domingo, maio 04, 2014

Miriam Leitão Sentido do ídolo

Coluna do O Globo

Onde você estava quando Senna morreu? Todos os que têm idade para se lembrar daquele triste 1º de maio costumam ter resposta imediata a essa pergunta. Mortes marcantes são assim. Senna simbolizava a esperança, num tempo sombrio, e o orgulho nacional, quando o país era tratado no exterior com desprezo. Seu legado tem ajudado milhões de jovens brasileiros.
Cada circuito era mais do que uma corrida, cada pódio, mais que uma vitória para os brasileiros que viviam a desmoralizante hiperinflação e um tempo de frustração política. À derrota na campanha das diretas se seguiu a vitória no Colégio Eleitoral e um novo revés: o presidente que viera da oposição jamais assumiu o cargo. Depois do governo Sarney, com seu triste histórico de serviços prestados ao governo militar, veio o primeiro presidente eleito com seu estilo controverso, seu inaceitável confisco do dinheiro poupado e, por fim, o impeachment.
Na economia, a inflação não conhecia derrota. Cada plano a fazia recuar, mas para voltar mais forte. O país passou anos negociando com incrédulos e duros credores a dívida externa herdada do governo militar. O Brasil era tratado em reportagens dos jornais estrangeiros como um país sem palavra e sem rumo; uma terra esquisita em que a economia virara aberração.
Só quem viveu aquele fundo do poço do orgulho nacional pode entender o sentimento de alegria do país sempre que a mão de Ayrton, do lado de fora do carro, balançava a bandeira brasileira. No país da ciclotimia, estávamos num momento de moral baixa quando ele nos oferecia vitórias sequenciais de lavar a alma.
Sua própria história de superação era perfeita para aquele tempo em que o país tinha tanto a superar. Porque tivera dificuldades na chuva, ele treinou incessantemente até se tornar o melhor corredor em pista molhada. Por isso, quando começava a chover, o torcedor já se animava com as chances de Senna superar os adversários.
Na conturbada história monetária do país estávamos começando a negociar a conversão dos contratos, preços, salários de cruzeiro real para a URV, uma unidade de conta virtual que prometia ser a última curva sinuosa antes da reta de chegada à estabilização. Cruzado, Cruzado II, Bresser, Verão, Collor e Collor II haviam fracassado, deixando o país com fraturas múltiplas, perdas financeiras e um enorme cansaço de aprender e reaprender as novas regras econômicas.
Naquele 1º de maio, era dia de relaxar diante da TV torcendo por Senna em Ímola. Perdi o começo da corrida, dormindo demais após um fechamento estafante de colunas sobre o plano de estabilização que se preparava. Encontrei meu filho, Matheus, adolescente, em extrema aflição quando levantei. Sozinho, ele vira o acidente e me contou detalhes, afirmando que Ayrton Senna estava morto. Perguntei se a notícia era oficial. Ele disse: “ainda não, mas eu tenho certeza. A batida foi violenta demais.” Em seguida, vieram dias de desalento no país, de uma tristeza longa e um enterro seguido por uma multidão.
Certos ídolos são marcantes e ajudam a construir valores. Ayrton Senna foi assim. Com a liderança da sua irmã Viviane, o instituto que leva seu nome tem ajudado milhões de crianças pelo Brasil afora a superarem dificuldades nas escorregadias pistas da educação brasileira. Seu exemplo é contado e recontado como tática motivacional na introdução de técnicas que ajudam a acelerar o aprendizado. Parte do dinheiro que ele acumulou na carreira bem sucedida se transformou em combustível para auxiliar o país na corrida que não podemos perder e na qual temos nos atrasado tanto. Hoje, o Instituto treina 75 mil professores no Brasil inteiro e beneficia dois milhões de alunos em mais de 1.300 municípios com seu esforço de complementar a educação nas escolas.
Vinte anos depois, a lembrança de Ayrton Senna permanece viva não apenas para os brasileiros. Com fãs no mundo inteiro, pessoas de várias nacionalidades participaram de eventos da lembrança do evento trágico de 20 anos atrás. Para o mundo, ele será sempre um vencedor e um esportista raro e carismático. Para o Brasil, mais que isso. Mesmo quem não tem idade suficiente para ter guardado qualquer lembrança daquele dia sabe que ele era o melhor do mundo e era nosso.

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