Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, fevereiro 11, 2014

A denúncia que tardava - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 11/02

Em meados de 2005, pouco depois de o então deputado federal Roberto Jefferson revelar a existência de um esquema de suborno de parlamentares com dinheiro público para aprovar projetos de interesse do governo do presidente Lula - o escândalo do mensalão, assim chamado pela frequência dos pagamentos -, veio à tona a denúncia de que, em 1998, a campanha à reeleição do então governador tucano de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, desviou R$ 3,5 milhões (ou R$ 9,3 milhões em valores atualizados) de duas empresas estaduais, Cemig e Copasa, além do banco oficial Bemge. Inevitavelmente, o esquema ficou conhecido como mensalão mineiro. Apesar das diferenças entre os dois casos, o nome pegou porque o seu pivô era o mesmo, o publicitário Marcos Valério de Souza. Tanto que, em 2007, o então procurador-geral da República, Antonio Fernando Silva, afirmou que o mensalão mineiro foi o "laboratório" do similar federal.

De fato, Valério tomou empréstimos bancários e transferiu os respectivos valores para o caixa da campanha de Azeredo. Depois, saldou as dívidas com recursos das citadas estatais, destinados, no papel, ao patrocínio de eventos esportivos. No mensalão propriamente dito, o publicitário branqueava o dinheiro público desviado para as suas empresas mediante a contratação de empréstimos bancários fictícios. Na última sexta-feira, Azeredo foi denunciado pelo atual procurador, Rodrigo Janot, por peculato e lavagem de dinheiro. Numa iniciativa incomum, ele pediu 22 anos de prisão para o político. Por sinal, absurdos 16 anos se passaram desde os fatos e mais de 4 desde que o ministro Joaquim Barbosa, o primeiro relator da matéria, defendeu a abertura de processo no Supremo Tribunal Federal (STF) contra os acusados detentores de foro privilegiado. Azeredo, atual deputado federal e ex-presidente do PSDB, compara-se ao ex-presidente Lula, que ficou fora da Ação Penal (AP) 470. "Eu também não posso ser responsabilizado."

Pode sim, porque neste caso há provas "absolutamente suficientes", sustenta Janot, de que o governador em busca do segundo mandato "participou decisivamente" da operação de desvio de dinheiro do Estado, cuja lavagem "teve a participação direta, efetiva, intensa e decisiva" de Azeredo. Além disso, existem evidências de relacionamento próximo entre o tucano e o publicitário. Entre julho de 2000 e maio de 2004, eles se falaram por telefone pelo menos 57 vezes. Na sua petição de 84 páginas, o procurador compara Azeredo não a Lula, mas ao ex-ministro José Dirceu, que divide com Valério o pódio dos principais condenados do mensalão e celas separadas no Presídio da Papuda, no Distrito Federal. Assim como o "capitão do time" do governo Lula, Janot argumenta, Azeredo cuidou de se preservar, "nunca se pondo ostensivamente à frente do esquema e permanecendo em segundo plano, em clara tentativa de ocultar sua participação nos delitos".

Ele tem 15 dias para apresentar as alegações finais em sua defesa. Depois, em data ainda indefinida, o ministro Luís Roberto Barroso, relator da respectiva ação penal, de número 536, encaminhará o seu parecer ao plenário da Corte. Outra AP, a 606, tem como réu o senador Clésio Andrade, do PMDB, companheiro de chapa de Azeredo em 1998. A extrema lentidão do processo salvou a pele de outro denunciado, nesse caso por peculato e formação de quadrilha, o então petebista Walfrido dos Mares Guia, vice-governador de Minas na gestão do tucano e, mais tarde, duas vezes ministro no governo Lula. Ele se safou por ter completado 70 anos em novembro de 2012. A partir dessa data, o prazo para a prescrição dos crimes de que foi acusado caiu à metade - e já se esgotou. Em abril, pelo mesmo motivo, o tesoureiro da campanha de Azeredo, Cláudio Mourão, poderá requerer a alforria. Marcos Valério enfrenta no STF uma ação civil por improbidade administrativa; a ação por peculato e lavagem corre numa vara criminal de Minas, porque o processo foi desmembrado.

O essencial, a esta altura, é recuperar o que for possível do tempo desperdiçado. Os mensaleiros de Brasília, com a exceção de Roberto Jefferson, já cumprem as suas penas. O julgamento dos seus precursores ainda nem começou.

O exemplo do México - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR




GAZETA DO POVO - PR - 11/02

O país está longe de ser um paraíso, mas o progresso é notório: reforma tributária, melhor gestão do gasto público, modernização de relações de trabalho e programas de redução da pobreza



De forma surpreendente, em apenas dois anos o México deixa de ser um patinho feio latino-americano e desponta como um exemplo de país que fez reformas, rompeu com políticas atrasadas, ganhou credibilidade internacional e iniciou o caminho do crescimento econômico e do desenvolvimento social. Alguma coisa certa o país fez para conseguir tal proeza em tão pouco tempo. Na prática, o México está provando que o liberalismo com preocupação social (diferente, é preciso dizer, do puro laissez faire) é o melhor formato para fazer a economia crescer e melhorar as condições de vida da população.

Enquanto isso, Argentina e Venezuela seguem firmes rumo ao desastre econômico, e seus governos se recusam a tentar entender por que o México está indo bem. Certamente, não admitem nem em hipótese a possibilidade de adotarem o modelo mexicano. A razão é que o fervor ideológico estatizante impede a aceitação do óbvio e recusa as lições da história, mesmo que suas economias sigam caminhando a passos largos para o abismo.

Embora em menor grau que os vizinhos bolivarianos, nos últimos três anos do governo Dilma Rousseff os indicadores econômicos do Brasil vêm piorando, numa demonstração de que alguma coisa muito errada o país está fazendo. O diretor da agência de avaliação de risco Standard & Poor’s (S&P) Roberto Sifon-Arevalo declarou recentemente que os principais fatores responsáveis por colocarem o México em posição superior ao Brasil são as reformas estruturais e o ambiente político vigente naquele país.

As reformas avançaram na economia mexicana, o ambiente político tornou-se menos incerto, os indicadores econômicos melhoraram e o crescimento retornou. Enquanto isso, no Brasil as reformas estão praticamente estagnadas, a incerteza é maior e a vocação da presidente Dilma para intervir na economia – muitas vezes de maneira atabalhoada e improvisada – são fatores que contribuem para os maus resultados das contas fiscais, o baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a fuga dos investidores dos projetos da infraestrutura.

O México está longe de ser um paraíso. Pelo contrário: o país continua com elevados níveis de pobreza, há gargalos estruturais que vêm de décadas, os problemas sociais continuam sérios, há regiões dominadas pelo narcotráfico e o caminho para superar o atraso é longo. Foram décadas de maus governos e más políticas públicas, coisa que não se pode consertar em pouco tempo. Vale lembrar que o presidente Enrique Peña Nieto assumiu o governo há um ano e três meses, tempo muito curto para mudar a face do país. Mas o progresso é notório. O país avançou na reforma tributária, melhorou a gestão do gasto público, modernizou as relações no mercado de trabalho e tomou medidas saneadoras nos setores de energia, telecomunicações e financeiro, além de manter um programa de redução da pobreza parecido com o Bolsa Família. É muita coisa para tão pouco tempo de mandato.

O México andava tão mal que os resultados apareceram rapidamente. Hoje, o grau de risco do país na avaliação das agências internacionais de risco é menor que o do Brasil e, por isso, o México paga taxa de juros menor que o Brasil nos empréstimos obtidos no exterior. Em dezembro passado, agência S&P elevou a nota soberana mexicana, enquanto o rating brasileiro foi colocado em perspectiva negativa em junho do ano passado, indicando que a nota pode ser rebaixada.

Gabriel Casillas, economista-chefe do banco mexicano Banorte-Ixe, afirmou que entre os problemas prejudiciais ao Brasil estão as constantes mudanças de direção que confundem os investidores e aumentam a incerteza, levando os agentes a não entender para onde vai a economia brasileira e dificultando a previsibilidade dos projetos. Havia a expectativa de que a presidente Dilma aprofundasse as reformas e mantivesse as bases da política econômica de Lula, que era a mesma do governo de Fernando Henrique. As reformas não vieram e a gestão macroeconômica piorou. Apesar de os maus indicadores terem aparecido logo, o governo não dá sinais de mudança.

O exemplo do México mostra que as reformas, a boa gestão das contas públicas, o respeito à liberdade econômica e um ambiente favorável ao empreendedorismo dão bons resultados. Se o México continuar no bom caminho e sua população for beneficiada com avanços significativos nos próximos anos, os povos da América Latina terão mais um elemento para pressionar seus governos contra as aventuras estatizantes e anticapitalistas, que sempre terminam em inflação, baixo crescimento e atraso social.

Triste e injustificável - EDITORIAL FOLHA DE SP


FOLHA DE SP - 11/02

Não existe, em um Estado democrático de Direito, causa que legitime o emprego da violência, razão da morte do repórter Santiago Andrade


O assassinato --esta é a palavra-- do repórter cinematográfico Santiago Andrade, 49, é uma tragédia individual e social. Têm a lamentar não só seus parentes e amigos, mas também todos os que apostavam num país melhor depois das manifestações de junho.

Atingido por um rojão enquanto acompanhava, por dever de ofício, um protesto no Rio de Janeiro na semana passada, o jornalista da TV Bandeirantes teve sua morte cerebral decretada ontem. Foi vítima de uma violência irracional que se repete há meses sem que o Estado ofereça resposta adequada.

A esta altura deveria estar claro para os comandos policiais --pois já o está para quase toda a sociedade-- que há dois tipos bem distintos de pessoas que tomam as ruas para revelar seu inconformismo.

De um lado estão os cidadãos dispostos a protestar dentro do vasto espaço que a democracia oferece e assegura para esse fim. Estes devem ser tratados como manifestantes. Merecem ser ouvidos e, quando desejável e possível, atendidos.

De outro estão os indivíduos predispostos ao vandalismo, ao quebra-quebra, à selvageria. Quando agem dessa forma, são criminosos, e precisam ser tratados como tais. Desfaça-se a falácia: não há, na vigência de um Estado democrático de Direito, causa que legitime o emprego da violência.

Identificar, julgar e punir autor e cúmplices do disparo que matou Andrade é tarefa urgente para evitar danos ainda mais graves. Com desenvoltura incontida, esses delinquentes têm transformado atos pacíficos em campos de batalha, ameaçando a segurança de quem está por perto e minando importantes pilares da democracia.

Um deles é a própria legitimidade das manifestações. Como mostrou pesquisa feita pelo instituto Datafolha no final do ano passado, de julho a outubro quadruplicou o percentual de paulistanos contrários aos protestos, passando de 8% para 31%. De resto, é notório que cada vez mais brasileiros evitam participar de tais encontros.

O outro é a liberdade de imprensa. A morte de Santiago Andrade é, por óbvio, o episódio mais lamentável, mas, considerando a ação policial e a de manifestantes, foram registrados, desde junho, inaceitáveis 117 casos de agressão, hostilidade ou detenção de jornalistas.

Um mínimo de conhecimento de história basta para que tais sinais sejam lidos com grande preocupação. Há inúmeros e nefastos exemplos do que acontece quando se abandonam os canais institucionais para resolução de conflitos.

Se não quiserem ser cúmplices de tragédia de maiores proporções, partidos políticos e movimentos sociais que ainda defendiam o indefensável precisam condenar com clareza essa violência. Há uma mudança em curso no Brasil, mas já não está claro se o país sairá desse processo melhor do que entrou.

O desfecho trágico do radicalismo nas ruas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 11/02


A morte de Santiago Andrade precisa levar todos a uma reflexão sobre os rumos que a atual mobilização de rua toma. Grupos radicais têm uma atuação fascista



A morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade, atingido por um rojão no protesto de sexta-feira, no Rio, contra o aumento da tarifa de ônibus, precisa ser entendida em toda a sua grave dimensão.

Poderia ter sido uma pessoa que passasse naquele momento, um policial, um manifestante, que o fato, além do aspecto humano da tragédia, mancharia o movimento de mobilização nas ruas iniciado em junho do ano passado.

Mais até do que isso. É preciso entender por que, na democracia, alguém é morto durante uma manifestação, algo que não ocorria, desta forma, desde março de 1968, na ditadura militar, quando o estudante Edson Luís foi fulminado por um PM, também no Rio.

A tragédia começou a ser construída pelo desvirtuamento das manifestações de junho de 2013, convocadas à margem de partidos e organizações ditas sociais, a partir da internet, para externar o cansaço com a precariedade da infraestrutura de transporte, as deficiências na saúde pública e na educação.

A utilização das convocações por grupos radicais, anarquistas, black-blocs, o que seja, a fim de realizar atos de vandalismo contra o patrimônio público e privado, levou para as ruas uma violência em nível poucas vezes visto. O uso de paus, pedras, porretes, fogos de artifício, rojões antecipava o que ocorreria com Santiago Andrade. Em nota, a presidente Dilma frisou, com acerto: “A liberdade de manifestação é um princípio fundamental da democracia e jamais pode ser usada para matar, ferir, agredir e ameaçar vidas humanas, nem depredar o patrimônio público ou privado”.

A vítima ser da imprensa profissional não é um acaso. Pois cabe a ela, em qualquer país, estar presente em todas as situações que devam ser reportadas para a sociedade. Mesmo em ambientes hostis — guerras, grandes desastres naturais, etc. A possibilidade de repórteres serem atingidos por artefatos da polícia ou de manifestantes é sempre grande. Em São Paulo já houve profissionais feridos.

Nessas manifestações, desde a infiltração daqueles grupos radicais, repórteres da imprensa profissional passaram a ser hostilizados e ameaçados — uma excrescência na democracia.

A morte de Santiago Andrade precisa levar todos a uma reflexão sobre os rumos que a atual mobilização de rua toma. Deve-se entender que atacar repórteres, de qualquer veículo de imprensa, mídia dita ninja, etc. é cercear o direito de a sociedade se informar. Trata-se de uma atitude autoritária, a ser repelida pelos verdadeiros democratas.

Partidos políticos e organizações profissionais que por ventura atuem na retaguarda destes grupos têm oportunidade de afinal entender o sentido da sua ajuda. Aliam-se, na verdade, ao fascismo.

domingo, fevereiro 09, 2014

DORA KRAMER - Tranco no barranco

O Estado de S.Paulo

O problema do PMDB com o governo já não é o ministério A, B ou C. A revolta da bancada da Câmara, que culminou com a decisão na semana passada de não indicar nomes para substituir os dois deputados que sairão das pastas do Turismo e da Agricultura para disputar eleições, tem a ver com a percepção de que o partido se tornou um estorvo a ser removido.

Não uma eliminação abrupta e radical. Afinal, tem ainda serventia: votos no Congresso e, em decorrência de uma representação parlamentar robusta, cobiçados minutos no horário eleitoral de televisão.

O movimento do governo seria o da desidratação lenta e gradual, com reflexos a cada nova eleição de modo a que o PMDB vá paulatinamente perdendo seu poder de fogo na cena nacional, até que não tenha mais a importância de hoje.

"Há uma tentativa deliberada de reduzir a bancada na Câmara", diz o líder do partido, deputado Eduardo Cunha. Ele não atribui a ação exclusivamente à presidente Dilma Rousseff; considera o conjunto da obra: o projeto do PT de assumir a hegemonia política no País de modo a esticar ao máximo seu período de permanência no poder.

Por esse raciocínio, o PMDB seria a próxima vítima do processo de estrangulamento que enfraqueceu os partidos de oposição e quase fez desaparecer legendas outrora poderosas como o DEM.

A cada dia é mais firme essa convicção entre os pemedebistas, principalmente os deputados, os alvos preferenciais. Explicando melhor: a força do PMDB tem origem na eleição do maior número possível de deputados federais.

Por lei, a bancada na Câmara serve de parâmetro para estabelecer a divisão do tempo no horário eleitoral e a distribuição do dinheiro do Fundo Partidário. Duas moedas muito fortes no jogo do poder.

Com recursos e tempo, o PMDB se torna um aliado cobiçado para qualquer governo do qual recebe a contrapartida em ocupação de espaços na máquina administrativa. Espaços estes de fundamental importância para eleger deputados, senadores, prefeitos e governadores.

Uma vez obstruídos esses caminhos, o partido tem reduzido seu fornecimento de oxigênio. Tende a eleger menos deputados o que, no ano seguinte, vai se refletir em parcela mais reduzida do fundo partidário e na eleição subsequente, em menor tempo de televisão.

Ao longo de duas, três eleições, um partido cai da classificação de legenda grande para agremiação de médio porte. Fica em segundo plano, não se credencia a postos de comando no Congresso e, quando dá por si, está em irremediável trajetória descendente.

Esse é o resumo da ópera da revolta do PMDB com o PT, o governo e a presidente Dilma.

O partido não irá ao ataque. Não tem condições objetivas para romper. Mas, na trincheira da defesa, pode perfilar durante a campanha um desconfortável exército de dissidentes nos palanques estaduais.

Atrás da orelha. Permeia o ambiente no PMDB a desconfiança de que não está de todo afastada a possibilidade de o ex-presidente Lula da Silva vir a se candidatar a presidente, se o acúmulo de más notícias que rondam o governo não for só uma fase ruim.

Há também a suspeita de que Lula incentivou a filiação do empresário Josué Gomes da Silva - filho do falecido vice-presidente José Alencar - como reserva técnica para a composição de uma chapa.

No caso, para deixar Michel Temer de fora. Se for isso mesmo, os pemedebistas já avisam que não há a menor hipótese e lembraram que Lula tentou o mesmo, sem sucesso, com Henrique Meirelles, hoje no PSD. No PMDB, reiteram os caciques, são precisos anos de serviços prestados para conseguir acesso à área VIP.

Adicional. Como se não fossem suficientes os problemas entre os dois partidos, a relação do PMDB com o PT do Rio de Janeiro está, na definição de um dirigente local, "cada vez pior".


SUELY CALDAS -Voluntarismo e improvisação

O ESTADO DE S PAULO

Quando se tornou ministra de Minas e Energia, em 2003, Dilma Rousseff trazia a experiência de secretária de Energia de um Estado, o Rio Grande do Sul, e zero de vivência na gestão de um país cheio de complexidades e diferenças regionais. O ex-presidente Lula vendeu a nova ministra aos brasileiros como "a mulher que evitou o apagão de 2001 em terras gaúchas". No ministério ela se queixava de ter herdado de FHC uma situação de caos, referindo-se à escassez de documentos que ajudassem a compor um quadro real do setor elétrico. "Isso aqui é terra arrasada, não permite planejar nada, e o setor elétrico precisa de muito planejamento para funcionar bem", disse-me numa tarde, na sede do ministério, em BrasNo setor elétrico do governo Dilma faltou planejamento, sobrou improvisação; faltou tratamento técnico às decisões, sobraram ações políticas de olho nas eleições. É essa herança de apagões, erros e desperdícios de dinheiro que o próximo ministro de Minas e Energia irá encontrar em 2015.

O maior desses erros foi a redução da tarifa na conta de luz em janeiro de 2013. Na época, o discurso do governo era aproveitar a renovação dos contratos de concessão para obrigar as empresas distribuidoras a reduzirem a tarifa para o consumidor. Dito assim, a intenção é louvável. Mas a forma de fazer foi deplorável.

Resultado: hoje o brasileiro nem se lembra de que a tarifa foi baixada, porque reajustes posteriores anularam o benefício; as distribuidoras passaram a viver em crise financeira, pois o aumento do consumo e a falta de chuvas as obrigaram a comprar energia por preço mais alto do que vendem; o governo já gastou R$ 9,8 bilhões com subsídios às empresas em 2013, reservou mais R$ 9 bilhões para 2014 e pensa em dobrar esse valor até o fim do ano (dinheiro que faz falta à área social e abala a crença nas promessas da presidente de rigidez nos gastos do governo); a redução da tarifa amenizou por pouco tempo, mas não evitou que o País encerrasse 2013 com uma taxa de inflação de 5,91%; descapitalizadas com a queda de faturamento, a Eletrobrás e subsidiárias investiram só 43% do previsto em 2013, prejudicando projetos de expansão em geração e transmissão e comprometendo serviços de manutenção da rede elétrica, o que alimenta o risco de apagões, além de quase uma centena dos que aconteceram nos últimos três anos - segundo técnicos do governo, por culpa de raios e da natureza, que não têm voz para se defender.

Mas erros não acontecem só no setor elétrico. Nos últimos dias o ministro Guido Mantega protagonizou uma espécie de arrependimento (momentâneo, caro leitor) em decorrência de mais uma descuidada e voluntarista improvisação: foi ao Congresso pedir, pelo amor de Deus, para parlamentares não votarem o projeto, enviado pelo próprio governo, que muda os indexadores das dívidas dos Estados e municípios. A intenção do projeto era socorrer o recém-empossado prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que reclamava ser obrigado a pagar quantias elevadas da dívida da Prefeitura com o governo federal, enquanto faltava dinheiro para sua gestão.

Empolgados com a vitória eleitoral de Haddad, o governo criou o projeto para socorrê-lo e, como o princípio da isonomia proíbe exclusividades, estendeu o benefício a todos os governadores e prefeitos. A necessidade de planejar com cuidado e avaliar os desdobramentos políticos e financeiros - preocupação obrigatória de governantes - nem sequer foi cogitada; o mais importante era Haddad dispor de dinheiro para uma gestão que ajudasse a vitória eleitoral de Dilma em São Paulo.

Dilma conseguiu unir todos os governadores e prefeitos do País num poderoso rolo compressor de pressão política sobre suas bancadas no Congresso contra um projeto que, por implicar gastar mais e economizar nada, se tornou mais uma ameaça ao rebaixamento da nota do País pelas agências de classificação de risco. Fica adiado, mas não descartado. É assim que o governo imagina enganar as agências e investidores interessados no Brasil.

SUELY CALDAS É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO. E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

CELSO MING - Corda esticada

O Estado de S.Paulo

O Brasil não vai quebrar, por certo. A inflação não está tão descontrolada quanto dizem; os juros estão longe de ser os mais altos do mundo; a administração das finanças públicas não é tão ruim como a de tantos outros governos; o crescimento econômico é essa merreca que todo o mundo já viu, mas, pelo menos, há crescimento, num mundo que segue devagar-quase-parando. E, afinal, o Brasil não é nem a Argentina nem a Venezuela.

Mas a sensação de desconforto e de aumento de problemas em cada vez mais segmentos da vida econômica parece crescer com esse calorão. As manifestações cada vez mais violentas, mais que desencanto, refletem insegurança e aumentam a percepção de que, no Brasil, muita corda está esticada demais.

Na semana passada, por exemplo, o apagão que atingiu 13 Estados mostrou que o sistema elétrico está em curto-circuito. Pouco importa se as causas do sucedido foram poderosas descargas atmosféricas, sobrecarga de demanda ou falha humana, como pareceram indicar as manifestações da presidente Dilma. O fato é que o sistema está vulnerável.

Além disso, sabemos que 227 de 448 obras de construção, ampliação e melhorias de linhas, subestações e 71% das obras das novas redes de transmissão estão atrasadas, conforme reconhece o Ministério de Minas e Energia. A maior demanda de energia, num momento em que os reservatórios acusam níveis excessivamente baixos para a temporada, obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico a acionar as usinas termoelétricas que encarecem o quilowatt/hora.

Apelos tardios para que a população poupe água e as críticas à baixa eficiência operacional das redes de saneamento também puseram em evidência a precariedade dos serviços de água e esgoto.

A mesma sensação de tudo trabalhando no limite pode-se ver, também, nas operações dos portos, aeroportos e rodovias. Em todo o País, os transportes urbanos estão sob estresse. São linhas de metrô paralisadas quase diariamente, ônibus incendiados nas principais capitais, uma greve infernal em Porto Alegre, protestos contra aumento de tarifas em toda parte. E, com a volta às aulas, há os engarrafamentos exasperantes de trânsito nas grandes e até mesmo nas médias cidades, que engaiolam o cidadão durante horas a fio.

A Petrobrás enfrenta anos seguidos de quebra de produção, mostra deterioração em todos os indicadores operacionais e, mesmo com dinheiro farto do BNDES, não vem dando conta dos programas de investimento.

E há as tão frequentes quedas de sinais nas redes de comunicação e internet, cuja extensão não são nunca admitidas, mas são sempre sentidas. Mostram o emperramento de coisas que deveriam fluir.

Semana após semana, as estatísticas que acusam o desempenho do setor produtivo revelam baixa capacidade competitiva da indústria, especialmente o subsetor de transformação.

Os programas de desoneração tributária deram o que tinham de dar e mais não podem porque o Tesouro está esgotado. Enquanto isso, o impulso recorrente das autoridades é sempre dar um jeito de aumentar a arrecadação.

Vai ver, tudo isso e tanta coisa mais não passam de um sonho mau ou de um momento de falta de objetividade... Vai ver.

JOÃO BOSCO RABELLO Entre o possível e o provável

- O Estado de S.Paulo

O Planalto dispõe de uma pesquisa encomendada para consumo interno que registra um crescimento da presidente Dilma Rousseff tão discreto quanto a comemoração que gerou. Pelos números, a aprovação da presidente subiu para a casa dos 48%, o que se festeja menos pelo porcentual e mais por não ter havido queda.

O suspense entre as más notícias que marcaram as últimas semanas, e o resultado da pesquisa, transcende o mero exercício comparativo com a oposição. A variação do índice de aprovação é que condiciona a candidatura de Lula, ainda em 2014, situando-a entre o possível e o provável.

Nesse contexto se registra uma versão das aparências que enganam, com o PMDB no papel do pior vilão para Dilma, pela pressão por mais espaço no governo. Na verdade, porém, o PT representa hoje maior risco para a presidente, pela ameaça permanente de promover a volta de Lula.

O início real da campanha encontra Dilma com um índice ainda vulnerável para a reeleição, impondo-lhe um comportamento mais concessivo ao PT, do que é retrato a reforma ministerial, hostil ao PMDB e a perfis da equipe de governo não alinhados com o núcleo duro da campanha, casos da ex-ministra Helena Chagas e do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, entre outros.

Dilma está hoje em exercício diário de resistência à influência do PT nas decisões de governo, vulnerável à prioridade da campanha. Lula entra nesse cenário como o candidato de 2018 que, no meio do caminho, pode antecipar seu projeto, se as circunstâncias o "forçarem".

Precisará, porém, de um pretexto muito sólido para não caracterizar sua intervenção como um golpe do criador na criatura. Dilma não facilitará o desejo do PT, pois considera que o momento de uma eventual mudança passou, desde que obteve de Lula a declaração pública de que é a candidata.

O momento em que se poderá testar o limite da imposição da vontade do PT à presidente será o desfecho das negociações com o PMDB, que exige o sexto ministério. Dilma já deu todos os sinais de que não quer ceder, mas certamente torce o nariz para aplacar o PT, pois dificilmente poderá resistir ao assédio peemedebista.

Com o PMDB, o engajamento na campanha já está comprometido. O partido . recuou sua convenção nacional como forma de materializar a hostilidade e vaza números que revelam um racha em relação à preservação da aliança.

Por eles, 294 convencionais não estariam com Dilma - 202 contra a aliança e 92 indecisos. Não é suficiente para revogá-la, mas serve para demonstrar à presidente que ela precisa trabalhar pela unidade do partido, em seu favor. Ou seja, se quiser tê-lo suando a camisa na rua.

HUMBERTO WERNECK Bafafá à mineira

 - O Estado de S.Paulo

Fico pensando como rolaria hoje essa história que em breve será velha de 70 anos. O bafafá, que na morosidade postal da época levou dias para se espalhar e tomar corpo, se alastraria instantaneamente. Em minutos, as redes sociais recolheriam gordos cardumes de manifestações. Escrita num tempo em que "curtir" era processar couro de bicho, a "Carta contra os escritores mineiros", de Vinicius de Moraes, haveria agora de ser pronta e profusamente "compartilhada". Nas Gerais, poderia atear nova Inconfidência, e desta vez, em lugar de ficarem tão ocupados em versejar e desenhar bandeira com inscrição em latim, os revoltosos se lembrariam de comprar uns bacamartes. Diante deles, de nada adiantaria ter o poetinha maneirado no subtítulo - "Por muito amar" - da carta que endereçou à mineirada da literatura.

Conhece a história? Em outubro de 1944, Vinicius, Otto Lara Resende e Fernando Sabino atravessaram madrugada bebendo e papeando no apartamento deste último, em Copacabana. Ao final, contará o poeta, os três amigos (31, 22 e 21 anos, respectivamente) haviam chegado à conclusão de que os escritores mineiros eram por demais contidos, encapsulados num bom comportamento que os impedia de se lambuzar de vida.

O que levou Vinicius a levantar essa bola foi a leitura, ali, de textos de um dos presentes (cujo nome a "Carta" não entrega), peças "belas e caprichosamente escritas", porém denunciadoras de alma retorcida e angustiada - sufocamento que a seu ver impregnava não só o autor como os escribas montanheses em geral. Em sua desabrida carioquice, o poeta foi tão convincente que os dois mineirinhos toparam embarcar num esforço para mudar o panorama. Ficou acertado que os três escreveriam sobre o tema.

Assim fez Vinicius, imediatamente, com a tal "Carta", extensa, em tom pomposo e recheada de cutucões retóricos. "A alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático", denunciou Vinicius, e por aí foi. "Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios?" (...). Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. (...) Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo?"

Publicada primeiro em O Diário, de Belo Horizonte, depois em O Jornal, do Rio, a carta armou um temporal sobre a já então desguarnecida cabeça de Vinicius. Houve até, contou Sabino sem abrir o jogo, quem detectasse, naquela prosa enfeitada, manobras cavilosas do poeta para surrupiar mulher de escritor mineiro. "Houve fila feita nos jornais de Belo Horizonte para me espinafrar", contará Vinicius bem mais tarde. Tamanha foi a reação que ele, Sabino, também em O Jornal, saiu em defesa do amigo - e também levou bordoadas.

Quanto a Otto, vivendo ainda em Minas, escolheu a moita, silêncio que lhe valeu pito de Sabino: "Na nossa conversa com o Vinicius, você foi o primeiro a reconhecer os nossos erros mineiros e se dispor a corrigi-los". Na volta do correio, ironias de Otto: "Certamente sou ótima carne para vossas ferozes guilhotinas do mundo novo que virá e que se levantará sobre o sangue dos fracos e dos conciliadores".

Oito anos depois, Vinicius voltou ao bafafá e fez revelações. A "Carta", esclareceu, fora suscitada pela leitura de "uma página de prosa desse mineiro doce, inteligente e meio alucinado" - Otto Lara Resende. Temeroso de ferir uma tribo que amava, o poeta consultou mineiros ilustres do Rio - Drummond, Aníbal Machado e Rodrigo M. F. de Andrade, que lhe deram imprimatur.

"Venho hoje aqui retirar publicamente os termos da 'Carta' com relação a meu amigo Otto Lara Resende", escreveu Vinicius, recém-saído da leitura de O Lado Humano. "Me penitencio de não ter enxergado então nesse bicho do mato de São João del Rei esse lado humano, demasiado humano, que umedece, sob um estilo sem ipsilones, tão belas páginas de prosa. Que ninguém deixe de ler esse pequeno livro de contos, nove ao todo, alguns cruéis, sórdidos mesmo - mas dessa crueza tão da vida humana."

Taí, família e editores de Otto Lara Resende, que tal trazer de volta essa obra que encantou Vinicius e tantos outros bons leitores?

domingo, fevereiro 02, 2014

Filhos pródigos - DORA KRAMER



O ESTADÃO - 02/02

É de admirar, realmente. Tanto a solidariedade quanto a prodigalidade dos companheiros que prontamente atenderam aos apelos de José Genoino e Delúbio Soares e, no conjunto, doaram quase R$ 2 milhões para saldar as dívidas de multas dos dois petistas com a Justiça. Dinheiro arrecadado em menos de três semanas. Aos números precisos: foram 19 dias durante os quais os sites destinados às doações receberam R$ 1.775.619 (ignorados os centavos). Deu e sobrou. Com folga.

A família de Genoino tomou a iniciativa. A imediata adesão de gente disposta a doar foi atribuída à especificidade da situação do ex-deputado: homem de posses medianas e vida desprovida de ostentação. Em dez dias arrecadou-se mais que o necessário: R$ 761.962 para pagar a multa de R$ 667.514. Do excedente, R$ 30 mil foram transferidos para a conta do ex-tesoureiro do PT. Nem teria sido necessário, pois, como se constatou logo a seguir, a solidariedade não era restrita a Genoino. Delúbio Soares conseguiu, em nove dias, arrecadar R$ 1,013 milhão para saldar um débito de R$ 466.888.

A diferença entre os dois é que Genoino recebeu menos de mais gente (cerca de dois mil colaboradores) e Delúbio ganhou mais de menos doadores, 1.095, de acordo com os números apresentados pelo coordenador jurídico do PT, Marco Aurélio Carvalho. Tudo certinho e contabilizado. “Todos os colaboradores estão identificados”, garantiu. Um sucesso. Tanto que a corrente será usada em prol do ainda deputado João Paulo Cunha (multa de R$ 370 mil) e de José Dirceu (R$ 960 mil) para quem vai a sobra da arrecadação originalmente destinada a Delúbio. Na avaliação de Carvalho, não haverá dificuldade para conseguir o necessário à quitação da dívida financeira dos petistas com a Justiça. Pelo que se viu até agora não há razão para duvidar.

É de se perguntar, porém, se um partido com essa capacidade de mobilizar recursos individuais não teria meios para fazer o mesmo em relação às campanhas eleitorais. Daria um bom exemplo às demais legendas de como é possível se sustentar sem recorrer a recursos públicos nem ao caixa “não contabilizado”, do qual o PT alega ter sido uma vítima, em sua versão de que o mensalão não existiu.

A partir de sua própria mobilização, o partido demonstrou que o financiamento por meio do orçamento da União forçosamente não seria a solução (muito menos a única) mais adequada às questões que envolvem a tão complicada vida financeira das agremiações partidárias. Claro, as campanhas teriam de ser mais baratas, sem tanta produção nem alegorias. Com foco mais no conteúdo e menos na forma. Mas seria um caminho, ainda mais se às doações de pessoas físicas fossem somadas as contribuições lícitas de empresas. Com doadores identificados, tudo registrado e devidamente divulgado.

Transparência, assim, não é “burrice”, contrariamente à tese defendida pelo então tesoureiro Delúbio Soares para derrubar a proposta do então petista Chico Alencar, feita em 2004, de divulgação dos gastos de campanha do PT na internet.


Modos da Corte. Das trocas de ministros divulgadas na quinta-feira, a única não oficial e até então desconhecida foi a substituição de Helena Chagas por Thomas Traumann na Secretaria de Comunicação da Presidência, publicada na Folha de S.Paulo. Helena soube que o jornal traria a notícia no fim da noite de quarta. Telefonou para a presidente Dilma Rousseff que a chamou para conversar na manhã do dia seguinte. Negou que tivesse autorizado qualquer “vazamento” e propôs que a demitida desmentisse a demissão, mas deixasse o cargo no domingo. Hoje, portanto. Proposta recusada, o posto foi entregue de imediato. Ficou nas adjacências do Planalto a forte impressão de que o anúncio pelo jornal antes do comunicado à interessada foi um toque de crueldade dado por quem tem carta branca para tal.

Ai de ti Argentina! - SUELY CALDAS


O ESTADO DE S. PAULO - 02/02

Onde vai dar a Argentina? A economia do país emagrece, desmorona e a cada dia o precipício fica mais fundo: a inflação dispara; a desvalorização cambial rouba valor e confiança do peso; o jovem ministro da Economia é desaprovado por 61% da população; a presidente Cristina Kirchner some e só reaparece em Da-vos e Havana; dólares e investimentos fogem do país; o crédito externo desaparece; o fantasma da moratória ressurge; os sindicatos não aceitam aumento salarial abaixo de 30%; e as prateleiras dos supermercados se esvaziam. Assustada, a população procura se defender e busca refúgio estocando dólares debaixo do colchão e alimentos em suas casas. O país e a população empobrecem. O que trará o futuro para os argentinos?

É difícil, a esta altura, mudar o rumo da economia. Primeiro, porque a presidente Cristina e sua equipe galopam na perda de confiança e não têm credibilidade para pilotar mudanças. Depois, essa alternativa nem cogitada é. Tudo indica que ela vá empurrar com a barriga até a eleição presidencial em 2015. Mas isso demora (falta um ano e meio) e a sensação é de que o precipício se aproxima, a economia pode entrar em colapso e a expectativa do terror da moratória novamente desaba sobre a Argentina, trazendo um rastro de empobrecimento, desemprego, destruição, convulsão social e aumento da criminalidade, como aconteceu na moratória do cotralito, em 2001.

Ávida traz surpresas irônicas. Ao assumir o governo, em março de 2003, o ex-presidente Néstor Kirchner encontrou a economia devastada. Sentou-se para negociar com credores, reduziu a dívida pública de US$ 190 bilhões para USS140 bilhões, suspendeu a moratória (decretada em 2001 por Fernando de La Rúa), recuperou a economia e recolocou o país no caminho do crescimento. E agora é justamente sua viúva, Cristina, que ele fez sucessora, quem desfaz o que ele construiu e pode levar a Argentina ao abismo. Pela segunda vez em pouco mais de dez anos.

Fazendo justiça, a trajetória que fez recuar o sucesso Kirchner não começou com ela, mas com ele. Na gestão Néstor a política seguiu o modelo populista autoritário e, na economia, a expansão do consumo produziu aumentos de preços em profusão, que ele tentou controlar na marra: interveio no Indec (o IBGE de lá) e passou a falsificar os índices de inflação, hoje desmoralizados mundo afora, contestados pelo FMI e desprezados por empresas na definição de seus preços e por trabalhadores em suas lutas salariais. O mesmo descrédito carregam os números de desemprego, crescimento econômico e desempenho social. Foi também com Néstor que a dívida pública recomeçou a crescer.

Mas tudo piorou com Cristina, sobretudo apos a morte do marido, em outubro de 2010. Em litígio com credores externos, o acesso do país a empréstimos no exterior foi minguando e a crise cambial, que ela enfrenta com guerra ao dólar, se agravou a tal ponto que nos últimos dois anos o banco central reduziu as divisas do país de USS 52 bilhões para USS 28,8 bilhões para socorrer o peso. Ainda assim, não conseguiu evitara desvalorização da semana passada, quando a cotação do dólar subiu de 6,84 para 8,015 pesos. Para conter a escalada da inflação, ela tem recorrido a seguidos congelamentos de preços em supermercados, que não funcionam. E a recente desvalorização do peso elevou os custos das empresas, que passaram a reajustar ainda mais seus preços. O jovem ministro da Economia, Áxel Kicillof, se recusa a corrigir seus erros e definir nova estratégia para a economia e responde com ameaças de multas e frases de efeito: "O comerciante que aumentar preços rouba a população". Já empresas, economistas e trabalhadores, que vivem a vida real, já projetam inflação de 40% em 2014.


Diante de tantos desacertos, caos e incertezas - com o presente e o futuro -, há mais de um ano os investimentos fogem da Argentina. Empresas estrangeiras, inclusive Vale e Petrobrás, fazem suas malas para deixar o país, gerando desemprego. Onde vai dar isso?

Mudar, com pé no chão e visão de futuro - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO


O ESTADÃO - 02/02

A oposição deverá se concentrar no que aborrece o povo no cotidiano. As pesquisas eleitorais estão a indicar que os eleitores começam a mostrar cansaço. Fadiga de material. Há doze anos o lulopetismo impõe um estilo de governar e de se comunicar que, se teve êxito como propaganda, demonstra agora fragilidade. Toda a comunicação política foi centralizada, criou-se uma rede eficaz de difusão de versões e difamações oficiais pelo país afora, os assessores de comunicação e blogueiros distribuem comunicados e conteúdos a granel (pagos pelos cofres públicos e pelas empresas estatais) e se difundiu o “Brasil Maravilha”, que teria começado em 2002. Ocorre que a realidade existe e que às vezes se produz o que os psicólogos chamam de “incongruências cognitivas”. Enquanto os efeitos das políticas de distribuição de renda (criadas pelos tucanos) eram novidade e a situação fiscal permitia aumentos salariais sem acarretar consequências negativas na economia, tudo bem. O cântico de louvor da propaganda encontrava eco na percepção da população.

Desde as manifestações de junho passado, que pegaram governo, oposição e sociedade de surpresa, deu para ver que nem tudo ia bem. A insatisfação estava nas ruas, a despeito das melhorias inegáveis do consumo popular e de alguns avanços na área social. É que a própria dinâmica da mobilidade social e da melhoria de vida, e principalmente o aumento da informação, geram novas disposições anímicas. As pessoas têm novas aspirações e veem criticamente o que antes não percebiam. Começam a desejar melhor qualidade, mais acesso aos bens e serviços e menos desigualdade.

O estopim imediato da reação popular foram os gastos da Copa, o custo do transporte, a ineficiência, a carestia e a eventual corrupção nas obras públicas. Ao lado disso, a péssima qualidade do transporte urbano, da saúde, da educação, da segurança, tudo de cambulhada. Nada é novo, nem a reação provocada por este mal-estar se orientou, de início, contra um governo específico ou contra um partido. Significou o rechaço de tudo que é autoridade. Na medida em que o governo federal reagiu propondo “pactos”, que não deslancharam, e vestiu a carapuça, a tonalidade política mudou um pouco. Mas o rescaldo dos protestos – e não nos esqueçamos que eles têm causas – foi antes a criação de um vago sentimento mudancista do que um movimento político com consciência sobre o que se quer mudar.

Os donos do poder e da publicidade se aperceberam da situação e se apressam para apresentarem-se com máscaras novas. Só que talvez a população queira eleger gente com maior capacidade organizacional e técnica, que conheça os nós que apertam o país e saiba como desatá-los. Essa será a batalha eleitoral do ano em curso.

O petismo, solidário com os condenados do mensalão a ponto de coletar “vaquinhas” para pagar as dívidas dos condenados, porá em marcha seus magos para dizer aos eleitores que são capazes da renovação.

E a oposição? Terá de desmascarar com firmeza, simplicidade e clareza, truque por truque do adversário e, principalmente, deverá mostrar um caminho novo e convencer os eleitores de que só ela sabe trilhá-lo. Os erros da máquina pública, seu custo escorchante, a incompetência política e administrativa estão dando show no dia a dia. As falhas aparecem nas pequenas coisas como na confusão armada a partir de uma simples parada da comitiva presidencial em Lisboa, e nas mais graves, como o inexplicável sigilo dos gastos do Tesouro para financiar obras em “países amigos”. Isso abriu espaço, por exemplo, para o futuro candidato do PSDB dizer, com singeleza: “Uai, pena que a principal obra da presidente Dilma tenha sido feita em Cuba e não no Nordeste tão carente de infraestrutura”. Eu sei que há razões estratégicas a motivar tais decisões. Mas na linguagem das eleições o povo quer saber “quanto do meu foi para o outro”. E disso se trata: em quem o eleitor vai confiar mais para que suas expectativas, valores e interesses sejam atendidos. Daí que a oposição deverá se concentrar no que aborrece o povo no cotidiano, sem desconhecer os erros macroeconômicos, que não são poucos.

Quanto à insegurança causada pela violência e o banditismo, é preciso reprimi-los e está na hora de o PSDB apresentar um plano bem embasado de construção de penitenciárias modernas, inclusive algumas sob a forma de parcerias público-privadas, como foi feito em Minas Gerais. É o momento para: refazer a lei de execuções penais e incentivar os mutirões que tirem das prisões quem já cumpriu pena, como também pôr fim, como está fazendo São Paulo, às cadeias em delegacias e, ainda, incentivar os juízes à adoção de penas alternativas.

Não será possível, sem negar eventuais benefícios de mais médicos, mostrar que a desatenção às pessoas, as filas nos hospitais, a demora na assistência aos enfermos, nada mudou? E que isso se deve à incompetência e à penetração de militantes partidários na máquina pública?

Por que não mostrar que o festejado programa Minha Casa, Minha Vida tem um desempenho ruim quando se trata de moradias para a camada de trabalhadores também pobres, mas cuja renda ultrapassa a dos menos aquinhoados, teoricamente atendidos pelo programa? Sobra uma enorme parcela da população trabalhadora sem acesso à casa própria, tendo de pagar aluguéis escorchantes.

Isso para não falar de um estilo de governo mais simples, mais honesto, que diga a verdade, mostre os problemas e não se fie no estilo “Brasil Maravilha”. De um governo mais poupador de impostos, reduzindo-os para todos e não apenas para beneficiar as empresas “campeãs” ou “estratégicas”. As oposições precisam ser mais específicas e mostrar como reduzirão os absurdos 39 ministérios, como eliminarão o inchaço de funcionários e fortalecerão critérios profissionais para as nomeações. Também chegou a hora de uma reforma política e eleitoral. Não dá para governar com 30 partidos, dos quais boa parte não passa de legenda de aluguel.


Em suma, está na hora de mudar e quem tem a boca torta pelo cachimbo da conivência com a corrupção, o desperdício e a incompetência administrativa, por mais que faça mímica, não é capaz dessa proeza. O passado recente teve suas virtudes, mas se esgotou. Construamos um futuro de menos arrogância, com realismo e competência, que nos leve a dias melhores.

Hora da verdade - HENRIQUE MEIRELLES



FOLHA DE SP - 02/02

Os últimos acontecimentos reforçam a importância de fundamentos macroeconômicos sólidos. Os mais importantes são: 1) política fiscal que mantenha a dívida pública em patamar financiável a taxas baixas mesmo em momentos difíceis; 2) política monetária que mantenha a inflação e a expectativa de inflação no centro da meta; 3) taxa de câmbio flutuante que permita absorção dos choques externos e equilíbrio nas contas correntes.

Os eventos recentes também mostram que distorções no sistema de preços por interferência governamental têm consequências profundas e podem comprometer o ambiente econômico mesmo em países com macroeconomia equilibrada.

Na China, com fortes fundamentos, há desalinhamento importante nos preços relativos, entre eles um preço-chave --o crédito. A maior parte do mercado era administrado pelo governo com taxas artificiais, havia custo de capital descolado do custo de oportunidade (o que gera investimentos improdutivos) e subvalorização da moeda.

As consequências foram excesso de capacidade em diversos setores e endividamento alto e opaco de governos provinciais e estatais para atingir metas de investimento e produção. A redução do crescimento chinês é em parte consequência da decisão de corrigir esses desalinhamentos.

Analisando outro extremo emergente, a Argentina, temos conjugação de desequilíbrio macroeconômico com desalinhamento de preços. O país incorre em deficits fiscais crescentes, financiados por expansão monetária, o que causa absorção de recursos pelo Estado em detrimento do setor privado, tudo mascarado por uma inflação não transparente, que desorganiza a economia.

O desalinhamento de preços argentino começa por um preço-chave, o câmbio sobrevalorizado, e inclui taxas de juros abaixo da inflação (o que distorce a alocação de capital), energia subsidiada e variados controles de preços. Resultado: escassez de bens, contrabando, queda de investimentos e fuga de capitais.

Essas distorções exacerbaram os desequilíbrios econômicos. Produtores de soja, por exemplo, seguram produção esperando câmbio mais realista. Já os índices de inflação manipulados enfraquecem o tecido social, com luta desorganizada por recomposição de preços de bens, serviços e salários.

Tudo isso estava mascarado pelo excesso de liquidez global e o crescimento chinês que absorvia as exportações dos emergentes. Com o início da correção nos Estados Unidos e na China, todos os países serão forçados a corrigir e ajustar não só fundamentos, mas a estrutura microeconômica de preços relativos, direcionando mais investimentos à produtividade, não ao consumo ou fins políticos.

É lição importante a todos e alerta ao Brasil.

Mochila digital - CELSO MING



O Estado de S.Paulo - 02/02

Há 60 anos - os coroas se lembram disso - a novidade nas listas de material escolar era a caneta tinteiro. Nos anos 50, apareceram as esferográficas e já não era preciso enfrentar derrames desastrosos de tinta e o emprego dos mata-borrões. Agora, a novidade é mais clean e mais cara: os tablets.

Mesmo que persista certa desconfiança de familiares e professores sobre o uso de dispositivos eletrônicos móveis na sala de aula, gestores do ensino público e particular começam a correr atrás da adaptação do conteúdo didático para formatos digitais, uma vez que, antes mesmo de largar as fraldas, um número cada vez maior de crianças já tem mais o que fazer com os dedinhos do que roer unhas.

Para o ano letivo de 2014, o Ministério da Educação (MEC) aplicou R$ 67 milhões em ferramentas digitais complementares aos livros impressos. Essa quantia corresponde a 6% do total de R$ 1,1 bilhão gasto por meio do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) em material dos ciclos Fundamental e Médio (veja o gráfico). O edital de compra para 2015 já prevê a aquisição de livros digitais e obras multimídia, com vídeos, animações, mapas interativos e outros recursos associados aos textos escritos.

O diretor de Ações Educacionais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), Rafael Torino, avisa que aí vai um primeiro sinal: "Este é um processo gradual de inserção digital. Não será obrigatório e não será uma substituição pura e simples dos livros impressos". Em 2013, também foram repassados R$ 140 milhões para as redes estaduais para a compra de 460 mil tablets para professores do Ensino Médio. E aí está mais um obstáculo a ser enfrentado. Não é qualquer professor que sabe lidar com essas modernidades.

Na rede privada de ensino, cada vez mais as escolas deixam aos alunos a escolha entre livros digitais ou impressos. Mas as estratégias variam de instituição para instituição.

No Colégio Visconde de Porto Seguro, em São Paulo, por exemplo, para cada R$ 1 destinado à compra de computadores, tablets e lousas digitais, outros R$ 5 são investidos na capacitação dos professores, que se reúnem em grupos destinados a aprender o uso dessa tecnologia. Em Brasília, o Centro Educacional Sigma investiu cerca de R$ 3 milhões, não só na aquisição de equipamentos e softwares, mas também na melhoria das instalações elétricas e na distribuição de sinal de internet sem-fio. A lista do material escolar do Ensino Médio se limita a um caderno de anotações e ao tablet, equipamento que leva a vantagem de poder ser usado nos anos seguintes.


Para Dilermando Piva Júnior, autor do livro Sala de Aula Digital, a maioria das escolas e das editoras não está preparada para a mudança. "Não basta colocar o livro no tablet, é preciso planejar e desenvolver conteúdos específicos", observa. A presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), Amábile Pacios, acredita que a transição para formatos digitais é irreversível, mas ainda não passou de algumas escolas do eixo Sul e Sudeste. "É o Brasil. Enquanto há escolas passando para o 3D, alguns Estados ainda não têm cobertura de banda larga"...

Dilma e o capital - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 02/02

A relação da presidente Dilma com o capital é mais complexa do que parece. Ela foi muito generosa com alguns empresários. O BNDES distribuiu recursos abundantes a grandes empresas, seu governo ouve alguns dos lobbies protecionistas. Na área dos problemas: a mudança de regras na energia produziu perda de valor das empresas e consolidou sua imagem de intervencionista.

A visão que opõe a presidente ao capital simplifica o que é complexo. Há setores que a criticam, há empresas que ganharam muito dinheiro com ela, há lobbies bem atendidos. Uma parte do capital não gosta das suas inclinações geiselistas, outra parte se beneficia da relação incestuosa entre capital e Estado que sempre existiu e foi aprofundada no governo Dilma. Grupos como JBS e Eike Batista receberam fatias gordas do dinheiro dos contribuintes. Não foi por falta de dinheiro público que Eike quebrou.

No mercado financeiro, sua gestão fiscal é considerada um desastre e o que se teme é um rebaixamento da dívida que leve todo o capital externo para fora. E com ele, os lucros do setor financeiro. Esse é o temor do momento. Há o risco de abalos na estabilidade econômica. Um erro crasso foram os truques na contabilidade fiscal. Nessa área só tem profissional, todo mundo sabe o que há por trás da maquiagem: o enfraquecimento da situação financeira e fiscal do Brasil.

Quando a presidente fez a intervenção no setor de energia, antecipando, manu militari, a renegociação dos contratos, houve ressentimentos do setor. Os executivos não encontraram interlocutores no governo para ouvir detalhes técnicos relevantes. O resultado foi um desastre econômico e fiscal. As empresas estatais federais que foram obrigadas a aceitar os novos parâmetros tiveram uma perda de valor de mercado; estatais estaduais que não aceitaram foram jogadas no ostracismo. Muito investidor perdeu dinheiro e isso elevou a insegurança sobre a estabilidade de regras no Brasil. A incerteza na área de energia continua.

Tudo foi feito para alimentar a propaganda eleitoral. Reduziu-se o preço que as famílias e empresas pagavam pela energia e isso custou R$ 10 bilhões ao Tesouro em 2013 e deve custar outros R$ 9 bilhões em 2014. O consumidor deixou de pagar e o contribuinte assumiu a conta.

Na época, as empresas, inclusive as estatais, falaram muito mal do governo. Contaram os diálogos com os assessores da presidente que mostravam que eles não tinham entendido problemas técnicos criados pela proposta.

Ao mesmo tempo, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, comemorou. Ele fez mais uma de suas campanhas publicitárias com interesse eleitoral. Usava a Fiesp, em parte financiada com o dinheiro público do Sistema S, em anúncios que se creditava pela queda do preço da energia e apoiava o governo. O evento mostra que essa relação Dilma-empresários é mais complexa e não se enquadra na limitada visão da presidente de esquerda que não gosta do capitalismo. Alguns capitalistas nunca foram tão felizes. O presidente da maior federação de empresários comemorou a decisão, que fez empresas perderem valor na Bolsa de Valores.

O setor automobilístico e, em menor escala, outros segmentos de bens duráveis tiveram do governo reduções de impostos e barreiras aos importados. O lobby foi atendido. E os lucros cresceram.

São muitas as empreiteiras felizes com o governo Dilma, principalmente as especializadas em barragens de hidrelétricas. Foram abertas novas frentes de trabalho e o governo fez um arranjo camarada. Elas são financiadas pelo BNDES, garantidas pelo Tesouro e têm o Estado como sócio nos empreendimentos. Há casos em que a soma do capital estatal é majoritário. O risco é público, o financiamento também e o lucro será privado.

O agronegócio também foi beneficiado. A presidente não entende a dimensão do problema ambiental e climático. No Código Florestal, sua posição ambígua ajudou o setor em vários pontos controversos. Na área de energia, Dilma jamais deu atenção aos limites. Cabeças rolaram no Ibama até serem extraídas licenças para Belo Monte.

A reação a ela não vem de todos os empresários. Alguns conseguem ver que uma gestão fiscal desastrosa contrata elevações de impostos, rebaixamento na dívida, problemas de médio prazo. Mas outra parte ganhou muito dinheiro nos últimos três anos, com vantagens que não teriam em outro governo.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Isso é triste”
Ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre a explosão de criminalidade no DF


PRESIDENTE DO PDT, LUPI COLECIONA ESCÂNDALOS

Ex-ministro do Trabalho e proprietário do PDT, Carlos Lupi acumula vasto histórico de denúncias e escândalos. A mais recente revelou que o então ministro teria cobrado R$ 200 mil para garantir um sindicato a uma empresária. Mas em 2011, por exemplo, foi acusado de liberar R$ 300 milhões em recursos para organizações não governamentais (ONGs) “amigas”, sem prestação de contas. Ele caiu em 2011.

PERNAS CURTÍSSIMAS

O então ministro Carlos Lupi jurava não haver usado o avião de uma ONG que presenteara com contrato “amigo”. Fotos provaram a carona.

DIFICULDADES S/A

Em 2010, o ministério contratou entidades para capacitar profissionais. Depois, dificultava a liberação e exigia propina para soltar a grana.

CARTEIRADA

Lupi lançou uma “inovadora” carteira do trabalhador, e foi acusado de escolher sem licitação a empresa que imprimiria os cartões com chips.

NÃO PAROU

O ex-ministro Brizola Neto, sucessor de Lupi no Trabalho, aposta no surgimento de novos escândalos: além de suborno, extorsão.

PPS: ALIANÇA NÃO GARANTE APOIO AO PSB EM SP

Apesar da aliança nacional com o governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB), o presidente do PPS, Roberto Freire (SP), afirmou que dificilmente a sigla apoiará uma candidatura socialista ao governo de São Paulo contra reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB). “O PPS está com Alckmin, que é o melhor palanque para Eduardo. Por mais respeitável que seja, um candidato do PSB terá votos irrisórios”.

PLANO NACIONAL

Segundo Roberto Freire, o acordo do PPS com Eduardo Campos não inclui qualquer obrigação de apoio mútuo nas eleições estaduais.

CHANCE ZERO

Após Marina Silva ter exigido candidatura própria, o PSDB já admite que as chances de obter apoio do PSB em São Paulo são quase nulas.

OLHA A RASTEIRA

A cúpula PSDB vê na dissidência em SP uma brecha para tentar faturar o apoio do PPS à eleição de Aécio Neves (MG) para presidente.

LIBERA GERAL

Irritados com a presidente Dilma na reforma ministerial, lideranças do PMDB coletam assinaturas para antecipar a convenção nacional para abril, visando liberar os diretórios estaduais a coligar com PSDB e PSB.

PMDB DESEMBARCANDO

A dissidência de setores do PMDB em relação a Dilma, que antes era pontual, aumentou em relação a 2010. Hoje, o partido quer pular fora da aliança em dez estados: BA, RJ, CE, MG, PR, PE, SC, RS, MS e PB.

CONSOLIDADO

Para o deputado Danilo Forte (PMDB), a candidatura do correligionário Eunicio Oliveira ao governo do Ceará já não tem mais volta: “Acho muito difícil ele desistir, até porque seria um suicídio político”.

PRESÍDIO-AÇOUGUE

Opositor da família Sarney, o partido Solidariedade quer denunciar em encontro político, na Itália, as condições de trabalho de agentes penitenciários de Pedrinhas, no Maranhão. Quanto aos muitos detentos mortos, alguns decapitados, até pela omissão dos carcereiros, nada.

DURA BATALHA

O ex-governador Joaquim Roriz discute política o dia todo e sempre coloca seu nome à disposição para disputar o governo do DF, mas ele tem outra dura batalha pela frente: está na fila do transplante de rins.

OPOSIÇÕES À PARTE

A deputada Jô Moraes (PCdoB) guarda na estante um busto de Lênin,comprado no Museu Comunista de Praga, onde também funciona uma lanchonete McDonald’s, símbolo do “imperialismo americano”. O presente foi do governador Antônio Anastasia (PSDB-MG), adversário.

PMDB NO PREJUÍZO

Sem perspectiva de acordo, dirigentes do PT-CE já avisaram à cúpula do partido que apoiarão o candidato do governador Cid Gomes (PROS-CE), em caso de enfrentamento com senador Eunicio Oliveira (PMDB).

TODOS POR UM

O ex-presidente Lula defende que, ao apoiar Armando Monteiro (PTB-PE), o PT alia sua força metropolitana à capilaridade do petebista em 184 municípios, tudo para promover a reeleição de Dilma.

LADO BOM

Na Casa Civil, Aloizio Mercadante terá menos tempo para atormentar os músicos do bar Grao, atravessando o samba com seu atabaque desafinado, nos fins de semana do Lago Norte, em Brasília.


PODER SEM PUDOR

INCORRIGÍVEL OTIMISTA

Governador da Bahia entre 1947 e 1951, Otávio Mangabeira tinha um secretário de Justiça, Albérico Fraga, que era um profissional do otimismo, capaz de extrair coisas boas das situações mais difíceis. Às vezes, no entanto, Mangabeira perdia a paciência. Ele definiu assim o auxiliar:

- O dr. Albérico é tão otimista que, vendo uma casa sendo destruída por um incêndio pavoroso, é capaz de exclamar: "Que casa bem iluminada!".

A melhor vida possível - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 02/02

Quanto mais converso por aí, mais percebo que é inútil acreditar em verdades absolutas e fórmulas ideais de convivência. Cada pessoa tem familiares que influenciaram suas escolhas, medos herdados e medos adquiridos, sonhos altos demais ou mesmo nenhum, e um número incalculável de perguntas sem respostas, de desejos embaraçosos, de mágoas vitalícias. Quem vai decretar para mim o que é melhor para mim? E quem vai dizer o que é melhor para você? Com que topete?

A melhor vida não é aquela que atende os mandamentos universais, as ordens celestes e os clichês eternizados, mas a que se tornou possível, a que você vem construindo a despeito de todas as suas dúvidas.

A melhor vida seria a da Gisele Bündchen, pensa a menina feia. A melhor vida seria a da Dilma, pensa a vereadora de uma cidadezinha do interior. Enquanto isso, vivem a vida possível, sem perceber o quanto deveriam ser gratas por não precisarem arcar com consequências que desconhecem.

A melhor vida para mim é bem diferente da melhor vida para você. Reúna o planeta inteiro e não se encontrará duas pessoas que planejem possuir a mesma vida, porque uns não querem ter horário para nada, outros se envaidecem de ter suas atitudes comentadas por estranhos, há os que se paralisam à primeira frustração, os que estão sempre inventando novos desafios, e a vida possível de cada um torna-se impossível para os demais, o que não deixa de ser uma piada termos que conviver intimamente uns com os outros apesar desse tabuleiro inesgotável de escolhas e destinos.

Se eu almejar uma vida ideal, terei que me basear na vida dos outros, pois o ideal é fruto de uma racionalização coletiva e consagrada, enquanto que se eu me contentar com uma vida possível, volto a assumir algum controle sobre os royalties das minhas decisões.

O que não impede que ela seja ótima, a mais adequada para o fôlego que tenho, a mais realizável dentro de minhas ambições, a menos sofrida, já que regulada pelo autoconhecimento que adquiri até aqui. Tenho como manejar uma vida possível de um jeito que jamais teria de manejar uma vida perfeita, até porque vida perfeita não é deste mundo, e o sobrenatural é matéria que não domino.

A melhor vida não é a focada em suposições, fantasias, esperas, surpresas e demais previsões que raramente se confirmam. A melhor vida não é aquela que é cumprida feito um pagamento de dívida, como um acerto de contas com nossos antigos anseios juvenis.

A melhor vida não é a que desenhamos quando criança na folha do caderno, a casinha de venezianas abertas, a fumaça saindo pela chaminé e os girassóis protegidos por uma cerquinha branca, e tudo o que isso sugere de proteção e vizinhança com os desejos comuns a todos. A melhor vida possível é aquela que você ainda vem desenhando, mesmo já com algumas pontas de lápis quebradas.

O prazer de matar - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 02/02

É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso

Não passa uma semana sem que novos atentados matem dezenas de pessoas. Isso ocorre com mais frequência no Iraque, no Egito, no Afeganistão, na Síria, em países da África Central. Matar inocentes indiscriminadamente é difícil de entender. Toda vez que leio uma notícia dessas, surpreendo-me como se a lesse pela primeira vez.

Não há dúvida de que homicídio puro e simples não deixa de me espantar. De fato, tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa que não compreendo nem aceito. Mas sei, como todo mundo, que, dependendo de seu temperamento, pode uma pessoa perder a cabeça e matar um suposto inimigo.

Há, porém, pessoas que têm o prazer de matar e, por isso mesmo, fazem isso com certa frequência. Lembro-me de um jovem que foi preso logo depois de liquidar um desafeto. Quando o policial lhe disse que no próximo ano seria maior de idade e, se voltasse a matar alguém, iria para a cadeia, ele respondeu: "Pois é, não posso perder tempo".

No que se refere aos atentados, há os motivados por razões políticas e religiosas e há os que, ao que tudo indica, têm causas psíquicas, ou seja, o cara é pirado. Esses são os atentados tipicamente norte-americanos. Com impressionante frequência, surge um sujeito empunhando um revólver ou um fuzil-metralhadora que começa a disparar a esmo dentro de um shopping ou de uma universidade. Ele sabe que vai morrer e, quase sempre, é abatido por policiais.

A loucura é certamente um componente desse desatino homicida. Não obstante, a gente se pergunta por que só acontece nos Estados Unidos. Será porque todo mundo lá tem armas em casa e aprende a atirar desde criancinha, no quintal de casa ou no porão? Os fabricantes de armas garantem que não, que não é por isso, mas tenho dificuldade de acreditar neles.

Esse tipo de atentado difere daqueles outros, cuja motivação é político-religiosa, e difere também, por seu resultado, não de um surto psicótico e, sim, pelo contrário, fruto de uma decisão tomada objetiva e friamente por um líder.

A afinidade que há entre eles é o propósito de assassinar pessoas inocentes. E é precisamente este ponto que tenho maior dificuldade de aceitar. Por exemplo, um terrorista, com o corpo coberto de bombas, entra num ônibus escolar do país inimigo, explode as bombas e a si mesmo, matando dezenas de crianças. Não vejo nenhum sentido nisso, a não ser mostrar seu ódio ao adversário; e, nesse caso, por se tratar de crianças, mostrar que sua fúria homicida desconhece limites. É outra modalidade de loucura.

Mas há ainda os casos em que a fúria homicida mata indiscriminadamente pessoas de outros países, que nada têm a ver com os propósitos do atentado. Exemplo disso foi o caso das Torres Gêmeas, em Nova York, onde morreram quase 3.000 pessoas. O atentado visava os norte-americanos, mas matou franceses, holandeses e até muçulmanos. Nem mesmo se pode excluir, dentre as vítimas daquele atentado, pessoas que possivelmente apoiavam a causa defendida pelos terroristas. É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso.

O que torna mais absurdo tudo isso é o fato de que o atentado terrorista não traz nenhum benefício a quem o projeta e o faz acontecer, a não ser satisfazer seus desejos homicidas. De fato, o terrorismo é a expressão da derrota política de quem o promove, a reação desesperada de quem sabe que não tem qualquer possibilidade de vencer o adversário e chegar ao poder.

Mas, ao fim de tudo, não consigo na verdade entender tal desvario, mesmo porque, além do assassinato em massa de crianças e cidadãos quaisquer, que o terrorista nem sequer conhece ou sabe que matou, há fatos quase inacreditáveis.

Como o que ouvi da boca do chefe supremo do Hezbollah, na televisão. Ele afirmou que o menino-bomba, que praticou o atentado no ônibus escolar, em Israel, era seu filho e tinha 16 anos. E acrescentou: "O mais novo, que tem 12 anos, já está sendo preparado para se sacrificar por Alá". O curioso é que ele manda os filhos morrerem, mas ele, o pai, continua vivo.

O Estado da (nossa) União - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 02/02

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff foi a Davos, do outro lado do Atlântico, mas delegou ao chefe da Casa Civil a entrega da sua mensagem para a reabertura do Congresso, do outro lado da rua, como tem sido a praxe dos sucessivos governos. Por que será?

Se Dilma não decidir na última hora ir, Aloizio Mercadante sai da Educação, assume a Casa Civil às 11h e no meio da tarde já vai entrar no Congresso, amanhã, com a mensagem presidencial debaixo do braço como se presidente fosse.

Nos EUA, o discurso dos presidentes sobre o Estado da União, a cada início de ano, é um grande evento que não apenas mobiliza o governo e o mundo político como é aguardado com ansiedade pela população. Cidadãos e cidadãs querem saber o que o chefe da Nação tem a lhes dizer: o que realizou, o que se compromete a realizar. É coisa séria, para valer. Obama não está nos seus melhores momentos e fez um discurso chocho, sem impacto, mas mesmo assim cumpriu a tarefa.

O presidente Bill Clinton, debaixo de pesadas críticas e ameaçado até de impeachment, por causa do envolvimento heterodoxo com a estagiária Monica Lewinsky, foi ao Congresso, respirou fundo, fez um balanço vibrante do seu governo, assumiu compromissos contundentes para educação e emprego e acabou aplaudido de pé. Vi e pensei: sabe quando o Clinton vai cair? Nunca.

Se a forma no Brasil parece equivocada, o conteúdo da mensagem de Dilma dificilmente deixará de ser o mais do mesmo do discurso no Fórum Econômico Mundial. Listará (pela voz anódina do vice-presidente da Câmara) os dados da economia sob a ótica governista e os programas sociais que animarão seus palanques e os programas de TV da campanha, a começar do "Mais Médicos" e do "Minha Casa, Minha Vida", que você está careca de conhecer.


Realmente, o Congresso no Brasil não está com essa bola toda.

A idade das trevas - GAUDÊNCIO TORQUATO



O ESTADÃO - 02/02

“A lei e a ordem são o primeiro pré-requisito da Civilização e em grande parte do mundo elas parecem estar evaporando”. A observação, feita há cerca de 20 anos pelo professor Samuel P. Huntington, no clássico O Choque das Civilizações, mostra-se pertinente para uma avaliação do atual estado da Humanidade. A ideia ganha consistência quando se puxam para o cenário as manifestações turbulentas em várias cidades do mundo, na onda de conflitos entre grupos étnicos, gangues de jovens, turbas desfraldando a bandeira de um nacionalismo xenófobo, situações que forçam a expansão de partidos de extrema-direita, principalmente na Europa. Ressentem-se todos das instituições políticas, que não conseguem dar vazão às demandas sociais, e brandem a arma do ódio contra o outro, o estrangeiro, o não europeu, notadamente a comunidade muçulmana. Há quem garanta, como o professor Jamie Bartlett, principal autor de um estudo sobre os grupos radicais de extrema direita na Europa, que o continente vive um impasse: deixar de ser tuba de ressonância das liberdades para se transformar em bastião do autoritarismo, ancorado nos eixos do ultra-nacionalismo, islamofobia e do antissemitismo, entre outros.

Já a grave leitura do professor de Harvard sobre o conflito entre civilizações aponta para o limiar de uma Idade de Trevas no planeta. Argumenta que o Ocidente, com a clássica imagem de predomínio avassalador, triunfante, quase total, abre flancos para deixar enxergar uma civilização em declínio, com sua parcela de poder político, econômico e militar diminuindo em relação ao de outras civilizações, particularmente a da Ásia Oriental. A China emerge exuberante nessa paisagem. A Índia, mesmo com desníveis estupendos na sociedade, adentra o ranking de pólos de alta tecnologia. O discurso do Ocidente, com seus tradicionais sermões, já não afeta interlocutores e parceiros como no passado. O fato é que a última crise econômica (2008) serviu para pôr mais lenha na fogueira que consome o estado de bem-estar social, locomotiva da aclamada social-democracia europeia desde o pós-Guerra. Os partidos de esquerda, ao longo de décadas, tentaram repaginar o modelo, experimentando fórmulas e resgatando novas abordagens. Com poucas exceções, não têm sido bem sucedidos. 

Resultado dos conflitos: fortalecimento das correntes de extrema-direita em muitos países, a indicar a eventual conquista de boa percentagem (uns 10%) das 751 cadeiras do colegiado no Parlamento Europeu. A perplexidade se instala. Quem poderia imaginar que os terrenos da velha democracia europeia fossem acolher novamente a poeira do deserto da restrição de direitos? Até a França, berço dos Direitos Humanos, mostra sua faceta de barbárie. Aí, expande-se o antissemitismo, cujos propagandistas querem apagar o calvário do holocausto, considerando-o “um detalhe na História”, como proclama o fundador da Frente Nacional francesa, Jean-Marie Le Pen, sucedido no comando do partido por sua filha Marine. A pauta discriminatória é densa: restrição aos imigrantes; limitação de direitos de estrangeiros; proibição de manifestações religiosas de muçulmanos (construção de mesquitas, banimento de burcas) etc. Os exércitos “nacionalistas- protecionistas” multiplicam-se nos partidos e agora nas redes sociais, onde um grupo chega a se auto-denominar “Adolf-adoradores Neandertais”. Na Grécia, o partido de extrema-direita Aurora Dourada usa práticas nazistas – milícias armadas, agressão a imigrantes - e símbolos assemelhados à suástica. Propõe a reintrodução da pena de morte e a possibilidade de aplicá-la a imigrantes sentenciados por delitos. 

O discurso segregacionista se adensa enquanto declina a força dos partidos que sustentam os pilares da social-democracia; as lideranças, mesmo em rodízio, não conseguem tapar os buracos abertos pela crise econômica, estampados nos formidáveis contingentes de desempregados. E assim germina nas praças das grandes cidades o vírus de um tipo de violência diferente dos eventos tradicionais – roubos, assaltos e assassinatos deles decorrentes: a violência dos conflitos étnicos e dos choques civilizacionais, como as que colocam na arena muçulmanos e não muçulmanos, países afins (islâmicos e vizinhos). Para as agremiações da direita radical, o Islã e os muçulmanos simbolizam o mesmo papel de “ameaça externa” que Hitler associava aos judeus. Comparação extravagante e sem sentido. 

A propósito, a imagem desse truculento e fanático cabo, que se vestiu de ditador para ser o maior facínora da história contemporânea, veio a público esta semana, por ocasião do evento em memória do Holocausto, no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo. Comovidos, ex-prisioneiros dos campos de concentração desfilavam agruras por que passaram. Um horror! Em 6 anos de guerra, foram assassinados 6 milhões de judeus, incluindo 1,5 milhão de crianças, representando um terço da comunidade judaica da época. Foram massacrados também comunistas, ciganos, deficientes, homossexuais, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos e sindicalistas. 69 anos atrás, o exército soviético abria as portas de Auschwitz, o campo de concentração com 8 mil prisioneiros. A tétrica imagem jamais será esquecida: esqueléticos, velhos, doentes, cabeças raspadas, filas de pessoas cambaleando, famintas, nuas, torturadas, braços tatuados com o numero do registro. Na fachada de entrada, a inscrição Arbeit macht frei” – “o trabalho liberta”. A rememoração do holocausto é uma maneira de puxar o passado para o presente, fato importante para alargar as avenidas do futuro.

Imaginar que, por esse mundão afora, há fanáticos que ainda hoje aplaudem um dos maiores genocídios da história é apostar na hipótese de Samuel Huntington: nas esquinas do mundo, desenha-se o paradigma do “puro caos”.

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