Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 29, 2014

Tudo o.k. com a economia - CELSO MING - Estadão

Tudo o.k. com a economia - economia - versaoimpressa - Estadão

Um marciano que tivesse desembarcado em São Paulo na véspera e assistido ontem à aula magna do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), deveria ter ficado convencido de que a economia brasileira passa por um momento privilegiado.
É verdade que o crescimento econômico do Brasil foi insignificante nos últimos três anos e terá repeteco disso em 2014. Mas o ministro está conformado com o resultado e insiste em que, no período 2007 a 2013, outros aparecem pior na foto: Coreia do Sul, Austrália, África do Sul, Canadá, Rússia, Alemanha, França, Japão e Reino Unido. Só que ele deixa de citar que, nos últimos três anos, as promessas do governo no início de cada ano foram de avanço do PIB de 3,5% a 4,0% ao ano. Se entregou apenas uma fração disso é porque alguma coisa deu errado. Falta reconhecer e entender por quê.
Para a inflação, que namora o teto da meta e não consegue baixar do nível dos 6% ao ano, não há desculpa - como, de resto, o próprio Banco Central (BC) acaba de admitir na edição de março do seu Relatório de Inflação. Ao contrário do que fez com o PIB, Mantega não se dá ao trabalho de comparar a inflação brasileira com a do resto do mundo. Limitou-se a garantir que, "neste ano, a inflação não passará do teto da meta". Faltou dizer o que fará para que isso aconteça, à parte a alta dos juros promovida pelo BC e o represamento dos preços administrados.
O principal argumento desfilado pela Standard & Poor's para justificar o rebaixamento da qualidade dos títulos de dívida do Brasil a um degrau do nível especulativo foi o mau desempenho do governo na administração das contas públicas (política fiscal). Mas Mantega opta por ignorar essas razões. Prefere proclamar a solidez dos fundamentos da economia com "15 anos de esforço fiscal", inclusive os últimos quatro de "política anticíclica", que, por conta dessa natureza, produziu uma sobra menor de arrecadação do que nos anos anteriores.
O ministro reconhece que a hora não permite, como antes, que se dê prioridade ao consumo. Por isso, aí vai uma guinada decisiva que garantirá um crescimento anual de 7% no investimento para que este salte dos atuais 18,4% do PIB para 24% do PIB, em 2023 (veja o gráfico).
O ministro usou seu esquadro e traçou uma linha reta em direção a esses 24% sem, no entanto, explicar como crescerá o investimento sem que antes ou simultaneamente também cresça a poupança nacional, que há anos não sai dos 17% do PIB e que, no ano passado, ficou em apenas em 13,9% do PIB.
Esta não é a percepção de quem está fora do governo - e não precisa ser nem da oposição, nem jornalista crica, nem do staff das agências de classificação de risco. Até aliados do governo, como o professor Delfim Netto, entendem que a confiança está abalada, que o desempenho da economia ficou aquém do potencial, que é preciso elevar o superávit primário e que a política de represamento dos preços dos combustíveis, da energia elétrica e dos transportes urbanos produz mais distorções (e mesmo inflação) do que os benefícios pretendidos.
Vai que o ministro está certo e que marcianos são todos os demais.


Miriam Leitão Silêncio pesado

O Globo

A cada nova confissão de um militar da reserva, como a do coronel Paulo Malhães, fica mais pesado o silêncio dos militares. A omissão não é apenas desrespeitosa; ela é significativa. O silêncio fala, se acumplicia, abona o que foi feito no passado. Em outros países da América Latina, as Forças Armadas reconheceram seu erro. É essencial para limpar o travo do passado.
O ministro da Defesa fez uma defesa inepta desse silêncio. Disse que é outra geração e que o Estado já pediu desculpas. Celso Amorim é inteligente demais para não ter entendido que o silêncio é deliberado e nasce do pacto entre gerações. Mesmo os da ativa estão convencidos de que Exército, Marinha e Aeronáutica fizeram tudo certo. Eles usam a loquacidade dos que estão na reserva para expressar o que realmente pensam.
Amorim diz que as Forças Armadas de hoje nada “têm a ver com aquilo”. Até outro dia comemoravam o sinistro 31 de março; emitiram notas em passado recente defendendo tortura; ensinam nos colégios militares a versão de que salvaram o país; fizeram a mais eloquente linguagem corporal que podiam no dia da instalação da Comissão da Verdade. O ministro sabe exatamente o que já ouviu em certas reuniões. Conhece as omissões e ouviu mais silêncios do que os outros brasileiros, e tem noção de que eles não colaboram no resgate do passado porque não querem. Que o ministro da Defesa não se coloque como biombo e ajude o país a levar as instituições ao comportamento adequado.
Não se quer humilhar as Forças Armadas, mas apenas romper a barreira do silêncio com a qual eles mantêm fortes os vínculos com as outras gerações que levaram as instituições militares a permitir o inaceitável.
— Naquela época não existia DNA, concorda comigo? Então quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que, se acharem o corpo, podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais, só. Quebravam os dentes e cortavam os dedos. As mãos, não. E aí se desfazia do corpo — contou o coronel Paulo Malhães, que trabalhava no Centro de Informação do Exército.
Ele atuou, junto com outros militares, na Casa da Morte, da qual se soube pelo heroísmo de Inês Etienne. Ela escapou com vida de um aparelho de extermínio montado pelo Exército, jamais descansou no esforço para informar o país a que ponto extremo chegou a instituição. São fartas as provas de que os torturadores não eram uma facção, mas obedeciam a uma cadeia de comando.
Todos sabemos dos serviços prestados ao país pelas Forças Armadas nos dias de hoje. Neste exato momento estão novamente sendo convocadas para socorrer o Rio de Janeiro na busca da unificação da cidade que o tráfico de drogas partiu. Do Rio à Amazônia há exemplos fortes do seu papel eficiente para fazer o país avançar. Isso, no entanto, não exime as Forças Armadas de reconhecer os erros da instituição quando implantaram no país o regime de força.
As indenizações de nada serviram. As desculpas apresentadas por governos civis lideradas por pessoas que estavam na oposição não substituem a obrigação das Forças Armadas de dizerem ao país onde foi que erraram.
Os pensadores e analistas vão ajudar a compor a narrativa completa do golpe que teve também apoiadores civis. Nada, no entanto, encobrirá o fato de que, dentro das instalações das Forças Armadas, brasileiros foram presos, torturados e mortos. Em alguns casos, nem os corpos voltaram para as famílias.
Não se quer vingança contra as Forças Armadas. Eles precisam repudiar esse passado porque é assim que se constrói um país e se fortalecem a democracia, as instituições. No silêncio, uma geração vira cúmplice da outra. O silêncio os condena e nos ameaça.

Tática de ganhar tempo entra em zona de perigo - Jornal O Globo EDITORIAL

Tática de ganhar tempo entra em zona de perigo - Jornal O Globo

O desgaste da política econômica de Dilma pode ser mensurado de várias maneiras. As anêmicas taxas de investimento, aquém de 20% do PIB, em parte refletem, por exemplo, a insegurança do empresariado diante de vários riscos, como os regulatórios — os quais o Planalto passou a enfrentar a partir do ano passado —, tributários, e mesmo diante de perspectivas negativas para fundamentos da economia. A atmosfera tensa ficou mais visível quando rumores de que pesquisa eleitoral teria captado uma perda de terreno da candidata à reeleição provocaram alta na Bolsa. Animou os mercados a perspectiva de que poderá não continuar no Planalto quem eles identificam como responsável por várias problemas: abalo financeiro da Petrobras, hoje avaliada em bolsa pela metade do valor de poucos anos atrás, devido ao equivocado congelamento de preços de combustíveis; e desmontagem do setor elétrico, também por uma política voluntariosa, esta para cortar tarifas de energia, mas cujo resultado tem sido a montagem de uma bomba fiscal de alto poder destrutivo, pois o Tesouro passou a subsidiar parte da conta de luz. A relação de desacertos é longa.
Mas não havia a tal pesquisa de intenção de votos negativa para Dilma. Ao contrário, a que foi divulgada a manteve favorita nas urnas de outubro. Os rumores devem ter surgido de outra sondagem de opinião, do Ibope, sobre a avaliação do governo. Nela, a parcela dos que aprovam a administração, considerando-a "ótima ou boa", caiu sete pontos, de 43% para 36%, índice empatado com o dos que acham o governo "regular" — tudo em relação a novembro do ano passado.
Um aspecto a considerar é que as entrevistas foram feitas entre os dias 14 e 17. Portanto, não influenciadas pelo noticiário sobre os bilhões gastos pela Petrobras em negócios mal explicados, um deles a compra da refinaria em Pasadena, Texas, quando a ministra Dilma era presidente do conselho de administração da estatal. Há dias, Dilma revelou que considera o relatório enviado, à época, a ela e conselheiros, sobre a operação, "técnica e juridicamente falho". Isso não impediu o fechamento do negócio.
A pesquisa de popularidade do governo indica que a tática de empurrar o enfrentamento de problemas para 2015 pode não funcionar. Chama a atenção que o contingente de insatisfeitos com a inflação haja subido oito pontos, de 63% para 71%.
É um indício de que a leniência com a inflação pode cobrar um preço em outubro. Pois a questão não é apenas que o IPCA esteja, com persistência, mais próximo de 6% do que da meta de 4,5%. O problema para a candidata Dilma é que a inflação de serviços, dos "preços livres", os que se refletem bastante no bolso da população, há algum tempo rodam na faixa dos 7%, 8%. Há sinais de que o aperto causado por essa inflação possa estar sendo sentido agora. Neste caso, o relógio da política teria se acelerado e, com isso, colocado em xeque a tática eleitoral de ganhar tempo. Ele pode se esgotar antes de outubro.


Ainda a série de horror - ZUENIR VENTURA

Ainda a série de horror - Jornal O Globo

Jornal O Globo

O passado que a ditadura tanto quis esconder reapareceu com toda força, com a novidade de que agora quem revela as estarrecedoras atrocidades são os próprios algozes

Éramos quatro casais num jantar quando surgiu o tema do atentado às Torres Gêmeas, de NY, em 2001. O "jogo da memória" foi então saber o que cada um estava fazendo no momento em que recebeu a notícia. Ao contrário do choque imediato que então meus amigos experimentaram, minha ficha custou a cair, simplesmente porque, quando me mandaram ligar a TV naquela manhã, sem dizer por que, achei que a cena que vi era de um filme-catástrofe. Desliguei e só depois, no noticiário, me dei conta de que se tratava do maior ataque terrorista do século. Com os 50 anos do nosso golpe militar, que também foi tema da conversa, quase não tenho feito outra coisa senão responder à pergunta feita por colegas ou por estudantes de jornalismo: "O que você estava fazendo em 31 de março/1º de abril de 64?" Ser testemunha ocular da História, que é outro nome para a velhice, dá nisso. Há dez anos, manifestei minha surpresa por tantas análises e revisitas, sem imaginar que era apenas um trailer da overdose de agora. Como se explica que isso aconteça no país que, como se diz, sofre de amnésia crônica?
Será que é porque o trauma sofrido talvez não seja cicatriz, mas ainda ferida? Não sei. O fato é que o passado que a ditadura militar tanto quis esconder da memória nacional reapareceu com toda força, com a novidade de que agora quem revela as estarrecedoras atrocidades cometidas são os próprios algozes, não mais as vítimas. O mais recente capitulo dessa série de horror foi a confissão de um coronel-psicopata à Comissão da Verdade, relatando sadicamente como se torturava, matava, esquartejava e sumia com os corpos do presos políticos. De maneira didática, friamente, sem qualquer arrependimento, contou como quebravam as arcadas dentárias e cortavam seus dedos para que não fossem identificados.
Para justificar o método, ele estabeleceu com um membro da comissão um diálogo surrealista, como se o seu interlocutor fosse íntimo conhecedor da prática criminosa: "Quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que, se acharem o corpo, podem determinar quem é a pessoa?", fez a absurda pergunta, para ele mesmo responder: "Arcada dentária e digitais, só."
Em matéria de barbárie, aqueles militares, quem diria, foram os precursores dos atuais "tribunais do tráfico", que fazem o mesmo com os prisioneiros.
Em breve, um evento intelectual da pesada: o "Simpósio Internacional Sergio Rouanet — 80 anos". Para debater temas como modernidade, democracia, literatura, psicanálise em tempos "pós-freudianos e pós-marxistas" virão professores e especialistas de várias universidades do exterior, além das brasileiras.

Musicais tropicais 2.0 - NELSON MOTTA Jornal O Globo

Musicais tropicais 2.0 - Jornal O Globo

O grande sucesso popular dos musicais brasileiros que estão lotando os teatros, além de emoções e aplausos, provoca novas questões, velhas bobagens e algumas polêmicas interessantes. A base para discussão é sempre o clássico musical da Broadway ou, para os mais metidos, as montagens do West End de Londres. Para um crítico paulista, os espetáculos sobre Tim Maia, Cazuza, Renato Russo, Luiz Gonzaga e Elis Regina sequer podem ser chamados de musicais.

Seriam, no máximo, revistas, colagens, shows com esquetes e, no mínimo, pilantragens para enganar os tolos que querem ver seus ídolos ressuscitados no palco. Como diriam na Broadway, "Who cares?", ou no Harlem, "Who gives a fuckin' shit?" Os teatros estão abarrotados, os aplausos são ensurdecedores e os elencos ganham todos os prêmios. Quem sabe estão inventando aqui um novo formato de espetáculo musical, em que se misturam teatro, show, revista e tecnologia, para mostrar às novas gerações as vidas e obras de artistas de imensa importância na nossa cultura?
Há 20 anos, Paulo Francis me disse que tinha visto em Londres um musical muito interessante em que a história era narrada através de canções já conhecidas. Achou o espetáculo ruim, mas a ideia, boa, e me sugeriu escrever um musical brasileiro com essa estrutura. Vinte anos depois, a ideia era perfeita para um espetáculo justamente sobre a vida de um artista, as músicas já estavam prontas e consagradas pelo público, e escrevi "Vale tudo — Tim Maia, o musical", que está em cartaz há quase três anos. Valeu, Francis.
Ruy Castro argumenta que um musical de verdade tem que ser original de letra e música, e esses espetáculos com canções já conhecidas não deixam espaço para novos musicais que poderiam ser escritos pelos nossos talentosíssimos compositores e letristas. Com a "Ópera do malandro", Chico Buarque lhe dá razão, mas, de lá pra cá, o que foi produzido de original e relevante, cá ou lá?
Na Broadway, as montagens são cada vez mais espetaculares, mas nenhum musical em cartaz tem canções tão boas como as desses brasileiros. Só, talvez, o biográfico "Janis Joplin".

sexta-feira, março 28, 2014

1964 já era! Viva 2064! Reinaldo Azevedo

1964 já era! Tenho saudade é de 2064! Os historiadores podem e devem se interessar pelos eventos de há 50 anos, mas só oportunistas querem encruar a história, vivendo-a como revanche. Enfara-me a arqueologia vigarista. Trata-se de uma farsa política, intelectual e jurídica, que busca arrancar do mundo dos mortos vantagens objetivas no mundo dos vivos.

A semente do mensalão está nos delírios do Araguaia. O dossiê dos aloprados foi forjado pela turma que roubou o "Cofre do Adhemar". Os assaltos à Petrobras foram planejados pelas homicidas VAR-Palmares, de Dilma, e ALN, de Marighella. A privatização do passado garante, em suma, lugares de poder no presente e no futuro. Os farsantes apelam à mitologia para reivindicar o exclusivismo moral que justifica seus crimes de hoje. Ladrões se ancoram na gesta da libertação dos oprimidos. Uma solene banana para eles, com seus punhos cerrados e seus bolsos cheios!

Quem falava em nome dos valores democráticos em 1964? Os que rasgaram de vez a Constituição ou os que a rasgavam um pouco por dia? Exibam um texto, um só, das esquerdas de então que defendesse a democracia como um valor em si. Uma musiquinha do CPC da UNE para ilustrar: "Ah, ah, democracia! Que bela fantasia!/ Cadê a democracia se a barriga está vazia?" Para bom entendedor, uma oração subordinada basta. A resposta matou mais de 100 milhões só de... fome!

Nota desnecessária em tempos menos broncos: respeito a disposição dos que querem encontrar seus mortos. Eu não desistiria enquanto forças tivesse. Mas não lhes concedo a legitimidade, menos ainda a alguns prosélitos disfarçados de juristas, para violar as regras do Estado de Direito. A anistia, por exemplo, não está consignada apenas na lei nº 6.683. O perdão –não o esquecimento– é também o pressuposto da Emenda Constitucional nº 26 (ow.ly/v4ZK9), de 1985, que convocou a Assembleia Nacional Constituinte. Vamos declarar sem efeito o texto que nos deu a nova Constituição? A pressão em favor da revogação da anistia e a conversão da Comissão da Verdade –se estatal, ela é necessariamente mentirosa– num tribunal informal da história ignoram os pactos sobre os quais se firmaram a pacificação política do país.

Digam-me: onde estávamos em 1985? Revivendo a repressão de 1935, que se seguiu à "Intentona Comunista"? E em 1987? Maldizendo os 50 anos do Estado Novo? E em 1995, celebrando o seu fim? Estado Novo? Eis a ditadura que os "progressistas" apagaram da memória. Um tirano como Getúlio Vargas foi recuperado pelas esquerdas para a galeria dos heróis do anti-imperialismo e serve de marco, segundo os pensadores amadores, para distinguir "demófobos" de "demófilos".

Ilustro rapidamente. Entre novembro de 1935 e maio de 1937, só no Rio, foram detidas 7.056 pessoas. Todas as garantias individuais estavam suspensas. Dois navios de guerra foram improvisados como presídios. Em 1936, criou-se o Tribunal de Segurança Nacional, que condenou mais de 4 mil pessoas –Monteiro Lobato entre elas. Mais de 10 mil foram processadas. A Constituição de 1937 previa a pena de morte para quem tentasse "subverter por meios violentos a ordem política e social". Leiam o decreto nº 428, de 1938, para saber como era um julgamento de acusados de crime político. Kim Jong-un ficaria corado. A tortura se generalizou. No assalto ao Palácio da Guanabara, promovido por integralistas em maio de 1938, oito pessoas presas, desarmadas e rendidas foram assassinadas a sangue frio, no jardim, sem julgamento, por Benjamin e Serafim Vargas, respectivamente irmão e sobrinho de Getúlio. No dia 9 de novembro de 1943, a Polícia Especial enfrentou a tiros uma passeata de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, com duas vítimas fatais. Tudo indica que os mortos e desaparecidos do Estado Novo, sem guerrilha nem ataques terroristas, superaram em muito os do regime militar. Nunca se fez essa contabilidade. Nesse caso, a disputa pelo presente e pelo futuro pedia que se escondessem os cadáveres.

Getúlio virou um divisor de águas ideológicas na história inventada pelos comunistas, oportunistas e palermas e é o pai intelectual de João Goulart, o golpista incompetente deposto em 1964. Antes, como agora, "eles" sabem como transformar em heróis seus assassinos. A arqueologia do golpe é um golpe contra o futuro. Viva 2064!

O fantasma da dissidência - Eliane Cantanhêde




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O fantasma da dissidência - 28/03/2014 - Eliane Cantanhêde - Colunistas - Folha de S.Paulo

BRASÍLIA - O maior risco para Dilma e para a reeleição não é a criação da CPI da Petrobras em si, mas o fato de as assinaturas não serem exclusivas da oposição e incluírem novos e conhecidos dissidentes da base de apoio da presidente.

Não se fazem mais CPIs como antigamente, quando o PT, José Dirceu, Mercadante, os Waldomiros e as Erenices abasteciam os dossiês de denúncias e as páginas de jornais. Exemplos: a do PC Farias, que derrubou Collor; a do Orçamento, que cortou pela raiz a candidatura presidencial de Ibsen Pinheiro; a do Judiciário, que cassou Luiz Estevão.

As CPIs de hoje são, digamos, administráveis. Para economizar espaço, fiquemos num exemplo didático e recente: a do Cachoeira virou um grande acordo entre partidos e suspeitos e, nas somas e diminuições, só não deu zero porque mandou o ex-senador Demóstenes Torres de volta à insignificância.

O pior, para Dilma, é constatar o grau de insatisfação e o risco de evasões de sua base no crucial ano de eleições, com Aécio Neves ganhando um palanque extra na CPI e Eduardo Campos avançando celeremente pelos redutos, políticos e empresariais, que seriam naturalmente do ex-presidente Lula, mas resistem a Dilma.

Já que estamos falando tanto da ditadura militar, por causa dos 50 anos do golpe, não custa lembrar que ela só foi ao chão porque as oposições se uniram e minaram o regime por dentro. A redemocratização em 1985 foi possível pela ruptura, pelos dissidentes internos.

Dilma, portanto, fique de olho, até porque a própria chapa de Eduardo Campos com Marina Silva, a ser formalizada em 14 de abril, foi o fio da dissidência e quebrou a polarização PT-PSDB.

Como já dito aqui, Dilma não pode cair nas pesquisas eleitorais e de governo, porque elas é que mantêm as suas tropas unidas. Mas, com erros na economia, na política e na gestão, já começou a cair.

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1964 JÁ ERA VIVA 2064 REINALDO AZEVEDO FOLHA DE S PAULO

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Saúde pública do país sofre de má gestão EDITORIAL O GLOBO

Auditoria do TCU em hospitais é um roteiro eficaz para se estudar com as lentes da realidade, e não da ideologia, as causas da crônica crise no setor

Tão feia e preocupante quanto o crônico caos na saúde pública do país é a radiografia do sistema feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU), a partir de uma auditoria em 116 hospitais gerais e prontos-socorros nos estados e no Distrito Federal. Divulgado no GLOBO de ontem, o levantamento é uma chave essencial para ajudar a entender as razões que levam os brasileiros a penar em corredores, ambulatórios e enfermarias do Sistema Único de Saúde (SUS). Num quadro em que se misturam mau atendimento, déficit de profissionais, desleixo e leniência, revela-se uma realidade inquestionável: talvez mais do que a falta de verbas, alegação sempre presente quando se trata de “justificar” a ineficiência da rede oficial, a estrutura sofre do mal generalizado de gestão inepta.
O diagnóstico do TCU se baseia em exemplos absurdos, que revelam nítidos problemas de administração — como a destinação inadequada de equipamentos. Há casos como o de um hospital do Rio em que aparelhos de ultrassonografia permaneciam encaixotados, portanto sem uso, na ocasião da visita dos auditores do TCU; ou de uma máquina de endoscopia inativa porque a unidade hospitalar (em Mato Grosso do Sul) não dispunha de uma sala onde a pudesse instalar; ou ainda (em Mato Grosso) o de um aparelho também inoperante à espera da ampliação da rede de energia e, no Maranhão, de dois hospitais que receberam equipamentos sem necessidade.
São evidências gritantes de inaptidão gerencial, que se juntam a demandas crônicas — algumas até ditadas por problemas de verbas, principalmente por sua má aplicação — como déficit de pessoal (em 81% dos hospitais), redução acentuada do número de leitos oferecidos pelos SUS (somente na gestão da presidente Dilma Rousseff, em torno de 3,2%). É bem verdade que, neste quesito, o fenômeno não está circunscrito ao Brasil, mas o fato é que, em comparação com nações europeias, é desabonador o perfil do país, à frente apenas da Turquia na relação leitos/população. Há outros dados igualmente preocupantes, como superlotação das emergências em 64% das unidades e a anômala situação de haver uma concentração de leitos de UTI fora do SUS, num país em que a maioria da população é usuária do sistema público.
O levantamento é eficaz roteiro para que sejam estudadas as mazelas do SUS com as lentes da realidade de uma rede pública em sua maioria ineficiente, desmontando a ideia de que mais verba seria uma panaceia, quando o que se tem é uma falência múltipla de gerenciamento. Governos, principalmente os que se alinham com Brasília, rebarbam a opção por gestões baseadas em metas, em vez de ideologia, e com cobrança de produtividade. Caso, por exemplo, da administração de hospitais por organizações sociais — experiência que se mostrou acertada onde foi implantada. A auditoria do TCU ajuda a dar a medida do custo social dessa insensibilidade.
em http://oglobo.globo.com/opiniao/saude-publica-do-pais-sofre-de-ma-gestao-12010246#ixzz2xGd1T9Te 
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Mais realismo Celso Ming - O Estado de S.Paulo

Pela primeira vez, o Banco Central (BC) admite que a política de preços dos combustíveis e da energia elétrica, imaginada como recurso (populista) para evitar inflação, na verdade, produz inflação.
Isso está dito na página 77 do Relatório de Inflação divulgado ontem: "Os preços administrados encontram-se desalinhados, em patamares baixos". E mais adiante: "O Copom entende que uma fonte relevante de risco para a inflação reside no comportamento de expectativas impactadas (...) pelas incertezas que cercam a trajetória de preços com grande visibilidade, como o da gasolina e o de alguns serviços públicos, como eletricidade".
Em outras palavras, o BC adverte que, diante da falta de firmeza nas regras que cercam os preços administrados (cujo reajuste depende de decisão do governo), os fazedores de preços se adiantam em remarcações defensivas e, assim, ajudam a produzir inflação.
O BC reprojetou para cima o avanço dos próprios preços administrados (25% da economia), que cresceram somente 1,5% em 2013, quando a inflação foi de 5,9%, e deverão crescer apenas 5,0% neste ano, quando a inflação será de pelo menos 6,1%. Portanto, além de não tirar o atraso de 2013, os preços administrados aumentarão seu atraso em 2014. Ou seja, sobrará uma herança maldita para quem ocupar a chefia do governo em 2015.
Outro choque de preços denunciado pelo Relatório de Inflação é o impacto dos custos salariais. Este não é fator novo. Nova é apenas a ênfase das advertências do BC. A inflação dos salários é de 9%, "nível muito, muito elevado" acrescentou ontem o diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo. Ele, no entanto, espera que esse custo seja moderado nos próximos meses.
No entanto, a maior preocupação que permeia o Relatório de Inflação é a dificuldade encontrada pelo BC para controlar a alta de preços depois de uma luta que já dura 11 meses e de uma puxada acumulada nos juros básicos (Selic) de 3,5 pontos porcentuais, para 10,75% ao ano.
Embora tenha se esforçado para recuperar credibilidade, o BC é também responsável (embora não o reconheça) pela enorme resistência da inflação. Em primeiro lugar, dispôs-se a derrubar artificialmente os juros entre julho de 2011 e outubro de 2012. Em segundo, continua tolerante com a flácida política fiscal do governo federal. Chegou a passar meses denunciando em seus documentos o "balanço excessivamente expansionista das contas públicas", mas desde agosto de 2013, sem que nada de substancial tivesse mudado e sem justificativas convincentes, passou a repetir o mantra de que "se criam condições para que o balanço do setor público se desloque para a zona de neutralidade no horizonte relevante da política monetária".
Não foi o que disse, por exemplo, a Standard & Poor's na última terça-feira, quando rebaixou a nota de risco da dívida brasileira. E, decididamente, não é essa a percepção dos agentes econômicos cuja expectativa o BC busca conduzir.
Em todo caso, há mais realismo nas avaliações do BC, que contribuem para duas coisas: para justificar as estocadas nos juros em abril e maio e para a expressiva recuperação da credibilidade do presidente Alexandre Tombini que, aparentemente, move suas peças para credenciar-se a ocupar o Ministério da Fazenda do próximo governo.

Dora Kramer: Tiroteio nos pés


Notícia ruim não anda só. Caminha em bando, como bem pode atestar a presidente Dilma Rousseff de seu gabinete no Palácio do Planalto com vista para a Praça dos Três Poderes, onde bem ao centro localiza-se o Congresso Nacional.

Ali é que terá, nessa altura, maior repercussão a pesquisa CNI/Ibope que registrou a queda de sete pontos porcentuais no índice de avaliação positiva, agora em 36%. A população ainda não está eleitoralmente mobilizada, mas para os partidos e os políticos a hora de armar o jogo é agora. Muitos à espreita de Dilma na esquina. E aqui falamos dos ditos governistas.

De acordo com os pesos e medidas usados por especialistas no tema, um governante candidato à reeleição é considerado competitivo quando tem pelo menos 40% das indicações nos quesitos ótimo e bom.

Por essa régua, no momento a presidente Dilma estaria fora da zona de razoável conforto. Longe da faixa entre 45% a 50% em que o candidato é tido como franco favorito e mais distante ainda dos 50%, patamar acima do qual dificilmente alguém é derrotado.

Na semana passada se ouviu cantar esse galo, mas como ninguém sabia direito onde, correu a boataria de que uma pesquisa do Ibope registraria a queda das intenções de voto da presidente. Divulgados, os números desmentiram os boatos: ela continuava com os mesmos 43% da consulta anterior, feita em novembro.

Ontem apareceu o fundamento do falatório. A queda referia-se à avaliação do governo, comumente traduzida como popularidade da presidente. Esse era um ativo que Dilma ainda mantinha para lidar com uma base parlamentar tão ampla quanto insatisfeita, embora sem ter para onde correr, com resquícios de reverência decorrentes do favoritismo numérico diante de pretendentes da oposição.

Esse capital dá sinais concretos de erosão que os políticos captam no ar e transformam rapidamente em ação. Para começo de conversa, se reduz o receio do confronto com o governo. Quando eclodiu a última crise com o Parlamento liderada pelo PMDB, a versão do departamento de propaganda do Planalto é que a briga seria excelente para a presidente, pois ela ficaria com os dividendos da intransigência e os políticos, com os prejuízos da má imagem junto à opinião pública.

Como se viu pelo resultado da pesquisa, não se observou ganho algum junto à população. A ideia de se aproveitar do desgaste dos políticos evidentemente não cai bem entre eles, o que resulta em má vontade, principalmente entre deputados, no empenho pela reeleição da presidente. Ora, quando a isso se soma uma queda acentuada na popularidade, a insatisfação se manifesta mais abertamente e cada vez com menos cerimônia.

Tal ambiente não foi criado por obra da oposição. Tanto não foi que os dois candidatos, Aécio Neves e Eduardo Campos, ainda não têm o grau de conhecimento da presidente e continuam com índices baixos de intenção de votos. Todos os problemas que o governo enfrenta foram confeccionados internamente e são do conhecimento geral.

Condução errática da economia, insuficiência de desempenho na saúde, educação, segurança, ausência de diálogo com setores importantes da sociedade, menosprezo às críticas, manipulação da realidade, submissão dos interesses de Estado a conveniências partidárias, predominância eleitoral sobre todas as coisas, a presunção de que ao PT tudo é permitido e quem discordar é ingrato ou golpista.

A presidente não mede consequências. Não mediu no confronto com sua base aliada, não mediu quando acreditou que sua palavra bastava para encerrar um assunto relativo à Petrobrás e prosseguiu sem medir ao entrar na base da força bruta para impedir a CPI para investigar negócios da estatal. Foi ela quem colocou a empresa na berlinda.

A oposição não tinha número, mas tanto o governo ameaçou fazer e acontecer que as assinaturas apareceram em reação. O esforço para a retirada proporcionará cenas do arco da velha. Para quem pedir e para quem aceitar voltar atrás. Um prato para a oposição.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Merval Pereira: Queda confirmada


Na semana passada já havia acontecido a mesma coisa, mas não passou de especulação: a Bolsa subiu a partir do boato de que o Ibope detectara uma queda da candidatura da presidente Dilma que acabou se confirmando apenas em parte naquela ocasião.

Hoje, a confirmação da queda de popularidade da presidente fez com que a Bolsa voltasse a subir e o dólar a se desvalorizar diante da Real, seguindo a previsão dos economistas: se a reeleição da presidente for inevitável, os mercados reagirão de mau-humor, fazendo a Bolsa despencar e o dólar subir, como aconteceu com Lula em 2002.

Caso contrário, como a nova pesquisa do Ibope indica, a possibilidade de alternâncias no poder faz com que a mercado financeiro festeje mudanças futuras. Em alguns cenários na pesquisa anterior, Dilma caia de 43% para 40%, mas mantinha a tendência de fechar a eleição no primeiro turno.

Essa queda especulada há uma semana foi confirmada hoje em nova pesquisa, desta vez abordando apenas a popularidade pessoal da presidente e a de seu governo, sem entrar na medição de intenção de votos dos candidatos à eleição presidencial deste ano, o que deve acontecer mais adiante, confirmando ou não a tendência de queda na intenção de votos nela.

Caso se confirme uma tendência de queda, será bom também saber para onde foram esses votos arrependidos. Tanto podem aumentar a faixa dos brancos e nulos ou a dos “não sabem”, quanto ir para os adversários, indicando então uma nova tendência na corrida presidencial.

Os novos números demonstram que a popularidade da presidente caiu de 43% em novembro para 36% agora, o que a coloca novamente no patamar próximo aos 30% a que chegou em junho do ano passado, durante as manifestações de rua. A arrogância do marqueteiro João Santana, que previu que a presidente recuperaria o total de sua popularidade ainda no ano passado – voltando aos 57% que tinha – não foi respaldada pela realidade.

As pesquisas indicam que a maioria do eleitorado está em busca de mudanças na maneira que gerir o país sem a presidente Dilma à frente do Executivo. Essa queda registrada ontem é conseqüência do desejo, revelado na pesquisa anterior do mesmo Ibope, de uma maioria de 64% do eleitorado que quer que o próximo presidente “mude totalmente” ou “muita coisa” na próxima gestão.

Entre esses, apenas 27% consideram que a própria Dilma poderá fazer as mudanças necessárias, o que significa que cerca de 40% do eleitorado quer mudar tudo, inclusive Dilma. O caso da Petrobrás é exemplar de como esse mal-estar das ruas se reflete na atuação política. A oposição minoritária acabou forçando a convocação de uma CPI auxiliada por uma dissidência da base aliada do governo em diversas dimensões.

Os senadores do PSB votaram contra o governo, solidificando a posição oposicionista que deve ser aprofundada na eleição de outubro. Isto quer dizer que pela primeira desde 2002 o candidato do PT vai ter num provável segundo turno a ação coordenada de dois candidatos de oposição real.

Há também diversas dissidências em partidos da base como o PMDB e o PP, o que confirma a previsão de que o governo pode vir a ter o tempo de televisão de todos os partidos da base, mas provavelmente não terá nem a lealdade nem a máquina partidárias desses partidos a seu lado integralmente.

Os candidatos da oposição mais conhecidos, Aécio Neves pelo PSDB e Eduardo Campos pelo PSB ainda não obtém nas pesquisas a integral votação dos cerca de 40% que querem mudanças radicais no comando do país, o que indica que ainda têm campo para melhorar a atuação. Eles terão o benefício de terem seus programas eleitorais na televisão nesse momento de ebulição.

Há também dois outros candidatos que podem agregar votos para oposição, ajudando a realização de um segundo turno: o pastor Everaldo, do PSC, aparece com 3% dos votos e, dizem os especialistas, tem fôlego para chegar a cerca de 5%. E o jovem senador Randolfe Rodrigues, do PSOL, pode ter uma posição melhor do que o candidato anterior Plínio de Arruda Sampaio, que não obteve nem 1% dos votos na disputa de 2010.

O importante nesse tremor de terra registrado pelo Ibope é que a queda de popularidade da presidente Dilma se deu sem as manifestações de massa nas ruas, apenas provocada pelas notícias ruins que vieram se acumulando ao longo dos últimos dias.

Fonte: O Globo

Fernando Gabeira* : Passa, passa, Pasadena


Água era o meu foco. Revisitava o Rio Piracicaba castigado pela seca. No passado fui a algumas reuniões do Comitê de Bacia. Já havia na época uma preocupação com o futuro do rio, tão solicitado: abastece uma região em crescimento e mais 8,8 milhões de pessoas em São Paulo.

Lembrei, à beira do Piracicaba, alguns autores no fim do século passado afirmando que a água seria o petróleo do século 21, com potencial de provocar conflitos e até guerras. Mas ao falar no petróleo como algo do passado constatei que está na ordem do dia. Enterraram uma fortuna em Pasadena, no Texas. Outra Pasadena, na Califórnia, é a cidade cenário da sitecom The Big Bang Theory.

Pois é, nossa Pasadena começou com um singular ponto que se expande de forma vertiginosa. Foi uma espécie de Big Bang na consciência dos que ainda duvidavam que a Petrobrás estivesse indo para o buraco nas mãos dos aliados PT e PMDB. Diante dos fatos, vão-se enrolar de novo na Bandeira Nacional, sobretudo num momento de Copa do Mundo, fulgurante de verde e amarelo.

Os críticos da Petrobrás não são bons brasileiros. Bons são os que se apossaram dela e a fizeram perder R$ 200 bilhões nestes anos e despencar no ranking das grandes empresas do mundo.

O líder do governo, senador Eduardo Braga (PMDB-AM), disse que a perda desse dinheiro faz parte do jogo capitalista de perde e ganha. Se fosse numa empresa privada, dificilmente seus diretores resistiriam no cargo. Em Pasadena enterrou-se dinheiro público. O que deveria ser mais grave em termos políticos.

Pasadena é uma boa versão com sotaque latino para Waterloo. Dilma Rousseff afirma que assinou a compra da refinaria no Texas sem conhecer as cláusulas. Depois disso conheceu. Ela lançou uma nota para explicar o momento em que não sabia. E se esqueceu de explicar todos os anos de silêncio e inação.

Os diretores que teriam omitido as cláusulas que enterram mais de US$ 1 bilhão em Pasadena continuaram no cargo. Até a coisa explodir mesmo. Tenho a impressão de que tentaram sentar-se em cima da refinaria de Pasadena. Sentaram-se numa baioneta, porque não se esconde um negócio desastroso de mais de US$ 1 bilhão.

Os fatos começam a se desdobrar agora que os olhares se voltam para esse refúgio dos nacionalistas, defensores da Pátria enriquecidos.

Uma empresa holandesa cobrou US$ 17 milhões da Petrobrás por serviços que não constavam do contrato. A primeira parcela da compra em Pasadena foi declarada como US$ 360 milhões, mas no documento americano ela foi registrada como uma compra de US$ 420 milhões. Refinarias compradas no Japão têm as mesmas cláusulas do contrato desastroso de Pasadena.

Um amigo de Brasília me disse ao telefone: "Se esse Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobrás, abrir a boca, a República vai estremecer". Conversa de Brasília. Quantas vezes não se falou o mesmo de Marco Valério?! O que pode trazer revelações são os computadores, pen drives e documentos encontrados na casa dele. A Polícia Federal não acreditava que ele iria falar, tanto que o prendeu com o argumento de que estava destruindo provas.

Passa, passa, Pasadena, quero ver passar. A Petrobrás da nossa juventude, dos gritos de "o petróleo é nosso", se tornou o reduto preferido dos dois grandes partidos que nos governam. O petróleo é deles, do PT e do PMDB. Levaram o slogan ao pé da letra e suas pegadas na maior empresa do País demonstram que devoram até aquilo que dizem amar.

De certa forma, isso já era evidente para mim nas discussões dos contratos do pré-sal. Eles impuseram uma cláusula que obriga a Petrobrás a participar de todos os projetos de exploração. Não deram a chance à empresa de recusar o que não lhe interessava.

Tudo isso é para fortalecer a Petrobrás, isto é, fortalecer-se com ela, com uma base de grandes negócios, influência eleitoral e, de vez em quando, uma presepada nacionalista, tapas imundos de óleo nas costas uns dos outros, garrafas de champanhe quebradas em cascos de navios.

Lá, no Texas, os magnatas do petróleo usavam aqueles chapéus de cowboy. Lá, em Pasadena. Aqui, os nossos magnatas em verde e amarelo estão com poucas opções no momento. Ou reconhecem o tremendo fracasso que é a passagem dos "muy amigos" da Petrobrás pela direção da empresa ou se enrolam na Bandeira e acusam todos de estarem querendo vender a Petrobrás. Diante das eleições e da Copa do Mundo, devem optar por uma alternativa mais carnavalesca.

Mas os fatos ainda não são de todo conhecidos. Deverá haver uma intensa guerra de bastidores para que não o sejam, especialmente os documentos nas mãos da Polícia Federal.

Pasadena. Certos nomes me intrigam. O mensalão não seria o que foi se não houvesse esse nome tão popular inventado por Roberto Jefferson, que no passado apresentava programas populares de TV. Pasadena soa como algo esperto, dessas saidinhas em que você vai e volta em cinco minutos, leve e faceiro. Mas pode ser que Pasadena não passe e fique ressoando por muito tempo, como o mensalão. E se tornar uma saidinha para comprar cigarros, dessas sem volta, para nunca mais.

Criada uma comissão no Congresso Nacional, envolvidos Ministério Público e Polícia Federal, podem sair informações que, somadas às de fontes independentes, deem ao País a clara visão do que é a Petrobrás no período petista. Não tenho esperança de que depois disso todos se convençam de que a Petrobrás foi devastada. Mas será divertido vê-los brigando com os fatos, com as mãos empapadas de óleo.

Diante do Rio Piracicaba meu foco é a água. Na semana passada, vi como na Venezuela o uso político do petróleo deformou o país. No Brasil o alvo da voracidade aliada é a Petrobrás.

E se a água é o petróleo do século 21, daqui a pouco vão descobri-la, quando vierem lavar as mãos nas margens dos nossos rios.

*Fernando Gabeira é jornalista

Fonte: O Estado de S. Paulo

Sandro Vaia: O fetiche da CPI

A CPI é um fetiche da política brasileira. Entre as várias lendas nem tão lendárias que se institucionalizaram a seu respeito está a frase de autor desconhecido: “Sempre se sabe como uma CPI começa mas nunca se sabe como termina”.


Por isso é regra: por princípio, quem está no poder é contra CPIs e quem está na oposição sempre está querendo abrir uma, sobre qualquer assunto. Embora ninguém tenha nada a esconder, ninguém quer ser investigado.

Verdade que nunca se sabe como termina uma CPI, mas não é menos verdade que na maioria das vezes termina em “pizza”.

(Como reza a lenda da origem da expressão, terminar em pizza remonta às velhas e sangrentas batalhas internas que dividiam os cartolas do Palmeiras em exércitos inimigos. Quando parecia que estavam prestes a consumar o extermínio mútuo, acabavam fazendo as pazes e dividindo fatias de pizza na cantina mais próxima).

Como é um fetiche político, a CPI é tratada como tal. O ministro da Justiça, em uma de suas perorações cheias de platitudes, disse ser contra a CPI da Petrobrás porque a oposição quer fazer uso político — e consequentemente eleitoral — dela.

A extraordinária afirmação do ministro leva à conclusão de que, sabe-se lá por qual extravagância, os políticos querem fazer política e a oposição tem o patológico vício de se opor ao governo.

Outros, menos filosóficos e mais preocupados com seus próprios interesses corporativos, como a Federação Única dos Petroleiros, declara que a CPI é mais uma manobra “do DEM, do PSDB e das grandes empresas de comunicação, que visa à privatização da Petrobrás”.

Como nem os dois partidos citados nem as empresas de comunicação reúnem votos suficientes para instalar uma CPI, ignora-se, de propósito, que parte da base governista também achou que os estranhos negócios da ex 12ª empresa do mundo e atual 112ª , que perdeu metade de seu valor de mercado em 5 anos, merece algo mais do que “uma rigorosa sindicância interna”, que costuma ser a mãe das pizzarias.

Há alguma coisa de doentio em acreditar que um negócio como o de Pasadena seja normal, mesmo com a confissão da ex-presidente do conselho de administração e atual presidente da República de que só aprovou o negócio por ter sido induzida ao erro por um resumo executivo de 3 páginas “incompleto e falho” — motivo pelo qual, aliás, o autor foi demitido ainda que seis anos mais tarde.

Também é doentio acreditar que seja normal que a atual presidente da companhia declare que desconhecia a existência de “um comitê de proprietários” da refinaria de Pasadena, no qual a Petrobrás era representada pelo diretor Paulo Roberto Costa, preso pela Polícia Federal sob acusação de “lavagem de dinheiro”.

É muita insolência achar que investigar isso seja uma conspiração. Como dizia Millôr Fernandes em uma de suas últimas entrevistas, “quando se passa por um período de esculhambação generalizada, a sociedade cobra lei e ordem”.

E é aí que mora o perigo. Sabemos no que isso vai dar. A CPI, pelo menos, pode ser uma catarse política.

Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez e "Armênio Guedes, Sereno Guerreito da Liberdade"(editora Barcarolla).

Fonte: Blog do Noblat

quinta-feira, março 27, 2014

O hacker e o fantasma -Mario Sergio Conti

O hacker e o fantasma - Jornal O Globo
O GLOBO

O colunista escreve às quintas-feiras

Ao contrário dos espiões de antanho e de Hollywood, os hackers cultivam o difuso ideal da transparência

O espião era um profissional da bisbilhotice. Sua matéria-prima eram cabeludíssimos segredos de Estado, intimidades abomináveis que proporcionavam chantagens, desígnios venais de comunistas macilentos. Como não há tensão que dure para sempre, a espionagem perdeu-se nas brumas da Guerra Fria. A auréola de mistério que a encimava teve um apagão quando a Cortina de Ferro foi carcomida e o Muro de Berlim se esboroou.
Bons tempos aqueles — tempos de thrillers escritos por Maniqueu em pessoa; de 007 com um topete postiço à la Eike Batista; do agente Tumão ensinando Tuminha que a democracia dá um dinheirão. Os russos tinham péssima pontaria e os mocinhos davam de lavada. Sem espiões a História ficou sem sentido. Mas em boa hora surgiram os hackers.
Não quaisquer hackers. Os que surrupiam senhas, inoculam vírus e afanam o cartão de crédito não têm o menor charme. Bons são aqueles que atazanam os poderosos. Ao contrário dos espiões de antanho e de Hollywood, os hackers cultivam o difuso ideal da transparência. Trabalham de graça e correm riscos reais. Não têm receitas para melhorar a sociedade. O que lhes interessa é a verdade.
Três deles saíram das sombras. Bradley Edward Manning, soldado americano hoje com 26 anos, era analista de informações no Iraque e no Afeganistão. Foi acusado de vazar cerca de 700 mil documentos secretos. Expulso do Exército, recebeu a pena de 35 anos de prisão. Um dia depois da condenação, contou que era transexual e queria iniciar um tratamento com hormônios. Pediu para ser chamada doravante de Chelsea Elizabeth.
Edward Snowden, com 30 anos e também americano, é um especialista em computadores — eufemismo para "hacker" — que trabalhou na CIA e foi funcionário terceirizado da Agência Nacional de Segurança, a NSA. Ele também divulgou milhares de papéis sigilosos. O governo americano o acusou de roubo e espionagem, cassou seu passaporte e saiu no seu encalço. Snowden se refugiou na Rússia.
As revelações que eles fizeram são de natureza diferente. As difundidas por Manning mostram o poder americano no seu esplendor: assassinatos de civis, ordens de execução, traição de aliados, corrupção de adversários. Um dos seus biógrafos especula que a Primavera Árabe não teria ocorrido se Manning não tivesse posto a nu a podridão dos títeres da Casa Branca na região. Snowden, por sua vez, evidenciou a intromissão americana em todas as formas de comunicação. Telefonemas e e-mails, Angela Merkel, Dilma Rousseff e congressistas americanos — nada e ninguém estão a salvo da espionagem americana.
Argumenta-se que as descobertas de Manning e Snowden apenas confirmam suspeitas estridentes. Ou será que Luciana Gimenez acha que o imperialismo americano é um conto de fadas? Mas mesmo com a ignorância tendo tantos adeptos, saber sempre foi superior a supor. A verdade tem a força do real, independe de quem a revela. Ela está nua na formidável estátua de Bernini porque não tem nada a esconder.
O terceiro hacker na ribalta é Julian Assange, um australiano de 42 anos. Ele criou e chefia o site WikiLeaks, que divulgou centenas de milhares dos segredos garimpados por Manning e muitos dos de Snowden. Ao contrário deles, Assange não tem jeito de nerd. Tem a aparência de um astro pop ultra-cool.
Agora dá para entrever algo do homem atrás da aparência. Não se lerá tão cedo na imprensa uma preciosidade do quilate da reportagem sobre Assange publicada no último número da "London Review of Books". Seu autor, o jornalista e escritor escocês Andrew O'Hagan, foi contratado em 2011 para ser o ghost-writer da autobiografia do hacker. Receberia o combinado, escreveria o livro e se manteria calado. Assange ganhou US$ 2,5 milhões adiantados pela sua venda em 40 países.
Deu tudo errado. O'Hagan ficou meses com Assange e gravou milhares de horas de entrevistas. Quando o esboço do livro ficou pronto, o hacker passou a dizer que "toda autobiografia é prostituição" e se recusou a publicá-lo. Como já tinha embolsado o adiantamento, o rascunho foi publicado à sua revelia com o título de "Julian Assange — A biografia não autorizada".
O que deu certo foi a reportagem de O'Hagan, na qual o espião é espionado por um fantasma. O nerd come com a mão, passa a maior parte do tempo acompanhando o que falam dele na internet, não entende nada de política ("não distinguiria o materialismo dialético de um saco de nozes"), padece de delírios persecutórios, é um narcisista que não termina o que se propõe porque não sai da frente do espelho. Como diz O'Hagan, Assange é mad, sad and bad. Mas ele não matou ninguém e espalhou a verdade. Já o boa praça Obama matou milhares, espiona milhões e mente sem parar.

Está bom ou ruim? -CARLOS ALBERTO SARDENBERG

Está bom ou ruim? - Jornal O Globo
 Jornal O Globo

E então: está bom ou está ruim? Ser rebaixado por uma agência de classificação de risco é certamente ruim. Mas o mundo não acabou. Nem a bolsa despencou, nem o dólar disparou. Logo, qual o problema de uma nota mais baixa?
O problema maior está justamente na formulação dessa pergunta. Assim como leva anos para se arrumar a economia de um país — e merecer o grau de investimento — também é preciso uma série longa de equívocos para estragar a coisa. Como isso acontece devagarzinho, a gente corre o risco de se acostumar com o errado. É o que está acontecendo por aqui.
A agência Standard & Poor's (S&P) promoveu o Brasil a grau de investimento, retirando-o do grupo dos caloteiros, só em 2008, nada menos que 14 anos depois da introdução do Real e após uma série de reformas que levaram à estabilidade. O país estava então no segundo mandato de Lula, que celebrou ruidosamente a novidade. Disse que era um momento mágico e que o Brasil recebera o carimbo de país sério.
Era por aí: o prêmio pela manutenção de uma mesma política econômica ao longo de quatro mandatos presidenciais, comandados por partidos diferentes. Em 2011, já no governo Dilma, o Brasil teve uma outra promoção, passando para o nível dois de grau de investimento. Era uma recompensa pela boa sobrevivência à crise financeira global. Desta vez, o Brasil acompanhou os principais emergentes: todos reagiram bem.
Na última segunda-feira, portanto, o Brasil retrocedeu três anos. Voltou à nota de 2008, que ainda é grau de investimento, mas apenas no primeiro nível. Mais uma bobeada — ou um conjunto de bobeadas — e o país volta ao grupo dos caloteiros conhecidos.
Mas esse fato — ter a economia brasileira permanecido como investiment grade — foi o mais acentuado por muita gente. Por exemplo: a bolsa brasileira continuou no ritmo positivo — no day after do rebaixamento emplacou sete dias úteis de alta. E o dólar continuou acomodado na casa dos R$ 2 e trinta e poucos. Os juros subiram, mas só um pouco.
Mas olhem mais para trás. Nos últimos 12 meses, a bolsa brasileira sai do positivo e se mostra como tem sido: 12% de queda. Foi um dos piores desempenhos entre as principais bolsas internacionais.
Todas as medidas do risco Brasil vêm mostrando alta desde 2012. Hoje, esse risco — medido pela taxa de juros que o governo paga por empréstimos externos ou pelo seguro contra calote — é maior do que a média da América Latina e da Ásia emergente.
Isso reflete a deterioração da política econômica especialmente nos últimos três anos. Mas o que significa deterioração?
Significa que os fundamentos — aqueles que levaram ao grau de investimento — não foram jogados no lixo, mas têm sido maltratados.
Por exemplo: ainda estamos sob o regime de metas de inflação com Banco Central independente. O BC segue os rituais desse sistema praticado por quase todos os países sérios, mas... não segue. Ficou evidente que o BC reduziu a taxa básica para 7,25%, lá atrás, para cumprir uma meta política da presidente Dilma. Tanto foi um movimento sem base técnica que hoje, com a volta da inflação, o BC colocou a taxa de juros no mesmo lugar em que estava quando a presidente Dilma assumiu, em 2011. Ou seja, esse movimento do BC só causou confusão e deixou a inflação perto e até acima do teto da meta.
É tudo assim, por um lado, por outro. A meta de inflação continua sendo de 4,5%, mas qualquer coisa abaixo dos 6,5% está bom para o governo.
O governo continua colocando no orçamento as metas de superávit primário, como manda a lei de responsabilidade fiscal, um dos pilares do grau de investimento. Mas, na execução, o governo manipula os números, inventa operações para esconder a alta da dívida, faz novas promessas — e acha que todo mundo vai acreditar.
Contou com isso por um bom tempo. Só agora a S&P resolveu reduzir a nota brasileira. As outras duas agências importantes ainda não se moveram.
Resumo da ópera: a gestão da política econômica é bastante ruim, em praticamente todas as áreas, do combate à inflação à gerência do setor elétrico e da Petrobras. Por isso o risco Brasil e a S&P derrubaram a nota brasileira. Mas, como as bases institucionais da estabilidade continuam aí, entende-se que os desvios podem ser corrigidos a tempo. Daí, a manutenção do grau de investimento.
Desse ponto de vista, o rebaixamento deve ser visto como um sinal de que, antes de mais nada, a política econômica precisa voltar aos fundamentos.
CUSTO LULA
Procurem no Google "Lula e a refinaria de Pernambuco". Logo verão que o ex-presidente considerava (e comemorava) como sua a decisão de fazer a Refinaria Abreu e Lima, em associação e com o petróleo da PDVSA de Chávez. Era parte de sua diplomacia Sul-Sul.

Volta ao lar Cora Rónai

Volta ao lar - Jornal O Globo


O Globo

A colunista escreve às quintas-feiras e aos sábados

O Brasil não está preparado nem para receber brasileiros, quem dirá turistas. Eu também tenho pena de quem vem para a Copa

Dizem que viajar é ótimo, mas voltar para casa é melhor. Depende. Se "casa" é o Rio de Janeiro, talvez melhor mesmo seja ficar voando em círculos sobre a cidade, eternamente, apenas imaginando as maravilhas lá de baixo, sem precisar encarar a realidade. Que, para mim, voltando de maravilhosas férias no Marrocos, começou na segunda-feira, bem cedo, assim que saí do avião, já na fila dos passaportes do indefectível Galeão — o pior aeroporto do planeta, sem exceção.
Depois de atender a meia dúzia de pessoas, duas dos quatro atendentes juntaram as suas tralhas e deram o expediente por encerrado, deixando as filas em frente aos seus guichês em suspenso. Nenhuma teve a cortesia de dizer nada, nem até logo, quanto mais explicar que estava na hora da mudança de turno e que logo outros atendentes assumiriam os seus lugares. Esperar cinco minutos pelos outros funcionários, para não deixar o público na mão, nem pensar.
Rebelião entre os passageiros:
— E este é o país da Copa!
— Este é um país de merda, isso sim!
— Como é que é? Ninguém vai nos atender?
— O público que se dane, é isso?!
Muitos minutos depois dois homens apareceram e ocuparam os lugares das mulheres. Tudo sem que uma palavra de explicação nos tivesse sido dada, como se simplesmente não estivéssemos lá, meia centena de passageiros exaustos e exasperados.
Eu era a primeira da fila.
Quando cheguei ao guichê, o funcionário me fez uma pergunta tão baixo, mas tão baixo, que tive que pedir que a repetisse três vezes para que pudesse entender. O que ele queria saber é se eu havia registrado o incidente, provavelmente porque me viu de celular na mão.
Respondi que não, na cara dura; mas registrei, sim. Aqui estão as minhas palavras e a descrição fiel do que aconteceu. Firme-se o registro, dou fé. Tenho fotos das cabines vazias como complemento. Devia ter filmado, mas meu instinto ainda é fotografar e anotar mentalmente, quando não posso fazê-lo por escrito.
Depois disso, banheiros imundos — por culpa também dos passageiros, no caso passageiras, incapazes de jogar toalhas usadas no lixo. E completamente inadequados a uma estação de viagem. Até nas ferroviárias mais remotas do Marrocos os arquitetos sabem que passageiros precisam entrar nas cabines dos sanitários com a bagagem de mão; no Galeão, não. É preciso muita ginástica e logística para entrar nas cabines com uma mala de bordo normal e, ao mesmo tempo, conseguir fechar a porta.
O Tax Free é aquela quitanda lastimável que todos conhecemos, e que envergonharia a rodoviária de Assunção.
Na área dos táxis, continua a abordagem de piratas e de canalhas variados. Lá fora, duas filas de amarelinhos. A primeira, cheia de gente, não tem táxi nenhum. A outra, numa segunda pista, está cheia de táxis das cooperativas do aeroporto, mas não anda. Tem vários táxis parados, vazios; outros táxis vêm por fora, param em fila tripla, pegam passageiros do fim da fila, uma zorra absoluta.
Alguém nos diz que os motoristas daqueles táxis "oficiais" parados estão lá dentro, esperando passageiros. Devem ser os bandidos que estavam me pedindo R$ 100 para vir até a Lagoa. Não há um único guarda ou funcionário para pôr ordem no caos ou para dar informações aos passageiros. Assim como no guichê dos passaportes, o clima da fila é de revolta.
— Que país nojento esse em que a gente vive!
— Muito azar nascer brasileiro!
— Que aeroporto de merda, que bando de ladrões, que bosta tudo isso!
— Tenho pena dos turistas que vêm para a Copa!
Antigamente, quando eu ouvia pessoas falando assim, entrava na conversa com jeitinho e tentava relativizar as coisas com um dos clássicos "Em compensação, lá fora..." Dessa vez ouvi calada. Não tenho mais argumentos. Depois de uma hora de fila, depois de tentar a sorte na primeira e na segunda pistas, sem ter ideia do que acontecia numa ou noutra, depois de testemunhar taxistas pegando passageiros fora da ordem e combinando preço fora do relógio, joguei a toalha. Peguei um táxi alternativo, por assim dizer — ou "executivo", como gostam de dizer os hotéis —, que me ofereceu a corrida por R$ 60, preço justo para o percurso. No caminho, ele me contou que aquela cena de faroeste está acontecendo todo santo dia. Eu adoro o meu país, eu amo a minha cidade, mas é dose voltar de viagem e encarar uma realidade tão selvagem. O Brasil não está preparado nem para receber brasileiros, quem dirá turistas. Eu também tenho pena de quem vem para a Copa. Muita pena.
Mas tenho mais pena ainda de nós. Eles vêm mas voltam, para países que, em sua maioria, estão progredindo com o passar dos anos; nós, por outro lado, continuamos aqui, num país cada vez mais hostil, que conseguiu a proeza de passar da barbárie à decadência sem atravessar qualquer período de civilização.
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Ainda tenho muita coisa para contar sobre o Marrocos, um dos lugares mais interessantes que já visitei; volto ao assunto na semana que vem. Peço desculpas pela interrupção da programação normal, mas eu precisava desabafar.

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