Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 29, 2005

CLÓVIS ROSSI:A ilusão da economia

SÃO PAULO - Se a política vai mal, muito mal, a economia vai bem. É o que diz um certo consenso.
Mas será que a economia vai mesmo bem? Passeemos um pouco por opiniões independentes.
Charles Tang, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China e membro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, escreveu para a Folha:
"A criação da ilusão temporária de estabilidade monetária foi a maior prioridade do Brasil nos últimos dez anos".
Mais: "A defesa dessa política econômica, que exigiu a aplicação de juros exorbitantes, tornou-se uma verdade tão sagrada para sucessivos governos brasileiros que um PIB inteiro de recursos foi consumido em sua manutenção".
Editorial do jornal "The New York Times", também de quinta:
"Fora o caso do Chile, a alta taxa de crescimento [econômico] da América Latina não é causa para festejar. Em lugares com distribuição de renda relativamente igualitária, o crescimento ajuda todo mundo. Mas, em países desiguais, em que os pobres ficam com apenas poucos centavos de cada novo dólar, o crescimento passa ao largo dos mais pobres. A América Latina é a região mais desigual do mundo".
Só faltou acrescentar que o Brasil é o mais desigual dos países dessa desigual América Latina.
Se há esses problemas estruturais, passemos à análise conjuntural, esta do Iedi (Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial):
"Entre o que vem sendo divulgado e a real situação da economia vai se abrindo um fosso de dimensões crescentes. Alguns confundem sem saber, outros deliberadamente, uma indicação de que a economia não está regredindo (ou seja, não entrou em declínio) com sintoma de que ela está avançando".
Conclui: "O que de fato está ocorrendo é uma estagnação, que, se nada for feito, representará a ante-sala de uma retração".
folha de s paulo

AINDA SOB RISCO

 A política macroeconômica brasileira tem obtido relativo êxito no aumento do superávit fiscal, melhora no perfil da dívida pública (queda dos títulos indexados à taxa de câmbio), redução na relação entre a dívida pública e o PIB (Produto Interno Bruto) e menor vulnerabilidade externa. O país, no entanto, persiste muito sensível aos efeitos de aumentos na taxa de juros dos EUA, de acordo com a agência americana de risco de crédito Standard & Poor's.
A agência reconhece que choques no mercado financeiro internacional teriam impactos diferenciados nos diversos países emergentes. O Brasil estaria ao lado da Hungria, Filipinas, Turquia e Jamaica, entre os mais vulneráveis aos movimentos de alta dos juros americanos. Isso porque o elevado estoque da dívida externa e da dívida pública interna sofreriam os impactos da elevação dos juros e da desvalorização da moeda brasileira.
Nesse contexto, a agência de risco não acenou com a possibilidade de melhorar a nota do Brasil à categoria de "investment grade". O elevado patamar da relação entre a dívida líquida do setor público e o PIB, em torno de 51%, acima da média dos emergentes, sanciona a nota BB- para o país, que coloca seus papéis na categoria de investimento especulativo, ainda com elevado risco.
Os mercados de títulos de dívida dos países emergentes, entretanto, continuam acusando a entrada de recursos, mesmo após a taxa de juros de curto prazo dos EUA ter sido elevada para 3% ao ano em maio. O movimento recente parece refletir a saída de capitais de fundos de empresas norte-americanas consideradas de alto risco e sua entrada em papéis de emergentes. De certa forma isso indica que a melhora das contas externas desses países anima os investidores internacionais. Na sexta, o banco Merryll Lynch deu um estímulo a essa tendência ao elevar os títulos da dívida brasileira de "na média" para "acima da média".
Porém, países endividados, como o Brasil, não podem esquecer que o comportamento dos mercados, hoje favorável, é volátil. Nesse sentido, o alerta da Standard & Poor's reafirma a necessidade de persistir na diminuição da dependência externa. O país deve zelar pelos elevados saldos comerciais, implementar políticas de comércio exterior para melhorar a pauta das exportações e trabalhar para que a atual combinação de juros altos e câmbio valorizado possa ser o quanto antes reequilibrada.
folha de s paulo editorial

DECLÍNIO ÉTICO

 O deprimente espetáculo encenado em Brasília na última semana, em torno da instalação da CPI dos Correios, ampliou as proporções do fracasso político do governo Luiz Inácio Lula da Silva e expôs sem disfarces a rarefação ética e o descompromisso moral de muitos daqueles a quem a sociedade confiou a missão de conduzir e zelar pela República. As exceções, por certo -e felizmente- existem, mas saltou aos olhos nesse vexatório processo a combinação de truculência, cinismo e desenvoltura fisiológica empregada pelo Executivo em seus desesperados esforços para impedir o inquérito parlamentar.
Ameaças, ofertas, apelos e chantagens, a tudo se recorreu para evitar que a evidência de corrupção numa empresa estatal fosse examinada por uma CPI. Tamanho empenho, aliado ao desprendimento para assumir os ônus inerentes a uma operação desse tipo, serviu para alimentar ainda mais as suspeitas de que as "bravatas" do funcionário Maurício Marinho são na realidade o fio de uma meada que, trazida à luz, poderá causar sérios danos para o governo e para seus aliados.
O que se sabe do contexto que originou a escandalosa fita afasta de cena a hipótese de se tratar de um caso isolado. Apurações de bastidores dão como certo que nos Correios o vaivém de encomendas não se resume à atividade-fim da empresa. Tem-se ali um loteamento "sui generis", no qual o tráfico de influência, as negociações de contratos e o aproveitamento de oportunidades são disputados de maneira imprudente por representantes do PTB, do PMDB e do próprio PT.
Personagens que nos últimos anos têm despontado obliquamente em casos assemelhados, como o tesoureiro petista Delúbio Soares e o secretário-geral Silvio Pereira, mais uma vez voltam à baila em conversas que o governo poderá classificar de levianas, mas cuja insistência vai se tornando inquietante.
A desastrosa ofensiva deflagrada pelo Planalto serviu também para reiterar sua deserção dos compromissos com a moralidade política que animaram ao longo de anos a militância petista e contribuíram para fomentar as esperanças que os brasileiros depositaram nas urnas.
Pode-se imaginar, para aqueles que acreditaram nas promessas de mudança política acenadas pela candidatura Lula, o peso da frustração com os atos praticados pelo governo. Não consta que, ao abandonar suas teses irresponsáveis de ruptura, nas revisões doutrinárias realizadas com vistas às eleições presidenciais, o PT tivesse, com elas, atirado no lixo o que se afigurava como uma de suas mais bem-vindas contribuições -a maneira, como diziam então, "diferente" de fazer política.
Esse patrimônio simbólico, que começou a se erodir com a conquista de prefeituras e governos estaduais, já não encontra nenhuma correspondência no exercício do poder político pela administração do PT. Aos que das hostes petistas têm contrastado as opções do Planalto, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, já apontou o caminho: que troquem de partido e façam oposição.
O declínio ético do PT -para alguns sinônimo de "realismo"- em nada eleva as legendas de oposição, que cumprem o seu papel, mas o fazem com acintosa hipocrisia. Em oito anos de governo, representantes do PSDB e do PFL, que hoje se arvoram em intransigentes campeões da transparência, estiveram em diversas ocasiões na mesma posição que agora combatem, a bloquear investigações e abafar escândalos.
O aspecto a um só tempo tenebroso e farsesco dessas escaramuças estarrece a opinião pública e reforça as desconfianças em relação não apenas ao governo petista, mas à classe política, da qual a sociedade brasileira tem esperado mais espírito público, seriedade e eficiência.
folha de s paulo  editorial

Dora Kramer:Oposição abana o fogo amigo

  Numa semana crucial para o destino da CPI dos Correios, os partidos de oposição estão atentos para o risco de perder o equilíbrio e, com ele, a vantagem obtida com os desacertos produzidos pelos governistas na tentativa de impedir a instalação da comissão de inquérito.

PSDB e PFL sabem que deslizes político-eleitorais ou gestos de exibicionismo investigatório poderão levá-los ao descrédito e conferir substância ao argumento de que a finalidade da investigação é apenas criar embaraços ao Governo e dar um bom palanque à oposição.

Diante da impossibilidade de provar que não é nada disso – a fim de não agredir o discernimento alheio –, tucanos e pefelistas pelo menos vão procurar mostrar que não é só isso. Para tanto, serão necessários ajustes de conduta.

Discursos como o do líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman, na sessão de leitura do requerimento de criação da CPI conclamando os "companheiros até a vitória", são considerados não apenas dispensáveis, mas altamente impróprios.

A palavra de ordem é transmitir equilíbrio e deixar que o Governo tropece nas próprias pernas. Seja no campo político, tratando com truculência os petistas favoráveis à investigação, seja no terreno dos interesses comerciais contrariados em negócios escusos na máquina pública.

Neste aspecto, oposicionistas acreditam que conflitos pesados virão à tona e baseiam essa convicção no tom de ameaças veladas e mútuas que permeiam os discursos de partidos aliados como o PTB, PP e parcela do PMDB.

O gosto da base governista pelo exercício da autofagia é, no entender da oposição, uma peculiaridade a ser explorada. As manobras para protelar o funcionamento da comissão também são tidas como um fator de desvantagem para o Governo.

Prolongam a temporada de sangria de imagem em praça pública e dão argumentos à oposição. A cada sessão com falta de quorum, serão evidentemente citados os nomes dos faltosos e cobrados os motivos das ausências. Tudo isso em transmissão direta pelas televisões e rádios Câmara e Senado.

Uma vez iniciados os trabalhos da CPI, o clima de disputa eleitoral, raciocina a oposição, deve ficar todo por conta da base governista. Se o restante dos parlamentares não se contiver, caminharão todos para a desmoralização.

A condução da comissão de inquérito do Banestado – onde PT e PSDB dividiram a presidência, a relatoria e o jogo de instrumentalização política que anulou os resultados – é exemplo ainda fresco na memória; repeti-lo seria caminhar para uma guerra sem sobreviventes.

O roteiro

O pronunciamento feito pelo deputado Roberto Jefferson na Câmara logo após a publicação da primeira denúncia na revista Veja servirá como roteiro-base da oposição na CPI.

A título de defesa, o presidente do PTB alegou ter sido alvo de tentativa de chantagem por parte de um lobista de empresa cujo interesse foi contrariado por causa da anulação de uma licitação nos Correios. Segundo Jefferson, o lobista usou a gravação do funcionário Maurício Marinho recebendo dinheiro para forçar uma mudança na decisão.

Pois então, a comissão começará por querer saber por que o deputado não pediu a demissão do funcionário e prosseguirá pedindo a ele que dê nome e sobrenome aos personagens envolvidos, fornecendo também o itinerário, passo a passo, da trama comercial de suborno, extorsão e fraude.

Foco no Senado

A Câmara faz barulho, mas o Senado mexe com resultados. Com esta idéia na cabeça, Governo e oposição partem para o embate na CPI dos Correios convictos de que prejuízos e benefícios terão origem na ação de senadores.

A começar pelo presidente da Casa, Renan Calheiros, em tese um aliado do Governo. Mas só em tese e nem de longe um amigo do peito como o antecessor, José Sarney.

O senador Calheiros deve obrigações ao Palácio do Planalto, que lhe sustenta o indicado Romero Jucá no Ministério da Previdência a despeito do prejuízo de imagem causado pela permanência de um ministro sob investigação numa hora difícil com essa.

Já o Governo não deve tantos favores assim ao senador Calheiros, pois a promessa de entregar o PMDB ao Governo nunca se cumpriu. Estaria assim, à primeira vista, o senador em dívida com o Planalto.

Mas o senador Calheiros – cuja fidelidade aos governos Fernando Collor e Fernando Henrique deu-se no mesmo diapasão de ambigüidade –, como ele mesmo sempre repete, não tem "compromisso com o erro".

A dúvida a respeito da imparcialidade regimental do presidente do Senado mantém Governo e oposição em suspenso.

O PFL e o PSDB, entretanto, julgam-se em ligeira vantagem, pois acham que ele agirá de acordo com as demandas da opinião pública e em sintonia com as conveniências de sua candidatura ao governo de Alagoas em 2006.

Cuidará também de diferenciar-se cada vez mais do presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, que aparece na pesquisa encomendada pelo PSDB ao instituto Ipsos-Brasil como o segundo político mais mal avaliado pela população. O campeão da imagem negativa é Paulo Maluf.
o dia

sábado, maio 28, 2005

AUGUSTO NUNES:O estranho pânico dos inocentes

Instados a comentar o escândalo dos Correios, documentado em vídeos tão obscenos quanto os piores filmes pornográficos brasileiros, figurões do governo e do PT se penduram numa linha de raciocínio aceitável. Os corruptos apadrinhados pelo deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, não agiam na estrada principal - o caminho que termina no gabinete do presidente. A roubalheira ocorreu num desvio desmatado por pastores petebistas, que atravessa o território onde rebanhos de afilhados engordam contas bancárias suspeitíssimas.

Se acreditasse mesmo na tese, o governo teria encarado com naturalidade o movimento de oposicionistas que reivindicavam uma CPI para a apuração das patifarias nos Correios (que envolvem funcionários infiltrados pelo PMDB no Instituto de Resseguros do Brasil). A prática colidiu com a teoria. A reação do governo, marcada pelo pânico e pela agressividade, foi tão estranha que convém examinar o real traçado do desvio petebista. É possível que acabe retornando à estrada principal. O perigo mora aí.

Ligações perigosas podem envolver mandarins do PT. Só riscos desse porte explicam o espantoso desempenho de companheiros determinados a impedir que se chegasse ao mínimo de assinaturas exigido. Lula, ministros, líderes do PT no Congresso e coadjuvantes acionados para tarefas pontuais se mostraram dispostos a tudo. E tudo fizeram - até o momento da derrota que desonra.

Esse tributo ao teatro do absurdo concluiu o primeiro ato na mais burlesca quinta-feira patrocinada pela inventiva Era Lula. O ministro José Dirceu brilhou intensamente no duelo de assinaturas, amplamente favorável à oposição até o início da batalha decisiva. Ele entrou em cena numa sala da casa de Roberto Jefferson. Até então, o grande suspeito apoiava a CPI.

Dirceu chegou acompanhado do ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo. Antes de ceder, Jefferson repetiu negativas tão convincentes quanto um ''não'' de virgem devassa. ''Só faltou eles se ajoelharem ao pedir a retirada das assinaturas'', gabou-se o condutor do PTB. A humilhação não reduziu o ímpeto de Dirceu. Pouco depois, estava pedindo socorro a Anthony Garotinho.

''Ele suplicou para que eu ajudasse o governo'', discursou o ex-governador numa reunião do PMDB. ''Dizia que precisava desse favor''. A missão falhou. Deu certo a confiada ao companheiro João Pedro Stédile, coordenador do MST. Ele conseguiu convencer o deputado Wasny de Roure (PT-DF) a desertar da tropa rebelada. Com um só voto, pagou a bolada que ganhara de Lula dias antes.

Outra montanha de reais foi dividida entre deputados compreensivelmente hesitantes: pertencem à base aliada, mas são filhotes da linhagem fisiológica que vê no voto a chave do cofre. Em viagem ao exterior, Lula liberou por telefone verbas retidas no Ministério da Fazenda. Não funcionou. Irritado, jurou que tratará com dureza os infiéis.

Melhor ampliar e reforçar as linhas de defesa. Jefferson trocou o tiro ao alvo pelo canto lírico, mas almas não mudam. Se vier o naufrágio, pretende afundar atirando. Na cadeira onde a CPI vai colocá-lo, avisou, logo se sentarão Dirceu e os dois tesoureiros do PT: Delúbio Soares e Sílvio Pereira. Começa a fazer sentido o espetáculo do pânico.

O Cabôco pergunta: por que só agora o governador Ivo Cassol divulgou os videobandidos gravados em 2003? Em todos, deputados de Rondônia tentam extorquir-lhe dinheiro em troca de apoio. Por que o mocinho não divulgou de imediato a prova da bandidagem? Achou que os deputados acabariam baixando o preço?

O povo da Bolívia avisa: esse óleo é nosso

Arquivo JB
Multidões de bolivianos em marcha: cenas evocam a campanha pela criação da Petrobras, que mobilizou o Brasil no século passado

É compreensível que muitos líderes da oposição boliviana, hoje aglutinada no movimento que busca proteger e valorizar as riquezas naturais do país, sejam encarados com desconfiança por democratas. Uns não sabem o que dizem. Outros não dizem o que sabem. Essa desconfiança não deve contaminar reflexões sobre o movimento que cresce na Bolívia. Mais relevante é sua essência, que merece olhares sensatos e honestos.

"O petróleo é nosso", bradaram no século passado multidões indignadas com a voracidade do imperialismo americano. Os bolivianos descobriram agora que o óleo é deles. E que os imperialistas têm sotaque brasileiro.

Peru bebe na festa errada

O ex-presidente Fernando Henrique levou a taça da semana com uma confusa definição do governo.

"Parece um peru bêbado no Carnaval".

Peru embebedado é coisa de Natal antigo. No Carnaval o que se vê é muita perua bêbada. A espécie adora a Sapucaí.

Sob a proteção de Marina, a floresta ficou menor

Arquivo JB
O avanço das plantações de soja é um dos motivos da perturbadora redução da Amazônia

Nem ferozes governistas podem contestar os números. Foram extraídos de um estudo organizado por técnicos federais. E divulgados pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, petista acima de qualquer suspeita. A coragem demonstrada pela moça do Acre no combate a devastadores da Amazônia levou-a, primeiro, ao altar dos santos protetores dos povos da floresta. Depois, ao Senado e, com a vitória de Lula, ao ministério desejado.

Hoje, como a selva que jurou preservar, também o mito exibe cicatrizes e equimoses perturbadoras. Foram ampliadas pelas conclusões do estudo, nenhuma das quais melhora a biografia de Marina Silva. No período 2003- 2004, o desmatamento da Amazônia cresceu 6,23 em relação ao período anterior. A amputação atingiu 26.130 quilômetros quadrados.

A área é do tamanho de Alagoas. No campeonato da destruição do verde, só fica atrás do período 1994-1995, que opero u o sumiço de 29.059 quilômetros quadrados. Uma proeza.

Um segundo lugar já não é pouca coisa. Torna-se ainda mais vistoso por comprovar que, nos dois primeiros anos da Era Lula, o ritmo do desmatamento foi duplicado. A liderança está logo aí.

Se a catástrofe tivesse ocorrido em outros tempos, a combativa Marina estaria reivindicando a demissão de meio mundo. Mas hoje o Brasil é outro. Mudou o governo. Mudou o ministério.

Mudou a Amazônia, cada vez menor e mais indefesa. Também Marina mudou muito. Mas os números não deixaram indignada a antiga combatente. "São inaceitáveis", concedeu. "Mas é impossível reverter em dois anos um processo de séculos". Fiel à cartilha forjada pelo ministro do Otimismo, Luiz Gushiken, exibiu o lado positivo da catástrofe. O aumento anual da devastação teria sido extraordinariamente maior no período 2001-2002. "Caiu bastante", alegrou-se.

No elenco dos culpados, Marina não figura entre os protagonistas. Vive reivindicando verbas jamais liberadas, pede funcionários em vão, formula projetos ignorados. Tornou-se uma relíquia de um PT que acabou.

Deveria examinar o conselho que a Marina sem ministério daria à ministra sem poderes: renuncie, companheira.

Time de Serra muda tática: agora é 4 em 5

Todo prefeito deve substituir sem hesitações qualquer secretário cujo desempenho lhe pareça insatisfatório. Isso é normal. Anormal é trocar quatro secretários em cinco meses de mandato, como fez José Serra em São Paulo. Amigos procuram explicar o fenômeno com argumentos de psicanalista estagiário. ''O prefeito é muito exigente, muito perfeccionista'', alegam.

A oposição, habituada a transformar maresia em tsunami, aposta na crise. ''Serra assumiu sem programa e agora tenta culpar assessores'', discursa Marta Suplicy. Os paulistanos só querem entender por que Serra demorou dois meses para nomear quem não conhecia.

jb

JOÃO UBALDO RIBEIRO :Que tal uma tolerância zero para nós?

Sei que não adianta, mas reitero minha rejeição ao rótulo de "formador de opinião" que a toda hora me pespegam. Não só o acho pretensioso, como não creio que seja verdade. O que acredito que faço com alguma freqüência é dar forma ao que muita gente já vinha pensando, ou veicular o que ela já trazia formadinho na cabeça e não tinha como manifestar. Não sou megalômano, para achar que, depois que dou um palpite — que, aliás, pode ser uma perfeita besteira, pois claro que digo besteiras como todo mundo, embora talvez não tão abundantemente quanto uns e outros, pelo menos em público —, vai aparecer um monte de gente querendo segui-lo. Só se for um palpite que já esteja dormindo ou armazenado na cabeça do pessoal e eu apenas o desperte, ou dê de cara com ele no fundo de uma gaveta que já desistimos de arrumar.

Além disso, é injusta a fama de desrespeitoso e irreverente (debochado, dizem também) que me dão. Não sou desrespeitoso, pelo contrário, sou enquadrado ao extremo — trauma de juventude, desde um pai não muito dado a gracinhas ao colégio em que estudei, onde até nos ensinavam a nunca dizer "hein?" ao nos falarem, mas "como?" ou "sim?", pois "hein" era considerado grossura. Quando entrei para a Academia, João Cabral acabou me dando um esbregue para eu parar de chamá-lo de "senhor" e o atendi, mas até o fim tive dificuldade em chamá-lo de "você". Irreverente, talvez um pouco, mas não de caso pensado, é por jeito de ser mesmo. E sem faltar com o bendito respeito.

Em outras épocas, já fui até tido como subversivo e houve tempo em que quis ser, mas não andei pensando em luta armada nem em mandar ninguém para o paredão, depois de salvarmos a pátria (não salvaríamos nada, boto até as mãos para o céu porque não chegamos lá). Já me manifestei contra essa patacoada de "Fora, Lula" que começou a aparecer na internet, assim como, apesar de não compor a mesa diretora do fã-clube de dr. Fernando Henrique, fui contra a patacoada do "Fora, FH". Me arrependi de meu voto, mas o homem foi eleito, dentro das normas de um estado de direito. É, portanto, o presidente legítimo e indiscutível e não tem nada desse negócio de "Fora, Lula". Falar mal, sim, qualquer um pode, contanto que não cometa delito ao fazer isso. Eu, por exemplo, falo mal bastante, mas não só muitos outros brasileiros também falam como ninguém nos deu esse direito, esse direito é nosso, o ser humano só pode aspirar à plenitude de sua humanidade se não lhe tolherem a liberdade de pensar e opinar, que, na minha opinião, nasce com ele.

Assim postas, desculpo-me se verbosamente, minhas premissas, passo a novo palpite. Nós, como também vivo dizendo, temos uma tradição de subserviência à autoridade. Fazem gato e sapato da gente e continuamos a nos portar como se eles fossem nossos patrões (e que patrões!) e não exatamente o contrário, nós é que somos os patrões deles. Isso é repetido da boca para fora o tempo todo, mas na prática ocorre o contrário. Se eu fosse Nélson Rodrigues, teria a coragem de dizer que mora um puxa-saco na alma de cada um de nós, mesmo que, em alguns casos, bem pequenininho. Aturamos todo tipo de indignidade, assistimos a um festival de roubalheira de deixar qualquer um zonzo, temos um presidente que, se ocupasse um emprego normal (eu ia escrevendo "trabalhasse num", mas o escritor tem de buscar a palavra exata), já teria sido pelo menos advertido por absenteísmo, temos um Congresso, assembléias e câmaras de onde toda hora saem escândalos de arrepiar Belzebu, um Judiciário (não se pode dizer isso, a não ser no boteco, mas eu arrisco a reproduzir aqui) em que o povo não confia, nada exceto cobrança funciona direito, trabalhamos quatro meses por ano para o governo, temos medo de sair de casa e até de ficar em casa, recebemos ordens de bandidos, somos governados a canetadas arbitrárias — e, enfim, qualquer um poderia desfiar um rosário que encheria esta página.

De vez em quando, eles falam em tolerância zero para isso ou para aquilo. Minha idéia é simples: tolerância zero é coisa nossa, não deles. Acho que já estamos crescidinhos o suficiente para engrossar e resolver estabelecer tolerância zero para com a incompetência, a má administração, o mau serviço, o mau desempenho dos nossos empregados, enfim. Nada mais de enrolação: tolerância zero. Nós pagamos, nós temos direito. Ou então não pagamos mais, apesar de ser um caso muito grave de desobediência civil, que se deve reservar para a eventualidade de não haver outro jeito, porque aí eles iam ter de prender todo mundo e eu gostaria de ver como eles iriam prender todo mundo.

De minha parte, ainda não quero ir tão longe, mas venho pensando numa desobedienciazinha civil, quando a oportunidade se oferecer. Nada de muito espetacular, até porque me falta vocação para gestos retumbantes, mas minha intenção, por exemplo, é me recusar a preencher um formulário com declaração de raça, como parece que está entrando na moda, do mesmo jeito que na Alemanha nazista ou na África do Sul do apartheid. Na verdade, penso em escrever, digamos, um turpilóquio (domingo, dia de exercício com o dicionário, não pensem que me esqueci) no local indicado e perguntar ao(à) funcionário(a) se é aquilo mesmo e se ele(a) gostaria de me ver repetir a expressão na presença dos seus superiores, da polícia, de um ministro, ou de quem lá fosse.

Estou aguardando a oportunidade. E, enquanto isso, conclamo o gentil leitor e a encantadora leitora a ações semelhantes. Existe já um remédio na praça, produto natural sem efeitos colaterais nocivos. Chama-se Vergonhanacaril e uma cápsula por dia resolve o problema. E dá um belo slogan: "Salve o Brasil, use Vergonhanacaril." Sim, eu sei que, na nossa pronúncia, isso dá outra bela rima, mas aí você mesmo(a) escolhe, não sou formador de opinião.
o globo

Merval Pereira : Cenários possíveis

Qual será o futuro do Brasil até 2007, tempo que abrange o final do primeiro mandato do presidente Lula, o período eleitoral ampliado que já começou e o primeiro ano do próximo governo, cujo presidente será definido em grande parte pelo que acontecerá no próximo ano e meio? Cláudio Porto, economista, diretor da empresa de consultoria Macroplan, especializada em estudos prospectivos, lançou recentemente um livro em que define nosso futuro imediato em quatro cenários possíveis. Com nomes tão sugestivos quanto o otimista cenário 1, "A vitória da persistência", que ainda é o mais provável, até o alarmante cenário 4, "Naufrágio à vista", que por enquanto está descartado.

Na verdade, o que parece mais provável neste momento, esclarece Porto, é uma variante menos otimista do cenário 1, "com manutenção da política econômica, avanços localizados na gestão pública e na agenda microeconômica, e indicadores econômicos e sociais mais modestos". Uma espécie de "entrincheiramento" das forças hoje hegemônicas no PT, define ele.

A lógica do cenário da vitória da persistência "é a combinação de um contexto internacional favorável com a melhoria das condições internas de governança e governabilidade, o que sustentaria a essência da política macroeconômica e o avanço da agenda microeconômica", diz o estudo.

Dessa combinação resultariam "impactos positivos nos indicadores econômicos e a expansão dos investimentos produtivos, levando a uma trajetória de crescimento da economia e do emprego, o que consolidaria uma ampla coalizão governamental e a popularidade do presidente, e melhoria nos indicadores sociais".

Esse cenário otimista, no entanto, ficou contaminado pelo ambiente político dos últimos dias. Uma variante menos otimista dele combina "a manutenção da política econômica com avanços modestos na gestão pública e na agenda microeconômica", resultando em "indicadores econômicos e sociais mais modestos". Nesse caso, alerta Cláudio Porto, "teremos uma eleição bastante equilibrada".

O economista Fábio Giambiaggi, do BNDES, que fez uma análise das alternativas num seminário de lançamento do livro, já acreditou mais no cenário 1, até 2004, "quando achava que o governo teria uma agenda de reformas para 2005 e confiava na repetição do show de bola que deu na área política em 2003". Com a ausência de qualquer agenda e a enorme confusão política dos últimos tempos, "meu otimismo se esvaiu", lamenta Giambiaggi.

Para ele, o cenário de sedução do populismo, "torna-se mais provável, especialmente em 2006, na medida em que o quadro político e as condições de governabilidade vierem a se deteriorar com maior intensidade, e candidaturas oposicionistas se multiplicarem. Seria uma tentativa de desespero", analisa Giambiaggi.

Esse cenário de "sedução do populismo" está ficando mais próximo: prevê a fragilização da base de sustentação parlamentar do governo; persistências das dificuldades gerenciais do governo, especialmente no campo das políticas sociais; o recrudescimento de pressões por mudanças na política macroeconômica, aliada à rejeição de novos aumentos da carga tributária e do gasto público.

Embora nem nos debates nem no livro esteja explicitado, esse cenário de vitória do populismo traz nas entrelinhas um temor de que uma eventual candidatura de Garotinho pelo PMDB possa criar no país um clima que favoreça teses perigosas como o reescalonamento da dívida pública. A possibilidade de um segundo turno entre Lula e Garotinho, por exemplo, poderia levar ao recrudescimento, dentro do PT e da base aliada que chegar à eleição apoiando Lula, da pressão para mudar a política econômica.

Mesmo pessimista, Giambiaggi acha que "evoluímos em relação ao Brasil velho", por isso descarta os extremos e fica entre os cenários 2 e 3 do trabalho. O cenário 3, significativamente chamado de "Navegando na turbulência", prevê uma inflexão no ambiente internacional, com o aumento da aversão ao risco por parte dos investidores externos, redução de liquidez e arrefecimento do crescimento econômico.

O economista Fábio Giambiaggi diz que a frase de James Carville, o marqueteiro do ex-presidente americano Bill Clinton, "é a economia, estúpido", lembrando que o fator determinante em uma eleição é a economia, pode ser adaptado no Brasil de hoje por "é a política, estúpido". Ele ressalta que precisamos de novas reformas e isso requer: a) diagnóstico; b) convicção; c) unidade; e d) articulação.

Para ele, "FHC até 2000 tinha tudo isso, enquanto que o governo atual não tem um diagnóstico claro, a convicção é escassa (vide programa supostamente de apoio ao Palocci do PT, cheio se 'poréns'), a unidade nem vou falar e a articulação, bom... O resultado é que em matéria de reformas estamos em ponto morto".

O cenário 4 é o "Naufrágio à vista", e prevê total desorganização do quadro político e crise sistêmica e de governabilidade, com inflação e desemprego em alta. Embora considere improvável esse cenário, Porto alerta que também era improvável a crise cambial com a intensidade que atravessamos em 1999 e a crise energética em 2001. Para ele, "a existência de grandes incertezas, tanto interna quanto externamente, não nos permite ignorar o que de pior pode acontecer".
Cenários possíveis (2)

Os estudos prospectivos da Macroplan abrangem, além dos cenários internos já analisados na coluna de ontem, também os cenários de longo prazo, que estarão concluídos até dezembro deste ano. Em julho, sairão resultados parciais com antevisões territoriais do Brasil em 2025, indicando estados ou regiões em duas situações extremas: as de maior potencial de dinamismo e as mais deprimidas e problemáticas. Segundo o estudo, a trajetória do Brasil nos próximos 20 anos dependerá da combinação de duas incertezas críticas: como se dará a inserção do Brasil na economia e na sociedade mundiais, e com que extensão e intensidade se dará a inclusão social no país nesse período.

No cenário mais otimista, chamado de "Desenvolvimento integrado", o Brasil alcança níveis altos de desenvolvimento, com uma economia moderna e integrada de forma competitiva no cenário internacional, e forte inclusão social. Nesse caso, o país terá um Estado regulador forte, e com presença ativa nas áreas social, regional e ambiental. Chegará assim em 2025 com altos indicadores sociais e níveis decrescentes de desigualdades. O Chile atual seria um bom "paradigma qualitativo".

De fato, o Chile vem se destacando nos principais rankings internacionais como a mais competitiva economia latino-americana. No estudo do World Economic Forum (WEF), divulgado este ano, aparece em 19 lugar, enquanto o Brasil está em 51 . O Chile é classificado como em vias de entrar para o Primeiro Mundo.

No cenário seguinte, o de "Modernização excludente", o Brasil consolida-se como uma economia moderna, fortemente integrada ao sistema econômico mundial, mas é uma sociedade na qual coexistem altos níveis de pobreza e de riqueza. O país possui um Estado enxuto e concentrado nas funções de regulação, educação, saúde e segurança. O Brasil dos anos 90 seria o paradigma. O cenário C é o do "Crescimento endógeno": uma economia de médio porte, cujo crescimento encontra-se ancorado, sobretudo, no dinamismo do mercado interno e na forte integração regional.

Nesse cenário, o país teria optado por um projeto de desenvolvimento nacional endógeno, com ênfase na melhoria de qualidade de vida e na redução das desigualdades sociais. Priorizando o seu desenvolvimento interno, o Brasil chegaria a 2025 como uma sociedade altamente integrada, com moderadas desigualdades sociais e baixos índices de pobreza. O exemplo seria a Hungria de hoje.

O último cenário é denominado de "Decadência com exclusão", e o paradigma é a Venezuela de Hugo Chávez. O Brasil atravessaria um longo período de baixo dinamismo econômico e de desorganização de suas instituições. O país seria dominado por crises, instabilidade política e fortes incertezas, que acentuariam a vulnerabilidade a restrições externas e dificultariam a modernização produtiva e a inclusão social. Desse modo, o país chegaria a 2025 com uma sociedade dual, que exibiria fortes desigualdades sociais e regionais, e revelaria crescente distanciamento das nações competitivas.

O cenário mais otimista desenhado pela Macroplan coincide com um relatório da consultoria americana Goldman Sachs sobre os quatro países emergentes que ela considera mais prováveis de estarem no topo da economia mundial nos próximos 50 anos: Brasil, Rússia, Índia e China.

Segundo o estudo, em menos de 40 anos os BRICs juntos poderão ser maiores que os países que formam hoje o G-6 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Inglaterra e Itália). Pelo estudo, o Brasil será a quinta economia do mundo, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB). Pela ordem, serão estas as dez maiores economias do mundo: China, Estados Unidos, Índia, Japão, Brasil, Rússia, Inglaterra, Alemanha, França e Itália.

As maiores economias, medidas pelo Produto Interno Bruto ( PIB), podem, no entanto, não ser as mais ricas em termos de renda per capita. Em 2030 — próximo, portanto, ao cenário da consultoria brasileira — o Brasil teria uma renda per capita de 9.800 dólares, assim como a China. Somadas, as economias dos BRICs representam hoje menos de 15% da economia do G-6. Em 25 anos, podem representar já a metade.

O estudo fez uma projeção levando em conta fatores de produtividade, e chegou à conclusão de que Brasil e Índia, devido a problemas como baixo índice educacional e falta de infra-estrutura, crescerão em velocidade menor do que Rússia e China nos próximos 20 anos.

Para chegar a ser a quinta economia do mundo em 2050, o Brasil terá que crescer em média 3,6% nos próximos anos. Se isso ocorrer, vai ultrapassar a Itália já em 2025, a França em 2031 e Inglaterra e Alemanha em 2036. O problema é que nos últimos 50 anos o crescimento médio do Brasil foi de 5,3%, mas caiu nos últimos 20 anos devido à crise da dívida externa. O crescimento médio da última década foi de 2,9%, e nos últimos 20 anos caiu para pouco mais de 2%.

Segundo as projeções da Goldman Sachs, o Brasil deveria crescer de 2005 a 2010 6,3% em média, o que parece estar descartado desde já, pois o crescimento deste ano deverá ser abaixo de 4% e para 2006 a previsão é de que seja menor ainda.

Essa mudança na economia mundial acontecerá mais acentuadamente nos próximos 30 anos. Em 2025, o gasto em dólares dos BRICs poderá ser o dobro do G-6, e quatro vezes maior em 2050. Para que tenhamos essa trajetória, de "desenvolvimento integrado" nos próximos 20 anos, será preciso também que, no curto prazo, prevaleça do cenário de "Vitória da persistência" analisado na coluna de ontem, com contexto externo favorável e, internamente, a manutenção dos pilares da política econômica.


O Globo

O "Sombra" está de volta - caso Celso Daniel

O caso Celso Daniel ganha fôlego com

um novo depoimento que envolve
o empresário amigo do prefeito

Marcelo Carneiro VEJA


Jonne Roriz/AE
Sérgio Gomes da Silva, o "Sombra": propina revelada em dossiê

Entre as muitas perguntas que ficaram no ar no episódio do assassinato de Celso Daniel, em 2002, uma se refere a uma situação ocorrida quando o então prefeito de Santo André ainda estava vivo no cativeiro. Na ocasião, divulgou-se que tanto o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) quanto o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), haviam recebido telefonemas de um homem que se apresentava como um dos seqüestradores do prefeito – e que pedia, em troca da libertação do refém, a transferência de alguns presos de cadeias de São Paulo e do Rio de Janeiro. A negociação não foi adiante, entre outras razões, porque Celso Daniel foi encontrado morto logo após o último telefonema. Nunca se soube quem foi o interlocutor de Suplicy e Alckmin e nem se estaria blefando. No último mês de abril, o Ministério Público ouviu um homem que diz ser o autor desses telefonemas. Em depoimento ao qual VEJA teve acesso, o detento José Márcio Felício – o "Geleião", que foi um dos principais líderes da maior organização criminosa de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC) – afirma ter tentado negociar a libertação do prefeito em troca de benesses para si. No mesmo depoimento, ele faz afirmações que complicam ainda mais a situação do empresário Sérgio Gomes da Silva. O empresário chegou a ficar preso por sete meses, acusado de participação no seqüestro de Celso Daniel, de quem era amigo e homem de confiança. Foi solto em julho do ano passado. No decorrer das investigações, o Ministério Público colheu depoimentos e provas que demonstram a participação de "Sombra", como ficou conhecido o empresário, num esquema de corrupção que beneficiaria não só a ele como também aos cofres do PT. Um dos irmãos de Celso Daniel, o médico João Francisco Daniel, afirmou, em depoimento à Justiça, ter ouvido de Gilberto Carvalho – ex-secretário de governo na gestão do prefeito de Santo André e hoje chefe-de-gabinete do presidente Lula – que o esquema de propinas na prefeitura de Santo André teria arrecadado 1,2 milhão de reais, em espécie. O dinheiro, ainda segundo o testemunho de João Francisco, teria sido entregue por Carvalho ao então deputado federal José Dirceu, hoje ministro-chefe da Casa Civil. Dirceu e Carvalho negam a existência da propina.

Na época da captura do prefeito, Felício cumpria pena na penitenciária de segurança máxima Bangu 1, no Rio de Janeiro. No depoimento dado ao Ministério Público, ele conta que recebeu, pelo celular, o telefonema de um comparsa – espécie de subordinado seu dentro do PCC. O bandido pedia sua autorização para ajudar o seqüestrador Ivan Rodrigues da Silva, o "Monstro" – um dos envolvidos na morte do prefeito e atualmente preso –, a encontrar um cativeiro que abrigaria "um pássaro grande": Celso Daniel. Ao falar diretamente com Ivan, Felício conta ter proposto a ele que mantivesse o prefeito em cativeiro para que ele, Felício, por meio desse trunfo, conseguisse negociar sua transferência de Bangu 1. Ivan, porém, segundo Felício, avisou que não poderia atender o pedido porque o seqüestro havia sido "uma encomenda" e a ordem era "pau no gato". Na gíria da criminalidade, a expressão significa determinação expressa para matar. Ainda segundo o depoimento de Felício, um ano após o seqüestro, ele e Ivan se encontraram em outra penitenciária. Nessa ocasião, o seqüestrador teria revelado a ele o nome do mandante da "encomenda": Sérgio Gomes da Silva. Ivan ainda teria dito que, antes de morrer, Celso Daniel fora torturado para revelar onde havia escondido um dossiê com acusações contra Sérgio Sombra.

A menção a essa documentação fez com que os promotores procurassem a família de Celso Daniel, que já havia dito estar de posse de um dossiê contra Sérgio Sombra, encontrado no apartamento do prefeito depois de sua morte. No início do mês, o dossiê foi entregue ao Ministério Público. Trata-se de um envelope que, tendo como remetente um certo Gilberto, traz documentos obtidos em cartórios listando bens em nome de Sombra e amigos, além de nomes de empresas que, supostamente, pagariam propinas ao grupo. Embora, na opinião dos promotores, esse dossiê não seja aquele mencionado por Felício (teria sido produzido três anos antes da morte do prefeito e não apresenta poder de fogo para amedrontar Sombra ao ponto a que se referiu o bandido Ivan), ele reforça os indícios de que Daniel, havia muito tempo, tinha conhecimento das atividades ilícitas praticadas por seu homem de confiança.

O Ministério Público acredita que Felício fala a verdade – ao menos no que diz respeito ao fato de ter sido o autor dos telefonemas ao senador Suplicy e ao governador Alckmin. Mesmo assim, não se pode esquecer que o ex-líder do PCC é um bandido condenado e, como tal, merece que suas palavras sejam recebidas com o máximo de precaução. Seu depoimento, no entanto, somado à existência do dossiê entregue ao Ministério Público, reforça uma tese há muito defendida pelos investigadores: "Celso Daniel já sabia das acusações a Sérgio Sombra pelo menos desde 1999. Mas só passou a preocupar-se de fato a partir do momento em que se tornou coordenador da campanha presidencial do PT em 2002", afirma o promotor Roberto Wider. "Ao tornar-se uma 'vitrine', Celso Daniel pressionou Sérgio a acabar com o esquema de corrupção dentro da prefeitura, detonando o episódio que culminou com a sua morte."

O depoimento de Felício e o dossiê entregue pela família do prefeito provocaram, na semana passada, a reabertura das investigações sobre o assassinato de Celso Daniel. "Os fatos obrigam a instauração de um novo inquérito", diz o promotor Amaro Thomé. Logo após o assassinato do prefeito, o PT apressou-se em tentar sepultar o episódio, alegando que se tratava de um crime comum – mais um capítulo da violência urbana. Levantar qualquer outra hipótese seria uma vil tentativa de associar o partido a atividades espúrias, defenderam caciques petistas na ocasião. Vê-se agora que o PT pode estar errado. E que o sucesso efêmero de operações do tipo "abafa" não consegue impedir que os esqueletos continuem teimando em sair do armário.

Flávio Grieger/Folha Imagem
O ex-líder do PCC José Felício: tentativa de negociar com o senador Suplicy e o governador Alckmin a libertação do "pássaro grande" em troca de transferência de presídio

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Corrupção:O líder por testemunha


Fernando Bezerra, líder do governo no Congresso,recebeu denúncia de uma licitação nos Correios armada por funcionários ligados ao PT e ao PTB


Felipe Patury e Fábio Portela


Jose Paulo Lacerda/AE
BEZERRA
Seu apadrinhado não pôde ser empossado nos Correios. Motivo: isso prejudicaria um esquema milionário

O senador potiguar Fernando Bezerra, do PTB, é o líder do governo Lula no Congresso Nacional. Há três semanas, ele surpreendeu-se ao ler seu nome na reportagem de VEJA que expôs a corrupção nos Correios. Bezerra aparece como padrinho de Ezequiel Ferreira de Souza, indicado para o cargo de diretor de Tecnologia da empresa. Decidido a provar que nada tem a ver com esse propinoduto, o senador deu um depoimento a VEJA (leia quadro). Nele, Bezerra diz que recebeu uma denúncia de que Ezequiel não foi nomeado para os Correios porque isso atrapalharia uma licitação fraudulenta dirigida por Eduardo Medeiros, atual diretor de Tecnologia da estatal e homem ligado ao PT. O depoimento do senador – líder do governo Lula no Congresso Nacional, enfatize-se – é impressionante. Inclusive porque mostra como são feitas as barganhas entre os partidos para a distribuição de cargos públicos.

Bezerra conta que, há cinco meses, tentou obter uma nomeação de Ezequiel com Silvio Pereira, o Silvinho, secretário-geral do PT, aquele que "uma CPI minimamente competente pegaria", para lembrar as palavras atribuídas ao ministro José Dirceu. Silvinho não tem cargo eletivo, formalmente jamais fez parte do governo, mas por uma dessas misteriosas conveniências petistas foi indicado para negociar com deputados e senadores da base aliada. E o fazia com desenvoltura. Na reunião com Bezerra, Silvinho ficou embaraçado ao saber que o senador ainda não havia conseguido uma boa nomeação para seu apadrinhado, algo que pleiteara antes mesmo de Lula tomar posse. Sugeriu, então, ao senador que tentasse colocá-lo na Diretoria de Tecnologia dos Correios, ocupada por Eduardo Medeiros. O próprio Lula prometeu a Bezerra que faria a mudança, mas Ezequiel bateu na trave. A nomeação empacou quando o senador o apresentou ao ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, que seria seu chefe. O ministro disse que não tinha autorização da Casa Civil para realizar a troca.

EDUARDO MEDEIROS
Carta anônima e vídeo com Maurício Marinho envolvem mais um diretor dos Correios

Dias depois, o senador recebeu uma carta anônima que explicava por que Ezequiel não foi nem seria diretor. A carta dizia que havia uma licitação em curso na Diretoria de Tecnologia dos Correios, no valor de 56 milhões de dólares, para a aquisição de kits de informática que serviriam para expandir o Banco Postal e interligar as agências. Segundo a carta, o diretor de Tecnologia, Eduardo Medeiros, e seu subordinado Edilberto Petry estavam definindo as especificações dos equipamentos sob orientação da Novadata, empresa que pertence a Mauro Dutra, amigo de Lula. Ao entregar a carta a Bezerra, o portador fez questão de afirmar que ela esclarecia o motivo pelo qual Ezequiel não substituiria Medeiros na diretoria dos Correios. Seria muito difícil tirar Medeiros do cargo, disse o portador, porque um lobista influente no Ministério das Comunicações lhe "dá proteção total" – o que também está na carta. De fato, há uma licitação em curso na Diretoria de Tecnologia dos Correios para comprar os tais kits. Seu valor, porém, é menor do que o informado na correspondência anônima. O orçamento inicial para a aquisição dos equipamentos era de 120 milhões de reais, 15% menor do que o que consta na carta. Depois, caiu para 95 milhões de reais.

O funcionário Edilberto Petry (cujo nome está grafado erradamente na carta) é chefe do Departamento de Coordenação de Integração de Projetos. Ele elaborou o edital de licitação, que ainda não foi publicado. Petry informou que o valor do edital caiu de 120 milhões para 95 milhões de reais porque a empresa concluiu que, mesmo depois de escolhido o vencedor da licitação, o antigo valor poderia ser restabelecido por meio de um aditamento. Ou seja, muito perto dos 56 milhões de dólares denunciados pela carta. Petry disse a VEJA que, no ano passado, os Correios enviaram cartas-consulta a nove empresas para fazer uma tomada informal de preços. Procuradas por VEJA, três delas declararam que deixaram de responder à consulta porque simplesmente não vendem os kits de informática. É estranho que os Correios tenham consultado essas empresas. A mancada teria sido fruto de amadorismo ou elas foram chamadas para a licitação apenas para fazer número? Quatro empresas mandaram seus orçamentos. Quem ofereceu o menor preço? Segundo Petry, a Novadata do amigo de Lula. O autor da carta anônima sabia do que estava falando.


Roberto Stuckert Filho/Ag. O Globo
SILVIO PEREIRA
Ele formalmente jamais fez parte do governo, mas era encarregado de negociar cargos com deputados e senadores

As compras dos equipamentos seriam feitas por outra área dos Correios, o Departamento de Contratação e Administração de Material, chefiado pelo tagarela Maurício Marinho, estrela do vídeo divulgado por VEJA. Marinho não pertence à Diretoria de Tecnologia. Seu chefe é o diretor de Administração, Antonio Osório Batista, do PTB. Mas uma das funções de Marinho era negociar as licitações com Eduardo Medeiros – nesse momento, ao que tudo indica, era que PTB e PT usavam o mesmo CEP. Pelo vídeo, fica claro que Marinho acompanhava cada passo do que acontecia na Diretoria de Tecnologia. Ele faz um relato detalhado do que ocorreu em outra licitação, concluída em setembro do ano passado. O caso é semelhante ao denunciado na carta anônima. Na operação descrita por Marinho, e registrada no vídeo, a Diretoria de Tecnologia decidiu comprar kits de informática para aparelhar a sede dos Correios em Brasília. Marinho afirma que essa concorrência estava dirigida para que a Novadata, sempre ela, ganhasse. "Eles se acertaram com a Tecnologia", diz a seus interlocutores. A Novadata realmente ganhou um dos quatro lotes da concorrência – só não levou todos, segundo o relato, por excesso de ganância. A assessoria de imprensa da empresa de informática afirma que Marinho mentiu na gravação.

Não se pode garantir que a Novadata também venceria na licitação para o Banco Postal e a interligação das agências dos Correios. Afinal de contas, o edital da concorrência ainda não foi publicado. Mas é curioso que na semana passada, em meio à confusão que precedeu a instalação da CPI, Eduardo Medeiros tenha pedido aos departamentos jurídico e de auditoria dos Correios que liberassem o texto do edital para publicação no Diário Oficial. Chegou mesmo a pedir que fossem agilizadas certas etapas formais, para que a licitação saísse com maior rapidez. Por que a pressa, não se sabe. Medeiros se recusou a explicar a VEJA. O processo parou na terça-feira, porque a Controladoria-Geral da União solicitou toda a papelada para uma auditoria. Técnicos dos Correios dizem que investigar uma licitação antes que ela seja concluída é uma atitude, no mínimo, atípica. Os corregedores só se debruçam sobre concorrências quando elas já foram concluídas. Desta vez, encontraram motivos para abrir uma exceção.

 

O depoimento

Em depoimento a VEJA, o senador Fernando Bezerra, do PTB, líder do governo no Congresso, conta como não conseguiu nomear Ezequiel Ferreira de Souza, seu afilhado político, para a Diretoria de Tecnologia dos Correios. A única pista de que o senador dispõe até o momento para justificar o fato é uma nota apócrifa que denuncia uma licitação fraudulenta nos Correios, para a qual seria vital a manutenção do atual diretor de Tecnologia, Eduardo Medeiros, indicado pelo PT, mas formalmente apadrinhado pelo PL. VEJA apurou que Medeiros negociava um edital de licitação com Maurício Marinho, o funcionário flagrado em vídeo recebendo propina. O depoimento de Bezerra também é didático porque mostra como os cargos públicos são loteados no governo petista.

"A nomeação de Ezequiel Ferreira de Souza se arrasta desde o início do governo Lula. Ele é meu conterrâneo, pai de um deputado estadual do PTB e primo do deputado federal Iberê Ferreira. Tinha sido do PSDB e foi diretor da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) no governo Fernando Henrique por indicação do (ex-senador) Geraldo Melo. Depois da vitória do Lula, conversei com o (deputado) Roberto Jefferson e com o José Carlos Martinez. Eles queriam saber qual era a participação no governo que eu pretendia. Eu queria indicar o Ezequiel para a diretoria do Banco do Nordeste. Afinal, o Rio Grande do Norte sempre havia tido uma diretoria no banco. (O secretário-geral do PT) Silvio Pereira me disse que o lugar dele havia sido ocupado pelo (ex-governador da Paraíba) Antonio Roberto Paulino, indicado pelo senador José Maranhão. Como o (ministro Antonio) Palocci queria dar um caráter mais técnico à diretoria, não havia sobrado nenhuma vaga para o Ezequiel. Ele ficaria, então, numa assessoria da presidência do banco, com status e salário de diretor. O Ezequiel não teve nada disso, mas eu não quis criar caso.

No início do ano, estive com o Silvio Pereira. Eu disse a ele que o governo tinha um compromisso comigo que não havia sido cumprido. Silvio respondeu que havia uma diretoria dele nos Correios, a de Tecnologia, e que poderia colocar o Ezequiel lá. Perguntei ao Ezequiel se ele queria morar em Brasília e ele disse que sim. Daí em diante, o Roberto Jefferson ficou de encaminhar o assunto. Há quatro semanas, recebi um telefonema do (ministro do Turismo, Walfrido) Mares Guia dizendo para apresentar o Ezequiel ao (ministro das Comunicações) Eunício (Oliveira). Fomos lá, o Ezequiel, o deputado Iberê e eu. Fiquei surpreso quando a conversa começou. Eunício disse que não poderia nomeá-lo naquele momento e que precisaria de mais uma semana ou uma semana e meia. A justificativa de Eunício é que não ficava bem para ele nomear o Ezequiel sem resolver as questões de nomeação nos Correios do PMDB. Eunício começou então a questionar o espaço que havia sido prometido ao Ezequiel. Eu disse a ele que esse cargo, a Diretoria de Tecnologia, havia sido prometido ao Ezequiel pelo presidente Lula na frente do Roberto Jefferson e do (deputado Luiz Antonio) Fleury. O cargo prometido ao Ezequiel era do PT. O PMDB não tinha nada a ver com isso.

Saí de lá e liguei para o (ministro da Casa Civil) José Dirceu. Ele me disse que a nomeação era uma ordem do presidente e que ela iria sair. Eunício nem sequer me ligou de volta para dizer alguma coisa. Foi então que minha secretária recebeu uma nota apócrifa citando um tal de Edilberto Petry, que seria assessor do (diretor de Tecnologia dos Correios) Eduardo Medeiros, e que falava também num lobista chamado Avelino. A nota dizia que a nomeação não sairia porque havia uma licitação no valor de 56 milhões de dólares. A carta dizia também que a licitação tinha um sobrepreço de 20%. Procurei o José Dirceu e perguntei se havia alguma coisa contra o Ezequiel. Se houvesse, eu retiraria a indicação. Se não, que arrumassem um cargo para ele, porque essa situação me deixou mal. Depois disso, no fim de um jantar na casa do senador Luiz Otavio, o Eunício me disse: 'Procure ver as verdadeiras razões para o veto ao Ezequiel na Casa Civil'. No dia seguinte, liguei de novo para o José Dirceu. Quando ele me retornou, não dava para falar. Depois, o (líder do governo no Senado) Aloizio Mercadante me procurou e me pediu para não assinar a CPI. Disse a ele que já tinha assinado o requerimento e não ia retirar a assinatura, porque quero que seja apurado se há alguma coisa contra o meu indicado. Quero fazer parte da CPI e não quero mais nenhum cargo nos Correios."

O devoto de Darwin

VEJA Entrevista: Richard Dawkins

O zoólogo britânico diz que a teoria
da evolução contém uma verdade
universal e que há beleza no modo
como a ciência explica a vida


Jerônimo Teixeira

No início do ano, o zoólogo britânico Richard Dawkins, de 64 anos, visitou o arquipélago equatoriano de Galápagos, no Oceano Pacífico. Estava seguindo os passos da excursão científica realizada em 1835 por seu herói intelectual – o naturalista inglês Charles Darwin, autor de A Origem das Espécies, obra que se tornou a base da biologia moderna ao lançar, em 1859, a idéia de que a vida evoluía por meio da seleção natural. Autor de verdadeiros clássicos da divulgação científica como O Gene Egoísta e O Relojoeiro Cego, Dawkins é – ao lado do paleontólogo americano Stephen Jay Gould, que morreu de câncer em 2002 – um dos maiores propagandistas do darwinismo. Seu novo livro, O Capelão do Diabo, que está sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é uma coletânea de ensaios que dá uma boa amostra de sua paixão pela ciência – e de sua oposição à religião, tema de uma das seções mais incendiárias do livro. Por telefone, de seu escritório na Universidade de Oxford, onde leciona, o zoólogo concedeu a seguinte entrevista a VEJA.  

Veja – Passados quase 150 anos desde a publicação de A Origem das Espécies, qual a força do pensamento de Charles Darwin?
Dawkins – A conquista de Darwin é universal e atemporal. Os processos evolutivos descritos por ele devem acontecer em qualquer lugar do universo onde porventura exista vida. Em um dos ensaios de O Capelão do Diabo, afirmo que um visitante extraterrestre certamente teria mais interesse em discutir as idéias de Darwin do que as de pensadores como Freud ou Marx – a quem ele já foi comparado –, cujo trabalho é de interesse mais limitado, paroquial, "terreno". Quando releio Darwin, sempre me surpreendo com quão moderno ele soa. Considerando que suas concepções de genética estavam erradas, é impressionante como ele conseguiu acertar em todo o resto. Com um princípio básico, a seleção natural, o darwinismo é capaz de explicar uma enorme variedade de fenômenos complexos. É uma teoria muito elegante.  

Veja – Pode-se dizer que o darwinismo é hoje uma teoria bem compreendida e assimilada?
Dawkins – Infelizmente, não. As pessoas pensam que o darwinismo é uma teoria do acaso, quando é na verdade a teoria que nos permite escapar ao acaso na biologia. Darwin não diz que organismos tão formidavelmente complexos quanto aqueles que vemos sobre a Terra surgiram de maneira fortuita. A seleção natural não opera cegamente: de geração em geração, ela preserva os genes que trazem vantagens e elimina aqueles que trazem desvantagens aos organismos. É assim, dessa forma gradual, que a evolução acontece. Muitos argumentam que a beleza e a complexidade da vida só podem significar que por trás dela há um projeto deliberado, um "desenho inteligente" feito por Deus. Não é assim: a alternativa para o acaso não é um "projeto", mas a seleção natural.  

Veja – Hoje há um embate entre evolucionistas como o senhor e os criacionistas. Por que o senhor considera inaceitável a idéia de que a vida foi criada por Deus?
Dawkins – Postular a existência de um Deus que criou a vida é o tipo de idéia que só complica as coisas. É um raciocínio contraprodutivo, pois traz a necessidade adicional de explicar a existência desse ser. A partir de elementos muito simples, a seleção natural mostra como e por que a natureza abriga a imensa complexidade, a imensa variedade dos seres vivos existentes. Esse é o poder desse conceito. Com ou sem um ser divino no início de tudo, a seleção natural ainda teria a mesma capacidade de explicar o funcionamento da natureza.  

Veja – Por que o senhor chama a religião de "vírus da mente"?
Dawkins – Isso está relacionado à idéia de meme, que lancei em 1976 no meu livro O Gene Egoísta. Cunhei o termo – que já foi incorporado pelo dicionário Oxford – em analogia com gene. Assim como os genes são unidades auto-replicadoras que passam de uma geração a outra, também os memes seriam capazes de replicar a si mesmos e passar de uma mente para a outra. Esse conceito é útil se explica por que uma idéia em particular se disseminou. Um meme pode ser uma idéia científica, uma melodia, um poema, e nesse caso ele se dissemina por seus méritos. A religião seria um memeplexo, isto é, um conjunto de memes que costumam florescer na presença uns dos outros, tal como acontece com certos complexos de genes. Mas, ao contrário dos bons memes, a religião não se dissemina porque é útil. Ela salta de uma mente para outra como uma infecção, ou como um vírus de computador, que só se propaga porque traz embutida uma instrução codificada: "Espalhe-me".  

Veja – O senhor já observou que a ciência pode ser "religiosa, no sentido não sobrenatural da palavra". Poderia explicar essa expressão?
Dawkins – Eu não estava falando da religião que acredita em um Deus que ouve nossas preces. Einstein considerava-se religioso, embora não acreditasse em nenhum plano sobrenatural. Ele só usava a palavra "religião" para definir seu sentimento de espanto e mistério diante do universo. Eu empreguei a palavra no mesmo sentido em um ensaio, mas isso talvez não seja recomendável. Há muita gente ansiosa por deturpar formulações como essa. Muitos gostariam de trazer pessoas como Einstein para o bloco dos crentes, ao qual ele certamente não pertencia.  

Veja – Um cientista não pode ser religioso?
Dawkins – Pode, e muitos cientistas são. Mas eu não consigo entender suas razões. Talvez seja um tipo de cérebro repartido: eles mantêm suas crenças religiosas em um nicho, e a ciência em outro. Tenho dificuldade em simpatizar com isso. Se eu mantivesse crenças contraditórias, tentaria refletir sobre o tema até me decidir por um lado ou outro.  

Veja – O senhor afirma que evolucionistas não deveriam participar de debates públicos com partidários do criacionismo. Por quê?
Dawkins – Essa é uma proposta minha e do paleontologista americano Stephen Jay Gould. Pretendíamos escrever um texto conjunto sobre o tema, mas Gould morreu antes de revisar o esboço que apresentei a ele. Os criacionistas buscam esse debate para conquistar um verniz de respeitabilidade intelectual. Eles não têm esperança de "vencer" a discussão: querem apenas ser reconhecidos no mesmo palanque ocupado por um cientista de verdade. Por isso devemos evitar esses encontros.  

Veja – Essa recusa não passaria a idéia de que os darwinistas são arrogantes ou temem o debate?
Dawkins – Talvez sim. É muito difícil lidar com esse problema. Gould e eu podemos estar errados, mas essa é a posição que tomamos, e, no momento, eu ainda a sustento. Talvez, para evitar o perigo de conferir status demais ao criacionismo, o ideal seria que apenas estudantes de pós-graduação ou mesmo de graduação participassem desse tipo de debate. Eles estariam tão capacitados quanto eu para refutar os criacionistas, cuja argumentação não é tão refinada assim.

Veja – A espécie humana não teria uma necessidade natural de religião?
Dawkins – Não creio que seja uma necessidade universal. Se a demanda é por reverência e espanto diante da vida e do universo, a ciência pode satisfazê-la. Se a demanda é por conforto diante da morte, então talvez a ciência não possa satisfazê-la. Seja como for, reconhecer que existam necessidades pessoais ou coletivas atendidas pela religião não equivale a dizer, de maneira nenhuma, que exista verdade nas concepções religiosas.  

Veja – O senhor acredita que algum dia a humanidade possa viver sem religião?
Dawkins – Não por um longo tempo. E eu jamais proporia qualquer forma de proibição à atividade religiosa. A resposta está na atividade à qual me dedico: a educação. Quanto mais educação houver, mais teremos discussões racionais e pensamento inteligente, e mais difícil será para a religião sobreviver.  

Veja – Há beleza na ciência?
Dawkins – A verdade é bela em si mesma. E existe uma elegância própria do conhecimento. Einstein comovia-se com a beleza das equações. Além disso, os fenômenos que biólogos ou astrônomos estudam – árvores, pássaros, estrelas – são belos em si mesmos. Lidar com eles é lidar com o belo.

Veja – Quando se discute bioética, a questão da clonagem humana é sempre levantada. Seria mesmo o problema mais importante hoje?
Dawkins – Não, não é um problema tão importante. As pessoas se opõem a essa idéia por razões variadas. Todas as tecnologias reprodutivas envolvem a morte de embriões, e há um preconceito religioso contra isso. Há quem reaja com nojo diante da idéia de clonagem humana. Imaginam, digamos, centenas de Saddam Hussein marchando no mesmo passo, o que de fato é uma perspectiva aterrorizante. Mas ela está calcada em idéias falsas como, por exemplo, a de que um clone não teria personalidade individual. Geneticamente, gêmeos idênticos são clones um do outro – e têm, como bem sabemos, personalidades independentes. Há muita mistificação sobre esse tema.  

Veja – O senhor acredita que esse tipo de clonagem vá ocorrer?
Dawkins – Não com a tecnologia que temos hoje, que produziu a ovelha Dolly, um único clone, ao custo de muitos embriões perdidos. De qualquer forma, a criação de um clone humano nunca foi proposta seriamente. Propõe-se, isso sim, a clonagem de células-tronco, para propósitos médicos. As únicas objeções a isso, repito, têm motivação religiosa, e são estúpidas.  

Veja – Devem-se impor limites ao conhecimento científico?
Dawkins – Questões sobre o que é certo ou errado não comportam verdades absolutas. São matéria de julgamento e ponderação. A ciência não pode decidir sobre esses problemas – pode apenas demonstrar incoerências nas posições que tomamos. A decisão, por exemplo, de proibir ou não o desenvolvimento de armas biológicas não é um problema científico. É algo que tem de ser discutido pela sociedade em geral – políticos, juristas, cidadãos.  

Veja – O senhor já demonstrou entusiasmo pela idéia de que um dia talvez seja possível reconstituir geneticamente o elo perdido entre o ser humano e os outros primatas. Como seria isso?
Dawkins – O geneticista sul-africano Sydney Brenner propôs que um dia talvez possamos, a partir do genoma do homem e do chimpanzé, fazer uma projeção retrospectiva até nossos antepassados. Uma espécie de "média" entre os dois genomas seria próxima do ancestral comum de homens e chimpanzés, que viveu em torno de 6 milhões de anos atrás. Com esse código genético em mãos, talvez a tecnologia embriológica do futuro seja capaz de criar esse ser vivo, um espécime do nosso antepassado comum, o elo perdido. Teríamos vivo, respirando na nossa frente, um ser que é intermediário entre o homem e outra espécie animal. Um experimento desse tipo seria um duro golpe contra a arrogância humana. Isso poderia mudar o antropocentrismo da nossa ética e da nossa moral. Hoje, todos os intermediários estão extintos, o que fomenta a idéia falsa de que ocupamos um espaço à parte na natureza. A biologia atual não vê o homem como o pináculo da evolução. O darwinismo não faz valorações desse tipo. Quando um darwinista fala em um animal "melhor" quer dizer apenas melhor em reproduzir-se, em passar adiante sua carga de genes.  

Veja – O senhor tem escrito muitos artigos criticando o presidente americano George W. Bush. Faz isso como cientista ou como cidadão?
Dawkins – Existem cientistas cujo interesse em política é tão dominante que acaba colorindo suas pesquisas, inclusive as mais técnicas. Creio que esse tipo de mistura não é aconselhável. Digamos que me pronuncio como um cidadão com um nível elevado de conhecimento científico. Bush não tem nenhum interesse em ciência, a não ser na medida em que ela possa ser usada para fins militares, e é uma ameaça ao meio ambiente, pela recusa em assinar o Protocolo de Kioto. O mundo seria um lugar melhor sem ele.  

Veja – O senhor recentemente esteve em Galápagos, onde Darwin fez muitas observações que embasaram sua teoria. Ainda é um local privilegiado para observar a evolução?
Dawkins – Sim. As ilhas são muito novas, têm só 3 ou 4 milhões de anos, e nesse tempo limitado houve nelas uma diversificação de espécies fabulosa. É impressionante como os animais lá são pouco ariscos. Talvez porque tenha havido muito pouca predação, você pode caminhar até muito próximo deles. E eles não fogem. É como estar em um imenso zoológico a céu aberto, sem jaulas. Muito pouco mudou desde a época em que o jovem Darwin esteve lá, em 1835, perguntando-se exatamente sobre o "mistério dos mistérios" que era o surgimento de novas espécies. Embora o triunfo de Darwin pudesse ter sido gestado em qualquer lugar do universo, ele foi fruto de uma viagem de cinco anos ao redor do planeta, na qual Galápagos foi uma das escalas mais importantes.

Roberto Pompeu de Toledo:Se não é enrascada,é bicicleta ergométrica


São esses os dois desfechos possíveis
do esforço brasileiro para ganhar vaga
vitalícia
no Conselho de Segurança

...E vamos nós, outra vez. Na semana passada, em sua enésima viagem ao exterior, lá estava o presidente Lula, pela enésima vez, a angariar apoios para a candidatura brasileira a membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Na Coréia do Sul o pedido foi explícito. No Japão não precisou, já que esse país, também ele candidato a uma vaga vitalícia num Conselho de Segurança ampliado, é sócio na empreitada. Ao mesmo tempo, o Itamaraty montava uma blitz de visitas de seus diplomatas a sessenta países, em poucas semanas – do Butão a Papua Nova Guiné, de Tonga a Vanuatu – para cabalar votos. O país comportava-se como candidato à Academia Brasileira de Letras na vertigem das visitas aos eleitores. Disso tudo podem resultar dois desfechos. Um, improvável, é que dê certo – e então o país se verá numa enrascada. Outro é que dê errado – e então se terá assistido ao mais intenso exercício de bicicleta ergométrica já empreendido por nossa diplomacia, do tipo em que se pedala, pedala, sua, sua, e no fim não se saiu do lugar. Examinemos os dois cenários, a começar pelo segundo.

Não é bem a candidatura brasileira que pode dar errado. Ou melhor, ela também pode dar errado, mas antes disso há a forte possibilidade de a própria reforma do Conselho de Segurança dar errado. Há demasiados desencontros a atrapalhá-la. O Brasil, junto com Japão, Alemanha e Índia, formalizou neste mês, num documento, a proposta de ampliar o conselho, dos quinze membros atuais para 25, sendo que os membros permanentes passariam de cinco (Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra e China) para onze, e os rotativos de dez para catorze. O documento não diz, mas é manifesto que os signatários pleiteiam quatro das novas vagas permanentes, e aí começa o problema. A China opõe-se à candidatura do Japão, dois rivais históricos, assim como o Paquistão se opõe à da Índia, dois inimigos montados ambos sobre arsenais nucleares. Nem precisaria continuar a enumeração e dizer que a Itália se opõe à candidatura alemã e que a Argentina (mais) e o México (um pouco menos) se opõem à brasileira. Bastam aqueles dois confrontos, explosivos, para jogar a questão no impasse. Não é plausível, nem seria sábio, que tais questões sejam resolvidas no voto da Assembléia-Geral, com o resultado de China ou Japão, Paquistão ou Índia saírem feridos do embate. Mais admissível é a hipótese de que, para não chegar a tanto, a reforma permaneça bloqueada.

Atrapalha a reforma, além disso, a ilusão em que se assenta. Seus propugnadores, a começar pelo secretário-geral, Kofi Annan, mostram-se cheios de boas intenções. O objetivo seria tornar o Conselho de Segurança mais efetivo e consentâneo com a realidade do mundo atual. Ocorre que a realidade do mundo atual é a avassaladora preponderância dos Estados Unidos nas relações internacionais. Se o conselho não tem sido efetivo, em seu objetivo de preservar a paz e a segurança no planeta, isso não se dá por um defeito intrínseco seu. Quando esses objetivos são do interesse dos EUA acontecem, e quando não são não acontecem. Se os EUA querem invadir o Iraque, ninguém vai impedi-los. Os EUA mantêm-se quietos, por enquanto, quanto à reforma, porque seu dilema com a ONU é outro. Ou ela se põe a reboque de seus interesses, e terá todo o apoio, ou se mantém contra, e continuará merecendo seu mais profundo desprezo. O governo Bush chegou ao escárnio com a indicação, para embaixador na organização, de John Bolton, um falcão para o qual, se o prédio da ONU em Nova York perdesse dez andares, "não faria a menor diferença".

Vá que esses e outros óbices sejam superados, a reforma seja feita e o Brasil se eleja membro permanente do conselho. E daí? Para que mesmo é que queremos tal posto? Fora invocações de "liderança regional", "peso específico" e semelhantes lucubrações, isso nunca foi posto claramente. Assim como o Fome Zero ou a transposição do São Francisco, Lula abraça a causa porque fareja nela um bom rendimento, em termos de marketing. Vai daí que a conduza num clima de Copa do Mundo e de Brasil Grande. O que se pode vislumbrar de concreto, em caso de vitória da pretensão brasileira, porém, não é animador. Para começar, o país teria de passar de devedor crônico de suas contribuições à ONU para sócio com maiores encargos financeiros ainda. Também teria de explicitar sua posição sobre os mais variados conflitos no mundo, do árabe-israelense à guerra civil no Sudão, e manter uma tropa bem treinada e equipada – logo o Brasil, que mal-e-mal sustenta suas Forças Armadas – para as missões de paz. Mas isso não é o principal. Posto lado a lado com o colosso americano, no mesmo foro, ao concordar com ele o país arrisca fazer papel de cão fiel, como aliás já faz no Haiti, e ao discordar arrisca criar fissuras que podem lhe custar caro. Bem pesadas as coisas, o mais desejável é que a lengalenga em torno de um assento no Conselho de Segurança não resulte mesmo senão num exercício de bicicleta ergométrica.
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Tales Alvarenga:O show dos animais


"O ministro Aldo Rebelo chegou a afirmar
que há forças querendo desestabilizar
o governo – as mesmas que tentaram
derrubar Floriano Peixoto, Getúlio Vargas,
Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros
e João Goulart"

Tucanos e petistas precisam se acalmar. Os dois únicos partidos brasileiros que pareciam merecer respeito, num mundo de siglas sem caráter, estão decepcionando. O tucanato informa que o PT está encaminhando o país na direção de uma crise institucional. O PT responde salivando que estão tentando criar uma crise artificial para desestabilizar o governo. A crise não é artificial. O PT e seus aliados se afundam em suspeitas de corrupção. Mas o tom da disputa se exacerbou de tal forma que está na hora de pedir mais moderação e maturidade aos dois adversários.

Este não é um bom momento para Lula e seus comandados. É muito difícil reagir em situações assim, mas o PT escolheu o pior caminho. Exibe uma histeria que não se poderia suspeitar fosse uma característica presente entre seus principais líderes. O ministro Aldo Rebelo, da Coordenação Política, chegou a afirmar que há forças querendo desestabilizar o governo Lula – as mesmas que tentaram derrubar Floriano Peixoto, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. O delírio é um direito universal, mas não se espera vê-lo em homens que estão no comando da nação.

Desse clima de desespero salva-se Lula, mas não se coloca em situação de grande vantagem. Consegue disfarçar o nervosismo à custa de sarcasmo, o que não fica bem num presidente da República. Anunciada a tentativa de criar uma CPI para apurar a roubalheira do PTB nos Correios, os petistas se alvoroçaram, com medo de receber respingos na investigação sobre seus aliados. Nesse momento, perguntaram ao presidente Lula como ele encara a CPI e sua resposta é um clássico do cinismo brasiliense. "Olha só para a minha cara", disse o presidente. "Vê se estou preocupado com isso." O Palácio do Planalto não está preocupado apenas. Está desesperado. O caso dos Correios veio logo depois das acusações contra o ministro Romero Jucá, da Previdência, e das investigações contra Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. E, depois dos Correios, seguiu-se outra bomba no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).

"Eles estão sem rumo, rodando como peru bêbado em dia de Natal", comentou aquele que é tido como um exemplo de elegância, Fernando Henrique Cardoso. FHC chamou ainda os corruptos deste momento de cupins, que estão espalhados por toda parte. E encerrou sua exploração teórica da fauna nativa com esta estocada de gosto rural: "O PT cacareja sem parar e não estou vendo nenhum ovo". Genoino foi para a tréplica. "Eles atacam com a tática do gambá. Espalham o mau cheiro e todos parecem feder."

Na última edição de VEJA, havia na capa um rato como representação dos corruptos brasileiros. Era um rato genérico, por assim dizer, incorporando em seu simbolismo todos os corruptos nacionais. O tesoureiro petista Delúbio Soares entendeu de modo diferente, conforme ele próprio explicou em declaração a um jornal. "Considero uma tentativa de associar minha imagem a um animal (o rato) de que não gosto muito, embora ele exista", afirmou Delúbio. Peru bêbado, galinha, gambá, cupim e rato! Vamos esperar que daqui para a frente essa gente passe a debater coisas mais elevadas. Talvez falando de aves.
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André Petry:É a cara do Brasil


"Marinho é aquele que foi filmado
embolsando uma propinazinha de
3.000 reais – dava para comprar
125 vidros de xampu
e condicionador
iguais aos que Maria tentou furtar"

A empregada doméstica Maria Aparecida de Matos tem 24 anos, dois filhos pequenos e acaba de deixar a prisão, onde passou um ano e sete dias. Ela foi presa em flagrante quando tentava furtar um xampu e um condicionador numa farmácia, em São Paulo. Os produtos custavam 24 reais.

(Enquanto isso... Na época em que Maria tentava furtar cosméticos, o ex-governador de Roraima Neudo Campos foi pego no caso dos gafanhotos, que desviou uns 300 milhões de reais da folha salarial do estado. Campos foi preso, mas ficou só dez dias no xilindró. Solto em 6 de dezembro de 2003, está livre desde então. Livre, leve e solto. E rico.)

Maria é analfabeta, só sabe desenhar o nome. Nunca teve dinheiro para pagar advogado. Depois de presa, foi atendida pela assistência jurídica gratuita e pela advogada Sônia Regina Arrojo e Drigo, que se revoltou com o absurdo da situação. O primeiro recurso chegou à 2ª Vara Criminal. Solicitava que Maria aguardasse o julgamento em liberdade. A Justiça achou que ela tinha de ficar presa. Ficou.

(Enquanto isso... Jader Barbalho foi acusado de chefiar a máfia da Sudam, que patrocinou roubalheiras de 1,7 bilhão de reais. Foi preso em fevereiro de 2002. Ficou onze horas atrás das grades. Está livre desde então. Hoje é deputado federal pelo Pará. E muito rico.)

Inconformada com a decisão da 2ª Vara Criminal, a defesa de Maria foi à mais alta instância da Justiça paulista, o Tribunal de Justiça. Voltou a pedir que Maria aguardasse o julgamento em liberdade, mas, nesse meio-tempo, aconteceu o julgamento. E Maria foi condenada a um ano de detenção num manicômio penitenciário. Tinha de ficar presa. Ficou.

(Enquanto isso... A máfia dos vampiros, que assaltava o Ministério da Saúde havia treze anos, foi estourada em maio de 2004. A polícia capturou dezessete integrantes do esquema, suspeito de desviar até 2 bilhões de reais. Hoje os dezessete estão soltos. O líder das roubalheiras, Lourenço Peixoto, ficou só 104 dias na cadeia.)

Finalmente, a defesa de Maria recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, em Brasília. O recurso não negava o furto, apenas pedia que Maria fosse libertada devido à insignificância do crime, princípio que já tem jurisprudência formada. Um ministro do STJ, Paulo Gallotti, entendeu a inacreditável injustiça que se fazia contra Maria e mandou libertá-la. Depois de um ano e sete dias na cadeia, Maria foi solta na terça-feira passada.

(Enquanto isso... Na mesma terça-feira, o corrupto dos Correios, Maurício Marinho, depôs na polícia. Marinho é aquele que foi filmado embolsando uma propinazinha de 3.000 reais – dava para comprar 125 vidros de xampu e condicionador iguais aos que Maria tentou furtar. Marinho foi indiciado, mas está livre. Saiu do depoimento na polícia e fez um lanche no McDonald's.)

Na prisão, Maria foi torturada. Perdeu a visão do olho direito. Era vaidosa e, segundo o repórter Gilmar Penteado, da Folha de S.Paulo, que a entrevistou, tenta esconder o defeito no rosto quando conversa com alguém. Na terça-feira, quando lhe deram a notícia de que finalmente seria libertada, Maria não acreditou. Achou que fosse brincadeira. "Pensei que jamais iria sair de lá", disse ela.

É a cara do Brasil.
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Diogo Mainardi:Sou um Maurício Marinho

"Brasileiro compra livro até demais.Quando não compra na livraria, compracom o pagamento de impostos. Não adiantaboicotar Renato Janine Ribeiro. Não adiantaespernear contra Diogo Mainardi. Querendo ou não,seu dinheiro será desviado para o nosso bolso"

Dizem que o brasileiro não compra livros. Compra, sim. Compra até demais. Quando não compra na livraria, compra com o pagamento de impostos. Não adianta biocotar Renato Janine Ribeiro. Não adianta repudiar Maria Victoria Benevides. Não adianta espernear contra Diogo Mainardi. Querendo ou não querendo, seu dinheiro será desviado para o nosso bolso. Somos iguais aos petebistas dos Correios. Somos os Maurício Marinho das letras.

Lula é iletrado, mas sabe perfeitamente como lidar conosco. Quem mexe com livros, no Brasil, se considera um benfeitor. Acha que a sociedade tem a obrigação de recompensá-lo por seu altruísmo, com uma modesta contribuição em dinheiro. É o que faz o governo. Na Bienal do Rio de Janeiro, o Ministério da Cultura e o BNDES apresentaram o ProLivro, um programa de financiamento público que garante crédito barato para editoras, livrarias e, melhor ainda, adiantamentos para escritores. Não são só os usineiros pernambucanos que contam com a liberalidade do BNDES. Nós, escritores, também contamos.

O próprio BNDES, algumas semanas atrás, publicou um documento sobre a economia do livro no Brasil. O Estado é responsável pela compra de quase metade dos exemplares produzidos no país. Os técnicos do BNDES recomendam comprar muito mais. Claro que o único lesado nessa história é o contribuinte. O Estado é mau comprador. Só para dar um exemplo, outro dia o BNDES comprou algumas cópias do Dicionário Aurélio, na versão para computador. Cada uma custou 643 reais. O mesmo produto pode ser encontrado no mercado por 154,80 reais.

A política do governo federal para o setor livreiro está a cargo de Galeno Amorim, coordenador do Programa Nacional do Livro e Leitura. Ele prometeu abrir 1.000 novas bibliotecas nos próximos anos e aumentar em 50% o índice de leitura do brasileiro, graças a uma martelante campanha publicitária. Amorim foi secretário da Cultura de Ribeirão Preto quando o prefeito era Antonio Palocci. Recentemente, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo denunciou Palocci por favorecimento à editora de Amorim, a Palavra Mágica, condenando-o à devolução de 2,6 milhões de reais aos cofres públicos.

O Tribunal de Contas do estado deu outro aborrecimento a Palocci, duas semanas atrás. Reprovou o contrato que ele fez para reformar o centro de Ribeirão Preto na época em que era o prefeito da cidade. O grande projeto palocciano previa uma avenida elevada, um lago artificial e uma ponte suspensa, réplica da Golden Gate, de São Francisco. A obra não foi realizada. Mesmo assim, custou 4 681 763,90 reais à prefeitura. A empresa contratada irregularmente para tocar o projeto foi a Coderp. O superintendente da Coderp era Juscelino Dourado, atual chefe-de-gabinete de Palocci no Ministério da Fazenda. Dourado é afilhado de casamento de Rogério Buratti, secretário de Governo de Ribeirão Preto no primeiro mandato de Palocci e achacador da Gtech no caso Waldomiro Diniz.

Eu sou um Maurício Marinho. Mas não sou o único.

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