Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 05, 2008

VEJA Entrevista: Madeleine Albright

"Ainda somos indispensáveis"

A ex-secretária de Estado americana diz que os erros
de Bush minaram a força moral dos Estados Unidos,
mas que o país ainda é vital para a paz no mundo


Chico Mendez, de Washington

Nascida Marie Jana Korbel, em Praga, hoje capital da República Checa, Madeleine Albright se tornou a primeira mulher a chefiar o Departamento de Estado americano, entre 1997 e 2001. A atual secretária, Condoleezza Rice, foi aluna de seu pai, Josef Korbel. "Madam Secretary", como ainda é chamada, acaba de publicar seu terceiro livro, Memo to the President Elect (Notas ao Presidente Eleito). Nele, Albright relaciona os desafios colocados ao próximo político a ocupar a Casa Branca e dá conselhos sobre como eles podem ser superados. "Talvez a próxima Presidência seja uma das mais difíceis da história", prevê. Aos 70 anos, a ex-secretária é uma das principais formuladoras da política externa do Partido Democrata, dá consultoria a empresas e ensina relações exteriores na Universidade de Georgetown, em Washington. Ela se orgulha de sua rotina de exercícios, que lhe permite levantar 90 quilos com as pernas nas sessões de musculação.

Veja – O que a motivou a escrever um livro de conselhos ao futuro presidente americano?
Madeleine Albright – A próxima Presidência talvez seja uma das mais difíceis da história. Precisaremos de um líder que conheça os limites do poder que a Casa Branca pode exercer, de um presidente que saiba qual é o verdadeiro papel dos Estados Unidos.

Veja – A gestão do presidente Bush se enquadra nesse perfil?
Albright – A administração atual aumentou o poder da Presidência sobre várias áreas de uma forma com a qual não concordo. Exemplos disso são as questões ligadas às liberdades individuais, como as interceptações telefônicas sem autorização judicial. A Guerra do Iraque, os abusos nas prisões de Guantánamo e de Abu Ghraib são equívocos que devemos corrigir.

Veja – De que forma esses equívocos prejudicam os Estados Unidos?
Albright – Já trabalhei para dois presidentes (Jimmy Carter e Bill Clinton). Sei bem o que é representar os Estados Unidos e aprendi que boa parte do poder da América depende de nossa autoridade moral. Acontece que essa autoridade foi duramente atingida pelos erros da administração atual.

Veja – Como eles podem ser corrigidos?
Albright – É preciso olhar para o futuro. Acho que a primeira coisa a fazer é examinar qual será o poder do presidente americano no século XXI, como ele deve ser usado, quais são seus limites, seus desafios e as oportunidades que a Presidência pode trazer para o país. Os Estados Unidos são um país excepcional, repleto de virtudes, mas não podemos acreditar que nossas virtudes nos dão carta-branca para fazer no mundo tudo o que acharmos certo.

Veja – A senhora defende a candidatura da senadora Hillary Clinton. Ela se enquadra no perfil de presidente que a senhora descreve?
Albright – Hillary tem uma visão bastante apropriada de qual deve ser o papel dos Estados Unidos no mundo. Ela já deixou claro que não aceita a divisão entre realismo e idealismo na política. A senadora defende a idéia de que os Estados Unidos devem enfrentar seus desafios com uma visão idealista e um comportamento realista. A maneira como ela enxerga as relações entre as políticas interna e externa e os aspectos negativos e positivos da globalização é animadora. E, claro, seria revolucionário ter uma mulher na Presidência dos Estados Unidos.

Veja – Há uma diferença substancial entre as propostas de Hillary Clinton e as de Barack Obama em relação à política externa?
Albright – Ambos divergem em relação à política externa da gestão Bush e consideram que é importante conversar com os nossos inimigos. A diferença é que Obama já disse que se encontraria com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad sem impor condições. Baseada em sua experiência pessoal, Hillary diz que a negociação não deve começar no nível presidencial. Ela acredita que o diálogo com o Irã e a Coréia do Norte precisa ser feito sob condições preestabelecidas.

Veja – Como se estabelecem essas condições na diplomacia?
Albright – Para ficarmos com um exemplo: quando Bill Clinton era presidente, ele recebeu a visita de um alto funcionário da Coréia do Norte. Na ocasião, Clinton foi convidado pelos norte-coreanos para visitar Pyongyang, mas recusou o convite. Disse que só o aceitaria depois que sua secretária de Estado fosse convidada. É assim que deve ser feito.

Veja – A senhora diz que o governo de todos os presidentes americanos acaba marcado por um tema ou um objetivo. Qual foi o do presidente Bill Clinton?
Albright – Na minha avaliação, o desafio do presidente Clinton foi conduzir os Estados Unidos depois de uma década intensa de pós-Guerra Fria. Ele precisou criar uma estrutura para lidar com os desafios do novo século. Fez isso usando, primeiro, a diplomacia e a ajuda econômica, deixando a força em último lugar. Ele falava muito de uma "ponte" para o século XXI, e acho que isso marcou os seus dois mandatos.

Veja – Qual foi o tema ou o objetivo do presidente Bush?
Albright – Não estava muito claro até 11 de setembro. Na sua primeira campanha presidencial, os assessores de Bush acreditavam que havia uma presença excessiva dos Estados Unidos no mundo. Os atentados terroristas mudaram essa concepção. O objetivo da gestão atual passou a ser acabar com o terrorismo. Foi aí que surgiu essa ligação, que ninguém consegue explicar, entre o Afeganistão e o Iraque.

Veja – Clinton se referia aos Estados Unidos como uma nação indispensável. O que ele queria dizer com isso?
Albright – Que os Estados Unidos devem estar envolvidos em tudo. Indispensável significa fazer parte de algo. O presidente acreditava que, para que as coisas acontecessem, os Estados Unidos precisavam contribuir, com dinheiro, tropas ou apenas consultando outros países.

Veja – Os questionamentos sobre a liderança americana se tornaram mais freqüentes depois que começou a guerra contra o terror. Os Estados Unidos são menos indispensáveis hoje?
Albright – As pessoas criticam a forma como exercemos o poder, mas o país continua indispensável. Acabo de voltar do Oriente Médio e da Europa. Lá, todos acompanham de perto nossas eleições. Essa excitação prova que as pessoas querem, sim, nossa liderança. Muitos chegaram a me dizer que os estrangeiros deveriam ter o direito de votar nos Estados Unidos, porque o que acontece aqui os afeta diretamente. O que precisamos discutir é de que forma nós devemos nos engajar.

Veja – Quais são essas formas de engajamento a que a senhora se refere?
Albright – Existe a maneira George W. Bush de tomar decisões unilaterais para atingir os nossos interesses nacionais. Mas existe a maneira Hillary, pela qual, se eleita presidente, seremos um parceiro que aceita contribuições e também contribui para apresentar soluções aos problemas.

Veja – Menos de 10% dos americanos consideram a América Latina fundamental para os interesses americanos. Há alguma chance de os Estados Unidos darem mais atenção à região?
Albright – Temos uma relação quase familiar com a América Latina, com todos os aspectos positivos e negativos que isso implica. Às vezes, você não dá a alguém que é de sua família a mesma atenção que dá a alguém que tenta impressioná-lo ou a alguém de quem você tem medo. Acredito que nossas relações serão mais intensas. É natural que isso aconteça. Há cada vez mais latino-americanos vivendo aqui, gente falando espanhol nos Estados Unidos, e o intercâmbio econômico com a região está aumentando. Mas não há como negar que os interesses nacionais dos Estados Unidos estão mudando da Europa para a Ásia.

Veja – O populismo dos presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, pode ser uma ameaça para a democracia na América do Sul?
Albright – Não estou muito segura disso. Não creio que os Estados Unidos devam se preocupar muito com os perigos que eles representam. Eles representam uma ameaça para o povo deles. Vejo esse fenômeno como um problema de consolidação da democracia na região. Estive na Venezuela várias vezes antes de Chávez se tornar presidente. Nessas ocasiões, não vi os líderes venezuelanos preocupados com o bem-estar do povo. Foi assim que surgiu Chávez, que, depois, acabou tomando uma série de medidas equivocadas. No Brasil é diferente. Vejo que o governo se preocupa em promover melhorias concretas para o povo.

Veja – O governo Bush acertou ao apoiar o ataque às Farc feito pela Colômbia em território equatoriano?
Albright – Estou certa de que o presidente (Álvaro) Uribe (da Colômbia) está tentando fazer a coisa correta. As Farc são um grupo terrorista. Mas, antes de ter uma conclusão definitiva sobre esse episódio, ainda é preciso saber se são verdadeiros os documentos que estão sendo apresentados pelo governo colombiano e se Chávez estava, de fato, dando dinheiro às Farc para que elas mantivessem suas atividades criminosas.

Veja – É possível reduzir as tensões entre os Estados Unidos e a América Latina sobre o problema da imigração ilegal?
Albright – As relações entre a América do Sul e a do Norte são sempre complicadas. Se os Estados Unidos não dão atenção à América Latina, dizem que ignoramos nosso próprio continente. Se damos atenção demasiada, dizem que interferimos no destino de outros países. A imigração é um problema muito complexo. Eu mesma sou uma imigrante. Algumas pessoas deixam seu país por motivos econômicos, outras por motivos políticos, mas a maioria quer viver no país onde nasceu por causa dos laços familiares e da língua.

Veja – A senhora aprova a proposta de construção de um muro na fronteira com o México para barrar os imigrantes?
Albright – Acho que esse tema deve ser tratado com mais compreensão. É possível achar um meio para garantir a cidadania americana às pessoas que já vivem aqui. Mas alguma coisa precisa ser feita para que as leis de imigração sejam cumpridas.

Veja – Qual é sua avaliação sobre a política externa brasileira?
Albright – A verdade é que o Brasil sempre quis ser uma potência regional. Acho que os presidentes (Fernando Henrique) Cardoso e (Luiz Inácio) Lula (da Silva) querem que o Brasil seja respeitado pelo seu potencial. Aliás, tenho a maior admiração pelo ex-presidente Cardoso. Trabalhamos juntos em várias ocasiões. Ele é uma pessoa admirável.

Veja – Um dos principais objetivos do Brasil é obter um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Quais são as chances de isso acontecer?
Albright – Sinceramente, é impossível responder a essa pergunta. Passei muito tempo tentando aumentar o Conselho de Segurança, mas ele é como um cubo mágico: é muito difícil ajustar todos os interesses envolvidos.

Veja – A senhora dizia que o melhor emprego do mundo é o de secretário de Estado americano. Sente falta dele?
Albright – Claro. Quem disser que está feliz porque o trabalho como secretário de Estado terminou estará mentindo. Sempre soube que tudo aquilo iria acabar rápido, mas adorei tudo o que fiz.

Veja – Seu pai, Josef Korbel, foi professor da secretária de Estado Condoleezza Rice e a considerava sua melhor aluna. Como acha que ele avaliaria o trabalho dela?
Albright – Por princípio, não comento a atuação de Condoleezza. Acho que aprendemos coisas diferentes do meu pai. Mas acredito que ele ficaria muito orgulhoso pelo fato de ter educado duas mulheres que chegaram a ser secretárias de Estado.

Veja – Qual foi a lição mais importante que a senhora aprendeu com ele?
Albright – Aprendi a privilegiar o fato de ter crescido nos Estados Unidos como uma americana livre. Durante a II Guerra, meus pais e eu moramos na Inglaterra. Naquele tempo, os ingleses nos perguntavam: "Sinto muito pelo que aconteceu com o seu país. Vocês são bem-vindos aqui, mas quando voltam para casa?". Depois, fomos para os Estados Unidos. Quando chegamos, os americanos nos diziam: "Que pena que o seu país foi tomado pelos comunistas. O que podemos fazer por vocês? Quando você vai se tornar uma americana?". Essa reação dos americanos me ajudou a compreender o que é uma democracia e quais são as responsabilidades de um regime democrático.

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