sexta-feira, maio 30, 2014

Vai aumentar a burocracia - Jose Casado O Globo

Vai aumentar a burocracia - Jornal O Globo

Vai aumentar a burocracia

Com uma assinatura, Dilma Rousseff autorizou um aumento exponencial da burocracia. Ela determinou em decreto (nº 8.243), publicado na segunda-feira, a criação de "instâncias e mecanismos de participação social". Eles terão poder efetivo "no processo decisório" e também "na gestão" de políticas públicas. O objetivo, segundo o texto, é ampliar o espaço para a "democracia representativa, participativa e direta".

Em plena campanha pela reeleição, a presidente-candidata abre as portas, explicitamente, de "todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta" — ou seja, dos ministérios e das agências federais, autarquias e empresas públicas controladas pela União —, para a atuação dos grupos de pressão e dos chamados movimentos sociais. Sejam "institucionalizados ou não", assim como "suas redes e suas organizações".

Pelo decreto, a curto prazo devem ser instituídos na estrutura do governo federal oito organismos (entre conselhos, comissões e fóruns) vinculados à Secretaria Geral da Presidência, sob comando do paranaense Gilberto Carvalho, de 70 anos, ex-seminarista e diplomado em Filosofia, que há três décadas é um dos principais assessores do ex-presidente Lula.

Há 12 anos, Carvalho coordena o relacionamento da Presidência com sindicatos e organizações não-governamentais. Esse decreto presidencial é, em parte, uma tentativa do secretário-geral de encontrar meios para cooptar frações sindicais e grupos que, na esteira das manifestações de rua de 2013, passaram a ser protagonistas de protestos de rua nos maiores colégios eleitorais.

Nos últimos dez meses Carvalho realizou uma série de viagens para reuniões com ativistas, em todos os estados. Raramente viu-se bem-sucedido na defesa do governo. Há três semanas, foi hostilizado no Rio. Não perdeu a fleuma mesmo quando, sob aplausos da plateia, um ativista depositou na mesa, diante dele, um rolo de papel higiênico.

Dilma, com o decreto, estabelece uma confusão política: em plena campanha, volta a levantar a bandeira da "democracia direta" — algo que propôs no ano passado em resposta às manifestações de rua, sob a forma de uma Constituinte exclusiva, mas o Congresso engavetou. Apresenta a ideia, agora, com a moldura de fato consumado na estrutura de decisão e gestão do governo.

A despeito do efeito no debate político-eleitoral, a consequência imediata e visível será um aumento da burocracia — inclusive com a expansão do espírito "assembleísta" nos complexos processos decisório e operacional das políticas públicas.

Desde o ano passado, o governo demonstra se sentir acuado pelos protestos contra a má qualidade gerencial dos serviços públicos de Saúde, Transportes, Educação e Segurança Pública. A criação de novos conselhos, comissões e fóruns nesses setores tende a dificultar ainda mais a tomada de decisões e o gerenciamento de iniciativas nessas áreas.

Na Saúde, por exemplo, o governo federal mantém 1.358 organismos com poder de decidir sobre a política setorial e determinar os meios de sua execução — informa o Sistema de Organização e Inovação Institucional do Governo Federal (Siorg), que mapeia a estrutura federal. Em Transportes, qualquer decisão passa por 1.024 instâncias. Na Educação, existem 1.036 áreas de gestão e, na Segurança Pública, há 2.375 segmentos operacionais. Isso apenas no âmbito federal.

Essa teia burocrática não admite processos simples. Uma iniciativa no setor de Água, por exemplo, envolve nada menos que 134 órgãos federais. Leis, portarias e normas setoriais até impõem agilidade ao sistema, mas a vida real é outra: o prazo legal para emissão de uma licença ambiental é de 30 dias, mas a concessão pode levar mais de um ano.

Esse enredo burocrático, que pode ficar ainda muito mais complicado, está bem retratado na atual dificuldade de reuniões da presidente da República. Dilma não consegue reunir todo seu ministério. Porque, se resolver convocar seus 39 ministros, dando a cada um um tempo cronometrado de 15 minutos para análise de qualquer decisão governamental, ela passaria mais de nove horas apenas ouvindo. Sem intervalo.



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quinta-feira, maio 29, 2014

Intelectuais fazem manifesto contra protestos com bloqueios

Democracia Política e novo Reformismo: Intelectuais fazem manifesto contra protestos com bloqueios

Intelectuais fazem manifesto contra protestos com bloqueios

• Grupo defende direito a reivindicações, mas também o de ir e vir


Vera Araújo – O Globo


RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO - A onda de greves que se espalhou pelo país, de funcionários públicos, como professores, ou de categorias privadas, como rodoviários e vigilantes, acendeu um debate sobre os limites de cada lado: de um, o trabalhador, que reivindica melhorias, do outro, a própria população, que sofre as consequências da paralisação dos serviços. A questão chegou a um ponto tal de ebulição que, na última segunda-feira, antropólogos, sociólogos e pesquisadores de várias instituições brasileiras assinaram um manifesto público pedindo um basta nos abusos, como o bloqueio de vias públicas, em especial nos horários do rush, que afeta diretamente o direto de ir e vir. Até ontem, o documento já reunia mais de 300 assinaturas.


O manifesto ressalta que o direito de manifestação, assim com o de greve, deve ser preservado dentro dos limites legais. "Exigimos que nossos direitos constitucionais sejam garantidos, não aceitamos vê-los usurpados por pequenos ou grandes grupos que têm direito de se manifestar, mas não de impor seus pontos de vista", diz o texto.


Efeito negativo para a cidade

Um dos que encabeçam o movimento é o presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), o sociólogo e cientista político Simon Schwartzman. Ele diz que andar no Rio de Janeiro ficou "insuportável" e chama a atenção para os problemas causados pela greve dos rodoviários na rotina da cidade.


— Acho que não podemos permitir que os protestos e as greves não aconteçam, mas, definitivamente, eles não vêm ocorrendo da forma adequada. As pessoas têm o direito de greve, de se expressar. É legítimo. Mas há uma estrutura legal e democrática para que sejam atendidas as reivindicações dos grevistas. Não se pode colocar toda uma sociedade envolvida nisso. Se você para os ônibus, as pessoas não vão estudar nem trabalhar. A sociedade também tem o direito de não ser prejudicada — defende, acrescentando que a negociação salarial compete a operários e patrões e não pode prejudicar a sociedade. — Há regras que precisam ser seguidas: um tribunal para decidir se a greve é abusiva, uma Justiça que determina o dever de manter os serviços essenciais em funcionamento. O que temos visto é que a economia está sendo sacudida pelas sucessivas greves. Se você cria uma situação de caos, traz um efeito negativo para a cidade.


Antropóloga da UERJ, Alba Zaluar também é uma das signatárias do manifesto. Ela afirma que não estão sendo respeitados critérios para garantir o fluxo de vias públicas essenciais:


— Todo mundo é prejudicado. Analiso isso como um abuso. Muitas vezes, são 100 ou 200 manifestantes que se acham no direito de fechar tudo e influenciar a vida das pessoas que estão indo para o trabalho ou para um tratamento no hospital. Já vi um monte de ambulância pelo caminho.


Sem contar o prejuízo que causa à cidade, o estresse, que mexe com o psicológico da população. Façam as suas reivindicações, mas não há necessidade de se fechar o trânsito.


Para o professor de estatística do Instituto de Matemática da UFRJ Dani Gamerman, há uma inversão de valores perigosa.


— As pessoas têm o direito de se manifestar, mas é um absurdo um grupo que, às vezes, não passa de 50 pessoas, interferir no direito de ir e vir de milhares de cidadãos. E o poder público achar normal. O Estado tem que exercer o monopólio da força para garantir a rua para todos — critica.


O não cumprimento de regras legais — como, por exemplo, avisar sobre a greve com antecedência


— está por trás de boa parte dos problemas. A opinião é do professor de estatística do Instituto de Matemática da USP, Carlos Alberto Bragança Pereira, outro que aderiu ao manifesto.


— Algumas manifestações são legítimas. Outras, não. No caso dos rodoviários de São Paulo, ninguém sabia sequer com quem negociar. Estão faltando regras claras, punições exemplares. Isso cria uma situação ruim para quem não tem nada a ver com aquele evento — afirma Pereira.


No meio jurídico, não faltam críticas. Professor de Penal da PUC, Breno Melaragno diz que as manifestações têm criado um transtorno permanente:


— Há de haver um equilíbrio entre o direto de livre manifestação e o direito de ir e vir. Não são manifestações isoladas. Elas ocorrem o tempo todo.


Daniel Andrés Raizman, professor de Direito Constitucional da UFF, é outro inconformado com os abusos:


— É preciso garantir a prestação do serviço. O princípio da razoabilidade tem que ser respeitado.


(Colaboraram: Luiz Ernesto Magalhães (RJ) e Flávio Freire (SP)



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quarta-feira, maio 28, 2014

A inflação e a dívida pública - EDITORIAL - Estadão

A inflação e a dívida pública - opiniao - versaoimpressa - Estadão


Além de encarecer a vida dos brasileiros, a inflação pressiona também o custo da dívida pública e prejudica a saúde financeira do governo. Nos 12 meses terminados em abril, o custo médio da dívida pública federal (DPF) subiu de 11,46% ao ano para 11,52%, segundo informou o Tesouro Nacional. O custo médio da dívida pública federal interna (DPFi) também aumentou, passando de 11,03% para 11,13% ao ano. A dívida ficou mais cara porque cresceu a participação de títulos corrigidos pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e pela Selic, a taxa básica de juros. Essa taxa voltou a subir em abril do ano passado, quando os dirigentes do Banco Central (BC) decidiram intensificar o combate à alta de preços. Os investidores em papéis do governo tiveram um duplo estímulo para mudar suas preferências: tentaram defender-se da onda inflacionária e, ao mesmo tempo, aproveitar a remuneração maior oferecida pelos títulos vinculados à Selic.

A taxa básica foi elevada em 9 ocasiões nos últimos 12 meses, mas a inflação continua bem acima da meta, de 4,5% ao ano, e resistente. Os índices de preços têm subido mais lentamente nas últimas semanas. Ao mesmo tempo, vêm-se multiplicando os sinais de enfraquecimento da economia.

A demanda dos consumidores arrefeceu, o emprego tem crescido mais devagar e os indicadores de confiança dos empresários de vários setores pioraram. Diante desses sinais, analistas do setor financeiro passaram a apostar numa interrupção da alta de juros. Ainda hoje, no começo da noite, o Copom deverá anunciar uma nova decisão sobre os juros. Segundo a maior parte das previsões, os formuladores da política monetária deverão no mínimo iniciar uma pausa para avaliar os efeitos do aperto adotado nos últimos 12 meses.

Se essa aposta estiver correta, o Copom atenderá aos principais porta-vozes do empresariado, críticos habituais dos aumentos de juros. Esses empresários normalmente se mostram muito mais preocupados com o custo dos financiamentos do que com a alta de preços, mesmo quando a inflação dispara e se distancia muito da meta, como ocorreu várias vezes nos últimos quatro ou cinco anos. A decisão apaziguadora também será provavelmente bem vista pelos ministros econômicos e pela presidente Dilma Rousseff, empenhada na busca da reeleição e na conquista da simpatia dos líderes empresariais.

Se o Copom de fato interromper a alta da Selic, terá poucos meses para avaliar se o aperto iniciado há um ano de fato foi suficiente para frear a inflação. Pelas projeções correntes no mercado financeiro, a variação do IPCA deverá ser mais suave até julho ou agosto e em seguida ganhar novamente impulso. Na melhor hipótese, os preços continuarão subindo mais lentamente por um período mais longo e a inflação acumulada no fim do ano ficará abaixo de 6%. As projeções conhecidas até agora serão desmentidas e a política monetária poderá continuar mais frouxa do que nos últimos meses.

Mas nada garante, por enquanto, esse bom resultado. Os consumidores estão mais cautelosos, neste momento, mas o desajuste entre a demanda total e a oferta no mercado interno dificilmente será superado a curto prazo. A indústria continua estagnada e o investimento privado será provavelmente insuficiente, nos próximos meses, para mudar o quadro. Além disso, a gastança pública prossegue e o governo permanece dependente de receitas extraordinárias para alcançar a meta fiscal fixada para o ano. Além disso, o governo já se comprometeu com novo aumento do salário mínimo e, além disso, a adoção de qualquer medida de austeridade, durante a campanha, será uma enorme surpresa.

De toda forma, sobrou uma notícia boa no relatório divulgado ontem pelo Tesouro. Entre dezembro e abril a dívida pública federal diminuiu 3,31%, de R$ 2,122 trilhões para R$ 2,052 trilhões. Só em abril o Tesouro resgatou um total de R$ 47,06 bilhões. Novas boas notícias poderão surgir, nos próximos meses, se a inflação recuar e o custo da dívida diminuir. Mas, por enquanto, essa expectativa parece otimista demais.


As contradições da nossa democracia - *Aloísio de Toledo Cesar

As contradições da nossa democracia - opiniao - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

Uma curiosa contradição está servindo para provocar sérias dúvidas a respeito da democracia com que o Brasil tanto sonhou. Quando, em São Paulo, tiveram início pelas ruas as manifestações populares de junho do ano passado, voltadas para protestos ou reivindicações de direitos, prevaleceu a impressão inicial de que oxigenavam e fortaleciam o nosso regime.

Realmente, o País havia se livrado de quase 21 anos de ditadura militar e conseguira por meios pacíficos implantar o Estado de Direito. Não foram os desajuizados movimentos armados que nos devolveram a sonhada democracia, mas, sim, a paciência e a competência de políticos habilidosos, como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Teotônio Villela e muitos outros.

Os protestos de rua, enfim, pareciam fortalecer o regime democrático e demonstrar ao mundo que o Brasil seguia o seu caminho com grande respeito aos descontentamentos de pessoas ou grupos. Mesmo que aqueles mascarados de pouco cérebro e incontida força bruta usassem os movimentos de rua para arrebentar lojas e bancos, restava a sensação que isso era tão somente um pequeno preço para a manutenção das liberdades democráticas.

Lamentavelmente, porém, os protestos de rua converteram-se numa espécie de modismo, espalharam-se como fogo no mato seco e hoje se prestam muito mais a impor sofrimentos às populações das grandes cidades do que ao atendimento das reivindicações das minorias. Chegamos ao ponto extremo de presenciar coisas inusitadas e incompreensíveis, como, por exemplo, grupos reduzidos de pessoas interromperem avenidas e estradas como forma de externar seus descontentamentos, causando, como consequência, sofrimento a milhares de outras de pessoas.

Esta é a grande contradição da nossa democracia: garante-se o direito de expressão e manifestação, ao mesmo tempo que se tolhe o de poder circular livremente, com a agravante de que a maioria prejudicada é infinitamente superior à minoria em protesto.

Avulta, de outra parte, a enorme capacidade de tolerância do brasileiro. Sim, as pessoas das grandes cidades que sofrem todos os dias com as consequências dessas manifestações se mantêm inconformadas, mas ainda silenciosas. Caso despertem, e se organizem, é possível prever o que poderá acontecer.

É sempre bom imaginar o que ocorreria nos Estados Unidos, país exemplar de democracia, se um grupo de pessoas, a pretexto de reivindicar direitos, resolvesse interditar a Quinta Avenida, em Nova York, como fazem em São Paulo com a Avenida Paulista. Nós nos acostumamos facilmente à desordem, assim como engolimos sem protestar a escalada da corrupção. Estamos, enfim, vivendo um regime de desordem em que o Estado, anestesiado e preguiçoso, acha melhor nada fazer, por ser mais cômodo e, também, porque reprimir significaria criar o risco de perda de votos para determinados candidatos.

Já se disse tantas vezes que a desordem emergente das manifestações de minorias põe de joelhos as maiorias. O pior é que crescem em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e outras capitais sem que nenhuma consequência atinja os manifestantes. É como se existisse uma tácita autorização para que cada um faça o que quiser e nada acontecerá. A ausência de contenção da desordem representa um estímulo crescente, que a cada dia assume dimensão maior, mostrando que o porre de democracia, característica de nossos dias, como toda embriaguez, encerra perigos e consequências que o Estado se nega a enxergar.

Há um claro desgoverno em desfavor da maioria e que se mostra insensível aos sofrimentos das pessoas que trabalham e produzem. Essa insensibilidade é inimiga do País, porque impõe prejuízos econômicos a muitos e resulta na queda da produção.

Não se espera nem se deseja o uso de violência contra os manifestantes nas ruas, mas não pode e não deve o Estado brasileiro permitir que sejam massacrados, espezinhados os direitos das pessoas que nada têm que ver com essas manifestações e ficam prisioneiras em congestionamentos ou nas filas de ônibus.

Os maus exemplos sempre frutificam. Com a greve ilegal dos motoristas e cobradores de ônibus em São Paulo, pondo de joelhos uma boa parte dos seus moradores, outros profissionais de outras cidades logo aprenderam que esse seria um bom caminho, porque, afinal, não houve consequência alguma para os grevistas que sufocaram a população. Mas essa, infelizmente, parece ser a regra que norteia tais situações. Meses atrás, os servidores do metropolitano de São Paulo fizeram dias seguidos de greve, causando enormes sofrimentos à população. E sabem o que aconteceu a eles? Nada, absolutamente nada.

A pessoa que viola a lei e os direitos de terceiros sem ser punida acaba convencida de que sua conduta pode ser repetida infinitas vezes, a seu gosto. Isso vem ocorrendo entre nós e nada está sendo feito para restabelecer a ordem e o respeito que é devido à maioria. A democracia, em sua gênese, acaba desfigurada com essa conduta e vai contribuindo para sepultar a ideia do Estado de Direito, que foi a tônica nos debates para a aprovação da Constituição federal de 1988.

O Estado de Direito no Brasil, realmente, com essa conduta, sofre deformação bastante grave, porque o princípio da soberania popular e da submissão à lei passou a ser negado a todo momento. É um erro muito grave dos governantes permanecerem como simples espectadores desses acontecimentos. Exemplo assustador pode ser extraído da greve ilegal dos motoristas e cobradores de ônibus em São Paulo, em que somente após dois dias de caos na cidade a Polícia Militar acordou e entendeu que deveria policiar na origem a saída dos ônibus. Parece que havia muita gente dormindo nos gabinetes.

DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM



*Oliveiros S. Ferreira - Uma greve selvagem e seus mistérios

Uma greve selvagem e seus mistérios - opiniao - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

Os últimos fatos nos permitem reflexões pouco agradáveis. No Rio de Janeiro e em São Paulo, assistimos a greves que uma autoridade definiu como "greves selvagens" - wild cat strikes, como eram chamadas nos Estados Unidos. A greve selvagem é aquela feita não apenas contra o patrão, mas também contra o sindicato da categoria, já que os trabalhadores que param o trabalho não obedecem mais à direção sindical.

Selvagem ou não, uma greve tem sempre um objetivo e um inimigo. Os grevistas pretendem conseguir melhores salários e condições de trabalho. Tornando-se um instrumento de luta da classe operária, o objetivo (podemos dizer a necessidade) era sempre salário e o inimigo era sempre o mesmo - o patrão. Se a população viesse a sentir falta de algo que pelos grevistas era produzido, isso não seria importante, seria problema menor, pois a greve não duraria o suficiente para que os "civis" contra eles se voltassem. As coisas mudaram de figura quando as greves afetaram setores essenciais à vida da cidade ou feriram os interesses do Estado. Neste último caso, um caráter insurrecional poderia ser-lhe atribuído. Sorel pensou na greve geral como "mito" para fazer a revolução.

No Rio e em São Paulo, os prejudicados foram menos os patrões do que a população. Em São Paulo (no Rio deve ter acontecido o mesmo), os "civis" faltaram ao trabalho, dormiram na rua, arriscaram-se a tudo. O prefeito Fernando Haddad, experimentando sabor amargo, teve reação emocional: "Sabotagem! Guerrilha!". Academicamente, tomemos suas palavras como base de nossa reflexão.

Comentando a greve geral inglesa de 1926, Haya de la Torre fez importante observação que serve aos estudiosos e às autoridades: "O significativo não é que 3 milhões de trabalhadores tenham parado, mas, sim, 3 milhões de trabalhadores em greve tenham voltado ao trabalho. Isso se chama organização!".

Cansamos de ver na TV um comandante fazer a tropa de assalto acertar os relógios para que a operação seja coordenada. A tropa, presume-se, terá sido treinada a obedecer e agir ordenadamente. Vejamos, então, São Paulo. Os ônibus saem das garagens e, logo em seguida, praticamente todos ao mesmo tempo, de maneira ordenada, param nas ruas. Há, portanto, uma organização por trás de todo esse movimento grevista, que pouco se incomoda com o sofrimento da população ou com sua reação. A grande "parada" foi na terça-feira. Na quarta-feira os ônibus começaram a voltar, enquanto os representantes dos grevistas parlamentavam com os representantes patronais, os da Prefeitura e os dirigentes sindicais (estes por que?). A precisão com que os ônibus pararam e depois voltaram a rodar sem que as reivindicações tivessem sido atendidas permite supor que a "tropa" foi treinada a obedecer e a fazer aquilo que todos sabiam dever ser feito. Ou a operação teria sido uma desordem sem fim.

A observação do prefeito sobre "guerrilha" permite essas considerações pouco tranquilizadoras. Inquietantes, sim, porque os fatos levam à conclusão de que existe uma organização não conhecida, talvez ilegal, que pode parar a cidade ou o País sem que haja reação alguma. Não houve reação e não haverá porque o Estado não está preparado para esse tipo de perturbação da ordem, que deixa a população à mercê não se sabe de quem.

Sabemos qual o objetivo expresso: salário maior do que o que foi conseguido pelo sindicato. Não sabemos, porém, quem é o inimigo que se procura atingir com essa demonstração de força - que poderá voltar a repetir-se em outra oportunidade qualquer - nem qual objetivo principal ou acessório possa ter.

Não custa lembrar a História: logo depois da libertação, a CGT francesa (PC) decretou greve geral para mudar a política de austeridade imposta pela guerra e mudar o governo, se possível. Nada mais! O governo mobilizou os grevistas e o movimento acabou - também porque o Exército obedeceu e a população afetada pela greve concordou. Durante a Guerra da Coreia, uma greve paralisou as ferrovias. Truman aplicou a Lei Taft-Hartley, mobilizou os grevistas, e a greve acabou.

O governo francês e Truman sabiam o que estava em jogo. Nós, não! Sabemos apenas que há uma organização, informal que seja, valendo-se das facilidades das redes sociais (hipótese pouco provável) para... Para quê? Não se trata de derrubar o governo nem de mudar a política econômica. Muito menos desacreditar o governador do Estado. Atingir Haddad e outros prefeitos, que não teriam condições (em tempos normais) de fazer os patrões voltarem atrás, desmoralizando acordo feito dentro da lei e aumentando tarifas em tempo de eleição?

O difícil numa guerra (a "luta de classes" é, no fundo, uma guerra) é conhecer os objetivos reais do inimigo e seus planos de ataque. Sem conhecê-los a derrota é praticamente inevitável. Essa é a questão que Haddad trouxe à discussão quando exclamou "guerrilha!": contra quem lutamos? Ou melhor, contra quem e contra que se coloca a organização que programou e realizou a greve em São Paulo e no Rio?

Ao comentar as manifestações de junho passado e a ação dos black blocs, deixei a mesma pergunta no ar, indo ao extremo de falar numa organização de um só homem, o Dr. Fu Manchu. Exagero literário, sem dúvida. Que não elimina a hipótese de haver uma organização capaz de fazer tumulto na hora que lhe parecer conveniente.

Os espíritos que desejam paz a qualquer preço não a terão, mas talvez gostassem muito de ter uma notícia, amanhã: "Por ato da presidente da República, é decretado o estado de emergência em todo o País para garantir a realização da Copa, estando suspensas as garantias constitucionais constantes do artigo 5 da Carta Magna". Ou nisso talvez estejam apostando os próprios agitadores, que desconhecemos e dos quais ignoramos os objetivos.

*
PROFESSOR DA USP E DA PUC-SP, É MEMBRO DO GABINETE E OFICINA DE LIVRE PENSAMENTO
ESTRATÉGICO. SITE: WWW.OLIVEIROS.COM.BR






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Sem pressa - economia - versaoimpressa -Celso Ming

Sem pressa - economia - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

No debate de que participou segunda-feira em evento promovido pelo Estadão e pela agência Corpora, o pré-candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos, criticou não só a política populista de preços dos combustíveis que estrangula o caixa da Petrobrás, mas, também, o excesso de participação da própria Petrobrás nos projetos de exploração de petróleo do pré-sal.

É uma situação que provoca enorme distorção de uma grande empresa que tem tanto mais prejuízos quanto mais fatura - como observou Campos -, mas que perdeu capacidade de investimento.

Na semana passada, a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Magda Chambriard, avisou que não há novos leilões de áreas programados para este ano. Ou seja, apesar do crescimento do consumo acima da capacidade de oferta e apesar do forte aumento da geração termoelétrica, cujos principais combustíveis são gás natural, óleo combustível e óleo diesel, a ANP não tem nenhuma pressa para acelerar a produção de petróleo e gás no Brasil.

Esta não é uma exigência de programação estratégica, como pode parecer. É apenas consequência da atual incapacidade da Petrobrás em dar conta do que lhe pedem.

A nova Lei do Petróleo exige que toda a exploração do pré-sal tem de ter a Petrobrás com pelo menos 30% de participação e como a única operadora. Magda argumenta que a ANP "não quer assolar o mercado com novas oportunidades" enquanto não maturar o projeto de Libra, que vai exigir investimentos de US$ 65 bilhões e o concurso de 12 a 18 plataformas. A verdadeira razão é que a Petrobrás não está dando conta do que tem de fazer.

Estrangulada em sua capacidade de investimento e, mais do que isso, pelos limites gerenciais da Petrobrás, a ANP acaba por impor o atraso da exploração não só do pré-sal, mas, também, dos demais segmentos convencionais, porque tem de concentrar seus recursos no que já tem.

Assim, mesmo depois de contar com centenas de bilhões de reais provenientes de pagamentos de royalties destinados ao financiamento da Educação e de outras atividades dos Estados e municípios, provenientes da exploração futura de petróleo, continua sem resposta a principal pergunta: em que ritmo o País quer ver exploradas suas reservas de hidrocarbonetos, num momento em que os Estados Unidos passam por uma grande revolução energética e a Rússia acaba de celebrar com a China o acordo de 30 anos de fornecimento de gás natural das reservas da Sibéria, à proporção de 38 bilhões de metros cúbicos por ano?

O que acontece no Brasil não é, portanto, consequência de uma decisão de longo prazo, que envolve uma estratégia de exploração de petróleo e de gás, de acordo com as necessidades e o interesse nacional, mas inevitável consequência de uma situação de fato, marcada por distorções e asfixias que o governo Dilma não tem interesse de resolver.





Futebol e luta de classe - Roberto DAMATTA

Futebol e luta de classe - cultura - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

E se Marx fosse um torcedor de futebol? Perguntou um deles, surpreendendo os "entendidos" com suas extraordinárias lembranças de jogos - essa historicidade que é o traço principal de nossa brasileiríssima (e aporrinhadora) futebologia.

Seria Flamengo! - disse sorrindo um cara que, sério, logo emendou somando uma provocação ao palpite - e diria que o futebol é o ópio do povo!

Mas o ópio amortece a consciência, articulou um desconhecido de olhos empapuçados que era psicanalista, e eu jamais testemunhei tanta atenção a detalhes quanto no futebol. Qualquer torcedor é um detetive descobrindo pistas e lances imperceptíveis. Ora, quem é capaz dessa percepção não pode estar entorpecido, mas em estado de plena e gloriosa vigília.

O ponto é que ao ver futebol, há uma alienação de coisas críticas como educação, saúde e exploração do trabalho - replicou o esquerdista que degustava um vinho argentino depois de realizar aquele fresco ritual de sentir o seu aroma.

Mas não se pode viver nem apreciar uma boa bebida - exclamou o Sivoca, cuja tese filosófica era a necessidade de "se beber muito" para "aguentar a dureza da vida". Beber e amar eram artes que criavam a vida e não o contrário.

Marx veria logo que a divisão entre jogadores e torcidas seria representação da contradição entre burguesia e proletariado. Veria também a mesma segmentação entre os jogadores do ataque (aqueles fazem mais gols e são mais populares) e os da defesa (esses operários humildes do futebol que, num antigo Brasil, eram negros). Assim, manifestou-se novamente o marxista cuja bandeira era lutar contra o mundo capitalista consumista e torcer para que Putin reunificasse a União Soviética, fazendo com que o mundo voltasse a conhecer o Doutor Fantástico, o "amante perverso" com seu plano de sobrevivência para os poderosos num planeta destruído pela guerra atômica.

Ouvimos com simpatia e tomamos um longo gole dos nossos ópios.

Para nós, viver e até mesmo gozar por meio das oposições entre contrários não era nenhuma novidade. Sem masculino e feminino não haveria o lado mais arriscado do amor - o que engendra vidas; do mesmo modo que sem Deus e Diabo não haveria moralidade, honra, culpa e vergonha, esses motores da plenitude existencial. Sem o arroz com o feijão, o peixe e a carne, o doce e o salgado, o sol e a chuva, o dia e a noite, o feio e o bonito, o norte e o sul, a fala e o canto, o fato e a interpretação, a saúde e a doença, a juventude e a velhice, a atração e a rejeição, a riqueza e a pobreza não teríamos como viver.

Não exageremos! Falou meu tio Mario com a autoridade de um recém-falecido aos 94 anos. Acabo de morrer! Relatou com uns olhos tristes voltados para o alto, e sinto falta justamente desses "ópios". Esses raros espaços entre um id (que deseja sem cessar); um superego (que libera realizar o desejo relativo) e o ego (que, como um técnico, apenas quer controlar o seu time) - esses momentos de fuga e olvido são o sal da terra, com o devido respeito ao nobre Karl Marx. Eu sinto falta da cerveja, do jornal, e, com perdão das minhas mestras espirituais sem as quais eu não posso receber minhas asas, de uma gentil ereçãozinha. Tudo isso, é fantasioso, mas é verdadeiro: viver só é possível por causa dos intermediários, dos recreios, das fantasias - dos ópios...

Todos sorrimos.

Pode-se viver sem luta, logro, dissimulação, farsa e distrações alienantes? É mesmo possível existir sem esquecer a finitude, a derrota, a doença, a perda e a traição? Sem descobrir que até mesmo o poder e a política igualmente enlouquecem, talvez mais do que um surto psicótico? Alguém conhece um ópio maior do que o narcisismo de um político brasileiro no poder? Afinal, não foram eles que inventaram a guerra, o racismo, o Holocausto e essa indisfarçável e insaciável corrupção brasileira? Os radicais e os ascetas tentam viver sem ópios e jamais foram a um jogo de futebol, tomaram um uísque ou viram uma mulher nua. Como demandam incondicionalmente o mundo, jamais quiseram um pedacinho dele para alienar-se. A fuga total do mundo é, certamente, mais um sintoma de desejo onipotente de controle do que de amor. Mas existe outra vida? Como viver sem transferir pelo ópio - pelo bom jogo de futebol -, a roubalheira e a injustiça? Desde que, notem bem, não se tome o roubo e a corrupção, nem a morte ou o crime como coisas a serem desejadas e valorizadas.

É impossível viver sem sofrer, mas é fundamental que se exista driblando o sofrimento e fazendo gols na perda, na ingratidão e sobretudo na doença e na morte. No mais, meus caros embriagados e insanos, o futebol e a Copa, são apenas pingos num copo transbordante.



domingo, maio 25, 2014

O econômico e o social nas eleições - Suely Caldas

O econômico e o social nas eleições - economia - versaoimpressa - Estadão

O econômico e o social nas eleições

Os candidatos intensificaram a presença na TV, a fria campanha eleitoral amornou e as pesquisas de voto seguem clareando o cenário da disputa. Entraram em cena os marqueteiros e, com eles, o vale-tudo para exaltar seu candidato e destruir adversários. Como fez o programa de propaganda do PT com os motes "o Brasil não quer voltar atrás" e "os fantasmas do passado" - fantasmas que acabaram com a inflação, fizeram o Plano Real e deram início à prosperidade econômica e social do País dos últimos 20 anos. O que têm na cartola Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos para exibirem aos eleitores na TV?

O mau desempenho da economia na gestão Dilma é o maior trunfo dos dois candidatos de oposição. Dilma errou ao adiar as privatizações e quando acordou errou nas regras de licitação; o investimento em infraestrutura - tardio e atrapalhado - levou a taxas medíocres de crescimento; a inflação voltou; o setor externo da economia deteriorou; a falta de confiança fez investidores baterem em retirada; a equipe econômica destruiu a seriedade nas contas públicas; Petrobrás e Eletrobrás viraram apêndices de políticas do governo, seu valor de mercado despenca e voltaram a dar prejuízo. Enfim, a lista de fracassos é grande e certamente será explorada por Aécio e Eduardo.

Os avanços na área social são o maior trunfo de Dilma. Ela deu continuidade às políticas sociais de Lula voltadas para atender às necessidades essenciais dos mais pobres e conseguiu êxito em algumas, como o Bolsa Família (o Bolsa Escola do fantasma FHC), ampliado por Lula, reforçado por ela, hoje com um orçamento de R$ 24,6 bilhões e 13 milhões de famílias atendidas. A taxa de desemprego em 4,9% numa conjuntura de baixíssimo crescimento é outro destaque, embora venha perdendo força na indústria, onde foram eliminados 69 mil postos de trabalho só entre março e abril passados.

Mas o próximo presidente precisa corrigir distorções em muitos programas sociais, e o Seguro-Desemprego é um deles. Como não há fiscalização nem transparência na aplicação do dinheiro, os gastos para pagar supostos desempregados explodiram, contrariando a conjuntura de emprego em alta e desemprego em baixa, o que levou Dilma a injetar mais R$ 4,9 bilhões no programa em 2013. Ainda na área do trabalho, há enorme desleixo em relação à qualificação do trabalhador. Dinheiro não falta, o que falta é fiscalização, gestão eficiente e cobrança de resultados. Além de bilhões de reais (o governo gosta de divulgar a cifra) repassados ao Sistema S (Sesc, Senac, Sesi, etc.), outra bolada de dinheiro é despejada nos sindicatos para qualificação profissional. E o Brasil fracassa, perde feio em produtividade no trabalho: em 2013 perdeu oito posições e ocupou o 56.º lugar no ranking do Fórum Econômico Mundial. Ou seja, oito países passaram à frente e o Brasil foi empurrado para trás. Afinal, o que esperar de um país onde, na média, o trabalhador levou 20 anos para avançar do estágio de 5,7 para apenas 8,8 anos de estudo?

Na TV o marqueteiro até pode pegar cenas dos melhores momentos, mas a candidata do PT tem pouco a dizer em saúde e educação, justo duas áreas-chave para uma política social bem-sucedida. Com exceção de alguns programas de inclusão social em universidades, a qualidade do ensino não melhorou e o analfabetismo funcional ampliou, sobretudo no ensino fundamental. A demora por uma consulta ou cirurgia, o desaparelhamento de hospitais, a escassez de médicos e postos de atendimento desenham um cotidiano sofrido para a população que precisa de saúde pública e que o programa Mais Médicos não conseguiu aliviar.

Mas o grande trunfo que Dilma vai explorar é a ascensão de 35 milhões de pobres que migraram para a classe média. Embora seja questionável o critério para classificar a classe média (o governo inclui quem tem renda per capita entre R$ 291,00 e R$ 1.019,00/mês), a ascensão é um fato real. Esses emergentes vivem com a corda no pescoço, endividam-se, mas passaram a ter acesso a computador, a telefone, a eletrodomésticos, dão impulso e movimentam a economia.

JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO

E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR



Ser ou não ser - João Ubaldo Ribeiro

Ser ou não ser - cultura - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

Acho que já tive a oportunidade de referir-me aqui às muitas glórias futebolísticas de Itaparica. Poderia estender tais glórias a diversos outros esportes, mas estes estão sujeitos a controvérsias, como a protagonizada por meu saudoso amigo Luiz Cuiuba, já lá se vai algum tempo. Em acalorada discussão no largo da Quitanda, ele sustentou que as Olimpíadas eram uma jogada ardilosa para subverter nossos valores mais caros e, principalmente, trocar nossas lindas mulheres pelos bagulhos dos gringos. Baseado na conformação física de algumas atletas estrangeiras que vira na televisão, notadamente as campeãs de lançamento ou levantamento de pesos, ele não conseguia compreender como aquelas jamantas descomunais podiam ser o ideal olímpico. Claro que era para ludibriar a gente. Queriam convencer-nos a nos livrar de nossas mulheres, afamadas em todo o mundo pela sua excelsa formosura, e em troca receber ideais olímpicos, Deus que nos protegesse daquelas baleias parrudas, opinião esta acatada pela grande maioria dos presentes.

Portanto, para não entrar em terreno muito polêmico, fico no futebol, suficiente para render diversos volumes de histórias. Difícil é saber por onde começar. Nasceu em Itaparica, por exemplo, Chupeta, o maior jogador de futebol que os céus do Brasil jamais cobriram e ainda há testemunhas que não me deixam mentir. Foi com um time itaparicano que ocorreu um evento singular, já lembrado aqui, mas merecedor de nova menção. Num jogo, se não me engano, contra uma agremiação de Maragogipe, Vavá Paparrão fraturou a perna em dois lugares, mas só notou depois que o jogo acabou e o sangue esfriou. Finado Nascimento, respeitado no futebol e na clarineta, era o juiz de maior autoridade no Recôncavo e grande disciplinador, chegando a aplicar cascudos, em certos atletas de conduta particularmente reprovável.

Em matéria tática, houve muitas inovações na ilha, que não foram à frente por uma série de circunstâncias. Assim ocorreu com o esquema bolado pelo técnico e cartola Júlio Perrengue, o injustiçado 10-10, que nunca foi adotado por ninguém, mas devia ter tido uma oportunidade. Júlio me explicou uma vez que o esquema dele consistia em fazer os dez jogadores de campo saírem de bolo para cima do adversário, arreganhando os dentes e dando gritos de guerra, assim infundindo terror nas hostes opositoras. Menção se faça, outrossim, a avanços notáveis que, por falta de marketing, se perderam, entre eles o jogo eólico, que consistia em usar os ventos do dia em proveito do time. Antigamente, isso era feito com a ajuda de um mestre de saveiros conhecedor íntimo dos ventos e das virações, mas hoje deve ser programável para computadores. Por exemplo, o jogador sabe que, naquele instante, o vento forte tal ou qual vai soprar e aí cobra o escanteio conforme o dito vento, é uma coisa altamente científica, que a ilha já praticava em priscas eras.

Nas Copas, como em todos os eventos que envolvem a nacionalidade, nossa participação nunca faltou. A de 1950 foi trágica, com gente passando mal, revolta ou até rompimento com os santos e outros eventos traumáticos, até hoje recordados pelos mais antigos. A de 1954 não valeu, por causa de Mr. Ellis, um juiz inglês, cujo nome nunca esqueci, vastamente denunciado como ladrão pelos narradores e comentaristas e responsável claro pelos quatro a dois que a Hungria nos aplicou. Houve pancadaria no estádio, durante e depois do jogo, e vários conterrâneos se ofereceram para combater na guerra que viria, contra a Inglaterra, a Hungria, as duas juntas ou quem lá fosse, pois que nunca corremos de guerra.

Na nossa primeira Copa, em 1958, lançamos aos ares a campanha Seca Lidirrólmi para a final. Lidirrólmi, na pronúncia local, era Liedholm, artilheiro da Suécia que fez o primeiro gol do jogo contra o Brasil. O brado "seca Lidirrólmi!" prorrompeu do Jardim do Forte e rasgou as nuvens por sobre todo o Recôncavo. Jamais alguém havia sido secado daquela forma tão unânime e simultânea. Vozes despeitadas podem negar, mas o fato é que Lidirrólmi não fez mais gol nenhum e, naquele dia inesquecível, como sabemos, o time dele perdeu de cinco a dois.

Desta feita, contudo, não parece haver, nem de longe, o entusiasmo anterior. Ninguém discute a escalação do time, ninguém pintou rua ou fachada, ninguém comprou bandeira nova para pendurar em cima da varanda. Que estaria acontecendo? O patriotismo que parecia ser parte indissociável do DNA itaparicano foi atacado por algum vírus destrutivo? Graves questões, acompanhadas do pressentimento de que o mundo vai acabar, ou qualquer coisa assim. E mais lenha foi lançada à fogueira depois do pronunciamento de Zecamunista. O festejado líder subversivo voltou, como sempre vitorioso, de um concorrido torneio de pôquer em Ipiaú e, ao chegar ao Bar de Espanha e ver que se falava sobre a Copa, começou um imediato discurso, em que afirmou que era dever de todo patriota brasileiro ser contra a Copa.

- Nós vamos organizar uma grande manifestação, uma passeata geral! - disse ele, com o punho no ar. - Essa Copa não é nossa, é deles! O povo da ilha sairá em peso às ruas, para protestar!

E, segundo ele me informou ao telefone, a coisa ficou séria e a ideia da passeata recebeu a adesão de praticamente toda a ilha.

- Mas agora eu tenho de desligar, não posso perder a reunião da organização da passeata, que vai ser daqui a pouquinho.

- Eu pensei que já estava tudo organizado.

- Mas não está - disse ele. - Eu descobri que temos que mudar a hora da passeata, para todo mundo ter tempo de ver o jogo.


A Copa das mazelas -Celso Ming

A Copa das mazelas - economia - versaoimpressa - Estadão

Estadão 

Quando disputou e arrancou o privilégio de sediar a Copa do Mundo, o governo Lula pretendeu aproveitar o evento para uma super exibição do Brasil para o mundo, em capacidade administrativa e potência econômica.

Enormes focos de luz estão dirigidos agora para cá e para tudo o que há de errado. A curiosidade do exterior não se limita à degustação de coisas daqui, como caipirinha, suco de maracujá e pão de queijo. Extravasa para a nossa incompetência. O Brasil está frustrando as expectativas criadas quando se tornou o B do Brics. Algumas matérias, as do jornal inglês Financial Times, de 4/5, e da revista alemã Der Spiegel, de 11/5, foram demolidoras.

Além de advertir os visitantes para os riscos que correm por aqui com segurança pessoal e alimentação nem sempre confiável, os grandes jornais e revistas, a TV e a internet não param de desnudar as mazelas e a desorganização do País. Os preparativos para a Copa foram sucessão de encrencas: falhas de planejamento, estouro injustificável de custos, desperdícios, atrasos enormes e baixa qualidade de algumas obras. "Isso me envergonha" -- disse sexta-feira o campeão Ronaldo Fenômeno.

Ontem, o correspondente do Estadão em Genebra, Jamil Chade, relatou que a Copa baterá todos os recordes de lucro da história do futebol (veja abaixo). Será sucesso de bilheteria, de arrecadação de direitos para a Fifa e de lucros para as patrocinadoras. Mas, na percepção do brasileiro comum, pouco sobrará para ele além de eventuais alegrias com as vitórias de sua seleção.

As manifestações que pipocam em todas as grandes cidades, inclusive entre movimentos protegidos pelo governo, como o MST, levantam dúvidas sobre o acerto da decisão que deu prioridade às obras dos estádios, em detrimento dos investimentos em ensino, em saúde e em transporte público. Esperava-se que este fosse um dos bons resultados indiretos. Mas nessa área as coisas estão piorando. O próprio Lula considera "babaquice" a construção de linhas de metrô que atendam a estádios de futebol, sem levar em conta as necessidades das populações vizinhas. Ele deve discordar da presidente Dilma que, na sexta-feira, afirmou que a construção e a ampliação dos aeroportos não vieram para benefício dos torcedores estrangeiros, mas para atender a 112 milhões de passageiros no Brasil. Não faz sentido argumentar que as imposições da Fifa são descabidas. Estão, são condições já previstas por quem se apresentou como candidato à sede da Copa.

É provável que, a partir do momento em que a seleção canarinho entrar em campo, as manifestações de indignação refluam e sejam deixadas para depois. Mas não dá para esconder que as novas classes médias se sentem fortemente frustradas com a baixa qualidade dos serviços públicos e com o derretimento da capacidade de consumo provocado pela inflação de mais de 6% ao ano. Isso exige conserto da economia que não aparece em nenhuma das prioridades do governo Dilma.





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    sábado, maio 24, 2014

    Juros em ação - José Paulo Kupfer -

    Juros em ação - José Paulo Kupfer - Estadao.com.br...

    Juros em ação

    O resultado da variação mensal do IPCA-15, em maio, abre espaço para a hipótese de que começam a aparecer nos índices de inflação, com mais nitidez, os efeitos do atual ciclo de aperto na política monetária, com a elevação das taxas de juros, iniciado em abril de 2013. Essa possibilidade deverá ficar ainda mais clara quando for divulgada a variação do IPCA cheio do mês, nos primeiros dias de junho.

    Para o IPCA cheio deste mês, as projeções dos analistas apontam variação menor do que a verificada no IPCA-15. Em relação a abril, este variou 0,58%, ao passo que o índice cheio deverá fechar entre 0,45% e 0,5%. A diluição gradativa do último choque na oferta de alimentos, provocado pela inesperada estiagem no verão de 2014, permite observar com mais clareza a ação contracionista nos índices de preços.

    É verdade que, dos nove grupos que compõem o IPCA-15, sete ainda apresentaram alta em maio. Mas, com sinais cada vez mais generalizados de esfriamento da atividade econômica – o que também tem a ver com a política monetária contracionista –, a tendência para os próximos meses é de recuo geral nos índices de preços.

    Já em maio, tanto o segmento de preços livres como o de serviços registraram recuos importantes no IPCA-15. O ritmo de alta dos primeiros caiu de 0,91%, no IPCA-15 de abril, para 0,46%, em maio. Detalhe importante: os produtos "comerciáveis", que são afetados pela valorização recente da taxa de câmbio, reduziram o ritmo de alta de 0,98%, no mês passado, para 0,29%, em maio.

    No caso dos preços dos serviços, diretamente dependentes do nível de atividade doméstica, também ocorreu um recuo significativo. De uma alta de 0,55%, em abril, o grupo, no IPCA-15 de maio, variou 0,24%. No acumulado em 12 meses, ainda estão muito acima do teto da meta, mas a trajetória previsível é, sem dúvida, de recuo.

    Sem a presença de choques de oferta e de interferências ou grandes distorções de mercado, uma situação de redução do ritmo de atividade econômica leva, normalmente, a uma descompressão inflacionária. Além de atuar nesse sentido, a política de contração monetária facilita a manutenção de uma taxa de câmbio remais valorizada, que também atua na direção de altas mais moderadas de preços.



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    domingo, maio 18, 2014

    PT obtém mais doações que PSDB, PMDB e PSB juntos

    Democracia Política e novo Reformismo: PT obtém mais doações que PSDB, PMDB e PSB juntos

    PT obtém mais doações que PSDB, PMDB e PSB juntos

    • Empresas deram R$ 80 mi ao partido de Dilma, recorde em ano sem eleição


    • Contratadas por União, Estados e municípios, as construtoras foram mais uma vez as líderes em contribuições


    David Friedlander, Ricardo Mendonça – Folha de S. Paulo


    SÃO PAULO - Tradicionais doadoras de dinheiro para partidos políticos, empresas com negócios no setor público entregaram ao PT no ano passado quase o dobro do que pagaram a PSDB, PMDB e PSB juntos.


    O partido da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, levou R$ 79,8 milhões. Os outros três conseguiram R$ 46,5 milhões.


    A liderança do PT na captação já ocorria em anos anteriores, mas a diferença para os demais partidos não para de aumentar. A vantagem em relação às três siglas saltou em quatro anos de R$ 9,4 milhões para R$ 33,2 milhões.


    O movimento ocorreu num período em que as contribuições empresariais bateram recorde para anos em que não há eleição, segundo as prestações de contas já divulgadas pela Justiça Eleitoral (em anos eleitorais, as verbas para os partidos são maiores).


    As grandes construtoras, mais uma vez, dominaram o ranking dos maiores financiadores. Odebrecht, Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e OAS foram as campeãs.


    Todas elas fazem obras para o governo federal, Estados e municípios. Estão entre os maiores fornecedores da Petrobras. E ganharam concessões para explorar aeroportos, metrô e estradas.

    As doações detalhadas nos gráficos ao lado foram feitas às claras, registradas. Empresas e partidos costumam dizer que elas são importantes para fortalecer as siglas. Apesar da justificativa legítima, é difícil encontrar quem fale abertamente do assunto.


    Amigos do poder

    Nos últimos dias, a Folha conversou com um consultor, um tesoureiro de partido, um empresário e dois executivos de construtoras. Eles só aceitaram falar anonimamente.


    Segundo eles, é difícil não dar preferência ao PT, que ocupa a Presidência. Como Dilma estava muito à frente nas pesquisas, a força da sigla para captar era ampliada.


    Caso a disputa presidencial fique mais acirrada, como sugerem as últimas pesquisas, a divisão de verbas tende a se equilibrar. "Quem trabalha com governo não tem preferência", diz um alto executivo de uma grande construtora. "Precisa ser amigo de quem estiver no poder."


    Um consultor com muitos anos de experiência em arrecadação define assim: "Para as empresas, a doação funciona como um investimento para ter acesso aos candidatos que elas ajudam a eleger".


    As últimas prestações revelaram uma diferença marcante no fluxo de contribuições. Até 2013, as grandes doações eram feitas apenas em época de campanha. Fora dos períodos eleitorais, as doações eram menores.


    O cenário mudou em 2013 (ano não eleitoral) e os principais partidos passaram a receber bem mais do que antes. Profissionais envolvidos afirmam que alguns doadores foram convencidos a ampliar suas contribuições para ajudar a quitar dívidas das campanhas para prefeito de 2012.


    Outros combinaram antecipar parte das doações programadas para este ano, para não chamar tanto a atenção nas prestações futuras.


    Por fim, as doações também parecem maiores porque vários doadores teriam passado a contribuir legalmente. Motivo: o risco de ter o nome envolvido no submundo dos doleiros e do caixa dois parece cada vez maior.


    As últimas prestações trouxeram uma curiosidade. Grandes construtoras, como a Galvão Engenharia e a OAS, passaram a contribuir mensalmente, algo que não ocorria antes. Procuradas, não quiseram explicar o motivo.


    Colaborou Gabriela Terenzi, de São Paulo



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    Vênia insto para discrepar - João Ubaldo Ribeiro

    Vênia insto para discrepar. Estadão

    Acho que não há quem, ouvindo a frase do título de hoje pela primeira vez, não peça que a repitam e, mesmo depois disto, talvez não a compreenda. Eu também demorei a entendê-la da primeira vez, embora me julgasse preparado para destrinchar qualquer anástrofe entre as mais emaranhadas e, no geral, encarar os efeitos formidáveis que a perseguida língua portuguesa ainda tem recursos para obter. Estava assistindo a um debate na velha Faculdade de Direito da Bahia, então escola superior de humanidades, com um elenco de professores estelar. Saía de tudo, inclusive esta frase, de que nunca esqueci. Proferida por um colega piauiense, congelou o salão, enquanto todos paravam para decifrá-la. Quer dizer "insisto em pedir licença para discordar", é claro, mas não teria o mesmo efeito, se dita assim.

    O pessoal caprichava e os debates, embora acalorados, obedeciam a regras de etiqueta e continham alusões elogiosas aos adversários, se bem que por vezes ironicamente. Não estou sendo saudosista ou dizendo que antigamente havia mais refinamento ou boas maneiras. Havia muita grossura antigamente e ainda peguei o tempo em que não eram infrequentes notícias sobre como algum jornalista, no interior, havia sido obrigado pelo coronel a comer seu jornal. A repressão nas ruas às vezes era bastante braba e um dia, na Praça Municipal de Salvador, se eu não estivesse usando uma capa de gabardine das antigas, teria sido devorado por um cachorro da polícia, que felizmente se contentou em estraçalhar minha capa, enquanto eu me escafedia pelas escadas da prefeitura acima. Também tomei uma cassetetada no ombro, que me entortou um pouco e me rendeu uns dois dias de glória e solidariedade carinhosa das moças. Isso no meu caso - agitador light e metido a intelectual -, mas, em casos mais sérios, a repressão e o antagonismo eram também sérios.

    Mas não havia o mau humor generalizado e a alusão ao ódio, hoje tão disseminados, além da violência gratuita e do desprezo à vida. Tenho lido, aqui e ali, artigos se queixando da mesma coisa. Já pouco se usa a expressão criada por Cacá Diegues, mas as patrulhas ideológicas estão mais ativas que nunca, xingando, difamando, caluniando e ameaçando, às vezes simplesmente porque alguém tem um estilo de vida reprovado por outro. Ninguém mais simplesmente discorda, vai logo xingando e desqualificando o oponente, muitas vezes sem se dar ao trabalho nem de tentar examinar argumentos. A baixaria impõe o tom e não se admite que haja um adversário de boa-fé. O opositor é sempre um agente consciente do Mal e da Mentira, solerte, disfarçado e traiçoeiro, e não é nem ao menos movido por boas intenções. Não há como compreendê-lo ou recuperá-lo para a Verdade e o mais certo é liquidá-lo.

    O estado é indecentemente confundido com o governo e o governo age como se fosse o dono do estado. Quem se opõe ao governo se opõe ao estado e pode, portanto, ser qualificado de inimigo da pátria e das instituições. As palavras são despidas de seus significados conhecidos para assumirem outros, de difícil ligação com a realidade. Elite, esquerda, direita, tudo isso é definido arbitrariamente, segundo o interesse de quem usa estas palavras. Magistrados do Supremo batem boca em público, dão entrevistas o tempo todo, quase se engalfinham com jornalistas. O Congresso, para quem ouve e lê as notícias, parece um covil de bandidos, antro das piores calhordices, exemplo do privilégio, do mau desempenho de atribuições e do desgoverno. O Executivo hoje não passa de um escritório eleitoral rodeado de assombrações.

    Somos agora uma sociedade em que é cada vez mais fácil matar trivialmente. Matamos com sempre maior desenvoltura, numa demonstração clara de que o desarmamento da população não era solução para o problema e antes talvez contribua para seu agravamento. É possível, como já aconteceu e acontece, matar uma pessoa, levar arma e cadáver à polícia, confessar tudo e sair para responder em liberdade ao longo processo, que muitas vezes resulta em penas leves e multiplamente atenuadas. Para matar um desafeto sem incorrer em grandes aborrecimentos, basta ao brasileiro comum encher a cara, pegar o carro, atropelar a vítima e contar um par de mentirinhas na delegacia. Nesses casos, quase nunca o assassino chega a passar qualquer tempo na cadeia.

    A morte é banal e se morre o tempo todo, no corredor de um hospital público, baleado na rua ou num deslizamento de terra. Ficou tão corriqueiro matar que agora, depois de fazer o assalto, levando tudo sem encontrar resistência, o assaltante mesmo assim mata a vítima, quase como quem cumpre uma formalidade ou praxe. E talvez tanta facilidade tenha gerado monotonia e necessidade da adoção de novos elementos. E, assim, torturam-se as vítimas, incinera-se gente viva, enterra-se gente viva, esquarteja-se gente e, todos os dias, praticam-se crimes inacreditáveis, sem que ninguém se espante mais.

    Também não se passa mais dia sem uma ação coletiva violenta, destrutiva e criminosa. A multidão sai, quebra e incendeia ônibus, depreda e saqueia lojas, faz linchamentos com uma crueldade estarrecedora, estabelece tribunais instantâneos e aterrorizantes, com um efeito multiplicador sobre a desordem geral e o desrespeito acintoso à lei e ao estado. Por exemplo, diz a lei que o motorista que atropela deve prestar socorro e pune aquele que não a observa. Mas, se hoje em dia o motorista parar, o provável é que leve um pontapé na cabeça no instante em que descer do carro e se curvar sobre o atropelado.

    Não é bom viver num clima assim. Não é bom que nos tornemos um povo assim de uma vez por todas e que não confiemos mais em nada, não é bom que não consigamos conviver com a divergência e a diferença e tenhamos como norma a intolerância. Discrepemos, antes que seja tarde.

    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,venia-insto-para-discrepar,1168260,0.htm



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