Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A nossa Câmara dos Lordes Vinicius Torres Freire

FOLHA DE S. PAULO

Com a volta de Sarney e cia. ao comando do Senado, Lula reafirma a continuidade do conservadorismo de coalizão

O SENADO é a nossa Câmara dos Lordes. Não vamos nos impressionar com a palavra "lordes" e suas associações fantasistas com as ideias de finura e primor. Basta-nos lembrar o caráter anacrônico da coisa. Mas de que modo o Senado estaria fora de seu tempo? Difícil dizer que a nossa Câmara Alta do Parlamento seja um resquício disfuncional porém inócuo, que sobrevive devido à inércia ou a uma tradição quase inofensiva. Se fosse assim irrelevante, a disputa pela sua direção não demandaria tantos recursos políticos (e outros) além de punhaladas morais nem o envolvimento dos mandantes de turno e futuros, presidentes e governadores.

A mais recente eleição para a presidência do Senado representa, porém, mais uma homenagem ao atraso, mas não à memória de caciques e coronéis. Não se trata de um ritual, mas da renovação do atraso -não de um tipo de dominação política que sobreviveu do passado, como se uma parte do país não tivesse superado um "estágio" da história, como se isso fizesse sentido. "Atraso", porém, é aqui uma espécie de julgamento político, para não dizer moral. O acordo que permite a reeleição contínua de oligarcas ou neoligarcas é um pacto nacional que permite relegar ao infortúnio da miséria e da ignorância partes enormes do país.

No momento em que era anunciada a eleição do novo presidente do Senado, o senador José Sarney, do PMDB do Amapá e do Maranhão, a seu lado estava o senador Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, um dos articuladores da renovação do atraso. Desde 1995, da "era da modernidade do Real", até o final do presente mandato, 2011, Sarney e Calheiros terão governado o Senado em 10 de 16 anos. Os outros 6 anos ficaram a cargo do falecido senador Antonio Carlos Magalhães (então PFL, hoje DEM, da Bahia) e de Jader Barbalho, do PMDB do Pará.

Alagoas e Maranhão lideram os rankings nacionais do infortúnio social. Pará e Bahia não aparecem muito melhor na foto. A divisão desproporcional de cadeiras do Senado (em relação ao eleitorado) e o domínio político de Estados pobres poderiam significar uma tendência constitucional de redistribuição de poderes. O desequilíbrio econômico e social tenderia a ser compensado pela maior influência, no governo, dos representantes dos Estados pobres. Mas o resultado do equilíbrio é um pacto duplamente conservador.

As diretrizes maiores das políticas econômica e social são definidas por elites do Sudeste. Em troca, as caciquias ganham autonomia para manter infortunar seus feudos e uma casquinha nas benesses estatais. De resto, os representantes maiores da caciquia ganham títulos de grandes eleitores (cabos eleitorais). Esses baronatos (ministérios, postos no Legislativo etc.), fornecem fundos para a aquisição de bases políticas, alugadas nas eleições presidenciais.

O governo Lula 2 começou com um pacto que reconheceu a importância do PMDB para a "estabilidade" -por instabilidade entenda-se o risco de crise política e até de impeachment, pois a maioria luliana de nada serviu para avançar leis importantes. Com o auxílio do governo ao maior partido da caciquia, completa-se a "pax luliana" e reforça-se o padrão de governo brasileiro: o conservadorismo de coalizão.
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Miriam Leitão Tempo das quedas

O GLOBO

A balança comercial vai continuar negativa, mas melhora no fim de março, começo de abril, quando entra a safra de grãos e serão retomadas as exportações de commodities metálicas. Mas o número que vai sair hoje deve assustar. A produção industrial de dezembro, que será divulgada pelo IBGE, pode ter queda de 10%. É a conta do fim do ano passado chegando.


O saldo negativo da balança comercial de janeiro é temporário, mas não se volta mais ao período dos megassaldos. O economista Joseph Tutundjian, especialista em comércio exterior, acha que a balança comercial terminará positiva entre US$10 bilhões e no máximo US$15 bilhões. O economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, vai rever a previsão, que está hoje em US$13 bilhões de superávit comercial, mas acha que não ficará muito abaixo disso.

Os especialistas acham que dois movimentos vão melhorar as contas externas brasileiras. Primeiro, a entrada da safra dos grãos. Segundo, a recomposição dos estoques de matérias-primas que vão elevar as vendas de commodities metálicas.

A produção industrial de dezembro do ano passado, que virá hoje fortemente negativa, também vai melhorar nos meses seguintes. O CSFB aposta em 10% de queda, a MB Associados prevê 9,6%. Seja como for, o número será feio. Mas isso é o resultado do que vimos no passado: queda de produção, férias coletivas, demissões de dezembro.

- Em janeiro, as notícias continuam sendo ruins, mas houve alguma retomada de produção. Mesmo que a produção seja a meio vapor, é melhor que a parada brusca de dezembro. Por isso, pode até haver um número ligeiramente positivo em janeiro - conta José Roberto Mendonça de Barros.

Tutundjian acredita até que a recuperação dos preços das commodities não é episódico, e pode continuar melhorando um pouco. Aliás, o índice de commodities até já melhorou um pouco.

- Os preços tinham subido demais e ficaram artificiais, mas depois caíram demais e também foi uma queda exagerada. Agora, os preços sobem porque ninguém vai deixar de comprar as commodities agrícolas - ninguém vai deixar de comer - e porque os estoques serão repostos e as compras de commodities metálicas vão ser retomadas. Os preços não voltarão ao que eram, mas vão melhorar do fundo do poço onde estavam - diz Joseph Tutundjian.

Mesmo com melhora de preço e de volume de exportação, o primeiro trimestre deste ano deve ser negativo para a balança comercial brasileira. A previsão é do vice-presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior (AEB), José Augusto de Castro, para quem o mês de fevereiro deve ter novo déficit, de aproximadamente US$300 milhões. O resultado só deve começar a mudar, se mudar, a partir de março, com o embarque da soja precoce, plantada no Rio Grande do Sul.

- O que pode mudar em fevereiro é a exportação de petróleo, que não foi tão grande em janeiro. Se ela subir bem, pode ser até que se tenha um superávit pequeno na balança comercial. Mas a previsão é de déficit. Isso só deve mudar em março ou abril, com a exportação de soja e a diminuição nas importações - explicou Castro.

Ele está convencido de que o que produziu o superávit de US$127 milhões na última semana de janeiro foi a medida que o governo adotou, de exigir a licença de importação. Mas isso não resolve a tendência que é a de resultado negativo no primeiro trimestre.

- No fim de março, começo de abril, a safra de soja e de outros grãos e alimentos começa a ser exportada. O auge é maio e vai até agosto. Nesse período, a balança comercial deve ficar mais positiva - diz José Roberto Mendonça de Barros.

O governo deve ficar mais calmo com os números negativos que estão saindo do forno. Alguns referem-se ao passado, como a produção industrial. É bem verdade que ainda não se tem qualquer garantia de uma recuperação da indústria nos próximos meses, apenas uma redução da queda. Em relação à balança comercial, está claro que não haverá mais a volta aos supersaldos como os de US$45 bilhões, de 2007, mas o déficit de janeiro não é tendência, os números positivos virão, sem precisar de medidas estabanadas, como a que foi anunciada na semana passada, de volta da licença prévia de importação.

Outros países também estão colhendo péssimos números nesta virada de ano. A China, que tinha crescido 13% em 2007, quando chegar o resultado do último trimestre de 2008, deve ter um crescimento mínimo. Será mascarado pelo crescimento total do ano passado, que continuará alto, mas o resultado do último trimestre será de quase nenhum crescimento, segundo a revista "The Economist". O PIB do Japão pode ter caído 10% anualizado - a mesma forma como os Estados Unidos contabilizam. Cingapura pode ter caído 17% e a Coreia do Sul, 21%. Tudo anualizado, segundo a revista inglesa. No comércio internacional desses países, outra hecatombe. As exportações japonesas caíram 35% em dezembro em comparação com o mesmo mês do ano anterior. China teve queda de 21%, Cingapura, de 20%. Vietnã, com queda de 45% nas exportações em janeiro.

Essa é uma temporada de números ruins provocada pela queda abrupta da economia no último trimestre do ano passado, após a quebra do Lehman Brothers e o episódio de pânico financeiro que se seguiu. Em vez de se apavorar, o governo brasileiro deve se preparar para atravessar o vale.
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Passada a crise, o emprego volta? José Pastore

ESTADO DE S. PAULO

Essa pergunta me atormenta. Sei que é um pouco cedo para tal, porque o fim da crise está longe. Ainda assim me preocupo.

Será que as empresas que estão sem caixa, sem crédito, sem demanda e sem perspectivas - mergulhadas num verdadeiro tsunami - vão se animar a remontar o quadro de pessoal que tinham quando a economia estava a todo vapor?

Passo ao leitor algumas observações corriqueiras. Perguntei a um motorista de táxi se a crise estava afetando o seu negócio. Ele me disse: "Está, e muito. As empresas com as quais eu tenho contrato permanente para atender seus funcionários, agora, só permitem a utilização do táxi mediante autorização do alto escalão. Poucos usam. Perdi 70% da minha receita."

Passada a crise, será que essas empresas vão revogar essa nova regra? Elas vão continuar com a liberalidade que tinham para contratar taxistas, decoradores, eventos sociais, treinamentos, etc.? Elas manterão os mesmos quadros de pessoal, que geram despesas de monta tanto para contratar como para despedir?

Suspeito que parte dos trabalhadores despedidos não será recontratada. Os altos custos de contratação (103% do salário) farão as empresas pensarem duas vezes, e as elevadas despesas de demissão, três vezes.

Vejam o caso hipotético de um funcionário que ganha R$ 1 mil por mês e tem cinco anos de trabalho na mesma empresa. Se a sua dispensa for feita longe da data-base e com o gozo do aviso prévio em tempo, só com o FGTS a empresa terá uma despesa de R$ 8.388,89 - oito salários. Se for perto da data-base e com o aviso prévio pago em dinheiro, serão R$ 10.669,96 - mais de dez salários!

Demitir é caro, e não só por conta do FGTS. A empresa gasta muito na capacitação dos seus colaboradores. Formar uma equipe competente, harmoniosa e conhecedora da cultura da organização leva anos e investimentos continuados no capital humano. Ou seja, despedir envolve perdas de grande vulto.

Com uma crise tão profunda, muitas empresas serão tentadas a reformular a sua política de emprego. A retomada do crescimento será feita com menos empregos fixos (e internos) na empresa, mais trabalho eventual (externo) e com muita automação.

As atividades estratégicas devem continuar entregues a um pessoal fixo, leal e competente - é claro. Outras atividades, porém, serão realizadas com base em contratos de empreita ou de prestação de serviços - que têm começo, meio e fim (regidos pelo Código Civil, e não pela CLT) -, ou por meio de trabalho temporário (Lei nº 6.019), por prazo determinado (Lei nº 9.601), por cooperativas (Lei nº 5.764), ou ainda por meio de terceirização decente, se for regulamentada a tempo. Isso já vem ocorrendo. A crise intensificará essa tendência.

A se confirmar essa especulação, só me resta dizer que, infelizmente, uma parte do desemprego atual veio para ficar. Será mais um passo no processo de reestruturação das empresas, com profundas implicações aos trabalhadores. Para entrar no quadro fixo, a concorrência será brutal.

O rigor no recrutamento aumentará muito. Os candidatos precisarão estar muito bem preparados na sua profissão e nos conhecimentos gerais que hoje se exigem das pessoas mais qualificadas.

O rigor aumentará também para os que forem contratados externamente, pois as empresas procurarão monitorar melhor os contratos que fizerem, para com isso terem mais segurança jurídica.

E para os que não forem contratados como fixos nem como prestadores de serviços restará o trabalho por conta própria, que também enfrentará desafios da concorrência.

O desemprego atual não é meramente friccional. No caso deste, quando a tormenta passa, o presente continua parecido com o passado e quase todos voltam ao trabalho. Quando há reestruturação tecnológica ou administrativa o mundo é outro: o presente fica bem diferente do passado, criando novas formas (cada vez mais austeras) de produzir e trabalhar.

Para ter chance neste novo mundo, recomendo aos jovens investirem pesadamente na sua preparação. Não parem de estudar durante a crise. Ao contrário, acelerem. Estudem além da sua profissão. Busquem a formação ampla, sem descuidar da especialidade. Se aparecer um estágio, aproveite, mesmo que não seja o dos seus sonhos. Na crise temos de pegar o que existe, que nem sempre é o que queremos.
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Clóvis Rossi A rua começa a rugir

FOLHA DE S. PAULO

PARIS - Há umas duas semanas, parei uns minutos em uma mesa-redonda na Deutsche Welle (programação em inglês) sobre a crise. Um acadêmico, cujo nome não anotei, dizia que a crise era até então apenas virtual -ou seja, estava no noticiário dos jornais e nas estatísticas oficiais, mas não na rua.

Era também minha sensação, depois de ver o movimento de Natal e pós-Natal no "meu" shopping em São Paulo, as filas à porta da Louis Vuitton da Champs Elysées em Paris e a agitação em muitas capitais europeias pelas liquidações tradicionais do início do ano.

Acabou essa era. A crise começa agora a ganhar a rua. É verdade que já havia agitação em países como Hungria, Bulgária, Grécia, Letônia, Lituânia, Islândia (neste, a crise produziu um resultado positivo: pela primeira vez, uma mulher foi indicada para comandar o governo -e é assumidamente lésbica).

Mas esses países são da periferia do sistema, inclusive -ou principalmente- do ponto de vista da cobertura jornalística. Agora, no entanto, a França já teve sua greve (mais obedecida no serviço público), e o Reino Unido produz uma das piores notícias da crise: cenas explícitas de xenofobia por parte dos trabalhadores, que já fizeram uma greve, no setor energético, e ameaçam uma série delas para que os demitidos sejam trabalhadores estrangeiros, não os britânicos. Houve manifestações até na Rússia, cujo governo mantém boa parte dos cacoetes soviéticos; a China reconhece que 20 milhões de trabalhadores migrantes perderam o emprego nas cidades (15,3% do total) e estão sendo obrigados a voltar para o campo.

A tendência só pode ser para pior se estiver certo o cálculo da Organização Internacional do Trabalho de que 51 milhões de postos de trabalho serão cortados só neste ano no mundo todo.Resta ver quantos governos mais cairão além do islandês.
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Merval Pereira Pressões internas

O GLOBO

PARIS. O assunto vinha quicando na área desde o ano passado, quando já se discutia no Fórum Econômico Mundial a possibilidade de o mundo entrar em uma onda protecionista caso a crise econômica internacional se agravasse com o que ainda era uma apenas uma possibilidade: o "pouso forçado" da economia dos Estados Unidos. De fato, a economia mundial vinha registrando, desde 2003, um crescimento do PIB global acima de 4% sucessivamente, e o ano de 2008 começava com nuvens que prenunciavam o fim do mais forte ciclo de expansão da economia mundial desde o pós-guerra, mas ninguém queria enfrentar o problema.

Portanto, o surgimento de uma pressão protecionista em diversos pontos do mundo não deveria ser surpresa para ninguém, e os "senhores do Universo" reunidos em Davos deveriam estar preparados para discutir essa e outras questões que levam o debate para frente, e não se deixar levar pelo susto e ficar discutindo o passado.

Se os debates deste ano do Fórum de Davos tivessem sido travados ano passado, talvez as soluções para crise internacional já estivessem sendo encaminhadas.

A surpresa que causou a aprovação pelo Congresso da cláusula "buy american" (produtos americanos) no programa de recuperação econômica do governo Barack Obama não se justifica.

Enquanto o idealismo dos discursos aponta sempre para a necessidade de uma cooperação mútua em uma economia interligada, o pragmatismo político puxa para medidas mais protecionistas dos mercados internos, atingidos pelo desemprego.

O modelo de "consumo descontrolado e pouca poupança" criticado por várias autoridades em Davos, foi o mesmo que levou a um crescimento sem precedentes da economia mundial seis anos até setembro de 2008, e os Estados Unidos continuam sendo o principal vetor da ordem econômica mundial.

Em lugar da ideal interconexão internacional para superar a crise, um nacionalismo econômico pode prevalecer, o que poderia resultar nos mesmos resultados dos anos 1930, que levaram à Grande Depressão.

Assim como agora, naquela ocasião também foi o Congresso americano que deu início a um movimento mundial de protecionismo ao aprovar a chamada lei Smoot-Hawley, que leva os nomes do deputado Willis Hawley e do senador Reed Smoot, ambos republicanos, que, com o objetivo de proteger o emprego local, impediram importações aumentando a tarifa de cerca de 10 mil produtos.

Os principais vetores da integração econômica globalizada, o comércio e os fluxos de capitais, estão em decadência, o que pode suscitar, além do protecionismo, um nacionalismo econômico e político com consequências desastrosas.

Os republicanos capturam votos entre os sindicatos patronais dos setores menos dinâmicos da economia americana - em geral, pouco abertos à competição internacional, e, portanto, protecionistas. É o caso aço e de ferro, que estão sendo protegidos pelo Congresso americano.

A Associação da Indústria do Ferro e do Aço (AISI em inglês), que congrega 25 companhias e 138 fornecedores como membros afiliados, representando cerca de 70% da capacidade de produção dos Estados Unidos e Canadá, está divulgando uma pesquisa em que 86% dos americanos se dizem a favor da cláusula "buy american" do plano de recuperação econômica.

Eles ressaltam que, a cada US$1 bilhão em investimentos, criam-se 35 mil novas vagas de trabalho. Assim, se por um lado há pressão por políticas protecionistas do trabalho local, provenientes de sindicatos de trabalhadores do lado democrata, há a mesma pressão por políticas protecionistas da produção nacional provenientes de sindicatos patronais do lado republicano.

O aumento do desemprego, a primeira consequência da desaceleração da economia, está gerando uma tendência protecionista, contrária à globalização, reforçando a posição dos que entendem que os Estados Unidos estão exportando empregos com a terceirização de serviços para países como a Índia, por exemplo, que domina o mercado internacional de call centers.

O grande risco para os Estados Unidos, porém, chama-se China e o que o novo Secretário de Tesouro, Tim Geithner, classificou de "manipulação" do yuan, que estaria desvalorizado artificialmente, o que provocou irritação no primeiro-ministro chinês Wen Jiabao.

Se a pressão interna fizer com que o Congresso mantenha a cláusula "buy american", vai ser difícil retomar as negociações para a Rodada de Doha de livre comércio internacional.

As reações de diversas autoridades, desde a União Européia aos países emergentes, têm sido vigorosas, mas não a ponto de cortarem as pontes que podem levar a um diálogo mais adiante.

O ambiente para a retomada da Rodada de Doha, que o presidente Barack Obama se comprometeu a buscar em telefonema ao colega Lula, pode ser reencontrado desde que os Estados Unidos coloquem na mesa de negociação outros temas.

Mesmo porque a recuperação econômica americana interessa ao mundo como um todo, e o protecionismo do momento pode dar lugar a um volume maior de comércio assim que a maior economia do mundo volte a funcionar.

Ninguém está a fim de dar um passo maior do que as pernas neste momento, para poder recuar mais adiante, mesmo porque ninguém sabe ainda o tamanho da encrenca em que o mundo está metido.

Não bastasse o fato de ter fugido de Cuba, a entrevista do boxeador cubano campeão mundial Erislandy Lara, hoje morando em Miami como refugiado, afirmando que gostaria de ter recebido o status de refugiado no Brasil em 2007 - mas sem ter essa oportunidade dada pelas autoridades brasileiras -, desmente a versão do Ministro da Justiça, Tarso Genro, de que ele e seu companheiro Guillermo Rigondeaux queriam retornar a Cuba.
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Problema deles Eliane Cantanhêde

 FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Lula jamais deu bola para o Congresso, mesmo quando deputado constituinte. Agora, vencesse o PMDB na Câmara e no Senado, ou o PT no Senado e o PMDB na Câmara, tanto fez como tanto faz. Ele, Lula, ganharia de qualquer modo. Serra e PSDB perderiam de qualquer modo no Senado.

Vencendo ou não, tanto Tião Viana como José Sarney continuariam no mesmo lugar: com Lula hoje e com Dilma amanhã.

Lula tinha discurso de vitória para todos os resultados. Deu Tião Viana? Excelente, é do seu partido. Deu José Sarney? Maravilhoso, mais um passo para Dilma Rousseff herdar o PMDB. Deu Michel Temer? Fantástico, o PMDB tucano continua sob as asas do Planalto.

Já os tucanos, especialmente Serra, não tinham para onde correr (ou voar) no Senado. Ficar com Tião seria apoiar o adversário de 2010. Ir para Sarney seria pôr lenha na fogueira do PMDB lulista. Sarney é o anti-Serra do partido. Os dois são tão inconciliáveis quanto algo possa ser inconciliável na política.

As eleições das Mesas da Câmara e do Senado escancararam a importância do PMDB e... o quanto Lula está desgarrado do PT e o quanto o PT depende de Lula. Lula não precisava apoiar Tião, mas Tião precisava de Lula. Por falta de quadros e de liderança, o partido atrapalha pouco e não pode ajudar muito no Congresso, especialmente no Senado. E só tem uma alternativa: Lula ou Lula e Dilma ou Dilma.

A situação do PMDB é diferente: o partido precisa de Lula hoje, para manter posições, verbas, favores.

Mas tem alternativa para amanhã: em 2010, pode perfeitamente se manter alinhado com Lula e Dilma, como pode perfeitamente voltar aos braços tucanos com Serra.

Para o PT e o PMDB era muito importante manter o Congresso, imensa fonte de poder -e de chantagem. Para Lula, o que desse era lucro. Ele tem estrela. Que não é aquela estrela vermelha e contagiante dos tempos de oposição.
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segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Carlos Alberto Sardenberg Os esqueletos do governo Lula

Os esqueletos do governo Lula


O ESTADO DE S. PAULO


Lendo o relatório do Tesouro sobre as contas do governo federal em 2008, divulgado na semana passada, fica-se com a impressão de que a administração acelerou de maneira notável os investimentos. Diz lá que as despesas de custeio tiveram aumento de 7,2% sobre 2007, enquanto o dispêndio com capital subiu nada menos que 27,9%. Bom, não é mesmo?

Mas olhe para outros números: as despesas totais com custeio, em 2008, alcançaram R$ 136 bilhões, isso incluindo alguns programas sociais, como o pagamento de seguro-desemprego e de auxílio aos idosos. Sem isso, o custeio - funcionamento da máquina - ficou em R$ 92,7 bilhões.

E os investimentos? Apenas R$ 28,2 bilhões. Isso foi o equivalente a 1% do produto interno bruto (PIB). Comparando com 2007, o grande esforço do governo em turbinar os investimentos, com PAC e tudo, resultou num aumento de 0,2% do PIB. Já as despesas de custeio equivaleram a 4,68% do PIB - o que mostra um quadro bem diferente.

E para completar: em 2008, o governo federal gastou com Previdência o total de R$ 199,5 bilhões (6,9% do PIB) e com pessoal, R$ 130,8 bilhões (4,5%).

Eis por que o governo não pode fazer neste momento a chamada política contracíclica, ou seja, disparar investimentos em obras, para aumentar a demanda e assim combater a desaceleração da economia. Não pode porque fez a política pró-cíclica durante a bonança: aumentou as despesas quando a arrecadação subiu espetacularmente em consequência do aquecimento econômico. E, como mostram os números, os gastos continuam concentrados em tudo o que não é investimento.

Acrescente-se que o governo pretendia gastar em investimentos o dobro do que efetivamente aplicou. Como em anos anteriores, não conseguiu.

Não é fácil tocar uma obra. Projeto, licenciamentos, licitações, instalação de canteiros, tudo isso requer competência, sobretudo com a kafkiana legislação brasileira.

Quer ver um resultado? Na sexta-feira, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, prometia apertar as empreiteiras envolvidas nas obras da transposição do Rio São Francisco.

Disse que não toleraria mais atrasos e tal. Reagia à desistência de algumas construtoras. E olha que essa obra era "a realização" do governo Lula.

Além disso, não basta investir. É preciso ter bons projetos que movimentem a economia enquanto são implementados e, quando prontos, representem ganhos de produtividade. Por exemplo, uma ferrovia que diminua o tempo e os custos de levar soja ao porto.

Na década de 1990, o governo japonês gastou rios de dinheiro em obras, também no esforço para tirar o país da recessão. Deu em nada. Com a influência dos políticos na escolha dos projetos, tudo resultou em pontes que iam do nada para nenhum lugar.

Nos EUA, a equipe econômica de Barack Obama, que se prepara para gastar uns 5% do PIB em obras, comentava outro dia que o maior problema estava sendo encontrar bons projetos.

E os bancos públicos? - O governo Lula está empenhado também em outra frente para estimular a economia. Pressionou os bancos públicos para que reduzam os juros e emprestem mais a pessoas e empresas, de modo a combater a crise do crédito.

A propósito, convém lembrar desta história: em meados de 1999, o governo Bill Clinton pressionou as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac para que flexibilizassem as regras de concessão de empréstimos e reduzissem juros. O objetivo: estender os financiamentos da casa própria às famílias de baixa renda, então classificadas no grupo subprime.

Eis como começou a crise do setor imobiliário, que só iria aparecer em 2007, de sua vez dando
origem à derrocada de todo o sistema financeiro.

As famílias mais pobres, majoritariamente formadas por negros e hispânicos, só conseguiam financiamento se pagassem taxas de juros de 3 a 4 pontos porcentuais acima das cobradas em negócios convencionais. Negócio muito arriscado, era evitado por todas as partes. Assim, essas famílias ficavam de fora do boom imobiliário dos anos 90.

Por isso o governo Clinton apertou as duas grandes agências hipotecárias, para ampliar a oferta de financiamentos aos mais pobres.

Podia fazer isso? Podia, as agências eram semiestatais - privadas, mas com seus títulos tendo garantia do governo.

As agências cumpriram o programa, cujo objetivo era fazer com que metade de seu portfolio fosse formado pelos financiamentos a famílias de média e baixa rendas. Funcionou. Milhões de casas de até US$ 250 mil foram financiadas. O programa foi considerado um êxito notável. Até que, a partir de 2007, as duas agências simplesmente quebraram, com uma carteira lotada de hipotecas podres. Eis o caso: o enorme desastre de um sistema financeiro desregulado - que empacotou, securitizou, financiou e refinanciou as hipotecas subprime - teve origem remota numa decisão política do governo. Bem-intencionada, claro, mas obviamente mal implementada.

Atenção, portanto, ao governo Lula, que está preparando um amplo programa para financiar 1 milhão de casas para famílias com renda mensal de até cinco salários mínimos.

Os especialistas mostram que as famílias de baixa renda não têm condições de pagar, de modo que precisam de subsídios. Se o governo der o subsídio diretamente ao mutuário, pode ser. Mas se resolver, por exemplo, mandar a Caixa Econômica Federal (CEF) e o Banco do Brasil (BB) concederem empréstimos com critérios mais frouxos, já sabemos aonde vai dar.

O governo já está pressionando os seus bancos para que concedam mais empréstimos, o que pode levá-los a tomar risco elevado, futuros esqueletos. Já aconteceu. No governo FHC, BB e CEF receberam bilhões de reais para não quebrarem.

Políticos adoram fazer isso. Concedem o empréstimos hoje e o banco quebra lá na frente, no outro governo.

domingo, fevereiro 01, 2009

A intervenção estatal Suely Caldas

O ESTADO DE S PAULO

Foi uma semana de choque. O que parecia chegar aqui como uma marolinha (pelo menos para o presidente Lula) está-se tornando um maremoto de proporções gigantes, duração incerta e consequências assustadoras. Em dezembro a produção industrial desabou, o desemprego se espalhou e a arrecadação tributária caiu feio. "A desaceleração da indústria era esperada, mas não com essa velocidade. A crise chegou muito forte", resumiu o economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Renato da Fonseca. No setor externo da economia, a balança comercial terá, em janeiro, seu primeiro déficit em oito anos e pode chegar a US$ 1 bilhão. Os indicadores que saíram das pesquisas de órgãos oficiais e privados nos últimos dias trazem preocupação e intranquilidade com o que vem pela frente.

E o que vem? Do exterior chegam sinais ruins. O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu suas projeções para 2009, indicando recessão para os países ricos e crescimento de só 1,8% para o Brasil. Segundo pesquisa feita pela Price Waterhouse & Coopers, a maioria dos 1.124 executivos de 50 países ouvidos prevê pelo menos três anos de duração para a crise. No Brasil analistas esperam uma queda próxima a 2% do produto interno bruto (PIB) no último trimestre de 2008 e uma recessão técnica no primeiro trimestre de 2009. Empresas e empregados fazem acordos de redução de jornada e salários válidos só até abril. E depois? Ninguém sabe, é viver o dia-a-dia para ver o que acontece.

A marcha rápida e violenta da crise traz dúvidas, insegurança e incerteza a quem tem responsabilidade de geri-la, aliviar seus efeitos e reduzir ao mínimo possível o sofrimento da população do planeta. Os governos têm recorrido à intervenção direta do Estado na economia, suprindo a carência de crédito, promovendo investimentos, gerando empregos e reduzindo tributos. É o intervencionismo estatal de volta, como o New Deal de Franklin Roosevelt, na década de 1930.

Não é raro em tal conjuntura governos cometerem erros. A equipe do ex-presidente George W. Bush errou feio ao pedir ao Congresso poderes ilimitados para escolher onde pôr dinheiro público e ao propor bônus milionários a executivos de bancos que deveriam ser punidos, não premiados. Barack Obama parece ter um rumo mais bem definido, embora economistas norte-americanos duvidem. O fato é que não apareceu ainda um John Maynard Keynes a orientar esse intervencionismo estatal.

O governo Lula não foge à regra. Tem atirado confusamente em várias direções, mas sem estratégias definidas, sem monitoramento nem controle sobre resultados. Porém o pior e mais grave erro - conhecido na terça-feira - foi tentar maquiar os resultados da balança comercial do País na marra, controlando importações da forma mais bronca possível de imaginar. Felizmente, o presidente Lula teve bom senso e mandou desfazer o que classificou de "erro fenomenal" e que ameaçava espalhar estragos por toda a economia.

O modelo escolhido pelos Ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda - as famigeradas licenças de importação que abarrotavam as gavetas da antiga Cacex - é velho. Operado na década de 1970, caiu de podre em 1994: impunha punições sem culpa, gerava corrupção e atos de vingança, incentivava o contrabando, interrompia e reduzia a produção e paralisava as empresas. Vale contar um episódio da época para dar ideia do poder de estrago que o sistema punha nas mãos da burocracia.

Era final dos anos 70 e os metalúrgicos do ABC, em greve, pediam aumento salarial. O governo acertou com empresários não cederem e deixarem a greve acabar pelo desgaste. Pressionada por uma encomenda lucrativa, com prazo definido de entrega, uma empresa da região furou o bloqueio e fez acordo com os empregados, que voltaram ao trabalho. Mas, para concluir a encomenda, a empresa dependia de peças de reposição importadas para suas máquinas. Acreditava não haver problemas, porque a Cacex já havia liberado a licença e as peças estavam no porto para desembarque. Eis que, informado do furo do bloqueio da greve, o então ministro Delfim Netto ordenou à Cacex cancelar a liberação da importação das peças. Assim foi feito e a empresa perdeu a encomenda.

O erro da licença de importação é o último vexame da coleção do governo Lula em suas tentativas de intervir onde não deve. Soma-se aos Conselhos de Jornalismo e de Cultura, ao mensalão, ao dossiê dos aloprados e à trapalhada do ex-ministro Ricardo Berzoini no episódio do recadastramento de aposentados.
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CLÓVIS ROSSI Não é tsunami, há culpados

FOLHA DE S PAULO
DAVOS
- Tudo bem que usar a palavra "tsunami" para descrever a crise econômica pode ser uma maneira eventualmente útil de reforçar o verbo nestes tempos de tanta cacofonia que é preciso gritar para ser ouvido.
Mas carrega o risco de dar a entender que a crise, como o tsunami, é um fenômeno natural pelo qual ninguém é culpado, a não ser a natureza ou Deus, de acordo com a crença de cada qual.
Não é assim. A crise tem culpados que deveriam estar sendo ansiosamente procurados, o que não ocorre. Como tampouco ocorre o mais leve sinal de mea culpa de parte dos responsáveis.
É possível que, nesta altura do jogo, seja mais importante retirar a bala do peito da vítima do que procurar quem disparou. Ok. Mas deixar de fazê-lo cria dois riscos: o de que o atirador continue disparando enquanto a vítima sangra e/ou o de que volte a fazê-lo tão logo seja domada a crise.
Do meu ponto de vista, a crise é produto da deificação do mercado, como onipotente, onisciente e, portanto, infalível. Como disse na posse o presidente Barack Obama, que não pode ser acusado de antimercado, o livre mercado é ótimo para criar riquezas, mas precisa de um "olho vigilante" para evitar seus abusos.
Nas condições atuais de temperatura e pressão, esse olho vigilante tem necessariamente que ser global, o que não é uma fenomenal descoberta minha, mas uma pregação reiterada de parte de líderes como Gordon Brown e Angela Merkel, que tampouco podem ser acusados de comunistas.
Trata-se na essência de uma questão política, não econômica. E a pergunta seguinte inevitável é esta: dispõe o mundo de líderes suficientemente corajosos para pôr um olho vigilante no até agora onipotente mercado e suficientemente competentes para que o olho não seja vesgo ou míope?
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VINICIUS TORRES FREIRE A fictícia "idade de ouro" financista

FOLHA DE S PAULO

Crescimento do PIB americano nos anos 2000 é o pior desde a década de 30; sucesso recente ocorreu na "heterodoxa" Ásia

O COLAPSO da ordem financeira mundial detonou duas ondas de propaganda. Publicistas vulgares da ordem reagiam aos críticos do desastre dizendo que "a globalização e o capitalismo haviam produzido os anos de maior prosperidade da história", tolice bem típica, aliás, dos bajuladores brasileiros do dinheiro grosso. Minoritário e sem poder, mas nem por isso menos tolo, o partido "crítico" apregoava que o "neoliberalismo" morrera.
Antes de mais nada, observe-se que os "anos de maior prosperidade da história" são uma ficção.
A contar de 1930, o crescimento médio dos EUA nos anos 2000 foi superior apenas ao dos anos da Grande Depressão (o per capita inclusive). O crescimento per capita europeu vem caindo a cada década desde os anos 60. O Japão teve seu grande período até 1970. Oriente Médio e América Latina viram dias melhores na década de 70 ou antes, embora o crescimento "desenvolvimentista" nos anos 50 e 60 seja bem exagerado: o PIB per capita não cresceu tanto. A qualidade dos dados africanos é suspeita, mas parece ter havido períodos melhores também por lá. Nem se mencione o problema da distribuição dessa riqueza.
Os grandes casos de sucesso econômico recente são os da China, de parte do sul da Ásia e dos Tigres (Coreia, Taiwan, Cingapura e Hong Kong, que porém não crescem tão pouco desde a década de 50). Excetuando a China, os grandes anos do PIB mundial ainda são os 50 e os 60.
Mas mesmo essa série de PIBs diz pouco. Primeiro, por ser uma maçaroca de dados que dificilmente pode ser agregada sem mais nem menos. Segundo, boa parte do crescimento rápido do pós-Guerra ocorreu sobre terra arrasada. Terceiro, após períodos de enriquecimento rápido e de construção da economia nacional, os países tendem a crescer mais devagar. O que se quer dizer, enfim e apenas, é que associar o período de farra financeira a uma "idade de ouro" é propaganda vulgarésima.
Aquilo ao que se dá o nome hoje genericamente inútil de "capitalismo" são sociedades com economias de mercado tão diferentes como as de EUA, França, Suécia, Japão, Coreia, Rússia, China ou Brasil. "Neoliberalismo", por sua vez, é um fantasma ou vodu que dá forma ao ressentimento e à miséria intelectual da maior parte do que sobrou da esquerda. Mas as duas vulgaridades são próximas, pois propagandeiam generalidades fantasmagóricas.
Com boa vontade dir-se-ia que esses dois "partidos" na verdade se referem a um sistema mundial, ou algo assim, ancorado no poder e no modelo americanos. Mas a China, por exemplo, emergiu da demência maoísta apenas devido a esse "sistema mundial"(ou à adoção do "modelo")? Virando a pergunta ao avesso: a China poderia ter adotado a sua "via própria" sem em alguma medida se integrar ao mundo e sem adotar alguns princípios do "modelo"?
A ideia da "idade de ouro" é apenas ideologia barata: o mercadismo. Tem por objetivo atropelar ameaças de pensamento dissidente. Quer abafar a ideia de que as várias economias de sucesso trilharam caminhos muito diferentes; não fizeram a "lição de casa", esse clichê imbecil, ou seguiram a "experiência internacional", em geral médias estatísticas sem qualquer sentido prático.
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FERREIRA GULLAR Caras e bocas

FOLHA DE S PAULO



Ainda que não seja errado fazer plástica, a intenção eleitoral parece implicar embuste

SEMPRE FUI E sou a favor da operação plástica, seja para consertar alguma deformidade, corrigir um nariz, como para eliminar rugas e papadas, que surgem com a idade. Num mundo como este, cheio de conflitos, a pessoa deve estar em paz ao menos com a própria cara.
Toda cara é, para mim, indecifrável como uma esfinge. Por isso mesmo, já escrevi aqui sobre o tema e volto a escrever agora, depois de saber da operação plástica a que se submeteu a ministra Dilma Rousseff, o que tem sido motivo de notas e comentários em jornais e revistas. Houve quem a criticasse, o que não farei, mesmo porque estaria sendo incoerente com meus princípios pró-plástica. Mas devo esclarecer: sou a favor de que se faça plástica, mas reservo-me o direito de opinar sobre o resultado da operação.
Como já observei em crônica anterior, a pessoa é a sua cara. Há quem acredite que, se a forma expressa o conteúdo, a cara expressaria a personalidade, donde conclui-se que o que somos está na cara, isto é, em nossa cara.
Dado isso como verdade, coloca-se uma questão importante: se a cara expressa o que a pessoa de fato é, mudar-lhe a cara é fazê-la passar por quem não é, um disfarce, que consistiria em substituir a feição verdadeira por uma máscara, ainda que bela, ainda que mais simpática. Enfim, uma fraude.
Não concordo. Como diz o ditado, quem vê cara não vê coração. Há muita gente que tem cara feia e alma doce. Noutras palavras, muitas vezes a natureza é injusta, pois dá à pessoa uma cara que ela não merece. Isso sem falar em outras que nascem com olhos tortos, nariz de bola ou boca beiçola, enfim, feições assustadoras ou caricatas.
E o que pode fazer o dono de uma cara como essas? Suportá-la pelo resto da vida? Já imaginou ter que viver com uma cara que, embora sendo a sua, não é você? Não dá, todo mundo tem o direito a melhorar de vida e de cara. Na ânsia de se inventar outro e melhor, há quem mude também a bunda (o bumbum como querem alguns) para ajustá-la às exigências da moda. Mas a bunda não identifica a pessoa como a cara, pode ser de qualquer um (ou uma), por isso se diz que "não tem dono" e, além do mais, fica nas costas.
Por tudo isso, sou tolerante com moças e rapazes que, nos Estados Unidos, substituem o rosto de nascença pelo de seus ídolos e andam pela cidade como se fossem eles, a gozar assim de uma celebridade postiça, divertindo-se graças aos fãs desavisados. Divertimentos que podem ir longe e pular da rua para a cama, onde conseguem realizar suas fantasias. Há casos, também, de pessoas que, em vez de copiar a cara alheia, inventam uma só sua, ainda que extravagante de tão original, como o fez Michael Jackson, cuja cara que usa não se sabe se é de anjo caído ou de vampiro.
Todas essas razões me levam a acolher a iniciativa da ministra Dilma de melhorar a fachada, como se costuma dizer. Aliás, em princípio, ninguém tem nada que dar palpite nisso. Ou melhor, não teria, não fosse o fato de que, segundo todos acreditam, ela mudou de cara com o propósito de disputar as eleições presidenciais de 2010. Aí, o assunto também muda de feição, isto é, passa a ser de interesse público. E, de qualquer modo, fazer plástica para se tornar mais contente consigo mesma é uma coisa, enquanto que, para ganhar votos, é outra. Ainda que não seja errado fazê-lo, a intenção eleitoral parece sempre implicar algum embuste.
Mas isso é inerente à política, em que a virtude mais rara entre todas é a inocência. Dilma, ao que tudo indica, segue o exemplo de Lula que, após sucessivas derrotas eleitorais, decidiu, antes da disputa pela Presidência da República, em 2002, mudar sua imagem: se não raspou a barba cubana, aparou-a, e substituiu por um doce sorriso aquele ar belicista de quem acabara de descer de Sierra Maestra, ainda que, ao contrário de Dilma, nunca tenha pegado em armas.
Mas a pergunta a se fazer é se o resultado foi bom, se atingiu o objetivo. Ela ganhará mais votos com a nova cara do que com a anterior? A maioria dos que opinaram -todos eles, homens e políticos- garante que sim.
A notícia que li veio acompanhada de duas fotos da ministra: uma de antes da operação, outra de depois.
Na primeira, ela está com os óculos que sempre usara e a boca amarga, que às vezes usa; na segunda, está sem óculos, quase sem boca e cabelos que, de escuros, passaram a alourados, tornando-a mais feminina, mais jovem e, ao mesmo tempo, mais comum: não se parece com a ministra Dilma Rousseff que o país conhece. Agora, está mais para tia do que para a mãe do PAC.
Eu, se fosse o caso, votaria na outra, melhorada a boca.
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Optimistas, aun en medio de las ruinas Por Joaquín Morales Solá

Por fin Néstor Kirchner y el campo coinciden en una misma situación: los dos están agotados, secos e impotentes. Sólo un aspecto los diferencia: los campesinos han aceptado la ruina, mientras Kirchner se resiste a reconocerla. Esa convergencia involuntaria no los unió, sin embargo, y es probable que los separe aún más. Kirchner ha deslizado entre íntimos la convicción de que el país vive una crisis pasajera y superficial. ¿Por qué? Misterio. ¿Cómo saldrá la Argentina de ella? Milagro. El desdén es su única respuesta.

En esos diálogos entre susurros, el ex presidente en funciones se muestra atenaceado sólo por las preocupaciones electorales. Un candidato taquillero aquí. Una obra pública allá. Nada sustancial. Las elecciones serán en octubre, y el Gobierno y los argentinos deberán atravesar antes, lo quiera Kirchner o no, las consecuencias de una imprevisible y profunda crisis económica, nacional e internacional. La Argentina resurgió de la gran crisis de principios de siglo prendida de las faldas de una opulenta economía mundial, que creció como no lo había hecho en muchas décadas. Esta vez, el mundo no estará en condiciones de salvar al país. Cada nación, por lo tanto, deberá hacer su propio esfuerzo.

La obra pública no es una metáfora. Con sus viejos reflejos de intendente (los únicos que mostró hasta ahora), Kirchner está seguro de que cualquier economía resucita con un buen plan de obras públicas. Es posible que ni siquiera le sirva para las elecciones. Aun cuando se cumplieran todos los anuncios y los plazos (lo cual sería una novedad), el movimiento económico y laboral de las obras públicas comenzará a percibirse sólo en julio, muy cerca de los comicios. Por ahora, es la construcción privada lo que se ha frenado en seco, porque nadie compra nada.

Una de las principales empresas constructoras le pidió al Gobierno que abriera créditos hipotecarios para sus eventuales compradores de viviendas. No habrá créditos hipotecarios, pero podemos abrir créditos para que se construyan edificios , respondió un alto funcionario económico. ¿Y para qué vamos a construir edificios si nadie va a comprar viviendas? , le respondió un empresario. Elemental, en un mundo al revés.

Esa distorsión no es una anécdota ni una casualidad. Una tormenta perfecta se avecina y la Argentina no tiene un referente económico confiable, como lo ha tenido siempre que debió capear una crisis. Tal ausencia tiene dos consecuencias: la sociedad no sabe quién la sacará del pantano inevitable y, por otro lado, la responsabilidad dentro del Gobierno se esparce y se atomiza.

¿Es Carlos Fernández quien debe hacer los deberes o Fernández confía en que la crisis es una cuestión de Débora Giorgi? ¿O, acaso, Fernández y Giorgi piensan que es el ministro todoterreno Julio De Vido el arquitecto de una solución para el conflicto económico? ¿No será que los tres descansan en la seguridad de que Néstor Kirchner es el único ministro de Economía en serio de la Argentina?

Kirchner todavía defiende a Guillermo Moreno ante interlocutores políticos. Lo defiende hasta que los argumentos lo callan. Su silencio es la única mala novedad para el poderoso secretario de Comercio. No hay respuestas posibles cuando las razones tienen el peso de la evidencia. Moreno dijo que resolvería la inflación y no la resolvió. Pidió meterse en el Indec y lo destruyó hasta su total irrelevancia. Su impopularidad contagia al Gobierno cada que vez que abre la boca. ¿Dónde están sus méritos? , le replicó a Kirchner uno de sus amigos. Kirchner optó por el silencio; antes lo había calificado de buen funcionario.

Moreno les prometió 15.000 toneladas de maíz a productores agropecuarios que fueron a verlo para implorarle comida para el ganado. También distribuyó algunos cheques con dinero en efectivo. El ganado se está muriendo de hambre y de sed. Es la estrategia de Moreno para dividir a los ruralistas, que no hace más que profundizar la bronca, rayana con el odio, que se percibe entre los hombres de campo.

El choque es insalvable. Hay un grave problema meteorológico, la persistente sequía, que no es culpa del Gobierno. La culpa del Gobierno consiste en que está aprovechando la desgracia para aplicar la venganza. Ha cambiado su discurso. Ya no confronta, sino que actúa la comprensión. Lo único que les dio a los campesinos fue el estado de emergencia agropecuaria, que significa que los productores podrán diferir el pago de algunos impuestos durante un año, pero con tasas de interés del 14 por ciento.

El campo ha perdido ya el 50 por ciento de la cosecha de maíz y trigo. Está en serio riesgo, cuando no perdido, entre un 30 y un 40 por ciento de la cosecha de soja. No hay maíz ni agua para la ganadería. La sequía afecta también a Brasil y Uruguay; por eso subió el precio de la soja. Kirchner no quiere ni oír hablar de la única medida que significaría un cambio sustancial: la eliminación de las retenciones, un impuesto directo y brutal, y el apoyo a las exportaciones de todos los bienes agropecuarios.

El Gobierno aceptó de hecho que no podrá pagar este año todos los vencimientos. Refinanció menos del 10 por ciento de esos compromisos. Para los Kirchner, el mayor problema, si es que hay un problema, es financiero. Pero, por el contrario, todos los datos indican que el conflicto es económico. La caída de las ventas del comercio en diciembre y enero se pareció a un derrumbe. La industria automotriz se desplomó. El turismo internacional, otro motor de la reconstrucción argentina, se está alejando, empujado por la crisis del mundo, por los altos precios locales y por la inseguridad que conquistó las calles argentinas. El campo está oprimido por la caída de los precios internacionales de las materias primas y por la meteorología. Es imposible esconder todo eso bajo la alfombra de un optimismo sin pruebas. Kirchner es optimista.

Las elecciones, a pesar de eso. Son el monotema de Kirchner. Según les contó Kirchner a algunos oyentes, y LA NACION lo reveló ayer, él ha vuelto a dialogar con Alberto Fernández y quiere tenerlo otra vez a su lado. Proyecta elecciones y candidatos. Voceros del ex ministro aclararon que Fernández no está dispuesto a volver al redil kirchnerista a cualquier precio. Trabaja ahora junto a Felipe Solá y al proyecto presidencial de éste. ¿Trabaja para el poskirchnerismo? Tal vez en noviembre habrá que pensar en un candidato presidencial que no sea Kirchner , dijeron sus voceros. No habrá ningún Kirchner en 2011. Kirchner lo intuye. Hombre de rencores largos, jamás hubiera llamado a Alberto Fernández si no sintiera que sus cosas andan mal.

Hay que reconstruir la presidencia de Cristina , le dijo Fernández a Kirchner en esos diálogos que no carecieron de tensiones y reproches mutuos. ¿Por qué la reconstrucción? Los empresarios me preguntan qué pensá s vos y quieren verte a vos. Eso no está bien, le señaló el ex hombre fuerte del kirchnerismo. ¿Tarde? Quizá. Pero es la propia Cristina la que parece sentirse cómoda sólo viviendo un universo sesentayochista , como definió al matrimonio presidencial un embajador europeo que debió pagar por eso. La Presidenta tiene un problema: el tiempo de mayo del 68 y de todos sus íconos personales y conceptuales se ha terminado. El mundo de hace seis meses ya es viejo.

En el descenso, no han mejorado ni han cambiado. Mañana, una porción importante de argentinos despertará, por primera vez en muchos años, sin la voz radial de Nelson Castro, expulsado de la radio por empresarios que crecieron exponencialmente bajo la sombra del kirchnerismo y que son, con razón, fanáticos kirchneristas. Nelson Castro es uno de los periodistas más serios y creíbles del país.

Una voz periodística que se apaga por decisión de un poder autoritario es siempre una derrota de la libertad.

El Gobierno y la cuestión de la verdad Por Mariano Grondona

Uno de los libros que más me han impresionado últimamente contiene el debate entre el cardenal Joseph Ratzinger y el filósofo italiano Paolo Flores d´Arcais sobre la existencia o la inexistencia de Dios ( ¿Dios existe? , Espasa, 2008). En el momento del debate, Ratzinger estaba a punto de convertirse en el papa Benedicto XVI. Flores, en cambio, es ateo. Las posiciones de ambos no podían ser, en principio, más antagónicas. En el curso del debate, sin embargo, aparecieron sugestivas coincidencias.

Flores destacó, en este sentido, que entre los valores del Evangelio y los valores de la filosofía existe "un terreno común", y dio como ejemplo un pasaje donde Cristo instruye a sus discípulos diciéndoles: "Sea vuestro lenguaje; sí, sí; no, no". A partir de aquí, los dos polemistas coincidieron en que, aunque tengan distintos puntos de vista, la religión y la filosofía, incluidos el catolicismo y el ateísmo, aceptan, como terreno común, la búsqueda sincera de la verdad.

Ambos coincidieron además en exaltar el papel que jugó el papa Juan Pablo II en la derrota final del comunismo, pero, también con el asentimiento de Flores, Ratzinger fue más allá de la definición convencional del comunismo como un sistema que promueve la propiedad colectiva de los medios de producción (una definición "económica") o como un sistema en el que el Estado tiene el poder "total" y por eso también se lo llama "totalitario" (una definición "política"), y agregó que, por haberlo padecido en su Polonia natal, Juan Pablo había experimentado en carne propia que, aparte de sus características económicas y políticas, el totalitarismo comunista "ha destruido las almas mediante la mentira , que fue su verdadera característica".

Mentira y democracia

Cuando descalificaron al totalitarismo comunista ya no por sus rasgos económicos o políticos, sino por su apelación sistemática a la mentira, Ratzinger y Flores dieron un salto analítico de proporciones al atribuir su esencia, y la de todo totalitarismo de izquierda o de derecha, comunista o nazi, a una transgresión moral . Este giro intelectual, esta audacia teórica, nos invita a los que habitualmente buscamos calificar o descalificar a los gobiernos por sus métodos económicos o políticos, a agregar a nuestro cuestionario esta pregunta fundamental: cuando un gobierno determinado se dirige a los ciudadanos, ¿les miente o les dice la verdad?

Este nuevo enfoque pareciera utópico si se toma en cuenta que la mentira es una indeseada pero frecuente compañera de la actividad política. ¿No mienten acaso los políticos en sus campañas electorales? ¿No formulan los gobiernos promesas que no cumplirán? Cuando hacen el balance de su gestión, ¿no exageran sus aspectos favorables mientras minimizan sus aspectos desfavorables? ¿Cómo considerar la mentira entonces una característica propia del totalitarismo cuando ella abunda, asimismo, en las democracias? Si todos mienten, ¿por qué condenar al totalitarismo, pero no a la democracia por la misma falla moral?

En los tiempos del absolutismo monárquico de la Edad Moderna, antes del advenimiento de la democracia, se aceptaba que el rey apelara a lo que dio en llamarse "la razón de Estado" para elaborar sus decisiones. Lo cual quería decir que los reyes, cuando eran absolutos, no tenían ninguna necesidad de contarle al pueblo la verdad. Es que el pueblo, por entonces, era un conjunto de "súbditos" y no de "ciudadanos". ¿Nadie tenía entonces en los regímenes monárquicos la obligación de la veracidad? Sí, la tenían los funcionario ante el rey porque, siendo él el titular de la soberanía, engañarlo equivalía a traicionarlo. La "razón de Estado" no obligaba a los reyes respecto del pueblo, pero sí a los funcionarios con respecto al soberano.

Pero la democracia consiste, por definición, en la soberanía del pueblo. Es éste entonces el que necesita que le digan la verdad. Mentirle al pueblo es traicionarlo porque se le deforma o se le niega la información que requiere para tomar sus decisiones soberanas. La mentira puede abundar en la democracia, pero lo que en tiempos monárquicos era un pecado leve, en la democracia se convierte en un pecado mortal.

El totalitarismo, en este sentido, no es más que la exageración del absolutismo porque también incurre en el método de las dos verdades: una auténtica para los que mandan, que la saben pero la callan, y otra aparente, mentirosa, para el pueblo, convertido otra vez en el conjunto de los súbditos y no de los ciudadanos.

Pero esta definición no afecta la naturaleza del totalitarismo porque éste consiste precisamente, según Ratzinger y Flores, en la sistematización de la mentira. Si ella caracteriza al totalitarismo y no a la democracia, ¿cuál es el grado de mentira que deberíamos tolerar en la democracia para que no se desnaturalice, al fin, como un totalitarismo disfrazado?

Las mentiras, la Mentira

La mentira, por supuesto, es siempre condenable. Suponer, sin embargo, que ella no debiera existir nunca en la democracia sería exigir demasiado. De aquí se deriva que hay dos clases de mentiras en la democracia. Una es aquella a la que apelan con más frecuencia de la deseable los políticos, todos los políticos, sean oficialistas u opositores, durante sus debates y especialmente durante las campañas electorales. Hay un remedio contra esta corruptela. Siendo nuestra democracia todavía pluralista, la única opción que entre nosotros les queda a los ciudadanos es comparar lo que dicen unos políticos con lo que dicen otros para asignarle a cada uno de ellos su nivel de credibilidad.

Pero en la democracia también hay mentiras que son inadmisibles. Esto ocurre cuando el Estado, en vez de argumentar como "gobierno" contra lo que dicen los opositores, informa oficialmente a la masa de los ciudadanos sobre los aspectos más salientes de la vida en común. Si se abusa de las mentiras polémicas, durante las campañas, se cae en el vicio en última instancia "venial" de la propaganda . Pero el Estado, sea quien sea el que ocupe en él las posiciones de poder, les debe a los ciudadanos la veracidad cuando ya no se trata de persuadir sino de informar. Esta es la frontera vital entre la "propaganda" y la información . Mientras aquélla es siempre sospechosa de exageraciones u omisiones, la información oficial que brinda el Estado como tal debe ser veraz so pena de convertirse en propaganda disimulada. Si esta conducta llega a generalizarse, el Estado ya no es democrático, sino "absoluto" y, si ahoga además a los disidentes, se convierte en "totalitario". Aquí es donde entra, como villano de la pieza, no ya las mentiras, sino la Mentira , directamente incompatible con la democracia.

Desde las constantes deformaciones del Indec hasta la catarata de anuncios que nos brinda la Presidenta desde su atril en eso que se ha llamado la "anunciocracia", desde la presentación de las constantes alusiones al campo como si fueran concesiones a un sector privilegiado y no agresiones a un sector discriminado, son muchísimas las denuncias de mentiras que cercan al Gobierno. Cuando se las pronuncia oficialmente desde un Estado que debe ser supuestamente neutro, ¿son ellas mentiras veniales a las que muchas veces conduce la exacerbación de la lucha política o nos hallamos frente a una sistematización de la mentira, frente a un espíritu finalmente no democrático, sino absolutista y peligrosamente próximo al totalitarismo que condenaron Ratzinger y Flores en su inspirado debate?

Merval Pereira Mudança de modelo

 O GLOBO

DAVOS. O que está fundamentalmente em discussão aqui nesta edição do Fórum Econômico Mundial é o modelo de capitalismo incentivado pelos Estados Unidos nos últimos anos, e não o capitalismo em si. Um modelo definido como "insustentável", por exemplo, por duas vozes de peso entre os chineses. O primeiro-ministro Wen Jiabao criticou o modelo baseado em "baixa poupança e alto consumo", e o vice-presidente do Banco da China, Zhu Min, disse que, apesar de continuar acreditando na globalização, "o modelo americano foi muito longe" e o mundo vai ser obrigado agora a conviver com "uma América frugal".

Essa mudança de padrão de vida nos Estados Unidos, que deverá prevalecer pelos próximos 10 ou 20 anos, pelo menos, é uma necessidade e, ao mesmo tempo, uma ameaça, pois o padrão de consumo americano deve se retrair em, no mínimo, 10%, com uma perda de cerca de US$1 trilhão que não tem como ser reposta.

Em uma das mesas que discutiram o futuro da economia mundial sem o padrão de consumo americano, Ken Rosen, professor emérito da Universidade da Califórnia, em Berkeley, resumiu a situação em uma frase: "Nós gastamos um dinheiro que não tínhamos em coisas das quais não precisamos".

E disse que estava na hora de mudar o paradigma: "O modelo dos Estados Unidos está errado. Se o mundo todo utilizasse o mesmo modelo, nós não existiríamos mais".

O consenso de que o modelo baseado no consumo dos Estados Unidos terá que ser alterado foi registrado em diversos debates, e há também um consenso sobre a necessidade de haver um grande gasto governamental em obras de infraestrutura, para substituir esses gastos.

Ganhou abrangência durante os dias da reunião do Fórum Econômico Mundial a ideia de que será preciso um esforço coordenado entre os governos para que os países emergentes - que estão sendo atingidos por essa crise internacional de maneira indireta, mas muito fortemente, pelo aumento da rejeição ao risco e consequente falta de financiamento internacional - possam ser ajudados.

Depois do megainvestidor George Soros ter sugerido um "fundo dos fundos" formado pelos fundos soberanos de alguns países e coordenado pelo FMI, foi a vez do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, falar sobre a necessidade de os países desenvolvidos ajudarem a dar liquidez aos emergentes.

Ao mesmo tempo em que um painel de especialistas não conseguiu encontrar uma moeda que nas próximas décadas substitua o dólar como referência internacional, em vários momentos aqui em Davos, inclusive nesse debate sobre o dólar, surgiu a possibilidade de o mercado asiático se unir mais a partir dessa crise, abrindo a possibilidade do surgimento de uma moeda forte naquela região: o yen japonês ou o renminbi chinês.

A presente crise abre perspectivas de negócios intra-asiáticos, à medida que companhias regionais possam usar suas vantagens competitivas para atuar nos países vizinhos. O Japão, por exemplo, com uma base bem desenvolvida de tecnologia e vasto capital, poderia ser um parceiro importante nos projetos de obras de infraestrutura que estão sendo desenvolvidos na Índia e na China.

Yasuo Hayashi, presidente da Organização de Comércio Exterior do Japão, considera que, embora seja uma integração que demanda tempo, já há avanços importantes em negociações de acordos econômicos de China, Índia e Japão, os "três grandes" da Ásia, com a Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Todos esses movimentos sugerem uma necessidade de haver uma solidariedade internacional, sem a qual será difícil sair da crise. Stephen Roach, presidente do Morgan Stanley para a Ásia, lembrando que foi uma surpresa para o mundo financeiro a maneira com que a crise atingiu tão fortemente das três grandes economias da região, advertiu:

"Com o aumento do fluxo de capitais, informação e trabalho, o mundo é muito mais interligado do que antes, e nenhuma região está mais ligada na rede internacional de comércio do que a Ásia, dependente de exportação".

Essa interligação entre as economias internacionais foi o que fez o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton ressaltar que seu país depende da China para superar a crise, mas que a China também precisa de uma economia forte nos Estados Unidos para poder exportar seus produtos.

Por isso, a decisão de incluir uma cláusula protecionista no programa de recuperação econômica da nova administração Barack Obama caiu como uma bomba entre os participantes do Fórum.

O perigo de que uma onda protecionista tome conta do mundo já fora levantado no pronunciamento do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, que defendeu o estabelecimento de uma nova ordem econômica "mais justa, igualitária, saudável e estável". E também por um assessor do governo russo, que disse que o fato de os Estados Unidos estarem aumentando seu déficit na certeza de que outros países, como o Japão e a China, comprarão seu bônus do Tesouro, representaria, em última instância, "uma espécie de protecionismo".

Contra o protecionismo, os países emergentes, encabeçados por Brasil e Índia, estão defendendo a retomada da rodada de Doha, para a ampliação do comércio internacional como maneira de superar a crise econômica.

A Índia e a China, que foram os grandes causadores do insucesso da última negociação, estão dispostos, dentro do bloco asiático, a negociar concessões e aberturas na área agrícola e de serviços. O que impediu a negociação foi a proteção à agricultura familiar na Índia e na China, contra o agronegócio, que, naquela ocasião, unira o Brasil aos Estados Unidos e à União Europeia.
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Míriam Leitão Cara metade DEU EM

 O GLOBO

O Fórum Social foi este ano para a Amazônia, para protestar contra o desmatamento. No meio ambiente do Fórum, o MST brilha, como sempre, com poderes até de vetar a presença do presidente Lula na sua mesa de presidentes bolivarianos. O detalhe esquecido pelos animados militantes do "outro-mundo-é-possível" é que 30% do desmatamento da Amazônia ocorrem nos assentamentos.

Nisso, os dois fóruns são iguais. Quando falam da preocupação com a questão ambiental e climática é conversa fiada. No ano passado, quando o Fórum de Davos ainda acreditava nas lendas urbanas do pouso suave das economias ricas e do descolamento das emergentes, eles concluíram que a principal ameaça que pesava sobre o planeta era o aquecimento global. Este ano, o assunto esfriou bruscamente. Hoje, o que esquenta os debates é o medo da destruição do meio ambiente econômico, no qual eles embolsaram seus extraordinários ganhos de capital.

Mudança climática é só pretexto para os discursos no eixo Davos-Belém. O presidente Lula, na véspera de embarcar para Belém, para fazer campanha pela sua candidata a presidente, a ministra Dilma Rousseff, passou a motosserra no orçamento do Ministério do Meio Ambiente. O dinheiro cortado pagaria, por exemplo, o custeio das poucas embarcações que navegam pelos rios do interior da floresta ou das equipes que reprimem o crime ambiental numa área que perde, nos bons anos, "apenas" 11 mil quilômetros quadrados de cobertura florestal.

A candidata, que em Belém foi embalada ao som do jingle reciclado das campanhas de Lula, é a mesma que atropelou reivindicações ambientais, engavetou criação de unidades de conservação, aprovou o plano de energia que construirá 67 termelétricas nos próximos dez anos, para poluir a matriz energética, tem em sua mesa planos ameaçadores para a floresta. Mesmo assim, ambos foram celebrados como combatentes do "outro mundo".

No convescote dos ricos, na Montanha Mágica, os ilusionistas de sempre dão recados fortes imersos em contradições. O presidente russo Vladimir Putin e o primeiro-ministro chinês Wen Jiabao engrossaram a voz contra os erros cometidos pelos países ricos que colocaram o mundo em risco. Os dois têm algo em comum: seus países foram extremamente beneficiados pelo fluxo exuberante e irracional de capital que fluiu dos países ricos para os emergentes.

As empresas russas se capitalizaram e se alavancaram pelo preço estratosférico do petróleo e pela valorização das ações nas bolsas. Os novos milionários russos são a força na qual se assenta o poder granítico do novo czar russo. A China foi o país que mais recebeu investimento estrangeiro, virou a queridinha do mercado que abonou todos os crimes cometidos pelo regime contra qualquer voz discordante, porque, afinal, ele era o financiador da gastança bélica do ex-presidente George Bush. Putin e Jiabao são beneficiários da irresponsabilidade do mercado financeiro que, agora, eles condenam.

Os grandes gurus financeiros e os notórios economistas de Davos estão se esmerando, este ano, na arte de prever o passado. Se dois anos atrás ridicularizaram quem falava de recessão global, hoje concluem, com ar de sábia descoberta, que o mundo está em recessão global. O que todos querem é que os governos salvem o sistema financeiro do derretimento final com novas e mais polpudas injeções de dinheiro dos contribuintes.

Em Belém, o presidente Lula posa no grupo dos presidentes palanqueiros com discurso contra a irresponsabilidade dos ricos, apesar de seu governo ter sido outro a se beneficiar do espetáculo do crescimento dos preços das commodities, do valor das ações e da moeda nos últimos quatro anos. Sobre mudança climática, que supostamente era o tema desse encontro, nada a dizer, porque, a esta altura, já se esqueceram todos que o pretexto para o proselitismo deste ano é a proteção à floresta que, no governo Lula, desaparece a um ritmo de mais de uma cidade do Rio de Janeiro por mês. Ao todo, 110 mil quilômetros quadrados em seis anos. Nada disso foi cobrado de Lula. Muito menos ter um ministro da Agricultura que luta contra o código que tenta proteger a floresta ou delegar a Amazônia a outro ministro que não o do Meio Ambiente.

Os organizadores são tão familiarizados com o tema do aquecimento global, suas causas e consequências, que gastam munição com o incorpóreo neoliberalismo e saúdam a figura onipresente do presidente dos combustíveis fósseis, Hugo Chávez. Lula enverga o mesmo discurso contra inexatos inimigos externos, cercados de presidentes que acham que o Brasil é o adversário contra o qual lutar. Evo Morales é aquele que invadiu com tropas instalações da Petrobras. Rafael Correa é aquele que expulsou uma empresa brasileira e entrou na Justiça internacional para não pagar um empréstimo do BNDES. E Fernando Lugo é aquele que acha que o Paraguai está sendo explorado pelo Brasil em Itaipu e lá mesmo fez um discurso aos militantes do "outro mundo" para mudar o acordo em vigor. Na prática, a mudança do acordo significa aumentar a conta de luz paga pelos brasileiros.

A dicotomia entre os dois fóruns nunca foi tão patética quanto neste ano. Eles não são diferentes, são igualmente equivocados. Usam a questão climática para enfeitar seu discurso quando lhes convém. Não levam a sério os riscos reais que o planeta corre, imersos nos seus objetivos imediatos, financeiros ou políticos. São cada um a cara metade do outro.
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Eliane Cantanhêde Múltiplas personalidades

FOLHA DE S. PAULO

PARIS - Há dois Lulas, ou muitos Lulas. O deste momento, de crise nos países ricos e de fórum de países pobres, é o Lula de esquerda, que se vira de costas para Davos e de frente para Belém.

Se fosse hora de crescimento mundial, Lula certamente estaria em Davos com os líderes dos países desenvolvidos, enaltecendo a estabilidade e o ajuste fiscal. Como não é, ficou no Brasil mesmo para se encontrar com Chávez, Evo Morales, Rafael Correa e Fernando Lugo.

Ironizou "o deus mercado" e os ricos, mandando o FMI ensinar a Obama como gerir os EUA. E aproveitou para, apesar dos cortes no Orçamento, prometer mais um milhão de habitações e ampliação do Bolsa Família para os jovens. Ou seja: um olho na crise, outro na sua popularidade hoje e na campanha de Dilma Rousseff amanhã.

Esses dois Lulas, que se alternam entre o Fórum Econômico e o Fórum Social, dividem opiniões. Como ficou claro num encontro de jornalistas sobre América Latina na Espanha, semana passada.

Em almoços e jantares, brasileiros criticavam o "oportunismo" e o lado marqueteiro de Lula, sempre tirando vantagem de tudo -inclusive dos êxitos alheios. Nas reuniões plenárias e mesas redondas, espanhóis, argentinos, venezuelanos, equatorianos... elogiavam a liderança política e o sucesso administrativo do Brasil e de Lula.

De onde, afinal, vem a boa fama de Lula no mundo? De onde os jornalistas internacionais tiram tanta simpatia por ele? Principalmente da imprensa brasileira, que, por exemplo, como tinha de ser, registrou todo o seu falatório e toda a sua desenvoltura no Fórum de Belém.

Isso mostra como as notícias sobre Lula e seu governo têm imenso espaço e repercussão, soterrando as críticas. Tudo o que ele diz, faz, promete e anuncia tem destaque. O resto fica confinado aos espaços de análise e de opinião.

Está explicada, portanto, a azia de Lula com a imprensa: ele chora de barriga cheia, muito cheia.
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Fernando Henrique Cardoso Perdidos na crise

 GLOBO

Os governos precisam atuar, mas com um olhar para o futuro

A crise financeira estourou nos Estados Unidos em agosto de 2007. Subitamente, o mundo tomou conhecimento de que havia um problema: hipotecas sobre a compra de imóveis dadas com garantias precárias. De início, os bancos americanos diziam não ter nada com o assunto. Logo depois, foram obrigados a reconhecer que os "veículos especiais" que eles criaram eram, sim, de sua responsabilidade. Reconheceram para o Banco Central americano, o FED, poder dar-lhes dinheiro para cobrir os buracos, posto que os financiadores de hipotecas, não sendo bancos, não teriam acesso ao socorro federal. O susto não serviu de lição. De degrau abaixo a degrau abaixo, desfez-se o castelo de cartas. Hoje todo mundo reconhece que o sistema financeiro estava muito "alavancado", quer dizer, emprestava com uma base de capital próprio muito pequena, com o dinheiro dos outros. Os depositantes, quando descobriram a ligação dos bancos com as hipotecas, correram para retirar depósitos de bancos com poucos fundos próprios. De novo veio o socorro do FED, dessa vez trilionário. O mundo que ainda não se acostumara ao "bilhão de dólares" teve que ver "trilhão" no horizonte, mas de dívidas...

Daí em diante, houve mil "soluções criativas" para sair da crise. A "laborista", de Gordon Brown, saudada por todos, foi a de dar dinheiro aos bancos, comprando ações, em vez de, como fez o Fed, absorver títulos podres e conceder empréstimos a juros baixos e com prazo de devolução infinito. Tesouro e bancos ingleses ficaram associados, e não se sabe até que ponto estes foram "nacionalizados". O governo americano continuou "inovando": deu créditos com dinheiro do contribuinte, não só aos bancos, mas às empresas, e considera a possibilidade de dar recursos diretamente aos cidadãos pendurados em hipotecas impagáveis. O próprio Fed concedeu empréstimos a outros bancos centrais e, mais espantoso ainda, absorveu títulos "tóxicos" de empresas não financeiras. Os demais países europeus garantiram depósitos, enquanto os do mundo em desenvolvimento puseram-se às pressas a distribuir dinheiro público aos magotes para resolver problemas financeiros ou para ajudar empresas que se enrolaram na crise especulando com o valor das moedas.

Enfim, a velha e boa "socialização das perdas". Essa foi a breve história financeira do ano 2008.

O pior é que, com catadupas de dinheiro público, a crise não cede. Ela deixou de ser "financeira" para ser "econômica": as empresas não investem, os bancos não emprestam, e, quando o fazem, é com muito cuidado. Os empresários olham em volta e têm medo de expandir seus negócios: mais do que crédito, faltam compradores solventes. Os mercados estão encolhendo e encolherão ainda mais porque, com ou sem socialização das perdas, houve perda substancial de riqueza ou, como Marx diria, está havendo queima de mais valia. A riqueza financeira virou pó, porque ela é pó quando falta a confiança. Pulvis est et in pulvis revertere, como acontece com o corpo quando a alma some dele. Nestas situações "o mercado", isto é os empresários e investidores, só acreditam no governo. Mais grave ainda, os governos acreditam que podem resolver a crise. Como? Dando dinheiro ao mercado e investindo. Só que para fazê-lo se endividam e não resolvem de imediato as aflições de todos porque o medo pauta o consumo, e a economia contemporânea fez o casamento entre mercados voláteis e consumidores ávidos, movidos a propaganda. Sem consumidores, não há salvação, e o principal consumidor para a saída da crise não são as pessoas, mas as empresas. Isto é, o investimento.

Como convém dispor de uma autoridade intelectual insuspeita justificando abrir o cofre, o pobre lord Keynes é usado como se fosse o pai da socialização das perdas e da gastança pública indiscriminada. E como também é sempre bom ter um culpado, a "globalização" é indigitada como responsável pelo que é inerente ao capitalismo, a especulação, e pela falta de controle em uma economia, a principal, a americana, por cujos desmandos, aí sim, pagaremos todos. Como o diagnóstico é precário, as barreiras protecionistas somadas à gastança pública seriam o antídoto aos malefícios da "globalização". E com isso, em vez de resolver-se a crise (a solução virá com dor e lágrimas, sobretudo dos desempregados, vítimas inocentes dos desmandos, pela continuada queima de mais valia até que, atingido o fundo do poço, a "alma" dos capitalistas tenha novo sopro de vida), espicha-se o sofrimento e se sonha com um mundo não globalizado, como se isso fosse possível com o desenvolvimento tecnológico e a inter-relação comunicativa existente.

Isso não quer dizer que não haja nada a fazer, que basta esperar que o próprio mercado purgue seus pecados. Os governos precisam, sim, atuar. Mas olhando para o futuro, ajudando o investimento produtivo, seja ele público ou privado. E não endividando o povo (que pouco sabe que pagará as custas...) para salvar quem é insalvável. Sem esquecer que a poupança pública (em nosso caso ela é negativa) é insuficiente para dinamizar um sistema que é capitalista e que a ajuda às custas de endividamento futuro resultará em mais aperto ou em inflação. Em qualquer caso haverá redução das chances de uma retomada saudável do crescimento econômico.

Por fim é bom dizer que a redução da riqueza global oferece a todos, inclusive e principalmente aos governos, a chance de repensar o futuro. Ou se aumentam as regulações financeiras globalmente (sem sufocar a capacidade de inovação, mãe do desenvolvimento) e se repensa o modelo cultural de consumismo desenfreado e de dilapidação da natureza, ou a retomada de amanhã pode ser ainda mais danosa do que foi a etapa que se está esgotando.
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Dora Kramer Jogo de profissional

O ESTADO DE S. PAULO

No Planalto e na planície, o PMDB monitora a evolução dos apoios, dúvidas, desistências, ameaças de traições e vigia a firmeza dos votos dados como certos para Michel Temer, na eleição de amanhã para a presidência da Câmara.

A central de checagem - digamos assim - funciona na sede da Fundação Ulysses Guimarães, no prédio do Congresso, com uma equipe de cinco pessoas, sob o comando do deputado Eliseu Padilha, que é responsável pela produção de cinco planilhas atualizadas duas vezes por dia a partir de informações coletadas nos partidos, entre deputados, lideranças e nos Estados, inclusive junto a adversários dos parlamentares/eleitores.

"Lá, na base, as posições se manifestam com mais confiabilidade do que em Brasília, onde o deputado pode fazer o jogo da simulação, da média com todos os candidatos, diz Padilha, do alto da experiência adquirida durante o governo Fernando Henrique, quando a "central" foi criada como uma espécie de órgão auxiliar do Palácio do Planalto no acompanhamento das votações no Legislativo.

No governo Lula assumiu uma feição diferente. Até por ser comandada pelo grupo que aderiu só no segundo mandato, trabalha voltada muito mais aos interesses do partido.

O principal, no momento, é a eleição do presidente do PMDB para presidente da Câmara. Padilha carrega os números numa pastinha de plástico transparente, separados em grupos de informações Estado a Estado, partido a partido, deputado a deputado, liderança a liderança.

Há também uma planilha dos dados colhidos com o governador de cada Estado, o assessor político do governo local e os partidos adversários e/ou aliados. Feita a coleta do dia, tudo é posto num programa de computador que cruza as informações e imprime tudo em quatro cores.

Os votos duvidosos são agrupados em outra listagem - a das "dúvidas" - e ao lado de cada nome é indicado, em código, o político encarregado de convencer o vacilante. "G" aparece várias vezes. É o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima.

Padilha abre a pastinha para "provar" que o método é científico. Mas não avança na "comprovação" ao ponto de exibir a principal informação: com quantos votos Michel Temer conta.

Aí, é preciso acreditar na palavra dele. Na sexta-feira de manhã, assegurava: "Nosso teto é de 422 votos e o piso de 340". Já foi de 308, há 13 dias. Nesse período, 70 deputados se definiram, nem todos em favor de Temer, mas, segundo Padilha, a maioria.

Mesmo depois da entrada de José Sarney em cena?

"Ficam dizendo que a situação piorou, mas é o oposto." De acordo com ele, porque, ao contrário do que se diz, os aliados de Sarney na Câmara trabalham em prol de Michel Temer.

A filha do senador, a também senadora Roseana Sarney, telefonou garantindo o apoio e, depois, a equipe da "central", correu atrás. "Checamos um por um e a informação conferiu."

De sexta-feira até a eleição, amanhã, haverá três novas atualizações das planilhas que podem ser científicas na forma, mas, como o conteúdo é baseado num fator chamado natureza humana, o resultado dirá se o empenho da palavra ainda é um traço do exercício da profissão ou se o vale-tudo vigente transformou a política em coisa de arrivista amador.

Retrato

Há quem considere perda de tempo a crônica política conferir atenção à eleição das presidências da Câmara e do Senado. Há quem considere isso fruto da autorreferência dos frequentadores da "ilha da fantasia", como se convencionou denominar Brasília.

Não é. Nesses momentos, a maneira como se movimentam suas excelências, os interesses em torno do qual fazem seus jogos individuais e partidários, os fatores postos à mesa traçam um perfil da conduta dos representantes que aos representados interessados nos meios e modos de funcionamento do País seria aconselhável examinar.

Gostamos muito de nos mostrar cosmopolitas, exibir conhecimento profundo a respeito do que se passa no mundo, na eleição americana, na guerra do Iraque, no conflito árabe-israelense, mas tendemos a qualificar as coisas da política brasileira como assunto de segunda linha, sem interesse para o dito "cidadão comum".

A compreensão do mundo é importantíssima. Mas quem não compreende o país onde vive dificilmente conseguirá compreender direito os outros.

Via das dúvidas

Para todos os efeitos, o PMDB da Câmara acredita nas declarações de dirigentes do PT de que não há hipótese de haver traição a Michel Temer, seja qual for o resultado na eleição do Senado.

Mas, por precaução, os deputados pemedebistas resolveram se antecipar e dar quórum à sessão da Câmara antes da hora marcada. A eleição no Senado terá início às 10h e a da Câmara ao meio-dia. Os deputados do PMDB vão antecipar o início da votação a fim de que as duas eleições ocorram simultaneamente.
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EDITORIAIS1/2/2009 - EDITORIAIS DO JORNAIS

DO BLOG Democracia Política e novo Reformismo 1/2/2009 - CLICAR PARA LER


Augusto Nunes Sete Dias



O Ministro assassina a verdade

Se não padecesse de prolixidade incurável, se não sofresse de admiração aguda por si próprio, se não contemplasse a catarata de idéias que despenca da cabeça do pensador Tarso Genro com o deslumbramento de turista na primeira vez em Foz do Iguaçu, o ministro da Justiça poderia ter livrado da cadeia o assassino de estimação sem reforçar a suspeita de que o Brasil não é um país sério. Mas quem o conhece sabe que Tarso derrapa na tentação de defender alguma tese até em festa de batizado.

Se não lhe faltasse a sensatez que sempre deveria sobrar a um ministro da Justiça, o magistrado acidental teria comprimido em cinco ou seis linhas a sentença que absolveu Cesare Battisti de todos os pecados. Era só alegar que a legislação brasileira é meio confusa, tanto que manda promover a refugiado político um terrorista condenado à prisão perpétua na Itália, mas nem por isso a nação amiga deve sentir-se injuriada, coisas assim. Encerrada a concisa exposição de motivos, Tarso Genro capricharia na pose de constrangido, sairia à francesa e ficaria alguns dias na muda.

Em vez disso, o ministro resolveu redimir-se do fiasco da refundação do PT com um parecer que refundaria, além do caso Battisti, a história recente da Itália. Acabou produzindo um samba do crioulo doido de deixar pálido de espanto o mais delirante compositor da Sapucaí. Bandidos viraram mocinhos, heróis viraram vilões. E a democracia suficientemente musculosa para erradicar a praga do terrorismo sem recorrer a qualquer medida de exceção transformou-se numa tirania dissimulada, "que usou leis que reduziram as prerrogativas da defesa para coibir organizações revolucionárias". Para libertar o companheiro, Tarso matou a verdade e humilhou a Itália.

O que o ministro qualifica de "guerra civil" foi o duelo que opôs a governos eleitos pelo povo grupos de liberticidas tão despovoados quanto ferozes, decididos a implantar a ditadura comunista. Tarso rebaixou a perseguidores perversos autoridades que defenderam o estado de direito sem quaisquer concessões ao autoritarismo.

Se representavam efetivamente a vontade do povo, as "organizações revolucionárias" poderiam liquidar a tirania com uma única disputa eleitoral. Ou porque não tinham votos para eleger um síndico, ou por acharem pouco heróica a luta nas urnas, os patriotas de Tarso resolveram, em 1975, que seria mais emocionante chegar ao poder pela trilha da violência. E então começaram os assaltos, atentados, seqüestros e assassinatos. Os terroristas capitularam na década seguinte. A procissão de horrores se estendeu até o fim do século, prolongada pelo primitivismo brutal dos mafiosos.

Os jovens generais da guerra sem sentido revogaram os limites da fúria. A nação ainda convalesce da perplexidade dolorosa provocada pela explosão da estação ferroviária de Bolonha, pela execução do primeiro-ministro Aldo Moro, pelo assassinato do general Carlo Alberto Dalla Chiesa, pelo extermínio de juízes engajados na Operação Mãos Limpas. Para Tarso, nada disso é importante. Guerras são assim mesmo. E nenhuma é mais justa que a guerra pelo socialismo.

- Companheiros de luta e de cama

Os companheiros que festejam a iminente libertação de Cesare Battisti ficam grávidos de ira quando alguém apresenta como assassino e terrorista o veterano de guerra que merece ser qualificado de ex-guerrilheiro e escritor de primeira. Engajado no grupo Proletários Armados pelo Comunismo, Battisti não fez nada que justificasse medalhas ou condecorações por demonstrações de bravura em combate. Matou dois contra-revolucionários, ajudou a liquidar outros dois inimigos burgueses e assaltou uma dúzia de estabelecimentos comerciais. O autor do livro de memórias já lançado no Brasil, com o título Minha fuga sem fim, está à espera de apreciações insuspeitas. Segue-se um trecho que envolve o homem que o delatou:

"Depois de certo tempo, eu e Pietro Mutti passamos a partilhar as noitadas no bar, mas às vezes a mesma cama e a mesma garota. (...) O vinho abolia as minhas reticências e a cama era suficientemente grande para três. Ela era a mulher dele, estavam casados havia dois anos. (...) Cheguei a me perguntar se devia admirá-lo ou me sentir culpado. Um pensamento apenas, que não impediu de fazer amor com a mulher dele na presença dele. Claro, sua absoluta falta de ciúmes não deixava de me intrigar".

Pela aspereza com que tem tratado Pietro Mutti, o ministro Tarso Genro e o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh ou não leram o livro ou acham melhor fingir desconhecê-lo. Os dois estão muito mais bravos com Mutti do que o ex-companheiro de lutas e madrugadas.

Rudá provou que o país tem jeito


O Brasil soube pela TV da morte de John Updike. No dia seguinte, os jornais contaram em extensas reportagens como foi a vida e a obra do escritor americano. Faz sentido. O que não faz é o tratamento dispensado à morte de Rudá de Andrade pela TV, que nem a noticiou, e pelos jornais, que a confinaram em espaços diminutos. O país merecia saber que não havia perdido apenas o filho de Pagu e Oswald de Andrade. Perdeu também um dos fundadores da Cinemateca, da escola de cinema da USP e do Museu da Imagem e do Som. Perdeu o criador da primeira oficina cultural do Estado de São Paulo. Quem conheceu Rudá tem o dever de acreditar que o Brasil tem jeito.

Assim é a vida que se pede a Deus


Castigado com a nomeação para o posto de adido da Abin em Portugal, o delegado Paulo Lacerda não tem motivos para morrer de saudade do Brasil. Ganha um dinheirão em dólares para descansar na embaixada em Lisboa. Dessa vida que todo mundo pede a Deus desfrutam, espalhados por 32 países, mais dois adidos da Abin, 63 adidos militares, sete adidos policiais e três adidos tributários e aduaneiros. O governo acha pouco. Até o começo de 2010, serão 101 os que foram dispensados da escala no Instituto Rio Branco para pousarem em 34 países. Aguardam a chamada para o embarque outros 17 adidos policiais e nove adidos agrícolas – cargo inventado a quatro mãos, em maio de 2008, pelo presidente Lula e pelo ministro Reynhold Stephanes.

Os salários mensais vão de US$ 9 mil a US$ 17 mil (ou de R$ 19.800 a R$ 37.400, se convertidos em moeda nacional). Com o aumento da tribo, a folha de pagamentos engolirá, a cada 30 dias, mais de R$ 2,2 milhões. Stephanes garante que o país sairá no lucro. "Os Estados Unidos têm adidos agrícolas há mais de 50 anos", exemplifica. O orçamento americano é infinitamente maior que o brasileiro há mais de 200. "Em Bruxelas, o adido acompanhará as negociações dos interesses bilaterais com os 27 países-membros da União Europeia", anima-se Stephanes. Os gastos com os adidos ficam por conta do ministério que os indicou. O Itamaraty só cuida do curso que ensina um monoglota a gaguejar em língua estrangeira.

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