Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 29, 2007

Radar

Lauro Jardim (ljardim@abril.com.br)


CONGRESSO

O governo de castigo 1
A vida do governo não anda mesmo fácil no relacionamento com a base aliada. É o que mostra o levantamento inédito feito pela Arko Advice, do cientista político Murillo de Aragão. Entre fevereiro e setembro, o porcentual de votos a favor dos projetos do governo nunca foi superior a 60%. E, pior, mantém-se em uma sofrível média de 55%. É uma base dividida ao meio. Haja cargo para agradar a essa turma.

O governo de castigo 2
O PT não é o partido que mais ajuda a aprovar os projetos do governo. E sim o PCdoB, que teve 88% de votos favoráveis em setembro. No PT, esse porcentual foi de 83%. O PMDB ficou bem abaixo disso: 67% de apoio. Como se escreveu acima, haja cargo.

Juntos, mas nem tanto, desde a universidade

Fotos Ana Araujo
Mendes e Barbosa: suas excelências se exaltaram no plenário do STF

O bate-boca entre os ministros do STF Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, na quinta-feira passada ("Vossa excelência não tem condições de me dar lição de moral." "E vossa excelência tem?"), reuniu dois personagens que há décadas fazem carreiras paralelas, mas nunca foram amigos – muito pelo contrário. Barbosa e Mendes foram contemporâneos na Universidade de Brasília (UnB). Depois, prestaram o mesmo concurso para oficial de chancelaria do Itamaraty. Estavam juntos num concurso para procurador do Ministério Público, sempre sendo aprovados. A rixa entre os dois ficou patente na ocasião da indicação de Barbosa para o Supremo, aonde Mendes chegara um ano antes. Barbosa atribui ao colega uma campanha de bastidores contra a sua indicação.


MENSALÃO MINEIRO

Dado da realidade
José Serra disse reservadamente na semana passada que o tucanoduto "traz prejuízos para o partido", mas é "um dado da realidade, do qual não se pode fugir". Ainda assim, Serra não é a favor "de sair matando" Eduardo Azeredo.

INTERNACIONAL

Marqueteiros de exportação
É o brasileiro Elsinho Mouco o marqueteiro do general Lino Oviedo, que saiu da prisão há três semanas e lidera as pesquisas de opinião para a eleição presidencial de abril no Paraguai. Em 2006, o marqueteiro trabalhou na campanha do ex-ministro Edson Vidigal a governador do Maranhão.

PECUÁRIA

Barraco na fazenda
A agressividade do presidente da Nestlé, Ivan Zurita, no setor da pecuária fez dele um dos maiores criadores de gado do país e promotor dos leilões mais badalados. Mas nem tudo é festa. Na semana passada, um dos mais tradicionais pecuaristas do país, Francisco Jalles Neto, cuja família cria gado há mais de 100 anos, mandou uma carta aberta aos integrantes da Associação dos Criadores de Nelore desancando Zurita. Na carta, Jalles chama os leilões do presidente da Nestlé de "circo de famosos e industriais endinheirados que mal sabem distinguir uma vaca de um boi". E diz que o empresário e os seus leilões são "uma ameaça". O motivo da raiva é um projeto de Zurita para cruzar duas raças, do qual Jalles discorda.

ECONOMIA

O minério e a pedra negra
Sem alarde, o megafundo de investimentos nova-iorquino BlackRock foi às compras nas bolsas e já é dono de 5,3% da Vale do Rio Doce. O BlackRock, que possui 1,2 trilhão de dólares em ativos, continua aumentando sua posição na mineradora.

FUTEBOL

Envelope fechado
O Clube dos Treze, que negocia os direitos de transmissão do Brasileirão em nome dos clubes, recebeu na semana passada uma carta da Record. A emissora do bispo Macedo diz que quer fazer uma proposta para, a partir de 2009, tirar da Globo o campeonato. Mas exige que o processo de escolha seja uma concorrência, do tipo envelope fechado. Ou seja, quem der mais leva. O bispo está disposto a pagar 500 milhões de reais por temporada – o dobro do que custa hoje para a Globo.

Armínio compra 20% do grupo de Nizan

Fabiano Accorsi
Oscar Cabral
Nizan e Armínio: um é craque em vendas; o outro em compras

Armínio Fraga fechou na quinta-feira passada a compra de 20% da holding de publicidade Ypy, de Nizan Guanaes, dona das agências Africa, MPM e DM9DDB, entre outras. O Gávea, fundo que Armínio administra, pagou 35 milhões de dólares pelo negócio. Algumas coisas mudam, além da participação de Nizan, que cai de 51% para 31%. O foco será crescer na área de conteúdo, apostar na internacionalização da empresa e, em 2009, na abertura de capital. O nome da holding, Ypy, será aposentado. Em seu lugar, surge a ABC, com sede no Rio de Janeiro. A presidência permanece nas mãos de Guga Valente.


TECNOLOGIA

Câmera, celular, ação!
Vem aí um novo big brother. Não tem nada a ver com o programa da TV. Trata-se de uma tecnologia de televisão móvel que permitirá que cada um possa ver ao vivo, via celular, imagens de sua casa ou escritório. Quem a desenvolveu foi a empresa brasileira M1nd Lab, e algumas operadoras brasileiras oferecerão o serviço até o fim do ano.

BEBIDA

O preço do envelhecimento
Quer um uisquinho? E a 1.000 reais a garrafa? Para quem tiver bala na agulha, desembarcarão no país no fim de outubro 100 garrafas do Chivas 25, ou seja, envelhecido 25 anos. O lançamento é mundial, mas na América Latina apenas o Brasil receberá o malte.


Notas diárias em www.veja.com.br/radar – acesso livre



Frank Rumpenhorst/AP


Diogo Mainardi McCarthy estava certo

McCarthy estava certo

"Agora que jornalistas da minha listinha de
fato foram trabalhar para Lula, com carteira
assinada e tudo, aguardo os pedidos de
desculpas de meus detratores arrependidos,
as odes em minha homenagem, os beijinhos
e os cafunés"

A TV do Lula já tem um chefe: Tereza Cruvinel. Na quarta-feira, ela foi escolhida para presidir o canal estatal. Petistas e peemedebistas brigam para abocanhar cargos na Petrobras. Enquanto isso, o lobista Mainardi, com seu jeito sonso, conseguiu emplacar mais um nome de sua listinha para um posto de comando no governo.

A primeira listinha do lobista Mainardi foi publicada numa coluna de dezembro de 2005. Nela, relacionei uma série de jornalistas comprometidos com Lula. Mais do que simples torcedores ou correligionários do presidente, acusei-os de distorcer os fatos a fim de abafar as denúncias contra os mensaleiros. A certa altura, eu dizia:

O Globo tem Tereza Cruvinel. É lulista do PCdoB. Repete todos os dias que o mensalão ainda não foi provado. E que José Dirceu não deveria ter sido cassado. Ela aparelhou o jornal da mesma maneira que os lulistas aparelharam os órgãos públicos. Quando tira férias, seu cunhado, Ilimar Franco, assume sua coluna.

Minha listinha de colaboracionistas na imprensa incluía o nome do atual ministro Franklin Martins, que indicou Tereza Cruvinel para a TV do Lula. E o nome de Helena Chagas constava de uma listinha sucessiva em que tratei da quebra do sigilo do caseiro Francenildo. O que fará Helena Chagas? Ela dirigirá o departamento de jornalismo da TV estatal.

Fui muito atacado na época da primeira listinha. Me acusaram de ligeireza. Me diagnosticaram um extenso rol de neuroses. Quatro dos citados chegaram a me processar: Franklin Martins, Leonardo Attuch, Paulo Henrique Amorim e Mino Carta. Até aquele momento, os quinta-colunas da imprensa permaneciam incógnitos. Ninguém admitia que a afinidade partidária pudesse interferir no desempenho profissional dos jornalistas. E ninguém admitia que eles pudessem estar trabalhando para Lula clandestinamente. Agora que alguns deles de fato foram trabalhar para Lula, com carteira assinada e tudo, aguardo os pedidos de desculpas de meus detratores arrependidos, as odes em minha homenagem, os beijinhos e os cafunés.

No fim daquele primeiro artigo, anunciei o plano de delatar todos os lulistas da imprensa, formando o tribunal macarthista mainardiano. Como sempre acontece comigo, a piada se voltou contra mim. Por muito tempo, fui tachado como um macarthista que perseguia seus colegas por motivos puramente ideológicos. O fato é que Joseph McCarthy estava certo: o comunismo tinha um monte de agentes infiltrados no sistema americano. O fato é que eu também estava certo: o lulismo tinha um monte de agentes infiltrados na imprensa brasileira.

Dois anos depois do estouro do mensalão, já podemos fazer um retrospecto do caso. O STF delineou com clareza suas principais ramificações: o núcleo presidencial, o núcleo parlamentar, o núcleo bancário, o núcleo publicitário. O mensalinho tucano irá desmascarar o núcleo oposicionista. Quanto ao núcleo jornalístico, a ida de Tereza Cruvinel para a TV do Lula fechará o ciclo de uma vez por todas. Estou à espera dos beijinhos. Estou à espera dos cafunés.

Roberto Pompeu de Toledo

Sobras da história (2)

Ioiô da Professora era a prova viva
de que a Guerra de Canudos terminou
com derrota para todos

"Seu Ioiô? Aquele velho branco?" Assim reagiu a senhora a quem o escrevinhante que vos fala pedira informações, numa rua de Euclides da Cunha, no sertão da Bahia, na primeira das três vezes em que por lá esteve para reportagens sobre a Guerra de Canudos. "Velho branco" é uma identificação precisa. João Siqueira Santos, o "Ioiô da Professora", era um velhinho miúdo, óculos de grossas lentes e armação grande demais para o tamanho do rosto, pele branca e vasta e decisiva cabeleira branca. Morava numa casinha verde, conforme informou a senhora da rua. A casinha era muito procurada por pesquisadores, jornalistas e curiosos interessados na Guerra de Canudos. Beber na fonte representada por seu Ioiô dava a ilusão de ouvir uma testemunha do conflito, 100 anos depois. Ioiô da Professora (ao modo do sertão, o apelido o define como o filho de uma professora da cidade) morreu no mês passado, aos 98 anos, na Euclides da Cunha natal, cidade a 80 quilômetros de Canudos e na região por onde perambularam tanto Antônio Conselheiro e seus fiéis quanto as tropas em seu encalço.

O pai de Ioiô hospedara em casa, no famigerado ano de 1897, tempo em que Euclides da Cunha ainda se chamava Cumbe, oficiais que dali preparavam os ataques ao arraial conselheirista. Ioiô viria a se casar com a neta do "coronel" José Américo Camelo de Sousa Velho, o maior fazendeiro do Cumbe e inimigo visceral de Antônio Conselheiro, a quem atribuía em suas cartas, entre outros epítetos, os de "Conselheiro da Malvadeza", "monstro horroroso do Brasil" e "danado piolhento". Ioiô cresceu ouvindo as histórias que recontaria interminavelmente aos freqüentadores da casinha verde. Ele não era o único. João de Régis, João Butão, Paulo Monteiro, Antônio de Isabel, dona Ana do Bendegó (os nomes são preciosos) formavam um time de testemunhas, não diretas, que estas já haviam desaparecido, mas, digamos, testemunhas de segundo grau, de um dos episódios mais interessantes, trágicos e emblemáticos da história do Brasil. Eram pessoas que haviam convivido com pessoas que haviam vivido a guerra. Ioiô era, entre eles, o último sobrevivente. Agora é se contentar com as testemunhas de terceiro grau, as que conviveram com pessoas que conviveram com pessoas que viveram a guerra – se é que dá para se contentar com elas.

"Quando um negro velho morre na África, incendeia-se uma biblioteca." A frase, de Ortega y Gasset, era uma das preferidas do historiador José Calasans (1915-2001), mestre supremo da "canudologia" baiana que se seguiu a Os Sertões, de Euclides da Cunha, e um dos descobridores de Ioiô da Professora. Não é bem o caso de Ioiô porque a "biblioteca" contida em sua memória se conserva nas dezenas de livros e artigos que se alimentaram nela. Curioso foi acompanhar a utilização que Ioiô deu à "biblioteca" à medida que o sucesso entre os ouvintes lhe rendia desenvoltura crescente. Ele enfeitava as histórias com recursos de retórica e de teatro. "Vamos arretirar. Vem aí um Treme-Treme que não arrespeita sertanejo", dizia, caprichando na entonação, para descrever a reação à chegada do coronel Moreira César, o ferrabrás do Exército que prometia arrasar Canudos (e ali acabou morto). Punha nos lábios do Conselheiro frases como: "Esperem que vou fazer um milagre". Caprichava nos detalhes: "Aí o conselheiro chamou Pajeú. Veio Pajeú. Ele disse: – Sente-se". Ou então: "Ele entrou, tirou o chapéu...". Ou: "Vá buscar o padre Sabino, disse Moreira César". Pausa. "A ordem foi seca." Ioiô, um velhinho elétrico, sentava, levantava e gesticulava, enquanto desfiava seus relatos.

Os floreios, mais o fato de que misturava as memórias pessoais com trechos de Os Sertões, como notou o historiador Marco Antonio Villa, tornaram-no fonte menos confiável. Mas, no que perdeu em credibilidade, ganhou em fascínio. Não tinha a oferecer simples depoimentos. Encenava performances. Através delas, fazia a guerra continuar, por outros meios. Pena que estes eram apenas fugazes momentos de glória. Ao se despedir do ouvinte, Ioiô voltava a abrir o botequim (a "bodega", como se diz por lá) que mantinha na parte da frente da casa. Ou então a tocar a vida com a mulher (a neta do "coronel" José Américo), que, "doente das pernas", não saía da cama e do quarto se comunicava aos gritos com o marido. A casa era escura e suja. Na bodega, Ioiô atendia os cachaceiros da vizinhança.

Saía-se da casinha verde com a convicção de que a Guerra de Canudos terminara com derrota para todos os lados. Foi uma vergonha para o Exército, autor de um massacre contra gente simples e abandonada, uma tragédia para os seguidores do Conselheiro e, quanto à terceira parte envolvida – potentados sertanejos como o "coronel" José Américo –, mostrou que a posse de um latifúndio e o controle das rédeas do poder não impedem que, duas gerações depois, a neta venha a ser condenada a uma triste cama, num ambiente insalubre, enquanto o marido vende cachaça. Na bodega de seu Ioiô, até alguns anos atrás, a dose custava 50 centavos.

Sobras da história (1)

Lula na ONU: um discurso com conteúdo

O combustível de Lula

Na ONU, Lula chama a atenção do mundo ao
defender o álcool como alternativa ao petróleo


Heloisa Joly e Leonardo Coutinho

Ricardo Stuckert/PR
Lula: o etanol pode reduzir a pobreza em 100 países

Por um motivo prosaico, cabe ao Brasil o discurso inaugural das reuniões anuais da Assembléia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A tradição começou em 1949, durante a Guerra Fria. Americanos e soviéticos disputavam o direito de falar primeiro. Para que não houvesse um vencedor, escolheu-se o país que encabeçava a lista de inscrições. Desde então, cinco presidentes brasileiros já ocuparam essa tribuna. Todos se dedicaram a analisar a conjuntura internacional. Como a capacidade do Brasil de interferir nos destinos do mundo é quase nula, os discursos passaram em branco. Na semana passada, o pronunciamento brasileiro chamou a atenção do mundo pela primeira vez. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a ocasião para falar de um tema no qual o Brasil é uma autoridade: biocombustíveis. Em especial, o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar.

O países ricos se interessam pelo assunto porque precisam encontrar uma fonte de energia alternativa, e de preferência menos poluente, para reduzir sua dependência do petróleo, cujo preço subiu 280% desde 2002. O Brasil tem o maior e mais antigo programa desse tipo. Nos últimos trinta anos, o país desenvolveu uma tecnologia confiável para substituir o uso de derivados de petróleo em veículos. "A busca por combustíveis limpos e de fonte renovável é crucial no mundo de hoje. O Brasil tem tecnologia e recursos suficientes para liderar nessa área", diz Eduardo Viola, especialista em relações internacionais. Apoiado em dados, Lula mostrou que pode aumentar a sua produção de álcool sem necessidade de utilizar áreas hoje cobertas por florestas. O país tem terra inaproveitada de sobra e as usinas de álcool vêm aumentando em muito a sua produtividade.

Divulgação
Usina de álcool: com o avanço da tecnologia, é possível aumentar sua produção sem destruir a natureza

O pronunciamento de Lula serviu também como resposta a um documento divulgado pela ONU na semana passada. O relator da Organização para Direito à Alimentação, Jean Ziegler, adotou o discurso dos ditadores Fidel Castro, de Cuba, e Hugo Chávez, da Venezuela, que afirmam que as culturas destinadas à produção de biocombustíveis tomam espaço das que são destinadas à alimentação. Um dia antes da abertura da Assembléia-Geral, Ziegler recomendou a interrupção por cinco anos do crescimento da área agrícola destinada à produção de etanol. A história de que a fome grassará no mundo por causa da produção de biocombustíveis é uma falácia. Como disse Lula, a iniciativa em escala mundial até contribuirá para reduzir a pobreza, já que o etanol pode ser uma nova fonte de renda para a população de mais de 100 países pobres.

"Nos últimos anos, reduzimos a menos
da metade o desmatamento da Amazônia."

Em 2004, o Brasil perdeu 27 000 quilômetros quadrados de floresta, uma área do tamanho da Bélgica. Em 2006, o total devastado caiu para 14 000 quilômetros quadrados. Uma parte dessa redução pode ser atribuída à queda dos preços da carne e da soja, cujos produtores estão entre os principais desmatadores. Outra parte deve ser creditada ao governo, que fechou madeireiras ilegais e prendeu devastadores. A preservação da floresta evitou a emissão de 410 milhões de toneladas de carbono na atmosfera.

"No Brasil, com a utilização crescente e cada vez mais eficaz do etanol, evitou-se nestes trinta últimos anos a emissão de 644 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera."

Lula referiu-se aos benefícios ambientais obtidos com o uso do álcool combustível, a partir do lançamento do Proálcool, em 1975. Desde então, foram consumidos no país 325 bilhões de litros de etanol, o que eliminou a poluição mencionada pelo presidente. O bagaço da cana, um dos subprodutos do álcool, também é uma fonte limpa de eletricidade e já é utilizado por seis estados brasileiros.

"A cana-de-açúcar ocupa apenas 1% de nossas terras agricultáveis, com crescentes índices de produtividade."

Os avanços na tecnologia agrícola permitiram que o Brasil produza mais álcool nas áreas destinadas à cana. Nos últimos quarenta anos, o aumento de produtividade chegou a 60%. Pesquisas mostram que ainda é possível aumentar essa margem entre 30% e 40% na próxima década.

"Com dez anos de antecedência, superamos a primeira das Metas do Milênio, reduzindo em mais da metade a pobreza extrema."

Lula relacionou a preservação ambiental à erradicação da pobreza e relatou que o Brasil já cumpriu a primeira das oito metas estabelecidas pela ONU para seus integrantes até 2015. Entre 1990 e 2005, a parcela dos brasileiros que ganham menos de 1 dólar por dia caiu 52%, o equivalente a 4,7 milhões de pessoas.

Entidade ligada a Ideli Salvatti é investigada

O caixa 2 da turma de Ideli

Entidade fundada por petistas e ligada à líder do
PT no Senado é suspeita de desviar dinheiro público


Ricardo Brito e Otávio Cabral

Marcelo Botelho/Obrito News
A senadora Ideli: negociações para liberação de verbas dentro do gabinete

O Senado vai instalar nesta semana uma CPI para investigar entidades e organizações não-governamentais suspeitas de desviar recursos públicos. Somente nos últimos oito anos, o governo destinou 33 bilhões de reais às chamadas ONGs por meio de convênios e emendas parlamentares. Seria uma forma ágil e eficiente de fazer chegar às comunidades mais carentes os programas sociais. Sem fiscalização adequada, muitas dessas organizações se transformaram em máquinas de fraudes que enriquecem seus dirigentes e financiam campanhas políticas regionais. Em Santa Catarina, a Polícia Federal está investigando um caso exemplar. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul) recebeu 5 milhões de reais para promover cursos de treinamento profissional. Parte do dinheiro, já se sabe, foi parar na campanha política de um deputado do PT. Para justificarem os gastos, os dirigentes da federação falsificaram planilhas e criaram alunos-fantasma. O que mais chama atenção no caso, porém, é o eixo entre os principais envolvidos na fraude. Todos são correligionários, amigos ou assessores da senadora catarinense Ideli Salvatti, líder do PT no Senado.

A investigação da polícia se concentra em dezoito convênios firmados entre a Fetraf e os ministérios do Desenvolvimento Agrário, do Trabalho, da Agricultura e da Pesca – que lhe destinaram 5,2 milhões de reais entre maio de 2003 e março de 2007. O inquérito, que já tem mais de 300 páginas, recolheu provas que permitem concluir que a federação usou uma tecnologia de fraude muito conhecida desde os tempos em que o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares era um simplório conselheiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador. Usando a influência política, os dirigentes conseguem prioridade em assinatura de convênios com órgãos públicos. Há no esquema sempre um parlamentar amigo que, por meio de emendas, assegura recursos no Orçamento para os tais programas sociais. Nos ministérios, correligionários em postos-chave são os responsáveis pela seleção das parcerias. Depois, cabe às entidades escolhidas superfaturar contratos, inventar serviços e embolsar o dinheiro, às vezes tudo, às vezes apenas uma parte para simular que alguma coisa foi feita. A Fetraf, segundo a polícia, seguiu à risca essa cartilha.

Cristiano Mariz
A sede da Fetraf, em Chapecó: dinheiro só após a chegada do PT ao governo

A Fetraf foi criada em 2001 por petistas ligados à senadora Ideli Salvatti, mas sua importância social só começou a ser reconhecida depois do governo Lula. Um dos convênios já esmiuçados pela polícia foi assinado em 2003 com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, que liberou 1 milhão de reais para a entidade promover o treinamento de trabalhadores rurais em Chapecó, interior de Santa Catarina. Na época, o coordenador da entidade chamava-se Dirceu Dresch, um petista do grupo político de Ideli Salvatti. Dois mil trabalhadores rurais participaram do curso. A maioria, descobriu-se agora, era fantasma. Para fazer de conta que o curso existiu, a Fetraf apresentou uma lista de estudantes, com nome, CPF e endereço dos alunos. A polícia foi checar e descobriu que muitos não existiam, outros nunca ouviram falar do curso, alguns nem sequer moravam na região e os poucos que disseram ter freqüentado aulas – pessoas ligadas à federação, é claro – assinavam a mesma lista de presença várias vezes. Nos outros dezessete convênios assinados com a instituição, a história se repetiu. VEJA localizou no interior de Santa Catarina o agricultor Jackson Luiz Oldra. Segundo a polícia, ele foi usado pela federação para "captar" alunos para o curso de técnicas de plantio e colheita para jovens. Sua tarefa para conseguir o diploma de jovem agricultor era pegar as listas em branco na sede da federação, em Chapecó, e devolvê-las completamente preenchidas. "Peguei assinatura até com meu avô e minha avó", conta o rapaz, que já foi intimado a depor na PF. "A gente faz as coisas para ajudar e acaba se metendo em rolo", reclama. Para o Ministério do Trabalho, Ernesto, de 67 anos, e Ana, de 63, constam das estatísticas como "jovens" agricultores. A federação embolsou o dinheiro.

Os convênios exibem outras fraudes grotescas. Para dar aulas a alunos-fantasma, nada mais natural que se chame um professor com conhecimentos especiais. Um dos convocados para a missão exibe um currículo surpreendente. Marcelino Pedrinho Pies foi contratado em abril do ano passado para coordenar um curso destinado a pequenos agricultores, recebendo 4.000 reais por mês. O professor Marcelino tem um salário maior que o de muito doutor de universidade, mas seu currículo também é ímpar. Na mesma época da contratação, ele fez um acordo com a Justiça para doar cestas básicas a uma instituição de caridade. Voluntário? Não. Marcelino, ex-tesoureiro do PT do Rio Grande do Sul, confessou que usou dinheiro do valerioduto para pagar dívidas eleitorais do partido em 2002 quando o candidato ao governo era Tarso Genro, hoje ministro da Justiça. O dinheiro da Fetraf, que deveria estar formando trabalhadores, vem sendo usado para subsidiar também a pena de criminosos. A Polícia Federal estima que, no mínimo, 60% dos recursos destinados a treinar os trabalhadores acabaram nos bolsos ou nas campanhas políticas dos marcelinos da federação. Há evidências que sugerem isso – e muito mais.

Cristiano Mariz
Jackson, escalado para fraudar as listas: assinatura dos avós em curso para jovens

Dirceu Dresch, ex-líder da Fetraf no período em que foi assinada a maioria dos convênios, conseguiu se eleger deputado estadual pelo PT no ano passado. Antes disso, ele foi coordenador das campanhas de Ideli Salvatti. Eles pertencem à mesma corrente política do partido. Em 2002, Ideli candidatou-se ao Senado e Dresch a deputado estadual. Fizeram campanha juntos. Ela venceu a disputa e ele não se elegeu. No ano passado, Ideli, que desistiu de se candidatar ao governo em favor do então ministro da Pesca, José Fritsch (com quem a Fetraf assinou um convênio), deu uma mãozinha a Dresch, inclusive destacando Lizeu Mazzioni, um de seus assessores em Brasília, para coordenar a campanha. Ideli e Dresch são sócios na indicação do delegado do Ministério do Desenvolvimento Agrário Jurandi Teodoro Gugel, que assinou doze convênios com a Fetraf e ocupou o cargo até julho passado. Antes do ministério, Gugel era assessor lotado no gabinete de Ideli. Em novembro de 2004, Dirceu, Jurandi e Lizeu estiveram juntos em uma reunião na antiga sede da Fetraf, onde discutiram o apoio político da federação e seus filiados a uma eventual campanha de Ideli ao governo. Em troca, a senadora apresentaria emendas para sindicatos e prefeituras amigas da federação.

A campanha de Ideli ao governo não prosperou, mas as tratativas sobre as emendas continuaram. Documentos em poder da polícia revelam que, em 12 de setembro de 2005, o então coordenador de política sindical da Fetraf, Daniel Kothe, e o chefe-de-gabinete de Ideli em Brasília, Paulo Argenta, discutiram as formas de viabilizar os recursos para a federação. Em uma mensagem eletrônica trocada entre os dois gabinetes, chegaram a combinar até o destino das emendas. "Ficamos no aguardo dos encaminhamentos necessários para efetivarmos a aplicação desses recursos na base", escreveu Daniel Kothe, que substituiu Dirceu Dresch como líder da Fetraf-Sul. A mensagem deixa claro que as estratégias de ação da entidade e os projetos financeiros passaram pelo gabinete de Ideli. Os fatos mostram que a relação entre a senadora e o grupo que controla a federação é muito estreita. Além de Jurandi e Lizeu, já houve mais gente do gabinete ligada à Fetraf. Cleci Dresch, mulher do deputado Dresch, foi funcionária do gabinete da senadora até março deste ano. O que ela fazia? "Nunca fui a Brasília. Eu quero que você converse com o meu marido", limitou-se a dizer. O deputado Dresch não quis conversar. Um ex-auxiliar dele confirmou à polícia que parte do dinheiro desviado da federação foi usada em sua campanha política. "Os indícios de fraude e desvio de dinheiro são muito fortes", confirma o delegado Misael Mazzetti, da Polícia Federal.

Diego/Ag RBS
Cristiano Mariz
O deputado Dresch, beneficiário do caixa dois da Fetraf, e sua mulher, Cleci, funcionária-fantasma do gabinete de Ideli

A proximidade entre a senadora Ideli Salvatti e representantes de ONGs suspeitas não é novidade. Há outro alvo da CPI que também fica em Santa Catarina, também é comandado por gente ligada a Ideli e também tem uma carteira de milhões de reais em convênios com o governo. Assim como a Fetraf, a Unitrabalho recebeu 18 milhões de reais entre 2003 e 2006 para qualificar trabalhadores. A ONG chamou atenção no ano passado, quando o seu dirigente maior, Jorge Lorenzetti, ex-churrasqueiro do presidente Lula, amigo da senadora e funcionário do comitê de reeleição, foi flagrado em uma operação para comprar um dossiê contra adversários. Nunca se descobriu a origem do dinheiro apreendido com o grupo. A senadora Ideli emprega em seu gabinete Natália Lorenzetti, filha do ex-churrasqueiro petista. Procurada, a senadora não quis se pronunciar. Por intermédio de sua assessoria, mandou dizer que não tem nenhuma relação formal nem com a Fetraf nem com Dresch, e que as emendas que apresentou visaram apenas a beneficiar a agricultura familiar. Mandou dizer ainda que nunca foi citada pela Justiça ou pelo Ministério Público em irregularidade alguma envolvendo a Fetraf ou qualquer outra entidade. É verdade. Ainda não foi.

Renan manda e o PMDB derrota o governo

Garras de fora

Renan Calheiros ameaça rebelião contra
o governo se os petistas deixarem de apoiá-lo


Otávio Cabral

Alan Marques/Folha Imagem
Bruno Lins, testemunha que envolveu Calheiros com cobrança de propina, é agredido em Brasília

O senador Renan Calheiros mostrou na semana passada que sua debilidade política não o impede de constranger o governo dentro de seus domínios, o baixo clero do Senado. Desde que foi absolvido da acusação de quebra do decoro parlamentar por usar os serviços de um lobista para pagar suas despesas pessoais, Renan enfrenta pressões dos mesmos petistas que lhe salvaram a pele para deixar a presidência. A disputa promete fortes emoções – se se repetir o que aconteceu na última quarta-feira. Para estancar o desgaste produzido com o movimento da oposição que paralisou todas as votações como forma de protesto contra sua permanência no comando, Renan Calheiros aceitou uma trégua. Em troca da desobstrução dos trabalhos, seus aliados concordaram em acabar com as sessões secretas no plenário. O principal prejudicado com a decisão, como se sabe, é o próprio Renan, que ainda enfrenta três processos por quebra do decoro no Conselho de Ética. Ao perceber que a pressão dos aliados petistas surtira efeito, a tropa de Renan imediatamente retaliou, rejeitando a medida provisória que criava a Secretaria de Longo Prazo, impondo uma derrota ao governo. Foi um aviso de Renan Calheiros e seus aliados sobre o que pode vir a acontecer se ele se sentir abandonado pelos petistas.

Marcell Casal Jr/ABR
Calheiros: acuado, ele quer os petistas a seu lado


Renan Calheiros está preocupado com o futuro. Ele ainda é acusado de fazer lobby para uma cervejaria, de comprar emissoras de rádio usando laranjas e de liderar um esquema de cobrança de propinas, segundo o advogado Bruno Lins, que foi agredido em uma boate na semana passada. O blefe de Renan Calheiros, num primeiro momento, surtiu o efeito desejado. O governo, que depende dos votos dos aliados do senador para aprovar a CPMF, determinou aos petistas que, ao menos em público, parassem de cobrar a saída de Renan da presidência. Nos bastidores, há enviados do governo tentando sensibilizar parte da tropa rebelada dos peemedebistas ligados a Renan com oferendas, como cargos e verbas federais. Se der certo, o poder que Renan Calheiros ainda tem se limitará ao arsenal de informações comprometedoras que ele diz possuir contra parlamentares e políticos do governo. Dependendo de seu poder de fogo, seria a última tábua de salvação do senador.

Febraban divulga tabela de tarifas bancárias

A conta das contas

Site comparativo de tarifas bancárias da
Febraban recebe 400 000 consultas por dia


Cíntia Borsato

Fabio Barbosa, da Febraban: uma forma criativa de incitar a concorrência


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Nesta reportagem
Quadro: O menu das tarifas

Nos anos de inflação e juros altos, a vida dos bancos era mais fácil. Boa parte de seus lucros vinha de empréstimos que faziam ao governo. Outra, do dinheiro de clientes parado em contas sem atualização monetária. Após a normalização econômica do país, iniciada com o Plano Real, em 1994, essa vida tranqüila foi aos poucos se exaurindo. Para compensar o fim do ganho inflacionário e a queda dos juros, os bancos tiveram de emprestar mais a pessoas e empresas. Ou seja, retomaram seu papel primordial de alavancar, por meio de financiamentos, o crescimento do país. Paralelamente, também passaram a cobrar mais por um leque cada vez maior de serviços que, antes, eram baratos ou gratuitos. Entre 2000 e 2006, a receita com prestação de serviços – que inclui tarifas bancárias, administração de fundos, corretagem de ações, entre outrosquase quadruplicou: saltou de 13,5 bilhões de reais para 52,6 bilhões. Tal fenômeno produziu uma enorme insatisfação. E, com ela, a ameaça do governo de intervir no setor para limitar a cobrança de tarifas.

Num contra-ataque inteligente, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) inaugurou um sistema que beneficia os consumidores ao permitir que eles comparem, on-line, as tarifas entre os onze maiores bancos nacionais (http://200.213.193.136/star). Lançado em 18 de setembro, o sistema já é um sucesso: recebeu 4 milhões de consultas – 400 000 por dia, em média, em dez dias. A novidade tem vários méritos. O maior deles é o de abrir a caixa-preta das tarifas bancárias. Existem hoje 46 tipos listados no site. As taxas são destinadas a situações e a clientes diferentes. Grande parte se esconde sob nomes esquisitos e é calculada de forma distinta por cada instituição. Algumas aparecem discretamente nos extratos e nem são notadas. Tudo isso confunde os clientes e inibe a competição entre os bancos. Com o site, é possível comparar as taxas e fugir das mais altas.

Outro mérito da iniciativa é mostrar que os próprios bancos, com transparência, podem abolir exageros e incitar a competição entre eles. Com isso, afastam a tentação oficial de intervir no setor com instrumentos que já fracassaram no passado, como tabelamentos. "O site é uma maneira de estimular a concorrência e a auto-regulamentação do setor, bandeiras que defendo desde minha posse na Febraban", diz Fabio Colletti Barbosa, presidente do Banco Real e da Febraban. Segundo ele, as pessoas criticam as tarifas, mas não notam que, graças a elas, os bancos investiram na ampliação de agências e nos sistemas de informação. "Tudo para transformar o sistema brasileiro num dos melhores do mundo. Por exemplo, o Brasil é um dos poucos países onde é possível transferir dinheiro de uma conta para outra no mesmo dia."

A reportagem de VEJA analisou as 46 tarifas classificadas no site da Febraban e comparou as taxas dos dez maiores bancos (veja quadro). Várias delas são calculadas como um porcentual de pagamentos feitos ou de saldos bancários. Outras têm valor fixo. A mais cara delas é cobrada por dois bancos (Safra e Santander) dos clientes que querem antecipar o pagamento do financiamento de veículos: 1.000 reais. Existem ainda tarifas anacrônicas. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, é a única instituição a cobrar tarifa cadastral para abrir contas – comum nas décadas de 70 e 80 do século passado. Valor: 15 reais. Outro item que chama atenção é a taxa sobre a transferência entre contas de uma mesma instituição – uma espécie de CPMF privada. Na maior parte dos bancos, esse serviço é gratuito. A Nossa Caixa (banco do governo de São Paulo) cobra 4 reais por ele.

Com a mudança do papel dos bancos na sociedade, a conta bancária deixou de ser artigo de luxo, como era na época da alta inflação. Hoje, são cerca de 100 milhões de pessoas no sistema financeiro nacional. Devido à popularização da conta bancária, o aumento das tarifas (que compõem uma parte do gasto financeiro) tende a elevar o custo do financiamento em proporções muito maiores do que no passado recente. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, preocupado com esse impacto, elogiou a iniciativa da Febraban. "É uma forma de aumentar a transparência na cobrança das tarifas." Mas informa que o governo ainda não desistiu de intervir no setor. "A idéia não é tabelar preços, mas indicar quais serviços poderão ser taxados", diz ele. Mantega está bem-intencionado. Mas não há soluções mágicas. Se as tarifas forem controladas, os juros sobem. Em vez de intervir no setor, seria melhor deixá-lo funcionar num ambiente competitivo. Só assim as tarifas serão menores.

MST O avanço dos assentados nas universidades públicas

Invasão na universidade

A última do MST: cursos exclusivos em faculdades
públicas – com o patrocínio do governo


Camila Pereira

Sebastião Moreira/AE
Assentados na sala de aula: o objetivo do MST é formar quadros para "fazer a revolução"

Eis algumas das diferenças entre um curso universitário feito sob medida para assentados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os demais. As aulas, sejam elas da faculdade de geografia ou pedagogia, começam com uma espécie de encenação teatral durante a qual os sem-terra fazem conclamações à luta contra as classes dominantes. As disciplinas são definidas em assembléias nas quais os alunos têm cadeira e direito a voto. Foi numa dessas reuniões que se decidiu incluir o espanhol no currículo de um curso de letras na Bahia. Os assentados reivindicavam aprender o idioma a pretexto de melhorar a comunicação com os "companheiros" dos países da América Latina. Entre as matérias que só eles têm, uma das descritas com maior entusiasmo é história dos movimentos sociais, que "narra a luta pela terra" desde o Brasil colônia. O calendário local também segue uma lógica própria. O 7 de Setembro, em que se celebra a independência do Brasil, foi transformado no "dia dos excluídos". Adoram-se – dentro e fora da sala de aula – Che Guevara e Karl Marx. Por tudo isso, esses cursos de ensino superior, exclusivos dos sem-terra, se distinguem dos oferecidos no restante do país.

Há, no entanto, dois fatos surpreendentes que os tornam semelhantes aos demais. Eles ocorrem em algumas das melhores universidades públicas do país, entre elas a Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Estadual Paulista (Unesp). E, como qualquer outro curso de ensino superior, também concedem aos estudantes diploma de graduação reconhecido pelo Ministério da Educação (MEC). Um novo levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que patrocina os cursos, concluiu que o governo federal nunca investiu tanto na formação universitária dos sem-terra: 6,3 milhões de reais só em 2006 (veja o quadro abaixo). Já são dezesseis universidades públicas que oferecem graduação exclusiva aos assentados. É isso mesmo: elas aceitam apenas sem-terra. Segundo o ministério, o governo patrocina cursos do gênero nas áreas de pedagogia, geografia, letras, história e direito.

Eber Faioli/Cedecom/UFMG
Curso de pedagogia da terra da UFMG

Não é exatamente uma novidade o fato de o MST receber verbas do governo para educar seus integrantes. Na década de 80, o movimento pleiteou – e conseguiu – tornar públicas as escolas dos assentamentos, até então improvisadas sob lonas. Na década de 90, firmou convênios com faculdades públicas para cursos eventuais. Há dois anos, o MST criou a Escola Nacional Florestan Fernandes, espécie de universidade do movimento. O maior avanço, sem dúvida, veio com os novos cursos superiores. Com eles, os sem-terra estudam nas melhores faculdades do país, têm o privilégio da reserva de vagas e ainda por cima impõem um regime paralelo. No vestibular, são testados conhecimentos da cartilha do MST (veja alguns exemplos acima). Os assentados só entram na disputa por uma vaga com o aval dos líderes. Em sala de aula, onde se ensina um currículo aparentemente convencional, predomina o discurso anticapitalista e de ódio ao agronegócio. Dele, comungam os professores. Diz Gelcivânia Mota, do curso de pedagogia da Universidade do Estado da Bahia: "Os professores acreditam nas propostas dos movimentos sociais do campo".

Ensinar aos sem-terra uma visão dogmática do mundo já é por si só um problema, mas o quadro piora porque a catequese marxista se dá em universidades públicas – com patrocínio do governo. A meta do MST ao levar assentados à academia, afinal, é preparar gente para combater "o sistema" (aquele mesmo que os está bancando), e eles tratam abertamente do assunto. Segundo o livro A Política de Formação de Quadros, febre literária nos assentamentos do movimento, "quem não forma quadros dificilmente atinge seus objetivos estratégicos na revolução". É sempre bom saber que mais gente chega à universidade no Brasil. O problema, neste caso, é que ela está servindo a uma causa anacrônica – e não se presta ao papel fundamental de preparar jovens para atuar numa sociedade moderna.

O AVANÇO DO MST NO ENSINO SUPERIOR

Um novo levantamento do Ministério do Desenvolvimento Agrário mostra que o governo federal destina a cada ano mais verbas para cursos universitários exclusivos aos sem-terra. Eis os números:

Conclusão: o investimento do governo nesse tipo de curso cresceu 270% em quatro anos

O diploma é o mesmo.
Já o vestibular...

Para entrarem numa universidade pública, os sem-terra prestam um vestibular próprio. Eis algumas das questões extraídas da prova de múltipla escolha do curso de direito para assentados da Universidade Federal de Goiás

1 A relação entre estrutura fundiária e fome no Brasil decorre da...
A evolução tecnológica das pequenas propriedades nas áreas de fronteira
B modernização da agricultura, que gerou desemprego no campo
C concentração de latifúndios em regiões de solos mais pobres
D ineficiência do gerenciamento empresarial agrícola nas médias propriedades

2 Sob a lógica dos movimentos sociais no campo...
A a agricultura brasileira é latifundiária, sendo necessária sua modernização para que a terra cumpra sua função social
B o agronegócio é a forma de integração da agricultura familiar ao mercado capitalista
C a agricultura brasileira é latifundiária, sendo necessária sua superação pela agricultura de caráter familiar
D a agricultura brasileira tem caráter empresarial, portanto não há necessidade de reforma agrária

3 O "campo goiano" é representado por inúmeras manifestações culturais que desenvolvem uma diversidade de símbolos, dos quais...
A as festas são ritos provenientes da cultura cristã ocidental
B os causos de assombração e demônios desenvolvem o controle social através do medo
C as simpatias e as rezas justificam a distância dessa cultura com o mundo liberal
D a marca, o mutirão e o adjuntório aumentam a renda fundiária

Respostas: 1.b; 2.c; 3.b

Irã O perigo de uma guerra preventiva

Encontro marcado

O mundo dá sinais de que a paciência com o
Irã está chegando ao fim. Afinal, o que os
aiatolás querem com o seu programa nuclear?


Duda Teixeira

Reuters
Ahmadinejad na ONU, na semana passada: discussão nuclear é "caso encerrado"


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Nesta reportagem
Quadro: Um plano de ataque possível
Exclusivo on-line
Conheça o país: Irã

Informações da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) sugerem que o Irã está tendo problemas com a sua tecnologia de enriquecer urânio. O país, se for assim, só poderia fabricar uma bomba atômica a partir de 2010, quiçá em 2015. A conclusão não é suficiente para causar alívio. A mera hipótese de os aiatolás xiitas um dia terem o domínio dessa tecnologia bélica coloca o mundo em suspenso. Em princípio, a bomba nuclear iraniana é uma ameaça para todos os países do Oriente Médio – mas, evidentemente, alguns estão mais preocupados que outros. Um tema freqüente dos discursos do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad é o projeto de riscar Israel do mapa. O Irã também provoca os Estados Unidos fornecendo armas e explosivos para ser usados contra as tropas americanas no Iraque. Por fim, confronta as Nações Unidas, que querem que Teerã permita a inspeção internacional em suas instalações nucleares e suspenda o enriquecimento de urânio, material que pode ser usado numa arma nuclear.

Neste mês, vários foram os sinais de que a paciência ocidental para com o Irã está no fim. A possibilidade de uma ação militar torna-se mais concreta. O ministro das relações exteriores da França, Bernard Kouchner, foi um dos mais enfáticos. "Temos de nos preparar para o pior. E o pior é a guerra", disse ele. Rudolph Giuliani, o candidato do partido republicano com mais chance de enfrentar Hillary Clinton nas eleições americanas, defendeu um ataque preventivo para evitar que o país se torne uma potência nuclear. No Irã, comitês de crise organizados pelo governo já traçam planos de emergência para uma guerra. Rádios e estações de televisão foram orientadas a gravar programas antecipadamente, de forma que tenham o que transmitir caso seus estúdios sejam destruídos ou seus empregados não consigam chegar ao trabalho.

Israel é a nação que mais tem motivos para temer a posse de armas nucleares pelos aiatolás. Não bastassem as ameaças verbais de seus líderes, o Irã dispõe de mísseis capazes de alcançar Israel. Há cinco anos, o ex-presidente iraniano Hashemi Rafsanjani afirmou que bastaria uma única bomba nuclear para liquidar o estado judeu. Ele tem razão. O temor de um ataque arrasador e a dificuldade de os Estados Unidos ingressarem em mais uma empreitada militar antes de resolver a encrenca no Iraque tornam Israel o mais forte candidato a empreender um ataque preventivo às instalações nucleares iranianas. Nesse cenário, os Estados Unidos poderiam entrar mais tarde com bombardeiros B-2 Spirit, que transportam bombas de alto poder destrutivo e não são detectados pelo radar. Poderiam ser usados para persuadir os aiatolás a limitar o alcance de suas represálias a um ataque israelense.

O Irã argumenta que seu programa nuclear tem fins exclusivamente energéticos. O país também é um dos signatários do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, o que, a princípio, confirmaria suas intenções pacíficas. O interesse premente do quarto maior produtor de petróleo do mundo no enriquecimento de urânio, no entanto, é algo mais difícil de ser compreendido. Também se sabe que os países candidatos a se tornar potências nucleares não anunciaram suas ambições bélicas antecipadamente. Desde que, em 1968, as cinco potências nucleares da época, Estados Unidos, União Soviética (Rússia), China, Inglaterra e França, assinaram com dezenas de países o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, outras quatro nações passaram a deter armas atômicas. Nenhuma pediu licença para fazer isso. Uma delas é exatamente Israel, que até hoje não admite, mas tampouco desmente, que tenha bombas nucleares. Índia e Paquistão, dois inimigos históricos, também surpreenderam o mundo com seus primeiros testes atômicos. O último foi a Coréia do Norte, que há um ano explodiu uma bomba de pequenas dimensões. Em fevereiro, os norte-coreanos concordaram em retroceder nos seus planos em troca de ajuda econômica. Por que o armamento atômico é aceitável em alguns países, mas não no Irã? A resposta está nas características fanáticas do estado teocrático xiita. "Esses quatro países estão hoje com boas relações com os Estados Unidos e não são considerados uma ameaça", disse a VEJA o cientista político sul-africano Jean du Preez, diretor do Instituto de Estudos Internacionais Monterey, na Califórnia. "O Irã, ao contrário, é a bola da vez."

A partir do momento em que um país consegue enriquecer o urânio de forma controlada, são necessários entre três e quatro anos para que possa ter uma bomba nuclear. O Irã afirma que já cumpriu satisfatoriamente a primeira etapa, um feito desacreditado por inspetores. A posse de armas nucleares pelo Irã, caso venha a ocorrer, mudaria brutalmente o equilíbrio de poder no Oriente Médio. Não apenas Israel correria perigo. O poder militar crescente dos aiatolás espalha o pânico entre seus vizinhos árabes de maioria sunita, a vertente majoritária do Islã. Em setembro, o egípcio Mohamed El-Baradei, diretor da Aiea, deu um prazo de mais três meses para que o Irã finalmente elucide a parte secreta de seu programa nuclear. Em um discurso proferido na Assembléia-Geral da ONU, em Nova York, na semana passada, Ahmadinejad deu de ombros e considerou a discussão um "caso encerrado". Por enquanto, governos europeus e o americano planejaram sanções econômicas mais firmes para pressionar os iranianos. O Congresso americano aprovou uma punição para empresas estrangeiras com filiais nos Estados Unidos que decidam investir no Irã. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, anunciou uma lei que proíbe investimentos de empresas do seu estado no país dos aiatolás. Na sexta-feira, dia 28, os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha declararam que vão esperar até novembro para decidir se adotam sanções mais severas. Ahmadinejad terá, assim, mais algum tempo para convencer todo o mundo de que não alimenta más intenções. Ou, então, para preparar uma surpresa.




Certifica.com

Mianmar A revolta dos monges

A ira dos monges

Budistas perdem a paciência com uma das
mais corruptas e brutais ditaduras da Ásia


Diogo Schelp

AP
Monges budistas em manifestação contra o governo: o regime reagiu com tiros e bombas

Quando até os monges budistas perdem sua tradicional fleuma, cultivada com anos de meditação e reclusão, é sinal de que o cenário político se tornou realmente insuportável. Em Mianmar, país asiático até 1989 chamado de Birmânia, os religiosos lideram as manifestações contra um dos governos mais corruptos, ineptos e brutais da atualidade. Com seus mantos cor de laranja e o apoio entusiasmado de seus concidadãos, desde o início de setembro eles saem às ruas para pedir democracia. O estopim da crise foram o aumento no preço dos combustíveis e a brutalidade policial contra um grupo de monges. Acabou se tornando uma bola-de-neve. Mianmar está entre os vinte países mais pobres e isolados do mundo. No poder há quarenta anos, a junta militar é composta de generais caquéticos – um deles tem câncer de próstata, outro leucemia –, mas nem por isso dispostos a abrir mão de seus cargos. Em 1988, manifestações similares foram reprimidas a tiros e morreram mais de 3.000 pessoas. Na sexta-feira passada, a polícia e o Exército começaram a caçar a tiros os manifestantes, e o número de mortes já ultrapassava duas centenas.

Nove em cada dez birmaneses são budistas, o que explica por que os monges são considerados a reserva moral do país. É comum que os jovens birmaneses passem uma temporada nos mosteiros, o que amplia a quantidade de monges disponíveis para passeatas. Com a devoção e a entrega física que lhes são características, os monges da Ásia têm uma longa história de resistência à tirania, marcada pela indiferença com que enfrentam a morte e o sofrimento. A Guerra do Vietnã, por exemplo, ganhou as dimensões de conflito generalizado depois que vários monges atearam fogo ao próprio corpo em protesto contra o governo, em 1963.

Os monges que fazem esse tipo de renúncia ao próprio corpo vêem a prática como uma forma de elevação espiritual. Nada é mais desconcertante para um tirano que um adversário que não teme a morte.

Che Guevara, quarenta anos de um mito

Che
Há quarenta anos morria
o homem e nascia a farsa

"Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto." Há quarenta anos, no dia 8 de outubro de 1967, essa frase foi gritada por um guerrilheiro maltrapilho e sujo metido em uma grota nos confins da Bolívia. Nunca mais foi lembrada. Seu esquecimento deve-se ao fato de que o pedido de misericórdia, o apelo desesperado pela própria vida e o reconhecimento sem disfarce da derrota não combinam com a aura mitológica criada em torno de tudo o que se refere à vida e à morte de Ernesto Guevara Lynch de la Serna, argentino de Rosário, o Che, que antes, para os companheiros, era apenas "el chancho", o porco, porque não gostava de banho e "tinha cheiro de rim fervido".


Diogo Schelp e Duda Teixeira

Foto Antonio Nunez Jimenez/AFP
ÀS VÉSPERAS DO GOLPE
Che em Caballete de Casas, em Cuba, em 1958: exceto na revolução cubana, sua vida foi uma seqüência de fracassos. Como guerrilheiro, foi derrotado no Congo e na Bolívia

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Ouça entrevistas sobre Che

Essa é a realidade esquecida. No mito, sempre lembrado, ecoam as palavras ditas ao tenente boliviano Mário Terán, encarregado de sua execução, e que parecia hesitar em apertar o gatilho: "Você vai matar um homem". Essas, sim, servem de corolário perfeito a um guerreiro disposto ao sacrifício em nome de ideais que valem mais que a própria vida. Ambas as frases foram relatadas por várias testemunhas e meticulosamente anotadas pelo capitão Gary Prado Salmón, do Exército boliviano, responsável pela captura de Che. Provenientes das mesmas fontes, merecem, portanto, idêntica credibilidade. O esquecimento de uma frase e a perpetuação da outra resumem o sucesso da máquina de propaganda marxista na elaboração de seu maior e até então intocado mito. Che tem um apelo que beira a lenda entre os jovens dos cinco continentes. Como homem de carne e osso, com suas fraquezas, sua maníaca necessidade de matar pessoas, sua crença inabalável na violência política e a busca incessante da morte gloriosa, foi um ser desprezível. "Ele era adepto do totalitarismo até o último pêlo do corpo", escreveu sobre ele o jornalista francês Régis Debray, que por alguns meses conviveu com Che na Bolívia.

Por suas convicções ideológicas, Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro. Entre a captura e a execução de Che na Bolívia, passaram-se 24 horas. Nesse período, o governo boliviano e os americanos da CIA que ajudaram na operação decidiram entre si o destino de Guevara. Execução sumária? Não para os padrões de Che. Centenas de homens que ele fuzilou em Cuba tiveram sua sorte selada em ritos sumários cujas deliberações muitas vezes não passavam de dez minutos.

VEJA conversou com historiadores, biógrafos, antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano na tentativa de entender como o rosto de um apologista da violência, voluntarioso e autoritário, foi parar no biquíni de Gisele Bündchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson, em pôsteres e camisetas. Seu retrato clássico – feito pelo fotógrafo cubano Alberto Korda em 1960 – é a fotografia mais reproduzida de todos os tempos. O mito é particularmente enganoso por se sustentar no avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante sua existência. Incapaz de compreender a vida em uma sociedade aberta e sempre disposto a eliminar a tiros os adversários – mesmo os que vestiam a mesma farda que ele –, Che é, paradoxalmente, visto como um símbolo da luta pela liberdade. Guevara é responsável direto pela morte de 49 jovens inexperientes recrutas que faziam o serviço militar obrigatório na Bolívia. Eles foram mobilizados para defender a soberania de sua pátria e expulsar os invasores cubanos, sob cujo fogo pereceram. Tendo ajudado a estabelecer um sistema de penúria em Cuba, Che agora é apresentado como um símbolo de justiça social. Politicamente dogmático, aferrado com unhas e dentes à rigidez do marxismo-leninismo em sua vertente mais totalitária, passa por livre-pensador.

O regime policialesco de Fidel Castro não permite que aqueles que conviveram com Che e permanecem em Cuba possam ir além da cinzenta ladainha oficial. Por isso, apesar do rancor que pode apimentar suas lembranças, os exilados cubanos são vozes de maior credibilidade. O movimento que derrubou o ditador Fulgencio Batista, em 1959, não foi uma ação de comunistas, como pretende Fidel Castro. Boa parte da liderança revolucionária e dos comandantes guerrilheiros tinha por objetivo a instauração da democracia em Cuba. Mas foi surpreendida por um golpe comunista dentro da revolução. Acabaram presos, fuzilados ou deportados. Desde o início, Che representou a linha dura pró-soviética, ao lado do irmão de Fidel, Raul Castro. Na versão mitológica, Che era dono de um talento militar excepcional. Seus ex-companheiros, no entanto, lembram-se dele como um comandante imprudente, irascível, rápido em ordenar execuções e mais rápido ainda em liderar seus camaradas para a morte, em guerras sem futuro no Congo e na Bolívia.

The New York Times
A "MALDIÇÃO DE SATURNO"
Com Fidel em Havana, em 1959: "Que esta revolução não devore seus próprios filhos", dizia Fidel. Ele fez o contrário. As últimas transmissões de rádio de Che na Bolívia foram ignoradas em Havana


Huber Matos, que lutou sob as ordens do argentino em Cuba, falou a VEJA sobre o fracasso de Che como comandante: "A luta foi difícil na primavera de 1958. A frente de comportamento mais desastroso foi a de Che. Mas isso não o afetou, porque era o favorito de Fidel, que nos impedia de discutir abertamente o trabalho pífio de seu protegido como guerrilheiro". Pouco depois do triunfo da guerrilha, ao perceber os primeiros sinais de tirania, Huber renunciou a seu posto no governo revolucionário e informou que voltaria a ser professor. Preso dois dias depois, passou vinte anos na cadeia. Vive hoje em Miami. À moda soviética, sua imagem foi removida das fotos feitas durante a entrada solene em Havana, em que aparecia ao lado de Fidel e Camilo Cienfuegos, outro comandante não comunista desaparecido em circunstâncias misteriosas nos primórdios da revolução.

Nomeado comandante da fortaleza La Cabaña, para onde eram levados presos políticos, Che Guevara a converteu em campo de extermínio. Nos seis meses sob seu comando, duas centenas de desafetos foram fuzilados, sendo que apenas uma minoria era formada por torturadores e outros agentes violentos do regime de Batista. A maioria era apenas gente incômoda.

Napoleon Vilaboa, membro do Movimento 26 de Julho e assessor de Che em La Cabaña, conta agora ter levado ao gabinete do chefe um detido chamado José Castaño, oficial de inteligência do Exército de Batista. Sobre Castaño não pesava nenhuma acusação que pudesse produzir uma sentença de morte. Fidel chegou a ligar para Che para depor a favor de Castaño. Tarde demais. Enquanto dava voltas em torno de sua mesa e da cadeira onde estava o militar, Che sacou a pistola 45 e o matou ali mesmo com balaços na cabeça. Em outra ocasião, Che foi procurado por uma mãe desesperada, que implorou pela soltura do filho, um menino de 15 anos preso por pichar muros com inscrições contra Fidel. Um soldado informou a Che que o jovem seria fuzilado dali a alguns dias. O comandante, então, ordenou que fosse executado imediatamente, "para que a senhora não passasse pela angústia de uma espera mais longa".

Em seu diário da campanha em Sierra Maestra, Che antecipa o seu comportamento em La Cabaña. Ele descreve com naturalidade como executou Eutímio Guerra, um rebelde acusado de colaborar com os soldados de Batista: "Acabei com o problema dando-lhe um tiro com uma pistola calibre 32 no lado direito do crânio, com o orifício de saída no lobo temporal direito. Ele arquejou um pouco e estava morto. Seus bens agora me pertenciam". Em outro momento, Che decidiu executar dois guerrilheiros acusados de ser informantes de Batista. Ele disse: "Essa gente, como é colaboradora da ditadura, tem de ser castigada com a morte". Como não havia provas contra a dupla, os outros rebeldes presentes se opuseram à decisão de Che. Sem lhes dar ouvidos, ele executou os dois com a própria pistola. Essa frieza e a crueldade sumiram atrás da moldura romântica que lhe emprestaram, construída pelos mesmos ideólogos que atribuíram a ele a frase famosa – "Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás". Frase criada pela propaganda esquerdista.

Como o jovem aventureiro que excursionou de motocicleta pelas Américas se tornou um assassino cruel e maníaco? O jornalista americano Jon Lee Anderson, autor da mais completa biografia de Che, escreveu que ele era um fatalista – e esse fatalismo aguçou-se depois que se juntou aos guerrilheiros cubanos. "Para ele, a realidade era apenas uma questão de preto e branco. Despertava toda manhã com a perspectiva de matar ou morrer pela causa", afirma Anderson.

Ernesto Guevara Lynch de la Serna nasceu em 14 de maio de 1928, em uma família de esquerdistas ricos na Argentina. Sofreu de asma a vida inteira. Antes de se formar em medicina, profissão que nunca exerceu de fato, viajou pela América do Sul durante oito meses. Depois de terminada a faculdade, saiu da Argentina para nunca mais voltar. Encontrou-se com Fidel Castro no México, em 1955, onde aprendeu técnicas de guerrilha. No ano seguinte, participou do desembarque em Cuba do pequeno contingente de revolucionários. Depois de dois anos de combates na Sierra Maestra, Fidel tomou o poder em Havana. Che ocupou-se primeiro dos fuzilamentos e, depois, da economia, assunto do qual nada entendia. José Illan, que foi vice-ministro de Finanças antes de fugir de Cuba, contou a VEJA que o argentino "desprezava os técnicos e tratava a nós, os jovens cubanos, com prepotência". No comando do Banco Central e depois do Ministério da Indústria, Che começou a nacionalizar a indústria e foi o principal defensor do controle estatal das fábricas. "Che era um utópico que acreditava que as coisas podiam ser feitas usando-se apenas a força de vontade", diz o historiador Pedro Corzo, do Instituto da Memória Histórica Cubana, em Miami. Como resultado de sua "força de vontade", a produção agrícola caiu pela metade e a indústria açucareira, o principal produto de exportação de Cuba, entrou em colapso. Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver da mesada enviada pela então União Soviética.

AFP
CASADO COM SI PRÓPRIO
Che com sua segunda mulher, Aleida March, no dia de seu casamento, em Havana, em 1959. Elas não podiam competir com o "chamado da aventura"

Não havia mais o que Che pudesse fazer em Cuba. Era ministro da Indústria, mas divergia de Fidel em questões relativas ao desenvolvimento econômico. De maneira simplista, ele acreditava que incentivos morais tinham maiores probabilidades de estimular o trabalho. Che também se tornou crítico feroz da União Soviética, da qual o regime cubano dependia para sobreviver. Não por discordar do Kremlin, mas porque julgava os soviéticos tímidos na promoção da revolução armada no Terceiro Mundo. Para se livrar dele, Fidel o mandou como delegado à Assembléia-Geral das Nações Unidas em 1964. No ano seguinte, Che foi secretamente combater no Congo, à frente de soldados cubanos. Ali, paralisado por incompreensíveis rivalidades tribais, derrotado no campo de batalha e abatido pela diarréia, Che propôs a seus comandados lutar até a morte. Mas foi demovido do propósito pela soldadesca, que não aceitou o sacrifício numa guerra sem sentido.

Daí em diante o argentino tornou-se uma figura patética. Em Havana, Fidel divulgara a carta em que ele renunciava à cidadania cubana e anunciava sua disposição de levar a guerra revolucionária a outras plagas. Pego de surpresa pela leitura prematura do documento, Che ficou no limbo, sem ter para onde voltar. "Sua vida foi uma seqüência de fracassos", disse a VEJA o historiador cubano Jaime Suchlicki, da Universidade de Miami. "Como médico, nunca exerceu a profissão. Como ministro e embaixador, não conseguiu o que queria. Como guerrilheiro, foi eficiente apenas em matar por causas sem futuro." Na falta de opções, Che escolheu a Bolívia para sua nova aventura guerrilheira. Ele lutaria em território montanhoso e inóspito, imerso na selva, sem falar o dialeto indígena dos camponeses bolivianos. O plano original era adentrar, pela fronteira, a província argentina de Salta. Mas um contigente exploratório foi aniquilado rapidamente pelo exército daquele país. A missão boliviana era, de todos os pontos de vista, suicida. Ainda assim, Fidel a apoiou, a ponto de designar alguns soldados de seu exército para o destacamento guerrilheiro. O ditador cubano também equipou e financiou a expedição, com a qual manteve contato até que seu fracasso se tornou evidente.

Além da falta de apoio do povo boliviano, que tratou os cubanos chefiados por Che como um bando de salteadores, a expedição fracassou também pela traição do Partido Comunista Boliviano. VEJA perguntou a um de seus mais altos dirigentes dos anos 60, Juan Coronel Quiroga: "O PCB traiu Che Guevara?". Resposta de Quiroga: "Sim". A explicação? "Nosso partido era afinado com Moscou, onde a estratégia de abrir focos de guerrilha como a de Che estava há muito desacreditada." Quiroga era amigo pessoal do então ministro da Defesa da Bolívia e conseguiu que as mãos do cadáver de Che Guevara fossem decepadas, mantidas em formol e entregues a ele. "Por anos guardei as mãos de Che debaixo da minha cama em um grande pote de vidro. Um dia meu filho deparou com aquilo e quase entrou em pânico", conta Quiroga. Anos mais tarde, coube a Quiroga a missão de entregar o lúgubre pote com as mãos de Guevara à Embaixada de Cuba em Moscou.

A morte de Che foi central para a estabilização do regime cubano nos anos 60, de acordo com o polonês naturalizado americano Tad Szulc, na sua celebrada biografia de Fidel. O fim do guerrilheiro argentino ajudou o ditador a pacificar suas relações com Moscou e ainda lhe forneceu um ícone de aceitação mais ampla que a própria revolução. O esforço de construção do mito foi facilitado por vários fatores. Quando morreu, Che era uma celebridade internacional. Boa-pinta, saía ótimo nas fotografias. A foto do pôster que enfeita quartos de milhões de jovens foi tirada num funeral em Havana, ao qual compareceram o filósofo francês Jean-Paul Sartre – que exaltou Che como "o mais completo ser humano de nossa era" – e sua mulher, a escritora Simone de Beauvoir. A foto de 1960 só ganhou divulgação mundial sete anos depois, nas páginas da revista Paris Match. Dois meses mais tarde, Che foi morto na selva boliviana e Fidel fez um comício à frente de uma enorme reprodução da imagem, que preenchia toda a fachada de um prédio público cubano. Nascia o pôster.

Três fatos ajudaram a consolidar o mito. O primeiro foi a morte prematura de Che, que eternizou sua imagem jovem. Aos 39 anos, ele estava longe de ser um adolescente quando foi abatido, mas a pinta de galã lhe garantia um aspecto juvenil. O fim precoce também o salvou de ser associado à agonia do comunismo. A decadência física e política de Fidel Castro, desmoralizado pela responsabilidade no isolamento e no atraso econômico que afligem o povo cubano, dá uma idéia do que poderia ter acontecido com Che, que era apenas dois anos mais jovem que o ditador.

Reuters
PARA IMPRESSIONAR "IKE"
Guevara e Fidel em jogo-treino de golfe para disputar uma partida, que nunca houve, com Eisenhower em Washington: "Fidel ganhou, mas Che o deixou ganhar"

O segundo fato foi a ajuda involuntária de seus algozes. Preocupados em reunir provas convincentes de que o guerrilheiro célebre estava morto, os militares bolivianos mandaram lavar o corpo e aparar e pentear sua barba e seu cabelo. Também resolveram trocar sua roupa imunda. Tudo isso para poder tirar fotos em que ele fosse facilmente identificado. O resultado é um retrato com espantosa semelhança com as pinturas barrocas do Cristo morto de expressão beatificada. A terceira contribuição recebida pelos esquerdistas na construção do mito veio do contexto histórico. Che morreu às vésperas dos grandes protestos em defesa dos direitos civis, da agitação dos movimentos estudantis e da revolução de costumes da contracultura – turbulências que marcaram o ano de 1968. Era um personagem perfeito para ser símbolo da juventude de então, que se definia pela "determinação exacerbada e narcisista de conseguir tudo aqui e agora", como escreveu o mexicano Jorge Castañeda, em sua biografia de Che. A história, no entanto, mostra que o homem era muito diferente do mito. Mas quem resiste? Neste mês, nos Estados Unidos, o cubano Gustavo Villoldo, chefe da equipe da CIA que participou da captura do guerrilheiro, vai leiloar uma mecha de cabelo de Che.

Se houve um ganhador da Guerra Fria, foi Che Guevara. Ele morreu e foi santificado antes que seu narcisismo suicida e os crimes que decorreram dele pudessem ser julgados com distanciamento, sob uma luz mais civilizada, que faria aflorar sua brutalidade com nitidez. Pobre Fidel Castro. Enquanto Che foi cristalizado na foto hipnótica de Alberto Korda, ele próprio, o supremo comandante, aparece cada dia mais roto, macilento, caduco, enquanto se desmancha lentamente dentro de um ridículo agasalho esportivo diante das lentes das câmeras da televisão estatal cubana. O método de luta política que Guevara adotou já era errado em seu tempo. No rastro de suas concepções de revolução pela revolução, a América Latina foi lançada em um banho de sangue e uma onda de destruição ainda não inteiramente avaliada e, pior, não totalmente assentada. O mito em torno de Che constitui-se numa muralha que impediu até agora a correta observação de alguns dos mais desastrosos eventos da história contemporânea das Américas. Está passando da hora de essa muralha cair.

A FRASE MAIS FAMOSA ATRIBUÍDA A GUEVARA É...
"Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura."

...OUTRAS MENOS CONHECIDAS REVELAM SUA REAL PERSONALIDADE:

"Estou na selva cubana, vivo e sedento de sangue."
Carta à esposa, Hilda Gadea, em janeiro de 1957


Keystone/Getty Images

"Fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte."
Discurso na Assembléia-Geral da ONU, em 11 de dezembro de 1964

"O ódio intransigente ao inimigo (...) converte (o combatente) em uma efetiva, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm de ser assim."
Revista cubana Tricontinental, em maio de 1967

O mundo tomou outro rumo

CUBA
Apesar de tentar exportar sua revolução, a ilha tornou-se a vitrine de seu fracasso. Sem liberdade política nem econômica, o país é um museu de prédios, carros e dirigentes decrépitos, onde comida, combustíveis e energia são racionados.


BOLÍVIA
O foco guerrilheiro de Guevara foi derrotado pela população pobre da Bolívia, que negou ajuda e ainda delatou o grupo.


CONGO
Guevara e um contingente de cubanos lutaram ao lado do chefe tribal Laurent Kabila contra o coronel Mobutu. Em 1997 Kabila finalmente derrubou Mobuto, mas foi assassinado em 2001. Em seu curto governo, 3 milhões de pessoas foram mortas em guerras tribais.

CHINA
A ideologia de Mao Tsé-tung, que Guevara citava como modelo de comunismo, foi sepultada pelos chineses.

COMUNISMO
Depois da queda do Muro de Berlim, a ideologia será lembrada sobretudo como a responsável pela morte de 100 milhões de pessoas.

VIETNÃ
Na frase famosa, Guevara propôs criar "dois, três, muitos Vietnãs". Acertou. A globalização da economia está criando Vietnãs pelo mundo – países adeptos da economia de mercado, com rápido crescimento econômico e aliados dos Estados Unidos.

"A ordem de execução veio pelo rádio"


Fotos divulgação
ção
O ÚLTIMO DIA DO GUERRILHEIRO
Maltrapilho e sujo, Guevara posa com os soldados que o capturaram na vila de La Higuera, onde seria morto. A seu lado, assinalado, está o agente da CIA Felix Rodríguez. À direita, Felix hoje, em Miami

Felix Rodríguez foi uma das últimas pessoas a conversar com Che Guevara. Mais do que isso, foi ele quem recebeu e transmitiu a ordem para que o guerrilheiro fosse executado. Cubano exilado nos Estados Unidos, ele era o operador de rádio enviado à Bolívia pela CIA para auxiliar na caçada e, também, para ajudar a identificar Guevara. Veterano da fracassada invasão da Baía dos Porcos, em 1961, Rodríguez vive hoje em Miami, aos 66 anos. Ele falou ao repórter Duda Teixeira.

COMO CHEGOU A ORDEM PARA MATAR CHE?
As instruções que recebi nos Estados Unidos eram para poupar sua vida. A CIA sabia da divergência de idéias entre Che e Fidel e acreditava que, a longo prazo, ele poderia cooperar com a agência. A ordem para sua execução veio por rádio, de uma alta autoridade boliviana. Era uma mensagem em código: "500, 600". O primeiro número, 500, significava Guevara. O segundo, que ele deveria ser morto. Tentei em vão convencer os militares bolivianos a permitir que ele fosse levado para ser interrogado no Panamá. Eles negaram meu pedido e me deram um prazo. Eu deveria entregar o corpo de Guevara até as 2 horas da tarde. Perto das 11h30, uma senhora aproximou-se de mim e perguntou quando iríamos matá-lo, pois ouvira no rádio que Che havia morrido em combate. Naquele momento compreendi que a decisão de executá-lo era irrevogável.

COMO FOI SUA ÚLTIMA CONVERSA COM ELE?
Fui até o local de seu cativeiro e disse a ele que lamentava, mas eram ordens superiores. Che ficou branco como um papel. "É melhor assim. Eu nunca deveria ter sido capturado vivo", falou. Tirou o cachimbo da boca e me pediu para que o desse a um dos soldados. Ofereci-me para transmitir mensagens à sua família. "Diga a Fidel que esse fracasso não significa o fim da revolução, que logo ela triunfará em alguma parte da América Latina", ele falou em tom sarcástico. Aí lembrou da esposa. "Diga a minha senhora que se case outra vez e trate de ser feliz." Foram suas últimas palavras. Apertou a minha mão e me deu um abraço, como se pensasse que eu seria o carrasco. Saí dali e avisei a um tenente armado com uma carabina M2, automática, que a ordem já tinha sido dada. Recomendei a ele que atirasse da barba para baixo, porque se supunha que Che havia morrido em combate. Eram 13h10 quando escutei o barulho de tiros. Che Guevara tinha sido morto.

COMO FOI O SEU PRIMEIRO CONTATO COM CHE GUEVARA?
Cheguei a La Higuera de helicóptero em 9 de outubro, um dia depois da captura de Che Guevara. Eu o encontrei com os pés e as mãos amarrados, ao lado dos corpos de dois cubanos. Sangrava de uma ferida na perna. Era um homem totalmente arrasado. Parecia um mendigo.

COMO FORAM SUAS CONVERSAS COM CHE?
Nós nos tratamos com respeito. Eu o chamava de comandante. Falamos de Cuba e de outras coisas, mas ele permanecia calado quando as perguntas eram de interesse estratégico. Houve momentos em que não consegui prestar atenção ao que ele dizia. Ao olhar aquele homem derrotado, vinha-me à mente sua imagem no passado, sempre altiva e arrogante.

COMO FORAM AS RELAÇÕES DE CHE COM A POPULAÇÃO NA BOLÍVIA?
Para sobreviver, é essencial que uma força guerrilheira conte com o apoio da população local. A aventura de Che na Bolívia foi um caso único em que uma guerrilha não conseguiu recrutar um único morador da área onde atuou. Só um agricultor ganhou a confiança dos guerrilheiros, e mesmo esse acabou por passar informações que permitiram ao Exército armar uma emboscada. Os poucos bolivianos que participaram da guerrilha eram dissidentes do Partido Comunista. Nenhum camponês.

POR QUE O SENHOR FOI ENVIADO À BOLÍVIA?
O Exército boliviano estava totalmente despreparado para enfrentar uma guerrilha. A maior parte dos soldados trabalhava na construção de estradas e provavelmente jamais dera um tiro de fuzil. Nos primeiros embates, os guerrilheiros aprisionavam os soldados, tiravam suas roupas e os soltavam. Foi então que o governo boliviano pediu ajuda aos Estados Unidos.

Limparam Che para a foto


No dia de sua morte, amarrado ao esqui de um helicóptero militar, Che Guevara foi levado do local da execução para um vilarejo chamado Vallegrande. A brasileira Helle Alves, repórter, e o fotógrafo Antonio Moura, então trabalhando para o Diário da Noite, de São Paulo, viram a chegada do corpo, que foi levado para a lavanderia do hospital local (acima). Ali, Moura foi o único jornalista a fotografar o corpo de Guevara ainda sujo, vestido de trapos e calçado com o que sobrou de uma botina artesanal de couro (abaixo). Moura conseguiu fotografar o corpo antes da limpeza e da arrumação. "Che usava um calço em um dos calcanhares, provavelmente para corrigir uma diferença de tamanho entre uma perna e outra", lembra Helle. Ela contou pelo menos dez marcas de tiro no corpo do argentino. "Os moradores tinham raiva dele e invadiram a lavanderia, mas, quando viram o corpo, passaram a dizer que ele parecia Jesus Cristo." Começara o mito.

Fotos Antonio Moura

Ele está em toda parte


Fotos Mauricio Lima/Jonathan Utz-AFP e Alfredo Tedeschi-File-Reuters

O retrato de Che feito por Alberto Korda em 1960 é agora uma imagem de múltiplos significados: é pop no biquíni da Cia. Marítima vestido por Gisele Bündchen e uma manifestação de truculência e mau humor nas tatuagens de Maradona e Mike Tyson

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