| Valor Econômico - 10/05/2011 |
A esta altura já está caracterizado que a grande mudança na política econômica do novo governo parece ser a maior disposição em correr maiores riscos em relação à inflação. Não chega a ser uma mudança radical, mas também não é pouca coisa. A concepção básica que sustenta o argumento não deixa de ser tentadora. É, sem dúvida, atraente a ideia de que os juros não devam subir muito para não frustrar a sensação de bem-estar que criou condições propícias para a vitória do governo em 2010. Os salário crescem, as empresa lucram, a arrecadação sobe e o desemprego nunca foi tão baixo. Por que estragar a festa, agora que deu certo? Um pouco mais de inflação em troca de um pouco mais de crescimento pode parecer um bom negócio, principalmente se a pressão inflacionária for passageira, fruto de choques de oferta. Ou seja, o governo poderia errar de duas formas. Pode superestimar a ameaça da inflação, elevar os juros de forma significativa para perceber mais adiante que sacrificou desnecessariamente o crescimento. Pode também não subir tanto os juros e ser surpreendido no futuro com uma inflação mais alta. Tudo sugere que o governo prefere correr o segundo risco. Por que? A resposta mais ingênua para essa pergunta é imaginar que se trata de uma subordinação do Banco Central (BC) às conveniências políticas de momento, o que reduziria o dilema à uma mera questão de hegemonia e remeteria a discussão ao campo da independência ou autonomia da autoridade monetária. É mais complicado que isso. Há, pelo menos, três razões que podem dar uma pista melhor. A primeira é também a mais óbvia. Talvez o BC saiba de coisas que ninguém sabe. Talvez, de fato, a ameaça de uma inflação mais alta não seja tão premente, o preço das commodities caia logo e possamos caminhar suavemente para o centro da meta ao longo de 2012. O problema dessa explicação é que, justamente porque é competente, é improvável que a autoridade monetária desconheça que os preços das commodities podem novamente ficar pressionados a partir do início de 2012, assim como tem plena consciência de que o aumento do salário mínimo na casa dos 14% no próximo ano não vai ajudar em nada a necessária contração da demanda. Da mesma forma, o Banco Central certamente conhece, melhor que o mercado, a impossibilidade de se promover um corte nominal nas despesas públicas, seja pelo estreito raio de manobra contábil, seja pela necessidade de acomodar tensões políticas inevitáveis em um governo de coalizão que conta com dez (dez!) partidos. Também sabe que o alinhamento de planetas que permitiu a conjugação entre forte crescimento com inflação relativamente baixa em 2010 não vai durar para sempre. Em algum momento, os juros internacionais subirão e as virtudes do Brasil poderão ser percebidas com menor entusiasmo - o BC sabe disso tudo. Outra alternativa é imaginar que mudou o cálculo político que permeia esse tipo de decisão. Talvez o novo governo avalie que sacrificar crescimento é mais pernicioso, do ponto de vista de seus aliados e eleitores, do que uma inflação mais alta. Ou, dito de outra forma, o ônus de uma inflação mais alta seria mais do que compensado pelo benefício de um crescimento ainda vigoroso. Isso poderia ser verdade se estivéssemos às vésperas de uma eleição importante, quando tipicamente o futuro tem menos valor e o curto prazo predomina sobre os problemas que se materializarão mais adiante. Mas não só estamos em início de governo, quando se espera mais maldades, como todos sabemos que uma inflação maior agora pode comprometer o crescimento justamente quando ele será mais necessário, combinando o pior dos dois mundos na época da campanha eleitoral. O eleitor vota com o bolso e a redução da renda real não ajudaria em nada o governo. Os deputados e senadores sabem bem isso. Parece mais crível a hipótese de que a postura mais gradualista reflita apenas a enorme dificuldade em se adotar uma estratégia mais agressiva diante da complexidade do quadro com que se defronta o governo. Com efeito, não há nada simples que possa ser feito. O corte de gastos públicos, por exemplo, visto como alternativa ideal pelo mercado, é na prática pouco viável, não por falta de "vontade política" mas por restrições institucionais conhecidas dos especialistas. É urgente e absolutamente necessário controlar o ritmo de expansão da despesa pública, mas a margem de manobra é pequena mesmo se o governo pudesse jogar todas suas fichas nessa aposta. Pesar a mão em novas medidas de contenção de crédito, para tornar menos necessária a elevação dos juros, poderia trazer dúvidas sobre a saúde de parte do sistema financeiro, o que é prejudicial a todos. Muito cuidado nessa hora - não para atender ao interesse dos bancos, mas para assegurar a tranquilidade dos depositantes. Exagerar no controle de capital externo como forma de abrir espaço para juros mais altos sem provocar nova valorização cambial poderia assustar investidores estrangeiros e, na ausência de um mecanismo que permita aferir a dosagem apropriada, pressionar o câmbio e a própria inflação. Da mesma forma, elevar os juros em exagero pode, na outra ponta, provocar uma nova rodada de valorização do real e aguçar os problemas de competitividade de parte significativa da indústria, com repercussões sobre o emprego e a renda de um setor que sabe vocalizar suas reivindicações. Poucas vezes a política econômica esteve enredada em tantas escolhas mutuamente restritivas. Em suma, tudo sugere que o gradualismo, mais do que a ignorância dos riscos ou a ousadia de querer corrê-los reflita apenas o estreito raio de manobra da política econômica de um governo heterogêneo e multifacetado que, dardejado por múltiplas solicitações e restrições, prefere fazer um pouco de cada coisa, comprar tempo e pagar para ver. Muito provavelmente teremos ainda novas rodadas de restrição ao crédito, limitações à entrada de capitais, tentativas de conter o crescimento dos gastos do governo e elevação de juros. Dará certo? A resposta virá com o tempo - pouco tempo. Luis Eduardo Assis é economista. Foi diretor de política monetária do Banco Central e professor da PUC-SP e FGV-SP. |
Terça-feira, Maio 10, 2011
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