Entrevista:O Estado inteligente

domingo, dezembro 29, 2013

Incentivo à motosserra - MÍRIAM LEITÃO


O GLOBO - 29/12

O governo federal foi o culpado pelo aumento do desmatamento em 2013. A alta de 28% foi a primeira depois de 10 anos de queda da taxa anual de destruição. O governo incentivou o desmatamento ao reduzir os limites das unidades de conservação ou ao iniciar obras sem as medidas preventivas e de proteção necessárias. Além disso, 30% foram em assentamentos.

Aumentou muito o desmatamento especulativo, que ocorre porque os grileiros acham que terão chance de ganhar. Como eles têm que investir para ocupar áreas públicas e desmatar, quanto mais veem chance de sucesso, mais eles avançam - disse Beto Veríssimo, do Imazon.

Diante dos primeiros alertas do Imazon de que o desmatamento estava aumentando, o Ministério do Meio Ambiente negou e disse que eram apenas dados parciais. Garantiu que os números consolidados do sistema Prodes, no fim do ano, diriam o oposto.

Mas eles confirmaram o aumento. A ministra Izabella Teixeira disse, então, que isso era inaceitável, apontou o dedo para os estados e fez acusações vagas. Mas foi ela que falhou ao não alertar que o governo estava tomando decisões que levaram a isso.

O desmatamento aumentou no Oeste do Pará e no Sudeste da Amazônia. Houve desmatamento grande, de 2 mil hectares e até mais. No Pará, metade do que foi desmatado está ligada ao asfaltamento da BR-163 ou é perto de onde serão as hidrelétricas do Tapajós. Há uma nova onda de garimpo em algumas áreas. Não é como os anos 80, mas estão se multiplicando. Esse trio, transporte-hidrelétrica-garimpo, responde pela maior parte do desmatado - explicou Veríssimo.

Os assentamentos continuam sendo 30% do desmate. Eles derrubam a mata para fazer a agricultura de subsistência, mas há, segundo Beto Veríssimo, casos de derrubada da mata para alugar o pasto para o produtor maior. Ele acha que o governo precisa rever a política de assentamentos na região. Mas esse não foi o pior.

O governo cometeu um erro ao aceitar rever os limites de unidades de conservação, como a Floresta Nacional de Jamanxin. Além disso, por MP, o governo diminuiu a área das UCs próximas ao local das hidrelétricas do Tapajós. Isso aumentou o desmatamento especulativo, porque se o governo admite rever, ele está incentivando o avanço sobre a floresta pública para que essa redução da área protegida seja ainda maior - afirma o especialista.

Tem sido subestimado o desmatamento provocado por hidrelétricas. Em geral, o cálculo é feito apenas da área diretamente atingida pelas obras. Como não há mais grandes reservatórios, o governo diz que está sacrificando a eficiência do empreendimento, para reduzir o impacto ambiental. Mas o impacto é maior, e diluído no tempo, porque ao fim das obras os trabalhadores ficarão por lá. Além disso, esse movimento de reduzir os limites das unidades de conservação aumenta fortemente o incentivo ao desmatamento especulativo.

O preço da soja elevou o desmatamento que Beto Veríssimo chama de produtivo: - É aquele produtor de soja que faz um "puxadinho" na sua área produtiva: desmata mais para elevar a produção. Mas é o menos perigoso porque esse produtor está dentro da cadeia produtiva, pode ser pressionado pelos compradores, pelos financiadores e interromper o processo. O grileiro do desmatamento especulativo está fora de controle. O que ele produz é para a economia que está nas sombras, não há como a sociedade reprimir. Apenas o governo. A única solução é o enforcement (a imposição da lei).

O desmatamento feito durante o debate do Código Florestal, por causa da expectativa de relaxamento na lei, é fácil punir, na opinião de Veríssimo: - Basta verificar por satélite o que é desmatamento novo. Afinal, o Código estabeleceu a data de 2009. Qualquer desmatamento não aprovado desta data para cá é ilegal e tem que ser punido.

Quanto às obras em hidrelétricas e estradas, o que tem que ser feito, segundo ele, é fortalecer a proteção no entorno delas. O governo fez o oposto: reduziu a proteção e deu um sinal de fraqueza. Isso alimentou a especulação. O governo foi o responsável pelo que aconteceu este ano. E isso é absurdo. O país já tinha desenvolvido a tecnologia de reduzir o desmatamento e vinha diminuindo o número um pouco a cada ano. Retroceder depois de uma década é escandaloso.

E foi o que aconteceu em 2013.


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Milhagem infiel - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 29/12

Todos os anos, as tarifas das passagens aéreas disparam neste período de férias escolares e festas de fim de ano. Nem mesmo aqueles que juntam pontos nos programas de fidelidade, na esperança de trocá-los por bilhetes nas companhias aéreas, conseguem driblar a manobra: ora descobrem que as milhas acumuladas são insuficientes para o trecho desejado, ora que não há mais assentos disponíveis nos voos pretendidos.

As decepções vão se acumulando. Um mesmo trecho pode exigir até cinco vezes mais pontos em diferentes épocas do ano. O problema não é propriamente o aumento das tarifas das passagens aéreas em pontos de milhagens, mas a falta de transparência sobre os critérios utilizados pelas companhias aéreas. As norte-americanas American Airlines e United Airlines, por exemplo, pioneiras na adoção de programas de fidelidade, põem à disposição em seus sites tabelas com a pontuação necessária para a emissão de tíquetes, de acordo com a época do ano (alta e baixa temporadas).

Nenhuma das quatro principais companhias aéreas brasileiras adota procedimento semelhante. Seus dirigentes argumentam que a quantidade de pontos necessária depende não apenas do trecho e do dia da viagem, mas principalmente da antecedência com que a troca é realizada. Quanto mais próxima da data desejada e menos assentos livres restarem na aeronave, mais milhagem pode ser cobrada para a troca.

Marco Antônio Araújo Júnior, presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), adverte que "os programas de fidelidade constituem relação de serviço e os clientes são lesados quando há modificação unilateral dos pontos necessários para troca por passagens. O correto seria estabelecer um padrão com relação ao período do ano e a antecedência da troca".

O advogado Flávio Siqueira Júnior, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), observa que as empresas podem mudar as regras dos sistemas de milhagem a qualquer tempo, desde que o cliente seja informado de forma "clara, adequada e ostensiva", conforme reza o Código de Defesa do Consumidor (CDC). "O que ocorre é que o cliente tem direito à disponibilidade dos pontos e das passagens, mas não consegue usufruir do benefício", diz.

Siqueira Júnior acrescenta que as companhias aéreas precisam informar com destaque quaisquer cláusulas que restrinjam os direitos dos consumidores, como as que se referem à limitação de vagas e assentos disponíveis para milhas ou à validade dos pontos adquiridos.

Grande parte das companhias aéreas nos Estados Unidos, por exemplo, estabelece prazo de validade de 18 meses para os pontos adquiridos nos sistemas de fidelidade, mas os créditos são renovados sempre que há atividade no programa, como compra de passagem ou milhas extras. No Brasil, os pontos da Smiles, sistema da Gol, expiram em 36 meses e na Multiplus, vinculada à TAM, em 24 meses, sem possibilidade de renovação.

Como foi comentado nesta Coluna em 22 de setembro, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), instituição reguladora do setor, lava as mãos, sob a alegação de que os programas de fidelidade configuram "pacto acessório" entre companhias aéreas e clientes. A opção que resta ao cidadão é recorrer aos órgãos de defesa do consumidor. Entre janeiro e novembro deste ano, o Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec), que integra Procons estaduais e municipais, registrou 8,4 mil reclamações relativas a companhias aéreas.

Enquanto isso, as detentoras de programas de fidelidade lucram sobre os pontos não resgatados - seja porque o cliente nunca consegue acumular milhas suficientes para a viagem desejada, seja porque, de tanto esperar pela oportunidade, os créditos expiram. No 3º trimestre de 2013, Multiplus e Smiles registraram, respectivamente, 19,1% e 15,2% de taxa breakage, quando os pontos não são resgatados

Mal na fita - MERVAL PEREIRA

A mais recente edição da revista "Foreign Affairs" traz duas análises que se combinam: os países que merecem a atenção dos investidores e aqueles que são os "eternos emergentes" e acabam não realizando as profecias que se fazem sobre eles. Infelizmente o Brasil, que já foi uma das estrelas daquele time de vencedores, passou a essa última categoria.
Entre as novas estrelas, a revista cita México, Coreia do Sul, Polônia, Turquia, Indonésia, Filipinas e países da região do Rio Meckong - Camboja, Laos, Vietnã (a antiga Indochina), Miamar e Tailândia. Há observações cautelosas, por exemplo, sobre a situação da Turquia, onde apontam o primeiro- ministro Erdogan como o responsável pela pujança, mas que também pode ajudar a desconstruir o país com sua tendência ao populismo.

Com relação a alguns desses países, como o México e as Filipinas, a revista cita como um dos pontos favoráveis "um líder político carismático" que entende a necessidade de reformas e tem capacidade de levá-las adiante. Mas Ruchir Sharma, chefe de Mercados Emergentes e de Macroeconomia Global da Morgan Stanley, adverte: esse tipo de líder costuma durar pouco nessas regiões.

Ele escreve artigo para essa edição da "Foreign Affairs" em que alinha os erros de previsão em relação à pujança dos países emergentes, especialmente os que formam o Brics - Brasil, Rússia,Índia, China e África do Sul -, classificado por ele de um acrônimo vistoso, mas sem sentido. Destaca que, por razões diferentes, os países do Brics estão tendo dificuldades, o que mostra que foi um erro tratá-los como um pacote sem rosto, esquecendo as histórias próprias de cada um apenas para justificar o acrônimo.

Os quatro países iniciais que formaram o Brics (tijolo em inglês) - a África do Sul entrou depois, aproveitando o S no idioma inglês - detêm 40% da população e do PIB mundiais, além de representarem 28% da massa terrestre do planeta. Mas, até agora, as discussões entre os Brics têm sido dominadas por temas que os dividem: a representação mais ampla dos países emergentes nas organizações estabelecidas depois da Segunda Guerra Mundial e a questão do protecionismo, especialmente na agricultura. São temas divisionistas, pois dois deles, China e Rússia, estão entrincheirados entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. E, no tema do protecionismo, a divisão ocorre em outras linhas, porque o Brasil busca apoio aos seus produtos agrícolas, e a China e a Índia têm o interesse de resguardar sua agricultura familiar.

Sharma cita como um dos principais erros das previsões acreditar que tendências registradas em determinado momento são permanentes "e que economias quentes continuarão quentes", sem levar em conta "a natureza cíclica" dos desenvolvimentos político e econômico". Ele atribui esse comportamento à "euforia" que tomou o lugar de um julgamento sólido". Sobre o Brasil, ele faz algumas observações. Primeiro, que assim como a Indonésia e a Rússia, o Brasil está se apagando graças à "gestão má ou complacente". Outro exemplo em que ele cita o Brasil é quando fala do equilíbrio das contas públicas que é necessário para garantir um crescimento homogêneo para o país: "O Brasil está gastando muito para construir um Estado de bem-estar social para um país com renda média de 11 mil dólares, enquanto a Coreia do Sul, que tem a renda média duas vezes maior que a do Brasil, está gastando muito pouco em programas sociais".

Ele cita também que a desigualdade na distribuição de rendas é muito maior do que deveria ser no Brasil e na África do Sul, enquanto está dentro da normalidade na Polônia e na Coreia do Sul, países incluídos entre aqueles que estão a merecer a atenção dos investidores internacionais.

Quanto a investimentos, ele cita a China como exemplo de uma política que aparentemente é vitoriosa, com cerca de 50% do PIB, mas que corre sério risco devido a obras inúteis, como grandes condomínios abandonados.

Já no Brasil e na Rússia, a falta de investimentos faz com que os serviços urbanos não funcionem, chegando ao cúmulo de, em São Paulo, devido aos constantes engarrafamentos, executivos dependerem de helicópteros para se locomoverem pela cidade.


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Do diário do coroa - JOÃO UBALDO RIBEIRO


O GLOBO - 29/12

Querido Diário,

Acabou o ano, o tempo passa cada vez mais depressa. Hoje vai aparecer ainda mais gente, lá no boteco. Já viraram tradição da casa os cumprimentos de fim de ano, bons desejos, muita paz, muita saúde, essas frescuras automáticas que todo mundo diz da boca para fora e em que ninguém presta atenção. Eu retribuo tudo o que me dizem, mas cada dia me exaspera mais a parte do “você está muito bem”. Só quem ouve essa conversa do “você está muito bem” é velho, ninguém diz isto a um jovem. É um saco, até porque muitos falam estas coisas somente para receber a retribuição e a gente tem de cumprir o ritual. Ôi, tudo bem, mas, cara, o tempo não passa para você, você está muito bem, em grande forma! Não, você é que está ótimo — e fica essa nênia ridícula de lá para cá, um bando de despencados caquéticos querendo engabelar o calendário, para mim é triste.

E também procuram empregar palavras mágicas, como se alguma palavra melhorasse a condição do velho ou de alguma maneira a homenageasse. Essas palavras e expressões são ofensivas, porque dão a entender que a velhice é uma condição tão vergonhosa que deve esconder-se por trás de eufemismos detestáveis. Idoso é a mãe, ancião é a mãe, vovozinho é a mãe, melhor idade, terceira idade, feliz idade, tudo isso é a mãe, não se discute. O certo é “velho”, no máximo “coroa”. Os que são contrários ao uso da palavra “velho” alegam que ela soa preconceituosa ou discriminatória. Mas é claro que soa, velhice é defeito. Ninguém diz em voz alta que é defeito, mas todo mundo acha que é. É semelhante ao que ocorre com “pobreza”. Pobreza também é defeito. Do contrário não se diria “pobre, porém honesto”. Por que o “porém”, por que a adversativa? Se ser pobre não fosse defeito, dir-se-ia “pobre e honesto”. Mas, claro, o que a frase afirma é que, apesar de pobre, o sujeito é honesto. “Velho” é a mesma coisa, gosta muito de ser seguido por uma adversativa, como, por exemplo, em “ele é velho, mas entende tudo o que a gente fala”.

Bem, o fato é que hoje deve aparecer no boteco um grande número de velhotes, de todos os estilos. Tem seu lado bom. Vamos reconhecer que a juventude impacienta um pouco os mais velhos e, como já se observou, conversar com jovem cansa muito, porque se tem que falar demais. Vão chegando os velhotes, todos invariavelmente cumprindo o ritual do “você está bem, você está muito bem”. Em seguida, a troca de novidades. Um tomou um porre de gim em agosto que o deixou torto até hoje, de maneira que não tem saído. Outro está usando fraldão, mas sai numa boa. Outros se foram definitivamente, ou estão com a partida mais ou menos marcada. Dois ficaram viúvos, três viajaram a Buenos Aires e seis deixaram de beber destilados. No mais, alguns relatórios de praxe, o animado cotejo de resultados de exames e remédios, papos acalorados sobre colesterol, triglicerídeos, PSA, glicose, antidepressivos, artrite, implantes dentários, pontes de safena, colonoscopia, esteatose hepática, função cognitiva, câncer de pele, ultrassonografia abdominal, cataratas, perda óssea, estatinas, próstata e o renomado exame da dedada. E, finalmente, todos professarão horror à ideia de ver os fogos do réveillon.

Quando eu era jovem, achava bonito ter nascido num primeiro de janeiro, começando a vida junto com o ano e fazendo aniversário num dia de festas e foguetes. Quem me viu, quem me vê, hoje é exatamente o contrário. E quanto mais velho fico, a sensação piora. Não gosto de confessar isto nem a meu diário, mas a verdade é que, todo dia 31 de dezembro, quando os fogos começam a estourar, eu acho que chegou minha hora, dali não passo. Já consultei até dois psiquiatras por causa dessa maluquice, mas o medo de estuporar no fim do ano não passou, só que agora eu tomo umas bolas que eles me receitaram e fico calmo. Cheguei a pensar em me encher dessas bolas e romper o ano dormindo, mas dormir achando que não vai acordar também não é uma boa, não tem jeito para minha situação.

Quem mais fez aniversário este ano? Às vezes parece que eu sou o único no boteco que fica mais velho. Bem, as mulheres mentem ou escondem. Nessa questão de idade, mulher não vale, elas diminuem a idade até para o IBGE. Mas os homens não ficam muito atrás. O Silveirinha nega a idade sem a menor dúvida, já o peguei em contradição mais de uma vez, ele não decorou direito o ano em que nasceu de mentirinha. O Afonso, o Geraldo e, com quase toda a certeza, o Mariano diminuem a idade. Para não falar no Macedinho, que não revela a idade, mas que todo mundo sabe que foi proeiro da arca de Noé. Um dia destes eu me aporrinho e corto uns dois anos também. Tenho mais cabelo que o Afonso, o Geraldo e o Silveirinha e a menor barriga da mesa.

Se fizer sol, vamos viver um começo de tarde animado, com as mulheres passando para a praia e a gente apreciando, na medida do possível. De modo geral, as damas despertam nostalgia e às vezes memórias talvez um tantinho fantasiosas. E há os rabugentos despeitados, como o Linhares e seu compadre Arnaldinho, que desdenham a mulher atual e proclamam a superioridade da mulher do tempo deles. Para eles, as mulheres daquele tempo eram melhores e não se barateavam, se exibindo e transando a torto e a direito, como as de hoje em dia. E os homens, claro, também eram melhores, não eram como esses meninões atuais, que vivem tomando anabolizantes e surfando, deixando o mulherio completamente desatendido. Eu fico assim olhando para o Linhares e o Arnaldinho falando besteira e sempre recordo o grande filósofo que disse que o verdadeiro mal da nova geração é que nós não pertencemos mais a ela. Bom domingo, querido Diário. Mais um, quantos mais ainda?

sábado, dezembro 28, 2013

Além dos caças - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 28/12

Eduardo Brick, especialista do Núcleo de Estudos de Defesa, Inovação, Capacitação e Competitividade Industrial da Universidade Federal Fluminense, em vez de comemorar ou criticar a compra dos novos caças Gripen suecos pela Aeronáutica, prefere uma visão pragmática e de longo prazo. Por mais paradoxal que a afirmação possa parecer, diz ele, essa decisão não será importante para a defesa do Brasil nos próximos 20 anos, e sim para daqui a 30 a 50 anos.

Nesse raciocínio, o país simplesmente não tem no momento recursos humanos, tecnológicos, industriais e financeiros para se opor a eventuais ameaças. Mas pode aproveitar a oportunidade para desenvolver sua Base Logística de Defesa (BLD). Esse, diz ele, pode ser um dos principais benefícios da escolha do Gripen - a ampliação da capacitação industrial e tecnológica não só da Embraer como de muitas empresas de sua cadeia produtiva em produtos cuja tecnologia o Brasil ainda não domina.

Portanto, Eduardo Brick acha que o planejamento de hoje deve visar, prioritariamente, a um horizonte mais longínquo, não importando se o Gripen não é uma das mais eficazes armas existentes hoje. O que importa é que essa aquisição pode ser um importante instrumento para o Brasil se capacitar para conceber e desenvolver aeronaves de combate amanhã.

Do ponto de vista de desenvolvimento econômico e social, a BLD, apesar de sua finalidade precípua não ser essa, ressalta Brick, é instrumento importantíssimo de política industrial, por vários motivos:

A) Atua no limiar do desenvolvimento tecnológico;

B) Políticas industriais de conteúdo nacional para defesa são necessárias por questões de garantia de suprimento de itens críticos (que são cerceados pelos países que detêm essas tecnologias) e não oneram a economia como um todo.

C) A capacitação industrial construída tem uso dual. Ele cita o exemplo da Embraer, que, após décadas procurando se capacitar com produtos de uso militar, conseguiu desenvolver jatos comerciais e ser importante ator no mercado internacional de produtos civis.

Para o especialista da Universidade Federal Fluminense, a defesa nacional na era pós-industrial depende de dois instrumentos fundamentais: as Forças Armadas (FFAA) e a Base Logística de Defesa (BLD) . A construção de qualquer uma delas é uma tarefa de décadas, mas a criação da BLD pode ser mais difícil devido à aceleração do desenvolvimento tecnológico, que causa obsolescência rápida de qualquer produto de defesa.

Portanto, diz Brick, não é sensato, nem financeiramente exequível, manter grandes estoques de produtos de defesa, exceto, evidentemente, se houver iminência de conflito, mas, sim, de capacidade industrial para inovar continuamente.

A Estratégia Nacional de Defesa define, muito apropriadamente, diz ele, que a construção e sustentação de uma BLD adequada às necessidades brasileiras são um dos seus eixos fundamentais. Não se pode esquecer, ressalta Eduardo Brick, que o Gripen é apenas um projeto de cerca de R$ 11 bilhões, em um programa de R$ 1 trilhão, valor estimado para o Plano de Articulação e Equipamentos de Defesa (Paed), em 20 anos.

Na sua avaliação, com a atual estrutura de governança da BLD brasileira, o país corre um sério risco de sofrer um apagão de gestão se o orçamento aumentar, e o Paed realmente deslanchar. Há nada menos que seis ministérios envolvidos, numa estrutura caótica .

No caso de recursos humanos, a necessidade monta a vários milhares de profissionais, principalmente engenheiros, altamente qualificados e experientes em definição de requisitos e especificações, teste e avaliação de sistemas, gestão de projetos complexos, negociação de contratos, entre outras coisas.

Inventores de guerras - DEMÉTRIO MAGNOLI


FOLHA DE SP - 28/12

A linguagem do 'conflito étnico' é arma eficiente no arsenal de elites políticas com interesses próprios


"Eu não acredito em conflito étnico! Os grupos que atuam no Congo agem como criminosos por interesses próprios de poder e dinheiro." Carlos Alberto dos Santos Cruz não é antropólogo, mas general. Contudo, a sentença do comandante brasileiro das forças de paz no leste do Congo, proferida dois meses atrás perante 15 embaixadores das potências do Conselho de Segurança da ONU num morro exposto ao sol escaldante, deveria ser inscrita, como um alerta, nos manuais universitários. Nela, encontra-se a chave para decifrar a violência não apenas no Congo, mas também no Sudão do Sul.

Segundo a narrativa convencional, o país é vítima de um conflito étnico entre os nuers, liderados pelo vice-presidente afastado Riek Machar, e os dinkas, representados pelo presidente Salva Kiir. Nessa forma de contar a tragédia, as noções de "tensão étnica" e "ódio étnico" emergem como dados da natureza: no fim das contas, imaginamos, as coisas são assim mesmo nesses lugares bárbaros... Ninguém registrou, entretanto, que os protagonistas principais do conflito --os dinkas-- foram inventados como etnia separada menos de um século atrás, pela engenharia social do colonialismo britânico.

Tudo começou como um equívoco de um explorador europeu que, incapaz de entender a língua local, tomou o nome de um dos chefes tribais por denominação genérica de um povo, reunindo clãs distintos na "etnia" dinka. Depois, na década de 1920, enquanto missionários cristianizavam os nativos, regulamentos da autoridade britânica organizaram o Sudão Meridional em distritos administrativos de base étnica. A política colonial tinha a finalidade de separar fisicamente a população islamizada do norte sudanês dos grupos agropastoralistas do sul, traçando um limite para a influência árabe-muçulmana no vale do Nilo. Nela, encontram-se as sementes das duas guerras civis sudanesas que devastaram o país durante meio século, até a secessão negociada do sul, em 2011.

Os dinkas passaram a agir como uma comunidade étnica na hora da independência sudanesa, em 1956, por oposição ao regime pró-egípcio instalado em Cartum, e continuaram a fazê-lo nas guerras civis subsequentes. Nesse curto intervalo histórico, inventaram-se tradições imemoriais, descreveu-se uma cultura étnica específica e cultivou-se a crença de que Deus atribuiu aos dinkas a missão de governar a porção meridional do Sudão. O conceito de "identidade étnica", estranho aos grupos que habitavam essa região do Nilo Branco no momento da colonização, converteu-se em ferramenta de coesão de uma elite que almeja controlar o aparelho estatal do Sudão do Sul.

Max Weber, que morreu em 1920, compartilhava o dogma de sua época sobre a existência de raças humanas. Contudo, não caiu no conto naturalista da etnicidade. Seu argumento era que a etnia origina-se da crença numa ascendência comum. Essa abordagem abriu-lhe a vereda para examinar as consequências de tal crença sobre as ações políticas individuais e coletivas. Mais tarde, sociólogos e antropólogos analisaram os processos de construção política da etnicidade em diferentes contextos sociais. O general Santos Cruz está certo: a linguagem do "conflito étnico" é uma arma eficiente no arsenal de elites políticas com "interesses próprios de poder e dinheiro".

O leste do Congo não é Ruanda, que não é o Sudão do Sul --e, evidentemente, nenhum desses lugares se parece com o Brasil. Mas deveríamos prestar maior atenção nesses conflitos distantes, aprendendo alguma coisa com a "pedagogia da etnia" que, aplicada ao longo de décadas, ensinou as lições da identidade, da diferença e do ódio aos dinkas, aos hutus e aos tutsis. Sob o influxo das políticas de raça, nossas universidades e escolas incorporaram a linguagem envenenada dos inventores de guerras. O MEC tem razão: precisamos olhar mais para a África.

Bondades só para alguns - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 28/12

Qualquer consumidor conhece as práticas de promoções falsas do comércio, os tais descontos correspondentes "à metade do dobro do preço", feitos para pegar trouxas.

Nos espetáculos culturais e esportivos acontece o inverso disso. A maioria das pessoas é obrigada a pagar mais pela ampla distribuição de meias-entradas.

A presidente Dilma sancionou na quinta-feira, 26, lei que assegura meia entrada em espetáculos, cinemas, e eventos esportivos para idosos, estudantes e jovens comprovadamente carentes entre 15 e 29 anos.

Os cinemas, casas de espetáculos e estádios de futebol estão obrigados no Brasil a deixar disponíveis 40% dos ingressos para os beneficiários com meia entrada. Nas grandes cidades, pessoas idosas podem circular de graça pelo metrô, pelos trens e pelos ônibus.

Como já foi comentado por esta Coluna em 13 de julho deste ano, não há nada de especialmente errado nessas práticas, desde que empregadas com a devida moderação.

Os descontos a estudantes cumprem, também, a função de criar hábitos de desfrute de cultura e de esportes e, desse ponto de vista, interessam também às empresas de espetáculos e aos clubes esportivos. Em outros países também há descontos de tarifas para idosos em museus e certos eventos culturais. Mas aparentemente, o Brasil é, de longe, o campeão da modalidade.

A distorção começa e se amplia na medida em que se dissemina na sociedade a ideia de que para tudo ou quase tudo podem ser obtidas vantagens ou condições privilegiadas. Esse estado de espírito, derivado de uma concepção patrimonialista de Estado (o governo garante tudo), descamba para deformações em inúmeras outras situações. É o caso dos sistemas previdenciários (INSS e esquemas para servidores) que antecipam aposentadorias ou concedem grande número de pensões vitalícias. Também acontece quando o empresário julga sempre ter direito a subsídios e a reservas de mercado, ou quando o político acha normal usar aviões ou helicópteros pagos pelo contribuinte para levar a família à praia. Mais recentemente, verificou-se que o rombo do seguro-desemprego, num ano de quase pleno emprego, alcançou o recorde de R$ 47 bilhões (no período de 12 meses) porque a legislação facilita.

Esses proveitos, legítimos ou não, criam novas distorções. Os subsídios não se limitam a produzir efeitos apenas para os diretamente beneficiados por eles. Quase sempre se desdobram em subsídios cruzados pouco transparentes ou, então, geram deformações no sistema de preços relativos e condições de competição desleal entre setores.

Como a aritmética é inexorável, alguém tem de pagar por essas bondades. Normalmente sobra para aqueles que não conseguem se livrar da fatura. E quando fica difícil descarregar a conta sobre determinados segmentos da população, as raposas do sistema sempre acabam por aumentar impostos.

A autorização para que tanta gente rode de graça pelas cidades é uma das razões pelas quais as tarifas de condução urbana são tão altas. Como a porcentagem de estudantes e de idosos deve crescer no Brasil nos próximos anos, será inevitável, também, que a carga para os que pagam (ou deixam de ter receita integral) tenda a aumentar.

Os políticos não gostam de mexer em vespeiros eleitorais. Por isso, também não tomam a iniciativa para acabar ou, pelo menos, limitar a distribuição de tantas boquinhas.

Bagunça nos preços de energia - ADRIANO PIRES

O GLOBO - 28/12

Os mais novos prejudicados pela política de mais intervencionismo e menos mercado são as empresas do setor petroquímico, que usam a nafta como importante insumo



Há mais de uma década, o Governo vem promovendo uma bagunça nos preços da energia, através de subsídios para alguns energéticos, sem que haja uma lógica econômica ou planejamento na escolha dos “eleitos”.

No campo dos combustíveis, o Governo parece ter optado por eleger “preferidos nacionais”, como a gasolina, o diesel, o óleo combustível e o GLP, que vêm ganhando uma artificial competitividade, sem se importar com os “perdedores” como o etanol, o bunker para navio, o gás natural e o querosene de aviação. O gás natural, que compete diretamente com o óleo combustível e o GLP, vem perdendo competitividade, uma vez que seu reajuste de preço é vinculado ao mercado internacional. Isso vem provocando estagnação do mercado, impedindo investimentos no aumento da oferta e na infraestrutura de gasodutos, justo num momento em que o mundo inicia a era de ouro do gás natural.

O etanol se tornou inviável como combustível veicular, com o fim da Cide e a defasagem do preço da gasolina em aproximadamente 15% com relação ao mercado internacional em 2013. O resultado é a redução de investimentos e fechamento de usinas. O desalinhamento de preços da energia cria soluções econômicas absurdas, como a substituição do transporte de cabotagem por rodoviário de caminhão, em função da perda de competitividade do bunker, em relação ao diesel. O setor de aviação, também, se sente um patinho feio e se questiona por que só o setor automobilístico se beneficia com a política de preços dos combustíveis.

Os mais novos prejudicados pela política de mais intervencionismo e menos mercado são as empresas do setor petroquímico, que usam a nafta como importante insumo. Como a Petrobras vem enfrentando perdas no caixa para manter o diesel, a gasolina e o óleo combustível com preços artificialmente baixos, a estatal pretende incorporar os custos de importação da nafta, o que pode acarretar uma elevação de até 5% no preço do insumo.

O resultado desse intervencionismo nos preços da energia são devastadores para as empresas. No setor elétrico, a Eletrobras, ao aceitar a redução das tarifas, no processo de renovação de suas concessões, se descapitalizou, comprometendo a viabilidade financeira das suas coligadas como Furnas e Chesf. No resultado acumulado entre janeiro e setembro de 2013, o prejuízo é de R$ 787 milhões, que se compara a um lucro de R$ 3,62 bilhões registrado no mesmo período de 2012. A Petrobras passa por um verdadeiro calvário, caixa reduzido pela política de preços, endividamento crescente, queda brutal no valor de suas ações e tendo pela frente um ambicioso Plano de Negócios da ordem de US$ 240 bilhões para os próximos cinco anos. Tudo isso já causa preocupações em relação ao cumprimento de suas metas de produção de petróleo.

Os efeitos de longo prazo do abandono da racionalidade econômica em relação à política de preços da energia provocarão grande impacto no comportamento da economia brasileira nos próximos anos. Isso porque o sinal econômico dado por essa política populista e intervencionista leva as empresas a fazerem investimentos em tecnologias que consomem as energias, cujos preços são subsidiados. O resultado é um país que incentiva o transporte individual em detrimento do coletivo, é um país que beneficia as energias sujas e não as limpas, é um país rico em energia e que transforma esse insumo num fator de perda de competitividade para a indústria e promove apagões.

O ano dos espantos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 28/12
E papa renuncia? A pergunta feita por Érica, a arrumadeira, foi o grande momento de espanto do ano. Ele mostrou aos jornalistas que fazer plantão é preciso e que o inesperado sempre acontece, inclusive o improvável em hora imprópria. Segunda-feira de carnaval só tem carnaval, correto? Não. Foi o que o ano de 2013 e a renúncia de Bento XVI provaram.

Depois de vários dias mergulhada no mato, tentando entender o mundo Awá e as ameaças vividas pelos índios no Maranhão, peguei a estrada de volta. Na aldeia, a comunicação era difícil, quase impossível.

Foi assim que cheguei a Zé Doca sem saber de nada do que se passava no Brasil. Era junho. Paramos para comer, e as cenas de guerra de rua convocaram todos para perto da televisão. Repórteres apanhando foi a primeira cena que vimos. E o jornalista falava: no quarto dia de manifestações...

Quarto? Só alguns dias na floresta e já se perde o fio da meada deste país. Consegui acessar as mensagens e a do Alvaro Gribel era seca: "Volte." Voltei já escrevendo no caminho, "Melhor ouvi-los", sugeri. O fenômeno está até hoje não inteiramente entendido. Junho foi o mais complexo dos meses. Houve cenas novas no país do futebol: dentro do Maracanã, o Brasil ganhava a Copa das Confederações; fora do Maracanã, a população enfrentava a polícia em protestos eloquentes.

Não dá para imaginar 2013 sem as manifestações de junho. Houve revelações importantes: a população é capaz de se mobilizar, parecemos com os outros países, a polícia passou mal no teste, houve excessos, a imprensa precisa entender melhor como cobrir esses eventos, os jornalistas viraram duplo alvo, a resposta do governo foi pífia. Num primeiro momento, congelamento de tarifas de transportes. Num segundo momento, a presidente Dilma propôs cinco pactos, que foram, noves fora, zero.

Em pleno feriado de 15 de novembro, outro ineditismo. Era evento já esperado, mas muita gente duvidava que poderosos pudessem ir para a prisão. Choro, ranger de dentes contra o STF e braços levantados não mudaram o fato de que o Brasil passou a pôr na cadeia, por corrupção, condestáveis do grupo que está no poder.

"O novo papa é argentino", dizia o torpedo que recebi a caminho do trabalho. E o Brasil adorou. Brasil e mundo, católicos ou não, foram gostando cada vez mais do Papa Francisco. Ele é pop, surpreende, dá entrevista, admite fraquezas, virou a pessoa do ano da "Time" e personalidade de 2013 mundo afora.

Mandela estava no fim, já se sabia, mas o aperto de mão entre Obama e Raul Castro foi surpresa. Que os EUA espionam todo mundo a gente já sabia, mas bisbilhotar assuntos privados de Dilma e Merkel em nome "de um mundo mais seguro" é bem estranho. Edward Snowden, e seus arquivos vazados em Hong Kong, a caminho de Moscou, para um jornalista americano morador da Gávea, no Rio, foi espanto e tanto.

Um diplomata rebelar-se, pegar seu asilado esquecido na embaixada, embarcá-lo numa longa viagem Bolívia adentro e aparecer no Brasil não é coisa que se espere.

A queda de Eike Batista não surpreendeu quem via com atenção sua maneira de inflar o valor dos ativos, mas o tamanho do tombo pegou muita gente de surpresa. O governo finge espanto, mas colocou dinheiro no grupo quando plataformas e navios já afundavam.

Política é sempre a mesmice, mas a novidade foi o movimento da Marina. Batida pela não aprovação do seu partido, ela conseguiu a atenção da imprensa quando fez o movimento de abrigar-se no partido de Eduardo Campos.

De uma profissão que vive do novo e do inesperado, os jornalistas terminam o ano exaustos, mas sem motivos de queixa. Houve muita matéria-prima em 2013.

O ano que não terminou - MARCO AURÉLIO NOGUEIRA


O ESTADO DE S. PAULO - 28/12
Um ano como 2013, que conheceu protestos do porte dos de junho, não poderia terminar como começou. Não poderia, mas à primeira vista foi o que ocorreu.
As ruas de junho falaram muitas coisas. Suas vozes verbalizaram uma insatisfação que não se imaginava presente no País, cantado em verso e prosa como em franco processo de expansão da renda e do consumo, dando passos de gigante para a frente e prestes a se tomar um dos grandes do mundo. Potencializadas pelas redes sociais, turbinadas pela violência policial e pegando todos de surpresa, as vozes fizeram-se ouvir. Os prefeitos das capitais cancelaram os aumentos da tarifa do transporte urbano, um dos estopins da mobilização. A presidente convocou cadeia de rádio e TV, disse "estou ouvindo vocês" e acenou com cinco pactos políticos para começar a responder às mas. O gesto inteligente revelou iniciativa, mas pouco produziu de concreto. Dele sobrou somente o Programa Mais Médicos, que se ajustou bem ao cenário nacional e ajudou o govemo federal a recuperar parte da popularidade perdida. O programa que poderia ter sido o carro-chefe da recuperação do SUS, porém, ficou no meio do caminho. Queimou-se uma oportunidade. É fácil criticar os governos e constatar que eles não souberam reagir às mas de junho. Mas os governos, que têm seus défícits próprios - técnicos, políticos, operacionais são estruturas integradas ao sistema político, dependentes dele, não tendo como ser muito melhores do que ele. E no Brasil o sistema é ruim demais. Falta-lhe quase tudo o que se espera de um organismo que existe para funcionar como esteio da democracia política e ponte pela qual trafeguem e sejam processadas as demandas e aspirações populares.

O sistema prejudica os governos, bloqueando eventuais predisposições que gestores possam ter de abrir canais de negociação com a sociedade.

O padrão, o volume e a forma de expressão das demandas também determinam a qualidade das respostas governamentais. Houve um pouco de tudo nas ruas de junho, mas não houve quem dispusesse as diferentes reivindicações numa agenda que pudesse ser traduzida politicamente e determinasse as ações governamentais. O próprio movimento das ruas não mostrou particular capacidade ou interesse de dialogar com o poder: denunciou o que não está bom, mas não indicou caminhos para mudar. Teve caráter mais explosivo e espasmódico do que construtivo. A velocidade e a expressividade foram sua marca, não a paciência ou a "guerra de posição". Ao depararem com um muro de silêncio no Estado, os protestos dispersaram-se e o que sobrou acabou por se confundir com escaramuças mais agressivas e violentas.

O ano de 2013 mostrou que as relações entre o Estado (governos e sistemapoiítico), o mercado e a sociedade civil estão carentes de encaixe e de coordenação.

O poder de agenda de cada um desses polos é desigual: sobra no mercado, falta no Estado e na sociedade civil. Há mais competição e luta pela vida que poljtica. Não espantaque tudopareça solto, sem rumo, fora de controle.

Passado o primeiro choque, o sistema político recompôs-se e o País submergiu no ritmo irritante de antes. Mostrou-se perigosamente indiferente às ruas, como se estivesse a alimentá-las e a pedir que voltem a agir.

No chão da vida, 2013 continuará pulsando, a invadir 2014 com questões não resolvidas. Não dialogou com elas, não decodificou seus sinais, não demonstrou nenhuma capacidade de iniciativa e interação. Deu-se o mesmo com os governos. O mundo institucional permaneceu fechado ao mundo social.

Os motivos, as pulsões e as circunstâncias que levaram milhões de brasileiros às ruas em junho permanecem intocados. Na ausência de respostas do sistema político, de providências governamentais e de ganhos organizacionais dos próprios manifestantes, as ruas refluíram e hibernaram. Mostraram sua juventude, sua forma política surpreendente, seuativismo midiá-tico que se vale de redes sociais e celulares. Não encontraram pontes e braços que as projetassem para o centro do Estado, porque os que estão no Estado não conseguem sentir as ruas e quem está nas ruas não acredita que o Estado esteja interessado em ouvir ou dialogar. As ruas hibernaram, mas permanecem vivas, em condições de mobilização latente, fiéis ao mix de hipermodemidade, injustiça e caos que as qualifica.

Por isso, quando saímos da primeira percepção, constatamos que 2013 não terminou do mesmo modo: foi contagiado pelos protestos de junho, ainda que o sistema político não se tenha dado conta disso. O ano, a rigor, não terminou, pois aquilo que o distinguiu fez com que ele se projetasse, invadisse e condicionasse o ano novo, transferindo para ele um bom lote de questões não resolvidas.

É ilusório achar que a bonança prevalecerá depois da inesperada tempestade. A insatisfação de parte expressiva da população mistura-se hoje com a resignação tradicional e com um encantamento submisso ao poder do Estado. A combinação dessas três vertentes político-culturais - a insatisfação, a resignação, o encantamento - é nitroglicerina pura. Desaguará de algum modo nas eleições de 2014.

Isso não quer dizer que as urnas do próximo ano beneficiarão as oposições. Antes de tudo, as oposiçôes seduzem pouco, não inspiram confiança, não sugerem um futuro diferente. No meio delas, porém, há dinâmicas de novo tipo, que poderão cumprir importantes funções de oxigenação e democratização. Uma eventual vitória situacionista não será mero prolongamento da situação atual. A conservação das posições políticas não significa estagnação política, especialmente se se levar em conta a alta taxa de problemas do País e tudo o que nele se mexe.

O ano que desponta trará consigo novas oportunidades para que se recomponham as relações entre Estado e sociedade. 2013 está prestes a acabar, mas não a terminar, a não ser no calendário. No chão da vida, continuará pulsando, a invadir 2014

Bom ano-novo para todos.

CLAUDIO HUMBERTO


“O prazo é desafiador, mas dá segurança da melhoria da rodovia”
Ministro Cesar Borges (Transportes) e os 5 anos para duplicar a BR-040 privatizada


LEILÕES SÓ SAÍRAM DEPOIS DE RETIRADOS DE GLEISI

Era a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) que travava os leilões de concessão de aeroportos e rodovias. Somente depois que a presidente Dilma tirou dela a coordenação do programa é que saíram os leilões de privatização de aeroportos e estradas, como a BR-040, leiloada ontem. Por não entender o programa, nem ter tempo para estudá-lo, como dois ministros confirmaram à coluna, ela simplesmente o engavetava.

DESCOBERTA TARDIA

Dilma só descobriu que Gleisi atrapalhava os leilões com a saída de Bernardo Figueiredo da Empresa de Planejamento e Logística (EPL).

INCAPACIDADE

Bernardo Figueiredo se demitiu da EPL, criada para ele, porque já não suportava embates com Gleisi Hoffmann, pela incapacidade da ministra de entender o tema.

ARREPENDIMENTO

Agora que a privatização avançou e Gleisi sairá do cargo para disputar as eleições, Figueiredo está louco para voltar à EPL, dizem os amigos.

FERROVIAS

A expectativa é de que em 2014 deslanchem os leilões para a concessão de ferrovias, também atrapalhados pela ministra da Casa Civil.

SUPERAVIT DEBOCHA DAS VÍTIMAS DE ENCHENTES

O secretário do Tesouro, Arno Augustin, parecia estar debochando ao celebrar ontem o “superavit histórico” de R$ 28,8 bilhões em novembro, enquanto capixabas e mineiros contam seus mortos, casas destruídas, vidas despedaçadas, em tragédias que teriam sido evitadas ou minimizadas não fosse a recusa do governo, em nome do “superavit”, de liberar recursos para obras de prevenção contra desastres naturais.

VERGONHA

A execução orçamentária mostra que o governo Dilma liberou para o Espírito Santo, em 2013, somente 0,41% das verbas de prevenção.

QUEM MANDA

Ex-colega de Dilma no governo de Olívio Dutra, de má memória, no Rio Grande do Sul, Arno Augustin é tido como ministro de fato da Fazenda.

OBTUSIDADE CÓRNEA

Tecnocrata obtuso, que demoniza o lucro, Augustin não se acanha de celebrar superavit do setor público, mesmo às custas de seres humanos.

NOVOS ‘PORQUINHOS’

Os presidentes do PT, Rui Falcão, e do PMDB, Valdir Raupp (RO) deverão integrar o núcleo duro de campanha da presidente Dilma Rousseff. O ministro Aloizio Mercadante (Educação) também é cotado.

FUNDO DO POÇO

Mineração ilegal é a “nova cocaína” na Colômbia, Equador, Venezuela, Bolívia e Peru, onde fatura 15% mais que o tráfico, diz o jornal El Mercurio, do Chile. As Farc colombianas comandam a troca por armas.

ALGUÉM EXPLICA

Com 11 milhões de seguidores no Twitter, o papa Francisco não faz sucesso na Alemanha de Bento XVI. Com 163 mil fiéis, o perfil em alemão fica bem atrás do perfil em latim. A língua morta tem 195 mil.

BUSCA DE SOLUÇÃO

O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) e o governador de MS, André Puccinelli (PMDB), se reúnem dia 7, para tratar da compra da Terra Buriti, símbolo do conflito de índios e fazendeiros.

RENÚNCIA À VISTA

Em meio a processo de cassação por quebra de decoro, Natan Donadon (RO) cogita seguir os mensaleiros e colegas de presídio e renunciar ao mandato logo que a Câmara voltar ao trabalho.

VOANDO NAS ELEIÇÕES

A Presidência da República pretende pagar até R$ 19 milhões em viagens nacionais e internacionais até o fim do mês. A agência escolhida atenderá a 12 órgãos do governo em 23.083 percursos.

VERDADE PRORROGADA

Com as atividades prorrogadas até dezembro de 2014 pela presidente Dilma, a Comissão da Verdade terá mais um ano inteiro para resgatar polêmicas e apresentá-las ao público antes das eleições em outubro.

PENSANDO BEM...

...passando o réveillon no xilindró, José Dirceu e demais mensaleiros terão mesmo que ver o ano novo nascer quadrado.


PODER SEM PUDOR

O FILHO DE REQUIÃO

Ao visitar Curitiba logo após a posse, o presidente Fernando Collor foi recebido no aeroporto pelo governador Roberto Requião. Os jornalistas observaram à distância Collor cumprimentando rapidamente cada uma das autoridades enfileiradas, mas se deteve num bate-papo animado com o jovem chefe de gabinete de Requião, Reinaldo de Almeida Cesar, 24. Os repórteres ficaram curiosos. Na verdade, "Maria Louca" (como adversários chamam Requião) havia apresentado Reinaldo como seu "filho". Era brincadeira, mas Collor acreditou e tentava ser atencioso com o "filho" do anfitrião. E Reinaldo - que presidiu a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal e depois assumiu a Secretaria de Segurança do governo Beto Richa - ficou constrangido de desmentir o chefe.

28/12/13

Blog do Murilo
Reinaldo Azevedo 
Clipping MP
ARQUIVO DE ARTIGOS ETC
Ricardo Setti 

Rodrigo Constantino 

Augusto Nunes 
Carlos Alberto Sardenberg 
Blog do Villa 
Guilherme Fiuza 
Adriano Pires 
Caio Blinder 
Miriam Leitão

sexta-feira, dezembro 27, 2013

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


“Vou fazer outro pacto com a sociedade baiana”
Geddel Vieira Lima, avisando que sai da Caixa para se opor ao governo do PT na Bahia


GALEÃO FOI PRIVATIZADO, MAS INVESTIMENTO É PÚBLICO

O governo federal continua sendo uma mãe para o grupo Odebrecht, como o foi para o ex-bilionário Eike Batista. O banco público BNDES anunciou “aporte” de R$ 1 bilhão na Odebrecht TransPort menos de um mês depois de essa empresa ganhar a concessão para operar o Aeroporto do Galeão, no Rio. Na prática, investimentos no aeroporto, cuja gestão foi privatizada, serão bancados com dinheiro público.

NEGÓCIO DA CHINA

Apesar do valor importante investido da Odebrecht TransPort, o BNDESPar fica com apenas com 10,61% de suas ações.

VÁ SOMANDO...

O governo ainda fez o fundo de investimento do FGTS aplicar R$ 428,5 milhões para manter sua participação de 30% na TransPort.

ARRUMAÇÃO

A TransPort foi “reestruturada”, mas a Odebrecht mantém o controle com 59,39% das ações. A participação governamental é de 40,61%.

ASSIM É MOLE

O BNDES realizou no Brasil o negócio dos sonhos de empresários amigos: negócios florescem e o banco estatal paga a conta.

CHUVA AINDA CAUSA CAOS

Os capixabas também não têm motivo para acreditar em políticos: após as enchentes de 2012, com 170 mil desabrigados, o governo federal anunciou a liberação de apenas R$ 20 milhões para o Espírito Santo enfrentar a calamidade. Dinheiro para reparar os danos causados pelas chuvas daquele ano e do anterior. De lá para cá, muitas águas depois, de concreto só tem os pluviômetros, que medem o volume de chuva...

MENOS É POUCO

Dos R$ 3,3 bilhões destinados à prevenção contra a chuva nos estados em 2013, apenas R$ 13,6 milhões foram gastos no Espírito Santo.

BUROCRACIA LETAL

Levantamento da ONG Contas Abertas revela que não foram utilizados R$ 60 milhões liberados para ações de prevenção no Espírito Santo.

CUSTO BRASIL

Apesar do anúncio para 2014, obras no Canal do Congo (ES), que transbordou semana passada, só terminam em 1 ano e meio.

PAGAMENTOS SUSPENSOS

O juiz federal Rodrigo Navarro suspendeu liminarmente qualquer pagamento da União à empresa vencedora do pregão eletrônico para implantação do sistema de balística no Brasil. Suspeito de direcionamento, o resultado será conhecido às 9h do próximo dia 31.

MJ FORA DO AR

O portal do Ministério da Justiça – onde foi publicado o edital do sistema de balística – passa por “breve manutenção” e está fora do ar. Mesmo assim, processo de licitação segue sem interrupções.

SANGUE DE BARATA

Eliseu Padilha (PMDB-RS) aceitou convite do vice-presidente Michel Temer para integrar o núcleo duro da campanha de Dilma. Ministro de FHC, ele foi muitas vezes ofendido por petistas, que o chamavam de “Eliseu Quadrilha”.

SUBIU NO TELHADO

O PT anda desconfiado que subiu no telhado a indicação do ministro Aloizio Mercadante (Educação) para a Casa Civil, em 2014, após um demorado almoço, que aconteceu na segunda-feira, entre a ministra Gleisi Hoffmann e o cotadíssimo Carlos Gabas, atual ministro da Previdência.

PRESENTE DE NATAL

Dilma sancionou projeto do presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), denominando de Aluízio Alves o Aeroporto Internacional de Natal, em homenagem a seu tio, saudoso ex-ministro e político.

FUI!

Zerou o estoque de euros e dólares, ontem, do Banco do Brasil do Itamaraty, um dos poucos pontos de câmbio em Brasília. O gerente explicou: “Teve muito câmbio nos últimos dias e não deu para repor”.

GOTEIRA

Ninguém entendeu por que Dilma usou colete da Defesa Civil no sobrevoo da tragédia no Espírito Santo: afinal, ela não saiu do helicóptero. Certamente, para não molhar os sapatos Chanel.

GASTOS SIDERAIS

A Agência Espacial Brasileira vai desembolsar R$ 37,5 milhões para lançar o CBERS-4, em Taiwan. No início deste mês, a agência lançou o CBERS-3 ao custo de R$ 160 milhões. Caiu pouco tempo depois.

PENSANDO BEM...

...esgotou-se o estoque de piadas de salão de Delúbio Soares na Papuda: Dirceu quer trabalhar e Marcos Valério pediu transferência para Minas Gerais.


PODER SEM PUDOR

OPOSIÇÃO AO VERNÁCULO

Nos anos 70, um vereador de Ladainha, no nordeste mineiro, escreveu ao prefeito Jorge Abraão ameaçando denunciá-lo ao Tribunal de Contas do Estado, em carta que mais chamava a atenção pelos erros: bacharel com x, "viriador" etc.

O prefeito, que já faleceu, era conhecido por sua honestidade e bom humor, e respondeu ao adversário com uma proposta:

- Não me denuncie ao Tribunal e eu prometo não denunciá-lo ao Mobral...

O ano da crise e o grito das ruas por mudança - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 27/12

Dadas as dificuldades econômicas enfrentadas pelo Brasil e a gritante inoperância do governo federal para superá-las, nem parece que a presidente Dilma Rousseff já ocupa o cargo há três anos. O que se vê hoje é um país estagnado que coleciona "pibinhos" e perde competitividade em relação aos concorrentes no mercado internacional, além de sofrer com um processo de desindustrialização e constantes repiques inflacionários.

Onze anos depois de conduzir o PT ao poder, a população brasileira mostrou com clareza, em 2013, que vê um esgotamento do atual modelo. Foi justamente essa insatisfação generalizada que levou milhões de cidadãos às ruas nas chamadas "jornadas de junho". Desencadeados a partir das manifestações contra o aumento de vinte centavos nas tarifas do transporte público em São Paulo, os protestos tomaram conta do país com outras reivindicações acrescidas à pauta inicial, entre as quais a melhoria substancial na qualidade dos serviços públicos e o combate à corrupção.

O auge do movimento foi vivenciado durante a Copa das Confederações, torneio realizado em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife e Salvador. Nessas cidades, as manifestações se intensificaram em frente aos estádios construídos ou reformados, em grande parte, com dinheiro público, e o clamor pelo "padrão Fifa" em áreas essenciais como saúde, educação e segurança virou palavra de ordem. Além de não dar respostas convincentes a essas demandas, o governo petista vem fazendo o país pagar caro pela irresponsabilidade na condução da economia.

A herança deixada por Lula, com uma política baseada no incentivo desenfreado ao consumo, gerou recordes de endividamento das famílias brasileiras. O PIB, que em 2012 registrou um pífio crescimento de 1%, teve retração 0,5% no terceiro trimestre deste ano, o índice mais baixo desde 2009. O país aparece no fim da fila entre as principais economias do mundo no período, ostentando o pior "pibinho" do G20. Isso sem falar na degradação da Petrobras, vilipendiada desde a gestão do petista José Sérgio Gabrielli, ainda nos anos Lula.

Em dezembro, a estatal sofreu a pior queda em suas ações ordinárias desde a crise internacional de 2008, perdendo R$ 24 bilhões em um único dia. O loteamento político da empresa, transformada em mero instrumento a serviço de um projeto de poder, corroeu sua credibilidade e a fez perder 40% do valor de mercado em três anos. Os brasileiros ao menos tiveram motivos para terminar o ano celebrando o fim da impunidade de criminosos do colarinho branco.

Em 15 de novembro, dia da Proclamação da República, mensaleiros coroados do PT como José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares tiveram a prisão decretada e iniciaram o cumprimento de suas penas na cadeia. Apesar dos sucessivos ataques do partido ao Supremo tribunal Federal e da tentativa de rotular seus políticos presos como presos políticos, o desfecho do caso esteve carregado de simbolismo, pois mostrou à sociedade que corruptos poderosos podem e devem pagar por seus crimes como qualquer cidadão comum.

Se em 2013 as ruas gritaram por mais educação, saúde e transporte de qualidade, pelo fim da violência e da corrupção, 2014 pode ser marcado pela mudança de rumo de um país cansado de tantos desmandos. Mas este é um tema para o próximo artigo, o primeiro do novo ano.

O caminhão demorou, mas voltou - IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O Estado de S.Paulo - 27/12

Para Pedro, Lucas, Felipe e Stella

Estava procurando presente para Stella, minha neta, quando Márcia, minha mulher, apontou para uma porta na Vila Madalena: aqui sempre tem. Somente na saída vi o nome, Fábrica. Dentro, um mundo encantado. O cheiro da loja me aguçou, era familiar. Havia ali todo tipo de coisas em madeira, tecidos, plásticos.

Súbito, percebi que era o mesmo cheiro da grande loja de brinquedos de minha infância, a Barbieri, em Araraquara. Um palácio. Um dos programas em dezembro era passar pela Barbieri para olhar vitrines e o Papai Noel que ficava na marquise. Naquele tempo, anos 40, em plena guerra, as lojas de brinquedos eram poucas, traziam algumas bonecas de pano, celuloide ou louça, trens, caminhões carros de bois, bicicletas de madeira, mesinhas para chá de boneca, casas de boneca. Os filhos dos pobres e dos remediados ganhavam um presente no aniversário e outro no Natal. Nada mais. Como filho de ferroviário eu era remediado, mas nunca senti nenhuma diferença. A meninada me parecia igual.

Acompanhado por uma atendente morena, cabelo curtinho, eu andava entre as prateleiras da Fábrica e, súbito, estremeci. Dei com um caminhãozinho de madeira reciclada, cabine colorida. Ainda existem, pensei. Simples, despretensioso, ele me teletransportou no tempo.

Naquele Natal, setenta anos atrás, ganhei um caminhãozinho de madeira com a carroceria cheia de toras. Tinha sido minha escolha na vitrine da casa Barbieri. Aquele brinquedo era a miniatura dos grandes caminhões que passavam pelas ruas levando troncos enormes para as grandes serrarias. Na serraria do Hugo Negrini, vizinha à minha casa, havia uma imensa serra de fita que passava o dia a cortar lâminas de madeira para serem transformadas em móveis. Aquela serra, para nós crianças, era a "fábrica" da serragem, que no Natal usávamos para "fingir" que era a terra do presépio e, aos domingos, os pais colocavam nas bacias para manter a temperatura das barras de gelo sob as quais repousavam as cervejas do almoço. Geladeiras? Poucos tinham.

A serra produzia um cheiro forte e doce de cedro que tomava o ar, perfume que se espalhava pelo bairro. Todas estas coisas foram revividas quando entrei na loja na Vila Madalena. Memória afetiva. Naquela manhã de Natal, acordei, olhei debaixo da cama, lá estava o embrulhinho. Abri com cuidado o pacote, minha mãe recomendava não rasgar o papel, poderia ser reutilizado. Ali estava o caminhãozinho de toras desejado há meses. Brinquei no meu quintal até ouvir a molecada chegando na rua. Estava na hora de sair à calçada para "exibir" o presente. Olhar, comparar, curtir, era uma hora feliz, puro prazer. Aquele caminhão seria cuidado, usado, brincado até o dia do aniversário, quando viria o próximo. Entre 25 de dezembro e 31 de julho se passariam seis meses. Tudo bem. Só não gostava de meu aniversário porque era o odioso último dia das férias.

Brinquei, mostrei, emprestei um pouco para este, para aquele e ouvi minha mãe me chamar por qualquer razão. Nossa, como as mães adoravam chamar quando estávamos na rua nos divertindo. Mãe chamava, tinha de correr! Voei, deixando meu caminhãozinho na calçada, com outro menino vigiando. Não me lembro porque ela me chamou. Quando voltei, meu brinquedo tinha desaparecido. Ninguém soube dizer quem o levou. Por meses, desesperado busquei, tentando encontrar um menino com um brinquedo como o meu. Nada. Em casa levei pito (dizia-se pito) e castigo para aprender a cuidar das coisas. Assim se preparava para a vida.

Quando contei a história à atendente da loja, ela arregalou os olhos: "Pois vou dar esse caminhãozinho para o senhor." Não deixei, era um vazio meu, uma coisa entre mim e minha vida. Circulei pela Fábrica, encontrei o presente da Stela, esqueci a história. No almoço deste Natal, ganhei um pequeno pacote de Márcia. Abri, ali estava o caminhãozinho.

2013: Dilma estatiza o crédito - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 27/12

Presidente acelerou crescimento da banca pública, desde junho com mais de 50% do crédito


2013 foi um ano de estatização do crédito no Brasil. Foi também mais um ano de queixas empresariais contra o excesso de Estado e mais um ano em que as empresas se fartaram de dinheiro baratinho da banca estatal.

Em junho, os bancos públicos passaram a ter mais de 50% do total do dinheiro emprestado no país (do estoque de crédito). Desde agosto de 2000, o conjunto dos bancos privados era maior que o dos estatais, resultado do bom programa de FHC de liquidar ou vender bancos estatais escandalosamente quebrados.

A participação da banca pública no mercado de crédito baixaria a 34% no início de 2008, governo Lula. A crise que explodiu no mundo em setembro de 2008 provocaria um revertério no crédito e, enfim, na política econômica do PT. Dilma Rousseff acelerou as mudanças.

O governo comprou mercado para os bancos públicos. Tomou mais dinheiro emprestado e o reemprestou ao BNDES, por exemplo. Decretou a baixa dos juros do BNDES e mandou Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal fazerem o mesmo.

Em dezembro de 2007, os empréstimos do governo federal para bancos oficiais equivaliam a 0,5% do PIB. Em outubro passado, a 9,3% do PIB (R$ 439 bilhões).

Até agora, nos anos Dilma, 67,5% do aumento do estoque de crédito veio dos bancos estatais. Neste 2013, os bancos públicos foram responsáveis por quase 76% do aumento do total de dinheiro emprestado.

O BNDES empresta a juro real zero ou menos que isso (descontada a inflação, a taxa de juro é zero). Muito empresário chiou quando o governo reajustou em um tico as taxas de juros (muitas ainda abaixo de zero), agora no final do ano.

Como é possível que um negócio não dê retorno mesmo quando financiado a juro zero? Não é possível. Isso não faz sentido: sem doação de dinheiro, o negócio em tese não para em pé.

O custo da dinheirama barata cai na conta do país inteiro. Eleva a dívida pública. Custa caro a diferença entre o juro que o governo paga e recebe do BNDES. Há o descrédito causado pelo endividamento e a confusão crescentes nas contas públicas.

Nos anos Lula, após 2008, o aumento do crédito público serviu em especial para cobrir a falta de crédito privado para empresas (e, razoavelmente, para evitar um colapso pós-crise). Nos anos Dilma, para turbinar o crédito para pessoas físicas.

Depois de 2008, as grandes empresas abertas ficaram bem de caixa, "capitalizadas". Além do mais, parcela maior do investimento (em capital) das empresas dependeu mais do BNDES. Mas o investimento como proporção do PIB cresceu pouco.

É difícil estimar quanto investimento não teria sido realizado sem o dinheiro baratinho do governo. As empresas talvez investissem de qualquer modo: só trocaram dinheiro mais caro por mais barato, subsidiado pelo governo, nós todos. Mas a história é mais complicada ainda.

Se o governo não tivesse feito dívida monstruosa para irrigar a banca pública, a vida seria outra. Os juros seriam menores, na média, em toda a praça. A situação das contas do governo seria outra. É um troço difícil de pensar, pois.

O que a gente sabe é que, apesar da monstruosa dívida extra e do juro zero, o país não está agora mais preparado para crescer mais rápido.

Provérbios contemporâneos - NELSON MOTTA

O GLOBO - 27/12

Em ano eleitoral, a fofoca vai atingir os seus níveis mais altos, e mais baixos, com os piores objetivos, e até sem motivos claros ou uniformes, como nos protestos de junho



Andy Warhol dizia que gostava de fofoca pelo seu duplo valor de informar tanto sobre a pessoa que está sendo falada quanto sobre a que está falando, porque ninguém se contenta em contar a novidade sem comentá-la e julgá-la, revelando seus gostos e sentimentos. Nos tempos de Andy, a fofoca era chamada brejeiramente de mexerico e corria de boca em boca ou por precárias comunicações, de fontes restritas e duvidosas, mas hoje se propaga instantanea e incontrolavelmente, usando a sua origem como prova de sua veracidade: está na internet!

O ancestral “diz-me com quem andas e te direi quem és”, ainda atualíssimo para a avaliação de políticos, hoje é aplicado aos sites, blogs, twitters e seriados para monitorar o que segues e saber como és. No formato “diz-me do que gostas e não gostas”, serve não só para dizer quem és, mas até o que queres, antecipando os teus desejos baseado no que já compraste, e assim facilitando tuas escolhas — de mais do mesmo.

A linguagem proverbial é antiga, mas o moderno poder de se informar e de comprar o que quiser e escolher em que fontes beber na rede vai permitir que as tuas escolhas revelem quem és e como vives. Principalmente para te venderem o que não precisas. Diante do que vivemos hoje a temida monitoração onipresente do Big Brother de “1984” parece coisa de adolescente, no máximo, de programa de televisão.

Em ano eleitoral a produção e a disseminação de fofocas vão atingir os seus níveis mais altos, e mais baixos, com os piores objetivos, e até sem motivos claros ou uniformes, como nos protestos de junho. Com os dados cada vez mais detalhados e ampliados de que dispõe sobre o eleitorado, o marketing das campanhas vai vender seus produtos e tentar motivar os consumidores fiéis e atrair os insatisfeitos, com o empobrecimento do debate político e do confronto de ideias.

Só espero que os políticos de todos os partidos não continuem a dizer na televisão que “ouviram a voz das ruas”, porque foi justamente contra eles, seus privilégios, sua corrupção, sua ineficiência e impunidade que as ruas e as redes gritaram. E vão gritar nas urnas.

Escritório em casa - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 27/12

Quem trabalha em escritório e leva, em média, uma hora para ir e outra para voltar do trabalho terá gasto cerca de 400 horas no trânsito ao término de um ano, o equivalente a 16 dias inteiros, já descontados feriados e férias.

A enorme queima de tempo e de energia física e mental é o principal argumento que vêm convencendo empresas e profissionais do setor de serviços a incentivar de funcionários e a colaboradores a executar boa parte das tarefas em casa.

É a solução do home office (escritório em casa), adotado em 23% das empresas no Brasil, aponta a Hays, consultoria especializada em recrutamento. A Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades (Sobratt) estima que 12 milhões de pessoas já trabalham nessas condições.

O sistema proporciona óbvias reduções de custos operacionais para as empresas. Podem diminuir a área de escritórios, cortar despesas com manutenção, energia, telefone e limpeza. E, no caso da manutenção de restaurante no local, boa redução de custos com alimentação. Afora essas economias, Alvaro Mello, presidente da Sobratt, projeta aumento de 15% a 30% no índice de produtividade dos empregados que trabalham de casa.

A Ticket, líder no setor de vales-refeição, calcula uma economia de R$ 3,5 milhões com a adoção do modelo há cinco anos, apenas com seus 104 funcionários da área comercial.

Apesar dessas vantagens, o professor Rodrigo Ferreira, do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB), ressalta que nem todas as funções e funcionários têm perfil para o expediente a distância: Entre os que tem, aponta os encarregados de análise e os envolvidos em projetos.

Mello, da Sobratt, acrescenta que a adesão ao home office tem sido mais comum em departamentos de vendas, marketing, tecnologia da informação e recursos humanos.

Mas não dá para ver apenas o lado bom. Ferreira adverte que o emprego remoto também pode apresentar suas inconveniências, na medida em que o ambiente caseiro nem sempre ajuda o profissionalismo. Além disso, pode não contar com móveis e iluminação adequados para o trabalho a ser desenvolvido. É preciso ter em conta ainda que, ao trabalhar de casa, as despesas do funcionário com alimentação, energia elétrica e telefonia também podem aumentar - embora as empresas, em geral, se disponham a assumi-las pelo menos em parte.

É preciso também preparar as famílias para a nova rotina. "Além de ensinar o profissional a gerir seu tempo e a se comunicar por meio de recursos virtuais, é importante que os familiares entendam que aquele funcionário não está em casa de folga", diz Luiz Fernando Barbosa, consultor da Deloitte. Para ele, este é um modelo irreversível de trabalho: "Não importa onde a tarefa seja executada. Basta estar conectado à estrutura da empresa".

Essa conexão requer investimentos não apenas em ferramentas de comunicação virtual, mas também em práticas que mantenham o vínculo entre funcionário e empresa. "Se alguém nunca mais aparece no escritório, sai prejudicado o engajamento com os propósitos da companhia", adverte Ricardo Catto, consultor da EY.

A pesquisa da Hays também identificou diferenças de tratamento entre funcionários presentes na empresas e os que operam de casa: "Como nunca está presente nas decisões que apenas são tomadas na hora do cafezinho, o profissional corre o risco de não ser lembrado pelos colegas de trabalho e de perder oportunidades de promoção", diz Juliano Ballarotti, diretor da consultoria.

Mesmo com todas as ressalvas, o home office foi uma das soluções adotadas em Londres e Vancouver para reduzir problemas de mobilidade urbana durante os Jogos Olímpicos de 2012 e os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, respectivamente. A realização no Brasil da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíadas em 2016 pode ser uma boa oportunidade para que esta solução seja adotada também por aqui.

Erros não assumidos - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 27/12

A notícia do acordo da OGX com os credores alivia um pouco o peso da pior notícia empresarial do ano. O destino do empresário em si não importa, até porque ele continua rico. O que preocupa são os empregos perdidos, os investimentos que deixarão de ser feitos, empréstimos concedidos pelo governo que não serão pagos e acionistas que perderam patrimônio.

Entre os acionistas está o próprio governo em algumas empresas. Entre os credores, também o governo, através da Caixa Econômica e do BNDES em algumas das companhias. A solução dada para a petroleira dilui o capital dos acionistas, mas dá chance de sobrevida à empresa e eleva o valor das ações que estavam no chão. A torcida nesta virada do ano é para que a petroleira continue a existir, agora sob novo comando, e o estaleiro se beneficie com uma injeção de recursos.

Falta ainda o governo apresentar um balanço sério do episódio, informando o quanto perdeu com a hecatombe do grupo empresarial que chegou a ser apontado pela presidente Dilma Rousseff, em inesquecível declaração, como um exemplo para outros empresários. Não vale dar explicações simplistas como as do BNDES, de que não perdeu porque não vendeu as ações. Ele está se valendo de um raciocínio torto do mercado que é o seguinte: se não vendeu, não “realizou” o prejuízo. Perdas e ganhos só existiriam depois da venda.

Mas esse tipo de raciocínio não vale para as pessoas comuns. Comprar por um valor e agora ter um ativo que vale uma fração mínima do valor anteriormente pago; comprar uma participação que foi diluída; emprestar e ter como garantias ações de outras empresas do mesmo grupo ou avais do empresário encrencado, tudo isso é perda.

O BNDES sempre disse que tinha apenas uma participação de 0,26% na OGX. Depois da operação dos últimos dias, o que tinha deve ter desaparecido. Concedeu um empréstimo-ponte de US$ 228 milhões, que a esta altura Os pontos-chave deve ser uma ponte que ruiu.

Na OSX, a exposição é muito mais ampla e não é apenas do BNDES, mas da Caixa Econômica Federal, em volume de empréstimo de mais R$1,4 bilhão. Mas o que faz a Caixa emprestar para um estaleiro é um desses mistérios que só se explica na gestão da 3 Caixa no governo Dilma. A Caixa afastou-se perigosamente do papel que sempre exerceu e corre riscos de enorme imprudência, como a compra de ações de um banco quebrado, ou a transformação da instituição numa espécie de versão júnior do BNDESPar. Como se o Brasil precisasse de outro.

Tudo isso deveria estar numa reflexão sincera sobre o custo para o governo do evento mais catastrófico do mundo empresarial brasileiro em 2013, que foi a quebra da EBX. Perdas públicas e falhas públicas.

Foram tardias e parciais as ações da CVM para punir o empresário por ter prestado informações sem qualquer veracidade sobre as perspectivas dos campos de petróleo que possuía. Em nenhum momento a CVM avaliou seus próprios erros por ter se atrasado tanto em pedir explicações sobre as fanfarronices do controlador de empresas de capital aberto, que induziram inúmeros acionistas ao erro de comprometer suas economias nas empresas de Eike.

Na reestruturação, algumas empresas do grupo trocaram de mãos, o empresário ficou minoritário, as atividades e ambições foram reduzidas, mas as companhias continuaram funcionando. Nos casos das maiores empresas, a petroleira OGX e o estaleiro OSX, houve pedido de recuperação judicial. A janela que se abre agora, depois das negociações fechadas nos últimos dias, é de uma engenharia financeira que permita a recuperação de fato da empresa de petróleo e, além disso, capitalize o estaleiro.

Eike Batista fará sua própria avaliação dos erros que cometeu, e, como ainda permanece com patrimônio, participações nas empresas e capital, poderá se refazer. O mais relevante seria o governo aprender com os muitos erros que cometeu neste caso, e, em outros, de escolha de grupos a serem privilegiados. É preciso dar aos contribuintes o conforto de que serão evitadas novas enrascadas desse tipo. Outros grupos empresariais favoritos estão ocupando o lugar de Eike. Os métodos de ação do governo continuam os mesmos; só troca o nome do grupo empresarial. E esse é exatamente o maior risco.

2013, mais um ano perdido - ADRIANO PIRES

O Estado de S.Paulo - 27/12

O ano de 2013 começou com boas perspectivas para a Petrobrás. Após um difícil 2012, quando a empresa chegou a registrar prejuízo trimestral e queda de 2% na produção de petróleo, com relação a 2011, a expectativa era de que o processo de manutenção das plataformas fosse finalizado, ao longo do ano, e a produção começasse a mostrar sinais de inflexão.

Do ponto de vista da política de preços, os reajustes concedidos no início do ano davam a esperança de que a defasagem dos preços seria menor do que em 2012. Em 30 de janeiro, o preço de venda na refinaria da gasolina teve um reajuste de 6,6% e o óleo diesel de 5,4%, nesta data, e de 5% em março. Também trouxe alívio nas importações de gasolina a decisão de voltar a aumentar a mistura de etanol anidro para 25%, a partir de maio. Esse conjunto de medidas reforçou a visão de que a nova gestão da empresa havia conseguido sensibilizar o acionista majoritário, ou seja, o governo, com relação à necessidade de se recuperar o caixa da empresa e, com isso, garantir a execução do plano de negócios da estatal.

No segundo trimestre a desvalorização do real teve impacto direto sobre a empresa, tanto no que diz respeito ao aumento da defasagem dos combustíveis quanto pelo efeito sobre a dívida em dólares da empresa. No primeiro caso, em vez de reagir com um realinhamento de preços, a empresa adotou a estratégia única de desinvestir para reforçar o seu caixa, como, por exemplo, a venda dos 50% dos seus ativos de exploração e produção de óleo e gás no continente africano. Quanto à deterioração da dívida, a empresa se utilizou de "contabilidade criativa", adotando critérios de contabilidade de hedge, que permite a não contabilização do efeito cambial da dívida por causa da perspectiva de exportações futuras. Cabe ressaltar que atualmente a empresa é importadora líquida, o que gerou desconfiança com relação aos novos critérios contábeis.

No terceiro trimestre, com medo de perder o controle da inflação e com a queda da popularidade do governo no rastro dos protestos, a empresa novamente foi sacrificada, permanecendo todo o trimestre sem um reajuste nos preços, o que fez com que a defasagem média da gasolina se situasse em 21,2% e a do diesel em 21,9%, no terceiro trimestre. Com isso, a geração de caixa da empresa ficou comprometida e, como não houve venda de ativos de valor expressivo e nenhuma nova solução criativa, o resultado ficou bem abaixo do esperado pelo mercado.

Com o objetivo de reverter o péssimo resultado, a Petrobrás divulgou fato relevante sobre a criação de uma fórmula que garantiria reajustes automáticos para o preço da gasolina e do diesel e o alinhamento com os preços internacionais. A reação do mercado foi de forte alta das ações, em cerca de 8%, por causa da crença de que a proximidade entre a presidente da Petrobrás, Graça Foster, e a presidente Dilma seria determinante para a mudança na política de preços.

A surpresa foi o debate público entre a presidente da empresa e o ministro da Fazenda sobre a necessidade da existência de uma fórmula, que acabou promovendo um sobe e desce das ações da estatal. O resultado foi só decepção com o anúncio de que a fórmula de reajuste permaneceria secreta e não garantiria reajuste automático. E, de novo, na tentativa de criar um fato positivo, foi concedido reajuste de 4% para a gasolina e de 8% para o diesel, abaixo da expectativa do mercado. Ao fim desse episódio, ficou claro que a Petrobrás continuará a ser usada para controlar a inflação, ajudar nas eleições ou salvar leilões que não atraem players suficientes.

Para 2014, só restará à empresa e aos seus acionistas torcer para que a conjuntura não prejudique ainda mais as contas da Petrobrás. Nesse sentido, resta torcer para que o câmbio fique estável, o petróleo não suba, a inflação permaneça controlada e a popularidade da presidente Dilma continue elevada. Todos fatores exógenos à direção da empresa. Como se tem dito no mercado, com muita propriedade: te vejo em 2015, torcendo por uma mudança de governo.

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