Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 11, 2008

Luiz Garcia - A inclusão da lixeira




O Globo
11/4/2008

Não sou o mais velho ocupante deste sobrado da página sete. Nem o mais moço: tem aí esse menino Verissimo. Na qualidade de provecto número dois, está no meu contrato implícito a incumbência de perscrutar comportamentos da juventude, em busca de arroubos e excessos.

Por exemplo, a invasão de reitorias de universidades por estudantes que defendem suas idéias e ações ou protestam contra ações ou idéias alheias. Como o presente episódio na Universidade de Brasília. Até ontem, a invasão tinha apelo considerável. Não era fácil condená-la com as admoestações conhecidas. Do tipo "Jovens, seu papel é estudar. A violência não leva a coisa alguma." Etc.

Desta vez, a coisa era diferente: sem forçação de barra, podia-se argumentar que os estudantes ocuparam instalações que já haviam sido invadidas, em outro sentido - e de forma muito mais grave - pelo reitor Timothy Mulholland.

Tudo muda um bocado com o afastamento de Mulholland, anunciado ontem pelo próprio. É uma retirada estratégica, enquanto corre a ação iniciada pelo Ministério Público contra ele, formalmente acusado de improbidade administrativa. O nosso educador usou dinheiro da universidade para se cercar de luxo e conforto. Mais de R$500 mil, formalmente destinados a financiar "empreendimentos científicos e tecnológicos" foram desviados para pagar a decoração do apartamento funcional do reitor e a compra de um carro para ele.

É um abuso - que pode ser também definido como péssima lição dada por um educador profissional. Ainda bem que a reação da rapaziada mostra que o exemplo não pegou.

O reitor tem respondido às acusações dos estudantes dizendo-se vítima do "arrojo" (substantivo dele) de sua política de inclusão de estudantes negros. É sintomático que não tenha emitido uma só sílaba sobre a farra de gastos no apartamento. Vai ver, ele desistiu de tentar o impossível. Como conseguiria justificar, por exemplo, ter usado verba carimbada para pesquisas científicas na compra de uma lixeira de R$990?

No tribunal, Mulholland provavelmente não cometerá a temeridade de acusar também o Ministério Público de estar sabotando a "inclusão social" de negros. Pelo visto, a única inclusão que será mencionada na Justiça será mesmo a da lixeira nova no apartamento do reitor.

O Ministério da Educação não se meteu: tem usado o álibi do respeito à autonomia universitária. Pode ser pertinente, mas também é um tanto cômodo demais. O pessoal da arquibancada acha que a autonomia existe para proteger políticas educacionais. Não para permitir que ministros fechem os olhos a exemplos pouco educativos de uso de dinheiro público.

De qualquer forma, o processo aberto na Justiça e o afastamento do reitor mais do que justificam o fim da ocupação da reitoria. Pelo menos, na opinião de quem é bastante mais velho do que os invasores - e ainda tem a ilusão de que cabelos brancos são sinônimo de sabedoria.

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