O relógio toca - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 06/05/11
A onda jovem está passando e ainda não decidimos questões fundamentais. Onda jovem é como demógrafos e especialistas em população chamam o momento em que a faixa etária que predomina está na juventude. Entre 2000 e 2010, diminuiu em números absolutos o total de brasileiros com até 19 anos. Abaixo de 14 anos, há cinco milhões a menos.
- Até 2000, o Brasil tinha 50 milhões de pessoas de até 14 anos, agora, são 45 milhões - conta Eduardo Nunes, presidente do IBGE.
O censo, divulgado na semana passada, é resultado de uma extraordinária operação logística em que, segundo Nunes, o tempo voou, mas foi possível recensear sessenta e sete milhões de domicílios. Primeiro, foi preciso contratar 30 mil supervisores, que cadastraram todos os domicílios em área urbana sem entrar nas casas. Depois do cadastro feito, 191 mil recenseadores visitaram quase todas as residências. Muita gente reclama que sua casa não foi visitada. Eu aproveitei a conversa com ele na Globonews para perguntar sobre isso. Ele admite que em quase 900 mil não foi possível entrevistar ninguém e foi feita uma simulação. Nas outras residências só uma pessoa foi entrevistada. Ele mesmo não respondeu ao censo, porque estava no IBGE na hora da visita.
Agora começa o trabalho dos pesquisadores que vão se debruçar sobre esses dados. Como disse no programa de ontem a demógrafa Ana Amélia Camarano, do Ipea, citando uma colega neo-zelandesa:
- O IBGE contou a população, agora é a hora da sociedade e o Estado fazerem com que essas pessoas contem.
Os dados confirmaram que os brasileiros estão vivendo mais, e tem nascido cada vez menos crianças. Por isso, houve uma queda percentual de todas as faixas etárias até 25 anos. E até em números absolutos. O país tem hoje menos pessoas abaixo de 19 anos do que tinha na última contagem. Em compensação, dobrou em números absolutos o total de pessoas com mais de 60 anos, em 20 anos.
Os dados permitem projeções. E elas podem ser bem diferentes dependendo das premissas. O IBGE calcula que o número de brasileiros vai continuar aumentando até 2050 e, no auge, o Brasil terá de 240 milhões a 250 milhões. Já Ana Amélia, do Ipea, calcula que esse auge vai acontecer entre 2030 e 2035, e que o total de brasileiros não deve passar de 207 milhões.
De qualquer maneira, os pesquisadores vão agora analisar todos esses dados nos trabalhos de investigação a respeito do que eles informam sobre as políticas públicas. O passado já se sabe.
- O auge do crescimento populacional foi nas décadas de 50 e 60. Essas crianças que nasceram, quando a taxa era alta, cresceram e tiveram seus filhos, portanto, a taxa de crescimento ficou alta por algum tempo. A geração que nasceu naquela época chegou ao mercado de trabalho quando o Brasil crescia muito e criava oportunidades de absorção da mão de obra; o que não se deu com a segunda geração que entrava no mercado nos anos 80 e 90. Essa primeira geração agora está envelhecendo. A proporção de pessoas com mais de 60 anos, mais do que dobrou em 20 anos, ainda que proporcionalmente seja pequena - disse Eduardo Nunes:
- A geração que nasceu quando a taxa de fecundidade era elevada agora está envelhecendo e chegando aos 60 a 65 anos. E se beneficiou da redução da mortalidade em todas as idades, é beneficiária do avanço tecnológico e da ciência médica. Uma família hoje tem mais gerações convivendo, mas tem menos filhos e menos sobrinhos. No futuro, teremos uma população mais envelhecida porque está nascendo menos gente, mas está sobrevivendo mais gente lá na ponta pelo aumento da expectativa de vida. Teremos uma população como o Japão de hoje: um superenvelhecimento - completou Ana Amélia.
É hora, eles avisam, de fazer o que não foi feito. O tempo está ficando mais curto, está passando nosso melhor momento. A tarefa mais urgente é a educação. O Brasil, como se sabe, tem baixo nível de escolaridade e a recuperação está sendo mais lenta do que seria prudente. De 10 a 14 anos, o Brasil tem quase 4% de analfabetismo. No Norte e Nordeste, chega a 7%. Se estamos encolhendo nessa faixa etária, mais do que nunca é fundamental educar os brasileiros jovens.
Eduardo Nunes contou uma notícia animadora. Ele disse que foi fácil contratar os 191 mil recenseadores. Que muitos trabalharam para ajudar a pagar seus estudos universitários. Num país que as empresas estão reclamando de apagão de talentos, ele disse que teve a experiência contrária:
- Eu tenho dúvidas sobre esse apagão, por experiência própria, porque contratamos 191 mil recenseadores e mais 30 mil supervisores. Acho que a falta de mão de obra é mais uma questão local do que nacional. Recrutamos pessoas inteligentes, extremamente bem preparadas, bem educadas, interessadas no trabalho e sem oportunidade.
Ana Amélia pondera que essa redução de cinco milhões de pessoas com até 14 anos mostra que no futuro haverá uma queda da oferta da força de trabalho:
- Em alguns setores já se sente falta de pessoas. Esses que têm hoje até 14 anos vão entrar no mercado daqui a 10 anos. A força de trabalho será mais envelhecida e terá cada vez menos jovens. E se está entrando menos gente, quem está lá tem que ficar mais tempo.
Os dados de outras pesquisas mostram que o desemprego é maior entre os mais jovens, e dentre eles é maior ainda entre as mulheres e os negros. Nos dois casos, as estatísticas mostram discriminação.
Um país que terá menos jovens tem que educar todos e não discriminar. O Brasil não pode se dar ao luxo de desperdiçar jovens. Precisa de todos. A onda está passando.
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