A política educacional involuiu no Brasil nos últimos dois anos, a reforma universitária tenta tutelar a escola privada, o ensino médio triplicou em dez anos sem ter qualquer projeto, o governo não dá a atenção devida ao mais importante: o primeiro ano do básico, no qual “começa o desastre”. Essa é a visão do professor Claudio de Moura Castro.
Na entrevista que me concedeu na Globonews, o professor fez duras críticas à reforma universitária:
— Se nenhuma universidade importante do mundo tem um sistema como esse, cabe ao governo provar que uma coisa assim pode dar certo, é viável.
Ele é diretor do Sistema Pitágoras, mas não é esta a origem da crítica. Entende do assunto: tem um imenso e coerente currículo de economista que já trabalhou como professor aqui e no exterior; já foi consultor para assuntos educacionais no BID e no Banco Mundial e tem sido, ao longo das décadas, um interlocutor relevante quando o tema do debate é educação. Portanto, ele e tantos outros pensadores de diversas áreas que têm criticado o projeto deveriam ser ouvidos pelo governo. A lista dos defeitos apontados na reforma universitária é longa e assustadora.
— A tutela é o mais perigoso. Aqueles comitês, conselhos e votos diretos, a presença de pessoas não escolhidas pela instituição deixam uma dúvida: quem é o responsável se der errado?
Quando perguntei quem seriam os representantes da sociedade que estariam presentes nas instituições de ensino, Claudio de Moura Castro respondeu:
— Sei lá, o próprio ministro sugeriu o MST.
O professor discorda também das mudanças do provão.
— Perdeu-se um instrumento de navegação que os alunos tinham para escolher. O provão passou a ser por amostragem e agora é mais vulnerável à manipulação. Uma escola inescrupulosa pode mandar apenas os melhores alunos e ninguém vai conseguir detectar a fraude. A partir do momento em que ter um programa numa favela conta ponto na avaliação, uma escola pode querer ter um programinha, mesmo que não funcione, para ter ponto.
Antes, o provão produzia uma nota para cada curso das áreas avaliadas. Todos os alunos dessas áreas eram submetidos a uma prova redigida por outro professores, a maioria proveniente das universidades públicas. Quem ficava nos 12% superiores tirava o conceito A, quem ficava nos 12% mais baixos tirava E e os outros se dividiam em B, C e D. Agora, o provão é menos freqüente, é por amostragem e tem ainda uma novidade:
— Uma prova é feita no primeiro ano, o que é uma total perda de esforço porque já existe o Enem. O governo quer economizar fazendo por amostragem e depois faz uma prova desnecessária que não leva a lugar algum.
Moura Castro lembra também que uma instituição agora pode ficar anos sem estar na amostragem e portanto permanecer com uma nota que já não reflita a realidade do curso. Com o instrumento de navegação, agora perdido, o aluno fiscalizava o mercado:
— Um ponto acima na classificação levava para o curso 10% a mais de candidatos, um ponto perdido tirava 40% de candidatos daquele curso.
O efeito de um sistema assim é óbvio: fazia as escolas privadas se esforçarem pela melhor nota, aumentando a qualidade dos cursos. Quem perdia qualidade perdia mercado. O sistema de avaliação, que era mais simples e transparente, ficou opaco e pesado, segundo o professor, e não incorpora “o que aprendemos para blindar o sistema contra a tapeação”.
O professor Claudio de Moura Castro gosta do Pro-Uni, acha que os defeitos podem vir a ser corrigidos com o tempo e desaprova a política de cotas. O Pro-Uni, acredita, é a troca de vagas para pobres por renúncia fiscal. Isso é bom, mas é ruim por desviar para o ensino superior a atenção que deveria estar toda concentrada no fundamental. As cotas teriam, na opinião dele, o mesmo defeito, com o agravante de serem “uma solução ruim, quando existe uma boa solução disponível na Unicamp, com um sistema de bônus de premiação”.
Moura Castro defende também o aumento do grau de autonomia universitária que a reforma oferece às escolas públicas, mas diz que mesmo isso é ilusório. Elas terão autonomia em algumas questões, mas continuarão presas às leis da isonomia salarial e a várias outras normas de Brasília. Além disso, ele conta que os departamentos que conseguirem captar recursos no mercado terão que mandar todo o dinheiro para “o murundu da reitoria”.
Há outros defeitos não enfrentados como a relação professor/aluno nas universidades públicas:
— Há cursos em que há mais professor que aluno. No Brasil, a relação é de 11 alunos para cada professor nas universidades públicas. A mesma relação é de 90 alunos para um professor na Alemanha. Quem é rico nessa história?
Com a reforma, as universidades federais terão um aumento de 30% nos recursos, porque os inativos passam a ser responsabilidade da União.
— Isto é bom, mas, do ponto de vista de todo o sistema educacional, é injusto. A grande crise do ensino brasileiro é o primeiro ano do básico, que é o ponto onde começa todo o desastre. O ensino médio triplicou em dez anos sem que houvesse projeto de nenhuma secretaria. Cresceu pela pressão dos alunos e pais. Continua sem projeto curricular, sendo feito para atender ao vestibular. O aluno é atropelado por uma avalanche de coisas e não consegue aprender, principalmente, não aprende a pensar.
Quando perguntei, para encerrar, a opinião dele sobre a educação no governo Lula, o professor respondeu:
— Infelizmente acho que houve uma involução.
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, fevereiro 11, 2005
Jornal O Globo - Merval Pereira Luta pelo emprego
PARIS. A decisão do governo espanhol de regularizar a situação de mais de um milhão de trabalhadores em ilegalidade no país, e a disputa política entre sindicatos e governo em torno da alteração na lei das 35 horas de trabalho semanal na França, são apenas dois exemplos do grande debate internacional sobre o mercado de trabalho no mundo globalizado.
Dois terços da força de trabalho global, estimada em três bilhões de pessoas, vivem em países em desenvolvimento, onde as oportunidades são menores e o crescimento econômico é baixo, enquanto as populações crescem rapidamente. Ao mesmo tempo, nos países ricos, com as taxas de nascimento declinantes, há uma grande necessidade por trabalhadores para tarefas não especializadas. Mas a maioria dos governos, preocupados com as conseqüências políticas, reluta em aprovar leis mais flexíveis que aumentem a imigração legal. Agora mesmo a Espanha está enfrentando forte reação de outros países da Comunidade Européia pela decisão de facilitar a legalização de trabalhadores que já estejam em atividade no país, e que apresentem garantia de contrato de trabalho por pelo menos seis meses.
A discussão que se coloca em todo o mundo industrializado, e que foi debatida em diversos painéis no Fórum Econômico Mundial, em Davos, é que o desequilíbrio entre a oferta de empregos nos países ricos, e a dificuldade de absorção de mão-de-obra não qualificada por esses mesmos países, devido às questões políticas que a imigração levanta, gera uma distorção social crescente e estimula o racismo, além de aumentar a pobreza nos países em desenvolvimento.
A solução para a questão está muito mais em um acordo entre os empregadores e as centrais sindicais do que em tratados internacionais, concordaram todos os debatedores. Na Organização Mundial do Comércio, por exemplo, há uma parte das negociações sobre livre comércio que abrange “a livre movimentação de pessoas”, tema que sempre é deixado fora das conversações por desinteresse dos países desenvolvidos.
Com o advento dos atentados terroristas em nível internacional, esta livre movimentação de pessoas ficará cada vez mais prejudicada, em favor de medidas de segurança. Antes que um acordo internacional desse tipo possa resolver uma questão tão controversa, é preciso superar barreiras culturais políticas e sociais. Na França, por exemplo, a possibilidade de permitir que os trabalhadores façam horas extras além das 35 horas semanais é vista pelos sindicatos como uma maneira de acabar na prática com o que consideram ser os avanços obtidos na legislação trabalhista.
Já o governo diz que a permissão tornará a economia francesa mais competitiva. O primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin resume a idéia da nova legislação com a seguinte definição: “É o trabalho que cria o trabalho, é a atividade que cria a atividade”. Ao mesmo tempo, uma ação política contra a União Européia se mistura com os protestos contra a nova legislação. O governo francês teme que o futuro referendo sobre a Europa sofra a influência do descontentamento dos que são contra a alteração na legislação trabalhista.
Nos debates em Davos, representantes dos sindicatos alegaram que a reclamação de países desenvolvidos de que estão sendo invadidos pelos imigrantes não resiste à constatação de que, se os imigrantes fossem todos embora, as economias desses países não resistiriam: “Se os trabalhadores ilegais fossem mandados embora todos ao mesmo tempo, a economia da Califórnia não resistiria”, ressaltou Sharan Burrow, presidente do Conselho de União dos Sindicatos da Austrália. Nesse comentário, há uma crítica implícita à complacência com que os sindicatos que consideram esses temas são tratados pelos governos.
A questão da imigração, embora atualíssima, já está sendo superada pelo avanço tecnológico, ressaltaram alguns especialistas. As grandes corporações estão crescentemente usando tecnologias de comunicação para ligar empregados de vários países sem necessidade de retirá-los de seus países de origem. Índia e China foram exemplos de países que estão se utilizando desses avanços tecnológicos para se encaixar nas maiores empresas internacionais.
Essa política, no entanto, atinge apenas cerca de 10% da força de trabalho mundial, que tem acesso às redes de computadores. Por outro lado, esses mesmos países que se beneficiam da tecnologia também encorajam a migração de trabalhadores porque contam com as remessas de dinheiro que eles enviam para suas famílias do exterior para fortalecer as reservas.
A terceirização de serviços, cada vez mais utilizada pelas corporações internacionais, se por um lado traz empregos para os países mais pobres — que sediam call centers, por exemplo, de empresas americanas ou européias -— provoca desemprego nos países industrializados, o que gera protestos e cria animosidade contra os países mais pobres.
De qualquer maneira, de todos os debates sobre as perspectivas econômicas do mundo este ano, ficou a sensação de que elas continuam positivas, com o crescimento registrado ano passado sendo previsto para continuar. Pela primeira vez em mais de uma década, o Japão está experimentando um crescimento econômico liderado pela demanda privada, não por estímulos fiscais. E mesmo a Europa, que está sempre com os resultados abaixo das grandes regiões ricas do mundo, está tendo uma expectativa de crescimento moderado para o segundo semestre deste ano.
Nos Estados Unidos, apesar dos déficits gêmeos, a grande demanda dos consumidores parece sustentar ma forte expansão da economia. Mas há quem preveja que o governo americano será obrigado a aumentar a taxa de juros de maneira menos gradual, justamente para sustar essa demanda consumista. O que terá conseqüências nas economias dos países emergentes, como o Brasil.
Dois terços da força de trabalho global, estimada em três bilhões de pessoas, vivem em países em desenvolvimento, onde as oportunidades são menores e o crescimento econômico é baixo, enquanto as populações crescem rapidamente. Ao mesmo tempo, nos países ricos, com as taxas de nascimento declinantes, há uma grande necessidade por trabalhadores para tarefas não especializadas. Mas a maioria dos governos, preocupados com as conseqüências políticas, reluta em aprovar leis mais flexíveis que aumentem a imigração legal. Agora mesmo a Espanha está enfrentando forte reação de outros países da Comunidade Européia pela decisão de facilitar a legalização de trabalhadores que já estejam em atividade no país, e que apresentem garantia de contrato de trabalho por pelo menos seis meses.
A discussão que se coloca em todo o mundo industrializado, e que foi debatida em diversos painéis no Fórum Econômico Mundial, em Davos, é que o desequilíbrio entre a oferta de empregos nos países ricos, e a dificuldade de absorção de mão-de-obra não qualificada por esses mesmos países, devido às questões políticas que a imigração levanta, gera uma distorção social crescente e estimula o racismo, além de aumentar a pobreza nos países em desenvolvimento.
A solução para a questão está muito mais em um acordo entre os empregadores e as centrais sindicais do que em tratados internacionais, concordaram todos os debatedores. Na Organização Mundial do Comércio, por exemplo, há uma parte das negociações sobre livre comércio que abrange “a livre movimentação de pessoas”, tema que sempre é deixado fora das conversações por desinteresse dos países desenvolvidos.
Com o advento dos atentados terroristas em nível internacional, esta livre movimentação de pessoas ficará cada vez mais prejudicada, em favor de medidas de segurança. Antes que um acordo internacional desse tipo possa resolver uma questão tão controversa, é preciso superar barreiras culturais políticas e sociais. Na França, por exemplo, a possibilidade de permitir que os trabalhadores façam horas extras além das 35 horas semanais é vista pelos sindicatos como uma maneira de acabar na prática com o que consideram ser os avanços obtidos na legislação trabalhista.
Já o governo diz que a permissão tornará a economia francesa mais competitiva. O primeiro-ministro Jean Pierre Raffarin resume a idéia da nova legislação com a seguinte definição: “É o trabalho que cria o trabalho, é a atividade que cria a atividade”. Ao mesmo tempo, uma ação política contra a União Européia se mistura com os protestos contra a nova legislação. O governo francês teme que o futuro referendo sobre a Europa sofra a influência do descontentamento dos que são contra a alteração na legislação trabalhista.
Nos debates em Davos, representantes dos sindicatos alegaram que a reclamação de países desenvolvidos de que estão sendo invadidos pelos imigrantes não resiste à constatação de que, se os imigrantes fossem todos embora, as economias desses países não resistiriam: “Se os trabalhadores ilegais fossem mandados embora todos ao mesmo tempo, a economia da Califórnia não resistiria”, ressaltou Sharan Burrow, presidente do Conselho de União dos Sindicatos da Austrália. Nesse comentário, há uma crítica implícita à complacência com que os sindicatos que consideram esses temas são tratados pelos governos.
A questão da imigração, embora atualíssima, já está sendo superada pelo avanço tecnológico, ressaltaram alguns especialistas. As grandes corporações estão crescentemente usando tecnologias de comunicação para ligar empregados de vários países sem necessidade de retirá-los de seus países de origem. Índia e China foram exemplos de países que estão se utilizando desses avanços tecnológicos para se encaixar nas maiores empresas internacionais.
Essa política, no entanto, atinge apenas cerca de 10% da força de trabalho mundial, que tem acesso às redes de computadores. Por outro lado, esses mesmos países que se beneficiam da tecnologia também encorajam a migração de trabalhadores porque contam com as remessas de dinheiro que eles enviam para suas famílias do exterior para fortalecer as reservas.
A terceirização de serviços, cada vez mais utilizada pelas corporações internacionais, se por um lado traz empregos para os países mais pobres — que sediam call centers, por exemplo, de empresas americanas ou européias -— provoca desemprego nos países industrializados, o que gera protestos e cria animosidade contra os países mais pobres.
De qualquer maneira, de todos os debates sobre as perspectivas econômicas do mundo este ano, ficou a sensação de que elas continuam positivas, com o crescimento registrado ano passado sendo previsto para continuar. Pela primeira vez em mais de uma década, o Japão está experimentando um crescimento econômico liderado pela demanda privada, não por estímulos fiscais. E mesmo a Europa, que está sempre com os resultados abaixo das grandes regiões ricas do mundo, está tendo uma expectativa de crescimento moderado para o segundo semestre deste ano.
Nos Estados Unidos, apesar dos déficits gêmeos, a grande demanda dos consumidores parece sustentar ma forte expansão da economia. Mas há quem preveja que o governo americano será obrigado a aumentar a taxa de juros de maneira menos gradual, justamente para sustar essa demanda consumista. O que terá conseqüências nas economias dos países emergentes, como o Brasil.
Folha de S.Paulo - 12/02/2005
Folha de S.Paulo - Apartheid global GESNER OLIVEIRA12/02/2005
By ArchIvo
Apartheid global
GESNER OLIVEIRA
A globalização não garantiu uma das liberdades básicas do ser humano: a de ir e vir e a de fixar residência e trabalhar onde bem entender no planeta. A força de trabalho mundial tem cerca de 3 bilhões de trabalhadores. Dois bilhões se encontram em regiões relativamente menos desenvolvidas e percebem salários que não chegam à metade dos rendimentos em países ricos. A despeito de todo o avanço tecnológico e da redução dos custos de transporte, uma grande parcela está proibida de tentar a sorte em países avançados.
É curioso que esse tema não chame mais atenção. Estava presente no discurso sobre o estado da União proferido pelo presidente George W. Bush, mas não ganhou destaque. Atento à sua base de apoio hispânica, Bush prometeu enviar projeto de visto temporário para imigrantes.
A questão do trabalho imigrante não empolga reformistas nem revolucionários. Foi uma questão lateral no Fórum Econômico Mundial de Davos. Foi ignorada no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. A economia política dessa omissão é clara. O populismo de direita instiga a discriminação racial. A esquerda cede demais ao corporativismo sindical.
Nem se a Portela tivesse brilhado a sua luz neste Carnaval a questão do trabalho imigrante teria ganho a avenida. O samba-enredo da escola cantou as oito teses do milênio das Nações Unidas, mas a ONU não teve tempo de incluir a livre movimentação da mão-de-obra. Os trabalhadores ficaram para trás, com a velha guarda da Portela.
Uma inspeção pelos principais livros-texto de economia internacional revela o mesmo descaso pelo assunto. Muitas páginas são dedicadas à livre circulação de mercadorias e serviços e à mobilidade do capital. Pouco se discute sobre a mobilidade do trabalhador.
A economia internacional é uma matéria fascinante. É possível demonstrar matematicamente que a livre circulação das mercadorias iguala não apenas os preços dos produtos mas também a remuneração dos fatores (capital e trabalho) utilizados em sua produção. Mas, entre outros ruídos, as mercadorias não circulam livremente, como aprenderam às duras penas os países em desenvolvimento que não têm acesso aos mercados desenvolvidos.
A proposta de Bush de visto temporário para os imigrantes é tímida. Mas provavelmente melhor do que a que seria feita por Kerry se os democratas tivessem vencido as eleições. No entanto não resolve o problema e está longe da promessa de terra da liberdade e da oportunidade que os Estados Unidos chegaram a representar na virada do século 19 para o século 20.
A política de vistos temporários adotada em vários países europeus atenua o ciclo econômico nos países centrais ao permitir maior ingresso de trabalhadores durante a expansão e estabelecer restrição na fase de desaquecimento da economia. Porém a essa estabilização do mercado de trabalho nos países desenvolvidos corresponde uma desestabilização nos países exportadores de mão-de-obra. Esses últimos sofrem com o excedente de mão-de-obra e a contração do mercado externo em razão do desaquecimento das economias centrais.
A questão dos trabalhadores imigrantes importa mais para o Brasil do que o Haiti, uma posição no Conselho de Segurança da ONU ou um programa genérico contra a fome no mundo patrocinado por celebridades. Segundo o IBGE, há cerca de 1,9 milhão de brasileiros morando em situação legal em 30 países, 42% do total nos EUA. Estima-se que, se forem incluídos os ilegais, o número total poderia facilmente chegar a 2,5 milhões.
A importância econômica desse fenômeno é óbvia. Em uma estimativa conservadora, as remessas de residentes fora do país somam cerca de US$ 3 bilhões, quantia comparável à da receita de exportação com papel e celulose (US$ 2,9 bilhões) ou calçados e couro (US$ 3,3 bilhões). As comunidades brasileiras no exterior representam mercados naturais para serviços de empresas nacionais e constituem plataformas de penetração em novas regiões.
Os trabalhadores que emigram aumentam, ainda que a duras penas, seu capital humano. O inglês preterido nos exames do Itamaraty e mal ensinado nas escolas brasileiras pode ser ativo precioso para muitos jovens carentes de oportunidades no Brasil.
Seria ingênuo imaginar que os Estados nacionais vão simplesmente abrir as fronteiras aos trabalhadores do mundo. Isso nunca aconteceu na história da humanidade, embora a circulação de pessoas fosse mais livre até a Primeira Guerra Mundial. Mas o princípio da livre circulação dos trabalhadores deveria ser fortalecido e sujeito a regulação inteligente. Por exemplo, um mercado de direitos de permanência pode ser desenvolvido e viabilizar programas de capacitação e recolocação de mão-de-obra.
A expansão de blocos como a UE (União Européia) e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) vai acelerar o processo nas próximas décadas. A contínua revolução tecnológica continuará integrando a economia mundial. Dá para acreditar em um mundo sem tantas barreiras. "Quem viver verá", reza o samba da Portela.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:41 AM
Folha de S.Paulo - Plinio de Arruda Sampaio Jr.: RRéquiem ao PT- 12/02/2005
By ArchIvo
Réquiem ao PT
PLINIO DE ARRUDA SAMPAIO JR.
Decididamente , não. Mas o processo de acomodação do PT às exigências da ordem não ocorreu sem fortes embates dentro do partido. Decididos a chegar ao governo a qualquer custo, os atuais dirigentes do partido esmagaram todos os que se colocaram diante de seu caminho. A vitória do pragmatismo desfigurou o partido. As carreiras individuais sobrepuseram-se ao projeto coletivo. A organização do povo, que constituía a essência da vida partidária, foi abandonada, e o PT virou uma simples máquina eleitoral, com todos os vícios da política burguesa.
Essa guinada à direita é ainda mais grave se lembrarmos que o partido foi forjado nas lutas contra a opressão política e a exploração econômica, tornando-se um importante instrumento do povo brasileiro na sua caminhada pela construção de uma sociedade justa e democrática.
Impulsionado por sua aguerrida militância, o PT cresceu e se consolidou como a principal força política do Brasil, tornando-se o grande portador do sentimento anticapitalista que brota das terríveis contradições de uma sociedade em crise permanente. É inaceitável, portanto, que no seu governo não haja o menor vestígio de transformação social.
Seguindo à risca as recomendações do FMI, o governo Lula aprofundou o neoliberalismo, transformando o Brasil num paraíso dos grandes negócios. Sob a consigna "tudo pelo capital, tudo para o capital", aos endinheirados o governo oferece vantagens tangíveis: megasuperávits primários, populismo cambial, juros estratosféricos, arrocho salarial, reforma da Previdência, gigantescos saldos comerciais, Lei de Falências, independência do Banco Central, Prouni, Parceria Público-Privada, liberdade para os transgênicos, cumplicidade com os "contratos espúrios" que sangram o erário e espoliam a população, opção preferencial pelo agrobusiness, reforma trabalhista.
Convertido à filosofia do Banco Mundial, o governo do PT abandonou toda veleidade de combater as desigualdades e eliminar a pobreza. Aderindo à lógica das políticas compensatórias, que atuam sobre os efeitos dos problemas sociais e não sobre as suas causas, contenta-se em minorar, dentro das limitadas possibilidades orçamentárias, o sofrimento do povo. Sob a palavra de ordem "tenham paciência e confiem em mim", aos descamisados Lula faz promessas vãs. Sem qualquer fundamento, ressuscita o "mito do crescimento" -há muito desmascarado por Celso Furtado e Florestan Fernandes. Com uma mão, retira direitos sociais, e, com a outra, distribui fortuitamente as migalhas da arrecadação fiscal, anunciando um punhado de programas sociais esquálidos, mal definidos e desarticulados (Bolsa Família, Fome Zero, Programa de Crédito Fundiário (ex-Banco da Terra), Prouni, Farmácia Popular, etc).
A política externa, apresentada como a frente mais ousada da administração petista, mal dissimula sua subserviência aos cânones da ordem global. Nos fóruns internacionais, Lula faz bravata e cobra coerência neoliberal aos países ricos. Nos bastidores da diplomacia, em troca de um eventual assento no Conselho de Segurança da ONU, negocia o envio de tropas ao Haiti para cumprir o triste papel de gendarme do intervencionismo norte-americano.
A chegada de Lula ao Planalto iniciou o último ato do desmonte. Em nome de uma suposta "razão petista de Estado", começou um vale-tudo: alianças políticas espúrias, massificação das filiações, acordos eleitorais com oligarquias retrógradas e corruptas, campanhas eleitorais milionárias, atropelos ao estatuto do partido, censura e expurgos de parlamentares, cooptação e intimidação dos militantes, absoluta subordinação do partido aos interesses do Planalto. Enfim, o PT completa seus 25 anos vivendo uma grave crise de degeneração política e moral.
A ruptura com a tradição de luta em defesa dos trabalhadores obrigou a direção a sufocar o debate democrático. É inútil continuar lutando nas instâncias do partido. O PT é irrecuperável. O tempo do PT acabou, mas o das transformações sociais não. A retomada das lutas populares é mais necessária do que nunca, pois, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nada foi feito para enfrentar os problemas responsáveis pelas mazelas do povo. Na realidade, o Brasil entra na terceira década de estagnação econômica e grave crise social.
Estar livre das amarras do PT é condição necessária para combater o ilusionismo lulista e derrotar a ofensiva neoliberal que acelera o processo de reversão neocolonial e faz avançar a barbárie. Estar fora do PT é condição necessária para começarmos, em franco debate com todas as forças comprometidas com a mudança social, a árdua tarefa de reorganizar a esquerda brasileira.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:39 AM
Folha de S.Paulo -MARTA SALOMON: No prelo, o silêncio - 12/02/2005
By ArchIvo
MARTA SALOMON
No prelo, o silêncio
BRASÍLIA - Os adversários da proposta de autonomia do Banco Central já comemoram reservadamente uma vitória simbólica.
A mensagem que o presidente Lula encaminha ao Congresso na terça-feira não trará uma única palavra sobre a idéia de blindar mexidas nas taxas de juros de ingerências políticas, defendida com certa veemência pelo ministro Antonio Palocci Filho.
A mensagem estava a caminho da gráfica ontem. É uma formalidade que marca o início de cada ano de trabalho legislativo. No documento, o presidente faz um balanço do ano anterior e anuncia planos para o período de votações que se inicia.
Seria o lugar ideal para Lula manifestar compromisso com a proposta. Se houvesse tal compromisso.
Em dezembro, a Fazenda fez o movimento mais contundente em dois anos em favor da autonomia do BC. Com outras palavras, documento do ministério escreveu que a queda dos juros dependeria de uma maior liberdade para diretores do banco, sem risco de demissão, lidarem com a política monetária. O texto chamava isso de "segurança institucional".
Três meses antes, era um aperto maior nas contas públicas que garantiria a queda dos juros, segundo a equipe econômica. O governo cortou mais gastos. Mas, desde então, as taxas não pararam de subir, apesar da contrariedade do presidente.
Não fazia muito tempo, também a pedido da Fazenda, Lula vetara artigo aprovado pelo Congresso que exigia uma estimativa prévia na lei orçamentária do custo para os cofres públicos do combate à inflação. Dizia que tornar explícitas expectativas futuras de taxas de juros poderia abalar a estabilidade econômica.
A autonomia do Banco Central já existente na prática e a falta de transparência que cerca decisões sobre juros poderiam ajudar a entender o silêncio da mensagem de Lula. Se não bastasse a percepção pelo governo de que seriam enormes as chances de a proposta defendida por Palocci se transformar num embate desnecessário. Venceu o pragmatismo.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:38 AM
Folha de S.Paulo - CLÓVIS ROSSI: Interesse nacional, lembra-se? - 12/02/2005
By ArchIvo
CLÓVIS ROSSI
Interesse nacional, lembra-se?
SÃO PAULO - Veja, caro leitor, que notícia curiosa saiu ontem nos "on line" internacionais da vida: a Rússia vai limitar a participação de companhias estrangeiras nas licitações para a exploração de recursos naturais (petróleo e minerais).
Só companhias com ao menos 51% do capital em mãos russas estarão autorizadas, no que é "a mais explícita e abrangente manifestação de uma política nacionalista sob a presidência de Vladimir Putin", segundo o britânico "Financial Times".
Como você pode estar distraído e, ao ler Rússia, pode pensar em União Soviética, em comunismo (oh, horror), um brevíssimo ajuda-memória: não, a Rússia não é mais comunista; a Rússia fez marcha batida para o capitalismo, o mais desbragado, a ponto de gerar novos ricos em quantidade suficiente para pôr dinheiro até no Corinthians Paulista (novo rico tem, em geral, péssimo gosto).
Não se trata, pois, de uma recaída nem há notícias de uma marcha de agradecimento ao túmulo de Lênin. A Folha fez um esforço de reportagem mas foi incapaz de apurar se o ministro de Recursos Naturais (repartição responsável pela decisão) se chama Karl Lessa.
A coisa, no fundo, é bem mais simples: segundo fonte do ministério, citada pelo "FT", trata-se tão simplesmente de "defender os interesses nacionais". Sei que essa expressão não se usa mais no Brasil, mas continua existindo algures.
Ah, a propósito: a Rússia é também aquele mesmíssimo país que foi à moratória, há quase seis anos, para horror dos que acham que moratória é pecado mortal que condena os que o praticam ao inferno para todo o sempre.
Bom, hoje, a Rússia, a mesmíssima Rússia da moratória e da "defesa do interesse nacional", é "investment grade", a melhor cotação para pôr dinheiro no país. Enquanto isso, em certo país tropical...
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:37 AM
Folha de S.Paulo - Editoriais: 12/02/2005
By ArchIvo
BANCOS E FALÊNCIA Durante quase 12 anos , o projeto de uma nova Lei de Falências tramitou no Legislativo, e a demora em aprová-lo foi com freqüência apontada por porta-vozes do setor financeiro como um exemplo de insegurança jurídica a contribuir para as altas taxas que os bancos cobram nos empréstimos.
A legislação anterior deixava em segundo plano o pagamento dos créditos bancários, privilegiando a liquidação de obrigações trabalhistas e tributárias. Sendo assim, argumentavam os bancos, os riscos embutidos nos financiamentos eram maiores do que o desejável, o que explicaria o alto custo do crédito. Sancionada nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei de Falências, que agora entra em vigor, altera substancialmente essa situação. As novas regras, exaustivamente debatidas no Legislativo, mantiveram os trabalhadores no topo da lista, embora submetidos a um discutível limite de 150 salários mínimos por empregado, e colocaram os pagamentos aos credores à frente daqueles destinados ao poder público.
O maior beneficiado, sem nenhuma dúvida, é o sistema bancário, que passa a ter condições bem mais favoráveis para receber os bens que as empresas em falência ofereceram como garantia para os créditos.
Embora, como não poderia deixar de ser, representantes do setor tenham aplaudido a lei, um outro argumento passou a ser utilizado para justificar o adiamento das esperadas reduções das taxas: será preciso, antes, "testar" a efetividade da nova legislação. Ora, tais "testes", obviamente, demandam tempo -e não se sabe ao certo quando a prova prática de que a situação se tornou mais favorável será, por fim, reconhecida.
Tergiversações como essa ilustram uma realidade que não passa despercebida nem mesmo ao Fundo Monetário Internacional, que há poucos dias divulgou um relatório no qual pergunta: "Os bancos brasileiros competem?". E o texto responde: "A concentração e as altas margens sugerem a possibilidade de que forças não-competitivas estejam em vigor".
CURSOS PAGOS Um caso ocorrido em São José do Rio Preto (SP) pode marcar a entrada da Procuradoria Geral de Justiça de São Paulo na polêmica acerca das fundações de direito privado que oferecem cursos pagos nas faculdades públicas paulistas.
Em janeiro, o Conselho Estadual de Educação (CEE) examinou pedidos encaminhados pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) -ligada à Secretaria de Ciência e Tecnologia- para a criação de dois cursos pagos de especialização para profissionais da área da saúde. O conselheiro Eduardo Martines Júnior pediu mais informações à faculdade por considerar a cobrança imprópria. Foi informado de que os cursos se realizariam em parceria com a Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão de Serviços à Comunidade (Faepe) -entidade sem fins lucrativos e com autonomia administrativa e financeira-, mas os certificados de conclusão seriam expedidos pela Famerp. Martines entrou com uma representação legal contra a faculdade, que serve agora de base a um pedido de investigação feito pela Procuradoria.
De modo geral, defensores das fundações argumentam que essas entidades seriam boas fontes de recursos para as universidades públicas. Muitos alunos e professores consideram, contudo, a maioria das fundações mero instrumento para a realização de negócios privados que se utilizam da estrutura e do prestígio de instituições públicas sem oferecer contrapartidas.
É de esperar que a intervenção da Procuradoria lance alguma luz sobre o funcionamento dessas instituições e esclareça o destino do dinheiro gerado em suas atividades.
É preciso, todavia, considerar a possibilidade de gerar recursos para o ensino público universitário por meio de entes como as fundações -e também de outros mecanismos, como a própria remuneração pelos estudantes que têm condições de fazê-lo. Negar-se de antemão a discutir esses temas, como fazem alguns setores do meio acadêmico, é manter a universidade numa torre de marfim.
HORA DA VERDADE Mahmoud Abbas , o presidente da Autoridade Nacional Palestina, demitiu na quinta-feira nove policiais responsáveis pela segurança interna na faixa de Gaza. Eles foram responsabilizados por não terem impedido que o grupo terrorista islâmico Hamas praticasse um novo atentado contra colonos judeus naquele território.
Essa demonstração de autoridade, embora auspiciosa, traz em si um sinal de fraqueza. A ANP, que tem como objetivo prioritário a criação de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, ainda parece distante de assegurar aquilo que é próprio a qualquer governo instituído: o monopólio da violência.
Abbas sabe ser inútil tentar convencer Israel de que representa a totalidade dos palestinos enquanto, ao lado de suas forças de segurança, milícias armadas continuarem a agir com estratégias próprias, por vezes patrocinadas por outros países árabes, como a Síria, e sobretudo avessas a negociações diplomáticas. São grupos que até hoje não abandonaram a inaceitável e anacrônica bandeira da destruição de Israel.
Entre os israelenses também existem setores radicais que negam aos palestinos o direito de organizar seu próprio país. São grupos que fomentam o confronto, mas se limitam à atuação política. Não comandam ações militares e não constituem um poder paralelo.
Abbas tem diante de si uma tarefa árdua. Agrupamentos extremistas como o Hamas ou o Jihad Islâmico conquistaram uma certa popularidade por se vincularem a lideranças religiosas e por atuarem como entidades assistencialistas. Além disso, ganharam prestígio ao assumirem posições moralistas contra a corrupção da ANP nos tempos de Iasser Arafat.
É de todo modo imperativo que esses grupos sejam desarmados. Só assim o presidente palestino poderia credenciar-se integralmente como interlocutor regional e conferir à sua liderança o lastro necessário para uma solução definitiva de paz.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:36 AM
By ArchIvo
Apartheid global
GESNER OLIVEIRA
A globalização não garantiu uma das liberdades básicas do ser humano: a de ir e vir e a de fixar residência e trabalhar onde bem entender no planeta. A força de trabalho mundial tem cerca de 3 bilhões de trabalhadores. Dois bilhões se encontram em regiões relativamente menos desenvolvidas e percebem salários que não chegam à metade dos rendimentos em países ricos. A despeito de todo o avanço tecnológico e da redução dos custos de transporte, uma grande parcela está proibida de tentar a sorte em países avançados.
É curioso que esse tema não chame mais atenção. Estava presente no discurso sobre o estado da União proferido pelo presidente George W. Bush, mas não ganhou destaque. Atento à sua base de apoio hispânica, Bush prometeu enviar projeto de visto temporário para imigrantes.
A questão do trabalho imigrante não empolga reformistas nem revolucionários. Foi uma questão lateral no Fórum Econômico Mundial de Davos. Foi ignorada no Fórum Social Mundial de Porto Alegre. A economia política dessa omissão é clara. O populismo de direita instiga a discriminação racial. A esquerda cede demais ao corporativismo sindical.
Nem se a Portela tivesse brilhado a sua luz neste Carnaval a questão do trabalho imigrante teria ganho a avenida. O samba-enredo da escola cantou as oito teses do milênio das Nações Unidas, mas a ONU não teve tempo de incluir a livre movimentação da mão-de-obra. Os trabalhadores ficaram para trás, com a velha guarda da Portela.
Uma inspeção pelos principais livros-texto de economia internacional revela o mesmo descaso pelo assunto. Muitas páginas são dedicadas à livre circulação de mercadorias e serviços e à mobilidade do capital. Pouco se discute sobre a mobilidade do trabalhador.
A economia internacional é uma matéria fascinante. É possível demonstrar matematicamente que a livre circulação das mercadorias iguala não apenas os preços dos produtos mas também a remuneração dos fatores (capital e trabalho) utilizados em sua produção. Mas, entre outros ruídos, as mercadorias não circulam livremente, como aprenderam às duras penas os países em desenvolvimento que não têm acesso aos mercados desenvolvidos.
A proposta de Bush de visto temporário para os imigrantes é tímida. Mas provavelmente melhor do que a que seria feita por Kerry se os democratas tivessem vencido as eleições. No entanto não resolve o problema e está longe da promessa de terra da liberdade e da oportunidade que os Estados Unidos chegaram a representar na virada do século 19 para o século 20.
A política de vistos temporários adotada em vários países europeus atenua o ciclo econômico nos países centrais ao permitir maior ingresso de trabalhadores durante a expansão e estabelecer restrição na fase de desaquecimento da economia. Porém a essa estabilização do mercado de trabalho nos países desenvolvidos corresponde uma desestabilização nos países exportadores de mão-de-obra. Esses últimos sofrem com o excedente de mão-de-obra e a contração do mercado externo em razão do desaquecimento das economias centrais.
A questão dos trabalhadores imigrantes importa mais para o Brasil do que o Haiti, uma posição no Conselho de Segurança da ONU ou um programa genérico contra a fome no mundo patrocinado por celebridades. Segundo o IBGE, há cerca de 1,9 milhão de brasileiros morando em situação legal em 30 países, 42% do total nos EUA. Estima-se que, se forem incluídos os ilegais, o número total poderia facilmente chegar a 2,5 milhões.
A importância econômica desse fenômeno é óbvia. Em uma estimativa conservadora, as remessas de residentes fora do país somam cerca de US$ 3 bilhões, quantia comparável à da receita de exportação com papel e celulose (US$ 2,9 bilhões) ou calçados e couro (US$ 3,3 bilhões). As comunidades brasileiras no exterior representam mercados naturais para serviços de empresas nacionais e constituem plataformas de penetração em novas regiões.
Os trabalhadores que emigram aumentam, ainda que a duras penas, seu capital humano. O inglês preterido nos exames do Itamaraty e mal ensinado nas escolas brasileiras pode ser ativo precioso para muitos jovens carentes de oportunidades no Brasil.
Seria ingênuo imaginar que os Estados nacionais vão simplesmente abrir as fronteiras aos trabalhadores do mundo. Isso nunca aconteceu na história da humanidade, embora a circulação de pessoas fosse mais livre até a Primeira Guerra Mundial. Mas o princípio da livre circulação dos trabalhadores deveria ser fortalecido e sujeito a regulação inteligente. Por exemplo, um mercado de direitos de permanência pode ser desenvolvido e viabilizar programas de capacitação e recolocação de mão-de-obra.
A expansão de blocos como a UE (União Européia) e a Alca (Área de Livre Comércio das Américas) vai acelerar o processo nas próximas décadas. A contínua revolução tecnológica continuará integrando a economia mundial. Dá para acreditar em um mundo sem tantas barreiras. "Quem viver verá", reza o samba da Portela.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:41 AM
Folha de S.Paulo - Plinio de Arruda Sampaio Jr.: RRéquiem ao PT- 12/02/2005
By ArchIvo
Réquiem ao PT
PLINIO DE ARRUDA SAMPAIO JR.
Decididamente , não. Mas o processo de acomodação do PT às exigências da ordem não ocorreu sem fortes embates dentro do partido. Decididos a chegar ao governo a qualquer custo, os atuais dirigentes do partido esmagaram todos os que se colocaram diante de seu caminho. A vitória do pragmatismo desfigurou o partido. As carreiras individuais sobrepuseram-se ao projeto coletivo. A organização do povo, que constituía a essência da vida partidária, foi abandonada, e o PT virou uma simples máquina eleitoral, com todos os vícios da política burguesa.
Essa guinada à direita é ainda mais grave se lembrarmos que o partido foi forjado nas lutas contra a opressão política e a exploração econômica, tornando-se um importante instrumento do povo brasileiro na sua caminhada pela construção de uma sociedade justa e democrática.
Impulsionado por sua aguerrida militância, o PT cresceu e se consolidou como a principal força política do Brasil, tornando-se o grande portador do sentimento anticapitalista que brota das terríveis contradições de uma sociedade em crise permanente. É inaceitável, portanto, que no seu governo não haja o menor vestígio de transformação social.
Seguindo à risca as recomendações do FMI, o governo Lula aprofundou o neoliberalismo, transformando o Brasil num paraíso dos grandes negócios. Sob a consigna "tudo pelo capital, tudo para o capital", aos endinheirados o governo oferece vantagens tangíveis: megasuperávits primários, populismo cambial, juros estratosféricos, arrocho salarial, reforma da Previdência, gigantescos saldos comerciais, Lei de Falências, independência do Banco Central, Prouni, Parceria Público-Privada, liberdade para os transgênicos, cumplicidade com os "contratos espúrios" que sangram o erário e espoliam a população, opção preferencial pelo agrobusiness, reforma trabalhista.
Convertido à filosofia do Banco Mundial, o governo do PT abandonou toda veleidade de combater as desigualdades e eliminar a pobreza. Aderindo à lógica das políticas compensatórias, que atuam sobre os efeitos dos problemas sociais e não sobre as suas causas, contenta-se em minorar, dentro das limitadas possibilidades orçamentárias, o sofrimento do povo. Sob a palavra de ordem "tenham paciência e confiem em mim", aos descamisados Lula faz promessas vãs. Sem qualquer fundamento, ressuscita o "mito do crescimento" -há muito desmascarado por Celso Furtado e Florestan Fernandes. Com uma mão, retira direitos sociais, e, com a outra, distribui fortuitamente as migalhas da arrecadação fiscal, anunciando um punhado de programas sociais esquálidos, mal definidos e desarticulados (Bolsa Família, Fome Zero, Programa de Crédito Fundiário (ex-Banco da Terra), Prouni, Farmácia Popular, etc).
A política externa, apresentada como a frente mais ousada da administração petista, mal dissimula sua subserviência aos cânones da ordem global. Nos fóruns internacionais, Lula faz bravata e cobra coerência neoliberal aos países ricos. Nos bastidores da diplomacia, em troca de um eventual assento no Conselho de Segurança da ONU, negocia o envio de tropas ao Haiti para cumprir o triste papel de gendarme do intervencionismo norte-americano.
A chegada de Lula ao Planalto iniciou o último ato do desmonte. Em nome de uma suposta "razão petista de Estado", começou um vale-tudo: alianças políticas espúrias, massificação das filiações, acordos eleitorais com oligarquias retrógradas e corruptas, campanhas eleitorais milionárias, atropelos ao estatuto do partido, censura e expurgos de parlamentares, cooptação e intimidação dos militantes, absoluta subordinação do partido aos interesses do Planalto. Enfim, o PT completa seus 25 anos vivendo uma grave crise de degeneração política e moral.
A ruptura com a tradição de luta em defesa dos trabalhadores obrigou a direção a sufocar o debate democrático. É inútil continuar lutando nas instâncias do partido. O PT é irrecuperável. O tempo do PT acabou, mas o das transformações sociais não. A retomada das lutas populares é mais necessária do que nunca, pois, ao contrário do que diz a propaganda oficial, nada foi feito para enfrentar os problemas responsáveis pelas mazelas do povo. Na realidade, o Brasil entra na terceira década de estagnação econômica e grave crise social.
Estar livre das amarras do PT é condição necessária para combater o ilusionismo lulista e derrotar a ofensiva neoliberal que acelera o processo de reversão neocolonial e faz avançar a barbárie. Estar fora do PT é condição necessária para começarmos, em franco debate com todas as forças comprometidas com a mudança social, a árdua tarefa de reorganizar a esquerda brasileira.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:39 AM
Folha de S.Paulo -MARTA SALOMON: No prelo, o silêncio - 12/02/2005
By ArchIvo
MARTA SALOMON
No prelo, o silêncio
BRASÍLIA - Os adversários da proposta de autonomia do Banco Central já comemoram reservadamente uma vitória simbólica.
A mensagem que o presidente Lula encaminha ao Congresso na terça-feira não trará uma única palavra sobre a idéia de blindar mexidas nas taxas de juros de ingerências políticas, defendida com certa veemência pelo ministro Antonio Palocci Filho.
A mensagem estava a caminho da gráfica ontem. É uma formalidade que marca o início de cada ano de trabalho legislativo. No documento, o presidente faz um balanço do ano anterior e anuncia planos para o período de votações que se inicia.
Seria o lugar ideal para Lula manifestar compromisso com a proposta. Se houvesse tal compromisso.
Em dezembro, a Fazenda fez o movimento mais contundente em dois anos em favor da autonomia do BC. Com outras palavras, documento do ministério escreveu que a queda dos juros dependeria de uma maior liberdade para diretores do banco, sem risco de demissão, lidarem com a política monetária. O texto chamava isso de "segurança institucional".
Três meses antes, era um aperto maior nas contas públicas que garantiria a queda dos juros, segundo a equipe econômica. O governo cortou mais gastos. Mas, desde então, as taxas não pararam de subir, apesar da contrariedade do presidente.
Não fazia muito tempo, também a pedido da Fazenda, Lula vetara artigo aprovado pelo Congresso que exigia uma estimativa prévia na lei orçamentária do custo para os cofres públicos do combate à inflação. Dizia que tornar explícitas expectativas futuras de taxas de juros poderia abalar a estabilidade econômica.
A autonomia do Banco Central já existente na prática e a falta de transparência que cerca decisões sobre juros poderiam ajudar a entender o silêncio da mensagem de Lula. Se não bastasse a percepção pelo governo de que seriam enormes as chances de a proposta defendida por Palocci se transformar num embate desnecessário. Venceu o pragmatismo.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:38 AM
Folha de S.Paulo - CLÓVIS ROSSI: Interesse nacional, lembra-se? - 12/02/2005
By ArchIvo
CLÓVIS ROSSI
Interesse nacional, lembra-se?
SÃO PAULO - Veja, caro leitor, que notícia curiosa saiu ontem nos "on line" internacionais da vida: a Rússia vai limitar a participação de companhias estrangeiras nas licitações para a exploração de recursos naturais (petróleo e minerais).
Só companhias com ao menos 51% do capital em mãos russas estarão autorizadas, no que é "a mais explícita e abrangente manifestação de uma política nacionalista sob a presidência de Vladimir Putin", segundo o britânico "Financial Times".
Como você pode estar distraído e, ao ler Rússia, pode pensar em União Soviética, em comunismo (oh, horror), um brevíssimo ajuda-memória: não, a Rússia não é mais comunista; a Rússia fez marcha batida para o capitalismo, o mais desbragado, a ponto de gerar novos ricos em quantidade suficiente para pôr dinheiro até no Corinthians Paulista (novo rico tem, em geral, péssimo gosto).
Não se trata, pois, de uma recaída nem há notícias de uma marcha de agradecimento ao túmulo de Lênin. A Folha fez um esforço de reportagem mas foi incapaz de apurar se o ministro de Recursos Naturais (repartição responsável pela decisão) se chama Karl Lessa.
A coisa, no fundo, é bem mais simples: segundo fonte do ministério, citada pelo "FT", trata-se tão simplesmente de "defender os interesses nacionais". Sei que essa expressão não se usa mais no Brasil, mas continua existindo algures.
Ah, a propósito: a Rússia é também aquele mesmíssimo país que foi à moratória, há quase seis anos, para horror dos que acham que moratória é pecado mortal que condena os que o praticam ao inferno para todo o sempre.
Bom, hoje, a Rússia, a mesmíssima Rússia da moratória e da "defesa do interesse nacional", é "investment grade", a melhor cotação para pôr dinheiro no país. Enquanto isso, em certo país tropical...
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:37 AM
Folha de S.Paulo - Editoriais: 12/02/2005
By ArchIvo
BANCOS E FALÊNCIA Durante quase 12 anos , o projeto de uma nova Lei de Falências tramitou no Legislativo, e a demora em aprová-lo foi com freqüência apontada por porta-vozes do setor financeiro como um exemplo de insegurança jurídica a contribuir para as altas taxas que os bancos cobram nos empréstimos.
A legislação anterior deixava em segundo plano o pagamento dos créditos bancários, privilegiando a liquidação de obrigações trabalhistas e tributárias. Sendo assim, argumentavam os bancos, os riscos embutidos nos financiamentos eram maiores do que o desejável, o que explicaria o alto custo do crédito. Sancionada nesta semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Lei de Falências, que agora entra em vigor, altera substancialmente essa situação. As novas regras, exaustivamente debatidas no Legislativo, mantiveram os trabalhadores no topo da lista, embora submetidos a um discutível limite de 150 salários mínimos por empregado, e colocaram os pagamentos aos credores à frente daqueles destinados ao poder público.
O maior beneficiado, sem nenhuma dúvida, é o sistema bancário, que passa a ter condições bem mais favoráveis para receber os bens que as empresas em falência ofereceram como garantia para os créditos.
Embora, como não poderia deixar de ser, representantes do setor tenham aplaudido a lei, um outro argumento passou a ser utilizado para justificar o adiamento das esperadas reduções das taxas: será preciso, antes, "testar" a efetividade da nova legislação. Ora, tais "testes", obviamente, demandam tempo -e não se sabe ao certo quando a prova prática de que a situação se tornou mais favorável será, por fim, reconhecida.
Tergiversações como essa ilustram uma realidade que não passa despercebida nem mesmo ao Fundo Monetário Internacional, que há poucos dias divulgou um relatório no qual pergunta: "Os bancos brasileiros competem?". E o texto responde: "A concentração e as altas margens sugerem a possibilidade de que forças não-competitivas estejam em vigor".
CURSOS PAGOS Um caso ocorrido em São José do Rio Preto (SP) pode marcar a entrada da Procuradoria Geral de Justiça de São Paulo na polêmica acerca das fundações de direito privado que oferecem cursos pagos nas faculdades públicas paulistas.
Em janeiro, o Conselho Estadual de Educação (CEE) examinou pedidos encaminhados pela Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) -ligada à Secretaria de Ciência e Tecnologia- para a criação de dois cursos pagos de especialização para profissionais da área da saúde. O conselheiro Eduardo Martines Júnior pediu mais informações à faculdade por considerar a cobrança imprópria. Foi informado de que os cursos se realizariam em parceria com a Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão de Serviços à Comunidade (Faepe) -entidade sem fins lucrativos e com autonomia administrativa e financeira-, mas os certificados de conclusão seriam expedidos pela Famerp. Martines entrou com uma representação legal contra a faculdade, que serve agora de base a um pedido de investigação feito pela Procuradoria.
De modo geral, defensores das fundações argumentam que essas entidades seriam boas fontes de recursos para as universidades públicas. Muitos alunos e professores consideram, contudo, a maioria das fundações mero instrumento para a realização de negócios privados que se utilizam da estrutura e do prestígio de instituições públicas sem oferecer contrapartidas.
É de esperar que a intervenção da Procuradoria lance alguma luz sobre o funcionamento dessas instituições e esclareça o destino do dinheiro gerado em suas atividades.
É preciso, todavia, considerar a possibilidade de gerar recursos para o ensino público universitário por meio de entes como as fundações -e também de outros mecanismos, como a própria remuneração pelos estudantes que têm condições de fazê-lo. Negar-se de antemão a discutir esses temas, como fazem alguns setores do meio acadêmico, é manter a universidade numa torre de marfim.
HORA DA VERDADE Mahmoud Abbas , o presidente da Autoridade Nacional Palestina, demitiu na quinta-feira nove policiais responsáveis pela segurança interna na faixa de Gaza. Eles foram responsabilizados por não terem impedido que o grupo terrorista islâmico Hamas praticasse um novo atentado contra colonos judeus naquele território.
Essa demonstração de autoridade, embora auspiciosa, traz em si um sinal de fraqueza. A ANP, que tem como objetivo prioritário a criação de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, ainda parece distante de assegurar aquilo que é próprio a qualquer governo instituído: o monopólio da violência.
Abbas sabe ser inútil tentar convencer Israel de que representa a totalidade dos palestinos enquanto, ao lado de suas forças de segurança, milícias armadas continuarem a agir com estratégias próprias, por vezes patrocinadas por outros países árabes, como a Síria, e sobretudo avessas a negociações diplomáticas. São grupos que até hoje não abandonaram a inaceitável e anacrônica bandeira da destruição de Israel.
Entre os israelenses também existem setores radicais que negam aos palestinos o direito de organizar seu próprio país. São grupos que fomentam o confronto, mas se limitam à atuação política. Não comandam ações militares e não constituem um poder paralelo.
Abbas tem diante de si uma tarefa árdua. Agrupamentos extremistas como o Hamas ou o Jihad Islâmico conquistaram uma certa popularidade por se vincularem a lideranças religiosas e por atuarem como entidades assistencialistas. Além disso, ganharam prestígio ao assumirem posições moralistas contra a corrupção da ANP nos tempos de Iasser Arafat.
É de todo modo imperativo que esses grupos sejam desarmados. Só assim o presidente palestino poderia credenciar-se integralmente como interlocutor regional e conferir à sua liderança o lastro necessário para uma solução definitiva de paz.
* Publicadoem: Sat, Feb 12 2005 3:36 AM
o Dia Um homem de visão Dora Kramer
O presidente do PT, José Genoino, freqüentou o noticiário dos jornais de ontem – aniversário de 25 anos do partido – pondo e dispondo a respeito da crise de identidade petista, pregando novas teses, segundo ele, necessárias à adaptação aos novos tempos.
Defendeu ritos mais sumários para punições de rebeldes, recomendou redução no exercício do pragmatismo explícito, teceu loas à militância, apontou excessos no uso do marketing, pronunciou-se a favor da busca do equilíbrio entre convicção e responsabilidade, falou até dizer chega.
Não obstante a abundância de assunto, Genoino não sustentou idéias conclusivas, deixando a impressão de que o dilema do partido no poder virou uma obra em aberto.
Muito mais precisão e clareza de raciocínio a respeito do tema o mesmo José Genoino exibia um mês após a eleição de Luiz Inácio da Silva, em novembro de 2002, pouco antes de assumir o lugar de José Dirceu na presidência do partido.
Na época, ele tinha uma convicção inabalável: o partido precisava fazer, antes da posse de Lula, uma adaptação aos novos tempos que viriam; na visão de Genoino, era uma providência indispensável para o sucesso da conversa que então estava prestes a se iniciar.
“É preciso que funções e concepções de partido e Governo fiquem bastante nítidas e compreendidas. Sem isso vamos nos atrapalhar”, dizia ele, numa perfeita antecipação do cenário de dois anos e meio depois.
O receio do então deputado federal era o PT vir a ter o mesmo destino “de outras legendas populares que, uma vez no poder, terminaram estatizadas, sem identidade nem autonomia”.
Na ocasião, Genoino citou alguns exemplos de partidos europeus, mas fixou o resumo de sua tese em dois exemplos caseiros: o PTB e o PMDB.
“O PTB surgiu como um partido de massas, mas foi engolido pelo getulismo; o PMDB virou Governo na Nova República e perdeu toda a afirmação partidária”.
Pausa para registro do esforço do PT/Governo em servir-se dos espólios das referidas legendas e do tratamento de mercadorias que hoje confere a elas. Com a anuência da totalidade dos petebistas e de parte dos pemedebistas.
Em novembro de 2002, ao apontar os erros em que o PT não poderia incorrer, Genoino afirmava em relação ao PTB e ao PMDB: “Nenhum dos dois preservou seus valores e acabaram ambos sucumbindo às conveniências do Estado, que são muito mais amplas que as circunstâncias partidárias. Daí a complexidade da questão”.
Tão complexa que o PT está em vias de sucumbir a ela.
Quando Genoino fazia a defesa da preservação ao autonomia, alertava também para o imperativo de a independência não se tornar sinônimo de oposição.
“Andaremos num fio de navalha: o partido precisa defender o Estado, mas não deve ter presença preponderante na máquina do estatal. A última coisa em que o PT pode se transformar é em administrador de cargos, perderia toda sua função de educação política”.
E prosseguia em diatribe contra o dirigente partidário com figurino de burocrata de aparelho – “isso é coisa de ditadura de esquerda, onde o partido dirige tudo, já que ele mesmo representa o Estado”.
Se o leitor reconhecesse aqui o modelo ensaiado – depois parcialmente revisado, mas nunca corrigido – da concentração de todo o poder político e administrativo na figura do generalíssimo José Dirceu, não estaria errando.
O mais impactante, por incongruente, na releitura da análise da crise anunciada feita por José Genoino em 2002, é a veemência na sustentação da tese da “rebeldia cívica”.
Dois meses antes do início do novo Governo, o então futuro presidente do PT dizia que o partido não poderia “sequer cogitar” a possibilidade de abrir mão de seu atrevimento, de sua “rebeldia cívica”.
Para isso, para não tentar tornar o PT domesticável, Genoino considerava indispensável que os dirigentes mantivessem prudente equidistância do Governo.
“Vai ser preciso transitar por uma linha fina”, dizia, “a fim de evitar que amanhã, por qualquer descontentamento, a maioria decida se transferir para a oposição”.
E aqui Genoino chegava exatamente ao ponto em que se encontra hoje o PT: pregando mudanças para conter os descontentamentos, recuperar apoios, firmar identidade, reencontrar ao menos um discurso.
Reincidência
Explicação da superintendente do Incra em Pernambuco, Maria Oliveira, para o assassinato de um policial no assentamento do MST em Bananeiras: “Trata-se de um crime comum que ocorreu dentro de um assentamento”.
Trata-se, pois, do segundo “crime comum” ocorrido “dentro de um assentamento” num período de um ano de cinco meses.
Em agosto de 2003, o repórter fotográfico Luiz Antonio da Costa, da revista Época, foi assassinado enquanto fazia a cobertura da invasão de um terreno da Volkswagen por cinco mil sem-terra, em São Bernardo do Campo.
Lá, como cá, os criminosos refugiaram-se dentro dos acampamentos e obtiveram proteção, o que se configura, no mínimo, reincidência merecedora de atenção por parte do poder público. Mais não seja, para conferir a fim de não virem as autoridades a delinqüir por co-autoria decorrida da prática da leniência continuada.
Defendeu ritos mais sumários para punições de rebeldes, recomendou redução no exercício do pragmatismo explícito, teceu loas à militância, apontou excessos no uso do marketing, pronunciou-se a favor da busca do equilíbrio entre convicção e responsabilidade, falou até dizer chega.
Não obstante a abundância de assunto, Genoino não sustentou idéias conclusivas, deixando a impressão de que o dilema do partido no poder virou uma obra em aberto.
Muito mais precisão e clareza de raciocínio a respeito do tema o mesmo José Genoino exibia um mês após a eleição de Luiz Inácio da Silva, em novembro de 2002, pouco antes de assumir o lugar de José Dirceu na presidência do partido.
Na época, ele tinha uma convicção inabalável: o partido precisava fazer, antes da posse de Lula, uma adaptação aos novos tempos que viriam; na visão de Genoino, era uma providência indispensável para o sucesso da conversa que então estava prestes a se iniciar.
“É preciso que funções e concepções de partido e Governo fiquem bastante nítidas e compreendidas. Sem isso vamos nos atrapalhar”, dizia ele, numa perfeita antecipação do cenário de dois anos e meio depois.
O receio do então deputado federal era o PT vir a ter o mesmo destino “de outras legendas populares que, uma vez no poder, terminaram estatizadas, sem identidade nem autonomia”.
Na ocasião, Genoino citou alguns exemplos de partidos europeus, mas fixou o resumo de sua tese em dois exemplos caseiros: o PTB e o PMDB.
“O PTB surgiu como um partido de massas, mas foi engolido pelo getulismo; o PMDB virou Governo na Nova República e perdeu toda a afirmação partidária”.
Pausa para registro do esforço do PT/Governo em servir-se dos espólios das referidas legendas e do tratamento de mercadorias que hoje confere a elas. Com a anuência da totalidade dos petebistas e de parte dos pemedebistas.
Em novembro de 2002, ao apontar os erros em que o PT não poderia incorrer, Genoino afirmava em relação ao PTB e ao PMDB: “Nenhum dos dois preservou seus valores e acabaram ambos sucumbindo às conveniências do Estado, que são muito mais amplas que as circunstâncias partidárias. Daí a complexidade da questão”.
Tão complexa que o PT está em vias de sucumbir a ela.
Quando Genoino fazia a defesa da preservação ao autonomia, alertava também para o imperativo de a independência não se tornar sinônimo de oposição.
“Andaremos num fio de navalha: o partido precisa defender o Estado, mas não deve ter presença preponderante na máquina do estatal. A última coisa em que o PT pode se transformar é em administrador de cargos, perderia toda sua função de educação política”.
E prosseguia em diatribe contra o dirigente partidário com figurino de burocrata de aparelho – “isso é coisa de ditadura de esquerda, onde o partido dirige tudo, já que ele mesmo representa o Estado”.
Se o leitor reconhecesse aqui o modelo ensaiado – depois parcialmente revisado, mas nunca corrigido – da concentração de todo o poder político e administrativo na figura do generalíssimo José Dirceu, não estaria errando.
O mais impactante, por incongruente, na releitura da análise da crise anunciada feita por José Genoino em 2002, é a veemência na sustentação da tese da “rebeldia cívica”.
Dois meses antes do início do novo Governo, o então futuro presidente do PT dizia que o partido não poderia “sequer cogitar” a possibilidade de abrir mão de seu atrevimento, de sua “rebeldia cívica”.
Para isso, para não tentar tornar o PT domesticável, Genoino considerava indispensável que os dirigentes mantivessem prudente equidistância do Governo.
“Vai ser preciso transitar por uma linha fina”, dizia, “a fim de evitar que amanhã, por qualquer descontentamento, a maioria decida se transferir para a oposição”.
E aqui Genoino chegava exatamente ao ponto em que se encontra hoje o PT: pregando mudanças para conter os descontentamentos, recuperar apoios, firmar identidade, reencontrar ao menos um discurso.
Reincidência
Explicação da superintendente do Incra em Pernambuco, Maria Oliveira, para o assassinato de um policial no assentamento do MST em Bananeiras: “Trata-se de um crime comum que ocorreu dentro de um assentamento”.
Trata-se, pois, do segundo “crime comum” ocorrido “dentro de um assentamento” num período de um ano de cinco meses.
Em agosto de 2003, o repórter fotográfico Luiz Antonio da Costa, da revista Época, foi assassinado enquanto fazia a cobertura da invasão de um terreno da Volkswagen por cinco mil sem-terra, em São Bernardo do Campo.
Lá, como cá, os criminosos refugiaram-se dentro dos acampamentos e obtiveram proteção, o que se configura, no mínimo, reincidência merecedora de atenção por parte do poder público. Mais não seja, para conferir a fim de não virem as autoridades a delinqüir por co-autoria decorrida da prática da leniência continuada.
O GLOBO Miriam Leitão Reação de Levy
O secretário do Tesouro, Joaquim Levy, discorda inteiramente da análise sobre as contas públicas feita pelo economista José Roberto Afonso, publicada aqui na coluna. Diz que Afonso criou uma contradição com o próprio discurso da oposição: “se os estados e municípios pagaram menos juros no ano passado, como é que os governadores e prefeitos da oposição reclamam dos juros pagos?”
Ele acha que não faz sentido, com base nos números fiscais de 2004, chegar-se às conclusões a que o economista do PSDB chegou:
— Primeiro, os dados mostram que a maior parte do esforço foi, sim, do governo central. Dos 4,61% do superávit primário, 2,98 pontos percentuais foram do governo central, um aumento de 0,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Isso é esforço!.
O segundo ponto de divergência do secretário do Tesouro é sobre a conclusão de José Roberto de que foram as estatais que salvaram o Tesouro por terem tido superávit nominal. Levy ressalta que as estatais tiveram, na verdade, queda do superávit primário e que o bom desempenho das empresas públicas, em grande parte, tem a ver com a melhora do quadro geral da economia. Segundo ele, as estatais foram beneficiadas pela política econômica acertada, pela firmeza da política do ministro Palocci e por todos esses acertos do governo Lula.
— Algumas ficaram com a situação delicada por terem dívidas corrigidas pelo dólar e terem enfrentado a escalada do câmbio de 2002. A volta à normalidade permitiu um ajuste contábil.
O terceiro ponto de divergência de Joaquim Levy é em relação ao fato de que foram os estados e municípios os responsáveis pelos bons resultados.
— O que aconteceu foi que estados e municípios pagaram menos juros do que no ano anterior. E isso é excelente, mas mostra que eles também foram beneficiados pela política do governo, porque acabaram pagando juros mais baixos do que a Selic. Na verdade, no meu ponto de vista, todos nós contribuímos para os bons resultados fiscais do ano passado: governo central, estados, municípios e estatais.
Levy critica a idéia de que os resultados foram melhores apenas por causa dos juros mais baixos, mas não pela melhora do primário:
— O primário aumentou sim, mas não fazemos superávit primário por masoquismo, mas porque precisamos melhorar os resultados fiscais como um todo e, com isso, permitir o círculo virtuoso da queda dos juros.
Ele acha que é um erro avaliar apenas o resultado nominal das contas públicas, porque nele há o peso de inúmeras variáveis, como o câmbio, que não se controla. Por isso é que as principais metas são primárias e não nominais.
— O nosso objetivo é sempre o primário, que a gente controla. Ele cresceu nos últimos dois anos e as metas foram cumpridas. Tudo isso para derrubar a relação dívida/PIB, que também está em queda há dois anos. Ela pode voltar a cair em 2005, representando o terceiro ano consecutivo de queda. Quando chegar a um nível mais baixo, vamos supor 40% do PIB, acontecerá aqui o que aconteceu com países da Europa, como Espanha, Bélgica: todos os juros poderão cair mais fortemente. Isso produz o círculo virtuoso.
Era previsível
Chegaram aqui vários e-mails de aposentados de fundos de pensão, especialmente da Previ, criticando a coluna de ontem. Voltarei à Previ, mas a nota de ontem foi sobre a Petros. E, sobre ela, quem ligou foi o diretor-financeiro da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. A explicação dele é a seguinte:
— A Petrobras assumiu no seu balanço que tem uma dívida atuarial de R$ 8 bilhões com o fundo de pensão e isso por pressão da legislação americana, que exige atualização das tabelas de vida. Pela tabela que adotávamos, a hipótese era de que o funcionário da Petrobras viveria mais 21 anos depois da aposentadoria. Agora, ele vive muito mais. Por isso, os compromissos da Petrobras como patrocinadora apresentaram um déficit que será coberto pela companhia, afetando os resultados da empresa nos próximos 14 anos.
É uma excelente notícia que os brasileiros da Petrobras vivam mais, mas isso deveria prolongar a idade de aposentadoria. Mais ou menos como dois governos fizeram com outros brasileiros: os do INSS e os da previdência pública. Na estatal, a idade média de aposentadoria é de 53 anos.
Segundo Gabrielli, isso é reconhecimento de dívida da Petrobras com a Petros. Não tem nada a ver com o déficit da Petros.
— A Petros teve déficit durante dois anos e o próximo balanço que sai em breve terá novo déficit. Após três anos no negativo, é preciso haver apuração da causa do déficit e divisão do custo entre a empresa e os patrocinados. Esse déficit está contabilizado dentro dos R$ 8 bilhões.
Outra conta que terá que ser coberta pela empresa são os R$ 5 bilhões de déficit no plano de saúde. Ele admite, porém, que o plano precisa de “ajustes” e que o assunto está sendo discutido.
— Mas nada disto será pago com dinheiro público.
Eu disse a Gabrielli que este último raciocínio não faz jus à inteligência dele. Claro que, se a companhia tem estes custos, terá menos lucros e, portanto, menos dividendos.
— Neste aspecto, você tem razão, menos dividendos para o governo e para os dois terços de acionistas privados da companhia. O mercado entendeu isso muito bem e a ação ficou firme, alguns jornalistas é que ficaram muito nervosos.
Uma nova conta de R$ 13 bi espetada na empresa, cujo maior acionista é o setor público, deveria deixar o governo nervoso e não apenas “alguns” jornalistas.
Ele acha que não faz sentido, com base nos números fiscais de 2004, chegar-se às conclusões a que o economista do PSDB chegou:
— Primeiro, os dados mostram que a maior parte do esforço foi, sim, do governo central. Dos 4,61% do superávit primário, 2,98 pontos percentuais foram do governo central, um aumento de 0,6 ponto percentual em relação ao ano anterior. Isso é esforço!.
O segundo ponto de divergência do secretário do Tesouro é sobre a conclusão de José Roberto de que foram as estatais que salvaram o Tesouro por terem tido superávit nominal. Levy ressalta que as estatais tiveram, na verdade, queda do superávit primário e que o bom desempenho das empresas públicas, em grande parte, tem a ver com a melhora do quadro geral da economia. Segundo ele, as estatais foram beneficiadas pela política econômica acertada, pela firmeza da política do ministro Palocci e por todos esses acertos do governo Lula.
— Algumas ficaram com a situação delicada por terem dívidas corrigidas pelo dólar e terem enfrentado a escalada do câmbio de 2002. A volta à normalidade permitiu um ajuste contábil.
O terceiro ponto de divergência de Joaquim Levy é em relação ao fato de que foram os estados e municípios os responsáveis pelos bons resultados.
— O que aconteceu foi que estados e municípios pagaram menos juros do que no ano anterior. E isso é excelente, mas mostra que eles também foram beneficiados pela política do governo, porque acabaram pagando juros mais baixos do que a Selic. Na verdade, no meu ponto de vista, todos nós contribuímos para os bons resultados fiscais do ano passado: governo central, estados, municípios e estatais.
Levy critica a idéia de que os resultados foram melhores apenas por causa dos juros mais baixos, mas não pela melhora do primário:
— O primário aumentou sim, mas não fazemos superávit primário por masoquismo, mas porque precisamos melhorar os resultados fiscais como um todo e, com isso, permitir o círculo virtuoso da queda dos juros.
Ele acha que é um erro avaliar apenas o resultado nominal das contas públicas, porque nele há o peso de inúmeras variáveis, como o câmbio, que não se controla. Por isso é que as principais metas são primárias e não nominais.
— O nosso objetivo é sempre o primário, que a gente controla. Ele cresceu nos últimos dois anos e as metas foram cumpridas. Tudo isso para derrubar a relação dívida/PIB, que também está em queda há dois anos. Ela pode voltar a cair em 2005, representando o terceiro ano consecutivo de queda. Quando chegar a um nível mais baixo, vamos supor 40% do PIB, acontecerá aqui o que aconteceu com países da Europa, como Espanha, Bélgica: todos os juros poderão cair mais fortemente. Isso produz o círculo virtuoso.
Era previsível
Chegaram aqui vários e-mails de aposentados de fundos de pensão, especialmente da Previ, criticando a coluna de ontem. Voltarei à Previ, mas a nota de ontem foi sobre a Petros. E, sobre ela, quem ligou foi o diretor-financeiro da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. A explicação dele é a seguinte:
— A Petrobras assumiu no seu balanço que tem uma dívida atuarial de R$ 8 bilhões com o fundo de pensão e isso por pressão da legislação americana, que exige atualização das tabelas de vida. Pela tabela que adotávamos, a hipótese era de que o funcionário da Petrobras viveria mais 21 anos depois da aposentadoria. Agora, ele vive muito mais. Por isso, os compromissos da Petrobras como patrocinadora apresentaram um déficit que será coberto pela companhia, afetando os resultados da empresa nos próximos 14 anos.
É uma excelente notícia que os brasileiros da Petrobras vivam mais, mas isso deveria prolongar a idade de aposentadoria. Mais ou menos como dois governos fizeram com outros brasileiros: os do INSS e os da previdência pública. Na estatal, a idade média de aposentadoria é de 53 anos.
Segundo Gabrielli, isso é reconhecimento de dívida da Petrobras com a Petros. Não tem nada a ver com o déficit da Petros.
— A Petros teve déficit durante dois anos e o próximo balanço que sai em breve terá novo déficit. Após três anos no negativo, é preciso haver apuração da causa do déficit e divisão do custo entre a empresa e os patrocinados. Esse déficit está contabilizado dentro dos R$ 8 bilhões.
Outra conta que terá que ser coberta pela empresa são os R$ 5 bilhões de déficit no plano de saúde. Ele admite, porém, que o plano precisa de “ajustes” e que o assunto está sendo discutido.
— Mas nada disto será pago com dinheiro público.
Eu disse a Gabrielli que este último raciocínio não faz jus à inteligência dele. Claro que, se a companhia tem estes custos, terá menos lucros e, portanto, menos dividendos.
— Neste aspecto, você tem razão, menos dividendos para o governo e para os dois terços de acionistas privados da companhia. O mercado entendeu isso muito bem e a ação ficou firme, alguns jornalistas é que ficaram muito nervosos.
Uma nova conta de R$ 13 bi espetada na empresa, cujo maior acionista é o setor público, deveria deixar o governo nervoso e não apenas “alguns” jornalistas.
Jornal O Globo - O bicheiro regenerado LUIZ GARCIA
Quem manda no morro? As notícias de todos os dias não deixam dúvida sobre o poder dos traficantes, exercido a ferro e fogo. Em outras gerações do tráfico, o domínio tinha uma frágil capa de autoritarismo esclarecido, como diria um sociólogo do asfalto.
Os chefes do tráfico, influenciados por doutrinação de presos políticos, exerceriam uma espécie de autoritarismo benevolente. Puniam estupradores, castigavam assaltantes de velhinhas. E conviviam, de forma nunca esclarecida, com os chefões do jogo do bicho. Dividiam o espaço deixado pela ausência da força organizadora e assistencial do Estado. Choques entre traficantes rivais aconteciam — mas não havia e não há registro de conflito entre bicheiros e traficantes.
Hoje, não existem laços conhecidos entre as escolas de samba dominadas por bicheiros e o tráfico. Há duas mudanças visíveis. De um lado, a nova geração dos banqueiros do bicho — hoje também exploradores de jogos eletrônicos como o videopôquer — aparentemente optou por um perfil discreto. Os bicheiros não abandonaram o carnaval como instrumento de relações públicas, mas reconhecem que faz mal à saúde disputar poder com os traficantes, que não investem em imagem: acham mais rentável gastar em armamento sofisticado.
É um quadro bastante diferente daquele de anos atrás, quando os banqueiros, além de se exibirem nos desfiles, freqüentavam restaurantes de luxo e eram tratados por homens de bem como se também o fossem.
Os capitães do tráfico não sentem qualquer necessidade de passar por homens de bem, muito menos por generosos patronos da arte popular. E seu controle sobre as comunidades pobres não tem o disfarce da benemerência. Exercem o poder pela violência absoluta: quem não obedece é simplesmente assassinado, com crueldade extrema. Não há cooptação, mas tirania.
Os novos traficantes sabem que não podem usar a fantasia de contraventores quase inofensivos. Não vão a festas dos ricos e exercem nas favelas um poder brutal conquistado sem qualquer sutileza. Nunca ouviram falar em relações públicas.
Não há notícia de estado de beligerância entre os dois grupos, nem provas de algum pacto de não-agressão. A divisão de poderes não tem explicação conhecida.
Bandidos, todos são. Mas de perfis diferentes. O jogo do bicho sempre alimenta a imagem do delito sem vítimas. Nunca foi, claro, uma verdade: só extraordinária ingenuidade podia aceitar que a safra de dinheiro todos os dias colhida pelos apontadores — uma fortuna anônima e sem registro — não era investida, em grande parte, no financiamento de toda sorte de crimes violentos.
Já o perfil dos gerentes do tráfico (não confundi-los com os ocultos donos do tráfico) não é o de um capo mafioso à maneira de um Vito Corleone. São rapazes mal saídos da adolescência, perfeitamente conscientes de que sua vida será curta. Não usam a força e a crueldade como instrumentos de construção de um império criminoso, mas como espécie de vingança prévia contra o destino que os espera na primeira curva do caminho.
Cometem erros fatais para um criminoso inteligente: drogam-se o tempo todo, matam a qualquer pretexto e dominam as comunidades exclusivamente pelo terror. E morrem cedo, como imaginavam. Os velhos bicheiros procuravam alguma forma de aceitação social. Os novos traficantes dão a impressão de que apenas procuram usar o tempo emprestado que lhes resta vingando-se do destino inevitável.
Nada disso é grande novidade, mas ninguém ainda procurou investigar o efeito a longo prazo desse fenômeno sobre as escolas de samba. Há pelo menos a aparência de um pacto de não-agressão. O samba é dos bicheiros, o funk pertence aos traficantes. Nas festas dos banqueiros, a Zona Sul vai em peso. Nos bailes do tráfico, onde a violência corre solta, ela sabiamente não se arrisca a aparecer.
Sejam quais forem o perfil e o estilo, o favelado é a grande vítima.
E não há remédio à vista. O único progresso imaginável foi o sugerido por Aguinaldo Silva: uma escola de samba controlada por um ex-banqueiro regenerado (na medida do possível). Mas desde quando a ficção inspira a realidade?
Os chefes do tráfico, influenciados por doutrinação de presos políticos, exerceriam uma espécie de autoritarismo benevolente. Puniam estupradores, castigavam assaltantes de velhinhas. E conviviam, de forma nunca esclarecida, com os chefões do jogo do bicho. Dividiam o espaço deixado pela ausência da força organizadora e assistencial do Estado. Choques entre traficantes rivais aconteciam — mas não havia e não há registro de conflito entre bicheiros e traficantes.
Hoje, não existem laços conhecidos entre as escolas de samba dominadas por bicheiros e o tráfico. Há duas mudanças visíveis. De um lado, a nova geração dos banqueiros do bicho — hoje também exploradores de jogos eletrônicos como o videopôquer — aparentemente optou por um perfil discreto. Os bicheiros não abandonaram o carnaval como instrumento de relações públicas, mas reconhecem que faz mal à saúde disputar poder com os traficantes, que não investem em imagem: acham mais rentável gastar em armamento sofisticado.
É um quadro bastante diferente daquele de anos atrás, quando os banqueiros, além de se exibirem nos desfiles, freqüentavam restaurantes de luxo e eram tratados por homens de bem como se também o fossem.
Os capitães do tráfico não sentem qualquer necessidade de passar por homens de bem, muito menos por generosos patronos da arte popular. E seu controle sobre as comunidades pobres não tem o disfarce da benemerência. Exercem o poder pela violência absoluta: quem não obedece é simplesmente assassinado, com crueldade extrema. Não há cooptação, mas tirania.
Os novos traficantes sabem que não podem usar a fantasia de contraventores quase inofensivos. Não vão a festas dos ricos e exercem nas favelas um poder brutal conquistado sem qualquer sutileza. Nunca ouviram falar em relações públicas.
Não há notícia de estado de beligerância entre os dois grupos, nem provas de algum pacto de não-agressão. A divisão de poderes não tem explicação conhecida.
Bandidos, todos são. Mas de perfis diferentes. O jogo do bicho sempre alimenta a imagem do delito sem vítimas. Nunca foi, claro, uma verdade: só extraordinária ingenuidade podia aceitar que a safra de dinheiro todos os dias colhida pelos apontadores — uma fortuna anônima e sem registro — não era investida, em grande parte, no financiamento de toda sorte de crimes violentos.
Já o perfil dos gerentes do tráfico (não confundi-los com os ocultos donos do tráfico) não é o de um capo mafioso à maneira de um Vito Corleone. São rapazes mal saídos da adolescência, perfeitamente conscientes de que sua vida será curta. Não usam a força e a crueldade como instrumentos de construção de um império criminoso, mas como espécie de vingança prévia contra o destino que os espera na primeira curva do caminho.
Cometem erros fatais para um criminoso inteligente: drogam-se o tempo todo, matam a qualquer pretexto e dominam as comunidades exclusivamente pelo terror. E morrem cedo, como imaginavam. Os velhos bicheiros procuravam alguma forma de aceitação social. Os novos traficantes dão a impressão de que apenas procuram usar o tempo emprestado que lhes resta vingando-se do destino inevitável.
Nada disso é grande novidade, mas ninguém ainda procurou investigar o efeito a longo prazo desse fenômeno sobre as escolas de samba. Há pelo menos a aparência de um pacto de não-agressão. O samba é dos bicheiros, o funk pertence aos traficantes. Nas festas dos banqueiros, a Zona Sul vai em peso. Nos bailes do tráfico, onde a violência corre solta, ela sabiamente não se arrisca a aparecer.
Sejam quais forem o perfil e o estilo, o favelado é a grande vítima.
E não há remédio à vista. O único progresso imaginável foi o sugerido por Aguinaldo Silva: uma escola de samba controlada por um ex-banqueiro regenerado (na medida do possível). Mas desde quando a ficção inspira a realidade?
o GLOBO MERVAL PERERIRA O DESAFIO DO CLIMA
PARIS. A mudança do clima é talvez o maior desafio econômico dos próximos anos. O Goddard Institute for Space Studies de Nova York anunciou que o ano de 2004 entrou para a relação dos anos mais quentes da história do planeta nos últimos 100 anos, com 0,48 graus centígrados acima da média, apenas atrás de 1998, 2002 e 2003. O Protocolo de Kioto, que entrará em vigor na próxima semana, incentivará o mercado de bônus de certificados ambientais até mesmo nos Estados Unidos, que não assinaram o acordo.
Em Kioto foram estabelecidas metas para os países poluidores, de redução da emissão de gases de efeito estufa, na média em 5% em relação a 1990.
Mas não será uma tarefa fácil. A União Européia, que estabeleceu para seus membros uma meta mais ambiciosa de 8% de redução da emissão dos gases de efeito estufa, em 2002 não conseguiu reduzir mais que 2,9%. O artigo 12 do Protocolo de Kioto, iniciativa do Brasil com o apoio da Índia e da China, permite que investimentos feitos nos países em desenvolvimento, para redução de gases de efeito estufa — como reflorestamentos — possam ser contabilizados pelos países desenvolvidos e reduzidos de suas metas.
Esses investimentos deverão ser certificados através de padrões internacionais, e os certificados serão comprados por empresas ou governos para que suas metas sejam cumpridas. Mesmo antes da entrada em vigor do Protocolo de Kioto, em vários países foram criados mercados para comercialização de créditos de carbono, até mesmo nos Estados Unidos que, embora fora do tratado, são os maiores compradores. Alguns estados americanos inclusive estão criando legislações próprias obrigando a redução. E algumas empresas estão assumindo compromissos de redução da emissão de gases mesmo sem a obrigação.
Já começa a funcionar este mês um centro de registro de certificados de créditos de carbono na Bolsa de Mercadorias e Futuro em São Paulo. As estimativas são de que o Brasil pode participar com cerca de 17% do mercado mundial de Redução Certificada de Emissão, gerando uma receita líquida em 2010 de mais de US$ 300 milhões.
Mas o que acontecerá quando expirar o prazo do protocolo, em 2012? Como fazer para que um segundo protocolo seja assinado pelos Estados Unidos? Como garantir que a Rússia e os países da antiga União Soviética continuem apoiando o tratado? Quanto mais tempo levar para que decisões realmente sérias com relação a mudanças do clima no mundo sejam tomadas, mais custosos serão os impactos, tanto econômicos quanto humanos e ambientais. Recentes pesquisas já demonstraram que o nível do mar pode subir um metro no próximo meio século. Os negócios envolvendo seguros contra tragédias climáticas abrangerão não apenas o perigo dos moradores das costas e o risco de perda de vidas, especialmente nos países em desenvolvimento, como agora com as ondas gigantes da Ásia.
Há ainda o combate às epidemias, o controle da qualidade da água e os impactos na cadeia produtiva de alimentação. Para que o controle da situação mundial seja mais eficiente, especialistas sugeriram, durante os debates em Davos, no Fórum Econômico Mundial, a criação de um grupo chamado G-8 mais, que reuniria as sete maiores economias do mundo, mais a Rússia e os maiores países emergentes, como Índia, China e Brasil.
Foi ressaltada a necessidade urgente de serem criadas medidas, em nível internacional, para o controle da redução de emissão de gás carbônico. O ideal para isso seria a criação de normas internacionais que monitorariam as emissões e controlariam os preços e o comércio dos certificados ambientais. A tecnologia para controlar a emissão de gases e neutralizar sua influência na mudança de clima já está disponível, o problema é o custo dela, disseram os especialistas.
Esses custos deveriam ser transferidos, através do mercado financeiro, tanto para as indústrias quanto para os consumidores privados, para que eles mudassem de comportamento e fossem levados a colaborar. O levantamento do milênio do ecossistema mundial, que será divulgado no final do próximo mês, vai mostrar que um terço dos 23 serviços de ecossistemas examinados estão degradados, ou estão sendo usados de maneira insustentável, contribuindo para as mudanças do clima e afetando a quantidade e a qualidade da água, da biodiversidade e o nível de nitrogênio essencial para o crescimento das plantas.
A presidente do Conselho Internacional para a Ciência, da França, Jane Lubchenco, disse que a divulgação desse documento mudará o diálogo sobre meio ambiente, tanto na política mundial quanto nas discussões públicas. Serviços de ecossistemas que eram considerados seguros e resguardados por longo tempo terão que ser pagos para serem menos utilizados, e assim prolongarem sua vida útil. Especialistas nos Alpes suíços concordam, por exemplo, que metade das geleiras pode desaparecer por volta de 2030, e todo o grupo até 2080. É preciso, portanto, que se façam mudanças agora, e que se defina em que nível os negócios serão afetados.
Cerca de 120 países, representando 44% das emissões mundiais, ratificaram o tratado de Kioto, entre eles o Brasil. Sem a adesão dos EUA, somente a Rússia, que representa mais de 17% das emissões, poderia fazer com que o índice mínimo de 55% das emissões totais de dióxido de carbono em 1990 pudesse ser atingido, condição para que o protocolo entrasse em vigor, o que acontecerá na próxima semana.
Hoje está provado que aumentou a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. No século XX, a temperatura do planeta já subiu 0,6 graus centígrados.
Folha de S.Paulo - CLÓVIS ROSSI Rhodes e o PT que morreu - 11/02/2005
SÃO PAULO - O melhor epitáfio para o PT-25 (anos) é de William Rhodes, o presidente do Citibank, produzido em Davos, na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O governo Lula seria, segundo Rhodes, "um exemplo para o mundo".
Para que ficar gastando tinta e papel com teses, por muito boas que algumas sejam, quando Rhodes matou o assunto em uma frase?
Só falta lembrar um, digamos, pequeno detalhe: nos muitos anos em que Carlos Saúl Menem freqüentou Davos, como presidente da Argentina, também era tratado pelos Rhodes e que tais como "um exemplo para o mundo".
Deu no que todos sabemos: a falência da Argentina, provocada pelo fato de que o sucessor de Menem, Fernando de la Rúa, seguiu rigorosamente a mesma política do antecessor. Ninguém pode alegar que qualquer semelhança com o Brasil seja mera coincidência.
Rhodes à parte, fecho inteiramente com a tese de Fabio Wanderley Reis (Universidade Federal de Minas Gerais), segundo a qual o PT já não depende de suas velhas bases (o movimento social) para ser uma potente máquina eleitoral.
É como o PMDB: eleição após eleição, malhado, morto e ressuscitado no noticiário, termina sempre nos primeiros lugares no Parlamento federal, ainda que jamais tenha tido um candidato viável à Presidência da República.
O PT, depois de Lula cumprir o seu segundo mandato, se o conseguir, como hoje é provável, também terá dificuldades em encontrar um "presidenciável". Mas a máquina, instalada nos diferentes escaninhos do poder, continuará elegendo muita gente para os diferentes níveis.
Mas não terá parentesco nenhum com o PT dos 23 primeiros anos de vida. Esse jovem morreu, talvez prematuramente, talvez por esclerose generalizada. Mas morreu.
O governo Lula seria, segundo Rhodes, "um exemplo para o mundo".
Para que ficar gastando tinta e papel com teses, por muito boas que algumas sejam, quando Rhodes matou o assunto em uma frase?
Só falta lembrar um, digamos, pequeno detalhe: nos muitos anos em que Carlos Saúl Menem freqüentou Davos, como presidente da Argentina, também era tratado pelos Rhodes e que tais como "um exemplo para o mundo".
Deu no que todos sabemos: a falência da Argentina, provocada pelo fato de que o sucessor de Menem, Fernando de la Rúa, seguiu rigorosamente a mesma política do antecessor. Ninguém pode alegar que qualquer semelhança com o Brasil seja mera coincidência.
Rhodes à parte, fecho inteiramente com a tese de Fabio Wanderley Reis (Universidade Federal de Minas Gerais), segundo a qual o PT já não depende de suas velhas bases (o movimento social) para ser uma potente máquina eleitoral.
É como o PMDB: eleição após eleição, malhado, morto e ressuscitado no noticiário, termina sempre nos primeiros lugares no Parlamento federal, ainda que jamais tenha tido um candidato viável à Presidência da República.
O PT, depois de Lula cumprir o seu segundo mandato, se o conseguir, como hoje é provável, também terá dificuldades em encontrar um "presidenciável". Mas a máquina, instalada nos diferentes escaninhos do poder, continuará elegendo muita gente para os diferentes níveis.
Mas não terá parentesco nenhum com o PT dos 23 primeiros anos de vida. Esse jovem morreu, talvez prematuramente, talvez por esclerose generalizada. Mas morreu.
Folha de S.Paulo - ELIANE CANTANHÊDE: De porta em porta - 11/02/2005
ELIANE CANTANHÊDE
De porta em porta
BRASÍLIA - Ao manter as empresas aéreas na nova Lei de Falências, Lula mandou dois recados. Um, prático: está aberta a porta para salvar a Varig. Outro, político: quem dá os passos é o ministro e vice José Alencar. Se vetasse a inclusão, Lula praticamente inviabilizaria a solução engendrada por Alencar, que prevê a conversão de dívidas da Varig com o governo em ações da companhia. Nem por isso a coisa agora é simples. Com ou sem a nova lei, os embaraços jurídicos são imensos. Mas Lula continua sinalizando que quer fazer tudo para salvar a marca, mesmo medidas heterodoxas. Se havia dúvida, foi dissipada na reunião do comando político do governo, na segunda-feira. Palocci tentando ser frio, técnico. Alencar, emocional, empresarial. Adivinha o que soa melhor aos ouvidos do presidente? Agora é encaixar toda essa disposição nos limites legais. O plano está sendo esboçado pelo Unibanco e pela consultoria Trevisan. Depois de -e se- ultrapassadas todas as barreiras legais, passa pela estatização momentânea da companhia e por investidores privados interessados em comprá-la. Há anos fala-se numa "lista de compradores", mas esse segredo parece tão bem guardado quanto o "Garganta Profunda" de Watergate. Ninguém sabe, ninguém viu. Mesmo que surjam, há empecilhos. A lei brasileira limita seriamente a participação de capital estrangeiro em empresas de aviação. Ou seja: ou há um grande investidor nacional secreto, ou as estrangeiras fariam uma "internalização" de capital, ou haveria uma "cesta" de compradores. Convenhamos: com ou sem Lei de Falências, são todas operações espetaculares para driblar uma dívida de R$ 7 bi. Alencar ganhou essa, mas vai ter muito ainda a guerrear.
A PF invadiu o TRE de Roraima e prendeu cinco pessoas. Ou seja: a polícia invadiu a Justiça. É hora de discutir limites. Em nome da moralidade, até onde pode e deve ir?
De porta em porta
BRASÍLIA - Ao manter as empresas aéreas na nova Lei de Falências, Lula mandou dois recados. Um, prático: está aberta a porta para salvar a Varig. Outro, político: quem dá os passos é o ministro e vice José Alencar. Se vetasse a inclusão, Lula praticamente inviabilizaria a solução engendrada por Alencar, que prevê a conversão de dívidas da Varig com o governo em ações da companhia. Nem por isso a coisa agora é simples. Com ou sem a nova lei, os embaraços jurídicos são imensos. Mas Lula continua sinalizando que quer fazer tudo para salvar a marca, mesmo medidas heterodoxas. Se havia dúvida, foi dissipada na reunião do comando político do governo, na segunda-feira. Palocci tentando ser frio, técnico. Alencar, emocional, empresarial. Adivinha o que soa melhor aos ouvidos do presidente? Agora é encaixar toda essa disposição nos limites legais. O plano está sendo esboçado pelo Unibanco e pela consultoria Trevisan. Depois de -e se- ultrapassadas todas as barreiras legais, passa pela estatização momentânea da companhia e por investidores privados interessados em comprá-la. Há anos fala-se numa "lista de compradores", mas esse segredo parece tão bem guardado quanto o "Garganta Profunda" de Watergate. Ninguém sabe, ninguém viu. Mesmo que surjam, há empecilhos. A lei brasileira limita seriamente a participação de capital estrangeiro em empresas de aviação. Ou seja: ou há um grande investidor nacional secreto, ou as estrangeiras fariam uma "internalização" de capital, ou haveria uma "cesta" de compradores. Convenhamos: com ou sem Lei de Falências, são todas operações espetaculares para driblar uma dívida de R$ 7 bi. Alencar ganhou essa, mas vai ter muito ainda a guerrear.
A PF invadiu o TRE de Roraima e prendeu cinco pessoas. Ou seja: a polícia invadiu a Justiça. É hora de discutir limites. Em nome da moralidade, até onde pode e deve ir?
Folha de S.Paulo - - Luiz Carlos Mendonça de Barros: Todos os olhos na economia norte-americana - 11/02/2005
Viver o dia-a-dia do mercado financeiro, neste início de século, é uma experiência extraordinária. Não existe melhor ponto de observação para quem quer compreender o que se chama de economia global. Esse arranjo institucional, marca do mundo de hoje, maximiza o que o capitalismo ou, para usar uma expressão mais moderna, a economia de mercado tem de melhor e de pior.
Do lado positivo, a liberdade quase irrestrita para a tomada de decisões por parte dos atores econômicos, o que fortalece a racionalidade da economia. Do outro, a dimensão exagerada dos movimentos especulativos, o que amplifica o lado irracional do funcionamento dos mercados.
Tomemos os exemplos das Bolsas eletrônicas que operam 24 horas por dia e estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Nelas, os agentes econômicos podem comprar e vender contratos que cobrem uma gama incrível de bens e ativos financeiros. Podem escolher, ainda, se suas transações representarão negócios com bens físicos ou ativos sintéticos, como são chamados os bens imaginários criados pelos mercados.
Vou citar alguns exemplos para trazer meus leitores do mundo dos mercados futuros para o dia-a-dia de suas vidas. Nesses pregões eletrônicos, é possível comprar produtos como soja, milho, cobre ou minério de ferro; também está disponível a todos a compra de bens financeiros, como moedas, títulos do governo japonês ou ações de empresas americanas. Podemos, também, adquirir bens imaginários, ou sintéticos, para ficar na linguagem do mundo financeiro, como índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, o índice Kospi, da Bolsa de Valores de Seul, e uma ação que não existe, como o contrato QQQ, da Nasdaq.
Essa parafernália de mercados e produtos, criada a partir da segunda metade dos anos 70 do século passado, ganhou superpoderes com o advento da internet. Os mercados atingiram, então, uma qualidade não-humana: a ubiqüidade. Não existem mais restrições físicas, e os operadores podem escolher o local mais favorável para se estabelecer. Por exemplo, um grande fazendeiro de soja de Mato Grosso pode operar no mercado de Chicago com a mesma facilidade que um produtor de Iowa. Eu mesmo, na Quest, em São Paulo, estou tão habilitado a comprar ou vender títulos da dívida brasileira e realizar uma operação de hedge com títulos do Tesouro americano quanto um profissional de Nova York.
Neste mundo em que os negócios virtuais ocorrem lado a lado com as transações físicas, a dinâmica do capitalismo mudou da água para o vinho. As expectativas dos agentes econômicos convivem ao mesmo tempo com o mundo real da economia e, em alguns momentos, determinam a formação dos preços dos ativos financeiros e bens. Um dos talentos mais demandados nos dia de hoje é o profissional com a capacidade de separar, em cada momento, a realidade da imaginação. No jargão dos mercados financeiros, olhar para os fundamentos e para a condição técnica.
Esse dilema, expectativas versus realidade, está mais uma vez presente na economia americana neste início de 2005. E, como os Estados Unidos são o grande motor do mundo -mesmo a China depende das exportações para a terra do Tio Sam para manter seu dinamismo-, todos os olhos estão voltados para o comportamento de sua economia. Do lado da realidade, temos um crescimento forte, baseado no comportamento ainda ativo do consumidor e no dinamismo do investimento privado. Depois de crescer mais de 4% no ano passado, espera-se uma pequena redução, para algo próximo a 3,5%, em 2005. Nesse cenário, o Federal Reserve começou a preocupar-se com a volta da inflação e vem aumentando seguidamente os juros primários.
Mas o imaginário do mercado está apontando para outra direção. Embora os juros de prazo mais curto estejam hoje bem acima dos níveis que prevaleciam quando o Fed iniciou o aperto monetário, os juros mais longos estão caindo. Esse comportamento sinaliza que a maioria dos agentes econômicos acredita que a economia está mais fraca do que entendem os companheiros de Greenspan e que juros mais altos vão levar a uma desaceleração importante nos próximos meses.
Se esse cenário estiver correto, na virada de 2005 e 2006 teremos uma economia mundial mais fraca e a volta da ameaça de deflação. Esse fantasma ronda hoje a cabeça de um grande número de analistas, em razão do desequilíbrio, que existe no mundo, entre poupança e consumo. Os próximos meses vão definir quem está com a razão.
Do lado positivo, a liberdade quase irrestrita para a tomada de decisões por parte dos atores econômicos, o que fortalece a racionalidade da economia. Do outro, a dimensão exagerada dos movimentos especulativos, o que amplifica o lado irracional do funcionamento dos mercados.
Tomemos os exemplos das Bolsas eletrônicas que operam 24 horas por dia e estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo. Nelas, os agentes econômicos podem comprar e vender contratos que cobrem uma gama incrível de bens e ativos financeiros. Podem escolher, ainda, se suas transações representarão negócios com bens físicos ou ativos sintéticos, como são chamados os bens imaginários criados pelos mercados.
Vou citar alguns exemplos para trazer meus leitores do mundo dos mercados futuros para o dia-a-dia de suas vidas. Nesses pregões eletrônicos, é possível comprar produtos como soja, milho, cobre ou minério de ferro; também está disponível a todos a compra de bens financeiros, como moedas, títulos do governo japonês ou ações de empresas americanas. Podemos, também, adquirir bens imaginários, ou sintéticos, para ficar na linguagem do mundo financeiro, como índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, o índice Kospi, da Bolsa de Valores de Seul, e uma ação que não existe, como o contrato QQQ, da Nasdaq.
Essa parafernália de mercados e produtos, criada a partir da segunda metade dos anos 70 do século passado, ganhou superpoderes com o advento da internet. Os mercados atingiram, então, uma qualidade não-humana: a ubiqüidade. Não existem mais restrições físicas, e os operadores podem escolher o local mais favorável para se estabelecer. Por exemplo, um grande fazendeiro de soja de Mato Grosso pode operar no mercado de Chicago com a mesma facilidade que um produtor de Iowa. Eu mesmo, na Quest, em São Paulo, estou tão habilitado a comprar ou vender títulos da dívida brasileira e realizar uma operação de hedge com títulos do Tesouro americano quanto um profissional de Nova York.
Neste mundo em que os negócios virtuais ocorrem lado a lado com as transações físicas, a dinâmica do capitalismo mudou da água para o vinho. As expectativas dos agentes econômicos convivem ao mesmo tempo com o mundo real da economia e, em alguns momentos, determinam a formação dos preços dos ativos financeiros e bens. Um dos talentos mais demandados nos dia de hoje é o profissional com a capacidade de separar, em cada momento, a realidade da imaginação. No jargão dos mercados financeiros, olhar para os fundamentos e para a condição técnica.
Esse dilema, expectativas versus realidade, está mais uma vez presente na economia americana neste início de 2005. E, como os Estados Unidos são o grande motor do mundo -mesmo a China depende das exportações para a terra do Tio Sam para manter seu dinamismo-, todos os olhos estão voltados para o comportamento de sua economia. Do lado da realidade, temos um crescimento forte, baseado no comportamento ainda ativo do consumidor e no dinamismo do investimento privado. Depois de crescer mais de 4% no ano passado, espera-se uma pequena redução, para algo próximo a 3,5%, em 2005. Nesse cenário, o Federal Reserve começou a preocupar-se com a volta da inflação e vem aumentando seguidamente os juros primários.
Mas o imaginário do mercado está apontando para outra direção. Embora os juros de prazo mais curto estejam hoje bem acima dos níveis que prevaleciam quando o Fed iniciou o aperto monetário, os juros mais longos estão caindo. Esse comportamento sinaliza que a maioria dos agentes econômicos acredita que a economia está mais fraca do que entendem os companheiros de Greenspan e que juros mais altos vão levar a uma desaceleração importante nos próximos meses.
Se esse cenário estiver correto, na virada de 2005 e 2006 teremos uma economia mundial mais fraca e a volta da ameaça de deflação. Esse fantasma ronda hoje a cabeça de um grande número de analistas, em razão do desequilíbrio, que existe no mundo, entre poupança e consumo. Os próximos meses vão definir quem está com a razão.
Folha de S.Paulo - LUÍS NASSIF Sem régua e compasso - 11/02/2005
Foi curiosa a reação contra a portaria do Ministério do Planejamento, exigindo que o governo seja informado com antecedência sobre as pesquisas mais críticas do instituto. Alguns consideraram censura prévia, outros trataram como uma trapalhada. Todos bradaram pelo direito à informação. Tudo muito certo, tudo muito justo. Mas que tal levar esse conceito -o direito à informação- ao pé da letra?
A rigor, somos um país desinformado. A tal "accountability" inexiste. Há uma profusão de dados primários de boa procedência no Banco Central, no Tesouro Nacional, no FIBGE, dados minuciosos de balança comercial no MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior), o Datasus com todas suas inconsistências. Mas fica-se aí. E não apenas no governo central.
Do dinheiro que vai para a saúde, qual a parte que fica na máquina e a parte que chega até o doente? Qual o grau de eficácia na aplicação desses recursos? Qual o custo da estrutura dos diversos ministérios, comparado com o benefício que oferecem? Qual o benefício?
É essa falta de régua e compasso que permite a sucessivos governantes apresentar uma lista de ações muito meritórias, mas sem nenhuma avaliação de relevância.
Tome-se o governo Fernando Henrique Cardoso. Ele pode dizer, com orgulho, que praticou novas políticas sociais, que deu início a um sistema de tecnologia e inovação, que abriu espaço para a modernização gerencial das grandes empresas, que profissionalizou muitas empresas públicas, que privatizou outras tantas. Mas qual a profundidade dessas medidas? Na maior parte, foram meros avanços incrementais, minúsculos perto do tamanho dos problemas nacionais e do atraso a ser superado.
O mesmo ocorre com o governo Luiz Inácio Lula da Silva, com governadores de Estado, com prefeitos. Cada gestor público apresenta uma relação de feitos, sem que mensure o impacto sobre a transformação da realidade, sobre o bem-estar da população, sobre a melhoria das condições de desenvolvimento. É como o aluno relapso que, para passar de ano, cumpre burocraticamente todos os quesitos, sem avançar substancialmente em nenhum.
Como não há avaliação de impacto, também não se tem a de custo-benefício, não há indicadores que permitam comparações. Tome-se a gestão Marta Suplicy (PT) na Prefeitura de São Paulo. As avaliações sobre ela variam desde uma gestão histórica para a cidade até a de um desastre financeiro inédito na história administrativa do país. Qual a avaliação correta?
Por isso mesmo, está na hora de os Tribunais de Contas começarem a cumprir com sua função de auditores das contas públicas no sentido amplo. O caminho passa pela definição de padrões de divulgação de informações pelos diversos órgãos públicos, obrigando a sua publicação na internet, permitindo a comparação e a avaliação clara da relação custo-benefício.
A partir daí é que se poderá dizer que o brasileiro, de fato, passou a exercitar seu direito à informação.
A rigor, somos um país desinformado. A tal "accountability" inexiste. Há uma profusão de dados primários de boa procedência no Banco Central, no Tesouro Nacional, no FIBGE, dados minuciosos de balança comercial no MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior), o Datasus com todas suas inconsistências. Mas fica-se aí. E não apenas no governo central.
Do dinheiro que vai para a saúde, qual a parte que fica na máquina e a parte que chega até o doente? Qual o grau de eficácia na aplicação desses recursos? Qual o custo da estrutura dos diversos ministérios, comparado com o benefício que oferecem? Qual o benefício?
É essa falta de régua e compasso que permite a sucessivos governantes apresentar uma lista de ações muito meritórias, mas sem nenhuma avaliação de relevância.
Tome-se o governo Fernando Henrique Cardoso. Ele pode dizer, com orgulho, que praticou novas políticas sociais, que deu início a um sistema de tecnologia e inovação, que abriu espaço para a modernização gerencial das grandes empresas, que profissionalizou muitas empresas públicas, que privatizou outras tantas. Mas qual a profundidade dessas medidas? Na maior parte, foram meros avanços incrementais, minúsculos perto do tamanho dos problemas nacionais e do atraso a ser superado.
O mesmo ocorre com o governo Luiz Inácio Lula da Silva, com governadores de Estado, com prefeitos. Cada gestor público apresenta uma relação de feitos, sem que mensure o impacto sobre a transformação da realidade, sobre o bem-estar da população, sobre a melhoria das condições de desenvolvimento. É como o aluno relapso que, para passar de ano, cumpre burocraticamente todos os quesitos, sem avançar substancialmente em nenhum.
Como não há avaliação de impacto, também não se tem a de custo-benefício, não há indicadores que permitam comparações. Tome-se a gestão Marta Suplicy (PT) na Prefeitura de São Paulo. As avaliações sobre ela variam desde uma gestão histórica para a cidade até a de um desastre financeiro inédito na história administrativa do país. Qual a avaliação correta?
Por isso mesmo, está na hora de os Tribunais de Contas começarem a cumprir com sua função de auditores das contas públicas no sentido amplo. O caminho passa pela definição de padrões de divulgação de informações pelos diversos órgãos públicos, obrigando a sua publicação na internet, permitindo a comparação e a avaliação clara da relação custo-benefício.
A partir daí é que se poderá dizer que o brasileiro, de fato, passou a exercitar seu direito à informação.
quinta-feira, fevereiro 10, 2005
Jornal O Globo O bloco dos fora-da-lei ANTÔNIO CARLOS BISCAIA
Há certas páginas da História que, ao contrário do que todos esperam, voltam a assombrar a nossa tranqüilidade ao serem novamente reviradas.
Um velho inimigo da sociedade continua bem vivo e ensaia, anualmente, seus vôos para manter prestígio e poder, situação decepcionante para os que viveram de perto a difícil e angustiosa tarefa de vencê-lo.
A cada verão carioca, o país inteiro assiste pela televisão ao maravilhoso desfile na passarela do samba, não só dos artistas do espetáculo, mas de notórios bicheiros já condenados pela Justiça e que, de maneira arrogante, desfilam na pista e empunham os troféus da folia como um libelo da impunidade.
Este ano o bloco dos fora-da-lei homenageou dois patronos da escola de samba vermelha-e-branca que morreram ano passado: o bicheiro-pai, por questões de saúde depois de atribulada vida na contravenção; e o bicheiro-filho, jovem herdeiro do dinheiro sujo, assassinado na guerra pelos pontos da jogatina, um crime ainda sem autor.
Não bastasse essa descarada apologia ao crime, um discurso no sambódromo saudou outro contraventor, hoje foragido de uma condenação a nove anos de prisão por corrupção de policiais e autoridades públicas. Na verdade, outra apologia a criminoso.
A luta para erradicar esses bicheiros da vida carioca não foi fácil. Através do poder financeiro que o jogo lhes propiciou, estenderam seu braço armado às atividades criminosas graves e rentáveis. Envolveram-se com o tráfico de drogas, como financiadores das operações e lavadores de dinheiro sujo.
Logo, estavam freqüentando os gabinetes oficiais, apoiando candidaturas e procurando conquistar o poder político por intermédio de parlamentares, alguns até já cassados.
Desmontar esse esquema exigiu decisão política e iniciativa de instituições comprometidas com a luta por justiça, como o Ministério Público, hoje uma trincheira na guerra contra a impunidade no país.
Como no carnaval e, em determinada época, também no futebol, nos últimos anos, os tentáculos dessa máquina criminosa tomaram de assalto os jogos de azar do país, estabelecendo um regime de cosa nostra na exploração dos viciados caça-níqueis, motivo de uma interminável guerra sangrenta nos subúrbios cariocas.
Atrás das simpáticas senhoras que saúdam os bingos na esperança de um dinheiro extra para melhorar a qualidade de vida, está a lavagem do dinheiro sujo das atividades criminosas, da prática da sonegação fiscal e da violenta ação das quadrilhas mafiosas que praticam a extorsão policial, tudo em nome da farsa de se ajudar o esporte amador nacional.
São muitos os exemplos de que a exploração dos bingos e das máquinas caça-níqueis não é uma atividade honesta. Só falta, agora, uma lei definitiva que proíba esses jogos de azar que atualmente são gerenciados pelo crime muito bem organizado.
Quanto aos bicheiros reunidos no bloco dos fora-da-lei, cabe à sociedade e à Justiça darem um basta nessa vergonhosa apologia aos criminosos, que se repete a cada carnaval carioca e que merece o repúdio de todos nós, integrantes do bloco das pessoas-do-bem.
ANTÔNIO CARLOS BISCAIA é deputado federal (PT/RJ).
Um velho inimigo da sociedade continua bem vivo e ensaia, anualmente, seus vôos para manter prestígio e poder, situação decepcionante para os que viveram de perto a difícil e angustiosa tarefa de vencê-lo.
A cada verão carioca, o país inteiro assiste pela televisão ao maravilhoso desfile na passarela do samba, não só dos artistas do espetáculo, mas de notórios bicheiros já condenados pela Justiça e que, de maneira arrogante, desfilam na pista e empunham os troféus da folia como um libelo da impunidade.
Este ano o bloco dos fora-da-lei homenageou dois patronos da escola de samba vermelha-e-branca que morreram ano passado: o bicheiro-pai, por questões de saúde depois de atribulada vida na contravenção; e o bicheiro-filho, jovem herdeiro do dinheiro sujo, assassinado na guerra pelos pontos da jogatina, um crime ainda sem autor.
Não bastasse essa descarada apologia ao crime, um discurso no sambódromo saudou outro contraventor, hoje foragido de uma condenação a nove anos de prisão por corrupção de policiais e autoridades públicas. Na verdade, outra apologia a criminoso.
A luta para erradicar esses bicheiros da vida carioca não foi fácil. Através do poder financeiro que o jogo lhes propiciou, estenderam seu braço armado às atividades criminosas graves e rentáveis. Envolveram-se com o tráfico de drogas, como financiadores das operações e lavadores de dinheiro sujo.
Logo, estavam freqüentando os gabinetes oficiais, apoiando candidaturas e procurando conquistar o poder político por intermédio de parlamentares, alguns até já cassados.
Desmontar esse esquema exigiu decisão política e iniciativa de instituições comprometidas com a luta por justiça, como o Ministério Público, hoje uma trincheira na guerra contra a impunidade no país.
Como no carnaval e, em determinada época, também no futebol, nos últimos anos, os tentáculos dessa máquina criminosa tomaram de assalto os jogos de azar do país, estabelecendo um regime de cosa nostra na exploração dos viciados caça-níqueis, motivo de uma interminável guerra sangrenta nos subúrbios cariocas.
Atrás das simpáticas senhoras que saúdam os bingos na esperança de um dinheiro extra para melhorar a qualidade de vida, está a lavagem do dinheiro sujo das atividades criminosas, da prática da sonegação fiscal e da violenta ação das quadrilhas mafiosas que praticam a extorsão policial, tudo em nome da farsa de se ajudar o esporte amador nacional.
São muitos os exemplos de que a exploração dos bingos e das máquinas caça-níqueis não é uma atividade honesta. Só falta, agora, uma lei definitiva que proíba esses jogos de azar que atualmente são gerenciados pelo crime muito bem organizado.
Quanto aos bicheiros reunidos no bloco dos fora-da-lei, cabe à sociedade e à Justiça darem um basta nessa vergonhosa apologia aos criminosos, que se repete a cada carnaval carioca e que merece o repúdio de todos nós, integrantes do bloco das pessoas-do-bem.
ANTÔNIO CARLOS BISCAIA é deputado federal (PT/RJ).
Jornal O Globo EDITORIAL Receita e despesa
Por representar mais um aperto no torniquete tributário em torno de um já sufocado contribuinte, a MP 232 pode ser considerada um divisor de águas nas reais intenções do governo Lula diante do crucial problema da carga tributária. O discurso oficial tem sido favorável ao alívio tributário. Mas na prática, como se viu na revisão da Cofins, a ação do governo vai em sentido contrário. No mesmo sentido da MP 232, instrumento de verdadeira expropriação tributária contra profissionais liberais, pequenos empreendedores em geral, inclusive agricultores, além de empresas com ativos no exterior.
Se o Planalto forçar a aprovação na MP não haverá mais dúvidas de que o governo Lula segue a tradição de voracidade na cobrança de impostos já demonstrada por administrações petistas em algumas unidades da Federação.
É elogiável a decisão do Planalto de adiar a entrada em vigor de alguns itens da medida provisória, num gesto bem-vindo de abertura para negociações. Mas é preciso manter a pressão política contra a MP. Como fazem sindicatos de trabalhadores, entidades de representação do empresariado, a Ordem dos Advogados do Brasil e partidos da oposição.
A pressão é necessária porque o governo federal continua a ampliar os gastos públicos correntes não-financeiros de forma imprevidente. De maneira temerária, diante da realidade das contas públicas, o ciclo de crescimento econômico tem sido usado para sustentar uma política fiscal expansionista. É um erro.
A aceleração pouco cuidadosa do Bolsa Família, o reajuste real (acima da inflação) do salário-mínimo com reflexos óbvios da Previdência, a contratação de servidores públicos, isso e outros desregramentos fazem as despesas primárias da União — exceto juros da dívida — dispararem. No ano passado, elas já cresceram 9% a mais que a inflação.
Para financiar uma despesa crescente só com aumento de impostos e/ou mais dívidas. E assim o governo atira no próprio pé: desestimula o empresariado a investir e impede reduções significativas da taxa de juros. O debate em torno da MP precisa contemplar o uso que o governo tem feito do dinheiro do contribuinte.
Se o Planalto forçar a aprovação na MP não haverá mais dúvidas de que o governo Lula segue a tradição de voracidade na cobrança de impostos já demonstrada por administrações petistas em algumas unidades da Federação.
É elogiável a decisão do Planalto de adiar a entrada em vigor de alguns itens da medida provisória, num gesto bem-vindo de abertura para negociações. Mas é preciso manter a pressão política contra a MP. Como fazem sindicatos de trabalhadores, entidades de representação do empresariado, a Ordem dos Advogados do Brasil e partidos da oposição.
A pressão é necessária porque o governo federal continua a ampliar os gastos públicos correntes não-financeiros de forma imprevidente. De maneira temerária, diante da realidade das contas públicas, o ciclo de crescimento econômico tem sido usado para sustentar uma política fiscal expansionista. É um erro.
A aceleração pouco cuidadosa do Bolsa Família, o reajuste real (acima da inflação) do salário-mínimo com reflexos óbvios da Previdência, a contratação de servidores públicos, isso e outros desregramentos fazem as despesas primárias da União — exceto juros da dívida — dispararem. No ano passado, elas já cresceram 9% a mais que a inflação.
Para financiar uma despesa crescente só com aumento de impostos e/ou mais dívidas. E assim o governo atira no próprio pé: desestimula o empresariado a investir e impede reduções significativas da taxa de juros. O debate em torno da MP precisa contemplar o uso que o governo tem feito do dinheiro do contribuinte.
O GLOBO A força do inglês Merval Pereira
PARIS. Em uma era crescentemente dominada por migrações e comunicação instantânea entre os países, a questão da identidade nacional está em debate, e em Davos o tema foi discutido sob vários aspectos, desde o multiculturalismo até mesmo a discussão, curiosamente atual no Brasil, sobre se o monopólio do idioma inglês pode vir a ser quebrado nas relações internacionais. Apesar da maior integração do mundo atual, a assimilação de culturas diferentes nunca vai tão longe quanto teoricamente se prevê.
Jagdish Bhagwati, professor da Universidade de Columbia, em Nova York, diz que, hoje em dia, o fato de um imigrante querer preservar sua própria cultura já é mais bem aceito. Apesar de reações como a do professor Samuel Huntington, que atualmente está em uma cruzada contra os hispânicos nos Estados Unidos que querem manter sua cultura, acusando-os de usufruírem do “american way of life” sem se integrarem à cultura americana.
A circulação de pessoas pelo mundo, especialmente depois da União Européia, é cada vez maior, o que facilita a conservação de culturas originais, mas paradoxalmente as barreiras de segurança atrapalham essa circulação, que deveria ser mais livre. Por outro lado, essa mistura de culturas estaria gerando o surgimento de uma “cultura internacional”, na qual se misturariam várias culturas diferentes.
Dentro desse debate, foi organizada uma mesa-redonda para discutir o predomínio da língua inglesa no mundo atual, sob o título geral “Pode o monopólio da língua inglesa ser quebrado?”. Para pesar da atual gestão do Itamaraty, que decidiu que saber inglês não é condição fundamental para alguém ser aceito na carreira diplomática, o consenso foi de que por muito tempo o inglês será a língua dos negócios e da diplomacia internacionais.
O mesmo Itamaraty que, ao levar ao pé da letra o auto-elogio do governo que se quer “republicano”, retira de suas salas retratos e bustos de antigos diplomatas e autoridades do Império, e até mesmo de Dom Pedro II. Diz-se que alguns permanecerão em Brasília em salas secundárias, e outros virão para o Rio. Um dos retratos que saiu é o do chamado Dandi (Amaro Guedes Pinto, pintado por Antônio Manuel da Fonseca, pintor do Rei de Portugal em 1830), que trabalhava na legação junto à Santa Sé, retratado em uniforme de botões dourados com as iniciais P II, sob a coroa imperial.
À propósito, diplomatas estão lembrando passagem da vida de Machado de Assis, quando, proclamada a República, quiseram retirar da sua repartição o retrato do Imperador. Machado retrucou: “O retrato do imperador entrou aqui por decreto, e só sai por decreto.” No caso do Itamaraty, os retratos saíram sem decreto, mas o inglês deixou de ser eliminatório no exame do Instituto Rio Branco por decreto do chanceler Celso Amorim.
Em Davos, a importância crescente do inglês foi analisada, especialmente depois que a globalização abriu os mercados mundiais e criou novas oportunidades para empresas, tanto nos países desenvolvidos como nos em desenvolvimento. Nesse mundo crescentemente interligado, a habilidade de se comunicar superando a barreira da linguagem ficou mais importante do que nunca. Houve um consenso de que, no presente momento, o inglês é o que há de mais próximo de uma língua global dos negócios.
De acordo com levantamentos do British Council, a estimativa é de que mais de um bilhão de pessoas estão aprendendo inglês pelo mundo, 375 milhões têm o inglês como língua nativa, e 750 milhões de pessoas já falam inglês como segunda língua. Segundo os especialistas, o domínio do inglês é baseado em inúmeros fatores, a começar pela importância histórica, em termos econômicos, dos países de língua inglesa, primeiro o Império Britânico, depois os Estados Unidos e sua influência econômica no mundo.
Os comentaristas também consideraram que o inglês se mantém como o idioma dominante no mundo dos negócios porque responde rapidamente às forças do mercado, é maleável a adaptações e mudanças. Algumas nações são mais protetoras de seus idiomas, algumas até aprovaram leis insistindo para que em certas situações, especialmente em negócios, a língua nativa seja protegida, como quer no Brasil o projeto do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo.
Aqui na França, por exemplo, os anúncios, quando escritos em inglês, têm obrigatoriamente que conter a tradução para o francês, mesmo que em tipo menor. Alguns países — como a própria França, a Alemanha e a Espanha — têm academias e institutos bastante influentes para preservar e regular as normas gramaticais.
Com o avanço da globalização e a redução do predomínio das economias ocidentais — os países asiáticos, especialmente a China, estão surgindo como futuras potências emergentes — alguns comentaristas acham que a prevalência da língua inglesa poderá decair, embora uma piada indique que existem mais pessoas na China aprendendo a falar inglês do que nos Estados Unidos.
O inglês não é o idioma mais falado no mundo, cabendo esse título ao mandarim, que é o primeiro idioma de 800 milhões de pessoas, sendo que outras 200 milhões o falam. Porém, mesmo com a possibilidade de que a China supere os Estados Unidos como potência econômica, é pouco provável que o mandarim vire o idioma internacional dos negócios.
Mesmo agora, o governo chinês está tomando providências para que o inglês seja ensinado para todos os alunos, à exemplo do que já faz o Chile e do que está prometendo fazer o provável futuro primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, do Partido Socialista.
Jagdish Bhagwati, professor da Universidade de Columbia, em Nova York, diz que, hoje em dia, o fato de um imigrante querer preservar sua própria cultura já é mais bem aceito. Apesar de reações como a do professor Samuel Huntington, que atualmente está em uma cruzada contra os hispânicos nos Estados Unidos que querem manter sua cultura, acusando-os de usufruírem do “american way of life” sem se integrarem à cultura americana.
A circulação de pessoas pelo mundo, especialmente depois da União Européia, é cada vez maior, o que facilita a conservação de culturas originais, mas paradoxalmente as barreiras de segurança atrapalham essa circulação, que deveria ser mais livre. Por outro lado, essa mistura de culturas estaria gerando o surgimento de uma “cultura internacional”, na qual se misturariam várias culturas diferentes.
Dentro desse debate, foi organizada uma mesa-redonda para discutir o predomínio da língua inglesa no mundo atual, sob o título geral “Pode o monopólio da língua inglesa ser quebrado?”. Para pesar da atual gestão do Itamaraty, que decidiu que saber inglês não é condição fundamental para alguém ser aceito na carreira diplomática, o consenso foi de que por muito tempo o inglês será a língua dos negócios e da diplomacia internacionais.
O mesmo Itamaraty que, ao levar ao pé da letra o auto-elogio do governo que se quer “republicano”, retira de suas salas retratos e bustos de antigos diplomatas e autoridades do Império, e até mesmo de Dom Pedro II. Diz-se que alguns permanecerão em Brasília em salas secundárias, e outros virão para o Rio. Um dos retratos que saiu é o do chamado Dandi (Amaro Guedes Pinto, pintado por Antônio Manuel da Fonseca, pintor do Rei de Portugal em 1830), que trabalhava na legação junto à Santa Sé, retratado em uniforme de botões dourados com as iniciais P II, sob a coroa imperial.
À propósito, diplomatas estão lembrando passagem da vida de Machado de Assis, quando, proclamada a República, quiseram retirar da sua repartição o retrato do Imperador. Machado retrucou: “O retrato do imperador entrou aqui por decreto, e só sai por decreto.” No caso do Itamaraty, os retratos saíram sem decreto, mas o inglês deixou de ser eliminatório no exame do Instituto Rio Branco por decreto do chanceler Celso Amorim.
Em Davos, a importância crescente do inglês foi analisada, especialmente depois que a globalização abriu os mercados mundiais e criou novas oportunidades para empresas, tanto nos países desenvolvidos como nos em desenvolvimento. Nesse mundo crescentemente interligado, a habilidade de se comunicar superando a barreira da linguagem ficou mais importante do que nunca. Houve um consenso de que, no presente momento, o inglês é o que há de mais próximo de uma língua global dos negócios.
De acordo com levantamentos do British Council, a estimativa é de que mais de um bilhão de pessoas estão aprendendo inglês pelo mundo, 375 milhões têm o inglês como língua nativa, e 750 milhões de pessoas já falam inglês como segunda língua. Segundo os especialistas, o domínio do inglês é baseado em inúmeros fatores, a começar pela importância histórica, em termos econômicos, dos países de língua inglesa, primeiro o Império Britânico, depois os Estados Unidos e sua influência econômica no mundo.
Os comentaristas também consideraram que o inglês se mantém como o idioma dominante no mundo dos negócios porque responde rapidamente às forças do mercado, é maleável a adaptações e mudanças. Algumas nações são mais protetoras de seus idiomas, algumas até aprovaram leis insistindo para que em certas situações, especialmente em negócios, a língua nativa seja protegida, como quer no Brasil o projeto do ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo.
Aqui na França, por exemplo, os anúncios, quando escritos em inglês, têm obrigatoriamente que conter a tradução para o francês, mesmo que em tipo menor. Alguns países — como a própria França, a Alemanha e a Espanha — têm academias e institutos bastante influentes para preservar e regular as normas gramaticais.
Com o avanço da globalização e a redução do predomínio das economias ocidentais — os países asiáticos, especialmente a China, estão surgindo como futuras potências emergentes — alguns comentaristas acham que a prevalência da língua inglesa poderá decair, embora uma piada indique que existem mais pessoas na China aprendendo a falar inglês do que nos Estados Unidos.
O inglês não é o idioma mais falado no mundo, cabendo esse título ao mandarim, que é o primeiro idioma de 800 milhões de pessoas, sendo que outras 200 milhões o falam. Porém, mesmo com a possibilidade de que a China supere os Estados Unidos como potência econômica, é pouco provável que o mandarim vire o idioma internacional dos negócios.
Mesmo agora, o governo chinês está tomando providências para que o inglês seja ensinado para todos os alunos, à exemplo do que já faz o Chile e do que está prometendo fazer o provável futuro primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, do Partido Socialista.
O GLOBO Ali Kamel Lula e o ‘classismo’
Aface mais feia da sociedade brasileira, mas que freqüentemente se manifesta de maneira inconsciente, é o que chamo de “classismo”: o preconceito contra os pobres. Estou cada vez mais seguro de que o racismo decorre essencialmente do “classismo”. O negro que dirige um carro de luxo e é confundido com um motorista, e, por isso, maltratado, é mais vítima de “classismo” do que de racismo. Uma vez desfeito o mal-entendido, um tapete vermelho se estende para a vítima. Em outros países, o negro, mesmo rico, continuaria a ser discriminado, dirigindo um fusca ou um Mercedes. Isso não torna o “classismo” menos odioso que o racismo. São sentimentos igualmente repulsivos, como toda forma de preconceito.
O fenômeno do “classismo” faz vítimas independentemente da cor ou mesmo da posição que o sujeito ocupa. Se tiver deixado de ser pobre, ele será aceito em todos os salões, mas correrá sempre o risco de ouvir risadas por detrás. Uma vítima recorrente do “classismo”, eu não tenho dúvida, é o presidente Lula.
A compra do avião presidencial, a reforma no Alvorada, a verba de manutenção do Planalto, a compra de roupões de algodão egípcio e até a aquisição de duas ambulâncias para acompanhar as comitivas presidenciais se prestaram a toda sorte de impropérios. “Lula está deslumbrado com o poder” foi o mínimo que andei lendo. A falta de cerimônia foi tanta que escreveram em mais de um lugar que o projeto de Lula não é político, mas de ascensão social. Coisa mais brutalmente ofensiva não existe.
E injusta. Num país com as nossas dimensões, um avião é absolutamente necessário. Em janeiro de 2003, na primeira viagem ao exterior, Lula usou um avião de carreira, com imensos transtornos para os passageiros e com inconvenientes que não devem ser vividos por um presidente.
Lula chegou a Davos sem dormir direito, com os cabelos desalinhados, com a cara amassada, mas tendo de se encontrar, ainda no aeroporto, com autoridades e jornalistas. Um presidente da República, aqui e em qualquer lugar, não é um cidadão comum: ele deve chegar a seus encontros pronto para trabalhar no melhor estado físico, mental e de espírito possível. Não para o bem dele, mas para o bem do país. Desde JK, presidentes brasileiros dispõem de avião. O último deles durou 40 anos.
Da mesma maneira, a reforma do Palácio da Alvorada não está sendo feita para agradar ao presidente Lula ou em seu benefício pessoal. Trata-se de um patrimônio da União e mantê-lo em bom estado é uma obrigação. O presidente incorreria em crime se deixasse que o palácio se deteriorasse: e, com 45 anos de uso, o estado dele clamava por uma reforma. Temendo gastar recursos do orçamento, Lula teve a idéia de pedir a ajuda de empresários — e foi criticado por isso. Difícil entender: se gasta dinheiro do orçamento, como no caso do avião, Lula é criticado; se não gasta, como no caso da reforma, é criticado igualmente.
No Palácio do Planalto, as instalações, sóbrias, precisam de reforma, sempre adiada. Na portaria, a traquitana de detectores de metal está instalada de maneira precária e o guarda-volumes é uma estante improvisada de madeira compensada. Nas pilastras que dão sustentação ao prédio, uma mesma tomada elétrica é usada por muitos aparelhos, ligados a benjamins. A cadeira de pelo menos um secretário com status de ministro está puída e muitas das que servem aos funcionários também. Portas estão com o revestimento danificado. E, no entanto, a simples troca da empresa que faz a manutenção de rotina por outra, ao fim do contrato e de acordo com licitação pública, provocou críticas.
Igualmente injusta é a crítica quanto aos roupões de algodão egípcio e a aquisição de novas ambulâncias. O tipo de roupão não é definido pessoalmente por Lula, mas por quem cuida disso na Presidência. Os roupões devem servir ao presidente e aos seus convidados, muitos deles chefes de Estado e de governo. Trata-se de um padrão, adotado pelo Palácio muito antes de Lula chegar lá. O mesmo em relação às ambulâncias: é uma regra elementar de segurança dar ao presidente da Republica o melhor atendimento médico. De novo, não em benefício dele, mas do país.
Imagine o leitor que Lula decidisse comprar roupões de chita, deixasse o Alvorada com goteiras, o Planalto sem manutenção, e vetasse a compra das ambulâncias. Aqueles que o criticam agora, acusando-o de deslumbramento, seriam os mesmos a ridicularizá-lo, dizendo, talvez, que só mesmo um presidente operário para fazer demagogia com roupões, descuidar de prédios públicos e ser imprevidente com a própria saúde, desconsiderando o fato de que é presidente. Essa é a lógica do preconceito. É como se acusassem Lula de ter concordado com todas aquelas iniciativas não por se submeter às regras do Estado, mas porque, tendo sido muito pobre, pretende agora usufruir das benesses de uma temporária vida de rico. Nada na história de Lula e no seu comportamento na Presidência permite uma crítica assim. É um xingamento.
Lula e seu governo devem ser criticados ou elogiados pelo que de substantivo fazem. Querer desmerecer a sua figura com acusações que só fazem sentido se a sua condição de classe é levada em conta é exercitar um preconceito que, mesmo inconsciente, é inaceitável.
PS: Fenômeno curioso, o “classismo” não acomete apenas ricos, mas pobres também.
ALI KAMEL é jornalista.
O fenômeno do “classismo” faz vítimas independentemente da cor ou mesmo da posição que o sujeito ocupa. Se tiver deixado de ser pobre, ele será aceito em todos os salões, mas correrá sempre o risco de ouvir risadas por detrás. Uma vítima recorrente do “classismo”, eu não tenho dúvida, é o presidente Lula.
A compra do avião presidencial, a reforma no Alvorada, a verba de manutenção do Planalto, a compra de roupões de algodão egípcio e até a aquisição de duas ambulâncias para acompanhar as comitivas presidenciais se prestaram a toda sorte de impropérios. “Lula está deslumbrado com o poder” foi o mínimo que andei lendo. A falta de cerimônia foi tanta que escreveram em mais de um lugar que o projeto de Lula não é político, mas de ascensão social. Coisa mais brutalmente ofensiva não existe.
E injusta. Num país com as nossas dimensões, um avião é absolutamente necessário. Em janeiro de 2003, na primeira viagem ao exterior, Lula usou um avião de carreira, com imensos transtornos para os passageiros e com inconvenientes que não devem ser vividos por um presidente.
Lula chegou a Davos sem dormir direito, com os cabelos desalinhados, com a cara amassada, mas tendo de se encontrar, ainda no aeroporto, com autoridades e jornalistas. Um presidente da República, aqui e em qualquer lugar, não é um cidadão comum: ele deve chegar a seus encontros pronto para trabalhar no melhor estado físico, mental e de espírito possível. Não para o bem dele, mas para o bem do país. Desde JK, presidentes brasileiros dispõem de avião. O último deles durou 40 anos.
Da mesma maneira, a reforma do Palácio da Alvorada não está sendo feita para agradar ao presidente Lula ou em seu benefício pessoal. Trata-se de um patrimônio da União e mantê-lo em bom estado é uma obrigação. O presidente incorreria em crime se deixasse que o palácio se deteriorasse: e, com 45 anos de uso, o estado dele clamava por uma reforma. Temendo gastar recursos do orçamento, Lula teve a idéia de pedir a ajuda de empresários — e foi criticado por isso. Difícil entender: se gasta dinheiro do orçamento, como no caso do avião, Lula é criticado; se não gasta, como no caso da reforma, é criticado igualmente.
No Palácio do Planalto, as instalações, sóbrias, precisam de reforma, sempre adiada. Na portaria, a traquitana de detectores de metal está instalada de maneira precária e o guarda-volumes é uma estante improvisada de madeira compensada. Nas pilastras que dão sustentação ao prédio, uma mesma tomada elétrica é usada por muitos aparelhos, ligados a benjamins. A cadeira de pelo menos um secretário com status de ministro está puída e muitas das que servem aos funcionários também. Portas estão com o revestimento danificado. E, no entanto, a simples troca da empresa que faz a manutenção de rotina por outra, ao fim do contrato e de acordo com licitação pública, provocou críticas.
Igualmente injusta é a crítica quanto aos roupões de algodão egípcio e a aquisição de novas ambulâncias. O tipo de roupão não é definido pessoalmente por Lula, mas por quem cuida disso na Presidência. Os roupões devem servir ao presidente e aos seus convidados, muitos deles chefes de Estado e de governo. Trata-se de um padrão, adotado pelo Palácio muito antes de Lula chegar lá. O mesmo em relação às ambulâncias: é uma regra elementar de segurança dar ao presidente da Republica o melhor atendimento médico. De novo, não em benefício dele, mas do país.
Imagine o leitor que Lula decidisse comprar roupões de chita, deixasse o Alvorada com goteiras, o Planalto sem manutenção, e vetasse a compra das ambulâncias. Aqueles que o criticam agora, acusando-o de deslumbramento, seriam os mesmos a ridicularizá-lo, dizendo, talvez, que só mesmo um presidente operário para fazer demagogia com roupões, descuidar de prédios públicos e ser imprevidente com a própria saúde, desconsiderando o fato de que é presidente. Essa é a lógica do preconceito. É como se acusassem Lula de ter concordado com todas aquelas iniciativas não por se submeter às regras do Estado, mas porque, tendo sido muito pobre, pretende agora usufruir das benesses de uma temporária vida de rico. Nada na história de Lula e no seu comportamento na Presidência permite uma crítica assim. É um xingamento.
Lula e seu governo devem ser criticados ou elogiados pelo que de substantivo fazem. Querer desmerecer a sua figura com acusações que só fazem sentido se a sua condição de classe é levada em conta é exercitar um preconceito que, mesmo inconsciente, é inaceitável.
PS: Fenômeno curioso, o “classismo” não acomete apenas ricos, mas pobres também.
ALI KAMEL é jornalista.
O GLOBO Miriam Leitão Rombo anunciado
Era previsível. Com o PT no governo, e, portanto, no comando dos fundos de pensão das estatais, seria retomada a prática de produzir déficits nos fundos para serem cobertos pelo dinheiro público. A Petros apresentou agora a inacreditável conta de R$ 13 bilhões à Petrobras e ela, em fato relevante, informa que a diretoria aprovou a conta. Esse rombo não existiria se tivesse sido adotado o sistema de contribuição definida que o ex-presidente Carlos Flory propôs e que foi rejeitado pelos sindicalistas que ocupavam postos na diretoria da Petros.
O Fato Relevante divulgado pela empresa na véspera do carnaval informa que a diretoria da Petrobras já aprovou “as novas premissas atuariais”. No governo, há quem chame essas novas premissas de “Plano Matusalém”. Fica consagrado que funcionário da Petrobras vive mais de dez anos além de um brasileiro comum. Aumentar a expectativa de vida nos cálculos do fundo leva a rombo. Só não seria assim se o plano fosse de contribuição definida, como Flory tentou. O Tesouro está preocupado com o assunto e, nas últimas horas, tentava entender a repercussão da medida.
Essa é uma velha briga em defesa dos recursos públicos. Eles foram transferidos em volumes vergonhosos ao longo das décadas para os fundos de pensão das empresas e bancos estatais e aqui já publiquei inúmeras colunas sobre a iniqüidade desse sistema. Nessa briga, o PT sempre ficou com o lado corporativista. Agora que governa o país teria a obrigação de defender o interesse público, ou seja, o dinheiro de todos. É um grande teste.
Tudo se passa na aposentadoria no Brasil como se houvesse três classes de trabalhadores. Para duas delas, já houve reformas que diminuíram vantagens e aumentaram as obrigações. Os trabalhadores do setor privado se aposentam apenas com o limite do INSS e, nos últimos anos, pelo fator previdenciário, tiveram sua idade mínima elevada para a aposentadoria. Os funcionários públicos enfrentaram a primeira reforma da previdência do governo Lula com redução dos vencimentos e elevação da idade para aposentadoria. O terceiro grupo — e mais privilegiado — é o dos funcionários das estatais: eles têm um sem-número de vantagens e vetam qualquer tipo de modernização das regras que tornem os fundos sustentáveis. Freqüentemente, olham para os números, concluem que o balanço não fecha e mandam a conta para o dono da empresa, ou seja, o governo, e para o acionista minoritário. Para esse terceiro grupo, os privilégios continuam intocados.
No governo Fernando Henrique, acabou-se com um dos absurdos ao se estabelecer a contribuição um para um nos fundos de pensão. Antes, as empresas tinham que depositar o dobro do recolhido pelo funcionário. Acabava sendo mais, por causa dos rombos. Houve tempo em que a contribuição da empresa era muitas vezes maior do que a dos funcionários.
Os fundos de pensão das empresas e bancos públicos sempre tiveram entre seus diretores militantes do partido barrando qualquer tentativa de encontrar soluções racionais para esse disparate que já levou incalculáveis bilhões do contribuinte para garantir as aposentadorias dos funcionários das estatais e benefícios além do razoável. A migração para contribuição definida nunca foi aceita pelos líderes que hoje comandam as instituições. Em todas as empresas que foram privatizadas, a primeira providência dos novos donos era fazer a migração. Pelo benefício definido, o funcionário já sabe que ganhará como aposentado a renda do fim da sua carreira; o topo salarial. E o fundo que se vire para ter receita para tanto. Por isso, ele freqüentemente refaz as contas e descobre que o dinheiro não é suficiente e manda a conta para a empresa. Esse sistema é cronicamente deficitário. Pela contribuição definida, o funcionário faz seus recolhimentos e receberá no fim o resultado da rentabilidade de suas aplicações e depósitos feitos pela empresa em seu nome. A vantagem é que o segundo é mais sustentável, é o sistema usado por todos os fundos de pensão equilibrados e aumenta o comprometimento do funcionário com a fiscalização das decisões dos administradores do fundo.
No passado recente, as empresas e bancos já fizeram enormes transferências para os fundos de pensão. Apenas um dos acordos feitos pelo Banco do Brasil transferiu, no governo FH, R$ 11 bilhões para a Previ. A Petros recebeu sucessivas capitalizações nos últimos sete anos. Uma delas de R$ 8 bilhões. E, agora, a nova conta é apresentada aos contribuintes em geral e aos acionistas em particular.
Em reportagem no último fim de semana, “O Estado de S.Paulo” captou uma declaração de uma fonte da área econômica dizendo que a decisão da Petrobras de transferir R$ 13 bilhões para a Petros não deve ter impacto fiscal. No raciocínio bisonho desse funcionário, o gasto vai ser diluído no tempo, então não será problema. Ou seja, se a facada for em prestações, não mata a vítima.
A jornalista Suely Caldas somou o que a Petrobras já gastou nos últimos sete anos com o que pretende gastar agora e concluiu que, se o dinheiro fosse destinado ao Bolsa Família, beneficiaria 6,5 milhões de famílias por mais de cinco anos. Este é o ponto: o governo, ao aceitar pagar sem discussão esse extravagante rombo, está reduzindo o dinheiro que deveria ser destinado a quem realmente precisa.
Folha de S.Paulo - LUÍS NASSIF A Terra do São Nunca - 10/02/2005
Não assisti A "Em Busca da Terra do Nunca", que está passando nos cinemas de São Paulo desde sexta-feira passada. Dia desses, o filme foi apresentado como argumento contra os financiamentos do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Especialmente o tic-tac do crocodilo, comparado à bomba-relógio que seriam os subsídios embutidos nos financiamentos do banco.
Mesmo sem entender as ilações, os argumentos brandidos são um belo laboratório dos truques de retórica que têm povoado a discussão econômica atual.
O primeiro estratagema retórico é o chamado "sofisma da solução ótima". Troca-se uma solução existente por uma solução ótima, mas que não existe para entrega. Trocam-se os financiamentos do BNDES por um mercado com ambiente de negócios americano, certeza jurídica britânica, taxa de crescimento asiática. Mas cadê esse paraíso? É o mesmo argumento daqueles que advogam corte nos gastos sociais como solução para a falta de eficiência na sua aplicação.
O segundo estratagema é criar uma alternativa socialmente legítima, mesmo que não tenha nada a ver, para reforçar os argumentos. Tipo quem é a favor dos financiamentos do BNDES é contra investimento em educação e saúde. E certamente contra a cura da Aids. O "funding" do BNDES sai de um caldeirão chamado FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), criado para garantir o seguro-desemprego. Recursos da educação saem do caldeirão Orçamento -o mesmo de onde saem os recursos para pagamento da dívida pública, diretamente influenciada pela taxa Selic.
Considera-se subsídio quando o custo de aplicação de um dinheiro é inferior ao custo de captação. O que o BNDES cobra nos financiamentos é maior do que a remuneração exigida pelo FAT. Como se faz para inverter a lógica? É simples: basta comparar o custo dos financiamentos do BNDES com a taxa Selic, que não incide em um milímetro no "funding" do banco.
O que é normal: taxas de 9,75% ao ano, como a TJLP (indexador dos financiamentos do BNDES), ou taxas de 18,25% ao ano, como a Selic? Ambas não são muito normais, mas a menos normal é a taxa Selic. Aí se entra no terceiro truque de retórica, que consiste em tratar o anormal como sendo o padrão. Para quem aprecia citações, "O Alienista", de Machado de Assis, viria a calhar.
O quarto truque de retórica é apresentar o fim do mundo como única alternativa às propostas. Os "subsídios" dos financiamentos do BNDES são uma bomba-relógio que, em breve, destruirá a economia.
Ou seja, se, além da falta de ambiente econômico adequado, do excesso de tributação, dos juros absurdos, secarem-se as fontes de financiamento de longo prazo, se todas as taxas da economia confluírem para a Selic, tornando proibitivos todos os financiamentos de longo prazo, aí a bomba-relógio será desarmada. Certamente no Dia de São Nunca. Foi aí que entendi a relação com a Terra do Nunca. E com o Capitão Gancho.
Mesmo sem entender as ilações, os argumentos brandidos são um belo laboratório dos truques de retórica que têm povoado a discussão econômica atual.
O primeiro estratagema retórico é o chamado "sofisma da solução ótima". Troca-se uma solução existente por uma solução ótima, mas que não existe para entrega. Trocam-se os financiamentos do BNDES por um mercado com ambiente de negócios americano, certeza jurídica britânica, taxa de crescimento asiática. Mas cadê esse paraíso? É o mesmo argumento daqueles que advogam corte nos gastos sociais como solução para a falta de eficiência na sua aplicação.
O segundo estratagema é criar uma alternativa socialmente legítima, mesmo que não tenha nada a ver, para reforçar os argumentos. Tipo quem é a favor dos financiamentos do BNDES é contra investimento em educação e saúde. E certamente contra a cura da Aids. O "funding" do BNDES sai de um caldeirão chamado FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador), criado para garantir o seguro-desemprego. Recursos da educação saem do caldeirão Orçamento -o mesmo de onde saem os recursos para pagamento da dívida pública, diretamente influenciada pela taxa Selic.
Considera-se subsídio quando o custo de aplicação de um dinheiro é inferior ao custo de captação. O que o BNDES cobra nos financiamentos é maior do que a remuneração exigida pelo FAT. Como se faz para inverter a lógica? É simples: basta comparar o custo dos financiamentos do BNDES com a taxa Selic, que não incide em um milímetro no "funding" do banco.
O que é normal: taxas de 9,75% ao ano, como a TJLP (indexador dos financiamentos do BNDES), ou taxas de 18,25% ao ano, como a Selic? Ambas não são muito normais, mas a menos normal é a taxa Selic. Aí se entra no terceiro truque de retórica, que consiste em tratar o anormal como sendo o padrão. Para quem aprecia citações, "O Alienista", de Machado de Assis, viria a calhar.
O quarto truque de retórica é apresentar o fim do mundo como única alternativa às propostas. Os "subsídios" dos financiamentos do BNDES são uma bomba-relógio que, em breve, destruirá a economia.
Ou seja, se, além da falta de ambiente econômico adequado, do excesso de tributação, dos juros absurdos, secarem-se as fontes de financiamento de longo prazo, se todas as taxas da economia confluírem para a Selic, tornando proibitivos todos os financiamentos de longo prazo, aí a bomba-relógio será desarmada. Certamente no Dia de São Nunca. Foi aí que entendi a relação com a Terra do Nunca. E com o Capitão Gancho.
Folha de S.Paulo - Janio de Freitas: Os aniversariantes - 10/02/2005
Sejam quais forem os verdadeiros motivos dos condutores do PT para dispensar uma comemoração histórica hoje, como se esperaria de um partido popular que chega a um quarto de século, a decisão já estava previamente justificada, e não de pouco tempo. A celebração íntima entre uns poucos da cúpula partidária e do governo, quase como um aniversário em família, é muito mais apropriada. Não por discrição, que os 25 anos de um partido de massas não a requereriam. Por uma razão que se impõe a todo o partido e reflete muito além dele: o PT foi privatizado por um pequeno grupo, que o conduz e utiliza sem levar em consideração, seja para o que for, o corpo partidário.
O populismo assistencialista, ou meramente caritativo, do governo petista é mais do que uma modalidade de conservadorismo. É populismo com tonalidade direitista, não muito diferente, na essência, do que foi praticado por um Adhemar de Barros, para exemplificar. O que tem o PT a ver com tal populismo? Ninguém encontraria jamais, por tênue que fosse, uma conexão entre os dois. É em nome do PT e dos petistas, no entanto, que o governo pratica o populismo assistencialista.
Ao assumir o governo, a cúpula do PT pôs em prática, sem nenhum tipo de consulta ou outra consideração ao corpo partidário, um conjunto de políticas que renegam o próprio petismo. Ao primeiro sinal de fidelidade às idéias e à história partidárias, a cúpula organizou a imediata condenação à pena capital na política - a expulsão. O terror se instituiu como método de condução partidária, na relação com as representações do petismo na Câmara, no Senado, nas Assembléias e nos diretórios regionais. Que o digam a hoje prefeita Luizianne, de Fortaleza, o derrotado Raul Pont em Porto Alegre, agora mesmo o deputado Virgílio Guimarães, que responde, como candidato avulso à presidência da Câmara, à arbitrariedade trapaceira que o alijou da indicação pela bancada.
A democracia petista foi-se. Os petistas têm muita dificuldade de percebê-lo, mas o que o grupo privatizador do PT pratica é tê-los como massa de manobra. A analogia parecerá talvez exagerada, mas o PT, de tanta originalidade no passado, em sua prática política de hoje em dia começa a lembrar a sujeição da Arena e do PDS. Ouvir José Genoino e os líderes parlamentares do PT, justificando tudo o que repeliram na vida toda, é ouvir outra vez, freqüentemente até com as mesmas palavras, os "líderes" arenistas que tudo deviam justificar.
O PT ficou mais velho do que a sua idade.
Criado como alternativa para a esquerda alheia ao PCB, o PT privatizado se tornou uma alternativa cômoda e rentável para a direita.
O populismo assistencialista, ou meramente caritativo, do governo petista é mais do que uma modalidade de conservadorismo. É populismo com tonalidade direitista, não muito diferente, na essência, do que foi praticado por um Adhemar de Barros, para exemplificar. O que tem o PT a ver com tal populismo? Ninguém encontraria jamais, por tênue que fosse, uma conexão entre os dois. É em nome do PT e dos petistas, no entanto, que o governo pratica o populismo assistencialista.
Ao assumir o governo, a cúpula do PT pôs em prática, sem nenhum tipo de consulta ou outra consideração ao corpo partidário, um conjunto de políticas que renegam o próprio petismo. Ao primeiro sinal de fidelidade às idéias e à história partidárias, a cúpula organizou a imediata condenação à pena capital na política - a expulsão. O terror se instituiu como método de condução partidária, na relação com as representações do petismo na Câmara, no Senado, nas Assembléias e nos diretórios regionais. Que o digam a hoje prefeita Luizianne, de Fortaleza, o derrotado Raul Pont em Porto Alegre, agora mesmo o deputado Virgílio Guimarães, que responde, como candidato avulso à presidência da Câmara, à arbitrariedade trapaceira que o alijou da indicação pela bancada.
A democracia petista foi-se. Os petistas têm muita dificuldade de percebê-lo, mas o que o grupo privatizador do PT pratica é tê-los como massa de manobra. A analogia parecerá talvez exagerada, mas o PT, de tanta originalidade no passado, em sua prática política de hoje em dia começa a lembrar a sujeição da Arena e do PDS. Ouvir José Genoino e os líderes parlamentares do PT, justificando tudo o que repeliram na vida toda, é ouvir outra vez, freqüentemente até com as mesmas palavras, os "líderes" arenistas que tudo deviam justificar.
O PT ficou mais velho do que a sua idade.
Criado como alternativa para a esquerda alheia ao PCB, o PT privatizado se tornou uma alternativa cômoda e rentável para a direita.
Folha de S.Paulo -ELIANE CANTANHÊDE Parabéns, PT!- 10/02/2005
BRASÍLIA - Em 1985, depois de lutar pelas diretas-já, o PT renegou seu efeito: a eleição de Tancredo Neves pelo colégio indireto. Por isso, perdeu os deputados Ayrton Soares, Bete Mendes e José Eudes, que ficaram com a história, não com o partido.
Em 1988, depois de atuar a fundo na constituinte, o PT reagiu ostensivamente contra a nova Carta.
Em 1992, depois de encabeçar o processo de impeachment de Collor, o PT lavou as mãos em relação ao governo Itamar Franco -conhecido e reconhecido como de transição, uma responsabilidade de todos. Luiza Erundina, então no PT, foi punida por assumir sua cota dessa responsabilidade e virar ministra.
Aliás, todos os primeiros grandes vitoriosos para cargos executivos acabaram expelidos pelo PT. Maria Luiza Fontenelle (prefeita eleita pelo partido em Fortaleza), a própria Erundina (prefeita de São Paulo), Victor Buaiz (governador do Espírito Santo). Entre seus maiores adversários, perfilava o próprio PT.
Em 1999, depois de intensa discussão, o partido escapou de aderir ao "Fora FHC". Uma armadilha feita para o tucano, mas que mais tarde poderia ser contra o petista Lula.
E por que tanto empenho para criar a CPI do Eduardo Jorge (sem provas) e depois para abafar a do Waldomiro Diniz (com gravação e tudo)?
Foi assim, de radicalismo em radicalismo, que o PT tornou-se o partido do contra tudo e contra todos, o campeão do denuncismo e o símbolo da pureza na política. Até, evidentemente, assumir o poder.
Ao fazer 25 anos hoje, o Partido dos Trabalhadores tem uma bonita história a contar e a comemorar. Mas autocrítica não faz mal a ninguém. Uma, obrigatória, é ter sido tão implacável contra políticas, programas e parcerias que vem repetindo, um a um, às vezes sem tirar nem pôr.
Ou o PT estava errado antes, ao criticar o que tinha de ser feito, ou está errado agora, ao fazer o que condenava. Concessões fazem parte da política, mas tudo tem limite. Resta saber quais são os novos limites do PT.
Em 1988, depois de atuar a fundo na constituinte, o PT reagiu ostensivamente contra a nova Carta.
Em 1992, depois de encabeçar o processo de impeachment de Collor, o PT lavou as mãos em relação ao governo Itamar Franco -conhecido e reconhecido como de transição, uma responsabilidade de todos. Luiza Erundina, então no PT, foi punida por assumir sua cota dessa responsabilidade e virar ministra.
Aliás, todos os primeiros grandes vitoriosos para cargos executivos acabaram expelidos pelo PT. Maria Luiza Fontenelle (prefeita eleita pelo partido em Fortaleza), a própria Erundina (prefeita de São Paulo), Victor Buaiz (governador do Espírito Santo). Entre seus maiores adversários, perfilava o próprio PT.
Em 1999, depois de intensa discussão, o partido escapou de aderir ao "Fora FHC". Uma armadilha feita para o tucano, mas que mais tarde poderia ser contra o petista Lula.
E por que tanto empenho para criar a CPI do Eduardo Jorge (sem provas) e depois para abafar a do Waldomiro Diniz (com gravação e tudo)?
Foi assim, de radicalismo em radicalismo, que o PT tornou-se o partido do contra tudo e contra todos, o campeão do denuncismo e o símbolo da pureza na política. Até, evidentemente, assumir o poder.
Ao fazer 25 anos hoje, o Partido dos Trabalhadores tem uma bonita história a contar e a comemorar. Mas autocrítica não faz mal a ninguém. Uma, obrigatória, é ter sido tão implacável contra políticas, programas e parcerias que vem repetindo, um a um, às vezes sem tirar nem pôr.
Ou o PT estava errado antes, ao criticar o que tinha de ser feito, ou está errado agora, ao fazer o que condenava. Concessões fazem parte da política, mas tudo tem limite. Resta saber quais são os novos limites do PT.
Folha de S.Paulo - S�o Paulo -CLÓVIS ROSSI Posso ficar tranqüilo? - 10/02/2005
SÃO PAULO - Fico olhando o noticiário econômico e as previsões de eterna felicidade por parte dos governistas ou a ameaça de catástrofe na primeira curva da esquina, segundo os oposicionistas.
Nos primeiros, não acredito por vício profissional -e nunca me dei mal pela descrença. Nos segundos, tenderia até a acreditar porque catástrofe, convenhamos, é a praia em que melhor nadamos os jornalistas. Mas o meu lado ingênuo -e de confiança nas autoridades- me diz que não é possível que sejam cometidos de novo os erros que acabaram levando a catástrofes anteriores.
Aí, o jornal "Valor Econômico" de ontem sai com esta avaliação do colunista Luiz Sérgio Guimarães:
"Mesmo a R$ 2,6140, o dólar está em patamar de âncora cambial". Seguem-se as contas sobre a cotação de dezembro de 1998, véspera do colapso cambial, para demonstrar que, feitas as devidas correções pela inflação, o valor do dólar em relação ao real é muito parecido com o da crise.
Há, é verdade, uma importante diferença: as autoridades da época orgulhavam-se do real tão forte quanto o dólar ou quase. Hoje, as autoridades parecem apenas impotentes, mas não orgulhosas. Prova-o o ministro Palocci com sua declaração sobre o fato de o dólar estar caindo no mundo todo sem que o Brasil tenha poderes para conter tal queda. Já se viu que não é bem assim: o real valorizou-se muito mais que outras moedas, mas deixemos barato.
Como o dólar está caindo em toda parte, também não parece haver risco de uma súbita valorização da moeda norte-americana, como aconteceu no início de 1999. Posso dormir tranqüilo, então?
Poderia, se a Folha não tivesse lembrado frase do então ministro Pedro Malan sobre as negociações com o FMI: "Eu quero reiterar que não teremos uma maxidesvalorização".
Tivemos, sim. Uma baita desvalorização. Malan era doutor em economia, ao passo que o atual ministro é médico e alguns de seus assessores eram apenas subs de Malan. É melhor ou pior assim?
Nos primeiros, não acredito por vício profissional -e nunca me dei mal pela descrença. Nos segundos, tenderia até a acreditar porque catástrofe, convenhamos, é a praia em que melhor nadamos os jornalistas. Mas o meu lado ingênuo -e de confiança nas autoridades- me diz que não é possível que sejam cometidos de novo os erros que acabaram levando a catástrofes anteriores.
Aí, o jornal "Valor Econômico" de ontem sai com esta avaliação do colunista Luiz Sérgio Guimarães:
"Mesmo a R$ 2,6140, o dólar está em patamar de âncora cambial". Seguem-se as contas sobre a cotação de dezembro de 1998, véspera do colapso cambial, para demonstrar que, feitas as devidas correções pela inflação, o valor do dólar em relação ao real é muito parecido com o da crise.
Há, é verdade, uma importante diferença: as autoridades da época orgulhavam-se do real tão forte quanto o dólar ou quase. Hoje, as autoridades parecem apenas impotentes, mas não orgulhosas. Prova-o o ministro Palocci com sua declaração sobre o fato de o dólar estar caindo no mundo todo sem que o Brasil tenha poderes para conter tal queda. Já se viu que não é bem assim: o real valorizou-se muito mais que outras moedas, mas deixemos barato.
Como o dólar está caindo em toda parte, também não parece haver risco de uma súbita valorização da moeda norte-americana, como aconteceu no início de 1999. Posso dormir tranqüilo, então?
Poderia, se a Folha não tivesse lembrado frase do então ministro Pedro Malan sobre as negociações com o FMI: "Eu quero reiterar que não teremos uma maxidesvalorização".
Tivemos, sim. Uma baita desvalorização. Malan era doutor em economia, ao passo que o atual ministro é médico e alguns de seus assessores eram apenas subs de Malan. É melhor ou pior assim?
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