Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Clipping de 2 de janeiro


Correio Braziliense
15.779 CHANCES DE COMEÇAR O ANO NO SERVIÇO PÚBLICO
Governo dobra os recursos destinados a presídios
Folha de S. Paulo
LULA DESISTE DE APRESENTAR EMENDAS À CONSTITUIÇÃO
Brasil importa mais petróleo e duplica déficit
Isto é
A era da competição (num. 1992)
Um novo lar para (quase) todos (num. 1992)
Jornal do Brasil
ASSESSOR DE LULA DIZ-SE FRUSTRADO
Denatran quer IPVA unificado
O Estado de S. Paulo
LITORAL SEM INFRA-ESTRUTURA FAZ PAULISTA
Revolta no Quênia mata 50
PMDB cobra 15 cargos do governo federal
O Globo
TSE ANTECIPA CALENDÁRIO E JÁ PROÍBE PRÁTICAS ELEITOREIRAS
Atrasos no Congresso travam o crescimento
Sem CPMF, sobe desconto para o INSS
Farc: brasileiro aceita resgate ilegal de reféns
Valor Econômico
PETRÓLEO E ALIMENTOS AINDA VÃO PUXAR INFLAÇÃO EM 2008
Déficit da Previdência deve cair
'Inferno astral' de Yeda ainda não acabou
Entrevista
"A base não tem razões para se descolar" (Valor Econômico)
Entrevista - Henrique Meirelles (Correio Braziliense)
Brasil
A "bola de cristal" falhou em 2007 (Valor Econômico)
Aeroportos tranqüilos na volta do feriado (O Globo)
ANTT multa empresas que desrespeitam idosos (Jornal do Brasil)
Consumo deve sustentar alta de 6% este ano (Valor Econômico)
Cotas universitárias, o debate perto do fim (Jornal do Brasil)
Curtas - Audiência da Cesp (Valor Econômico)
Déficit da Previdência deve cair (Valor Econômico)
Demanda interna surpreendeu (Valor Econômico)
Demanda por educação e saúde também pode crescer (Valor Econômico)
São Paulo poderá rever margens da substituição tributária de ICMS (Valor Econômico)
Secretário quer nova reforma até 2010 (Valor Econômico)
STF pode derrubar regra que "substitui" CPMF (Valor Econômico)
Empresa e Tecnologia
Auditorias prevêem forte expansão em 2008 (Valor Econômico)
Petróleo em alta eleva preços em 2008 (Valor Econômico)
Colunas
Ancelmo Gois - Rumo a Pequim (O Globo)
Ari Cunha - Alegria, gente! (Correio Braziliense)
Brasil - A inflação além do chuchu (Valor Econômico)
Brasília-DF - Oposição atira no PAC (Correio Braziliense)
Celso Ming - As aplicações em 2008 (O Estado de S. Paulo)
Clóvis Rossi - Uma certa descrença (Folha de S. Paulo)
Informe JB - Ano novo com agenda velha (Jornal do Brasil)
Mercado Aberto - Para empresários, 2008 será bom ano, mas menos pujante que 2007 (Folha de S. Paulo)
Merval Pereira - Proximidades (O Globo)
Míriam Leitão - Conluio do silêncio (O Globo)
Mónica Bérgamo - Contramão (Folha de S. Paulo)
Painel - Cartela cromática (Folha de S. Paulo)
Política - Resposta com o padrão do PT (Valor Econômico)
Por dentro do mercado - Estrangeiro espera ano sem regalias (Valor Econômico)
Política
LITORAL SEM INFRA-ESTRUTURA FAZ PAULISTA (O Estado de S. Paulo)
LULA DESISTE DE APRESENTAR EMENDAS À CONSTITUIÇÃO (Folha de S. Paulo)
TSE ANTECIPA CALENDÁRIO E JÁ PROÍBE PRÁTICAS ELEITOREIRAS (O Globo)
Atrasos no Congresso travam o crescimento (O Globo)
'No Senado, tem de tratar bem' (O Estado de S. Paulo)
Aborto, a mais polêmica das decisões (Jornal do Brasil)
Candidatura Alckmin pode tirar vagas do PSDB em SP (Folha de S. Paulo)
Casamento difícil (O Globo)
Células-tronco, um assunto inevitável (Jornal do Brasil)
Começa o ano eleitoral (Jornal do Brasil)
Controle da Justiça vira balcão de queixas (Folha de S. Paulo)
Corrupção deixa em crise cidade em SP (Folha de S. Paulo)
Curta - Depósito judicial (Valor Econômico)
Descanso antes de discutir CPMF (Correio Braziliense)
É hora de sanar 'passivo', diz líder (O Estado de S. Paulo)
Eleições: batalha para vencer em 15 capitais (Jornal do Brasil)
Em 2007, saúde financeira foi maior desafio (O Estado de S. Paulo)
Em SP, conflito tucano para escolher candidato marca início do ano eleitoral (O Globo)
Fim da CPMF afetou a todos, diz cientista político (O Estado de S. Paulo)
Fim da CPMF pode ter impacto positivo (Valor Econômico)
Governos são proibidos de distribuir bens e valores (O Estado de S. Paulo)
Homenagens marcam ano legislativo em São Paulo (Folha de S. Paulo)
Longe da disputa carioca (Correio Braziliense)
Ministro estipula prazo para responder à justiça italiana sobre Operação Condor (Valor Econômico)
Na Baixada, ex-prefeitos voltam à disputa (O Globo)
Norma era prioridade no combate à corrupção (O Estado de S. Paulo)
O palanque diário dos senadores (Correio Braziliense)
Orçamento vira aposta de 13 governadores para criar marca (O Estado de S. Paulo)
Pasta para Lobão testa unidade do PMDB (Valor Econômico)
Planalto adia por 6 meses decreto que coíbe fraudes (O Estado de S. Paulo)
Presidente do CNJ afirma que fará triagem rigorosa neste ano (Folha de S. Paulo)
Segurança, a nova bandeira do DEM (Jornal do Brasil)
Denatran quer IPVA unificado (Jornal do Brasil)
TRE julga 503 casos de infidelidade (Correio Braziliense)
TRE julga 503 casos de infidelidade (Correio Braziliense)
Três grandes desafios para o STF (Jornal do Brasil)
Turma do mensalão diante da Justiça (Correio Braziliense)
Venda de ações e aval são insuficientes para cobrir rombo (Valor Econômico)
'Inferno astral' de Yeda ainda não acabou (Valor Econômico)
PMDB cobra 15 cargos do governo federal (O Estado de S. Paulo)
Economia
15.779 CHANCES DE COMEÇAR O ANO NO SERVIÇO PÚBLICO (Correio Braziliense)
PETRÓLEO E ALIMENTOS AINDA VÃO PUXAR INFLAÇÃO EM 2008 (Valor Econômico)
Brasil importa mais petróleo e duplica déficit (Folha de S. Paulo)
'O Brasil chegou à maturidade' (O Estado de S. Paulo)
Alíquotas de contribuição ao INSS sobem para compensar fim da CPMF (O Globo)
Sem CPMF, sobe desconto para o INSS (O Globo)
Alta da soja freia programa para óleo vegetal (Folha de S. Paulo)
Aumentam as oportunidades para os recém-formados (O Estado de S. Paulo)
Cade ganha mais poder para julgar processos de fusão do setor bancário (Valor Econômico)
Cade vê baixa concentração no país (Valor Econômico)
Cai receita com exportações de álcool (Folha de S. Paulo)
Começa adesão ao Supersimples (Correio Braziliense)
Começa adesão ao Supersimples (Correio Braziliense)
Começa hoje adesão ao Supersimples (O Globo)
Embargo à China ameaça vendas de roupas de inverno (Jornal do Brasil)
Emprego crescerá em 2008, mas recuperação salarial perderá fôlego (O Estado de S. Paulo)
Expectativa é de mais um período de queda para o dólar (Valor Econômico)
Governo dobra os recursos destinados a presídios (Correio Braziliense)
Justiça impede avanço de transgênicos (Jornal do Brasil)
Mercado prevê petróleo a US$ 100 em 2008 (Folha de S. Paulo)
Norte e Nordeste recebem mais crédito (Folha de S. Paulo)
Novas medidas para agricultura e habitação (O Globo)
Queda de cotação reduz receita interna do álcool (Jornal do Brasil)
Receita abre inscrições para o Supersimples (Valor Econômico)
Simples terá fiscalização reforçada (O Estado de S. Paulo)
STF pode vetar nova norma para vigiar contas (Folha de S. Paulo)
Superávit tende a retornar, diz Petrobras (Folha de S. Paulo)
Telefonia fixa é a líder em queixas (Folha de S. Paulo)
Opinião
A conta do tempo de cada um (Jornal do Brasil)
A ética e o sentido da vida (Valor Econômico)
A farsa de Iowa (O Estado de S. Paulo)
A reviravolta que levou ao campo de Tupi (Correio Braziliense)
Ano novo, problemas velhos (O Globo)
Ano-novo, ano bom (Correio Braziliense)
As muralhas chinesas (Valor Econômico)
Brasil obsoleto e vizinhos armados (Jornal do Brasil)
CPMF: um debate e um desfecho que nada esclarece (Valor Econômico)
Desafios da nova agência reguladora de SP (O Estado de S. Paulo)
Desejos de Ano-Novo (Correio Braziliense)
Feliz 2008 (Folha de S. Paulo)
Funcionalismo, Gasto sem retorno (O Globo)
Gastos com mais resultados (O Estado de S. Paulo)
Incertezas sobre os rumos da inflação aumentam (Valor Econômico)
Inversão da lógica (O Globo)
Investimentos frustrados (O Estado de S. Paulo)
Legislativo subalterno (O Estado de S. Paulo)
Lula lá e cá (Folha de S. Paulo)
Mudanças tributárias em 2008 (O Estado de S. Paulo)
Muito além da CPMF (Correio Braziliense)
Nostalgia da roça (Folha de S. Paulo)
O desafio (O Globo)
O futuro roubado (O Estado de S. Paulo)
O negócio do turismo (Correio Braziliense)
Os sinais do humor eleitoral (Jornal do Brasil)
Por um novo inventário (Folha de S. Paulo)
Promessas de Ano Novo (Folha de S. Paulo)
Prosperidade global (Folha de S. Paulo)
Questão de prioridade (Folha de S. Paulo)
TV Brasil: o que será que será (Folha de S. Paulo)
Internacional
ASSESSOR DE LULA DIZ-SE FRUSTRADO (Jornal do Brasil)
Revolta no Quênia mata 50 (O Estado de S. Paulo)
Após fracasso com as Farc, governos estudam novas alternativas (Valor Econômico)
Farc: brasileiro aceita resgate ilegal de reféns (O Globo)
Economia deve substituir a política como a maior preocupação a afligir a América Latina em 2008 (Valor Econômico)

Míriam Leitão - Conluio do silêncio



PANORAMA ECONÔMICO
O Globo
2/1/2008

Metade da população brasileira não havia nascido quando, há 28 anos, dois italianos foram presos no Brasil e entregues à repressão argentina para serem torturados até a morte. Por que um passado tão velho ainda assombra o país, como aconteceu no final de ano? Porque nunca foi investigado aqui e porque as instituições que se envolveram nos crimes, ainda hoje, acham que fizeram certo.

A frase de um dos brasileiros acusados, Carlos Alberto Ponzi, "fiz o que achava certo, combati os inimigos do meu país", seria apenas uma frase esquisita, não fosse esta a convicção das Forças Armadas brasileiras. Todas as notas distribuídas pelo Exército nos últimos anos sobre o tema seguem sempre esta mesma linha de raciocínio. Acham que fizeram o que estava certo.

No ano passado, quando o governo divulgou o livro "Direito à memória e à verdade", sobre os desaparecidos políticos, o ministro Nelson Jobim fez um discurso espalhafatoso:

- Não haverá indivíduo que possa reagir e, se houver, terá resposta.

Em resposta, o indivíduo general Martins Enzo Peri, comandante do Exército, supostamente subordinado ao ministro Jobim, convocou o alto comando e emitiu uma nota de reação em que dizia que "fatos históricos têm diferentes interpretações". E nem mesmo admitiram que, no passado, erraram. "Não há exércitos distintos. Ao longo da História, temos sido o mesmo Exército de Caxias, referência em termos de ética e moral, alinhado com os legítimos anseios da sociedade."

Em dezembro, em entrevista que fiz com Nelson Jobim, perguntei sobre esse episódio e ele disse que o fato não havia acontecido, não havia ocorrido nenhuma reação militar. Típica resposta do Brasil: melhor varrer para debaixo do tapete, fingir que nunca houve o que houve de constrangedor, camuflar os conflitos em nome do mito da cordialidade brasileira.

No governo Lula, aquele foi o segundo episódio. No primeiro, a nota do Exército justificou a criação do aparato de repressão e as torturas. Para não enfrentar o problema, o governo fingiu acreditar que a nota tinha sido escrita e divulgada pelo departamento de comunicação do Exército sem conhecimento dos superiores.

O Brasil tem se esmerado em distribuição de dinheiro público a antigas vítimas da repressão política, mas nunca quis exigir dos militares e do velho SNI as informações necessárias para o país reconstituir sua história e refletir sobre ela. Os governos civis preferem pagar, mas nunca investigar. Já são bilhões de reais a esta altura, e serão muito mais. Na distribuição de dinheiro das indenizações, o Brasil tem sido discriminatório, como em tudo o mais: alguns ganham quantias extravagantes; outros, valores modestos. Alguns receberam indenizações justas e que carregam o sentido da reparação necessária após um período em que o Estado cometeu crimes. Outros recebem mordomias em tudo discutíveis e pensões que só oneram e tornam mais injusto o sistema previdenciário.

Mas o que o Brasil tinha que fazer nunca fez: investigar o que houve, abrir os arquivos, oferecer ao público - e sobretudo às famílias atingidas - as informações sobre as circunstâncias das mortes e onde foram enterrados os corpos.

Governo após governo, 23 anos depois do fim da ditadura, a resposta é sempre a mesma: a lei da anistia perdoou a todos, de ambos os lados, e, portanto, são todos ininputáveis. Há aí um equívoco básico: o fato de os torturadores e assassinos terem o direito legal de escapar da Justiça não significa que os fatos, os documentos, as informações devem continuar escondidas e sonegadas.

Dois fatos dos últimos dias de 2007 mostraram o quanto o Brasil está atrasado no que é realmente relevante: a busca das informações. O governo do Paraguai publicou na internet as informações disponíveis sobre a repressão do governo Stroessner. A Justiça italiana expediu ordens de prisão contra acusados em vários países da região que participaram do conluio sul-americano para prender e matar os inimigos dos regimes ditatoriais.

A Operação Condor foi apenas um dos desdobramentos dos crimes cometidos pelos militares no poder. Está reaparecendo porque alguns desses crimes foram cometidos contra cidadãos europeus.

Agora, diante do pedido da Justiça italiana, o ministro Tarso Genro admitiu que pode investigar, apesar de não poder punir, pois a lei não permite extradição de brasileiros, os crimes foram apagados pela Lei de Anistia e, além de tudo, já prescreveram. Mas investigar é possível, neste específico caso dos italianos. É patético que só se pense nisso diante de uma ação da Justiça italiana. E ainda mais patético que o Paraguai esteja à nossa frente na abertura dos dados.

Esse passado não morrerá. Está condenado a assombrar a História do Brasil pela omissão dos governos civis, incapazes de levar as Forças Armadas a reconhecer seu erro e libertar as informações prisioneiras do conluio do silêncio. Distribuir dinheiro público nas indenizações é discutível na maioria dos casos. Recuperar as informações era fundamental. Convencer as Forças Armadas de que aquele passado é um desvio inaceitável na história da instituição era indispensável. Mas os governos civis preferiram o caminho mais fácil: mandar a conta para o Tesouro e distribuir privilégios.

Merval Pereira - Proximidades




O Globo
2/1/2008

Era inevitável que o Brasil, convidado, participasse da operação para libertação de reféns das Forças Armadas Revolucionárias (Farcs) na Colômbia, mas era perfeitamente evitável que o governo se envolvesse de maneira tão próxima no que provou ser mais uma operação marqueteira de Hugo Chávez, em busca do prestígio perdido nesse que foi o seu "anno horribilis", do que uma ação humanitária séria. Envolvimento que ficou claro quando, em vez de enviar como observador um diplomata dos quadros do Itamaraty, designou o assessor especial Marco Aurélio Garcia e seu enorme chapéu panamá para nosso representante.

Mas foi o Itamaraty que divulgou a nota oficial em que o governo brasileiro lamenta que "as circunstâncias" tenham impedido a liberação dos reféns, e apóia "os esforços" conduzidos por Chávez. Acontece que "as circunstâncias" a que se refere a nota foram criadas, segundo acusação de Chávez e das Farcs, por ações do governo colombiano, o que é negado pelo presidente Álvaro Uribe.

Há duas questões a serem analisadas em mais essa negociação frustrada para libertação de reféns das Farcs que desde fevereiro de 2002, quando foi sequestrada a senadora e candidata à presidência Ingrid Betancourt e sua assessora Clara Rojas, já se frustrou várias vezes.

A primeira é a proximidade que fica novamente evidenciada entre os governos do Brasil e da Venezuela e as Farcs, e a outra questão é o próprio caráter politico da operação. Esse relacionamento com as Farcs e Hugo Chávez tem origem no Partido dos Trabalhadores.

O presidente Lula, que na campanha de 2002 se mostrava ofendido sempre que alguém lembrava essas relações perigosas, hoje já se acha à vontade para abordar o assunto, como fez no discurso de encerramento do encontro de Governadores da Frente Norte do Mercosul em Belém, a 6 de dezembro de 2007:

"Eu tive a felicidade de, em 1990, convocar (...) a primeira reunião da esquerda na América Latina.(...) era preciso fazer um chamamento a todas as organizações de esquerda que militavam na política da América Latina, para que pudéssemos começar a estabelecer uma estratégia de procedimento entre a esquerda da América Latina".

Nesse mesmo discurso Lula diz que conheceu Chávez em uma reunião do Foro de São Paulo. O caráter decisório do Foro, e não meramente de debates, é comprovado por um documento do Partido dos Trabalhadores de 2005, em plena crise do mensalão, quando o Foro de São Paulo se reuniu na capital paulista festejando seus 15 anos de fundação: "Em vários países latino-americanos ocorrem mudanças importantes promovidas por governos que foram eleitos com o protagonismo ou o apoio de partidos membros do FSP (...) que colocam em prática políticas que discutimos ao longo destes 15 anos".

O Foro de São Paulo abriga não apenas partidos políticos de vários matizes da esquerda, mas também organizações guerrilheiras como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), ou a Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (UNRG), consideradas terroristas, acusadas de tráfico de drogas e outras atividades criminosas.

Em janeiro do ano passado, as Farcs divulgaram uma nota sobre o Foro, classificado como "uma trincheira onde podemos encontrar os revolucionários de diferentes tendências, e diferentes manifestações de luta e de partidos (...)".

Eleito em 2002, Lula mandou seu então futuro chefe da Casa Civil, José Dirceu, à Colômbia, onde ele deu a garantia ao presidente Álvaro Uribe de que o governo eleito não teria relações institucionais com as Farcs, ao contrário do PT.

Mas como separar o PT do governo quando, como agora, um dos mentores do Foro de São Paulo é o mesmo Marco Aurélio Garcia que foi enviado como emissário oficial do governo brasileiro na operação marqueteira de Chávez com as Farcs? Operação que tinha a declarada intenção de enfraquecer o presidente colombiano e fortalecer a posição do venezuelano como interlocutor entre os narcoguerrilheiros e países como a França e instituições internacionais, como a Cruz Vermelha.

O deputado Fernando Gabeira, que faz parte de um comitê para libertação de Ingrid Betancourt, atribui o fracasso da operação à fanfarronice de Hugo Chávez. Ele chama a atenção para o fato de que Chávez apareceu na televisão numa entrevista coletiva fantasiado com uma farda militar, e mostrou no mapa uma seta com a localização da região onde se daria a entrega dos reféns.

"Quem nos garante que todas as informações que Chávez deu em público foram combinadas com as Farcs? Se as coordenadas fossem passadas por rádio para os helicópteros, como ele disse, é quase certo que as informações seriam interceptadas, se não pelo serviço secreto da Colômbia, certamente pelos americanos. Não houve o menor cuidado com a segurança da operação", comenta o deputado.

Gabeira diz que o Brasil deveria ter mantido "uma posição profissional e distante" nessa negociação, e ironiza o fato de o representante da Argentina ter sido o ex-presidente Nestor Kirchner: "Ficou claro que o governo argentino era um grande devedor de Chávez, e não apenas pelos bônus que a Venezuela andou comprando", referindo-se ao escândalo de dólares venezuelanos para a campanha presidencial de Cristina Kirchner.

Seria uma coincidência quase mágica se o pequeno Emmanuel, nascido no cativeiro filho de Clara Rojas com um guerrilheiro, estivesse mesmo, como insinua o presidente colombiano Álvaro Uribe, em uma instalação do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar, em Bogotá. Essa instituição, que cuida de menores desamparados, tem origem no trabalho, nos anos 60, de Yolanda Pulecio, mãe da senadora Ingrid Betancourt, cujo comprometimento político contra a corrupção e o narcotráfico levou Ingrid a entrar também na política.

Clóvis Rossi - Uma certa descrença




Folha de S. Paulo
2/1/2008

O título da coluna podia até dar samba. Samba de Paulinho da Viola, até porque é dele a expressão. Pena que não dê samba, dê marcha fúnebre, porque se refere à violência (no caso, a do Rio de Janeiro, que atingiu o sambista diretamente no domingo).
Mas poderia servir para qualquer outra cidade brasileira. São Sebastião, por exemplo, no litoral norte de São Paulo, onde Ed Carlos Queiroz Amaral, 39 anos, encontrou na madrugada de segunda-feira a bala com seu nome na roleta russa que é viver no Brasil nos últimos muitos anos.
Para quem não leu: Ed Carlos estava passando as festas de fim de ano em uma casa de veraneio invadida por um assaltante. Resultado dos disparos: morte cerebral de Ed Carlos e ferimentos em duas pessoas da família, uma delas de cinco anos.
Voltemos a Paulinho da Viola e sua constatação de que "há perplexidade, há um sentimento de insegurança, de desconforto, de impotência para alguns". Fora o fato de que o sentimento de impotência é de muitos, não de alguns, trata-se de uma apta descrição da realidade brasileira.
Entra ano, sai ano; sai um governador, entra outro; sai um presidente, vem outro, nada muda. A descrença relatada pelo sambista de certa forma só faz aumentar porque o governador de turno no Rio, Sérgio Cabral, começou o ano passado, o seu primeiro, com um ânimo (ao menos retórico) diferente, pondo o dedo na ferida, falando em usar as Forças Armadas no policiamento, chamando a Força Nacional de Segurança.
Toda essa agitação verbal, toda essa movimentação deu em nada ou em muito pouco, a julgar pelas avaliações de Paulinho da Viola, que não pode ser acusado de paulista querendo esculhambar o Rio de Janeiro. Fica a nítida sensação de que "uma certa descrença" invadirá 2008 e chegará a 2009, 2010...

Celso Ming - As aplicações em 2008




O Estado de S. Paulo
2/1/2008

O Brasil é hoje uma economia bem mais estável. Mas ninguém se iluda. As turbulências do mercado financeiro global vão exigir visão e esperteza de quem tem um patrimônio para administrar ao longo de 2008.

Sobra dinheiro no mundo. O conceito de risco está mudando. E isso deve provocar alta volatilidade nas aplicações.

Comecemos com o que se passa lá fora. As aplicações em títulos do Tesouro americano continuam sendo padrão de segurança. Mas a rentabilidade ficou para trás. O dólar vai sofrendo lenta e aparentemente inexorável desvalorização. Ativos em dólares correm risco cambial.

As oscilações do câmbio mexem com o rendimento de renda fixa nos países cujas finanças, como as nossas, têm ligações com as dos Estados Unidos.

Isso tem um efeito prático. Até agora, a cada turbulência os aplicadores refugiavam-se no dólar. Como os ativos na moeda correm o risco citado, os investidores que querem segurança não têm se mantido muito tempo nas aplicações tradicionalmente seguras. Têm saltado para o risco: para as ações ou para os imóveis.

Atenção: imóvel não é a segurança que no passado se julgava ser. O preço dele também cai, como se vê nos Estados Unidos, depois do estouro da bolha do crédito hipotecário. Em todo o caso, o crédito farto tem tudo para puxar para cima os preços dos imóveis também no Brasil.

Ao longo de 2008, quatro forças básicas deverão comandar o mercado financeiro brasileiro: economia em crescimento; muito capital entrando, porque o investidor estrangeiro está redescobrindo o Brasil; dólar e juros com tendência a queda; e inflação relativamente estável.

Aqui as aplicações em fundos de renda fixa são marcadas a mercado. Isso significa que o valor da cota pode subir ou cair, dependendo do valor diário dos papéis que fazem parte do cestão de títulos. Até mesmo a renda fixa está sujeita a variações.

Nas aplicações em fundos, convém reparar nas taxas de administração. Em geral, continuam as mesmas dos tempos em que os juros básicos eram de 40% ao ano. Elas produzem o fenômeno conhecido como come-cotas. Vão mordendo, aos poucos, o patrimônio e podem prejudicar demais o retorno.

Esta é uma das razões pelas quais as cadernetas de poupança estão ficando mais atraentes. Elas têm garantia do Tesouro, geram rendimento mensal e não cobram Imposto de Renda. Como os juros estão caindo, e com sua queda derrubam o rendimento das aplicações de renda fixa, as cadernetas fazem forte concorrência aos fundos de renda fixa. É por isso que os bancos vêm brigando pela redução do rendimento da caderneta. Eles podem ganhar essa parada. E, se ganharem, será preciso recalcular o retorno das aplicações.

Ao longo de 2008, é provável que a dívida brasileira ganhe o grau de investimento que, na percepção das agências de classificação de risco, torna os títulos de dívida do Brasil “ponta firme”. Essa expectativa deve atrair capitais externos para ações e investimentos. Mas, se ocorrer por aqui o que ocorreu em outros países, tão logo saia o grau de investimento as ações tenderão a “realizar lucros”.


Confira

Os administradores dos fundos de hedge e dos fundos multimercado querem impor prazos cada vez mais longos para resgate de cotas: D+60, D+90, D+180... (60 dias, 90 dias...).

O objetivo é garantir tranqüilidade para trocas de posição, especialmente em tempos de tumulto nos mercados.

Mas a crise também mostrou que é preciso rapidez nas alocações de carteira. Quem ficou entalado nas cotas subprime perdeu flexibilidade. Nas aplicações de risco, isso pode ser fator adicional para procura de liquidez. E isso aponta para commodities e ações.


Ano novo, problemas velhos-Roberto DaMatta

O Estado de S. Paulo,
É quase impossível não ser messiânico e tornar-se piegas e hollywoodiano no pior sentido da palavra nas transições. Quando dobramos os lençóis do tempo para uma outra etapa do calendário.

Na inauguração de um novo ano é complicado não desejar ou mencionar alguma coisa grandiosa. Do mesmo modo que os tempos nos obrigam não somente a comprar, mas sobretudo a comer, e comer pantagruelicamente, o bacalhau e a rabanada, é difícil trocar o exagero da demagogia auto congratulatória, pela sobriedade do ceticismo que fala das ausências.

Estamos a reboque de uma civilização marcada pela noção de tempo linear, cujo conteúdo mais claro é a idéia de progresso como uma dimensão de ordem. Mesmo sabendo que o planeta se autoconsome num desejado e contraditório aumento dos índices de produtividade e crescimento, aí vemos a presença do progresso e do avanço. Mesmo sabendo que estamos destruindo impiedosamente a Terra, celebramos felizes este 2008 que chega redondo nos números e nas promessas de mais crescimento. Como, em tempos de festa, chamar atenção para o lado negativo do progresso, mostrando que ele também destrói?

Rejeitamos como pessimismo quem, em pleno Natal, não acreditar num Papai Noel que, fabricado à imagem e semelhança no mundo americano que o inventou vermelho e branco como a bandeira dos Estados Unidos carrega, num saco enorme, presentes que endividam todo mundo.

No Brasil, onde o ''''Santa'''' ianque transforma-se num ''''Papai'''', adquirindo um lado familístico e uma consangüinidade que não passa em branco pela sensibilidade populista do governante maior, somos imediatamente lembrados das pessoas que somente agora começam a ser afilhados no chamado ''''bom Velhinho'''' que, sabemos bem, só dá presente para quem pode pagar. Assim, no palácio, está a postos o ''''Papai-Presidente'''' que ''''cuida'''' de todos os brasileiros que ainda acreditam que existe mesmo alguém que deles deve cuidar.

Para nós, é mais fácil inventar um novo país do que honrar e conservar o que existe. Reinventamos o Brasil várias vezes, sempre prestando mais atenção ao que vemos como novidade, como se a dimensão inovadora tivesse o poder mágico natalino de recriar todo o resto. O segredo do populismo à la Papai Noel é que o presidente cuida do povo, mas nada sabe ou tem a ver com as instituições públicas do governo e, menos ainda, do Estado. O chamado elo direto é eficaz porque ele é, obviamente direto, como dizem todos os comentaristas políticos respeitáveis, sem - entretanto - explicarem o que quer dizer o ''''direto''''. Ora, o direto significa que o Papai Noel Presidente nada tem a ver com a eficácia do Estado. Se as repartições públicas não operam, se as prisões são uma vergonha, se museus são roubados, se a educação pública é um desastre anunciado, se o trânsito é um caos e a violência um dado dramático da vida diária, isso não é tarefa de Papai Noel, cujo único objetivo é ser uma fonte inesgotável de presentes. Haja, portanto, saco!

Afora esses pontos desagradáveis, porque ditos ''''políticos'''', que escapam dos mitos mais triviais de um ''''Papai Noel-Bom Velhinho'''' no qual eu jamais acreditei, pois creio que fui o único menino brasileiro que vi, graças ao meu sono leve, meu pai botando os presentes nos nossos sapatos naquela casa de Juiz de Fora, só resta acentuar que sendo de uma época na qual os meninos maus ganhavam ''''pedra'''', eu já não tolero mais essa hipocrisia de salvar o pecador pelo santo, quando o mais correto em toda a parte é fazer justamente o oposto.

E o santo aqui, amigos, é o Plano Real de um diabolizado FHC que os mais eminentes petistas diziam que ia dar errado, e que o programa revolucionário do PT, naquela época favorável do ''''tanto pior melhor'''', não pode desfazer. É ele justamente a competição, o mercado desatrelado do Estado que amplia crédito e que vai multiplicando a presença desses ''''Bons Velhinhos'''' que, nos chamados ''''shopin'''', vão botando o nosso dinheiro nos seus inesgotáveis sacos vermelhos.

Finalizando, desejo do fundo do meu coração, caro leitor, que 2008 seja um ano em que você não deixe ninguém cuidar de você. Que seja um ano no qual você seja cada vez mais responsável por sua vida e que, para tanto, tenha uma robusta e indestrutível saúde física e mental. Que você seja também desconfiado e, para tanto, leia mais livros, revistas e jornais, desligando a televisão de quando em vez. E que você possa introduzir na sua existência pessoal um lema básico da vida democrática: seja reivindicativo, denuncie mais, reclame e clame por seus direitos. Não deixe que aquele carinha ''''fale por você'''' porque, como revelam nossas cidades, mergulhadas nas fezes de administrações lamentáveis, os carinhas pensam primeiro neles e, depois na gente. Que 2008 nos faça ser, dentro dos limites da honestidade, um pouco como eles. Feliz, pois, Ano Velho!

Um homem ridículo no coração das trevas

via VEJA on-line: Blog | Reinaldo Azevedo Reinaldo Azevedo on 1/1/08

A delinqüência moral das Farc e de Hugo Chávez, nesse episódio da libertação que não houve dos reféns, está à altura dos trajes de Marco Aurélio Top Top Garcia para visitar o coração das trevas. Parecia um desses caudilhos latino-americanos do século passado, com seu ar enfatuado, conferindo-se ares de grande negociador de causas mundiais. O ridículo deste senhor não conhece limites. É mais um desses trastes sem superego que superpovoam o governo Lula. É nojento. Sim, certas coisas são de dar medo. O mundo assiste, impassível, a um espetáculo degradante, que transforma a vida de três pessoas – e também a dos demais reféns, que não entraram nessa "negociação" – em matéria do mais vagabundo proselitismo. Sabemos o que fazem nesse meio o Brasil e a Argentina, por exemplo. Mas não a França. Para proteger uma cidadã que também tem nacionalidade francesa, Nicolas Sarkozy comete um erro grave, indigno de sua trajetória até aqui.

Essa "negociação", por enquanto calculadamente emperrada, é uma barbaridade: trata-se de um assalto à legalidade, ao bom senso, ao estado democrático de direito, à civilidade. Os países que aceitaram ser "observadores" dessa pantomima estão legitimando o terrorismo e igualando narcotraficantes ao governo legal e constitucional da Colômbia. É o que faz, por exemplo, uma nota do Itamaraty ao lamentar o insucesso da operação.

"Insucesso"? Depende. O que se queria? Libertar os reféns? Não necessariamente. Isso é mero pretexto. A vida dessas pessoas é apenas instrumental. O objetivo do ditador venezuelano é retirar autoridade de Álvaro Uribe, presidente da Colômbia, transformando-o, vejam que ironia, num REFÉM POLÍTICO EM SEU PRÓPRIO PAÍS. Por que afirmo isso? Observem que o coronel amigo dos terroristas atribuiu ao outro o insucesso da operação. O presidente teria de ficar trancado em palácio e dar livre trânsito às Farc, que passariam, então, a governar a Colômbia em parceria com... Chávez. Só assim três – e apenas três – pessoas seriam libertadas, restando, ademais, a dúvida se o garoto Emmanuel, filho de Clara Rojas, nascido em cativeiro, está mesmo entre elas.

Chávez tripudia sobre o desespero dos familiares, que se agarram, como seria de se esperar, à sua mediação. Nunca – notem bem: nunca – um governante usou de instrumento tão sujo, não asqueroso, para, "pacificamente", se meter na política interna de um outro país. Isso quando a Venezuela é, na América Latina, o segundo país com o maior número de reféns – perde justamente para a Colômbia, onde há a guerrilha. Caracas é a capital mais violenta do continente, com o maior número de assassinatos por 100 mil habitantes. E o meliante se atreve a enfiar o nariz em assuntos alheios!

Ao comentar o "insucesso" da negociação, além de atacar Uribe, o ditador da Venezuela afirmou que pode recorrer a outros métodos para libertar os reféns se os pacíficos falharem. O que terá querido dizer o bandido? Vai criar alguma força de assalto para invadir um país estrangeiro? Vai entrar em confronto armado com seus coleguinhas narcoterroristas?

Nem o Irã, que é a matriz do terrorista Hezbollah, que atua no Líbano, assumiu, em relação àquela força, o papel que Chávez se atribui nas "conversações" com as Farc. Sob o silêncio cúmplice e abestalhado do mundo. Pobres reféns! Para arremate de todos os males, ainda contam com a clarividente colaboração de Marco Aurélio Top Top Garcia, a ilustração bufa do coração das trevas.

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terça-feira, janeiro 01, 2008

INVENTÁRIO INCOMPLETO DO AUTORITARISMO PETISTA VERSÃO 2007


por Paulo G. M. de Moura, cientista político

Prezado leitor: em meu artigo anterior estraguei seu Natal. Agora, vou estragar seu ano novo. Chegamos ao dia 31 de dezembro do ano da graça de 2007, último dia do primeiro ano do segundo mandato do senhor presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva. A democracia brasileira sobrevive ao quinto ano de mandato do primeiro governo de um presidente oriundo das classes populares, fundador e filiado ao maior partido de esquerda da América Latina e um dos principais expoentes da esquerda mundial após a falência da URSS, livremente eleito e reeleito pela vontade da maioria do povo brasileiro. A oposição, em nenhum momento desses longos cinco anos de governo de esquerda, jamais pensou ou tentou remover o presidente eleito do cargo, seja pela violência, seja através de expedientes outros, não condizentes com a preservação da ordem democrática.

Por negligência ou por incompetência políticas, a atual oposição certamente pode ser acusada com procedência. Por vocação autoritária e espírito golpista, jamais. A não ser, é claro, como expediente de chantagem política e manipulação da opinião pública, tantas e repetidas vezes usados por esse governo, o que, aliás, pode ser aqui incrustado como primeiro item de uma expressiva lista de indicadores da vocação autoritária do presidente eleito, do seu partido e daqueles que o idolatram...

(30.12 - 17h17) CLICAR PARA LER COMPLETA

ELIANE CANTANHÊDE Mãos à obra!

Folha de S.Paulo

BRASÍLIA - Em 2007, crianças brasileiras nasceram porque o anticoncepcional injetável falhou, tomaram leite com soda cáustica e brincaram com brinquedos que produzem ecstasy líquido ou têm excesso de chumbo na tinta -caso de acessórios da popular Barbie. Pára e começa de novo! Ou muda tudo neste 2008 que começa hoje.
A lembrança foi do meu colega da Folha Gustavo Patu, pai do Caio e do André e expert na numeralha da economia. Daria para acrescentar, sem traço de humor e brincadeira, os rapazes mal-educados que esbofetearam uma empregada doméstica no Rio, ou a menina jogada numa cela com 20 homens no Pará e o menino torturado até a morte por policiais em Bauru (SP), dentro da própria casa, gemendo a poucos metros da mãe e da irmã. Que país é este aqui ou esse aí?
Mas 2007 foi também o ano em que a economia bombou, a renda aumentou, os empregos cresceram, a arrecadação foi recorde, milhões de pessoas saíram da linha da pobreza. Os ventos externos sopraram a favor da ortodoxia, dando razão a Pedro Malan e a Antonio Palocci. A Justiça tarda, mas não falha? Há controvérsias. Já a ortodoxia tardou, mas não está falhando.
Neste novo ano, é fazer o sucesso do país e dos números chegar ao cidadão e à realidade, especialmente às nossas crianças de norte a sul. Às que tomam leite e têm brinquedos e, com urgência, às que são obrigadas a se prostituir para sobreviver e às suspeitas de roubar motos para compensar o desamor. Que não caiam mais nas garras da polícia que trucida, mas sejam acolhidas pela que é paga para salvar.
A violência atinge todos, e não apenas os ricos, os compositores e atrizes que têm carros blindados e vão parar nas capas dos jornais. As vítimas mais frágeis são as crianças -e, entre elas, as mais pobres. Cabe a todos, governantes, legisladores e cidadãos, protegê-las. Mãos à obra e ótimo 2008!

Miriam Leitão Os inesperados

No começo de 2007, o mercado, em média, achava que o Brasil cresceria 3,4%, e o país cresceu mais de 5%. Essa é a tendência dos analistas de mercado: acreditar que o futuro vai ser a repetição do passado.

O futuro é mais imprevisível do que parece nos consensos divulgados semanalmente nas pesquisas feitas pelo Banco Central. Por isso desconfie das previsões de que 2008 será como o ano que passou.

Se o mercado, no começo de 2007, soubesse que o mundo enfrentaria uma crise de crédito cujo epicentro seria a economia mais poderosa do planeta e que o petróleo esbarraria nos US$ 100, certamente as previsões de crescimento do Brasil seriam ainda menores.

Por isso é preciso ver sempre com dúvida os cenários unânimes que os economistas dos bancos oferecem ao distinto público.

Até porque, desde que o Banco Central passou a pesquisar as previsões das 100 maiores instituições do país e a divulgálas semanalmente, o fenômeno conhecido como “efeito manada” se aprofundou. Ninguém quer ser ponto fora da curva, pois isso pode significar errar sozinho. Errar em conjunto não é problema, mas errar sozinho pode ser fatal. Assim, cada um vê a média das previsões e acerta sua projeção para ficar perto. Ao longo do ano, vão ajustando para concordar com a realidade. Ao final do ano, estão todos certos porque foram caminhando aos poucos e todos juntos na direção dos fatos.

Por isso, melhor que olhar os cenários de consenso é estar alerta aos riscos, às rupturas e aos inesperados que podem mudar ou agravar as tendências.

Como para o mercado e o BC, o futuro é igual ao passado, com uma pequena mudançazinha, a previsão é de que o país vai crescer um pouquinho menos este ano, perto de 4,5%, e a inflação ficará imutável em 4,3%.

Quanto valem essas previsões? Pouca coisa. Na verdade, é melhor olhar menos os números e mais os fatos que podem ocorrer. Até para se prevenir.

A inflação é um ponto de preocupação para 2008, independentemente dos números que os modelos econométricos estejam apresentando.

O Banco Central, no seu cenário de referência, prevê 4,3%. E, no cenário de mercado, prevê os mesmos 4,3%. Mas os fatos mostram que, em 2007, houve um inesperado aumento da pressão dos preços dos alimentos.

Eles sempre oscilam e, no último trimestre do ano, aumentam para depois cair ao fim da entressafra.

Isso acontecerá novamente agora, mas há um fato novo. A inflação de alimentos é fenômeno mundial, os preços das com modities agrícolas estão subindo no mundo todo porque há uma população enorme na China e na Índia consumindo mais e comendo melhor, e há secas e eventos climáticos extremos atingindo países produtores.

É bem possível que essa pressão continue em 2008. Recentemente, a revista “Economist” previu o fim da era do alimento barato.

Esse novo dado precisa ser incorporado às previsões. Outro problema que pressionará a inflação em 2008 é o reverso do que ocorreu em 2007.

Ano passado, o que mitigou a inflação foi o grupo dos preços administrados e monitorados por contratos.

Eles estiveram baixos porque foram reajustados com base no IGP-M, que ficou em apenas 3,83% em 2006. Agora já se sabe que o índice registrou 7,7% em 2007, então este será o ponto de partida de muitos preços administrados.

A inflação vai preocupar muito mais este ano que nos anos recentes.

A maioria das previsões está subestimando o impacto da crise internacional na economia brasileira.

Como o crescimento tem sido puxado pelo dinamismo do mercado interno, considera-se que será assim nos meses futuros.

Mas é difícil imaginar que, num cenário de forte desaceleração americana, o Brasil não seja atingido de alguma forma.

Há outro ponto de preocupação: o crescimento do mercado interno está se dando, em grande parte, pelo crédito. Nas comparações internacionais, o Brasil tem um baixo índice de endividamento das famílias e das empresas, mas aqui o dinheiro é mercadoria muito mais cara, o que torna o endividamento mais perigoso. Por enquanto, o nível de inadimplência permanece confortável, mas, na euforia das compras do fim do ano, os consumidores podem ter ido longe demais. Até por inexperiência.

Podem ocorrer dificuldades de pagamentos que reduzam as ofertas de crédito. As empresas não devem ter um quadro de mercado de capitais tão fácil como tiveram em 2007. O financiamento ficará mais caro.

O mundo está mais incerto em 2008. O Brasil também está mais incerto.

Por isso, deve-se duvidar das projeções que são simplesmente a repetição do passado, com um ajuste aqui outro ali. A dificuldade de qualquer projeção, boa ou ruim, é que houve muita mudança na estrutura da economia mundial e brasileira nos últimos anos. No mundo, o fator novo dos grandes países emergentes, como China e Índia, atenuou até aqui a crise americana.

Mas é difícil ter certeza de que continuará atenuando.

No Brasil, as contas externas são mais sólidas que em outras crises. Isso dá mais segurança. Mas as contas públicas estão muito mais incertas este ano que em 2007. E é ano eleitoral, quando se gasta mais.

É preciso cautela com os cenários excessivamente positivos. É mais sensato ver os sinais de mudanças, antecipar-se aos riscos, para evitá-los. Assim, será mais fácil realizar o que todos querem: um ano bom.

Luiz Garcia - Fora isso, Feliz Ano Novo

Todo ano, é tudo sempre igual.
Chegam Natal e Ano Novo e a gente só pensa em viver os dias de festa, esquecendo todas as razões permanentes de aporrinhação (quem achar chulo, pode trocar por amofinação).
Só peço que ninguém se amofine com o estragador de prazeres que vem lembrar, mais uma vez, problema recorrente há muito tempo: o de que esta é também uma época em que volta para a rua, sem qualquer direito a isso, um magote de criminosos profissionais perigosos.

Chega o Natal, presidiários recebem licença para passar os dias de festa em casa. Não é a única oportunidade: aqueles com direito ao regime de prisão semi-aberta (uma contradição em termos, mas deixemos para lá) podem visitar a família em outras datas: Páscoa, Dia das Mães, Dia dos Pais, Finados.

Em tese, bela e humana concessão. Na prática, freqüentemente uma piada de mau gosto. A quantidade de internos que não voltam para a a prisão (principalmente no Rio e em São Paulo, onde têm sede as grandes organizações criminosas) desmoraliza o benefício.

Não tenho dados recentes, só de poucos anos atrás, mas não há fatos novos que sugiram mudança: ficaria entre 8% e 10% o percentual de presidiários que somem no mundo. É bandido demais engrossando uma tropa que já é insuportavelmente numerosa.

Isso significa, muito simplesmente, que o sistema tem escassa ou nenhuma capacidade de recuperação social dos internos. Nem mesmo de aferir quais deles adquiriu por esforço próprio e desassistido o direito de recuperar a cidadania. Mesmo assim, são mantidas normas que apressam extraordinariamente a libertação da maioria deles. Depois de cumprido um sexto da pena, a debandada é geral. Sem falar nos que aproveitam as visitas à família para desaparecer de vez.

Profissionais da área sustentam que promoção e avaliação de recuperação dos internos têm furos graves por razão singela e nada rara: há nas penitenciárias pessoas dedicadas e competentes, mas sem condições materiais de serem eficientes.

Outros acrescentam que o sistema penal foi estruturado sem levar em conta o fenômeno, até então imprevisível, do estabelecimento dos “comandos” de internos nas penitenciárias (Primeiro Comando da Capital, Comando Vermelho, Amigos dos Amigos etc.). O crime se organizou para, entre outros objetivos, manter no crime quem nele se formara. E o Estado não se organizou para coisa alguma. Mesmo as penitenciárias de segurança máxima construídas recentemente não impedem que um Fernandinho Beira-Mar continue a administrar seus negócios sem sair da cela.

Seja qual for o grau de segurança existente ou apenas presumido, parece óbvio que o sistema é incompetente para recuperar bandidos profissionais para o exercício da cidadania.

Ou para controlar e eventualmente impedir o seu acesso aos benefícios previstos no sistema. Desse grupo, quem sai para passar o Natal em casa já assalta o primeiro Papai Noel que encontrar no caminho.

E o problema não se manifesta apenas nas licenças durante o cumprimento das penas. O que vem depois — o sistema de liberdade condicional — é piada de mau gosto no país inteiro.

Existe a libertação, mas ninguém, literalmente, ninguém, para controlar as supostas condições e inclusive as possíveis dificuldades da adaptação dos ex-presidiários à vida lá fora.

Bom, fora isso, feliz Ano Novo para todos.

Celso Ming Emprestar para país rico

O Estado de S. Paulo


Foram cinco anos consecutivos de superávits nas contas externas (contas correntes). Aí o Banco Central projetou um déficit de US$ 3,5 bilhões para este ano e velhas cassandras se agitaram: "por culpa desse câmbio aí, logo estaremos de volta ao brejo de onde saímos com tanto sofrimento..."

Primeiramente, alguns conceitos, porque ninguém precisa ter brevê em jargão de economista. As contas correntes são o retrato do movimento de recursos do País com o exterior e vice-versa, em três categorias: comércio exterior (exportações e importações); pagamento de serviços (juros, transportes, turismo, royalties) e rendas (remessas de lucros e dividendos); e transferências unilaterais (o dinheiro que os pais mandam aos filhos que estudam no exterior ou que os brasucas despacham para suas famílias no Brasil).

As contas correntes não englobam todas as contas externas. Deixam de fora o movimento de capitais. A existência de um déficit em conta corrente significa que, para não perder reservas, o Brasil precisa receber mais capitais, seja na forma de investimentos de risco ou de aplicações financeiras.

Por que tanta tensão com o reaparecimento de um déficit em conta corrente? Porque alguns se lembram dos tempos de chumbo, quando os seguidos rombos tinham de ser tapados com dívidas no exterior e o Brasil comeu o pão que o diabo amassou na mão dos credores. Quem fica desassossegado com isso logo lembra da advertência do ex-ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen: "A inflação aleija; o câmbio mata."

Mas não é certo que 2008 feche com um déficit em conta corrente. As projeções ou não consideram ou minimizam fatos que estão para acontecer.

Um deles é a revisão dos preços do minério de ferro. Dentro de mais algumas semanas, a Vale do Rio Doce fechará as negociações. Os especialistas prevêem reajustes entre 20% e 50%. Se forem de 30%, apenas as exportações do minério renderão mais US$ 3 bilhões.

O segundo fato são os ganhos com petróleo. Ao longo de 2007, cinco plataformas da Petrobrás entraram em funcionamento. E isso aponta para menos importações e mais exportações de petróleo e derivados em 2008. Mas sejamos pessimistas. Digamos que a economia adicional nesse item não será maior do que US$ 3 bilhões.

Terceiro fato: os preços das commodities agrícolas estão galopando. Os preços da soja estão 69,3% mais altos do que há um ano; os do milho, 36,2%; os da carne bovina, 40,2%. Ainda que muitos produtores já tenham vendido sua safra no mercado futuro, a maior parte dessa alta aumentará o faturamento das exportações. E não será menos do que US$ 5 bilhões.

Ou seja, apenas nesses três itens, a receita extra será mais do que o triplo do déficit apontado. Ainda assim, se o Banco Central e os analistas estão certos e algum déficit acabe sendo registrado neste ano, é preciso entender que os tempos são outros. Quando há superávit, esses recursos vão para as reservas que em seguida são aplicadas em títulos de dívida de países ricos.

Não faz sentido um país pobre, como o Brasil, ficar o tempo todo financiando o consumo dos mais abonados do globo.

Promessas da economia para 2008

Ilan Goldfajn

O Estado de S. Paulo


Já imaginaram se a economia mundial pudesse fazer suas promessas para 2008? Hoje é o primeiro dia do ano, bom momento para especular a esse respeito. Ao contrário das promessas pessoais - que dependem basicamente da força de vontade individual -, a economia é o resultado da combinação da ação de vários indivíduos, empresas e governos, normalmente sem coordenação. Por sorte, ninguém (nem o FMI, o Banco Mundial ou a ONU) se aventura a fazer promessas em nome de um conjunto tão disperso. Mas eu tive acesso privilegiado ao que seriam as promessas da economia mundial (e brasileira), caso existissem. Aí vão:

Drible na crise financeira e na desaceleração mundial - Os últimos anos de exuberância e otimismo na economia mundial levaram a excessos. Surgiram bolhas (aumentos de preços dissociados do racional) imobiliárias em vários cantos do planeta. Tomaram-se riscos exagerados nas aplicações financeiras. As inovações financeiras e a globalização espalharam esses exageros para o mundo. Os exageros ficaram claros em 2007. A bolha imobiliária nos EUA estourou. Os bancos tiveram perdas não imaginadas anteriormente (fala-se em perdas de centenas de bilhões de dólares, chegando até o trilhão). Houve corridas bancárias, demissão dos responsáveis e uma sensação de desconfiança no sistema financeira internacional. Enfim, após décadas sem aparecer, surgiu uma crise financeira internacional digna do nome. Promessa: os bancos centrais do mundo vão conseguir reverter a crise financeira provendo liquidez, o que evitará a restrição de crédito que possa levar a uma recessão nos EUA e no mundo. A economia mundial e seus bancos centrais prometem usar toda a flexibilidade e credibilidade conquistada nos últimos anos para evitar o cenário pessimista e confirmar os cenários mais otimistas da maioria dos analistas.

Estabilidade dos preços de alimentos no mundo - A inflação de alimentos foi uma grande vilã em 2007. Os preços desses itens subiram 12% na China, 10,5% no Brasil e 6% nos EUA, pondo os bancos centrais do mundo em alerta (juros mais altos) para evitar que o custo de vida continue subindo. Promessa: por um lado, aumentar a produção de alimentos (trigo, milho, soja) no mundo, reagindo a contento a preços e retornos maiores. Por outro, moderar o crescimento da demanda por alimento dos novos "glutões" - países como China e Índia, que têm incorporado um grande contingente de mão-de-obra nas cidades, com poder de compra cada vez maior. A China cresceu 11,5% e a Índia, 9% em 2007. A direção é boa, mas se promete moderação no crescimento (para evitar inflação). A desaceleração nos EUA vai ajudar nessa moderação.

Equilíbrio global e resistência ao protecionismo - Nos últimos anos, a economia mundial tem crescido bem, mas, de certa forma, desequilibrada. Quem produz não é necessariamente quem consome. Os EUA são os maiores consumidores. O resto do mundo produz mais do que consome. O resultado é déficit comercial americano e superávit no resto mundo, em especial, nos países asiáticos e nos países exportadores de petróleo. Estes últimos acumularam reservas e montaram seus fundos soberanos para comprar ativos, enquanto os EUA acumularam dívidas. Esta situação de desequilíbrio ameaça aumentar o protecionismo no mundo, principalmente na esteira das eleições americanas (e o apelo de falsa segurança que o protecionismo oferece). Em algum momento, esse processo tem de se reverter, menos consumo e déficit nos EUA e mais consumo e menor superávit no resto do mundo. Promessa: a economia mundial vai caminhar para resolver os desequilíbrios mundiais. O déficit americano vai diminuir, não só pela esperada desaceleração nos EUA, que reduz suas importações, mas também pela depreciação do dólar em relação às moedas asiáticas (o yuan chinês, por exemplo) e às moedas do Golfo (do petróleo). Dessa forma, fica mais barato para o resto do mundo consumir produtos americanos e mais caro para o americano fazer o inverso, o que ajuda a reverter os desequilíbrios mundiais. A China, em particular, promete "flexibilizar" mais rapidamente o seu regime cambial e aceitar uma apreciação da sua moeda. Com isso as garras do protecionismo perdem força.

Brasil, limite aos gastos do governo e crescimento sustentado - A mais difícil das promessas (o corte de gastos). Não pelo aspecto econômico, mas pela falta de convicção. Nos últimos anos, a bonança da economia mundial se aliou ao legado de um pouco mais de responsabilidade na condução da política econômica (controle da inflação, manutenção do superávit primário, respeito aos contratos, avanços microeconômicos) para gerar um período de crescimento forte com estabilidade. Para que o forte crescimento não esbarre nos seus limites, levando à inflação e ao aumento de juros (no mercado financeiro já se espera aumentos de mais dois pontos percentuais em 2008), é necessário que o investimento cresça aceleradamente e aumente a capacidade de produção da economia. Mas o governo trabalha contra, gasta e arrecada muito e desloca recursos do que poderia ser investido pelo setor privado. Promessa: na esteira da queda da CPMF, o governo vai finalmente cortar o crescimento dos gastos (e não o superávit primário). A economia, por sua vez, vai conseguir investir o suficiente para manter o crescimento sustentado, sem inflação, e os juros não precisarão subir.

Cumprir as promessas acima será um desafio. Não obstante, nenhuma delas é tarefa fora do alcance. Algumas fazem parte das previsões da maioria dos analistas. Só esperamos que este ente abstrato - a economia mundial (e a brasileira) - tenha mais sucesso no cumprimento das promessas que a maioria dos simples mortais.

Biodiesel Xico Graziano

O Estado de S. Paulo


Ano-novo, vida nova. Mais ainda, combustível novo. Sim. Passa a ser obrigatória, a partir de hoje, a mistura de 2% de biodiesel ao óleo combustível comercializado no País. Boa novidade.

Segundo a lei, aprovada em 2005, o chamado B2 prevalece até 2013, quando entra em cena o B5, quer dizer, a adição obrigatória sobe para 5% de biodiesel no óleo comercializado. Quem, entretanto, quiser antecipar a mistura pode solicitar a devida autorização. Na agricultura, especialmente no distante Centro-Oeste, para fugir do elevado preço do diesel, tratores já funcionam, meio no tapa, até com B100. Vegetal puro no tanque da máquina.

O biodiesel é obtido a partir de óleos vegetais, embora possa também advir de gorduras animais, como sebo. Combustível biodegradável, derivado de fontes renováveis, o novo combustível se opõe ao diesel do petróleo, de origem fóssil, não renovável. A diferença é enorme. A cada ciclo de produção, o crescimento vegetal retira da atmosfera o gás carbônico liberado na combustão. Na linguagem ambiental, isso significa que o biodiesel é "carbono neutro"; suas obtenção e queima não contribuem para o aumento das emissões de CO2 no planeta.

Transesterificação é o novo palavrão na praça. Assim se chama o processo utilizado para transformar o óleo renovável em biodiesel. Consiste numa reação química de óleos vegetais (ou de gorduras animais) com o álcool comum (etanol) ou o metanol, estimulada por um catalisador. Desse processo resulta a glicerina, empregada para fabricação de sabonetes e diversos outros cosméticos.

Há dezenas de espécies vegetais oleaginosas propícias à produção do biodiesel. Destacam-se soja, girassol, dendê (palma), pinhão-manso e mamona. Cada qual apresenta vantagens e desvantagens. A soja, por exemplo, vence na escala de produção e na tradição de cultivo. Mas perde no teor de óleo da sua semente, entre 18% e 20%. Bastante protéica, a soja esmagada gera grande quantidade de farelo, ótimo para ração animal, um estorvo, porém, para uma fábrica de biodiesel.

O girassol apresenta de 40% a 45% de óleo na semente, bem mais do que a soja. Inexiste no país, todavia, tradição de plantio de girassol. Pouco se investiu no melhoramento genético das variedades, que exigem frio no ciclo da produção. Isso explica o seu bom desenvolvimento na Argentina, ao contrário do Brasil.

O pinhão-manso é coqueluche, uma descoberta recente. Planta não comestível, de elevado teor de óleo, acima de 50%, seu problema é que ninguém nunca a plantou em escala suficiente para ser conhecida na agronomia. A Embrapa e órgãos estaduais de pesquisa correm para estudá-la. Uma aposta no futuro.

O dendê, ou a palma, uma palmeira de origem africana, oferece excelente óleo a partir de sua polpa. Rivaliza com a soja na produção mundial de óleo, graças aos grandes cultivos na Malásia e na Indonésia. No Brasil, assume importância na região úmida da Amazônia. Vai, sem dúvida, crescer sua produção para atender ao mercado do biodiesel.

Resta a mamona. Sua semente traz de 45% a 50% de óleo. Planta muito resistente, adaptada a solos menos férteis, poucas pragas a atacá-la, a euforbiácea é conhecida desde a Antiguidade por originar o óleo de rícino, famoso purgativo na medicina popular. No mundo industrial, o óleo de mamona sempre guardou excelente valor no mercado de lubrificantes, pois mantém boa viscosidade em ampla faixa de temperatura.

Na década de 1940, o Brasil liderava a produção mundial de mamona, com 370 mil hectares plantados. Mas a ricinocultura não agüentou a competição da moderna agricultura de escala, decaindo seu volume e se tornando quase residual, exceto no oeste da Bahia, onde manteve certa importância. Quem se destaca no mercado mundial agora é a Índia, com 62% da produção, seguido pela China. Ao Brasil resta a medalha de bronze.

Parece, porém, que a mamona vai repicar. Ela é a favorita do governo brasileiro para o programa de biodiesel. Com uma novidade. A fórmula petista mistura solução energética com equação agrária. Pretende fazer da mamona um trampolim de sucesso para os assentamentos de reforma agrária. Criou-se, assim, uma diferença fiscal para os plantios de mamona oriundos, no Nordeste, da chamada agricultura familiar.

Apenas uma grande empresa, a novidadeira Brasil Ecodiesel, prometia envolver 10 mil pequenos agricultores do Tocantins, gerando 800 milhões de litros do novo combustível. Dinheiro público, fartamente subsidiado, financiava o projeto. Uma maravilha que mereceu, há dois anos, festa no Palácio do Planalto, com a presença de Lula.

Na prática, a teoria é outra. Misturar sem-terra com mamona deu zebra. A Petrobrás começou, agora em dezembro passado, a vender biodiesel ao mercado. Disponibilizou 380 milhões de litros de seu estoque, arrematado em leilões promovidos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). A quantidade distribuída não atinge metade do necessário para cumprir a mistura do B2, estimada em 880 milhões de litros. Incrível, vai faltar biodiesel.

Haja incompetência. Puxa vida. Agricultura energética representa uma oportunidade de ouro, uma mudança de paradigma, e ela brilhou para a agricultura brasileira. Primeiro, com o etanol; agora, com o biodiesel. Chegou o momento de emplacar o novo combustível vegetal. Será um sucesso, se a demagogia oficial não atrapalhar tudo. Infeliz de quem troca o profissionalismo pela ideologia vazia.

Feliz ano-novo.

As boas previsões do BC

O Estado de S. Paulo EDITORIAL,


O otimismo é a grande marca das previsões do Banco Central (BC) para a economia brasileira, apesar das expectativas de maiores pressões inflacionárias e de uma expansão relativamente modesta da exportação. Os técnicos do banco elevaram de 4,7% para 5,2% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2007 e mantiveram em 4,5% a expansão prevista para 2008 - avaliações divulgadas no último Relatório de Inflação.

Para o setor industrial, a previsão para 2008 é de um crescimento de 4,8%, igual ao estimado para 2007. O melhor desempenho será o da indústria de extração mineral, com expansão estimada de 8,1%. O segundo melhor será o da construção civil, 5,6%, e a indústria de transformação ficará com 4,2%, resultado inferior ao calculado para este ano, 5,2%, mas não desprezível. A importação continuará a ter um papel considerável no atendimento do consumo de bens manufaturados.

Pelo terceiro ano consecutivo, o aumento da produção, segundo as projeções, será puxado pela demanda interna, sustentada tanto pelo consumo quanto pelo investimento em máquinas, equipamentos e instalações. A expansão do investimento, estimada em 10,4%, é condição indispensável para um crescimento econômico prolongado, sem gargalos importantes e sem grandes tensões inflacionárias.

Pelo menos quanto a esta última condição, os economistas do BC mostram-se mais confiantes do que até há pouco tempo. O relatório contém uma seção especialmente importante sobre fatores limitativos do aumento da produção. Os dados provêm principalmente de respostas de executivos de empresas, coletadas em recentes pesquisas.

Segundo os próprios industriais, a demanda interna deixou de ser uma barreira à elevação de sua atividade. Com a economia mais aquecida, aumentou a ocupação da capacidade instalada, até o recorde, registrado em novembro, de 87,2% - o nível mais alto da série iniciada em 1995 pela Fundação Getúlio Vargas. Esse dado poderia acender uma luz amarela, mas a análise apresentada no relatório do BC chama a atenção para o rápido crescimento da oferta de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos.

De janeiro a outubro, segundo o IBGE, a produção de bens de capital foi 18,8% maior que a de um ano antes. A diferença na comparação com igual período do ano anterior tem sido crescente: era de 17% até julho e aumentou de forma consistente nos meses seguintes. Como a fabricação de bens de capital vem aumentando bem mais velozmente que a média da produção industrial, pode-se olhar com um pouco menos de preocupação o elevado nível de utilização da capacidade instalada.

Os economistas do BC prevêem a repetição, em 2008, de uma importante característica do crescimento econômico deste ano: a expansão industrial generalizada tanto em setores quanto em regiões. No terceiro trimestre, 18 das 27 atividades cobertas pela pesquisa do IBGE apresentaram expansão.

No cenário básico, o consumo das famílias deverá crescer 5,9% em 2008, sustentado, como neste ano, pela expansão do emprego, pelo aumento dos ganhos dos trabalhadores e pela continuada ampliação do crédito. O consumo total, incluído o do governo, deverá aumentar 5,4% e será o principal motor do crescimento econômico.

A contribuição final do setor externo será negativa, segundo as projeções, porque o aumento das exportações de bens e serviços, estimado em 6,6%, será muito menor que o das importações, 22,4%. Nesse ano, até novembro, as exportações de bens e serviços foram 11,9% maiores que as de um ano antes. As importações, 26,8% superiores. O descompasso deverá acentuar-se e o resultado será um déficit na conta corrente do balanço de pagamentos.

A inflação de 2008 foi estimada em 4,3%, 0,1 ponto acima do nível projetado no relatório de setembro, mas ainda abaixo do centro da meta definida pelo Conselho Monetário Nacional, de 4,5%. Em vista do crescimento previsto para o consumo, será um resultado satisfatório, especialmente se vier sem nova alta dos juros.

Diante da perspectiva de um ambiente externo menos favorável, o cenário básico apresentado é bastante positivo. Pressupõe-se o cumprimento da meta fiscal estabelecida antes da extinção da CPMF, um bom desafio para o governo. Com uma política fiscal responsável, o risco de pressões inflacionárias será consideravelmente menor.

Computador em casa

O Estado de S. Paulo EDITORIAL

A

Em pouco mais de dez anos, a porcentagem dos lares brasileiros que dispõem de computador cresceu mais de três vezes. Esse equipamento está presente em quase um quarto - ou, precisamente, 24%, segundo pesquisas recentes de instituições especializadas - dos domicílios do País. Em 1996, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, só 6,9% dos domicílios dispunham de um computador. Apesar do rápido aumento do uso doméstico de computadores, o potencial de crescimento do mercado brasileiro ainda é imenso. Por isso, a indústria de computadores, que registrou vários recordes de produção e vendas em 2007, projeta desempenho ainda melhor em 2008.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), que reúne as indústrias desse equipamento, em 2007 as vendas de computadores pessoais no Brasil alcançaram 10,1 milhões de unidades - um aumento de 23% sobre as vendas de 2006. A mais importante fabricante de processadores do mundo, a Intel, projeta para 2008 crescimento ainda maior do que o de 2007, de 25% a 30% nas vendas internas de computadores, o que daria cerca de 13 milhões de unidades.

Há um conjunto de fatores que explicam a aceleração das vendas de computadores pessoais em 2007. Um desses fatores é a eliminação da incidência do PIS e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) nas vendas desse equipamento, que reduziu a taxação em 9,25%. A desvalorização do dólar em relação ao real resultou na queda do preço dos componentes importados, o que igualmente contribuiu para baratear o produto para o consumidor final.

O resultado foi notável. Nas últimas semanas, como constatou a reportagem do Estado, um modelo de mesa de determinada marca, com 512 megabytes de memória, que custava R$ 999 no Natal de 2006, era encontrado por R$ 799, uma redução nominal de 20%.

Ao barateamento do produto juntou-se a generosa oferta de crédito, para atrair mais consumidores, inclusive os de renda mais baixa, o que está provocando uma alteração expressiva no mercado e no uso da internet. Havia uma demanda reprimida nas classes econômicas C e D, que começa a ser aliviada. Essa demanda é atendida por computadores com menos recursos e, por isso, mais baratos.

Famílias que até há pouco estavam afastadas da internet agora têm acesso a ela. E obtêm o acesso por meio da internet discada, que oferece menos facilidades, mas é mais barata do que a internet de banda larga. Assim, o mercado da internet discada, que estava fortemente pressionado pela banda larga (que cresceu 30% em 2007), cresce com grande velocidade. Dos domicílios brasileiros ligados à rede mundial, 49% utilizam a internet discada e 40% dispõem da banda larga (os demais 11% utilizam outras formas de conexão). Ainda há muito espaço para a expansão do uso da internet no Brasil, qualquer que seja o tipo de conexão escolhida pelo usuário, uma vez que, como indica pesquisa recente, 86% dos domicílios não têm acesso à rede.

As famílias de renda mais alta, que já tinham computador pessoal, compram novos equipamentos com mais recursos e mais potentes. E compram também os computadores portáteis, cujo preço caiu ainda mais do que o dos computadores de mesa. Em 2006, o preço médio de um notebook (computador portátil) era 188% maior do que o de um desktop (computador de mesa) com as mesmas especificações. Em 2007, a diferença se reduziu para 68%.

Isso explica o impressionante crescimento de mais de 200% nas vendas dos notebooks em 2007 (2,1 milhões de unidades), na comparação com 2006. Esse crescimento acentuado leva os analistas a prever que, em três anos, as vendas de notebooks ultrapassarão as de desktops (hoje, os computadores portáveis representam pouco mais de 20% do mercado de uso doméstico ou pessoal).

O desempenho das vendas dos computadores para o uso no lar provocou outra mudança importante no mercado. Até 2006, as empresas eram os maiores compradores de microcomputadores. Em 2007, as vendas para uso doméstico representaram 51% do total.

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