Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 02, 2008

Míriam Leitão - Análise difícil


PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
2/4/2008

Os preços dos alimentos vão continuar este ano tão altos ou até um pouco mais altos que no ano passado. Alguns desses produtos são commodities, ou seja, têm cotação e negociação internacionais, mas mesmo no caso do arroz, em que só 7% do consumo mundial são comercializados, houve um salto no preço nas últimas semanas. Quem exporta, como o Vietnã, está simplesmente proibindo a exportação do produto.

É o que conta o economista José Roberto Mendonça de Barros. A notícia de que a safra de soja americana está com indicação de ser bem mais alta, e isso derrubaria os preços, não o convence.

- Ainda é uma intenção de plantio; só a divulgação desses dados já faz com que muitos produtores deixem de plantar, e a profecia não se realiza.

O mundo está em crise; a sua maior economia, numa recessão. Como é possível, num quadro assim, os preços subirem?

- Nós, analistas, estamos diante de um desafio maior agora. O Brasil nunca esteve tão ligado ao mundo, mas, ao mesmo tempo, nunca esteve tão preparado para uma crise; mas o mundo mudou muito. Fazer análises e previsões agora é mais difícil.

Os Estados Unidos, apesar de viverem uma enorme crise de crédito que abala as famílias americanas, continuarão comprando alimento.

- A dona-de-casa pode ficar brava com o aumento do pão, mas não vai deixar de comprá-lo. O país tem US$40 mil de renda per capita.

Os consumidores da China e da Índia continuarão aumentando o consumo.

- A oferta de terra, de gente para trabalhar, é limitada. Não dá para dar saltos de produção rapidamente. Isso leva um tempo.

O biocombustível continuará pressionando o setor de commodities agrícolas.

- O governo americano anunciou que serão esmagados 104 milhões de toneladas de milho só para etanol.

Esses preços têm permitido esconder nossas enormes falhas no setor de infra-estrutura.

- No ano passado, o Brasil exportou 10 milhões de toneladas de milho com um ágio de US$100: o preço estava US$150 e vendemos por US$250. Por isso, foi possível suportar o custo de exportar pelo Porto de Paranaguá, com 25 dias, em média, de espera. Cada dia de um navio custa US$70 mil.

O trigo enfrenta muita demanda e as confusões do governo argentino.

- O governo impôs ao exportador um imposto pago em mercadoria, tão alto em alguns produtos que atinge até o médio produtor. O que o ministro da Fazenda queria com isso era aumentar a arrecadação e restabelecer o equilíbrio fiscal às custas do produtor.

Deu no que deu. A Argentina, grande produtora de alimentos, está enfrentando uma perigosa desorganização na área produtiva, piorada por uma inflação não declarada que, só este mês, pode ser de 3%. Em um ano, está chegando a 25%. O governo oficialmente admite 8,5%, mas, ao mesmo tempo, oferece aos professores 20% de aumento de salário, mostrando que sabe que a inflação é maior.

Como se tudo isto não fosse suficiente - problemas em países produtores, aumento da demanda, crise na oferta, competição dos biocombustíveis - os estoques estão muito baixos. Mesmo assim, é à especulação que José Roberto atribui o salto dos preços no início do ano.

- Houve uma corrida de investidores para os fundos de commodities. Esses fundos compram commodities, como os fundos de ações compram ações, e isso fez os preços dispararem. Mas já voltaram, em grande parte. Na média, porém, este ano devem ficar altos como em 2007, ou um pouco acima.

José Roberto acha que o mesmo que está ocorrendo na agricultura vai acontecer nos metais, que enfrentam também pressão de demanda, apesar da crise mundial.

- No ano passado, o aumento do consumo de petróleo no Oriente Médio foi igual ao aumento de consumo nos Estados Unidos: 300 mil barris/dia, porque eles estão investindo muito.

O economista está preocupado com o rumo da inflação no Brasil, apesar de as projeções continuarem indicando uma inflação no entorno do centro da meta.

- A inflação devagarzinho está dando sinais de subir, e isso é perigoso, principalmente com todos os sinais de aumento de demanda. Na pesquisa da FGV, consultadas, a maioria das empresas de material de construção admitiu que não vai conseguir entregar todas as encomendas. Alguns produtos, como minérios, cimento, estão sendo corrigidos. O uso durante dois meses das termelétricas deve bater nos preços de energia, porque o custo do megawatt nestas usinas é de R$600. Além disso, os preços dos importados, que antes puxavam para baixo a inflação, estão subindo muito.

Mendonça de Barros chama a atenção para um outro problema de que pouca gente se dá conta: o risco de a crise americana ter reflexos no Brasil, não por problemas nos bancos, que não estão expostos às hipotecas de alto risco, mas porque o custo dos financiamentos e as taxas de risco em qualquer crédito externo estão aumentando.

- Em outubro, tinha fila de banqueiro querendo emprestar para empresa brasileira; agora, a fila sumiu e as taxas subiram. As operações de crédito com funding externo ficarão cada vez mais caras.

Como diz José Roberto, nada é simples como foi no passado. É cada vez mais desafiador entender o que está se passando no mundo e suas conexões entre as economias.

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