Agora, na antiga pátria sentimental dos fumantes, só é possível dar vazão ao vício em casa ou em ambientes abertos. As restrições impostas, hoje, são um reconhecimento tardio dos males do fumo passivo. O governo francês estima que 71.000 franceses anualmente morrem no país por causa de doenças relacionadas ao tabaco. Desses, 5 000 jamais puseram um cigarro na boca. São os fumantes passivos.

A proibição também é um sinal de que a cultura do fumo entrou em extinção até mesmo na Europa, que por três décadas ironizou o esforço feito pelos Estados Unidos para coibir o fumo. Hoje, há países europeus com leis antitabagistas mais rígidas que as americanas. Em 2004, a Irlanda se tornou a primeira nação do mundo a livrar todos os seus espaços fechados da fumaça. Na seqüência, Noruega, Espanha, Itália, Malta, Suécia, Escócia, Letônia e Lituânia adotaram legislações semelhantes. Mesmo sem o rigor da legislação francesa, Portugal e dezesseis estados da Alemanha também adotaram medidas antitabagistas na semana passada. Tanto em Portugal quanto nesses estados alemães, os cinzeiros foram recolhidos dos bares, restaurantes e outros ambientes fechados que não disponham de áreas exclusivas para adeptos do cigarro. Com 37% de fumantes na sua população adulta, a Grécia é um dos poucos bastiões europeus do tabagismo.

A cultura do cigarro começou a ser destruída depois que a ciência comprovou o efeito devastador do fumo na saúde. Hoje, sabe-se que um em cada dois fumantes regulares morre por causa do tabaco e que coibi-lo traz resultados imediatos para a saúde pública. Em algumas cidades americanas, a incidência de ataques cardíacos caiu até 27% depois da proibição do fumo em locais fechados. A Irlanda conseguiu reduzir o nível de nicotina na saliva dos não-fumantes em 80%, depois que aboliu o cigarro em lugares públicos. Na Escócia, a abolição dos fumódromos implicou a redução de 26% no número de trabalhadores com problemas respiratórios. "Está comprovado que a proibição total em lugares fechados, como fez a França, é a única a surtir efeito", diz Vera da Costa e Silva, consultora para tabagismo da Organização Mundial de Saúde. "Não adianta instituir apenas a criação de áreas para não-fumantes, como Portugal, a Alemanha e o Brasil fizeram", completa.

Os efeitos benéficos de medidas como essa levaram alguns países a uma escalada contra o cigarro. No Japão, sessenta cidades proíbem o fumo inclusive em ambientes públicos abertos. O município americano de Calabasas e a província de Alberta, no Canadá, tomaram decisões semelhantes. Em quatro estados americanos, é proibido fumar em carros que transportem crianças. Ainda nos Estados Unidos, as empresas de seguro chegam a cobrar contribuições até três vezes maiores de quem fuma. A tendência à proibição generalizada ao fumo na Europa é recente, mas as primeiras medidas nesse sentido remontam ao século XVI. Em 1590, o papa Urbano VII proibiu, sob ameaça de excomunhão, que fiéis e padres fumassem dentro das igrejas. O tabaco havia sido introduzido no continente apenas trinta anos antes, por um embaixador, é claro, francês. Jean Nicot trouxe de Portugal a planta importada do Brasil. No princípio, o tabaco serviu para amenizar as dores de cabeça da rainha Catarina de Médici e o nome de Nicot acabou por batizar a substância ativa do tabaco, a nicotina. No século XX, o hábito se popularizou. Em grande parte, graças ao charme que o cinema lhe emprestou. Hollywood imortalizou fumantes glamourosos como Humphrey Bogart, em Casablanca, e Rita Hayworth, em Gilda. E as imagens de intelectuais franceses, como Jean-Paul Sartre e sua mulher, Simone de Beauvoir, fumantes inveterados, ajudaram a romantizar a cultura do cigarro. Mas, agora, quem quiser fumar num café em Paris terá de achar uma mesa na calçada.

Bové faz greve de fome

O revolucionário
e o reacionário

O exibicionista francês José Bové faz greve
de fome contra os transgênicos. Se ele vencesse,
boa parte do mundo pobre passaria fome

Bill Meeks/AP
Patrick Kovarik/AFP
Norman Borlaug (à esq.) examina uma planta. Ele criou a "Revolução Verde". Poucos o conhecem. O exibicionista Bové, porém, com seu cachimbo e bigode, é uma celebridade mundial. Por que será?

O francês José Bové tem uma legítima e inquebrantável convicção de que seu lugar é na frente das câmeras. Ele já tentou de tudo para se manter em evidência. Praticou crimes como invadir e destruir propriedade alheia na França e no Brasil. Seus alvos principais são laboratórios de tecnologia alimentar e lanchonetes do grupo McDonald’s. Como todo exibicionista, Bové tem uma claque permanente e raramente lhe são negados aplausos. Eles partem de gente com um sentimento difuso de insatisfação com o progresso e com as conquistas da civilização tecnológica. Invariavelmente são pessoas que já desfrutam essas conquistas, mas temem pela saúde do planeta caso as centenas de milhões de miseráveis da Ásia e da África, principalmente, também passem a ter acesso a elas. Sentimento torpe disfarçado de nobreza. Bové, de 54 anos, é o líder dessa corrente. Seu último truque foi se declarar, na semana passada, em greve de fome contra o uso de sementes transgênicas em solo francês. Ele promete não comer mais nada enquanto o governo da França não proibir as culturas geneticamente modificadas por um ano. Michel Barnier, ministro da Agricultura da França, respondeu: "Em uma democracia como a nossa existem outras maneiras de ser ouvido, de tomar parte no debate e de convencer".

Exibicionistas como Bové não aceitam a democracia, o debate e muito menos têm a mais mínima intenção de convencer. Eles querem aparecer. Esse é um traço comum ao que se convencionou chamar de "ativismo antiglobalização", que substituiu a militância esquerdista clássica depois do desastre do socialismo na União Soviética e seus satélites. Os náufragos do comunismo se agarraram com sofreguidão à bandeira do ambientalismo. Antes da dissolução do bloco soviético, ambientalismo não era considerado um assunto sério pelos militantes esquerdistas – até porque as fábricas, os carros e as usinas atômicas da União Soviética e dos países sob seu domínio, em especial da Alemanha Oriental, eram os que mais envenenavam o ar e os rios da Europa. Se poluir ajudava a causa socialista, então qualquer um que levantasse a questão da poluição só poderia ser um traidor da causa. A questão ambiental só se tornou séria para os militantes depois que foi transformada em arma de propaganda contra o capitalismo, contra os Estados Unidos e contra a globalização. Os Bovés então pularam de cabeça na nova onda. Não querem debate, não querem um planeta mais limpo e, principalmente, não querem que se cobre deles a apresentação de argumentos científicos que justifiquem suas teses. Querem estar diante das câmeras de televisão. Fizeram disso uma profissão lucrativa.

Por que Bové não quer debater mesmo sabendo que a Assembléia Geral da França votará a questão até dia 9 de fevereiro próximo? Porque não tem argumentos. Primeiro, as culturas geneticamente modificadas cobrem menos de 1% da área plantada da França. Segundo, as sementes geneticamente modificadas, além de mais produtivas e mais resistentes a pragas – o que diminui o uso de defensivos agrícolas químicos –, são seguras para o consumo humano. Para produzir com sementes convencionais a mesma quantidade de comida conseguida com as geneticamente modificadas é preciso triplicar a área plantada e quadruplicar o uso de defensivos agrícolas químicos. Bové e seus seguidores fingem ignorar que a tecnologia agrícola que eles tanto combatem salvou da morte pela fome centenas de milhões de pessoas miseráveis do lado pobre e ignorado do mundo. A outra hipótese é que eles só se preocupam com seu conforto pessoal e com a manutenção do seu modo de vida. São os reacionários do século XXI. O oposto de Bové é um americano tranqüilo chamado Norman Borlaug, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 1970. Ele é o cientista responsável pelo desenvolvimento nos anos 60 de sementes de milho e trigo de alta produtividade, aumentando vertiginosamente sua produção. A introdução dessas sementes no Terceiro Mundo deu origem ao que se chamou "Revolução Verde". Que o revolucionário Borlaug seja quase desconhecido enquanto o reacionário Bové festeja diante das câmeras é uma charada a ser decifrada.

FBI investe 1 bilhão de dólares em banco de dados

Além das impressões

O FBI investe 1 bilhão de dólares no projeto de uma
tecnologia capaz de identificar os sinais característicos
de cada pessoa – desde a voz até o jeito de andar


Marcos Todeschini

Fotos Ian Waldie/Getty Images e Istockphoto.Com/Royalty Free
Imagem computadorizada do rosto e das impressões digitais: o novo sistema permitirá identificar com precisão um criminoso em meio à multidão

É impossível checar as impressões digitais de cada uma das pessoas em uma multidão. Para os policiais, isso é um pesadelo quando se trata de apontar entre milhares de inocentes um potencial criminoso ou terrorista. A polícia federal americana, o FBI, está investindo 1 bilhão de dólares em um projeto que permitirá identificar os sinais únicos de um criminoso já conhecido em meio às multidões. O projeto partirá das informações de um banco de dados do tamanho de dois campos de futebol alojado em um abrigo subterrâneo na cidade de Clarksburg, a 400 quilômetros de Washington. A nova tecnologia foi batizada de Next Generation Identification. Ela unificará as principais formas de reconhecimento de criminosos usadas hoje, levando em conta as "mensurações unívocas", aqueles traços que os identificam como únicos e que dificilmente podem ser imitados ou apagados. O banco de dados conta hoje essencialmente com as impressões digitais, com imagens do rosto e da palma das mãos de mais de 50 milhões de indivíduos. A tecnologia ampliará esse arsenal, incluindo nele informações sobre a íris, o formato do lóbulo, o tom de voz e o padrão dos passos ao caminhar. A nova tecnologia reduzirá as características físicas e os comportamentos adquiridos a um padrão matemático e vai associá-lo à pessoa fichada.

Outra frente da pesquisa desenvolverá uma tecnologia de vigilância ligada a esse banco de dados que será instalada em centros com grande circulação de pessoas, como aeroportos e estações de trem. As câmeras medirão vários indivíduos ao mesmo tempo e identificarão aqueles que representam perigo. O desenvolvimento do projeto foi recebido com agrado pelos especialistas em segurança, mas com ressalvas pelos órgãos de defesa da privacidade. Isso porque o FBI pretende catalogar não apenas criminosos. A idéia da polícia federal americana é manter em seus arquivos as informações corporais obtidas de qualquer pessoa que eventualmente as forneça em aeroportos ou batidas policiais de rotina. Essa é uma mudança radical. Atualmente, esses dados são deletados quando nada pesa contra o indivíduo. Com o novo sistema, essas informações acabariam entrando para o tal banco de dados e lá permaneceriam, em uma espécie de arquivo para a vida inteira. Elas poderiam ser acessadas a qualquer momento no interesse do estado. Para muitos analistas, o progresso tecnológico está ajudando a trazer de volta uma das mais perniciosas formas medievais de discriminação, a marcação indelével a ferro que os criminosos e inimigos do poder recebiam no rosto. É um exagero. A idéia, porém, tem origem comum na obsessão de facilitar a identificação de um criminoso e em sua idéia gêmea, a de que quem transgride tende a transgredir de novo e, por isso, precisa ser marcado.

A identificação de criminosos por meio de suas características físicas remonta aos primórdios da era medieval. A forma usada então era uma verificação feita a olho nu: cor do cabelo e da pele, marcas de nascença e defeitos no jeito de andar eram catalogados depois que alguém cometia um delito. Essas marcas ajudariam na identificação dos criminosos em oportunidades futuras. Como essas características físicas podiam ser burladas com um disfarce, a monarquia francesa inventou uma maneira para marcar de modo ainda mais conspícuo os fora-da-lei. Os bandidos eram marcados a fogo com uma "tatuagem" no rosto, no formato da flor-de-lis, o emblema do poder francês desde o século XII. A cicatriz durava para sempre. Essa forma antiga de marcar as pessoas por meio de sinais aparentes foi aposentada com o passar do tempo.

Um estudo sobre a palma das mãos feito pelo escocês Henry Faulds Malpighi, no século XIX, fez com que outras marcas, bem mais sutis, passassem a ser usadas para identificar os indivíduos e fichar criminosos. São as impressões digitais. As centenas de cavidades com a largura de 2 décimos de milímetro são formadas durante o quarto mês de gestação. Os cientistas acreditam que o desenho constituído varie conforme a carga genética e a movimentação do feto dentro do útero. Por isso é praticamente impossível duas pessoas terem a mesma impressão digital. A datiloscopia, a identificação humana por meio das impressões digitais, foi diretamente responsável pela captura de mais de 1 milhão de criminosos nos Estados Unidos desde que passou a ser usada pela polícia americana, no início do século XX. À primeira vista as impressões digitais são idênticas. Como Deus, a diferença está nos detalhes. Em sua infinita capacidade de se copiar e se diferenciar, a natureza prega a mesma peça, por exemplo, na estrutura cristalina dos flocos de neve. Eles são iguais vistos de longe. Ao microscópio não se encontram dois idênticos. O que os seres humanos têm de igual e de diverso em sua personalidade e em sua compleição física embute mistérios que ainda desafiarão a ciência pelos próximos séculos. Está aí a beleza da humanidade. É altamente resistente também a obsessão em identificar e paralisar um criminoso conhecido antes que ele ataque de novo. Como fazer isso sem ferir a dignidade e a liberdade individual é algo em que a tecnologia nada pode ajudar.

Karoshi: a morte por excesso de horas extras

Tragédia na virtude

A morte de um operário japonês por excesso
de trabalho expõe um problema nacional


Roberta Abreu de Lima

Michael Carona/Reuters
A viúva de Uchino com o retrato da família: o marido ficava tão exausto que não tinha forças para brincar com os filhos


Em fevereiro de 2002, o japonês Kenichi Uchino ocupava o cargo de gerente de controle de qualidade numa fábrica de automóveis da Toyota, na província de Aichi, quando caiu fulminado em pleno expediente, às 4 horas da manhã. Tinha apenas 30 anos. A causa da morte foi ataque cardíaco decorrente de excesso de trabalho. Apenas naquele mês ele havia cumprido 106 horas extras. Passara todo o semestre anterior trabalhando, pelo menos, oitenta horas a mais por mês. A maior parte dessas horas extras não era remunerada. A empresa as considerava "trabalho voluntário". Alguns dias antes de morrer, ele disse à mulher, Hiroko: "O momento em que mais me sinto feliz é quando estou dormindo". O caso de Uchino não é um acontecimento isolado no Japão. A morte por sobrecarga de trabalho, um problema reconhecido pelo governo japonês desde a década de 80, é tão comum que há um vocábulo para defini-la: karoshi. A viúva de Uchino passou quase seis anos brigando na Justiça por uma indenização para ela e seus dois filhos. No mês passado, conseguiu que as horas que o marido trabalhou sem remuneração fossem consideradas parte integral do salário dele.

A sobrecarga de trabalho se institucionalizou no Japão durante a reconstrução do país após a II Guerra. Nos anos 90, depois de uma série de ações judiciais movidas por famílias de vítimas de karoshi, o governo criou leis impondo penalidades às empresas que expunham seus funcionários a jornadas excessivas. As companhias, então, reduziram as jornadas que constavam nos contratos de trabalho, mas passaram a obrigar os empregados a trabalhar horas a mais sem remuneração. Era isso ou perder o emprego. A prática se disseminou, combinada à cultura japonesa de sacrifício da vida pessoal em nome do país ou da empresa.

Segundo um levantamento do Ministério da Saúde, do Bem-Estar e do Trabalho do Japão, 355 trabalhadores adoeceram gravemente por sobrecarga de trabalho em 2006 e cerca de 150 morreram. O karoshi, que atingia trabalhadores na faixa entre 50 e 60 anos, agora freqüentemente colhe vítimas na faixa de 20 a 30. As indenizações do governo para os parentes de uma vítima de karoshi podem chegar a 20 000 dólares por ano. Por parte da companhia, a compensação pode ser superior a 1 milhão de dólares. Em sua última semana de vida, Uchino trabalhava no departamento responsável pela construção do Prius, o carro verde de enorme sucesso da Toyota.

1/3 dos japoneses trabalha mais de 12 horas por dia,
parte desse período sem remuneração

O quilo oficial está perdendo peso

O incrível caso do
quilo que encolheu

O cilindro que serve de referência
às balanças está perdendo peso


Vanessa Vieira

Fotos BIPM
O grand K, fundido em 1889 e guardado em Sèvres: 50 microgramas a menos

Sempre que alguém sobe numa balança para observar o peso ou pede ao açougueiro uma peça de carne, está se efetuando uma medida em relação a um cilindro de platina e irídio guardado num cofre do Bureau Internacional de Pesos e Medidas, em Sèvres, na França. O órgão é responsável pelo estabelecimento dos padrões de medição adotados internacionalmente. O cilindro, conhecido como Le Grand K, foi criado em 1799 pela Academia Francesa de Ciências e, desde então, é a referência usada nas balanças do mundo todo para determinar o que é 1 quilo. Para garantir a uniformidade do quilo, a partir de 1889 várias cópias do cilindro foram distribuídas a diversos países. Agora, os cientistas ligados ao Bureau acabam de descobrir, com surpresa, que o cilindro original vem perdendo massa – e, portanto, peso – com relação a suas cópias. A diferença é da ordem de 50 microgramas. Isso equivale a menos de um grão de açúcar. Parece pouco, mas as mudanças nessa unidade de massa, teoricamente, influenciariam o valor de outras unidades, como o ampère e o volt, cujo cálculo está relacionado ao quilo. Do ponto de vista simbólico, a descoberta da alteração no peso do cilindro-mãe cria uma situação inusitada: 1 quilo não é mais 1 quilo.

A explicação mais provável para a diferença de peso entre o cilindro de Sèvres e seus irmãos é que ao longo dos séculos ele venha liberando gases resultantes do seu processo de fundição e, com isso, perdendo massa. Outra hipótese, menos provável, é que a platina de todos os cilindros esteja reagindo com o mercúrio poluente presente no ar. O original e as cópias estariam, na verdade, ganhando massa em vez de perder. O Grand K, mais protegido e menos manipulado, apenas estaria ganhando massa a um ritmo mais lento. Fica evidente a necessidade de encontrar uma forma mais confiável de definir o quilo. O assunto foi debatido em novembro passado durante a Conferência Geral dos Pesos e Medidas, em Paris. A meta, a partir de agora, é associar o quilo a uma constante da natureza, a exemplo do que foi feito com o metro. Até a segunda metade do século XX, o metro era representado por uma barra de metal (veja o quadro).

Para substituir o Grand K, os pesquisadores trabalham com duas possibilidades. A primeira é o uso da chamada balança de watt. Nesse caso, o quilo seria definido pela corrente elétrica necessária para gerar uma força equivalente a esse peso no campo magnético da balança. Todas as peças equilibradas pela mesma corrente teriam 1 quilo. Outra possibilidade é associar o quilo ao número de átomos de silício presentes numa esfera de cristal. Por esse método, qualquer corpo terá massa de 1 quilo quando seu peso for igual ao do total de átomos de silício da esfera. Para quem se pesa ou vai ao açougue, o importante é que 1 quilo volte a ser 1 quilo.

A evolução do metro

O antigo metro-padrão: aposentado pelo avanço da ciência

Uma discussão semelhante à que ocorre hoje para criar um padrão mais preciso para o quilo já aconteceu no passado com o metro. O metro foi definido em 1791 pela Academia Francesa de Ciências como a distância compreendida entre o Pólo Norte e a linha do equador, medida sobre o meridiano que passa sobre Paris e dividida por 10 milhões. Para facilitar o uso e a difusão dessa unidade, o Bureau Internacional de Pesos e Medidas criou, em 1889, um protótipo de platina e irídio que passou a servir de referência para o metro no mundo inteiro. No século XX, começou-se a buscar uma definição para o metro que não dependesse de um artefato físico e que fosse baseada numa constante fácil de reproduzir. Desde 1983, ficou acertado pelos especialistas em pesos e medidas que o metro corresponde à distância percorrida pela luz, no vácuo, no intervalo de um segundo dividido por 300 milhões.

O seqüenciamento genético da uva pinot noir

Revelado o mapa do sabor

O seqüenciamento genético da uva pinot noir,
alma dos cobiçados borgonhas, abre caminho
para safras melhores e mais baratas


Rafael Corrêa

Ian Shaw/Getty Images
Cachos da pinot noir, no interior da França: no futuro, será possível criar versões transgênicas da fruta


Os italianos acabam de dar outra contribuição relevante ao mundo dos vinhos. Um grupo de pesquisadores liderados por Riccardo Velasco, do Instituto San Michele all’Adige, publicou o seqüenciamento mais completo feito até hoje do genoma da uva pinot noir. Essa qualidade de uva é conhecida por servir de matéria-prima para os exclusivos, cobiçados e caros vinhos da região da Borgonha, na França. Muito suscetível a pragas e doenças, ela só atinge sua plenitude quando cultivada em determinadas condições de solo e clima – um conjunto de fatores a que os franceses chamam de terroir. Com a decodificação do genoma da pinot noir, no entanto, será possível depender menos das condições ambientais para produzi-la. Além disso, os cientistas poderão selecionar variedades mais resistentes a pragas. Mais adiante, prevê-se até criar tipos adaptados a climas hoje considerados inadequados. Na prática, isso significará tirar da região francesa da Borgonha a exclusividade das melhores pinot noir do mundo.

A pesquisa conduzida por Velasco coloca água no vinho dos produtores franceses, que adoram realçar as qualidades de seu terroir. Um mapa com informações sobre os genes que determinam as características da uva é uma ferramenta poderosa para aumentar a produtividade das colheitas e baratear o custo do vinho pinot noir. Os pesquisadores identificaram marcadores relacionados a características como sabor, aroma e concentração de resveratrol, substância com propriedades antioxidantes e antiinflamatórias presente na casca e nas sementes da fruta. O conhecimento des-ses marcadores permite que se dê o próximo passo – o melhoramento genético. Não é a primeira vez que o genoma da pinot noir é seqüenciado. Em agosto passado, um grupo de cientistas franceses e italianos publicou um estudo na revista científica Nature com o mapa dos genes da uva. A diferença em relação ao feito do Instituto San Michele all’Adige está no detalhamento das informações. O trabalho do centro de pesquisa italiano não só esquadrinhou os 30 000 genes da pinot noir como identificou 2 milhões de polimorfismos de nucleotídeo simples – as variações nas bases formadoras do DNA.

"Com esse nível de detalhe é possível identificar com precisão as pequenas diferenças genéticas que determinam por que uma variedade resiste a doenças e outra não", explica Luís Fernando Revers, pesquisador da Embrapa e especialista em genética de uvas. "Esse processo é chamado de genética fina e acelera muito a busca por variedades melhores." O mapa dos genes da pinot noir também abre caminho para a criação de versões transgênicas da uva. A possibilidade de inserir genes de outras plantas no genoma da pinot noir deixa os produtores franceses de cabelo em pé. Eles acreditam que uma bebida feita a partir de uma uva transgênica é um sacrilégio que rompe com a tradição mi-lenar do vinho. Mas de sacrilégio em sacrilégio o mundo se move.

Do terroir ao laboratoire

O seqüenciamento do genoma da lendária uva da Borgonha, a pinot noir, pode ser um pesadelo para os produtores franceses, para os quais a terra e o clima (terroir) é que fazem a qualidade de seus vinhos. Com o avanço no laboratório será possível

• desenvolver variedades da uva mais resistentes a doenças, aumentando a produtividade

• produzir uvas que darão vinhos com sabor e aroma mais intensos

• aumentar nas uvas a concentração de resveratrol, substância com propriedades antiinflamatórias e antioxidantes

• desenvolver variedades que possam ser cultivadas em regiões onde o clima não é favorável

A multiplicação do champanhe

Nos próximos cinco anos, estima-se que o consumo de champanhe no mundo crescerá 13%. Para atender à demanda pelo mais célebre dos vinhos, o governo francês vai aumentar a área oficial de produção. Hoje, apenas os espumantes originários de uma pequena parte da região de Champagne podem receber o nome de champanhe. A partir de 2009, deverão ser incluídos quarenta municípios aos 319 autorizados a fabricar a bebida. Em 2007, foram produzidos 400 milhões de garrafas. Com a nova área, o número saltaria para 3,2 bilhões de garrafas anuais. O terroir, conjunto de clima e solo favoráveis, é o diferencial da região. Caracteriza-se por um clima de temperatura amena, com pouca radiação solar, e solo com boa drenagem. Mas os critérios oficiais que certificam os espumantes levam em conta uma série de outros fatores. Definitivamente, não é fácil ser champanhe em Champagne.

Com reportagem de Marcio Orsolini

A transformação de Marisa Letícia

A real metamorfose ambulante

Liftings, lipos, Botox e novos figurinos: a transformação
de Marisa Letícia desde que se tornou primeira-dama


Juliana Linhares

Fotos Ricardo Stuckert/PR

A alvorada de um guarda-roupa
No começo do governo, tailleurs de gola careca, tecidos pesados e corte reto (à esq.). Hoje, modelos mais leves e de caimento perfeito. Mas há quem faça restrições ao vermelho total e à tendência monocromática

O marido vive dizendo que é uma metamorfose ambulante, mas quem se transformou de verdade, e para melhor, foi ela. Aos 57 anos, a primeira-dama Marisa Letícia da Silva está mais magra, mais elegante e com a aparência bem mais jovial do que em 2002, ano em que Lula foi eleito presidente da República pela primeira vez. Colaboraram para essa transformação um figurino mais moderno, uma dieta equilibrada e uma rotina de caminhadas diárias, além de dois liftings faciais e duas lipoaspirações na região abdominal – para não falar das inevitáveis aplicações de Botox, é claro. "Marisa está mais refinada e bem-cuidada", diz o estilista Wilson Ranieri.

Desde que se mudou para Brasília, a primeira-dama perdeu mais de 6 quilos. Mudou o cabelo (hoje, com cachos modelados e fios em tom de mel), a maquiagem (passou a combinar a cor do batom com a cor do blush e a suavizar o contorno dos olhos) e também o jeito de se vestir. Os ternos de gola careca, corte reto e caimento pesado foram substituídos por modelos mais leves e de tecido mais delicado. Os tailleurs, antes onipresentes, passaram a ser alternados com vestidos combinados com casacos ou até com jaquetinhas. "Marisa já está ousando um pouco mais e com sucesso, embora continue um pouco monocromática", afirma Ranieri. Para ele, a primeira-dama poderia usar um pouco menos as cores rosa e vermelho total. O estilista Carlos Tufvesson concorda que o vermelho não é a cor mais indicada para mulheres de estatura média para baixa. Mas acha que, de resto, Marisa vem fazendo escolhas que valorizam o seu tipo físico. "Ela acerta ao não investir em tecidos com muito brilho ou que marquem demais a cintura", diz.

Fotos Ricardo Stuckert/PR e Antonio Milena
Repaginar para rejuvenescer
A primeira-dama, da primeira posse aos dias que correm: ela mudou o corte e a cor do cabelo, perdeu 6 quilos e submeteu-se a dois liftings faciais e duas lipos na região abdominal. Como não poderia deixar de ser, faz aplicações regulares de Botox. Por determinação da dermatologista, passou a usar chapéus de abas largas e óculos escuros em solenidades e festas ao ar livre

O aumento da preocupação da primeira-dama com a própria imagem não se limita ao guarda-roupa. Desde 2002, quando fez seu primeiro lifting facial (cirurgia plástica para rejuvenescimento do rosto), Marisa tornou-se fã do bisturi do médico Pedro Albuquerque, com consultório em São Paulo. Reservada, ela não gosta de falar sobre o assunto (chegou mesmo a negar que tivesse feito a cirurgia) e, para manter a discrição, procura marcar suas intervenções em horários de pouco movimento de clientes. A primeira lipoaspiração que fez na região abdominal, por exemplo, foi realizada às 4 da manhã. A cirurgia ocorreu no hospital paulista Albert Einstein, no meio do ano de 2006. Marisa gostou tanto do resultado que repetiu o procedimento em junho do ano passado. Ao submeter-se a nova afinada na silhueta, fez também mais um lifting. Assim como o de 2002, ele foi superficial – o que significa que somente a pele do rosto foi puxada na direção das laterais da face (e cortada perto da raiz dos cabelos). No lifting completo, além da pele, também os músculos faciais sofrem cortes e reposicionamento. Novamente, as cirurgias ficaram a cargo de Pedro Albuquerque. Ele foi indicado à primeira-dama pela ex-prefeita de São Paulo e atual ministra do Turismo, Marta Suplicy. Entre os clientes de Albuquerque, estão os apresentadores Hebe Camargo, Amaury Jr., Marília Gabriela e, mais recentemente, Ana Maria Braga.

Por ter a pele branca e delicada, Marisa faz freqüentes consultas dermatológicas. Há oito meses, trocou a especialista Denise Steiner – que viajava de São Paulo para Brasília para fazer aplicações de Botox nela e também no presidente Lula – pela médica Adriana Vilarinho. Adriana é conhecida por cuidar de artistas como Daniella Cicarelli, Adriane Galisteu, Naomi Campbell e Ana Paula Padrão. Por determinação de Adriana, Marisa passou a usar chapéus de abas largas e óculos escuros em solenidades e festas ao ar livre. A primeira-dama está certa. Tanto investimento e resultados tão bem-sucedidos têm mesmo de ser preservados.

A Espiã, de Paul Verhoeven

No ponto de partida

Com A Espiã, Paul Verhoeven retorna à Holanda e
à II Guerra – e se reencontra também como cineasta


Isabela Boscov

Incensado, com razão, por RoboCop e O Vingador do Futuro, e ridicularizado, com certa injustiça, por Showgirls e Tropas Estelares, o holandês Paul Verhoeven personifica um dos percursos típicos dos cineastas estrangeiros em Hollywood: chegou coberto de glória, foi-se embora como um fracasso. Seu filme mais recente, porém, é um forte indício de que ele pode estar não numa trajetória descendente, mas pendular – e de novo em ascensão, portanto. A Espiã (Zwartboek, Holanda/Alemanha, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é um Verhoeven como fazia tempo não se via: vigoroso, voluptuoso e provocativo, mas sem aquele quê de gratuidade e de ironia extrema que o havia tornado indigesto para a platéia, em especial a americana. Como muitos outros artistas em situação semelhante, também, Verhoeven se renovou voltando ao ponto de partida – no caso, Haia, a cidade onde cresceu e, aos 6 anos, presenciou o auge da ocupação nazista na Holanda. É nesse mesmo tempo e lugar que Rachel (a excelente Carice van Houten), ex-cantora de cabaré judia, vive escondida na casa de fazenda de uma família cristã. Rachel é descoberta, paga um policial para ajudá-la a fugir, e quase morre no que era na verdade uma armadilha. Acolhida por um grupo de resistência, reinventa-se como agente dupla. Sob o nome perfeitamente holandês e protestante de Ellis de Vries, e com os cabelos – todos eles – tingidos de loiro, ela se insinua para um alto comandante da força de ocupação alemã (Sebastian Koch, o dramaturgo de A Vida dos Outros). Logo fica claro, porém, que alguém está alertando os nazistas para os planos do grupo. E, como Ellis é judia, é mulher e não se fez de rogada em pular na cama de um SS, ela é naturalmente a primeira e principal suspeita. O moralismo e o preconceito, postula Verhoeven, não escolhem lado.

Passadas três décadas, assim, o diretor retoma o assunto do filme que o fez famoso e comprou sua passagem de ida para os Estados Unidos. Como em O Soldado de Laranja, de 1977, A Espiã não está minimamente interessado em relembrar as agruras vividas pelos holandeses na II Guerra. Quer, ao contrário, mostrar aquilo que eles gostariam de esquecer: que, apesar da reputação de tolerância que cultivam, também colaboraram com o inimigo e foram hipócritas. "De outra forma, ao final da guerra não teriam restado apenas 30.000 dos 140.000 judeus holandeses", diz o roteirista Gerard Soeteman, com quem Verhoeven escreveu ambos os filmes. Quase todos estes, como Ellis, foram denunciados em troca de dinheiro. E quase todos os que viveram para contar sua história, como ela (a personagem é um apanhado de diversas figuras verídicas), o fizeram graças a uma conjunção de sorte, engenhosidade e pendor para a dissimulação. A certa altura, Ellis se pergunta se tudo isso algum dia vai terminar. Verhoeven, que é um realista, responde que não: na última cena, já novamente sob seu nome verdadeiro de Rachel e morando num kibutz em Israel, a protagonista se recolhe no que parece ser a mais perfeita paz. O diretor, então, afasta um pouco a câmera, para mostrar o arame farpado e as armas que defendem esse seu oásis. Certas coisas mudam, mas não acabam.

Meu Nome Não É Johnny, com Selton Mello

"Não na nossa família"

O drama do rapaz de classe média que vira traficante
de cocaína em Meu Nome Não É Johnny


Jerônimo Teixeira

Divulgação
Selton Mello, como João Estrella: um traficante que nunca pisou no morro


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A mãe de um traficante que acaba de ser preso procura um advogado para o filho. O advogado pergunta há quanto tempo ela tinha conhecimento das atividades ilícitas do filho. A mãe responde que não sabia de nada, que nunca imaginou que isso pudesse acontecer. "Não na nossa família", completa. A cena, logo no início de Meu Nome Não É Johnny (Brasil, 2006), é a consumação extremada de um pesadelo dos pais da classe média brasileira (e, em particular, carioca): o filho perdido para a droga. Personagem real, João Guilherme Estrella não foi apenas mais um viciado. Para sustentar o consumo pessoal, tornou-se ele mesmo um traficante, vendendo a cocaína mais pura do Rio em festas da Zona Sul, até ser preso em 1995 e condenado a dois anos em um manicômio judicial. Baseado no livro homônimo, publicado pela editora Record, em que o jornalista Guilherme Fiuza narra a história de Estrella, o filme dá uma dimensão entre cômica e trágica ao drama do vício. O Estrella interpretado por Selton Mello parece não entender a gravidade de seus atos – tampouco tem a esperteza de tirar o melhor proveito deles. Na forma de pó branco, uma proverbial fortuna circula por suas mãos, mas ele não enriquece. Torra tudo em festas com a namorada maluquete interpretada por Cleo Pires. E em mais droga.

Sob a direção ágil de Mauro Lima – cujo filme mais conhecido até agora era o infantil Tainá 2 –, Meu Nome Não É Johnny às vezes parece tão leve e inconseqüente quanto seu personagem. Muito bem-humorado, não tem a violência dos filmes que focam o tráfico pelo lado da favela – ou dos fornecedores –, como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Filho de pais permissivos que fechavam os olhos para suas farras cada vez mais desregradas, Estrella nunca pisou em um morro. Tinha fornecedores para fazer esse caminho por ele. Começou a vender pequenas quantidades, no início dos anos 80. Quando a polícia finalmente o pegou, em 1995, ele estava com 6 quilos em seu poder.

É no presídio, enquanto aguarda julgamento, e no manicômio judicial onde depois cumpre pena que Estrella começa a se dar conta da profundidade de seu erro. Inclusive porque passa a conviver com uma turma da pesada – um de seus companheiros de manicômio é um traficante que tinha por hábito dilacerar seus inimigos com uma serra elétrica. O filme não torna explícita a conexão entre a sórdida realidade das prisões e a vida dissoluta que o traficante playboy levava até então. Mas ela fica bem evidente no silêncio perplexo que Selton Mello imprime ao personagem durante sua dolorosa redenção. Estrella percebe, então, como sua festa custava caro.

Desejo e Reparação, com Keira Knightley

Num certo dia de verão

No magnífico Reparação, o escritor Ian
McEwan constrói uma tragédia na confluência
de um punhado de pequenos acontecimentos.
Parece milagre, mas a adaptação faz jus ao
seu brilho


Isabela Boscov

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Um dos livros mais extraordinários da última década, Reparação, do inglês Ian McEwan, começa por tratar das pequenas coisas que estão se passando numa mansão no campo, num dia de verão de 1935, e de como elas levam Briony Tallis, de 13 anos, a contar uma mentira grave. Daí para a frente, McEwan desenha os círculos que se espraiam a partir dessa mentira através das décadas. Ela moldará a vida de Briony até a velhice. E será não apenas a razão das tragédias que se abaterão sobre duas outras pessoas, como a pior dessas tragédias, sempre. Publicado em 2001, o romance é um feito de narrativa e estrutura: lança um olhar arguto e original sobre o ponto conflagrado em que o sentimento pessoal e as convenções de classe colidem. E, mais do que qualquer outro, dialoga com toda a grande tradição literária britânica e a estende até o presente. Reparação é, enfim, um colosso, e só isso bastaria para cercar de suspeitas sua adaptação como um muito assumido filme "de Oscar". Mas Desejo e Reparação (Atonement, Inglaterra/França, 2007), que estréia nesta sexta-feira no país, é uma boa notícia. Na verdade, considerando-se tudo em que poderia errar, é uma ótima notícia: cumpre os cuidados obrigatórios do gênero com o figurino e a direção de arte, sem nunca perder de vista a riquíssima matéria-prima em que se baseia.

Divulgação
Briony (Saoirse Ronan): como aspirante a escritora, ela observa, interpreta – e distorce


Dirigido pelo inglês Joe Wright, que há dois anos fez um excelente trabalho com o Orgulho & Preconceito de Jane Austen, Desejo e Reparação começa acelerado. Briony (Saoirse Ronan), uma petulante aspirante a escritora, lateja de frustração por perceber que não vai conseguir encenar para a família a sua primeira peça, e também de ressentimento – da janela de seu quarto, ela vê a irmã mais velha, Cecilia (Keira Knightley), se despir para entrar numa fonte diante de Robbie (o esplêndido James McAvoy), o filho da governanta, por quem a menina alimenta uma paixonite. Briony entendeu, da cena, mais do que gostaria de ter entendido; mas não tem maturidade para compreender sua essência. A partir daí, enquanto a trilha sonora acentua a fúria crescente de Briony, todos os outros elementos que estão em jogo nesse dia começam a confluir em sua visão distorcida. Do amigo da família que está de olho – e mãos – em quem não deveria a uma carta que nunca deveria ter sido entregue, o caos vai se avolumando e se precipitando. Cecilia e Robbie serão engolidos por ele; e Briony passará o resto da vida buscando alguma forma de reparação (o "desejo" do título brasileiro é perfeitamente gratuito) pelo crime que cometeu.

Ian McEwan é um mestre dessas guinadas do prosaico para o incontrolável, e o diretor Joe Wright faz jus a ele, ponto por ponto, nesse primeiro ato admirável. No segundo ato, em que Briony trabalha como enfermeira de guerra enquanto Robbie padece no front, as emoções são mais convencionais do que aquelas evocadas pelo escritor. Ainda assim, Wright se sai com uma seqüência épica da evacuação das tropas britânicas de Dunquerque, em que, em quase dez minutos sem cortes, compõe um diorama do horror da guerra. No terceiro e derradeiro ato, Briony, agora com 77 anos e interpretada por Vanessa Redgrave, volta a se expor como uma narradora das menos confiáveis – mas por motivos opostos aos que a moveram naquele dia de 1935. Reparação é todo construído em torno do ato de observar, interpretar e registrar – o ofício básico de um romancista –, e filmes quase que invariavelmente falham nesse tipo de transposição. Desejo e Reparação é uma bela exceção. Por pouco, muito pouco, não é tão arrebatador quanto o texto em que se inspira.

Livro Os Heróis, de Paul Johnson

O poder da vontade

Nos ensaios biográficos de Os Heróis, Paul Johnson
mostra como a força de indivíduos influi na história


Jerônimo Teixeira

Talvez não exista hoje historiador tão versátil e prolífico quanto Paul Johnson. Com 79 anos e mais de quarenta livros publicados, o inglês já narrou a trajetória de judeus, cristãos e americanos, produziu compêndios de história da arte e biografou Napoleão Bonaparte e George Wash-ington. Johnson é também um destemido polemista, sempre feliz de propagar suas posturas conservadoras. Não sofre do temor pueril de muitos intelectuais – o de passar por "antiquado". Era preciso um homem como ele para restaurar uma noção que parece pertencer ao passado sépia: o heroísmo. O homem ou mulher que se levanta sobre o comum das gentes era objeto de fascínio de vitorianos como Thomas Carlyle – autor de Sobre Heróis, o Culto aos Heróis, e o Heróico na História –, mas não é mais um tema digno da historiografia moderna. Foi substituído por processos coletivos – a "luta de classes" dos marxistas – ou impessoais – as forças do mercado dos liberais. Os Heróis (tradução de Marcos Santarrita; Campus/Elsevier; 280 páginas; 59 reais), coletânea de ensaios biográficos de Paul Johnson, reclama novamente um lugar na história para os fortes. Ele produziu um livro idiossincrático, tanto na curiosa escolha de biografados (de Boudica, remota heroína nacional inglesa do século I, à fulgurante Marilyn Monroe) quanto nos detalhes inusitados sobre os quais se debruça (a halitose de De Gaulle, para ficar com apenas um exemplo pitoresco).

Centrado em estudos de caso, Os Heróis não traz uma "teoria do heroísmo". Na introdução, Johnson adverte que tomou a palavra herói no senso mais dilatado possível: "é herói qualquer um encarado (...) como heróico por uma pessoa racional, ou mesmo irracional". A definição vaga torna o livro demasiadamente eclético. Ao lado de homens que se fizeram na arena pública e no campo de batalha, como George Washington, o primeiro presidente americano, e o duque de Wellington, militar britânico que derrotou Napoleão em Waterloo, Johnson também apresenta heróis das letras e do intelecto, como a reclusa poeta americana Emily Dickinson e o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. São capítulos que caberiam melhor nos livros anteriores do autor, Os Criadores e Os Intelectuais.

O heroísmo não está livre de perigos. Cultuado pelos homens que comanda, freqüentemente o herói sofre a tentação ditatorial. Johnson alerta para essa tendência no exame de dois nomes da Antiguidade: o macedônio Alexandre e o romano Júlio César. Líderes militares de gênio e, para os parâmetros do período, governantes modernizadores, foram também rematados tiranos. A combinação de heroísmo e autoritarismo se daria, já no século XX, na figura do general francês Charles de Gaulle, líder que não convivia bem com a crítica e que, na presidência da França, processou opositores. Em contraste com o "monstro heróico" que teria sido De Gaulle, Johnson, orgulhoso inglês, apresenta Winston Churchill, "o arquétipo do herói do século XX". Como César, autor de um livro sobre a Guerra da Gália, Churchill deixou ele mesmo sua versão dos eventos que protagonizou em suas memórias da II Guerra Mundial. Mas, ao contrário do romano, Churchill não amava o poder sobre todas as coisas. Era um fiel súdito da democracia – quando os eleitores não o desejaram mais na cadeira de primeiro-ministro, em 1945, ele deixou o cargo sem ressentimento.

Johnson tem um pendor por líderes pragmáticos, que se guiavam mais pela exigência dos fatos do que por preconceitos ideológicos. Ele reconhece essa qualidade em Elizabeth I, rainha da Inglaterra de 1558 a 1603. Embora seu reinado seja muito lembrado pela vitória contra a Armada espanhola, o grande mérito de Elizabeth foi ter sempre que possível evitado a guerra, permitindo uma época de inédita prosperidade aos seus súditos. "Elizabeth julgava melhor não tomar decisão alguma do que tomar a errada", diz Johnson. Outro líder pragmático destacado em Os Heróis é Abraham Lincoln, presidente americano durante a Guerra da Secessão, conflito civil que rasgou o país ao meio. Lincoln parecia sofrer do que um psiquiatra diagnosticaria como depressão, tendência que contrabalançou com um senso prático e um desejo permanente de mudar as situações injustas – como a escravidão – dentro do império da lei.

Jockel Finck/AP

Entre a santidade e o heroísmo
Incansável na defesa da fé, o papa polonês João Paulo II foi um dos líderes mundiais que contribuíram para derrubar o comunismo

O último capítulo de Os Heróis é dedicado à "trindade que derrotou o urso" (isto é, que derrubou o comunismo): o presidente americano Ronald Reagan, a primeira-ministra inglesa Margaret Thatcher e o papa João Paulo II. Johnson não se detém muito sobre os desdobramentos políticos e econômicos da fase final da Guerra Fria. Prefere examinar a personalidade dos seus três heróis. Parece sugerir que a mise-en-scène – o figurino e o cabelo alinhados de Thatcher, as piadas de Reagan, os modos simples de João Paulo II – foi tão importante quanto a estratégia política. A admiração de Johnson pelos três personagens chega quase à tietagem, pontuada, no entanto, por observações agudas sobre os defeitos pessoais dos retratados: a voz estridente de Thatcher, a ignorância cultural de Reagan. João Paulo II é o único tratado com absoluta reverência: o papa que ajudou a derrotar o comunismo na sua Polônia natal e nos outros países do Leste Europeu estaria, diz Johnson, na fronteira entre o heroísmo e a santidade.

Os Heróis contempla apenas personagens admirados pelo autor, mesmo que com alguma reticência, como no caso de De Gaulle. O heroísmo, porém, é relativo. Johnson lembra que, "durante toda a história, o herói de um é o vilão de outro" (e o próprio historiador, em um parágrafo infeliz, inclui o ditador chileno Augusto Pinochet no seu panteão pessoal de heróis). Talvez tenha faltado um capítulo ao livro: um exame dos ditadores, assassinos e bandidos que, em seu tempo e lugar, ganharam status de heróis. Seria talvez inapropriado incluir Hitler, Mao Tsé-tung e Che Guevara em um livro que canta a glória de indivíduos exemplares. Mas, por contraste, a grandeza de homens como Lincoln e Churchill sairia ainda mais destacada.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

José Dirceu- Finalmente, a admissão dos crimes petistas. Mais: esquema PT é igual a esquema PC

José Dirceu 1 - Finalmente, a admissão dos crimes petistas. Mais: esquema PT é igual a esquema PC

Não li ainda, por motivos óbvios, a entrevista do deputado cassado e consultor de empresas José Dirceu concedida à revista Piauí de janeiro, que chegou hoje às bancas. Sei o que me contam os leitores e o que se publicou a respeito. A repórter Daniela Pinheiro acompanhou Dirceu por seis dias e três países. E o homem soltou o verbo. Sendo quem é, mandou recados. Resta saber para quem e por quê.

Dirceu, a gente sabe, orgulha-se de seu realismo, não é? Lembro-me do esforço que Franklin Martins fazia, quando era apenas um jornalista civil, para dizer que não havia provas da existência do mensalão no PT. Huuummm. Leia o que disse o ex-ministro-chefe da Casa Civil e vejam se isso não se parece com uma confissão: “Esse pessoal [ele está falando dos petistas] é assim. Chegava para o Delúbio e falava: ‘Delúbio, preciso de 1 milhão’. Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra? Aí, quando não recebiam o dinheiro, diziam que estavam sendo preteridos porque eram de uma outra corrente, de uma outra ala, que a direção era autoritária. O pobre do Delúbio tinha que ir aos empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão, e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles.”

E Delúbio? Terá caído em desgraça? Nada disso. Ele ainda é homem de confiança da turma, daí que tenha arcado com tudo sozinho, sem jamais roer a corda. Ele é funcionário do Moderno Príncipe, do ente de razão que governa o Brasil. Segundo a reportagem da Piauí, Dirceu se encontra semanalmente com o agora deputado Antonio Palocci (SP). Dias antes da entrevista, quem participou do bate-papo? Justamente Delúbio. Todos eles jantaram na casa do deputado João Paulo Cunha (SP), outro mensaleiro petista.

Mas vocês não devem deixar escapar o detalhe: “O POBRE DO DELÚBIO TINHA QUE IR AOS EMPRESÁRIOS CONSEGUIR DOAÇÕES.” Doações??? Por que alguém doaria dinheiro ao partido? Ora, só o faz quem espera compensações, não é? ATENÇÃO: COLLOR CAIU QUANDO SE DEMONSTROU QUE EMPRESÁRIOS DOAVAM DINHEIRO AO ESQUEMA PC EM TROCA DE COMPENSAÇÕES. Não há escapatória: Dirceu está dizendo que o mesmo esquema funcionou – funciona ainda? – no petismo. Até porque as “doações”, evidentemente, eram ilegais e devidamente sonegadas.

Mas ele foi além: afirmou que a sede do PT gaúcho foi construída só com “dinheiro de caixa dois”, com “mala de dinheiro”. O governador, à época, era Olívio Dutra. Muito solidário, afirma Dirceu: “A gente estava com eles, não os abandonamos em nenhum minuto". Ouvido a respeito, o ex-governador disse estranhar a afirmação, já que a tal sede não foi “construída”, mas “comprada”. O homem é mesmo um formalista, não é? O centro da informação não está na compra ou na construção, mas no caixa dois. Não sei se vocês se lembram: o governo de Olívio Dutra foi marcado pelo escândalo do jogo do bicho.

Heloísa Helena
A presidente nacional do PSOL, Heloísa Helena, não escapou. Segundo Dirceu, ela realmente votou contra a cassação do ex-senador Luiz Estevão (DF): "Votou mesmo e por motivos impublicáveis. Mas nunca a deixamos sozinha, defendemos o tempo todo, mesmo sabendo que a história era diferente. Depois, olha o que fazem.” A ex-senadora já avisou que vai processá-lo. Ah, bem, que se esclareça: ela própria já comentou a insinuação de que tivesse um caso com Estevão. Chegou a dizer que não dormia com “homem rico e ordinário” e que “vomitava em cima”. Ele respondeu (leia abaixo).

Sigamos ainda com José Dirceu. Escreve a Piauí sobre a sua atuação profissional: “Tem uma carteira de quinze bons clientes, a maioria deles estrangeiros, aos quais presta consultoria. Os brasileiros lhe pagam entre 20 e 30 mil reais. Deu como exemplo de cliente de peso o banco Azteca, do empresário mexicano Ricardo Salinas, que quer se estabelecer no Brasil (...). Outro cliente é o também mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, que planeja implantar no Brasil a televisão a cabo com mensalidade de 40 reais. 'Mas não sou consultor dele no Brasil', disse. 'Como defendo coisas contrárias ao interesse dele aqui, temos um acerto informal de buscar negócios em outros países da América Latina'."

O modo Dirceu
Quero chamar a atenção para um aspecto notável da entrevista de Dirceu: observem que, em três momentos, ele fala de fidelidade: 1) os petistas buscavam dinheiro com Delúbio e depois se fizeram de escandalizados; 2) o PT nacional apoiou o PT gaúcho no momento das denúncias; 3) o partido apoiou Heloísa Helena, embora, segundo o ex-deputado, ela realmente tenha votado contra a cassação de Luiz Estevão. Dirceu tem uma noção de fidelidade que lembra muito a máfia italiana: o partido oferece proteção aos seus, pouco importa o que façam, mas exige reciprocidade. Tem de funcionar como ordem unida, ou os que dissentem recebem o beijo da morte.

Preciso ler a entrevista no detalhe para tentar interpretar os recados, mas o que se tem até aqui é a clara e inequívoca confissão de alguns crimes, não é? Mais: Dirceu fala como quem soubesse dos métodos a que recorria Delúbio Soares, mais do que nunca, vê-se agora, uma prática autorizada pelo partido. E, se era assim, resta evidente que o chefão de todos, Luiz Inácio Lula da Silva, sempre soube de tudo.

“Imprensa golpista”
Dirceu, evidentemente, não tem competência para absolver ou condenar o jornalismo que se pratica no Brasil. Mas os tontons-macoutes petralhas que acusam a mídia de ser “golpista” e de perseguir os moralistas do PT estão recebendo a confirmação do Grande Chefe Vermelho: era tudo verdade.

José Dirceu ataca Heloísa Helena, Garibali, Jefferson, etc...

Novos extratos da reportagem de 12 páginas publicadas pela revista Piaui sobre o ex-ministro José Dirceu:

* “Ela [a ex-senadora Heloísa Helena, presidente do PSOL] votou contra a cassação do [senador] Luiz Estevão. Votou mesmo, e por motivos impublicáveis. Mas nunca a deixamos sozinha.”

* "É um gaiato [Garibaldo Alves, atual presidente do Senado]. Já trocou o guarda-roupa e deve estar arrumando os dentes, e isso vai dar um trabalho danado”. “Esse Garibaldi tem duas rádios. E fica por isso mesmo.”

* [O senador Jefferson Péres (PDT-AM)] "fica aí posando de arauto da moralidade e a mulher trabalha no gabinete dele. É nepotismo.”

Dirceu tratou ainda da eleição de 2010. Admitiu que as ministras Dilma Rousseff (Casa Civil) e Marta Suplicy (Turismo) têm poucas chances de vitória. “Se eu ainda tivesse a petulância de me candidatar à Presidência, era capaz até de ser eleito.” Leia mais aqui

Caixa 2 pagou sede do PT gaúcho, diz Zé Dirceu

Trechos da reportagem de 12 páginas de Daniela Pinheiro sobre o ex-ministro José Dirceu publicada na edição da revista Piaui que chegou hoje às bancas no Rio e em São Paulo:

* "Disse que a construção da sede do PT, em Porto Alegre, 'foi feita só com dinheiro de caixa dois. Era com mala de dinheiro'. Lembrou que quando foi feita a denúncia, que atingia em cheio o governo de Olívio Dutra, 'a gente estava com eles, não os abandonamos em nenhum minuto'.

* Sobre as críticas de outras correntes do PT em relação ao mensalão: 'Esse pessoal é assim. Chegava para o Delúbio e falava: 'Delúbio, preciso de 1 milhão'. Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra?', disse, referindo-se ao ex-tesoureiro do partido sob a acusação de ter montado o esquema irregular de financiamento de campanha. 'Aí, quando não recebiam o dinheiro, diziam que estavam sendo preteridos porque eram de uma outra corrente, de uma outra ala, que a direção era autoritária. O pobre do Delúbio tinha que ir aos empresários conseguir doações. Aí, estoura o mensalão e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles'.

* [Zé Dirceu] tem uma carteira de quinze bons clientes, a maioria deles estrangeiros, aos quais presta consultoria. Os brasileiros lhe pagam entre 20 e 30 mil reais. Deu como exemplo de cliente de peso o banco Azteca, do empresário mexicano Ricardo Salinas, que quer se estabelecer no Brasil (...). Outro cliente é o também mexicano Carlos Slim, o homem mais rico do mundo, que planeja implantar no Brasil a televisão a cabo com mensalidade de 40 reais. 'Mas não sou consultor dele no Brasil', disse. 'Como defendo coisas contrárias ao interesse dele aqui, temos um acerto informal de buscar negócios em outros países da América Latina'."

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