Entrevista:O Estado inteligente

sábado, julho 30, 2005

Corrupção incessante atormenta a América Latina por Larry Rohter


 New York Times (30/07/05) do UOL

Governo Lula está no maior e mais audacioso escândalo da história

No Rio de Janeiro

Enquanto fazia campanha para a presidência em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva prometeu audaciosamente limpar a sórdida política do Brasil. Ele prometeu que seu governo seria ético, honesto e moral, um como o Brasil nunca viu.

Tal promessa o ajudou a conquistar os votos de mais de 50 milhões de brasileiros e um mandato arrebatador. Mas agora, em um eco desolador do que tem acontecido repetidas vezes por toda a América Latina, o governo Lula está atolado no maior e mais audacioso escândalo de corrupção da história do país.

Uma comissão parlamentar de inquérito tem ouvido depoimentos de que o Partido dos Trabalhadores pagou a dezenas de deputados de outros partidos um estipêndio mensal de US$ 12.500 pelo seu apoio. Neste mês, um funcionário do partido foi detido em um aeroporto com US$ 100 mil --escondidos em sua cueca-- que ele alegou ter obtido vendendo verduras.

O ministro da Casa Civil de Lula [José Dirceu] foi forçado a renunciar, assim como o presidente, secretário-geral e tesoureiro do Partido dos Trabalhadores. Apesar de Lula ainda não ter sido acusado no esquema, é grande a especulação de que poderá enfrentar um impeachment, e as primeiras manifestações de rua contra ele, pequenas mas indignadas, tiveram início nesta semana.

O escândalo do Brasil é apenas o mais recente lembrete da corrupção incessante que tem marcado a política latino-americana desde os tempos coloniais, quando governantes absolutos consideravam os reinos recém-conquistados no Novo Mundo como sendo sua propriedade pessoal.

A diferença importante é que hoje o controle é de governos eleitos pelo voto popular, e a corrupção tem despontado como uma das maiores ameaças para os ganhos democráticos conquistados arduamente nos últimos 20 anos.

Por toda a região, estes democratas de segunda geração provaram ser uma decepção, e sua ineficácia e baixa reputação têm permitido o aumento da instabilidade política e da disparidade econômica. Pesquisas de opinião citam rotineiramente a corrupção como a principal causa para a perigosa desilusão que toma conta da região.

O descontentamento tem levado a manifestações populares violentas, incluindo o linchamento de autoridades no Peru, e provocou a queda de oito chefes de Estado em cinco anos.

"Este é um grande problema; simplesmente não houve uma ruptura com o passado", disse Edgar Villanueva, um congressista que está liderando uma das várias investigações do governo do presidente Alejandro Toledo, no Peru.

"O que tem acontecido na América Latina é que não temos sido capazes de colocar boas pessoas no poder. A pessoa no poder sempre mantém laços com sua pequena base de poder, e esquece o povo, esquece suas promessas."

Toledo também chegou ao poder com promessas semelhantes de limpar a corrupção, sucedendo o governo de Alberto K. Fujimori, cuja rede bizantina de propinas e extorsão pareceu estabelecer um novo padrão para a região.

Hoje mais de uma dúzia dos parentes de Toledo, incluindo sua esposa e irmãos, são acusados de usar sua influência para ganho pessoal. Pesquisas de opinião lhe deram os índices mais baixos de aprovação de qualquer líder latino-americano, e seu governo foi minado pelas denúncias quase constantes de corrupção na mídia. Acusações semelhantes no Equador contribuíram para a queda do presidente Lucio Gutiérrez, em abril.

Mais ao norte, a história é praticamente a mesma. No México, o presidente Vicente Fox chegou ao poder em 2000, derrotando o notoriamente corrupto e autoritário Partido Revolucionário Institucional, que governou o país por mais de sete décadas.

Mas ele tem fracassado em quase todas as frentes em reverter o curso da corrupção, dos departamentos de polícia ao longo da fronteira cada vez mais violenta com os Estados Unidos até escândalos em seu próprio governo.

Não apenas os esforços de Fox para processar ex-autoridades do governo, suspeitas de usar dinheiro público do petróleo em campanhas políticas, não deram em nada, como também veio à tona que seu próprio fundo de campanha, Amigos de Fox, recebeu contribuições ilegais.

Sua esposa, Marta Sahagun de Fox, está envolvida em uma série de escândalos pelo uso de milhões de dólares destinados à sua organização de caridade, e seus filhos têm sido investigados pelo Congresso por contratos obtidos para construção de projetos habitacionais.

Por toda a América Central, igualmente, os promotores estão trabalhando em casos contra atuais e ex-líderes que encheram seus bolsos enquanto estavam no poder. Na Nicarágua, o ex-presidente Arnoldo Aleman já foi condenado por desviar fundos do Estado para uso pessoal e está apelando de uma sentença de 20 anos.

Promotores costarriquenhos acusaram dois ex-presidentes de aceitar subornos para concessão de lucrativos contratos do governo. E na Guatemala, promotores estão pedindo ao México a extradição do ex-presidente Alfonso Portillo, por acusação de ter desviado US$ 15,7 milhões.

Alguns apontam que o aumento dos casos é uma evidência de que a Justiça e os governos finalmente estão repreendendo os maus líderes. Mas muitos analistas e cidadãos consideram a persistência dos favores políticos, nepotismo e suborno como evidência da baixa qualidade das democracias da região e quão pouco as atitudes da elite mudaram desde a época em que os senhores coloniais governavam visando a extração e enriquecimento, com pouca consideração pelas pessoas abaixo deles.

Corrupção causa prejuízo econômico

Grupos internacionais como o Banco Mundial dizem que o suborno oficial e o nepotismo são tão poderosos que estão apodrecendo as instituições governamentais e impedindo o crescimento econômico.

Em um recente depoimento no Congresso em Washington, autoridades americanas estimaram que a corrupção oficial pode ter cortado até 15% do crescimento anual na América Latina, com fundos públicos sendo furtados e afugentando investidores estrangeiros.

Os latino-americanos consideram a corrupção como sendo seu problema mais sério depois da crise econômica da região, segundo uma pesquisa envolvendo 18 países, realizada em 2004 pela Latinobarometro, uma empresa chilena de opinião pública que conduz regularmente pesquisas pelo continente.

80% dos entrevistados também disseram consistentemente que perceberam um aumento da corrupção, enquanto outras pesquisas mostraram que em alguns países latino-americanos, como a Argentina, as pessoas acreditam que a corrupção tem um efeito significativo na forma como os negócios e a política são realizados.

"O impacto da corrupção na nossas economias é imenso, simplesmente imenso", disse Jose Ugaz, um peruano que investigou os crimes do governo Fujimori e investiga a corrupção para o Banco Mundial. "E há outros efeitos que não podem ser medidos facilmente --a perda da confiança nos governos, a visão de que as autoridades estão roubando dinheiro."

"Quando a população perde a confiança nas pessoas que governam o país", ele acrescentou, "a perda de confiança gera imediatamente muitos problemas, e um deles é a agitação".

A frustração tem atingido níveis perigosos em vários países, às vezes com violentos protestos de rua. Muitos esperavam que a mudança de governos autoritários para democracias esmagaria o tipo de corrupção que predominava quando ditadores dirigiam os assuntos de Estado para benefício de um pequeno grupo de privilegiados, ameaçando aqueles que os denunciassem.

Mas os governos que os sucederam, de todo o espectro político, sejam defensores do livre mercado como Toledo ou esquerdistas assumidos como Lula, provaram ser ainda mais suscetíveis. Com economias antes fechadas sendo abertas e lucros corporativos atingindo níveis recordes, as oportunidades para subornos passaram a ser maiores do que nunca.

Tão disseminada é a revolta que, no ano passado, outra pesquisa regional revelou que maioria dos latino-americanos preferiria uma volta das ditaduras caso promovessem benefícios econômicos. Apesar da melhoria dos indicadores econômicos de lá para cá, o número de pobres continua crescendo, assim como o ressentimento em relação àqueles que estão embolsando a riqueza da nação para benefício próprio.

Está para nascer

Apesar de alguns Estados terem notadamente melhorado, como Chile e Uruguai, eles são exceções e a inveja de seus vizinhos. Venezuela, Paraguai e Bolívia apresentaram aumento da corrupção ou não exibiram nenhum avanço no combate a ela, mostra a pesquisa anual de um grupo anticorrupção, o Transparency International.

"Não há muitas mudanças nestes países", disse Myles Frechette, uma ex-embaixadora americana na Colômbia e que atualmente presta consultoria para empresas que investem na América Latina.

"No Brasil, o Partido dos Trabalhadores costumava bradar quão corruptos eram todos os outros partidos, mas então chegaram ao poder e adivinhe, o Partido dos Trabalhadores entrou no esquema."

O escândalo brasileiro na verdade vai além dos pagamentos ilegais aos legisladores. Ele também inclui contribuições clandestinas de campanha por empresas interessadas em contratos com o governo, presentes como um Land Rover e outros benefícios para líderes partidários, assim como um fundo secreto de US$ 30 milhões que podia ser usado pelos líderes partidários para fins ainda desconhecidos.

"Lula encontrou uma forma espúria de organizar o poder neste país" quando assumiu o governo no início de 2003, escreveu César Benjamin, um decepcionado membro fundador do Partido dos Trabalhadores e que atualmente é professor de ciência política, em um recente ensaio. "E em vez de lutar para mudá-la, como era sua obrigação política e moral, ele se adaptou a ela."

"O aparato do Estado continua a ser tratado como um despojo", ele acrescentou.

A corrupção se apresenta de muitas formas, mas talvez sua forma mais chamativa e irritante é o nepotismo e os favores políticos, a ostentação de conexões políticas que alienam as pessoas comuns. Tais práticas também assumem muitas formas, desde subornos diretos até empregos e contratos concedidos para pessoas desqualificadas ou inexperientes que são relacionadas com aqueles no poder.

Aqui no Brasil, por exemplo, quando um dos filhos de Lula abriu uma agência de publicidade, uma empresa de telefonia da qual bancos do governo e fundos de pensão possuem ações forneceu o capital inicial.

No Peru, o irmão mais novo do presidente Toledo, Pedro, é acusado de ter usado sua influência para obter uma concessão de telefonia de 20 anos para uma nova empresa --com apenas US$ 1.500 em ativos. Outro irmão, Luis, está sob investigação por suspeita de ter usado o nome de sua família para obter terras do Ministério da Agricultura.

Os problemas de Toledo começaram quase que imediatamente, disse Fernando Rospigliosi, um jornalista respeitado que foi seu primeiro Ministro do Interior.

Militantes de seu partido do governo, Peru Possível, passaram a exigir cargos em ministérios e outras agências assim que Toledo assumiu o poder, disse ele. Entre aqueles que batiam à porta estavam membros da família do presidente, incluindo seu irmão Pedro e sua irmã, Margarita, disse ele.

"Eles ficaram deslumbrados com o poder e dinheiro e imediatamente tentaram tirar proveito, e o fizeram como se fosse a coisa mais natural do mundo", disse Rospigliosi. "Eles apareciam nos ministérios e pediam que pessoas fossem colocadas em certos cargos. É algo bem peruano. Você obtém poder e usa o poder em benefício próprio."

Talvez mais agourento para a saúde democrática da região é o fato de que os recentes escândalos, especialmente o daqui [no Brasil], envolve corrupção não apenas para enriquecimento pessoal, mas também visando se manter indefinidamente no poder, ameaçando as próprias instituições democráticas. Mas os líderes envolvidos têm negado ter cometido qualquer erro e não estão dispostos a aceitar qualquer responsabilidade.

Uma comissão parlamentar tem interrogado Toledo pelo seu papel em um esquema para forjar petições, que os investigadores disseram que sua irmã, Margarita, comandou no final dos anos 90 visando obter assinaturas suficientes para que ele pudesse concorrer novamente. O presidente tem insistido que tal esquema nunca existiu.

"Esta é uma fábrica de mentiras", ele disse recentemente em um programa de televisão. "Aceitem minha palavra. Eu estou dizendo a verdade."

Enquanto seu governo e sua reputação entram em colapso ao seu redor, Lula adotou no Brasil uma postura semelhante. Ele inicialmente argumentou que "em relação ao seu comportamento eleitoral, o Partido dos Trabalhadores fez o que tem sido feito sistematicamente no Brasil". Mas de lá para cá ele abandonou tais desculpas em prol de protestos de inocências e integridade pessoal.

"Neste país de 180 milhões de brasileiros, pode ter igual, mas não tem nem mulher nem homem que tenha coragem de me dar lição de ética, de moral e de honestidade", disse ele em um discurso na semana passada. "Neste país, está para nascer alguém que venha querer discutir ética comigo."

Colaboraram com a reportagem Juan Forero, em Lima (Peru), e James C. McKinley Jr., da Cidade do México.
Tradução: George El Khouri Andolfato

Blog Noblat Para administrar uma fortuna


Sob o título acima, o jornalista Carlos Chagas antecipou em 28 de fevereiro do ano passado o que foi denunciado há menos de 60 dias pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). O artigo foi publicado no jornal Tribuna da Imprensa, do Rio.

 

"Ruim de grana o PT nunca esteve. Desde sua fundação, 24 anos atrás, seus filiados destinam mensalidades obrigatórias ao partido. Com o tempo, elegeram-se gradativamente vereadores, deputados estaduais e federais, senadores, prefeitos e governadores petistas, bem como um monte de assessores,
secretários e auxiliares nomeados para servi-los.

 

Faz muito ficou estabelecido que cada um destinaria 30% de seus vencimentos para o PT. Nada mais justo, natural e lógico, apesar de cruel.

 

Até 2002, os recursos equilibravam receita e despesa destinadas às campanhas eleitorais e à ampliação do partido. Mesmo as sobras das contribuições amealhadas para as campanhas presidenciais de 1998, 1991 e 1989, diluíram-se nos gastos imprescindíveis.

 

Foi a partir da recente campanha presidencial, porém, que o dinheiro começou a sobrar. Com a posse do presidente Lula e a nomeação de milhares de petistas para a administração federal, mais recursos apareceram. A preocupação do presidente anterior, José Dirceu, e do atual, José Genoíno, passou a ser como administrar a bolada, cujo montante, para dizer a verdade, só uns poucos conhecem. Mas é muito grande.

 

Quem passou a sofrer foi o diretor-financeiro do PT. Delúbio Soares jamais pensou em tornar-se banqueiro ou investidor no mercado. Assim, para ajudá-lo, foi buscar um operador profissional, encontrado na pessoa do publicitário mineiro Marcos Valério, da SMPB, de Belo Horizonte. Agência por sinal aquinhoada em 2003 com contratos de publicidade no valor aproximado de 150 milhões de reais, provindos do Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Correios e Telégrafos e Petrobrás.

 

Há algum tempo, a capital mineira funciona como uma espécie de caixa central do PT, de onde flui numerário bastante para as despesas partidárias, agora com ênfase para as campanhas de
outubro. No caso, até servindo a outros partidos, como o PP, PL e PTB, cujos emissários não raro deixam o aeroporto da Pampulha com malas recheadas, em espécie. É claro que tudo ocorre sob a férrea fiscalização dos dirigentes do PT. José Dirceu e José Genoíno são informados de cada repasse.

 

Dispondo de recursos como nunca dispôs, o PT imagina
alavancar as candidaturas de seus candidatos em todo o país, em
especial às prefeituras das capitais, mas sem descuidar dos grotões, capazes de duplicar o número de prefeituras do partido e de multiplicar o número de seus vereadores.

 

A pergunta que se faz é se a Receita Federal acompanha
tão diligentemente assim as aplicações, os investimentos e as
doações, da mesma forma como a Justiça Eleitoral acompanhará."

Diogo Mainardi Quero derrubar Lula

VEJA

"Todo mundo sabe que a melhor receita para
o país é uma ampla
reforma política. Lula é o
maior obstáculo para que
ela aconteça. Se ele
for derrubado, tem reforma.
Se não for, não tem.
Lula, como sempre, é um fator
de imobilismo e atraso"

Eu quero derrubar Lula. Muita gente teme o que pode vir depois dele. Nos últimos dias, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, se encontrou com políticos de todos os partidos. Ele teme que o impeachment de Lula acabe gerando um longo período de conflito social, porque a popularidade do presidente continua alta. Se um presidente conta com o apoio popular, segundo Jobim, ele está autorizado até mesmo a corromper os membros do Congresso Nacional. Não é exatamente o tipo de consideração plebiscitária que poderíamos esperar da maior autoridade judicial do país.

Muita gente teme também um golpe militar. É um temor alimentado pelo PT. O PT alardeia que um impeachment de Lula pode resultar num golpe de Estado. É mais uma empulhação petista. Em 1993, quando a eleição de Lula era tida como certa, José Dirceu e José Genoíno procuraram o general linha-dura Murillo Tavares da Silva. Na época, o general Murillo garantiu que, se Lula fosse eleito, não ocorreria um golpe militar. Nesta semana, ele voltou ao tema, num artigo para o site Ternuma, que reúne alguns nostálgicos da Revolução de 1964. No artigo, o general Murillo afirmou que Lula é um "inepto", um "néscio", um "apedeuta", "pródigo em dizer bobagens". Afirmou igualmente que Lula é "de uma covardia ímpar", tendo descarregado sobre seus subalternos toda a responsabilidade pela corrupção no governo, cujo maior beneficiário sempre foi ele próprio. Com um certo desalento, porém, o general Murillo foi obrigado a repetir aquilo que, em 1993, disse a José Dirceu e José Genoíno: não há o menor risco de que o impeachment de Lula desencadeie um golpe militar, porque o único desejo de nossos "temerários legionários", hoje em dia, é conseguir "algumas migalhas dos línguas-presas".

O grande temor da oposição, em caso de impeachment de Lula, é José Alencar. Aparentemente, a oposição teme que, em seu curto mandato como presidente, José Alencar reduza os juros, impulsione a economia, crie 10 milhões de empregos, abaixe os impostos e, ainda por cima, mantenha a inflação sob controle, tornando-se um candidato imbatível em 2006. Na verdade, José Alencar não é um candidato imbatível nem mesmo para vereador em Montes Claros. O grande temor da oposição é outro: o de que ela só seja capaz de ganhar a próxima eleição se concorrer sozinha.

Até agora nenhum parlamentar defendeu abertamente o impeachment de Lula. Alguns chegaram perto: "Não se pode descartar o impeachment", "As pessoas já perguntam se o impeachment não seria a melhor solução para a crise", "É delírio ou uma possibilidade falar em impeachment?", "Não estou pedindo o impeachment, mas, se a legalidade exigir, ele deve sair". Todo mundo sabe que a melhor receita para o país é uma ampla reforma política. Lula é o maior obstáculo para que ela aconteça. Se ele for derrubado, tem reforma. Se não for, não tem. Lula, como sempre, é um fator de imobilismo e atraso. Seus partidários chantageiam o eleitorado com a ameaça de que sua queda trará a "colombianização" ou a "venezuelização" da sociedade. Mentira. Não há o que temer. Pior do que está não pode ficar.

Tales Alvarenga Erro tático

VEJA

"A garrafa da crise está desarrolhada e não é
mais possível voltar
a fechá-la. O presidente
Lula deve ser convidado a baixar a cabeça,
sim. Para ver melhor onde está pisando"

O presidente Lula faria bem a sua biografia e à tranqüilidade do país se parasse de tentar fazer os brasileiros de bobos. É tão caricata sua iniciativa de culpar a elite pela crise que enfrenta, são tão patéticos seus discursos diante de sindicalistas, fingindo que tem o proletariado a seu lado contra a burguesia, tudo isso é tão simplório, tão anacrônico que quem está no papel de bobo é ele mesmo – Luiz Inácio Lula da Silva. Desorientado, Lula se encaminha para um campo minado, olhando para cima, para as nuvens.

A tentativa de instigar os humores da massa sindicalizada contra os imaginários venenos destilados pela elite reflete, em escala menor, as táticas aplicadas na Venezuela por seu amigo, o coronel Hugo Chávez. Se existe alguma inspiração desse tipo, ela não é nem um pouco aconselhável.

Só nos faltava essa. Depois da descoberta da quadrilha mafiosa de petistas que assaltava o Estado para garantir sua permanência no poder, isso debaixo das barbas e das vistas do presidente da República, o Brasil tem de conviver com um Lula que recorre a truques que desonram sua inteligência e seu senso de realidade.

Diz Lula que a elite brasileira quer fazê-lo baixar a cabeça e tenta dar-lhe lição de moral. A elite brasileira tem dado provas de que fará o que estiver a seu alcance para que o mandato do presidente não corra nenhum risco de interrupção fora da data prevista para seu encerramento. A elite é, neste momento, uma aliada do bom senso e, por isso, não quer contribuir para alimentar a crise política que está aí – e uma potencial crise econômica, que poderá vir se as fronteiras da razão ficarem sob ameaça de rompimento.

O assalto ao Estado não é uma exclusividade petista. Viu-se, nos últimos dias, um desfile de denunciados que conta também com estrelas do PSDB, do PFL e, principalmente, dos partidos menores que constituem a chamada base de apoio do governo. Essa base, conforme o que já ficou claro na CPI dos Correios, era comprada com o dinheiro desviado pelo PT dos cofres de empresas públicas e particulares. Políticos de outros partidos também receberam as "doações" realizadas por meio de empréstimos ilícitos e pagamentos por serviços de publicidade com valores inflados. No entanto, nessa fabulosa rapinagem, a maior já vista na história do país, o PT é o principal ator. Ele é o responsável pela existência do aparelho delinqüente.

A garrafa da crise está desarrolhada e não é mais possível voltar a fechá-la. A pressão criada no interior da garrafa pela fermentação da ganância, rivalidades, inveja de classe, fome de poder, ódio, culpa e pânico parece destinada a expelir tudo o que existe dentro dela, até a última gota. A análise do que vier à tona é que se tornará decisiva. E, nesse ponto, a interpretação até agora feita pela elite é muito cuidadosa em relação ao papel do presidente Lula nas ocorrências investigadas pela CPI. O presidente deve ser convidado a baixar a cabeça, sim. Para ver melhor onde está pisando.

Roberto Pompeu de Toledo Leoa de um lado, gata distraída do outro

VEJA

Depoimento da mulher de Marcos Valério
representou vitória estrondosa da família
sobre o Estado

Imagine-se o leitor, ou a leitora, morador(a) do exclusivo condomínio Retiro do Chalé, ao sul de Belo Horizonte, perto da casa onde mora a senhora Renilda Santiago Fernandes de Souza. Que sorte contar com uma vizinha como essa. A aparência, os modos, a fala, não deixam dúvida – é uma pessoa em quem se pode confiar. É o tipo de pessoa a que se pode recorrer de olhos fechados, se um dia surgir o problema de ter de deixar as crianças com alguém.

Renilda é a mulher do hoje célebre Marcos Valério Fernandes de Souza, e não há nenhuma ironia no que acima se disse dela. Seu depoimento na CPI dos Correios, na semana passada, não deixou dúvidas de que é uma dona-de-casa, mãe e esposa exemplares. Também não há razão para supor que o marido seja menos prestimoso nos assuntos privados. Agora, vá o leitor, ou leitora, entregar uma prefeitura ao casal, um governo de estado, um ministério... No governo da casa e da vida íntima, pode haver igual, como disse outro dia de si próprio o presidente Lula, sobre o respeito aos mandamentos da ética, mas melhor impossível. Já quando se dá à dupla a chave do Erário...

A apresentação da senhora Marcos Valério foi, de longe, o que de melhor ofereceu, até agora, a CPI. E não apenas pelo que ela declarou ou deixou de declarar sobre o caso em si ora em investigação. Aquela senhora bonita e de fino trato, fortíssima por um lado e frágil de se desmanchar em lágrimas por outro, proporcionou-nos uma aula de Brasil ao pôr diante dos olhos do público um embate velho como o país – o da família contra o Estado. Terça-feira passada foi o dia em que, por artes de Renilda, essas duas entidades se defrontaram ao vivo pela TV, direto da sala da CPI, com resultados consagradores para a família e humilhantes para o Estado.

O Estado, ao contrário, mais uma vez, do que pensa o presidente Lula, não é uma extensão da família. O presidente gosta de posar de pai dos brasileiros e de comparar o andamento do governo a uma criança que aprende a andar, depois vai à escola etc. É má pedagogia. No clássico Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda ensina que Estado e família pertencem a "ordens diferentes em essência". Só pela "transgressão da ordem doméstica e familiar" – vale dizer, em complemento ao mestre, pela superação do universo dominantemente afetivo, particularista e egoísta que é o da família – "é que nasce o Estado". O simples indivíduo torna-se então "cidadão, contribuinte, eleitor, elegível, recrutável e responsável perante as leis da cidade". Há nessa transformação, conclui o autor, com a habitual e elegante clareza, "um triunfo do geral sobre o particular, do intelectual sobre o material, do abstrato sobre o corpóreo".

Que dificuldade, no Brasil, em distinguir uma ordem da outra. Quando o indivíduo entra na órbita da administração do Estado, seja por eleição, nomeação, apadrinhamento ou mesmo pela simples relação de amigo do amigo – caso de Marcos Valério –, nada é mais comum do que arrastar consigo os valores familistas do afeto, do particularismo e do egoísmo. Na época dos escândalos de Collor, uma conhecida senhora, dessas que são classificadas de "socialite", disse, em defesa do caçador de marajás: "No momento em que você ocupa um cargo que o favoreça de alguma forma, acho até um pouco de burrice não aproveitar a situação". A frase, de comovente candura, tem como corolário que, se você não "aproveita", estará prejudicando a família. Quantos, aberta ou ocultamente, não partilhariam o mesmo pensamento, por estes Brasis tão ardentes de amor familiar e tão órfãos de respeito à esfera pública? É muito fácil execrar "os políticos" e escandalizar-se com a corrupção. Raro é examinar no mais recôndito da consciência como seria o próprio comportamento caso se tivesse o Erário ao alcance da mão.

O que faz Renilda tão fascinante é que ela não está sozinha. Ela representava, naquela cadeira da CPI, tão vulnerável e ao mesmo tempo tão esperta, tão digna de pena e tão digna de raiva, um tipo que brota com a fartura do chuchu, por estes solos, em especial entre as pessoas de sua classe social. Renilda se disse "um pouco leoa" quando se trata de defender a família. Exibiu avassaladora devoção aos filhos e ao marido. E disse que proibia terminantemente encontros políticos ou de negócios no sagrado recesso do lar. Quanto ao vertiginoso crescimento de sua conta bancária, do patrimônio familiar e de seu nível de vida, coincidindo com a entrada em cheio do marido no mundo da política, ela nem reparou. Não podia ser mais agudo o contraste entre a atenção da leoa do lar quando o que está em jogo é o bem-estar dos seus e a desatenção de gata preguiçosa com respeito aos meios pelos quais o marido lhe ia aumentando os luxos. A ética, para Renilda – e para as Renildas, a multidão de Renildas e Renildos que no Brasil garantem a vitória permanente da roubalheira e do atraso –, é um valor tão sagrado que, assim como o afeto, a confiança e o respeito, deve ser reservado única e exclusivamente à família.

Claudio de Moura Castro Educação baseada em evidência

VEJA

"Os alunos de professores que cursaram
magistério ou pedagogia têm notas piores do
que os de professores que possuem diploma
superior em outra carreira. Aprende mais
quem aprende com quem não é professor?"

Se consultarmos um médico bem formado, uma vez feito o diagnóstico, ele vai decidir a terapia com base na experiência passada com pessoas que portavam a mesma síndrome e tomaram diferentes remédios. Será receitada aquela droga cujas estatísticas de sucesso são maiores do que as alternativas disponíveis. Decide a evidência, e não a palavra do luminar ou a tradição. É a medicina baseada na evidência.

Seria de imaginar que, na sala de aula, o critério fosse o mesmo. A evidência do que deu mais certo orientaria a escolha do método de alfabetizar, do livro ou da forma de ensinar. Parece lógico, funciona na medicina. Mas o professor não busca a evidência acumulada para orientar sua sala de aula. Uma possível explicação para isso é que a evidência científica é incontrolável e pode revelar verdades desagradáveis.

Ilustração Ale Setti


Com o auxílio de João Batista de Oliveira, exploro abaixo algumas constatações constrangedoras e penosas. O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é uma prova tecnicamente bem-feita e impecavelmente aplicada. Mostra o nível de aprendizado dos alunos a ele submetidos. Tomando estudantes da 4ª série do ensino fundamental e tabulando pelo perfil dos professores que eles tiveram, podemos calcular a média para cada subgrupo. Essa média indica quanto aprenderam os alunos que têm mestres com este ou aquele perfil de formação. Os alunos de professores que cursaram magistério ou pedagogia têm notas piores do que os de professores que possuem diploma superior em outra carreira. Aprende mais quem aprende com quem não é professor? Não sabemos ao certo. Se for verdade, por que não facilitamos aos que possuem outros diplomas de curso superior o acesso ao magistério? O Saeb apenas dá pistas. É preciso aprofundar a análise, com dados complementares. Temos muitas estatísticas, temos gente qualificada para analisá-las com a sofisticação requerida. Precisamos saber mais e com mais precisão. O Saeb mostra outras pistas interessantes. Buscando-se os fatores que mais aumentam o rendimento dos alunos, encontramos os seguintes:

• O maior diferencial de rendimento está ligado ao cumprimento do currículo previsto. Se o professor não ensina, o aluno não tem chance de aprender. Parece óbvio, mas o mau uso do tempo é endêmico.

• Um dos fatores mais correlacionados com bons resultados é o uso regular de livros e de outros recursos da biblioteca. Diante disso, causa espanto ver menos de 50% das escolas com bibliotecas.

• Aprendem mais os alunos de professores que consideram ótimo o livro didático adotado. Contudo, em apenas metade das classes todos os estudantes possuem livros e só a metade dos mestres recebe do MEC o livro solicitado.

• Os professores contratados via CLT têm alunos com mais alto rendimento. São melhores mestres do que os estatutários e os contratados em regime precário? Por quê? É o regime ou têm alunos diferentes?

• Os alunos dos professores que fizeram cursos de capacitação, abundantemente oferecidos pelo país afora, não têm notas melhores. Serão inúteis tais cursos?

O Saeb não é diagnóstico preciso nem terapia, apenas um termômetro. Mostra a existência de um problema e dá pistas para sua identificação em estudos subseqüentes, com ferramentas mais elaboradas. Mas, se acreditamos na educação baseada em evidência, não podemos ignorar o sinal de alarme, sugerindo que algo vai mal. O aluno deve aprender no livro. Mas a primeira cartilha para avaliar os sistemas educativos é o Saeb. Todavia, como está denunciando verdades particularmente desagradáveis, não podemos esperar que os prejudicados tomem iniciativas. Nada vai acontecer sem a intervenção de outras forças vivas da sociedade.





Dirceu volta para o centro da crise da Veja

Ele assusta o governo

No olho do furacão, às vésperas de seu
duelo com Roberto Jefferson, o ex-ministro
José Dirceu manda recados ameaçadores,
inclusive a Lula, para evitar que sua cabeça
seja dada como prêmio à oposição


Otávio Cabral e Julia Duailibi

Alex Ribeiro/Futura Press
ARQUIVO VIVO
Dirceu se arma com memória do governo e da campanha para fugir à cassação desejada também pelo Planalto


O esquema clandestino de arrecadação de dinheiro e repasse a parlamentares aliados do PT, que ficou conhecido como mensalão, ganhou na semana passada um rosto de comando: o do ex-todo-poderoso ministro-chefe da Casa Civil, deputado José Dirceu. Desde que estourou o escândalo de corrupção no governo, em maio, o ex-ministro jurava desconhecer a estrutura milionária montada por seus colegas petistas para comprar apoio político e financiar campanhas eleitorais. Em depoimento à CPI dos Correios, Renilda Santiago Fernandes de Souza, mulher do publicitário Marcos Valério, o operador do esquema, disse que José Dirceu não só sabia de tudo como ainda se reuniu com representantes dos bancos envolvidos no caso, Rural e BMG, para tratar do assunto. Se confirmadas, as informações de Renilda comprovam o que havia muito se suspeitava: José Dirceu era o mandachuva do mais surpreendente escândalo de corrupção descoberto desde o impeachment do presidente Fernando Collor. Depois da revelação, a oposição e petistas importantes passaram a enxergar na cassação do mandato do deputado a melhor alternativa para abreviar a crise. Disposição que deverá aumentar com a revelação de que o sujeito que cuidava da agenda e despesas pessoais do ex-ministro estava na lista dos sacadores de uma conta da agência SMPB, de Marcos Valério, no Banco Rural (veja reportagem). O problema é que José Dirceu avisou que não vai aceitar assumir o papel de chefe de quadrilha – e ameaça envolver o presidente Lula.

 

Lula Marques/Folha Imagem
AMOR E ÓDIO
Parceria abalada: de homem forte do governo, Dirceu se distanciou de Lula, a quem acusa de ser traidor, desleal e ciumento

O ex-ministro é um arquivo dos acontecimentos recentes da política brasileira. Ele foi o responsável pela construção do PT nos moldes que se conhece, promovendo a chefes figuras virtuosas como José Genoíno, Delúbio Soares, Silvio Pereira e Marcelo Sereno.

Foi também o arquiteto da bem-sucedida campanha eleitoral de 2002, quando conseguiu atrair empresários e costurar alianças com outros partidos. Viu-se incumbido, ainda, da montagem do governo em todas as esferas, atendendo a interesses políticos legítimos e também aos inconfessáveis. Como chefe da Casa Civil, comandou a máquina administrativa e conhece como ninguém as áreas de interesse. José Dirceu tem a memória boa e a ruim do governo Lula. "Ele nunca dividiu com ninguém o mapa político dos cargos na administração", conta um ministro. "Fiz tudo com o conhecimento e o aval do presidente", repete Dirceu, dando a entender que, para se salvar, não hesitará em chantagear o presidente Lula.

 

Ana Araujo
Fernando Bizerra Jr../EFE

JOGADA EM FAMÍLIA
O casal Fernandes de Souza se esqueceu de muita coisa, mas se lembrou de que Dirceu sabia do esquema

Os recados enviados pelo ex-ministro são inequívocos. Peça-chave no escândalo, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares confessou ser o responsável pela máquina clandestina de arrecadação de recursos para campanhas políticas. Delúbio, enfatize-se, foi transformado em dirigente do partido pelas mãos de José Dirceu. Desde o início do governo, transitava livremente pelos principais gabinetes de Brasília como se fosse autoridade. O ex-tesoureiro era visto com freqüência no 4º andar do Palácio do Planalto, onde funciona a Casa Civil, e chegou a integrar a comitiva presidencial em viagens ao exterior. Nos últimos dias, porém, Dirceu tem dito a interlocutores que suas relações com Delúbio não eram tão boas como se apregoa. Aliás, seriam até muito ruins. "O Delúbio estava descolado, agindo por conta própria, falando diretamente com o presidente", disse o ex-ministro. O afastamento teria acontecido por divergências políticas. O ex-tesoureiro queria ser candidato ao governo de Goiás, mas Dirceu considerava a idéia imprópria. Delúbio, então, teria ido buscar apoio para a empreitada com o presidente Lula, seu velho amigo. "Se forem conferir quem o Delúbio visitou mais vezes no Palácio, vocês vão ver que o presidente ganha de longe", diz uma assessora do ex-ministro.

O curioso é que, ainda assim, Delúbio fez questão de preservar Dirceu em seu depoimento à CPI, dizendo que o ex-ministro não sabia nadica de nada dos empréstimos bancários malandros contraídos pelo PT e avalizados por Marcos Valério. Em outra demonstração um tanto peculiar de relação estremecida, Delúbio acrescentou um lance ao jogo de chantagem de Dirceu, mandando um torpedo contra Lula – o ex-tesoureiro fez vazar uma parte do depoimento que deu ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. No depoimento, Delúbio afirma que usou recursos do caixa dois do PT para financiar a festa da posse de Lula. Por último, ninguém consegue expulsar Delúbio do PT, apesar de todos os seus trambiques, com medo da reação do ex-ministro. Isso que é inimizade.

 

Dida Sampaio/AE
Nilton Fukuda/AE
EFEITO DOMINÓ NO PT
Dirceu tenta se livrar da responsabilidade pela crise que abala o PT e o governo, mas seus aliados no partido vão caindo um por um, todos abalados pelas provas de corrupção. No sentido horário: Silvio Pereira (acima, à esq.), que caiu por ter recebido um jipe de um empresário; Marcelo Sereno, afastado da Casa Civil e da direção do partido; Genoíno, enrolado com os dólares da cueca; e Delúbio, também homem de Lula
Bruno Stuckert/Folha Imagem
Dida Sampaio/AE

Delúbio não é o único personagem da crise que o ex-ministro José Dirceu e sua turma tentam aproximar perigosamente do presidente Lula. Eles andam espalhando por Brasília que o presidente esteve reunido com o publicitário Marcos Valério em pelo menos duas situações: num encontro formal na Granja do Torto e num despretensioso cafezinho no gabinete palaciano. Ambos teriam sido encerrados com o presidente agradecendo a Valério pela ajuda que vinha dando ao PT. "Lula conversa com Deus e com todo o mundo. É impossível fazer a averiguação prévia de todo mundo que entra lá. Vocês deveriam verificar", insinuou na semana passada um dos mais próximos assessores de Dirceu, ao ser indagado sobre as tais visitas. A Presidência da República informou oficialmente que Lula nunca se encontrou com Marcos Valério, seja no Palácio do Planalto, na Granja do Torto ou no Palácio da Alvorada. Embora negada peremptoriamente, a história é explosiva, se comprovada, e prospera como rastilho de pólvora, como desejam os amigos do ex-ministro.

Dirceu também fustiga Lula por outro lado. Comenta que o presidente tinha ciúmes de sua capacidade administrativa. Todas as vezes que apareciam notícias de que ele deixaria o governo, contou o ex-ministro a um amigo, havia uma fieira de pedidos a seu favor. Isso irritava o presidente, que se sentia menor do que seu ministro da Casa Civil. A situação, de acordo com relatos de Dirceu, chegou a tal ponto que o presidente passou a não convidá-lo para eventos e encontros importantes. O ex-ministro se considerava o sucessor natural de Lula. Antes da campanha de 2002, a quarta do PT, queria ser o candidato do partido, mas, como Lula não abriu mão, ele o apoiou e ajudou a construir sua vitória. Esperava, como sinal de gratidão, que Lula fizesse dele candidato à sua sucessão, em 2006 ou 2010. Em lugar disso, na sua opinião, foi traído. O ex-ministro diz que, por culpa de Lula, saiu do governo de maneira humilhante. Afirma que decidiu deixar o cargo logo depois das primeiras acusações do deputado Roberto Jefferson de que ele seria o chefe do mensalão. A disposição, porém, durou pouco. Dirceu diz que foi convidado para um jantar com o presidente na Granja do Torto. Na ocasião, comunicou a Lula que pretendia deixar o governo para não criar constrangimentos, e que também precisava de tempo para se defender. Lula teria pedido para que ele ficasse. O então ministro saiu do Torto se sentindo prestigiado e decidido a enfrentar a crise ainda como homem poderoso. Dois dias depois do jantar e horas após o famoso discurso de Jefferson em que ele aconselha Dirceu a deixar o governo, foi chamado ao gabinete do presidente. "Acho melhor você sair", disse Lula, de maneira brusca. Devido ao comportamento errático do presidente, segundo Dirceu, ele e o governo se transformaram em reféns de Roberto Jefferson. Ao narrar esse episódio aos seus assessores, Dirceu se referiu a Lula com os mesmos termos que um torcedor de futebol costuma dedicar ao juiz que marcou um pênalti injusto contra seu time.

Dirceu não tem dúvidas de que ele é uma espécie de troféu para a oposição e que pode ser vítima de uma conspiração de ex-aliados. Ele sabe que tem gente no governo que gostaria de ver sua cabeça numa bandeja. E tem mesmo. O Palácio do Planalto não duvida de que o escândalo do mensalão resultará em baixas de todos os lados e negocia com a oposição uma saída que atenda aos interesses políticos dos dois lados. Em alguns gabinetes palacianos, correu na semana passada uma lista com os nomes dos parlamentares que deverão perder o mandato. O governo até nomeou um interlocutor para discutir com a oposição a fila da guilhotina. José Dirceu é o primeiro nome da lista oficial. O algoz petista é o secretário-geral do PT e ex-ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini. Em conversas recentes com líderes da oposição, entre eles os pefelistas Jorge Bornhausen e José Agripino e os tucanos Tasso Jereissati e Arthur Virgílio, Berzoini ofereceu a cassação dos petistas Dirceu, João Paulo Cunha, Paulo Rocha e José Mentor, além da de outros líderes aliados, como Valdemar Costa Neto e Sandro Mabel, do PL, José Janene, do PP, José Borba, do PMDB, e Roberto Jefferson. Em troca, quer a preservação de Lula e a entrega de alguns oposicionistas, como o presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, que usou o valerioduto em sua campanha ao governo de Minas Gerais, em 1998, e o pefelista Roberto Brant, que se beneficiou do esquema em 2002. A oposição topou.

 

Dida Sampaio/AE
J. F. Diorio/AE
NAS MÃOS DE AMIGOS E INIMIGOS
Na semana de seu depoimento, Dirceu acompanha os passos de Berzoini (acima, à esq.), que negocia sua cabeça com a oposição, usa Mentor (acima, à dir.) para mandar suas ameaças e se preocupa com o futuro do cambaleante João Paulo
Celso Junior/AE

Ao tomar conhecimento da tal lista, Dirceu contra-atacou com mais uma ameaça. Recluso em seu apartamento e preparando a defesa que apresentará nesta terça-feira ao Conselho de Ética da Câmara, o ex-ministro recebeu uma comitiva de três deputados petistas, não por acaso todos pilhados sacando dinheiro das contas de Marcos Valério no Banco Rural – Paulo Rocha (470 000 reais), José Mentor (120 000 reais) e Professor Luizinho (20 000 reais). Dirceu também conversou com o ex-presidente da Câmara deputado João Paulo Cunha (50 000 reais), que pensou em renunciar ao ser descoberto, mas mudou de idéia diante da nova estratégia do ex-ministro. O recado embutido nesses encontros: eles estão unidos, o que significa dizer que, se preciso, vão emparedar o governo. A turma de Dirceu considera equivocada a manobra para proteger o presidente, atribuída ao ministro Márcio Thomaz Bastos. Por trás dela, haveria, inclusive, reflexos de uma rixa antiga entre Dirceu e o ministro da Justiça, a quem sempre criticou por não ter o mínimo controle sobre a Polícia Federal. A divergência entre os dois chegou ao ápice com a prisão do publicitário Duda Mendonça no ano passado. Dirceu soube do fato e telefonou para o ministro Márcio Thomaz para perguntar se era verdade. O ministro foi verificar e disse que a notícia não procedia. Dirceu, que estava num jantar, viu pela televisão o amigo Duda sair preso de uma rinha de galo. "É muita incompetência", esbravejou.

O problema de Dirceu é que, embora repita que nada sabia sobre o esquema ilícito de arrecadação, ninguém acredita. Renilda disse, sem ser perguntada, que ouviu de Marcos Valério, que por sua vez teria ouvido de Delúbio Soares, a informação de que o ex-ministro sabia do caixa dois e até se encontrou com representantes dos bancos envolvidos no escândalo. Após a denúncia, Dirceu primeiro se calou e depois afirmou que não se lembrava do encontro. Só após o Banco Rural ter emitido uma nota confirmando a reunião é que sua memória, sempre muito boa, funcionou. Mas o tema da reunião nada teria a ver com empréstimos ou pagamentos de campanhas. A versão oficial, anunciada pelo Rural e confirmada por Dirceu, é que os banqueiros estariam interessados em comprar o Banco Mercantil de Pernambuco, que está em processo de liquidação. Nada mais. Na reunião, Dirceu teria falado muito sobre economia e, só no finalzinho, um pouco sobre o que interessava, e ainda assim para dizer que trataria do assunto após as eleições municipais. Por que o ministro-chefe da Casa Civil trataria de um tema financeiro completamente fora das atribuições de seu cargo? Talvez pelos milhares de razões que levaram seu "secretário particular", Roberto Marques, a constar da lista de pessoas autorizadas a sacar dinheiro de uma conta de Marcos Valério no Banco Rural, como se verá  nas paginas seguintes

Ajudante de Dirceu estava autorizado a sacar no Rural VEJA

Aonde Dirceu vai...
...Bob vai atrás

Documento em poder da CPI mostra que
ajudante e amigo do ex-chefe da Casa Civil
foi autorizado por Marcos Valério a sacar
50 000 reais no Rural


Julia Duailibi e Victor Martino

 

Ernesto Rodrigues/AE
DÚVIDA
O que será que o ajudante Bob Marques carregava na mala da foto? Documentos, autorizações de saque, fotos de Fidel Castro, as cuecas de José Dirceu? Os dois, segundo Bob, são amigos há mais de vinte anos

Não foi só o depoimento de Renilda Santiago que colocou o ex-ministro José Dirceu no epicentro do escândalo do mensalão. Um documento, apreendido pela Polícia Federal na agência do Banco Rural em Belo Horizonte, revela que, entre as pessoas autorizadas a sacar dinheiro das contas do publicitário Marcos Valério, estava um dos principais ajudantes de Dirceu, Roberto Marques, conhecido como "Bob", que cuida da agenda e das contas do ex-chefe da Casa Civil. A descoberta surpreendeu a bancada petista na CPI dos Correios e provocou frisson entre os oposicionistas, que vêem no documento em poder da comissão o mais forte indício até agora da ligação de Dirceu com o esquema irregular de arrecadação de fundos. O documento, um fax com papel timbrado do Banco Rural, foi enviado à agência de São Paulo no dia 15 de junho do ano passado. Nele, um funcionário da agência mineira encaminha ao colega da Avenida Paulista uma autorização para o "sr. Roberto Marques receber a quantia de 50.000, referente ao cheque 414270, da empresa SMPB Comunicação".

 


Os membros da CPI já sabem que, apesar da autorização dada ao ajudante de Dirceu, o saque foi feito no dia seguinte por Luiz Carlos Mazano, contador da corretora Bonus-Banval, que também estava autorizado a realizá-lo. A corretora informou que realmente tem um funcionário com esse nome, mas que o saque teria sido feito por um homônimo. O advogado da corretora, Antônio Sérgio Pitombo, vê armação. "Quando se associa o homônimo à corretora, o que se quer é agir de má-fé e desviar o foco das investigações da CPI", diz. Não é a primeira vez que o nome da Bonus-Banval aparece na investigação do escândalo do mensalão. Em Brasília, as investigações identificaram saques no valor de 225.000 reais cujo autor é Benoni Nascimento de Moura, funcionário da Banval. A corretora diz que está realizando uma auditoria interna para descobrir se houve alguma irregularidade cometida pelo funcionário Benoni. Quanto a Roberto Marques, a Bonus-Banval diz que não conhece nem nunca ouviu falar do ajudante de Dirceu. Pouco se sabe ainda sobre as atividades da corretora paulista, exceto que ela empregou até o fim do ano passado como estagiária Michele Janene, filha do deputado José Janene, suspeito de ser um dos chefes do mensalão. Talvez um bônus do tipo banval.

O aparecimento de Roberto Marques deve pautar os debates da CPI dos Correios, que vai ouvir nesta semana a diretora financeira da SMPB, Simone Vasconcelos. Bob é uma espécie de secretário particular de Dirceu. Faz as vezes de motorista, de despachante e de carregador de bagagem. Funcionário da Assembléia Legislativa de São Paulo, ninguém sabe direito o que ele é realmente – só que está sempre na companhia de Dirceu. Em muitas ocasiões, foi visto circulando por gabinetes do Palácio do Planalto. Em março deste ano, Bob, sob o comando de Dirceu, foi um dos mais ativos operadores na campanha para a presidência da Assembléia Legislativa de São Paulo. A parceria entre Bob e Dirceu é tão intensa que o assessor chegou a representar oficialmente o então ministro da Casa Civil em solenidades, como a organizada pela Associação para Prevenção e Tratamento da Aids, realizada em 2003, em São Paulo. "Sou amigo do Zé há vinte anos. Faço companhia a ele nos fins de semana e ajudo no que for possível", afirma Bob. Dinheiro de Valério? Ele garante que nada tem a ver com isso. É, segundo ele, coincidência ou armação. "Só em São Paulo existem 5.000 pessoas com o mesmo nome", diz o amigo-secretário de Dirceu. "Nunca estive no Rural, não saquei dinheiro nenhum e se usaram meu nome foi indevidamente", garante ele. O problema é que a CPI resolveu investigar e descobriu que a autorização foi, sim, dada ao assessor legislativo, embora ele não tenha sido o autor do saque. "Só pode ser então uma armação para complicar a vida do Zé Dirceu", afirma. Esse Bob é mesmo esponja.

R. R. Rufino/Jornal de Londrina
OLHA O JANENE AÍ, GENTE
A filha do deputado José Janene, líder do PP, trabalhou na mesma corretora do contador Luiz Mazano, que teria sacado o dinheiro destinado a Bob pela SMPB

A confirmação de que o Roberto Marques do documento do Rural é o mesmo Bob ajudante de Dirceu foi dada a VEJA na última sexta-feira pelo deputado Carlos Abicalil, do PT de Mato Grosso. Sub-relator da CPI dos Correios, o parlamentar contou que foi procurado pelo próprio Marques na semana retrasada para tentar esclarecer o aparecimento de seu nome nos documentos contábeis do Banco Rural. Segundo o deputado, o assessor repassou o número de sua identidade e de seu CPF, para que ele pudesse conferir com os documentos em poder da CPI. O resultado da pesquisa, nas palavras do próprio deputado, foi o seguinte: "O número do RG conferia. Só não conferia o saque", diz.

Dirceu sabia que o documento com o nome do ajudante apareceria cedo ou tarde. O próprio Roberto Marques contou ter conversado com o ex-ministro sobre o assunto muito antes de surgirem os rumores de que o papel existia. "Eu disse que não tinha nada a ver com isso." Desde o início da semana passada, Dirceu procurava insistentemente falar com o presidente da CPI, o senador Delcidio Amaral. Na terça-feira, Delcidio foi à casa do ex-ministro, onde passou meia hora. Os dois tiveram uma conversa dura, segundo relatos ouvidos por membros da CPI. Oficialmente, discutiram sobre o andamento dos trabalhos da comissão. O ex-ministro demonstrou grande preocupação com a velocidade da investigação e, principalmente, com o vazamento de documentos – um estranho incômodo para quem, em tese, nada tem a ver com o assunto. Dirceu também defendeu que seu depoimento era desnecessário. Por fim, fez uma proposta indecorosa ao presidente da CPI. Sugeriu a Delcidio que barganhasse seu depoimento em troca da não-convocação do presidente do PSDB, Eduardo Azeredo, cujo nome também apareceu como beneficiário do dinheiro de Marcos Valério. Delcidio desconversou. Outros parlamentares afirmam que Dirceu queria sumir ainda com a autorização de saque para Bob, sob a alegação de que era um papel avulso, sem validade jurídica. Sobre o aparecimento do nome de seu secretário particular, ajudante, amigo e, agora se sabe, pau para toda a obra, Dirceu mandou dizer que tudo indica tratar-se de uma "plantação" para prejudicá-lo. A convocação do ex-ministro para a CPI deverá ser aprovada nesta semana.

Até agora, só Roberto Jefferson disse a verdade VEJA

A bomba da verdade

Os fatos trataram de demonstrar
que Roberto Jefferson não estava
mentindo quando falou em mensalão,
Delúbio, Valério...

Celso Junior/AE

O HOMEM-BOMBA FALA
Roberto Jefferson em uma de suas inúmeras entrevistas, após deflagrar o escândalo do mensalão: expectativa do confronto com José Dirceu


No início de junho, em entrevista à Folha de S.Paulo, o deputado Roberto Jefferson falou pela primeira vez na existência do mensalão, um esquema clandestino de pagamento de suborno a deputados da base aliada. A operação, segundo Jefferson, tinha o comando do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e era organizada pelo tesoureiro do PT, Delúbio Soares. O pagamento ficava a cargo de um obscuro publicitário mineiro, Marcos Valério. De lá para cá, quase todas as denúncias do deputado do PTB acabaram se confirmando e, mesmo entre parlamentares do PT, já não há mais dúvida de que o mensalão existiu. Jefferson ainda prestou dois depoimentos para a Câmara dos Deputados e, a cada nova denúncia que fazia, surgiam fatos que comprovavam as acusações. Nesta semana, o deputado terá finalmente o momento que espera desde o início do escândalo do mensalão. Jefferson promete estar na primeira fila do Conselho de Ética da Câmara, onde o ex-ministro e deputado federal José Dirceu também prestará depoimento. São esperadas novas emoções.







O QUE JEFFERSON DISSE...

...FOI CONFIRMADO  

"O mensalão é um repasse de recursos feito pelo PT para deputados da base aliada, em especial o PP e o PL. São 30 000 reais por mês para cada deputado"

Deputados e assessores de parlamentares do PT, PP e PL fizeram saques milionários em uma agência do Banco Rural, em Brasília  
"Esse dinheiro chega a Brasília, pelo que sei, em malas"   No último mês, a Polícia Federal apreendeu, nos aeroportos de Brasília, Congonhas e Belo Horizonte, malas carregadas de reais e dólares. O dinheiro estava em poder de políticos  
"O Delúbio tem como pombo-correio o Marcos Valério, um carequinha que é publicitário lá de Minas Gerais e repassa o dinheiro aos partidos" A movimentação bancária de Valério e de suas empresas mostrou que o dinheiro sacado pelos políticos saía da conta de suas agências  
"No princípio deste ano, em duas conversas com o presidente Lula, eu disse: 'O Delúbio continua dando mensalão'. 'Que mensalão?', perguntou o presidente. Aí, eu expliquei"   A Secretaria de Coordenação Política confirma uma das reuniões. VEJA apurou que, em outros quatro momentos, Lula foi informado do mensalão  
"José Janene vai na fonte, paga, vem, é um dos operadores do mensalão"   João Cláudio Genu, chefe-de-gabinete do deputado José Janene, líder do PP na Câmara, sacou 900 000 reais das contas bancárias de Marcos Valério
"O Silvinho possuía uma sala, no Planalto, ao lado do gabinete do José Dirceu"   Em depoimento à CPI dos Correios, o ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira admitiu que participava de reuniões em uma sala no Palácio do Planalto  
"As prestações de contas das campanhas de deputado, senador, governador e presidente estão muito aquém do que realmente é gasto"  O ex-tesoureiro Delúbio Soares assumiu que o PT usou caixa dois em suas campanhas e o presidente Lula disse que o que seu partido fez é "o que é feito no Brasil sistematicamente"
"Nas eleições, a gente estabeleceu com o PT uma troca de apoio e pediu financiamento para candidaturas" Delúbio Soares admitiu que o PT pagou dívidas de partidos aliados  
"Em julho, recebi 4 milhões de reais. O dinheiro foi levado ao partido pelo senhor Marcos Valério. Primeiro, foram 2,2 milhões. As notas eram etiquetadas: 'Banco Rural' e 'Banco do Brasil'" O Banco Rural era usado por Marcos Valério para repassar recursos aos parlamentares e o PT obteve empréstimos no Banco do Brasil
"Sai daí, Zé, sai rápido" Cinqüenta horas após a declaração de Jefferson, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, apontado pelo deputado do PTB como "mentor" do esquema do mensalão, apresentou sua carta de demissão a Lula, que a aceitou imediatamente

O isolamento do presidente VEJA

Lula no palanque

Com esperança de sobreviver à crise,
Lula minimiza os escândalos, segue sua
"intuição" e cumpre agenda de candidato


Otávio Cabral e Thaís Oyama


J. F. Diorio
NO MUNDO DO LULA
O presidente em Bagé: mensalão, dólar na cueca e Land Rover – tudo "diz-que-diz", segundo Lula, apesar de todas as provas de que o governo chafurda na corrupção



Há duas semanas, a agenda do presidente Lula sofreu uma guinada. Antes voltada principalmente para viagens e despachos internos, ela se converteu em um festival de barulhentos eventos públicos, presenciados por gigantescas platéias sempre simpáticas ao presidente. Lula falou para metalúrgicos, petroleiros, cegonheiros e esportistas. Vestiu poncho em Bagé (RS), almoçou num bandejão em Duque de Caixas (RJ) e escalou um barranco em Canoas (RS). Em todas as ocasiões, carregou no improviso. Proclamou que "as elites" não lhe fariam "baixar a cabeça", avocou para si outra vez o título de cidadão mais ético do Brasil e evocou seu arquiconhecido passado de pobreza. O que chegou a ser interpretado como uma saída à la Hugo Chávez – o presidente venezuelano que, acuado pela oposição, socorreu-se junto às massas para mudar a Constituição – é, na verdade, outra coisa. Com sua agenda e discurso populistas, Lula está, sim, tentando costurar uma aliança com os eleitores de baixa escolaridade e pouca renda, mas não com a intenção de proteger-se de uma tramóia das tais elites que tanto fustiga ou de uma eventual ameaça de impeachment. Lula voltou a sonhar com a reeleição. E já está em campanha.

Dois fatores contribuíram para essa decisão que é mais um sinal do autismo institucional do presidente. O primeiro foi a divulgação de pesquisas apontando o grau de desgaste sofrido por seu governo desde a eclosão do escândalo do mensalão. Embora os institutos tenham identificado um aumento de até 5 pontos no segmento de brasileiros que classificam o governo do PT como ruim ou péssimo, Lula considerou os resultados satisfatórios. E passou a observar atentamente as oscilações do eleitorado. Há duas semanas, pediu ao seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho, que ligasse para o diretor de um dos mais importantes institutos de pesquisa do país. Queria saber se os números haviam mudado. Diante da resposta negativa, disse, aliviado: "Está bom. E vai melhorar". Pouco antes, em uma reunião com Gilberto Carvalho e um ministro com sala no Planalto, o presidente já havia sinalizado a intenção de voltar aos palanques (partindo-se do pressuposto otimista de que ele chegou a sair deles nestes dois anos e meio de governo). No encontro, foi confrontado com duas possibilidades de compromisso para determinado dia. O ministro defendia uma agenda política, Gilberto Carvalho propunha um evento público. O presidente optou pelo evento público. Diante da decepção do ministro, justificou sua escolha com a seguinte provocação: "Quantos votos essa sua agenda aí vai me dar?" O ministro se calou.


Antonio Milena/ABR
Joedson Alves/AE
Agliberto Lima/AE
PODER, ATÉ AGORA, SO NO PAPEL
Promovidos por força da queda em série de ministros do primeiro time, Jaques Wagner, Luiz Dulci e o secretário André Singer (foto acima) até tentam, mas não conseguem influenciar o presidente

Lula está decidido a seguir sua "intuição". Desde que a crise engoliu alguns de seus ministros mais próximos (José Dirceu, arrastado da Casa Civil pelo furacão Roberto Jefferson; Luiz Gushiken, combalido com as denúncias em torno de seu envolvimento com os fundos de pensão; e Aldo Rebelo, liberado da longa agonia vivida na Coordenação Política), ele tem dispensado conselhos e rechaçado – algumas vezes aos gritos – as críticas que pouquíssimos auxiliares se atrevem a lhe fazer. O discurso em que atacou "as elites", por exemplo, não lhe foi soprado por ninguém. Saiu diretamente da cabeça presidencial e foi considerado um escorregão feio por pelo menos dois ministros: Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. Diante das críticas, Lula não deu o braço a torcer, pelo contrário: insistiu que estava certo e chegou a alterar o tom de voz em uma conversa sobre o assunto.

O desagrado ao discurso, porém, não foi unânime entre os seus auxiliares. Luiz Dulci, por exemplo, gostou. O secretário-geral da Presidência, promovido no vácuo deixado pela queda em série dos ministros do primeiro time, é partidário da tese estapafúrdia da "necessidade de mudanças na economia". Defende o endurecimento do discurso de Lula e sua aproximação com as classes C, D e E. Jaques Wagner – outro que ascendeu no curso dos escândalos, trocando o modorrento (e inócuo) Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social pela pasta da Coordenação Política – é tido, por enquanto, mais como um "amigão" de churrascos do presidente do que propriamente como um conselheiro. André Singer, embora se esforce para aumentar sua influência junto a Lula (o que inclui até mesmo longas rodadas de carteado com a primeira-dama Marisa Letícia da Silva), ainda está longe de ser levado em conta como estrategista de comunicação. Lula, portanto, vem agindo cada vez mais por conta própria. Tem pedido a governadores aliados que programem eventos populares em suas regiões. Em breve, deverá fazer uma grande viagem pelos estados do Norte, onde, segundo as pesquisas, seu apoio segue praticamente inalterado.


Joedson Alves/AE
ALVO TUCANO
O presidente do PSDB, Eduardo Azeredo: acusação de envolvimento em operação heterodoxa para financiar campanha

A iniciativa de Lula de se aproximar de seu eleitorado histórico tem origem em dois fatores. O primeiro é de ordem pessoal e se assemelha àquilo que a psicanálise chama de processo de regressão. Acuado, Lula, numa espécie de movimento reflexo, volta-se para o segmento que lhe deu origem, aquele em que se sente mais acolhido. No seu caso, os movimentos populares de base. A segunda razão é de caráter estratégico: três especialistas em pesquisas de opinião ouvidos por VEJA concordam que, neste momento, o petista ainda tem condições de se reeleger e age de forma oportuna ao concentrar esforços na fatia do eleitorado que lhe permanece fiel. Os especialistas, no entanto, afirmam que essa situação só tem chances de se manter sob uma condição: se não se revelar nenhuma denúncia que atinja Lula diretamente. E não cabe a eles, evidentemente, entrar no mérito do comportamento de um presidente que, no lugar de preocupar-se com a faxina ética que deveria estar comandando, está mais interessado no próprio umbigo. Na semana passada, Lula voltou a repetir a um amigo que tem certeza de que nada irá respingar nele. Na conversa, vociferou contra aqueles que o teriam traído (o ex-ministro José Dirceu, o ex-tesoureiro Delúbio Soares, o ex-secretário Silvio Pereira e o ainda deputado João Paulo Cunha) e confirmou que continua candidatíssimo em 2006. Disse que só abre mão da tentativa de reeleger-se se, a médio prazo, sua popularidade despencar. Neste caso, afirmou, defenderá o nome do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PPS), para o seu lugar. "Do PT eu não apóio ninguém."

Um outro episódio contribuiu para aumentar as esperanças do presidente de chegar razoavelmente inteiro às eleições presidenciais de 2006: a entrada dos tucanos no valerioduto. Na terça passada, surgiram indícios de que o esquema montado pelo empresário Marcos Valério para abastecer os cofres do PT pode ter beneficiado também o PSDB. Segundo revelou o jornal O Globo, em 1998 o PSDB de Minas Gerais teria recorrido a operações heterodoxas para financiar a campanha à reeleição do governador tucano Eduardo Azeredo. De acordo com a denúncia do jornal, em agosto daquele ano a agência de propaganda DNA, de Valério, contraiu um empréstimo de 11,7 milhões de reais no Banco Rural (sempre ele), em Belo Horizonte. A agência, conforme documentos reproduzidos pelo jornal, ofereceu como garantia ao financiamento contratos assinados com as secretarias de Comunicações e de Governo de Minas Gerais, estado então sob a gestão Azeredo. No mesmo período, a SMPB, outra agência de Valério, repassou dinheiro para cerca de setenta pessoas – entre elas políticos e gente ligada a lideranças que apoiavam Azeredo. O dinheiro repassado alcançou a cifra de 1,6 milhão de reais, em um esquema que lembrou o protagonizado pela dobradinha Delúbio-Valério. Azeredo, hoje presidente do PSDB, nega ter tido conhecimento do empréstimo e já se dispôs a depor sobre o assunto na CPI dos Correios.

No mesmo dia em que O Globo publicou a reportagem, o ex-presidente Fernando Henrique afirmou que é preciso "passar o Brasil a limpo" mas que o que aconteceu no seu governo "é coisa da história". Foi uma afirmação equivocada. Um crime, se comprovado, não perde sua natureza criminosa e "vira" história com o simples passar dos anos. Fernando Henrique, no entanto, chama atenção para a questão certa quando diz que o surgimento de denúncias contra tucanos não pode servir de pretexto para que se perca o foco na apuração do escândalo atual – mais grave e muito mais amplo. E muito menos para que, por força do espírito corporativo dos políticos, se costure uma espécie de anistia geral que permitirá que se safem alegremente da confusão tanto os agraciados pelo mensalão quanto os beneficiados por caixas dois.

Declarações dadas na semana passada por Lula e seus auxiliares não autorizam esperanças de que isso não acontecerá. Sem esperar a chancela da CPI nem da Justiça, o presidente decidiu, por sua própria conta, reduzir a avalanche de denúncias que ameaçam soterrar seu governo e seu partido a "um tal de diz-que-diz". Na quinta-feira, o ex-ministro da Educação e presidente do PT, Tarso Genro, declarou: "Quando ficar demonstrado que a corrupção é sistêmica, as coisas já começarão a tomar novo rumo". Novo rumo? Bem, a convocação de Dirceu à CPI dos Correios foi postergada. O PL tenta um acordo com o denunciante e réu confesso Roberto Jefferson para salvar seus deputados em troca da retirada do pedido de cassação do petebista. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, em uma intromissão flagrantemente indevida e fora de hora, afirmou que um eventual impeachment do presidente irá comprometer a governabilidade do país. Lula, do alto de seu palanque imaginário, exibe um sorriso de orelha a orelha. Já fareja o cheiro de pizza.

Otávio Cabral e Thaís Oyama

VEJA A crise incomoda, mas a economia está forte

O presidente alarmista

Em mais uma tentativa de abafar a
crise, Lula sugere que investigações
podem prejudicar a economia


Carina Nucci

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reagido de forma errática ao escândalo que expôs um ninho de corrupção dentro de seu governo. Inicialmente apático, prometeu, num segundo momento, investigar as denúncias até "cortar na própria carne". Depois, num repente populista, recuou, voltou-se contra as próprias investigações e sugeriu que as denúncias não passavam de uma tentativa "das elites" de curvá-lo. Na semana passada, o presidente decidiu acrescentar uma terceira estratégia: ameaçar a própria sociedade para esvaziar a crise. Na quinta-feira, ao discursar para funcionários de uma refinaria da Petrobras, na região metropolitana de Porto Alegre, Lula disse que a economia brasileira "ainda é muito vulnerável" e, por isso, segundo ele, não se pode "brincar nessa parte para que a gente não tenha um retrocesso, porque um retrocesso leva anos e anos para a gente recuperar". O recado foi claro: o presidente sugeriu que as instituições brasileiras, em vez de cumprir suas funções constitucionais, brincam ao investigar a crise política. E que essa "brincadeira" poderá levar o Brasil a uma indesejável tormenta econômica.

Não por coincidência, Lula resolveu falar sobre economia justamente na semana em que os mercados financeiros viveram seus momentos de maior tensão, desde que VEJA flagrou em maio um ato de corrupção nos Correios, a pedra de Roseta dos escândalos atualmente em curso. O dólar, o risco-país e os juros futuros subiram em razão do aprofundamento da crise política. A tensão nos mercados foi causada pela notícia, publicada também em VEJA, de que Marcos Valério ameaçava o presidente com a possibilidade de contar tudo o que sabia caso não recebesse ajuda financeira. Acuado, Lula apelou. O problema (só para ele, é claro) é que os indicadores voltaram a melhorar nos últimos dias, numa prova de que, apesar de não haver blindagem que resista intacta às dimensões da crise, a economia brasileira é muito menos frágil do que tenta fazer crer o presidente em proveito próprio.


Paulo Marcio/1º Plano
BANCO RURAL NÃO É AMEAÇA
Para o Banco Central, problemas no banco do mensalão não causarão crise no setor

Ao contrário do que disse Lula, a economia brasileira surpreende positivamente porque sua vulnerabilidade externa caiu de maneira drástica nos últimos dois anos. O próprio presidente sabe disso. Em dezenas de cerimônias públicas e viagens internacionais, apropriou-se do mérito de sua equipe econômica, que, de 2003 para cá, colocou em curso uma receita correta, mas impopular, para fortalecer a economia. E é essa receita a barreira que impede que o mar de lama do governo Lula arraste a economia para o buraco – como aconteceu em outros períodos. Em 2002, o risco-país, o dólar e os juros dispararam em questão de poucas semanas quando o então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva começou a despontar nas pesquisas pré-eleitorais. Naquela ocasião, quando se imaginava que o problema dos petistas era o destrambelho ideológico, e não a falta de ética, o mercado temia que um governo do PT pudesse jogar por terra duras conquistas na esfera econômica – como a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio flutuante e o sistema de metas de inflação.

O que se viu foi o inverso. A responsabilidade fiscal aumentou e a inflação caiu. Some-se a isso um espetacular superávit na balança comercial. Superávit esse que o presidente Lula exibiu como a maior conquista do país durante seu governo nas suas mil e uma viagens à China, Japão, África do Sul etc. Nos últimos dois anos, a economia melhorou muito. O saldo comercial saltou de 13 bilhões de dólares para 37 bilhões de dólares. A balança transformou-se na principal fonte de moeda estrangeira para o país pagar suas contas externas. É claro que a equipe econômica contou com a ajuda do resto do mundo. O PIB global, impulsionado pelo desempenho dos Estados Unidos e da China, aumentou mais de 5% no ano passado e não reduzirá muito o ritmo de crescimento neste ano. O apetite mundial por soja e outras commodities serviu de alavanca para as exportações brasileiras. Ainda que não seja tão necessário, o capital de curto prazo tem sido cada vez mais desviado dos países ricos para o Brasil, atraído pelos juros altos que o governo brasileiro paga. Mas o que tem determinado o câmbio é muito mais a entrada de dólares via comércio exterior do que a entrada de dinheiro especulativo. Com uma fonte de moeda estrangeira muito mais estável – a balança comercial –, o dólar enfrenta resistências para subir acima de 2,50 reais. O exemplo de 2002 é didático. Naquele período, o magro saldo da balança deixava o país muito mais dependente dos estrangeiros que investem em juros e ações no Brasil. O poder de fogo desses especuladores para apostar contra o real ficou pequeno diante dos sucessivos recordes das exportações. E, mesmo que ocorra uma fuga de capitais, seu efeito será infinitamente menor do que o estrago provocado em 2002, quando o dólar chegou a 4 reais. "Na crise de confiança, muita gente perdeu dinheiro porque apostou que o dólar ficaria alto por muito tempo. O mercado não cometerá o mesmo erro hoje porque não apostará contra os bons fundamentos da economia", afirma Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco.

Em sua estratégia de amedrontar a sociedade com a fala de que a economia brasileira é vulnerável, o presidente contradisse os dois homens fortes de sua equipe econômica. Em entrevista a VEJA, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, afirmou que "a crise política não deverá ter impactos sobre a economia". Segundo o ministro Palocci, o mesmo a quem Lula cansou de atribuir a melhora que seu governo promoveu na economia, o "Brasil tem instituições que já estão trabalhando ativamente para solucionar a crise política, e é isso que dá ao governo a tranqüilidade de que os agentes econômicos continuarão tomando suas decisões com base num cenário positivo que se projeta para o país". O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, também veio a público para combater o argumento da fragilidade econômica. Nas palavras de Meirelles, "os sólidos fundamentos da economia não permitirão que o país se desvie da rota de crescimento". Enquanto Lula escolhe palavras negativas como "vulnerabilidade" e "retrocesso", seus escudeiros na área econômica preferem "tranqüilidade" e "solidez". Seria curioso se não fosse trágico.

Na prática, Lula tentou botar lenha numa fogueira que sua própria equipe econômica e o mercado financeiro querem sufocar. É fato que a economia crescerá menos do que poderia se não houvesse a crise. Antes dela, a previsão de crescimento do PIB era de 3,5%. Hoje, economistas apostam que o PIB crescerá entre 2,5% e 3%. Investimentos em novos negócios, abertura de empresas e as tão esperadas parcerias público-privadas ficarão comprometidos caso a crise se prolongue. O dólar deve continuar subindo – ainda que moderadamente, o que encarecerá viagens ao exterior e produtos importados. Mas o efeito sobre a inflação deve ser bem pequeno porque os preços se encontram numa acelerada trajetória de queda. No Congresso, projetos importantes, como a reforma tributária e a lei que favorece a abertura de micro e pequenas empresas, perderam prioridade. Com isso, a geração de novos empregos tende a se arrastar. Em tese, os problemas políticos também poderiam contaminar a economia por meio de uma crise no sistema financeiro, especialmente no segmento de bancos do porte do Rural, envolvido no escândalo do mensalão. Mas o Banco Central, que monitora a situação, não vê nuvens demasiado escuras pela frente. Dez em cada dez economistas ouvidos por VEJA são categóricos em afirmar que existe o risco de a crise política contaminar a economia, mas insistem que o país está muito mais sólido, fato ignorado pelo presidente. "Nos últimos anos, o país instituiu uma política econômica responsável e é ela que hoje nos permite atravessar crises, e até trocas de governo, sem abalar a economia", disse a VEJA Fábio Barbosa, presidente do banco Real.


veja Novas suspeitas sobre Delúbio Soares

O PT de caso com a máfia

Delúbio Soares mantinha estreitas
ligações com integrantes de quadrilhas
que desviavam dinheiro público


Fábio Portela

Dida Sampaio/AE
DRÁCULA DO PT
O ex-tesoureiro Delúbio Soares: pelo jeito, valia tudo para arrecadar dinheiro


Já se sabia que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares havia montado um caixa dois para o seu partido com contribuições ilegais e empréstimos bancários fajutos. Na semana passada, VEJA descobriu que o polivalente esquema de Delúbio arrecadou dinheiro também entre bandidos. Sim, bandidos. O ex-tesoureiro do PT pode ter recebido dinheiro desviado do Orçamento da União pela máfia dos vampiros, aquela que sugou 2 bilhões de reais dos recursos reservados pelo Ministério da Saúde para a compra de produtos derivados do sangue. Seu contato com os vampiros era feito pelo lobista Laerte Correa Junior, um dos integrantes da máfia, que foi preso pela Polícia Federal. Escutas telefônicas autorizadas pela Justiça revelaram que Delúbio mantinha relações com integrantes de mais uma quadrilha, a máfia do lixo. Ela era composta de empreiteiras que faziam conchavos para fraudar licitações municipais para a coleta e o tratamento de lixo.

A ligação da máfia do lixo com Delúbio se fazia por intermédio de Rogério Buratti, um antigo quadro petista. Buratti foi assessor do ex-ministro José Dirceu e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, ambos envolvidos nas denúncias do mensalão. Sua relação mais estreita, no entanto, era com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Buratti foi o secretário de Governo de Ribeirão Preto em 1993, quando Palocci era prefeito. Acabou demitido depois que foi flagrado pedindo propina para um empreiteiro. Fora do governo, foi contratado para presidir a empreiteira Leão Leão, que passou a atuar na coleta e no tratamento de lixo em diversas cidades no estado de São Paulo. De lá, Buratti passou a comandar a distribuição de obras entre as empreiteiras. As investigações conduzidas pelo promotor Sebastião Sérgio da Silveira envolvem também outros três diretores da Leão Leão. São Fernando Fischer, Wilney Barquete, Marcelo Franzine e Luiz Cláudio Leão, o dono da empresa.

 

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Fabiano Accorsi
O TESOUREIRO E OS VAMPIROS
O lobista Laerte Correa Junior, um dos integrantes da máfia dos vampiros, arrecadou 1,5 milhão de reais com empresas farmacêuticas para a campanha de Lula. Depois disso, virou amigão de Delúbio e nas eleições de 2004 pagou fornecedores do PT a pedido do ex-tesoureiro

Nos grampos telefônicos, a turma ensina como eram divididas as licitações do lixo no estado de São Paulo e mostra relação próxima com estrelas do petismo. Numa das gravações, um dos diretores da Leão Leão conta que recebeu um telefonema da secretária do ex-tesoureiro Delúbio para marcar um encontro do petista com a diretoria da empreiteira. As investigações foram ampliadas depois de alguns meses de escuta. Descobriu-se, então, que os mesmos diretores telefonaram para funcionários do governo federal. Num dos telefonemas, Wilney Barquete conta que havia pedido ajuda do então deputado Paulo Bernardo, hoje ministro do Planejamento, para resolver umas tais "pendências" em Brasília. Procurado pela reportagem, o ministro negou ter dado qualquer tipo de ajuda à empreiteira, mas admitiu ter relações com Buratti. O empresário Buratti também tinha contatos freqüentes com Valdemir Garreta, o homem forte da ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy. Muito material ainda se encontra sob sigilo. Em especial, provas de que a quadrilha se encontrava periodicamente com Delúbio. A suspeita mais forte é a de que a máfia do lixo obtinha favores do governo e repassava ao ex-tesoureiro do PT uma comissão. "Apenas começamos a desenrolar o novelo das ligações do esquema do ex-tesoureiro Delúbio com as empreiteiras", explica o promotor Sebastião Sérgio da Silveira, que cuida do caso.

 

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Marlene Bergamo/Folha Imagem
LIGAÇÕES DA TURMA DO LIXO
A gravação das conversas telefônicas da máfia do lixo revela que a quadrilha tinha entre seus interlocutores, além de Delúbio, o então deputado Paulo Bernardo, atual ministro do Planejamento

Na semana passada, o delegado Benedito Antônio Valencise, que lidera as investigações sobre a máfia do lixo, avisou os promotores públicos envolvidos na investigação que já tem elementos suficientes para convocar todos os envolvidos para depor. Quase todos os depoentes devem ser indiciados por formação de quadrilha, fraude em licitação, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. O delegado também informou ao Ministério Público que já há elementos para estender as investigações a respeito da atuação da Leão Leão ao Distrito Federal, aos municípios de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo. Ao ampliar as investigações, o Ministério Público paulista deverá deparar com uma investigação já em curso na esfera federal. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) incluiu Buratti entre as pessoas que têm movimentação financeira incompatível com seus rendimentos declarados. Ele tem renda declarada de 10.000 reais, mas movimentou mais de 1,5 milhão de reais em suas contas bancárias entre 2003 e 2004.

O ex-tesoureiro Delúbio também se aproximou da máfia dos vampiros, o grupo que dominava as vendas de derivados do sangue para o Ministério da Saúde. As relações começaram durante a campanha de 2002 de Luiz Inácio Lula da Silva para o Palácio do Planalto. O primeiro contato de Delúbio com essa máfia foi o lobista Laerte Correa Junior. A pedido do ex-tesoureiro, o lobista montou uma operação de guerra junto aos laboratórios farmacêuticos para conseguir doações para o PT. Levantou 1,5 milhão de reais. A dinheirama garantiu-lhe um interlocutor privilegiado no governo. Depois da posse de Lula, Laerte e Delúbio continuaram a se encontrar. O que eles conversavam? "Assuntos relativos ao relacionamento entre a indústria farmacêutica e o governo", disse Laerte em depoimento à Justiça Federal. Não era só isso. Na campanha municipal do ano passado, Delúbio voltou a pedir socorro a Laerte. Disse-lhe que estava com dificuldade para arranjar dinheiro para as campanhas petistas. Pediu ao lobista que pagasse a alguns fornecedores e prestadores de serviços contratados pelo PT. O favor de Laerte seria recompensado no futuro. O lobista topou.

 

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A MÁFIA DO LIXO NO PARAÍSO
Fernando Fischer, Wilney Barquete e Rogério Buratti festejam os bons negócios. Grupo será indiciado nos próximos dias, juntamente com o patrão, Luiz Cláudio Leão
Na época em que fazia os pagamentos a pedido de Delúbio, Laerte estava sendo investigado pela Polícia Federal na Operação Vampiro. Por pouco não foi flagrado executando um favor ao ex-tesoureiro do PT. A polícia o prendeu em maio do ano passado em São Paulo, horas antes de um encontro que teria para pagar um dos fornecedores da campanha do petista José Machado, então candidato à prefeitura de Piracicaba. Laerte foi liberado, porque enfrenta sérios problemas de saúde. Conseguiu uma autorização para tratar-se nos Estados Unidos. Machado perdeu a eleição, mas foi agraciado com o cargo de superintendente da Agência Nacional de Águas.

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