Entrevista:O Estado inteligente

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quinta-feira, outubro 19, 2006

Tarso Genro contra Demétrio Magnoli - 3


Demétrio Magnoli, eu e muita gente somos contra a implementação da política de cotas raciais nas universidades e o chamado Estatuto da Igualdade Racial. Entendemos que tais políticas, ao contrário de combater o racismo, acabam por institucionalizá-lo. Já participei de alguns debates a respeito. Compareci a um, não faz tempo, na Associação Comercial de São Paulo. Uma ONG, que defende as cotas, chegou a fazer uma convocação, por meio da Internet, para que seus militantes comparecessem ao local. Muitos foram. Alguns tentaram me impedir de falar. Não conseguiram.

Dou grande destaque a esta questão porque estamos vivendo dias muito delicados. O odor que emana de certos procedimentos não é nada bom. Também ele, a exemplo do neo-racismo, remete a um passado perigoso. Há uma máquina sendo organizada no país para satanizar as diferenças e calar o pensamento que ousa divergir do Poder. No programa Roda Viva, Lula, ninguém menos do que o Sumo Sacerdote do petismo, indagado sobre a mentira que o PT espalha de que Alckmin, se eleito, vai privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil, respondeu simplesmente: “Ele que desminta”.

O próprio Tarso Genrso, este que agora ameaça Magnoli com processo, referindo-se a uma afirmação de Alckmin, saiu-se com esta: “No debate que ocorreu na Bandeirantes, ele demonstrou seu lado vendedor, dizendo que ia privatizar o avião da República. Agora está demonstrando um outro lado que é mais perigoso, o lado Pinochet, porque esta ameaça que um governo que será eleito democraticamente não vai começar revela um lado mais Opus Dei do que republicano".

Tarso usava uma das táticas habituais do PT: distorcer a fala do adversário e atribuir-lhe intenções inexistentes, agregando-lhe ilações sorrateiras. Alckmin havia afirmado simplesmente que, dado o plantel de escândalos, um eventual novo governo Lula já nasceria sob o signo de 2010. Em nenhum momento deixou entrever a possibilidade de que Lula não tomará posse.
A referência de Tarso a Pinochet tenta associar o candidato ao golpismo — quando foram os aloprados do dossiê que tentaram dar um golpe — e a referência ao Opus Dei, na mesma frase em que aparece o ex-ditador chileno, busca tanto associar o ex-governador à prelazia papal, o que é uma mentira, como atribuir a um grupo religioso uma vocação antidemocrática. Tarso é quem tem de se explicar, não Magnoli. Se eu fosse do Opus Dei — não sou, como dizem, e só observo porque é fato, não porque dê bola aos espadachins da reputação alheia —, entraria com uma ação na Justiça obrigando Tarso a se explicar.

Quem deve satisfações à sociedade é o PT de Tarso Genro. Não só por conta dos 40 quadrilheiros, do mensalão, do cuecão, dos sanguessugas, dos aloprados do dossiê. Mas também pela filiação do PT ao Foro de São Paulo, uma entidade fundada por Lula, da qual participam as Farc — Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, um grupo narcoterrorista. Diogo Mainardi, eu, Magnoli, Alckmin ou o Opus Dei — que não pensamos a mesma coisa e tampouco pertencemos a um partido ou grupo — jamais dividimos a mesa, nem para tomar um café, com facínoras, com assassinos em massa, com traficantes.

É esse o “republicanismo” de Tarso Genro? Não aceita a divergência? Não aceita que suas idéias sejam submetidas a uma análise histórica? Atenção, bravos! Vamos mandar e-mails de protesto ao atual ministro das Relações Institucionais — e-mails com nome, endereço, tudo bonitinho. Em linguagem educada e civilizada. Aproveitem para Lembrar que, como brasileiros, vocês tanto repudiam as táticas de intimidação como esperam que os petistas revelem à sociedade a origem do dinheiro que pagaria o dossiê dos golpistas. Para mandar a sua mensagem, clique aquie selecione o item “Comunicação Imprensa”. Para ler a íntegra do texto de Magnoli, clique aqui.

Só para lembrar
O texto de Magnoli é de abril. Em junho de 2005, estourou o escândalo do mensalão. Tarso deixou o Ministério da Educação para presidir o PT. Prometeu a refundação do partido. Depois de um razoável imbróglio, o comando da legenda foi parar nas mãos de Ricardo Berzoniev. O partido foi de tal sorte “refundado”, que a “nova direção” acabou se metendo no escândalo do dossiê. Tarso, que chegou a se colocar como crítico de Genoino, Delúbio, Dirceu e companhia, está de volta ao governo. Antes, o republicano se fingia de manso e caroável. Agora, adota o estilo pitbull.
Por Reinaldo Azevedo

Sociologia de combate Demétrio Magnoli

CLICAR AQUI>>>>, sociólogo, polemista, novo colaborador do GLOBO, faz análise crítica do PT e do projeto de poder de Lula

Tarso Genro contra Demétrio Magnoli - 2

Tarso Genro contra Demétrio Magnoli - 2

Magnoli recebeu uma intimação judicial para dar explicações sobre uma coluna, de cujo conteúdo trato a seguir. É um procedimento prévio para uma eventual ação por “crime contra a honra”. Tarso, obviamente, tem algumas facilidades de que Magnoli não dispõe: advogado de graça. Ele pôs no caso a Advocacia Geral da União, que é paga por você, leitor amigo.

Bem, e o que escreveu, afinal, de tão grave o então articulista da Folha, hoje no Estadão e no Globo? Reproduzo um trecho: “Tarso Genro, investido na função de ministro da Classificação Racial, está empenhado em suprir a lacuna de aprendizado: a partir de agora, por sua decisão, as escolas ficam obrigadas a incluir nas fichas de matrícula a informação sobre ‘cor/raça’ dos alunos. Essa informação associará a cada nome uma ‘raça’, e não está sujeita à regra do sigilo estatístico que cerca as pesquisas do IBGE.”

E continuava: “O ‘racismo científico’ serviu como instrumento de justificação do imperialismo europeu na África e na Ásia, contornando o princípio iluminista de que os seres humanos nascem livres e iguais. A genética desmoralizou o ‘racismo científico’, provando que a espécie humana não se divide em raças. Para preencher o formulário do ministro da Classificação Racial, os pais devem ignorar a ciência e eleger o preconceito como guia.”

É claro que o agora ministro das Relações Institucionais não quer “explicação”. Não há muito o que explicar no que vai acima. Estamos diante de uma tática de intimidação. Até porque, em sua coluna, Magnoli fazia o que não fazem os defensores da classificação racial, das cotas e de outras medidas que chamam de “discriminação positiva”: dizia com quais critérios trabalhava. Reparem no trecho que segue:

Mas o ministro da Classificação Racial, usando o poder burocrático do aparelho de Estado, resolveu invadir todas as escolas do país e ministrar sua própria aula. Tarso Genro, esse herdeiro inesperado do pensamento social racista de Nina Rodrigues (1862-1906) e Oliveira Vianna (1883-1951), está ensinando as crianças a definirem suas identidades segundo o critério da raça. Ele está dizendo às crianças que o Estado divide os cidadãos em cinco grupos raciais.”

Ora, é evidente que Magnoli, como qualquer articulista, recorre a uma força de expressão quando chama Tarso de “ministro da Classificação Racial”. Porque esse ministério não existe, está usando de um recurso retórico para destacar um parentesco de idéias. Parentesco explicitado no texto, quando cita Nina Rodrigues e Oliveira Vianna. É bom notar que Magnoli não sataniza os dois pensadores, equivocados, sim, já a seu tempo, mas, ainda assim, em consonância com certas teorias racistas — ou “racialistas” — influentes na época.

Se Tarso não entendeu o que Magnoli quis dizer, eu o ajudo. Quis dizer, ministro, que a sua política de classificação racial é anacrônica, passadista, velha. Que, sob o pretexto de se fazer política social inclusiva e progressista, suas escolhas eram, ou são, em verdade, reacionárias, passadistas, já superadas pela ciência. E eu ainda não acabei. Continuo no post seguinte.
Por Reinaldo Azevedo

Tarso Genro contra Demétrio Magnoli - 1

Tarso Genro contra Demétrio Magnoli - 1

Alô, mulheres e homens de bem! Temos uma tarefa. Hora de trabalho! Há gente confundindo as coisas no país e inconformada com a liberdade de expressão. Demétrio Magnoli, um dos mais competentes articulistas da imprensa brasileira, foi intimado pela Justiça a se explicar sobre uma coluna de jornal. E quem recorreu ao tribunal para solucionar questões que só podem encontrar a devida tradução no debate democrático? Ninguém menos do que Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais, aquele que gosta de usar — e, a meu juízo, de abusar — de termos como “republicanismo” e “concertação”.

Antes que chegue ao cerne do caso, um pouco sobre Magnoli. Geógrafo, cientista social, é uma das penas mais competentes do jornalismo. Eu até invejo um pouco o seu estilo, sempre firme e muito elegante. Inveja positiva. Quando eu entro numa porfia, admito, a minha mão pesa, às vezes, mais do que gostaria. O que não acontece no caso dele. A coluna que deixou nervoso o advogado Tarso Genro foi publicada, pasmem, na Folha de S. Paulo no dia 14 de abril de 2005, quando ele ainda era ministro da Educação. Magnoli foi intimado a depor só agora.

Vou expor nas notas seguintes o caso em detalhes. Mas é bom deixar claro desde já a tese geral. Os petistas, que fazem terrorismo eleitoral explícito — aliás, estou esperando Tarso aceitar o desafio de Mendonça de Barros para debater as privatizações — também gostam de ameaçar os que consideram seus adversários com o terrorismo jurídico. Diogo Mainardi e eu, por exemplo, temos de ficar nos havendo com ações judiciais e pedidos de explicação por textos que nada mais são do que o livre exercício da crítica. Agora, parece que descobriram também Demétrio Magnoli. Recorrer à Justiça é um direito de todo cidadão. Mas só pessoas movidas a má fé optam pela litigância em assuntos que devem ser resolvidos pelo debate público.
Por Reinaldo Azevedo

O lugar de Delfim por Demétrio Magnoli



Artigo - Demétrio Magnoli
O Estado de S. Paulo
19/10/2006

Lula corteja José Sarney e, no Maranhão, faz dobradinha com Roseana. Lula beija a mão de Jader Barbalho. Lula projeta um mandato “excepcional” para Fernando Collor e recebe, do presidente caído, apoio à sua reeleição. Lula acusa a “elite que governa este país há 500 anos” e, ato contínuo, se apresenta como a reencarnação combinada de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. Na barafunda pós-moderna da política lulista, aparentemente não há nada de singular na confraternização do presidente com o deputado Delfim Netto, o czar econômico da ditadura militar entre 1967 e 1974.

Mas não é tudo igual. Sob a ótica de Lula, as figuras políticas valem pela serventia que podem ter para o seu projeto político pessoal. Sarney é uma peça crucial no arranjo parlamentar lulista. Barbalho controla uma máquina política significativa. Collor tem votos, apesar de tudo. Vargas e JK são monumentos de uma certa memória cujo culto interessa ao salvacionismo lulista. Delfim, por outro lado, nem sequer conseguiu um novo mandato. Ele não mais possui valor tangível. Por que Lula o ressuscitou politicamente e o converteu em estrela de sua campanha?

“Quero dizer da minha alegria de estar aqui com Delfim, uma das pessoas de quem a gente mais divergia na década de 70. Eu, como dirigente sindical, fazia todas as críticas numa época em que a gente tinha no Brasil uma contradição muito forte. Ao mesmo tempo tinha o auge do autoritarismo militar, tinha o auge do crescimento econômico.” São palavras menos convencionais do que parecem: Lula, no fim das contas, tem uma ideologia.

Na consciência política de uma parte da esquerda agrupada no PT, o vazio deixado pela dissolução do socialismo foi preenchido por um nacionalismo tosco que é também amargura e desejo de restauração. Esses órfãos do Muro de Berlim interpretam quase todo o período aberto pelo fim do regime militar como uma queda contínua, um ciclo desastroso que sintetizam por meio do termo “neoliberalismo”. Eles nunca admiraram as virtudes da democracia, essa “invenção burguesa”, e sua combinação com as privatizações e a liberalização comercial pareceu-lhes demonstrar a natureza monstruosa daquilo que veio depois dos generais-presidentes. Ofuscados pelo brilho falso dessa narrativa da nossa história recente, nem sequer enxergam o fato estatístico de que um recuo sustentado da pobreza começou em 1992 e seguiu adiante, governo após governo.

Lula não é de esquerda, mas compartilha essa narrativa da queda. O lulismo, como ideologia política, é um salvacionismo conservador: “O Lula não é o Lula; o Lula é uma parte do povo desse país que adquiriu consciência política. É por isso que eu não caio. Porque eu não sou sozinho. A hora que eles tirarem as minhas pernas, eu vou andar pelas pernas de vocês; a hora que eles tirarem os meus braços, eu vou gesticular pelos braços de vocês; a hora que eles tirarem o meu coração, eu vou amar pelo coração de vocês. E a hora que eles tirarem a minha cabeça, eu vou pensar pela cabeça de vocês.” Esse trecho de um comício eleitoral recente sintetiza o salvacionismo lulista.

No diapasão do discurso do salvador da pátria não há lugar para a trama de mediações institucionais da democracia. Lula e o povo, tornados uma entidade única, preenchem todo o palco e fazem a história inteira. Mas para salvar a pátria o líder que é o povo precisa de um Estado forte, capaz de dar e tirar, proteger e ameaçar, patrocinar e subornar, incorporar e subordinar. A vontade de restaurar um Estado assim é o traço de união entre Lula e a esquerda stalinista.

Na campanha eleitoral de 2001, antes da aliança que acabou por estabelecer com Delfim, Lula fez o elogio da “capacidade de planejamento estratégico” da ditadura militar. A frase passou batida, como tantas outras na babel conceitual lulista. Mas ela se desdobrou no campo plástico da política externa, na qual o discurso é quase tudo, sob a forma de uma restauração da estratégia do Brasil-potência. As proclamações arrogantes da “liderança natural” brasileira na América do Sul e a perseguição obtusa da cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU evidenciaram a força dessas perigosas nostalgias. Felizmente, poucos notaram, mas emergiu das sombras até mesmo uma proposta irresponsável, assinada pelo secretário-geral do Itamaraty, de engajamento do País num programa nuclear com fins militares.

Na saudação a Delfim Netto, Lula elaborou uma interpretação dicotômica da ditadura militar, assentada nos pólos complementares do autoritarismo político e do crescimento econômico. É um recorte histórico arbitrário, que oculta a estagnação da fase derradeira do regime, justamente o momento em que emergiu o sindicalismo do ABC e nasceu o PT. Mas o recorte tem um sentido político, pois se destina a contrastar virtudes econômicas imaginárias do autoritarismo com uma suposta incapacidade da democracia “neoliberal” de promover crescimento e bem-estar.

A vitória eleitoral de Lula, quatro anos atrás, foi saudada como um sinal inequívoco da vitalidade da democracia brasileira. Isso era verdade, mas não toda a verdade. O desenvolvimento do lulismo como um salvacionismo, isto é, como um sistema de poder em atrito com as instituições democráticas, assinala o encerramento de um ciclo histórico na vida nacional.

No ciclo que agora se inicia, as regras do jogo são outras. Lula e Delfim, que simbolizaram vontades e desejos opostos, já podem caminhar lado a lado, como aliados ideológicos genuínos. Lula já pode, como o fez, atribuir o fracasso eleitoral de Delfim à “vingança de um conjunto de elitistas”. As pessoas, acostumadas com as regras antigas, se confundirão por algum tempo. Mas a novidade veio para ficar.

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