O Estado de S.Paulo
O tema volta a frequentar a mesa da polêmica: está em marcha um processo de mexicanização da política nacional? Uma eventual vitória da candidata governista em outubro aproximaria o Brasil da experiência que o México viveu do final dos anos 1920 ao final dos anos 1990, quando o PRI dominava o Estado e a sociedade? Por mais que se enxerguem motivos para acreditar nesse risco - aparelhamento intenso da estrutura do Estado, controle de máquinas sindicais e de movimentos sociais, esvaziamento de funções de órgãos de fiscalização -, há uma razão maior que derruba qualquer hipótese de "ditadura" do partido único: é o caráter multifacetado e polimorfo de nossa cultura política, que rejeita a ideia do poder exercido por um exclusivo protagonista. As possibilidades - reais - de controle total do Senado e da Câmara pelo Executivo, avocadas como sinais preocupantes por analistas da política, não são novidade no registro das relações entre os Poderes. Tem sido essa a rotina.
Basta lembrar o governo FHC, que contou com sólida maioria parlamentar para aprovar a emenda constitucional que permitiu a reeleição, barrou a abertura de CPI para apurar compra de votos, aprovou a quebra de monopólios estatais nas áreas de comunicação e petróleo, garantindo, enfim, o programa de estabilidade que marcou sua gestão. No ciclo da redemocratização, apenas Fernando Collor, por inabilidade, foi escorchado por um Congresso que acabou por afastá-lo do cargo. Até o governo Sarney, sufocado por uma inflação que subia às alturas, arrebanhou apoios necessários para abrigar pacotes experimentalistas no campo da moeda. Quanto ao futuro imediato, é bem provável que a base governista de hoje se expanda para além de 380 deputados e 50 senadores, o que, evidentemente, livraria o governo de surpresas desagradáveis, como a que Lula teve no Senado com a derrota da prorrogação da CPMF, em 2007.
Poderá ocorrer, no primeiro ciclo de eventual administração continuísta, o aprofundamento dos eixos do governismo, tendência a se manter na esteira do êxito da política econômica, cujos efeitos acabam se irradiando por todos os estratos. Portanto, a locomotiva econômica é que puxará o imenso trem governista e este se manterá nos trilhos até se esvaírem os altos índices de satisfação social. Assim, não é de todo improvável que, mais adiante, sob o empuxo de rombo nas contas públicas - contas externas, estouro da Previdência, despesas com funcionalismo -, sejam comprometidos os investimentos e desestruturadas as ações que propiciaram a inserção de milhões de brasileiros no mercado de consumo. Mesmo diante de perspectivas animadoras, como as que se projetam nas frentes do pré-sal e da energia, por exemplo, são poucos os que apostam no comportamento sempre ascendente da economia. As projeções apontam para altos e baixos, ao fluxo das idas e vindas provocadas pela intermitente crise internacional. E o Brasil, mesmo dispondo de imensas riquezas, não pode ser considerado uma ilha de segurança no meio do oceano revolto.
Sob esse espelho, a mexicanização da política só alcança o foro de debates por conta da eleição. Pois, como se pode aduzir, a gangorra econômica vem de encontro à ciclotimia política. Os atores escolhidos de nossa democracia, de eufóricos no primeiro instante, poderão, no segundo ou terceiro instantes, mudar de vontade. Gostam de usar, bem o sabemos, a capacidade de transitar no arco partidário. O nosso sistema de representação, por sua vez, dá-lhes o direito a reivindicar posições na estrutura do Estado, o que também contribui para eliminar a tese de transformação do PT em partido hegemônico, nos moldes do PRI. Outros aspectos de nossa cultura evidenciam a inviabilidade de um modelo vertical como o mexicano. Veja-se, por exemplo, a adoção da verticalização da propaganda partidária. Não demorou muito e a própria regra imposta pelo Tribunal Superior Eleitoral - proibição de aparições de candidatos à Presidência em horários destinados a aliados regionais que são de partidos adversários na chapa nacional - foi derrubada por ele mesmo. A queda da verticalização veio atender ao menu da salada mista que se serve nos Estados e que é consumida por fiéis e infiéis partidários. Denota, ainda, a pasteurização política criada com o fermento de partidos assemelhados.
Considere-se, ainda, como fator de inibição de uma ordem única e autoritária a polaridade que certamente terá continuação em nosso sistema político. Ou alguém pensa que os partidos oposicionistas serão devastados pelo rolo compressor do governismo? E se o PSDB, por exemplo, continuar a governar São Paulo e Minas Gerais, os dois maiores contingentes eleitorais do País? Não seria só isso mais uma demonstração de que o temido modelo mexicano é coisa fora de propósito? Descartada a hipótese, vejamos outras. A formação de poderosa bancada governista deixará, isso sim, o presidencialismo brasileiro mais robusto. Neste caso não há como discordar do pensamento que aponta para uma pauta legislativa sob supervisão direta do Executivo. Mas há razões para otimismo. Dois grandes compromissos foram assumidos pelo sistema governista, caso Dilma Rousseff seja bem-sucedida. O primeiro, firmado pela própria candidata, diz respeito à reforma tributária, com ênfase na desoneração da folha de salários e no incentivo aos investimentos. O segundo é a promessa de Lula de trabalhar com afinco pela reforma política.
E aqui se apresenta mais uma barreira ao tal modelo mexicano. Mesmo sob patrocínio de um Executivo forte, é difícil acreditar na aprovação das duas reformas centrais para a modernização do Estado e o aperfeiçoamento da democracia. O Congresso tem muitos filtros.
Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, setembro 05, 2010
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO -Democracia virtual
O Estado de S.Paulo
Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos, mas no sentido que atribui à palavra "virtual" o dicionário do Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade das formas institucionais se desfaz num eco que indica estar a casa vazia por dentro.
Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana. Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a questão política - como se estivessem tratando com um povo de parvos -, proclamam que "não foi nada, não; apenas um balcão de venda de dados..." E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o tempo passe e nada aconteça.
Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o "dossiê" contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência da República, misturando dados para fazer crer que também nós nos fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos da atual Presidência não se transformaram em "secretos" em nome da segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.
No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que, além de pessoal, é também institucional, na pugna política diária. Chama a atenção que nenhum procurador da República - nem mesmo candidatos ou partidos - haja pedido o cancelamento das candidaturas beneficiadas, se não para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por que não se faz? Porque pouco a pouco nos estamos acostumando a que é assim mesmo.
Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista - que ainda dá para evitar - incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação política ao estilo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano - se o PT conseguir a proeza de ser "hegemônico" - ou do peronismo, se, mais do que a força de um partido, preponderar a figura do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como durante o autoritarismo militar.
Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo renascente, poderá até haver a anuência do povo e a cumplicidade das elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária. Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que nesse tipo de regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O "dirigismo à brasileira", mesmo na economia, não é tão mau assim para os amigos do rei ou da rainha.
É isto que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo o mais pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos das instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso das quebras reiteradas de sigilo. Ainda assim, é preciso tentar impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a convicção de que a democracia é o governo das leis, e não das pessoas.
Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18 que se foram transformando em prática política e que devem ser resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas. É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela "vontade geral" encapsulada na figura do líder. Isso é qualquer coisa, menos democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação), e assim por diante. É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal). Por mais restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou mesmo as características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.
Vivemos uma fase de democracia virtual. Não no sentido da utilização dos meios eletrônicos e da web como sucedâneos dos processos diretos, mas no sentido que atribui à palavra "virtual" o dicionário do Aurélio: algo que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual. Faz tempo que eu insisto: o edifício da democracia, e mesmo o de muitas instituições econômicas e sociais, está feito no Brasil. A arquitetura é bela, mas quando alguém bate à porta a monumentalidade das formas institucionais se desfaz num eco que indica estar a casa vazia por dentro.
Ainda agora a devassa da privacidade fiscal de tucanos e de outras pessoas mais mostra a vacuidade das leis diante da prática cotidiana. Com a maior desfaçatez do mundo, altos funcionários, tentando elidir a questão política - como se estivessem tratando com um povo de parvos -, proclamam que "não foi nada, não; apenas um balcão de venda de dados..." E fica o dito pelo não dito, com a mídia denunciando, os interessados protestando e buscando socorro no Judiciário, até que o tempo passe e nada aconteça.
Não tem sido assim com tudo mais? O que aconteceu com o "dossiê" contra mim e minha mulher feito na Casa Civil da Presidência da República, misturando dados para fazer crer que também nós nos fartávamos em usar recursos públicos para fins privados? E os gastos da atual Presidência não se transformaram em "secretos" em nome da segurança nacional? E o que aconteceu de prático? Nada. Estamos todos felizes no embalo de uma sensação de bonança que deriva de uma boa conjuntura econômica e da solidez das reformas do governo anterior.
No momento do exercício máximo da soberania popular, o desrespeito ocorre sob a batuta presidencial. Nas democracias é lógico e saudável que os presidentes e altos dirigentes eleitos tomem partido e se manifestem em eleições. Mas é escandalosa a reiteração diária de posturas político-partidárias, dando ao povo a impressão de que o chefe da Nação é chefe de uma facção em guerra para arrasar as outras correntes políticas. Há um abismo entre o legítimo apoio aos partidários e o abuso da utilização do prestígio do presidente, que, além de pessoal, é também institucional, na pugna política diária. Chama a atenção que nenhum procurador da República - nem mesmo candidatos ou partidos - haja pedido o cancelamento das candidaturas beneficiadas, se não para obtê-lo, ao menos para refrear o abuso. Por que não se faz? Porque pouco a pouco nos estamos acostumando a que é assim mesmo.
Na marcha em que vamos, na hipótese de vitória governista - que ainda dá para evitar - incorremos no risco futuro de vivermos uma simulação política ao estilo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) mexicano - se o PT conseguir a proeza de ser "hegemônico" - ou do peronismo, se, mais do que a força de um partido, preponderar a figura do líder. Dadas as características da cultura política brasileira, de leniência com a transgressão e criatividade para simular, o jogo pluripartidário pode ser mantido na aparência, enquanto na essência se venha a ter um partido para valer e outro(s) para sempre se opor, como durante o autoritarismo militar.
Pior ainda, com a massificação da propaganda oficial e o caudilhismo renascente, poderá até haver a anuência do povo e a cumplicidade das elites para com essa forma de democracia quase plebiscitária. Aceitação pelas massas na medida em que se beneficiem das políticas econômico-sociais, e das elites porque estas sabem que nesse tipo de regime o que vale mesmo é uma boa ligação com quem manda. O "dirigismo à brasileira", mesmo na economia, não é tão mau assim para os amigos do rei ou da rainha.
É isto que está em jogo nas eleições de outubro: que forma de democracia teremos, oca por dentro ou plena de conteúdo. Tudo o mais pesará menos. Pode ter havido erros de marketing nas campanhas oposicionistas, assim como é certo que a oposição se opôs menos do que devia à usurpação de seus próprios feitos pelos atuais ocupantes do poder. Esperneou menos diante dos pequenos assassinatos das instituições que vêm sendo perpetrados há muito tempo, como no caso das quebras reiteradas de sigilo. Ainda assim, é preciso tentar impedir que os recursos financeiros, políticos e simbólicos reunidos no Grupão do Poder em formação tenham força para destruir não apenas candidaturas, mas um estilo de atuação política que repudia o personalismo como fundamento da legitimidade do poder e tem a convicção de que a democracia é o governo das leis, e não das pessoas.
Estamos no século 21, mas há valores e práticas propostos no século 18 que se foram transformando em prática política e que devem ser resguardados, embora se mostrem insuficientes para motivar as pessoas. É preciso aumentar a inclusão e ampliar a participação. É positivo se valer de meios eletrônicos para tomar decisões e validar caminhos. É inaceitável, porém, a absorção de tudo isso pela "vontade geral" encapsulada na figura do líder. Isso é qualquer coisa, menos democracia. Se o fosse, não haveria por que criticar Mussolini em seus tempos de glória, ou o Getúlio do Estado Novo (que, diga-se, não exerceu propriamente o personalismo como fator de dominação), e assim por diante. É disso que se trata no Brasil de hoje: estamos decidindo se queremos correr o risco de um retrocesso democrático em nome do personalismo paternal (e, amanhã, quem sabe, maternal). Por mais restrições que alguém possa ter ao encaminhamento das campanhas ou mesmo as características pessoais de um ou outro candidato, uma coisa é certa: o governismo tal como está posto representa um passo atrás no caminho da institucionalização democrática. Há tempo ainda para derrotá-lo. Eleição se ganha no dia.
Às favas com os direitos -Dora Kramer,
O Estado de S.Paulo
Só pesquisas podem medir com alguma chance de precisão se um episódio como o da quebra reiterada de sigilo fiscal nas dependências da Receita Federal mexe com a sensibilidade do eleitorado ao ponto de fazer da preservação do Estado de Direito um dos fatores para definição de voto.
A primeira impressão é a de que não influi. Isso com base no peso que a população tem dado a questões como valores e princípios.
A ética foi enterrada como indigente. Em silêncio, sem choro nem vela e à grande maioria pouco se lhe dá se o Estado aumenta seu poder discricionário, invade privacidade, agride a Constituição, barbariza com o patrimônio público, usa, abusa e ainda sai dizendo que o que vem debaixo não o atinge.
Distorce a verdade para fazer o papel de vítima sabendo-se na condição de algoz.
Permite que o ministro da Fazenda assuma como normal a insegurança dos dados do contribuinte e, se alguém diz que isso é crime de responsabilidade, acusa "golpe eleitoral".
Enquanto isso os mais pobres se alegram em poder comprar, atribuindo a bonança à ação de um homem sem compreender que é resultado de um processo; os mais ricos não querem outra vida; os mais retrógrados nunca tiveram tanto cartaz; os mais à esquerda não perdem a esperança de vir a ter; os mais conscientes percebem algo fora do lugar, mas preferem se irritar porque não têm ao seu lado também um líder carismático e sem pudor.
Em um cenário assim desenhado, convenhamos, os valores que estão em jogo soam difusos para o grosso do eleitorado: os deveres do Estado e os direitos do cidadão.
Neste Brasil de tantas necessidades é provável que, se for posto na balança de um lado o crédito farto e de outro a liberdade parca, o prato penda a favor do consumo largo.
É um debate difícil de ser feito. Quase impossível em períodos eleitorais porque sempre haverá por parte dos acusados a alegação de que são injustamente atacados por adversários "desesperados", enquanto a essência da questão se perde: a invasão do espaço institucional por tropas de ocupação com interesses específicos. Ideológicos, fisiológicos ou simplesmente corruptos.
Sob a indiferença das vanguardas (onde?) e deixadas à mercê do poder da propaganda, as pessoas não conseguem ter a dimensão da gravidade.
Não atentam para o seguinte: o Estado que deixa sigilo ser quebrado, não se incomoda com propriedades privadas invadidas e insiste no controle dos meios de comunicação amanhã ou depois pode querer reduzir a liberdade alegando agir em prol do povo e do patriotismo como fator indispensável ao triunfo do Brasil.
Por isso é improvável que haja repercussão eleitoral. Se houver, terá sido por causa dos tropeções e das contradições do governo.
A naturalidade do ministro da Fazenda ao dizer que as informações do contribuinte não são invioláveis é tão escandalosa quanto a quebra de sigilo.
Nesse caso a urgência fez a imprudência. No afã de afastar de Dilma Rousseff as suspeitas de uso político da máquina pública, Guido Mantega informa ao público pagante que a Receita Federal e a casa da mãe joana são ambientes similares.
Uma confissão de incapacidade de prestar o serviço contratado pelo cidadão e a impossibilidade de cumprir a lei que se impõe a todos.
É a rendição do Estado à ação do crime.
A propósito, se era para dizer uma estultice dessa envergadura o ministro da Fazenda estava mais bem posicionado em sua omissão diante dos fatos.
Quórum. Dos 22.561 candidatos inscritos às eleições deste ano só 55 haviam se cadastrado no site ficha limpa.org.br até a tarde de sexta-feira.
Significa dizer que 0,24% dos concorrentes a mandatos se dispuseram a firmar compromisso com a Lei da Ficha Limpa e a semanalmente prestar contas sobre as doações e os gastos nas respectivas campanhas eleitorais, apresentando também declaração de que não são alvos de processos nem renunciaram a mandatos eletivos para evitar cassações.
Só pesquisas podem medir com alguma chance de precisão se um episódio como o da quebra reiterada de sigilo fiscal nas dependências da Receita Federal mexe com a sensibilidade do eleitorado ao ponto de fazer da preservação do Estado de Direito um dos fatores para definição de voto.
A primeira impressão é a de que não influi. Isso com base no peso que a população tem dado a questões como valores e princípios.
A ética foi enterrada como indigente. Em silêncio, sem choro nem vela e à grande maioria pouco se lhe dá se o Estado aumenta seu poder discricionário, invade privacidade, agride a Constituição, barbariza com o patrimônio público, usa, abusa e ainda sai dizendo que o que vem debaixo não o atinge.
Distorce a verdade para fazer o papel de vítima sabendo-se na condição de algoz.
Permite que o ministro da Fazenda assuma como normal a insegurança dos dados do contribuinte e, se alguém diz que isso é crime de responsabilidade, acusa "golpe eleitoral".
Enquanto isso os mais pobres se alegram em poder comprar, atribuindo a bonança à ação de um homem sem compreender que é resultado de um processo; os mais ricos não querem outra vida; os mais retrógrados nunca tiveram tanto cartaz; os mais à esquerda não perdem a esperança de vir a ter; os mais conscientes percebem algo fora do lugar, mas preferem se irritar porque não têm ao seu lado também um líder carismático e sem pudor.
Em um cenário assim desenhado, convenhamos, os valores que estão em jogo soam difusos para o grosso do eleitorado: os deveres do Estado e os direitos do cidadão.
Neste Brasil de tantas necessidades é provável que, se for posto na balança de um lado o crédito farto e de outro a liberdade parca, o prato penda a favor do consumo largo.
É um debate difícil de ser feito. Quase impossível em períodos eleitorais porque sempre haverá por parte dos acusados a alegação de que são injustamente atacados por adversários "desesperados", enquanto a essência da questão se perde: a invasão do espaço institucional por tropas de ocupação com interesses específicos. Ideológicos, fisiológicos ou simplesmente corruptos.
Sob a indiferença das vanguardas (onde?) e deixadas à mercê do poder da propaganda, as pessoas não conseguem ter a dimensão da gravidade.
Não atentam para o seguinte: o Estado que deixa sigilo ser quebrado, não se incomoda com propriedades privadas invadidas e insiste no controle dos meios de comunicação amanhã ou depois pode querer reduzir a liberdade alegando agir em prol do povo e do patriotismo como fator indispensável ao triunfo do Brasil.
Por isso é improvável que haja repercussão eleitoral. Se houver, terá sido por causa dos tropeções e das contradições do governo.
A naturalidade do ministro da Fazenda ao dizer que as informações do contribuinte não são invioláveis é tão escandalosa quanto a quebra de sigilo.
Nesse caso a urgência fez a imprudência. No afã de afastar de Dilma Rousseff as suspeitas de uso político da máquina pública, Guido Mantega informa ao público pagante que a Receita Federal e a casa da mãe joana são ambientes similares.
Uma confissão de incapacidade de prestar o serviço contratado pelo cidadão e a impossibilidade de cumprir a lei que se impõe a todos.
É a rendição do Estado à ação do crime.
A propósito, se era para dizer uma estultice dessa envergadura o ministro da Fazenda estava mais bem posicionado em sua omissão diante dos fatos.
Quórum. Dos 22.561 candidatos inscritos às eleições deste ano só 55 haviam se cadastrado no site ficha limpa.org.br até a tarde de sexta-feira.
Significa dizer que 0,24% dos concorrentes a mandatos se dispuseram a firmar compromisso com a Lei da Ficha Limpa e a semanalmente prestar contas sobre as doações e os gastos nas respectivas campanhas eleitorais, apresentando também declaração de que não são alvos de processos nem renunciaram a mandatos eletivos para evitar cassações.
MARIANO GRONDONA Néstor Kirchner, ¿es un toro, un oso o un pato rengo?
La Nacion
Un régimen político es tanto más estable cuanto menor sea la distancia entre las alternativas que se le presentan. Las elecciones presidenciales recientes en naciones como Uruguay y Chile no fueron dramáticas porque, ganara Mujica o Lacalle en el primero de ellos y Piñera o Frei en el segundo, ya se sabía que, coincidiendo todos los candidatos en la misma filosofía democrática, el horizonte de sus países quedaba libre de acechanzas. Lo mismo promete ocurrir el mes que viene en las elecciones presidenciales de Brasil, en las que la opción entre la favorita Dilma Rousseff, ahijada política de Lula, y José Serra, un opositor situado ligeramente a su derecha, no es perturbadora. Uruguay, Chile y Brasil son países que, por gozar de estabilidad , tranquilizan por igual a los inversores y a los ciudadanos.
¿Ocurre lo mismo entre nosotros? No se lo puede afirmar cuando se advierten los años luz que separan a nuestras propias alternativas. Si gana Kirchner en las próximas elecciones presidenciales, todo indica que la Argentina, al calor de esa victoria, podría encaminarse rápidamente hacia el modelo chavista, y si gana la oposición, sólo entonces podría plantearse entre nosotros una alternativa uruguaya, chilena o brasileña. Mientras que la distancia entre las alternativas que albergan Uruguay, Chile y Brasil es mínima, la distancia entre nuestras alternativas es máxima . La ansiedad que asalta a nuestros inversores y a nuestros ciudadanos es, por lo visto, un signo elocuente de nuestra inestabilidad.
Como lo advierte el premio Nobel Douglass North en Understanding the Process of Economic Change ("Entendiendo el proceso del cambio económico"), Princeton University Press, 2005), el anhelo capital de los hombres y de las naciones ha sido desde siempre reducir la presión de la incertidumbre. ¿Podríamos intentarlo los argentinos a estas alturas de los acontecimientos? Podríamos aliviar al menos la presión de nuestra propia incertidumbre si logramos reducirla a este interrogante central: ¿cuál es el futuro político de Néstor Kirchner?
La curva de la decadencia
Sobre todo en el mundo anglosajón, los analistas les han puesto un nombre a las alteraciones que atraviesan los mercados y la vida política. En el campo económico, llaman "mercados de toros" (bull markets) a esos procesos alcistas en los que, subiendo de continuo, los precios de los bonos y las acciones crean un clima "optimista", en tanto que llaman "mercados de osos" (bear markets) a esos otros procesos bajistas en los que, cayendo de continuo, los papeles generan en las bolsas un clima pesimista. Los dirigentes políticos no están exentos de estas variaciones. Son "toros" si su poder no cesa de crecer. Son "osos" en el caso contrario. Pero la política reserva, para los dirigentes que van mal, otro nombre. Los llama "patos rengos" (lame ducks) cuando a la inversa de los osos, cuyo descenso podría resultar circunstancial, su crisis ya no es pasajera sino terminal.
La expresión "pato rengo" es adecuada porque da a entender que, si ahora es rengo, alguna vez el pato no lo fue; que su renguera, por ser sobreviniente, marca la curva de su decadencia. Esto pasa especialmente cuando está por expirar un plazo constitucional. Desde el momento en que su plazo expiraba y ya no lo podía renovar, Tabaré Vázquez era un "pato rengo" antes de la elección de su sucesor, Mujica. Su "renguera", sin embargo, no fue traumática porque la aceptó de buen grado siguiendo las reglas de la democracia, que, tanto en Uruguay como en Chile y Brasil, prohíbe las reelecciones indefinidas y porque pudo transmitirle el poder a otro candidato de su mismo partido, el Frente Amplio, en cabeza de José Mujica. Esta continuidad se afianzará más aún en el caso de que Rousseff, la escogida por Lula, venza en Brasil. En cuanto a la presidenta de Chile Michelle Bachelet, si bien la sucedió un opositor, Sebastián Piñera, la adscripción de ambos al mismo credo democrático moderó decisivamente los cimbronazos del cambio.
Ninguno de estos elementos de contención gravitan entre nosotros. Si Kirchner llega a prevalecer el año entrante, profundizará su pretensión totalizadora. Si llega a perder, será reemplazado no ya por un continuador o por un rival afín a él, sino por otro sistema político opuesto al que él pretende imponer; en lugar de su despótico hiperpresidencialismo , la restauración del equilibrio constitucional.
Minivictorias y miniderrotas
Entre 2003 y 2008, el "mercado" de Kirchner fue un "mercado de toros" porque sus "acciones" no paraban de subir. Después de la victoria electoral inicial, volvió a ganar en la elección parlamentaria de 2005 y en la elección presidencial de 2007, cuando impuso a su esposa. Gracias al "viento de cola" internacional, que todavía subsiste, la coyuntura económica no cesó de bendecirlo. Pero estas satisfacciones sólo eran para él minivictorias porque la gran victoria del poder total a la cual aspira le quedaba, todavía, demasiado lejos. También empezaron a asomar otras minivictorias, como el control del Congreso a partir de 2005 y 2007, cierta benevolente pasividad de la opinión pública y, además, un silencio de la Corte Suprema reforzado por el dominio oficial del Consejo de la Magistratura, de donde salen los jueces, al que habría que sumarle la aparición de magistrados desvergonzadamente kirchneristas, como Norberto Oyarbide.
Hasta aquí, Kirchner no había obtenido "todo", pero había logrado "algo" en su afanosa búsqueda del poder absoluto. Entonces, a partir de 2008, empezaron las derrotas. Perdió primero contra el campo y el vicepresidente Cobos. Al año siguiente perdió categóricamente contra la oposición en las elecciones parlamentarias de 2009, a consecuencia de lo cual se quedó sin Congreso. Pero Kirchner lanzó una serie de contraofensivas. Creyendo equivocadamente que los votantes se le habían dado vuelta por la influencia de los medios, en vez de suponer, a la inversa, que los medios se habían limitado a reflejar la nueva tendencia del electorado, la emprendió contra el periodismo independiente mediante dos acciones convergentes: el proyecto de la ley de medios para controlar a las radios y los canales de televisión y el ataque a Papel Prensa, para asfixiar a la prensa escrita. Pero ambas contraofensivas están detenidas en la Justicia. Es más: las recientes declaraciones del presidente de la Corte Suprema, Ricardo Lorenzetti, permiten preguntarse ahora si la presunta pasividad judicial con la cual Kirchner contaba era algo más que una ilusión.
El flujo de la política se ha revertido. ¿Constituyen estas novedades una "gran victoria" para la oposición? Difícilmente, no sólo porque ésta no ha terminado de organizarse, sino también porque Kirchner mismo podría adherir a lo que dijo alguna vez el ex presidente Richard Nixon: "Sólo estás vencido cuando te das por vencido". Lo que tenemos entonces, después de las minivictorias de Kirchner entre 2003 y 2009, son sus miniderrotas entre 2009 y 2010, mientras la incertidumbre sobre el futuro del poder nos sigue acechando. El ex presidente no es todavía un "pato rengo" aunque, después de haber disfrutado de un "mercado de toros", hoy padece un "mercado de osos". Sólo el día en que se convierta en un verdadero "pato rengo" quedará definitivamente superado, pero demorará hasta el último momento en reconocer su derrota porque sólo cuando ella resulte evidente para él y para todos el impiadoso peronismo repetirá, como lo ha hecho otras veces, la cruel sentencia de los romanos: "¡Ay de los vencidos!".
Un régimen político es tanto más estable cuanto menor sea la distancia entre las alternativas que se le presentan. Las elecciones presidenciales recientes en naciones como Uruguay y Chile no fueron dramáticas porque, ganara Mujica o Lacalle en el primero de ellos y Piñera o Frei en el segundo, ya se sabía que, coincidiendo todos los candidatos en la misma filosofía democrática, el horizonte de sus países quedaba libre de acechanzas. Lo mismo promete ocurrir el mes que viene en las elecciones presidenciales de Brasil, en las que la opción entre la favorita Dilma Rousseff, ahijada política de Lula, y José Serra, un opositor situado ligeramente a su derecha, no es perturbadora. Uruguay, Chile y Brasil son países que, por gozar de estabilidad , tranquilizan por igual a los inversores y a los ciudadanos.
¿Ocurre lo mismo entre nosotros? No se lo puede afirmar cuando se advierten los años luz que separan a nuestras propias alternativas. Si gana Kirchner en las próximas elecciones presidenciales, todo indica que la Argentina, al calor de esa victoria, podría encaminarse rápidamente hacia el modelo chavista, y si gana la oposición, sólo entonces podría plantearse entre nosotros una alternativa uruguaya, chilena o brasileña. Mientras que la distancia entre las alternativas que albergan Uruguay, Chile y Brasil es mínima, la distancia entre nuestras alternativas es máxima . La ansiedad que asalta a nuestros inversores y a nuestros ciudadanos es, por lo visto, un signo elocuente de nuestra inestabilidad.
Como lo advierte el premio Nobel Douglass North en Understanding the Process of Economic Change ("Entendiendo el proceso del cambio económico"), Princeton University Press, 2005), el anhelo capital de los hombres y de las naciones ha sido desde siempre reducir la presión de la incertidumbre. ¿Podríamos intentarlo los argentinos a estas alturas de los acontecimientos? Podríamos aliviar al menos la presión de nuestra propia incertidumbre si logramos reducirla a este interrogante central: ¿cuál es el futuro político de Néstor Kirchner?
La curva de la decadencia
Sobre todo en el mundo anglosajón, los analistas les han puesto un nombre a las alteraciones que atraviesan los mercados y la vida política. En el campo económico, llaman "mercados de toros" (bull markets) a esos procesos alcistas en los que, subiendo de continuo, los precios de los bonos y las acciones crean un clima "optimista", en tanto que llaman "mercados de osos" (bear markets) a esos otros procesos bajistas en los que, cayendo de continuo, los papeles generan en las bolsas un clima pesimista. Los dirigentes políticos no están exentos de estas variaciones. Son "toros" si su poder no cesa de crecer. Son "osos" en el caso contrario. Pero la política reserva, para los dirigentes que van mal, otro nombre. Los llama "patos rengos" (lame ducks) cuando a la inversa de los osos, cuyo descenso podría resultar circunstancial, su crisis ya no es pasajera sino terminal.
La expresión "pato rengo" es adecuada porque da a entender que, si ahora es rengo, alguna vez el pato no lo fue; que su renguera, por ser sobreviniente, marca la curva de su decadencia. Esto pasa especialmente cuando está por expirar un plazo constitucional. Desde el momento en que su plazo expiraba y ya no lo podía renovar, Tabaré Vázquez era un "pato rengo" antes de la elección de su sucesor, Mujica. Su "renguera", sin embargo, no fue traumática porque la aceptó de buen grado siguiendo las reglas de la democracia, que, tanto en Uruguay como en Chile y Brasil, prohíbe las reelecciones indefinidas y porque pudo transmitirle el poder a otro candidato de su mismo partido, el Frente Amplio, en cabeza de José Mujica. Esta continuidad se afianzará más aún en el caso de que Rousseff, la escogida por Lula, venza en Brasil. En cuanto a la presidenta de Chile Michelle Bachelet, si bien la sucedió un opositor, Sebastián Piñera, la adscripción de ambos al mismo credo democrático moderó decisivamente los cimbronazos del cambio.
Ninguno de estos elementos de contención gravitan entre nosotros. Si Kirchner llega a prevalecer el año entrante, profundizará su pretensión totalizadora. Si llega a perder, será reemplazado no ya por un continuador o por un rival afín a él, sino por otro sistema político opuesto al que él pretende imponer; en lugar de su despótico hiperpresidencialismo , la restauración del equilibrio constitucional.
Minivictorias y miniderrotas
Entre 2003 y 2008, el "mercado" de Kirchner fue un "mercado de toros" porque sus "acciones" no paraban de subir. Después de la victoria electoral inicial, volvió a ganar en la elección parlamentaria de 2005 y en la elección presidencial de 2007, cuando impuso a su esposa. Gracias al "viento de cola" internacional, que todavía subsiste, la coyuntura económica no cesó de bendecirlo. Pero estas satisfacciones sólo eran para él minivictorias porque la gran victoria del poder total a la cual aspira le quedaba, todavía, demasiado lejos. También empezaron a asomar otras minivictorias, como el control del Congreso a partir de 2005 y 2007, cierta benevolente pasividad de la opinión pública y, además, un silencio de la Corte Suprema reforzado por el dominio oficial del Consejo de la Magistratura, de donde salen los jueces, al que habría que sumarle la aparición de magistrados desvergonzadamente kirchneristas, como Norberto Oyarbide.
Hasta aquí, Kirchner no había obtenido "todo", pero había logrado "algo" en su afanosa búsqueda del poder absoluto. Entonces, a partir de 2008, empezaron las derrotas. Perdió primero contra el campo y el vicepresidente Cobos. Al año siguiente perdió categóricamente contra la oposición en las elecciones parlamentarias de 2009, a consecuencia de lo cual se quedó sin Congreso. Pero Kirchner lanzó una serie de contraofensivas. Creyendo equivocadamente que los votantes se le habían dado vuelta por la influencia de los medios, en vez de suponer, a la inversa, que los medios se habían limitado a reflejar la nueva tendencia del electorado, la emprendió contra el periodismo independiente mediante dos acciones convergentes: el proyecto de la ley de medios para controlar a las radios y los canales de televisión y el ataque a Papel Prensa, para asfixiar a la prensa escrita. Pero ambas contraofensivas están detenidas en la Justicia. Es más: las recientes declaraciones del presidente de la Corte Suprema, Ricardo Lorenzetti, permiten preguntarse ahora si la presunta pasividad judicial con la cual Kirchner contaba era algo más que una ilusión.
El flujo de la política se ha revertido. ¿Constituyen estas novedades una "gran victoria" para la oposición? Difícilmente, no sólo porque ésta no ha terminado de organizarse, sino también porque Kirchner mismo podría adherir a lo que dijo alguna vez el ex presidente Richard Nixon: "Sólo estás vencido cuando te das por vencido". Lo que tenemos entonces, después de las minivictorias de Kirchner entre 2003 y 2009, son sus miniderrotas entre 2009 y 2010, mientras la incertidumbre sobre el futuro del poder nos sigue acechando. El ex presidente no es todavía un "pato rengo" aunque, después de haber disfrutado de un "mercado de toros", hoy padece un "mercado de osos". Sólo el día en que se convierta en un verdadero "pato rengo" quedará definitivamente superado, pero demorará hasta el último momento en reconocer su derrota porque sólo cuando ella resulte evidente para él y para todos el impiadoso peronismo repetirá, como lo ha hecho otras veces, la cruel sentencia de los romanos: "¡Ay de los vencidos!".
Un nuevo conflicto de poderes, en puerta Por Joaquín Morales Solá
La Nacion
Amado Boudou fue esta vez el emisario brutal del kirchnerismo para maltratar a los jueces; en febrero pasado, esa tarea la había asumido, personalmente, Cristina Kirchner. No es bueno que el presidente de la Corte Suprema, Ricardo Lorenzetti, deba salir a replicar los desvaríos de funcionarios arrogantes y provocadores. No le quedó, sin embargo, otra alternativa. Lorenzetti cumplió con elegancia su asidua misión en este mundo: decirle al Gobierno que hay cosas que no puede hacer. La tensión entre los Kirchner y la Justicia es ya una fractura expuesta.
La furia oficial se entiende mejor cuando se entreabren las puertas del probable futuro. El Gobierno sabe que en la Corte se cocinan malas novedades para las obsesiones de los Kirchner. Ya existen seis votos, de los siete que hay en total, para resolver que el máximo tribunal no levantará una medida cautelar que protegió los intereses de Clarín . Un juez de primera instancia dispuso en su momento una medida de no innovar en la aplicación del artículo 161 de la ley de medios audiovisuales. Una cámara confirmó esa decisión.
El gobierno apeló ante la Corte, pero ésta se aferrará a un antiguo precedente: ese cuerpo sólo debe revisar sentencias firmes y no medidas cautelares. Rechazará, por lo tanto, la apelación del Ejecutivo. La decisión se tomaría formalmente en los próximos días. El expediente volverá al juez de primera instancia para que resuelva sobre el fondo de la cuestión; mientras tanto, estará vigente la decisión de no innovar.
El artículo 161 es el que ordena la desinversión de los actuales dueños de los medios audiovisuales en el corto plazo de un año. La presentación la hizo Clarín, y pidió que se declarara inconstitucional ese artículo porque afecta los derechos adquiridos y la seguridad jurídica. La suspensión judicial de la aplicación de ese artículo es clave para la intención política de los gobernantes. Los plazos son demasiado ajustados y, con el ritmo actual, se extenderán más allá del período de gobierno que aún les queda a los Kirchner. ¿Para qué les serviría, entonces, si otro gobierno podría cambiar esa ley?
La decisión de la Corte será avalada por los jueces Lorenzetti, Carmen Argibay, Carlos Fayt, Juan Carlos Maqueda, Elena Highton de Nolasco y Enrique Petracchi; este último fue, en verdad, uno de los primeros en decidir su voto en rechazo de la apelación del Ejecutivo. Petracchi le profesa un viejo respeto al lugar que debe ocupar la Justicia en una república. Sólo votó a favor de la petición del Gobierno el juez Eugenio Zaffaroni. En los tribunales hay quienes han escuchado a Zaffaroni expresar en reuniones de muchos su inconmovible adhesión al pensamiento oficial sobre los medios de comunicación.
El kirchnerismo respondió con un decreto reglamentario de la ley y del artículo suspendidos por la Justicia. Otras medidas cautelares se tomaron en otras instancias de la Justicia, pero aún no llegaron al máximo tribunal. En rigor, y como todos los casos resueltos por los jueces, éste también tendrá vigencia real sólo para el que promovió la demanda; es decir, Clarín , el enemigo personal para los Kirchner. Sin embargo, cierta prudencia institucional debería impedir al Gobierno legislar sobre una ley que, total o parcialmente, se encuentra suspendida en distintas instancias judiciales.
El Gobierno prefirió, en cambio, presionar sobre los límites institucionales y, encima, mandó a Boudou a destratar a la Justicia. Boudou no leyó nunca un manual de derecho, pero conoce a la perfección el breviario del oficialismo: no sólo deben acatarse las órdenes que vienen de la cima, sino que también deben imitarse las formas más intolerantes de los líderes de la administración.
La Corte es inasible para un poder que quiere sujetar todo. En medio de la enorme crisis que la administración provocó en enero pasado por el uso de las reservas y la cesantía prematura de Martín Redrado, la Presidenta intentó presionar, a veces de manera directa y prepotente, al juez Maqueda, que estaba a cargo del máximo tribunal en medio de la feria del verano. Quería que le ordenara a una jueza de primera instancia que cambiara su decisión. Dicen que Maqueda escuchó, rebatió y resistió con argumentos jurídicos.
El segundo turno de enero estuvo bajo la responsabilidad de Argibay. La crisis continuaba, pero nadie llamó al despacho de la jueza. ¿Por qué? El Gobierno sabía, según confesaron en la propia cresta del poder, que era posible que la inflexible Argibay no atendiera las llamadas telefónicas. Pero si las hubiera atendido, había sólo dos posibilidades ante una presión indebida: que la jueza cortara la comunicación en medio de la conversación o que luego convocara a los periodistas para denunciar públicamente la presión. Hay quienes suponen que las primeras e intensas presiones presidenciales sobre Maqueda intentaron eludir el posterior turno de Argibay. A principios de febrero, la Presidenta dijo que le sonaba a "censura" una invocación a la "mesura" que había hecho públicamente la Corte Suprema.
Un dato clave sucedió en los últimos días que podría haber cambiado el ecosistema de la Justicia: fue el triunfo de Alejandro Fargosi como representante de los abogados porteños en el Consejo de la Magistratura. Fargosi fue el candidato de la oposición al kirchnerismo. Otros nuevos consejeros que se elegirán (representantes de los magistrados y de los abogados del interior) también expresan ideas antikirchneristas. No hay kirchneristas disputando esos cargos. No importa ya que cambie la composición numérica del Consejo; cambiará la composición humana y política , aseguró un conocido magistrado. Los jueces han tomado nota.
La Justicia no es, con todo, un ícono del coraje; sólo sucede que los métodos y las decisiones de Guillermo Moreno no pueden pasar siquiera por el filtro de un alguacil de tribunales. Un juez y una cámara comercial derrumbaron sus decisiones sobre Papel Prensa con duras y admonitorias resoluciones.
El frívolo escándalo por Papel Prensa llevó al primer plano, otra vez, a la organización Montoneros y sus peores prácticas. Esa guerrilla peronista venía protegida por un silencio de casi 20 años y, en los últimos tiempos, por una inmerecida entronización al panteón de los héroes. Sólo el gobierno de Raúl Alfonsín impugnó duramente a las organizaciones subversivas de los años 70, incluida Montoneros. Por razones políticas, humanas o electorales, durante el gobierno de Menem se inició el período del silencio. Kirchner convirtió aquel silencio en heroísmo.
La vieja conducción de Montoneros está ahora muy crítica de los últimos estropicios kirchneristas. Hay una prueba irrefutable: Roberto Perdía, quien fue segundo en la línea de mando de Montoneros después de Firmenich, se manifestó públicamente contra Kirchner y sus empellones a la prensa. La reaparición de Montoneros se dio, además, en su peor faceta: la voracidad por el dinero fácil y la interminable codicia de sus principales dirigentes.
Un ex colaborador de los Graiver, que padeció con ellos el secuestro y la tortura de los militares, recordó que David Graiver les pagaba 130.000 dólares mensuales a los representantes montoneros Raúl Magario, Juan Gasparini y Graciela Daleo, supuestamente como intereses del dinero que la organización guerrillera le había entregado al banquero. Gasparini y Daleo sufrieron luego el cautiverio en la ESMA.
Aquel testigo contó que otros empresarios le pagaban hasta 200.000 dólares mensuales a Montoneros como un seguro de protección contra eventuales secuestros de ese mismo grupo guerrillero. Una vieja práctica de la mafia. El ex colaborador de los Graiver consideró probable que David Graiver decidiera administrar recursos financieros de la guerrilla.
Gasparini y Rodolfo Galimberti, otro conocido jefe guerrillero, aparecieron ante los Graiver, muchos años después, cuando la familia perseguida estaba cobrando la enorme indemnización que le dio Alfonsín. No había guerrilla ya, pero presionaron hasta que los Graiver debieron hacer un arreglo con el empresario Juan Born para entregarle 16 millones de dólares. Born fue secuestrado por los montoneros y liberado después de un rescate de 60 millones de dólares. Las negociaciones por la devolución de parte de ese rescate se hicieron en Brasil, cuenta aquel testigo inmejorable. Galimberti murió siendo un buen amigo de su otrora secuestrado Born.
La luz sobre esa parte oculta del pasado es, al fin y al cabo, una contribución involuntaria que está haciendo a la historia el cegador odio de los Kirchner.
Amado Boudou fue esta vez el emisario brutal del kirchnerismo para maltratar a los jueces; en febrero pasado, esa tarea la había asumido, personalmente, Cristina Kirchner. No es bueno que el presidente de la Corte Suprema, Ricardo Lorenzetti, deba salir a replicar los desvaríos de funcionarios arrogantes y provocadores. No le quedó, sin embargo, otra alternativa. Lorenzetti cumplió con elegancia su asidua misión en este mundo: decirle al Gobierno que hay cosas que no puede hacer. La tensión entre los Kirchner y la Justicia es ya una fractura expuesta.
La furia oficial se entiende mejor cuando se entreabren las puertas del probable futuro. El Gobierno sabe que en la Corte se cocinan malas novedades para las obsesiones de los Kirchner. Ya existen seis votos, de los siete que hay en total, para resolver que el máximo tribunal no levantará una medida cautelar que protegió los intereses de Clarín . Un juez de primera instancia dispuso en su momento una medida de no innovar en la aplicación del artículo 161 de la ley de medios audiovisuales. Una cámara confirmó esa decisión.
El gobierno apeló ante la Corte, pero ésta se aferrará a un antiguo precedente: ese cuerpo sólo debe revisar sentencias firmes y no medidas cautelares. Rechazará, por lo tanto, la apelación del Ejecutivo. La decisión se tomaría formalmente en los próximos días. El expediente volverá al juez de primera instancia para que resuelva sobre el fondo de la cuestión; mientras tanto, estará vigente la decisión de no innovar.
El artículo 161 es el que ordena la desinversión de los actuales dueños de los medios audiovisuales en el corto plazo de un año. La presentación la hizo Clarín, y pidió que se declarara inconstitucional ese artículo porque afecta los derechos adquiridos y la seguridad jurídica. La suspensión judicial de la aplicación de ese artículo es clave para la intención política de los gobernantes. Los plazos son demasiado ajustados y, con el ritmo actual, se extenderán más allá del período de gobierno que aún les queda a los Kirchner. ¿Para qué les serviría, entonces, si otro gobierno podría cambiar esa ley?
La decisión de la Corte será avalada por los jueces Lorenzetti, Carmen Argibay, Carlos Fayt, Juan Carlos Maqueda, Elena Highton de Nolasco y Enrique Petracchi; este último fue, en verdad, uno de los primeros en decidir su voto en rechazo de la apelación del Ejecutivo. Petracchi le profesa un viejo respeto al lugar que debe ocupar la Justicia en una república. Sólo votó a favor de la petición del Gobierno el juez Eugenio Zaffaroni. En los tribunales hay quienes han escuchado a Zaffaroni expresar en reuniones de muchos su inconmovible adhesión al pensamiento oficial sobre los medios de comunicación.
El kirchnerismo respondió con un decreto reglamentario de la ley y del artículo suspendidos por la Justicia. Otras medidas cautelares se tomaron en otras instancias de la Justicia, pero aún no llegaron al máximo tribunal. En rigor, y como todos los casos resueltos por los jueces, éste también tendrá vigencia real sólo para el que promovió la demanda; es decir, Clarín , el enemigo personal para los Kirchner. Sin embargo, cierta prudencia institucional debería impedir al Gobierno legislar sobre una ley que, total o parcialmente, se encuentra suspendida en distintas instancias judiciales.
El Gobierno prefirió, en cambio, presionar sobre los límites institucionales y, encima, mandó a Boudou a destratar a la Justicia. Boudou no leyó nunca un manual de derecho, pero conoce a la perfección el breviario del oficialismo: no sólo deben acatarse las órdenes que vienen de la cima, sino que también deben imitarse las formas más intolerantes de los líderes de la administración.
La Corte es inasible para un poder que quiere sujetar todo. En medio de la enorme crisis que la administración provocó en enero pasado por el uso de las reservas y la cesantía prematura de Martín Redrado, la Presidenta intentó presionar, a veces de manera directa y prepotente, al juez Maqueda, que estaba a cargo del máximo tribunal en medio de la feria del verano. Quería que le ordenara a una jueza de primera instancia que cambiara su decisión. Dicen que Maqueda escuchó, rebatió y resistió con argumentos jurídicos.
El segundo turno de enero estuvo bajo la responsabilidad de Argibay. La crisis continuaba, pero nadie llamó al despacho de la jueza. ¿Por qué? El Gobierno sabía, según confesaron en la propia cresta del poder, que era posible que la inflexible Argibay no atendiera las llamadas telefónicas. Pero si las hubiera atendido, había sólo dos posibilidades ante una presión indebida: que la jueza cortara la comunicación en medio de la conversación o que luego convocara a los periodistas para denunciar públicamente la presión. Hay quienes suponen que las primeras e intensas presiones presidenciales sobre Maqueda intentaron eludir el posterior turno de Argibay. A principios de febrero, la Presidenta dijo que le sonaba a "censura" una invocación a la "mesura" que había hecho públicamente la Corte Suprema.
Un dato clave sucedió en los últimos días que podría haber cambiado el ecosistema de la Justicia: fue el triunfo de Alejandro Fargosi como representante de los abogados porteños en el Consejo de la Magistratura. Fargosi fue el candidato de la oposición al kirchnerismo. Otros nuevos consejeros que se elegirán (representantes de los magistrados y de los abogados del interior) también expresan ideas antikirchneristas. No hay kirchneristas disputando esos cargos. No importa ya que cambie la composición numérica del Consejo; cambiará la composición humana y política , aseguró un conocido magistrado. Los jueces han tomado nota.
La Justicia no es, con todo, un ícono del coraje; sólo sucede que los métodos y las decisiones de Guillermo Moreno no pueden pasar siquiera por el filtro de un alguacil de tribunales. Un juez y una cámara comercial derrumbaron sus decisiones sobre Papel Prensa con duras y admonitorias resoluciones.
El frívolo escándalo por Papel Prensa llevó al primer plano, otra vez, a la organización Montoneros y sus peores prácticas. Esa guerrilla peronista venía protegida por un silencio de casi 20 años y, en los últimos tiempos, por una inmerecida entronización al panteón de los héroes. Sólo el gobierno de Raúl Alfonsín impugnó duramente a las organizaciones subversivas de los años 70, incluida Montoneros. Por razones políticas, humanas o electorales, durante el gobierno de Menem se inició el período del silencio. Kirchner convirtió aquel silencio en heroísmo.
La vieja conducción de Montoneros está ahora muy crítica de los últimos estropicios kirchneristas. Hay una prueba irrefutable: Roberto Perdía, quien fue segundo en la línea de mando de Montoneros después de Firmenich, se manifestó públicamente contra Kirchner y sus empellones a la prensa. La reaparición de Montoneros se dio, además, en su peor faceta: la voracidad por el dinero fácil y la interminable codicia de sus principales dirigentes.
Un ex colaborador de los Graiver, que padeció con ellos el secuestro y la tortura de los militares, recordó que David Graiver les pagaba 130.000 dólares mensuales a los representantes montoneros Raúl Magario, Juan Gasparini y Graciela Daleo, supuestamente como intereses del dinero que la organización guerrillera le había entregado al banquero. Gasparini y Daleo sufrieron luego el cautiverio en la ESMA.
Aquel testigo contó que otros empresarios le pagaban hasta 200.000 dólares mensuales a Montoneros como un seguro de protección contra eventuales secuestros de ese mismo grupo guerrillero. Una vieja práctica de la mafia. El ex colaborador de los Graiver consideró probable que David Graiver decidiera administrar recursos financieros de la guerrilla.
Gasparini y Rodolfo Galimberti, otro conocido jefe guerrillero, aparecieron ante los Graiver, muchos años después, cuando la familia perseguida estaba cobrando la enorme indemnización que le dio Alfonsín. No había guerrilla ya, pero presionaron hasta que los Graiver debieron hacer un arreglo con el empresario Juan Born para entregarle 16 millones de dólares. Born fue secuestrado por los montoneros y liberado después de un rescate de 60 millones de dólares. Las negociaciones por la devolución de parte de ese rescate se hicieron en Brasil, cuenta aquel testigo inmejorable. Galimberti murió siendo un buen amigo de su otrora secuestrado Born.
La luz sobre esa parte oculta del pasado es, al fin y al cabo, una contribución involuntaria que está haciendo a la historia el cegador odio de los Kirchner.
Ruy Fabiano -Verônica e o Fiat Elba
Blog Noblat
O vazamento em série de dados sigilosos de contribuintes na Receita Federal – com destaque para quatro tucanos, mais a filha de José Serra, Verônica – é o Watergate do governo Lula. Só que com aspectos mais graves que o original.
O escândalo de Watergate, ocorrido em 1972 - e que levou à renúncia do presidente dos EUA, Richard Nixon, dois anos depois -, envolvia espionagem política durante a sucessão presidencial.
Mas lá não houve o uso da máquina estatal. Foi um crime de um partido contra o outro. O Partido Republicano, do presidente e candidato à reeleição, tentou colocar microfones na sede do adversário, o Partido Democrata, para sabotar sua agenda de campanha. Havia conexões do ato com o presidente e assessores.
Constatada essa conexão, o presidente renunciou para não ser deposto. No caso presente, uma estrutura do Estado – a Receita Federal – foi usada para levantar dados sigilosos de contribuintes ligados ao PSDB e ao candidato Serra para preparação de um dossiê que o incriminasse. Os dados de um dos tucanos – o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge – chegaram a ser publicados pela Folha de S. Paulo, que informou que constariam de um dossiê, em preparo pelo grupo de inteligência do PT.
Já aí se estabelecia a conexão entre o vazamento, a campanha eleitoral e o PT. Mas não era só. Meses antes, blogs ligados aos petistas vinham publicando informações extraídas das declarações vazadas na Receita, sobretudo de Verônica Serra e Eduardo Jorge. Outra conexão – mas ainda não é a última.
Um ex-delegado da Polícia Federal, Onézimo de Souza, disse ao Senado que fora procurado pelo grupo de inteligência do PT e pela empresa incumbida da comunicação na campanha de Dilma – a Lanzetta Comunicação - para espionar José Serra. O jornalista Luiz Lanzetta confirmou o encontro, mas negou o seu teor.
Não esclareceu, porém, que outro tema o levaria a se encontrar com um araponga – e calou-se quando este disse que tinha provas a respeito do que conversaram. Insinuou que havia gravado a conversa – e que espantosamente ainda não foi requerida pelos investigadores.
Dilma cancelou o contrato com a empresa, sinal de que viu fundamento na acusação. Até ali, o que se sabia era apenas isto: vazamento de dados de Eduardo Jorge e um dossiê contra Serra. Já era gravíssimo, mas não era tudo.
Adiante, soube-se que outros três tucanos tiveram seus dados fiscais igualmente violados – em sequência, no mesmo dia e no mesmo computador da Receita. Depois, veio a denúncia de violação de dados também contra a filha de Serra, vinculando definitivamente o escândalo à campanha. Isso já estava claro, como disse José Serra, na divulgação pelos blogs petistas de informações sigilosas de Verônica, constantes de seu imposto de renda.
Apesar disso, PT e Dilma ainda sustentam que não há vínculo entre vazamentos e campanha e tratam o episódio como “factoide”. Mais: vão à Justiça contra Serra exigir reparação moral.
Buscam transformar o episódio, um crime contra o Estado, numa manobra eleitoral. Acusam o adversário de querer virar a mesa das eleições. Dilma alega que, na época da violação – setembro do ano passado -, nem era candidata, o que não é verdade.
Não era formalmente. Mas desde pelo menos 2008 que Lula já a vinha anunciando como sua sucessora. E as pesquisas mostravam Serra com ampla liderança, mesmo não tendo confirmado ainda que se candidataria. O cenário futuro, portanto, já estava esboçado.
O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou o pedido de anulação da candidatura de Dilma, requerido pelo PSDB. Não significa que se esteja diante de uma ficção. O Supremo Tribunal Federal também absolveu Fernando Collor de Mello, mesmo tendo sido deposto da Presidência da República pelo Senado Federal, em sessão presidida pelo seu ministro-presidente. A absolvição poupou Collor de consequências penais, mas não políticas. Perdeu o mandato e ficou oito anos inelegível.
Para tanto, bastou a evidência de uma conexão: um cheque de Paulo César Faria pagando o Fiat Elba da primeira dama, Rosane Collor. No caso presente, há alguns Fiat Elba em pauta, acrescidos de um dado não desprezível: a larga tradição do PT em produzir dossiês para satanizar seus adversários.
O vazamento em série de dados sigilosos de contribuintes na Receita Federal – com destaque para quatro tucanos, mais a filha de José Serra, Verônica – é o Watergate do governo Lula. Só que com aspectos mais graves que o original.
O escândalo de Watergate, ocorrido em 1972 - e que levou à renúncia do presidente dos EUA, Richard Nixon, dois anos depois -, envolvia espionagem política durante a sucessão presidencial.
Mas lá não houve o uso da máquina estatal. Foi um crime de um partido contra o outro. O Partido Republicano, do presidente e candidato à reeleição, tentou colocar microfones na sede do adversário, o Partido Democrata, para sabotar sua agenda de campanha. Havia conexões do ato com o presidente e assessores.
Constatada essa conexão, o presidente renunciou para não ser deposto. No caso presente, uma estrutura do Estado – a Receita Federal – foi usada para levantar dados sigilosos de contribuintes ligados ao PSDB e ao candidato Serra para preparação de um dossiê que o incriminasse. Os dados de um dos tucanos – o vice-presidente do partido, Eduardo Jorge – chegaram a ser publicados pela Folha de S. Paulo, que informou que constariam de um dossiê, em preparo pelo grupo de inteligência do PT.
Já aí se estabelecia a conexão entre o vazamento, a campanha eleitoral e o PT. Mas não era só. Meses antes, blogs ligados aos petistas vinham publicando informações extraídas das declarações vazadas na Receita, sobretudo de Verônica Serra e Eduardo Jorge. Outra conexão – mas ainda não é a última.
Um ex-delegado da Polícia Federal, Onézimo de Souza, disse ao Senado que fora procurado pelo grupo de inteligência do PT e pela empresa incumbida da comunicação na campanha de Dilma – a Lanzetta Comunicação - para espionar José Serra. O jornalista Luiz Lanzetta confirmou o encontro, mas negou o seu teor.
Não esclareceu, porém, que outro tema o levaria a se encontrar com um araponga – e calou-se quando este disse que tinha provas a respeito do que conversaram. Insinuou que havia gravado a conversa – e que espantosamente ainda não foi requerida pelos investigadores.
Dilma cancelou o contrato com a empresa, sinal de que viu fundamento na acusação. Até ali, o que se sabia era apenas isto: vazamento de dados de Eduardo Jorge e um dossiê contra Serra. Já era gravíssimo, mas não era tudo.
Adiante, soube-se que outros três tucanos tiveram seus dados fiscais igualmente violados – em sequência, no mesmo dia e no mesmo computador da Receita. Depois, veio a denúncia de violação de dados também contra a filha de Serra, vinculando definitivamente o escândalo à campanha. Isso já estava claro, como disse José Serra, na divulgação pelos blogs petistas de informações sigilosas de Verônica, constantes de seu imposto de renda.
Apesar disso, PT e Dilma ainda sustentam que não há vínculo entre vazamentos e campanha e tratam o episódio como “factoide”. Mais: vão à Justiça contra Serra exigir reparação moral.
Buscam transformar o episódio, um crime contra o Estado, numa manobra eleitoral. Acusam o adversário de querer virar a mesa das eleições. Dilma alega que, na época da violação – setembro do ano passado -, nem era candidata, o que não é verdade.
Não era formalmente. Mas desde pelo menos 2008 que Lula já a vinha anunciando como sua sucessora. E as pesquisas mostravam Serra com ampla liderança, mesmo não tendo confirmado ainda que se candidataria. O cenário futuro, portanto, já estava esboçado.
O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou o pedido de anulação da candidatura de Dilma, requerido pelo PSDB. Não significa que se esteja diante de uma ficção. O Supremo Tribunal Federal também absolveu Fernando Collor de Mello, mesmo tendo sido deposto da Presidência da República pelo Senado Federal, em sessão presidida pelo seu ministro-presidente. A absolvição poupou Collor de consequências penais, mas não políticas. Perdeu o mandato e ficou oito anos inelegível.
Para tanto, bastou a evidência de uma conexão: um cheque de Paulo César Faria pagando o Fiat Elba da primeira dama, Rosane Collor. No caso presente, há alguns Fiat Elba em pauta, acrescidos de um dado não desprezível: a larga tradição do PT em produzir dossiês para satanizar seus adversários.
sábado, setembro 04, 2010
A alta do PIB Miriam Leitão
O Globo
A controvérsia sobre juros e PIB continua, mas é uma discussão sem sentido. Ontem, quando o número do PIB do segundo trimestre deu 1,2%, de novo houve avaliações no mercado de que o Banco Central se precipitou ao interromper a alta dos juros, porque a média do mercado era uma previsão um pouco menor. Aqui, demos que seria 1% de alta e o resultado não foi surpresa.
Muitas instituições financeiras tinham previsto 0,5%, ou 0,4%, até 0,7%. Uma minoria achava que podia ser acima disso. O raciocínio que fizeram ontem, diante do número divulgado pelo IBGE, é que se a economia está crescendo mais do que o imaginado isso será inflacionário. Então, o Banco Central teria se precipitado ao manter a taxa Selic estável em 10,75% na última quarta-feira.
Tem gente no mercado procurando pêlo em ovo. O Banco Central não está agindo politicamente, por mais que tenha vindo a calhar para a candidatura oficial essa interrupção exatamente a um mês das eleições.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deu uma coletiva explicando que o 1,2% que parece forte na verdade é fruto do carregamento estatístico.
Olhando bem, é perto de zero.
Explico: como no primeiro trimestre o país cresceu bastante, ao ficar estável no segundo, a média do segundo comparado com a média do primeiro deu esse número de 1,2%. Veja o gráfico abaixo, apresentado ontem por Henrique Meirelles na entrevista coletiva.
Ele mostra a variação do índice IBC-BR, medido pelo próprio Banco Central, e que já apontava uma alta de 1,3%, um pouco acima do resultado oficial do IBGE, divulgado ontem.
Ou seja, o 1,2% está mais para uma parada técnica mesmo. O mais curioso é que o crescimento do terceiro trimestre deve ser um número menor, talvez a metade disso, mas vai significar crescimento mesmo.
Em resumo: 1,2% na verdade é zero; mas o provável 0,6% do terceiro trimestre será maior que o crescimento do segundo tri. O país vai crescer mais no terceiro trimestre do que no segundo, e mais no quarto do que no terceiro. O segundo semestre será bom, de crescimento, num ritmo mais sustentável.
O debate econômico brasileiro está num momento curioso. O ministro da Fazenda pegou os dados do PIB por outro ângulo, para dizer que o Brasil cresceu perto de 9% no primeiro semestre e que isso é só menor do que a China. A candidata Dilma Rousseff disse que nunca se cresceu tanto desde 1996. Já o Banco Central explicou que esse 1,2%, que dá um crescimento anualizado de 4,5% a 5%, na verdade é um efeito estatístico. O país parou de crescer no segundo trimestre.
O que foi bom para conter o excesso de velocidade do começo do ano. E que daqui para diante continua crescendo, mas nesse ritmo mais sustentável. A diferença entre as duas versões do mesmo número é a distância entre propaganda e informação técnica.
A preocupação do Banco Central tem que ser com tendência inflacionária e o fato é que as projeções caíram, o país teve inflação zero em junho, julho e agosto.
A economia mundial está mostrando sinais preocupantes, de maior dificuldade de retomada. Isso significa que as pressões inflacionárias serão menores.
Portanto, o Banco Central tinha mesmo é que interromper a escalada da Selic.
Os juros do mundo inteiro vão permanecer baixos por longo tempo porque as economias dos países desenvolvidos estão com um desempenho abaixo do esperado.
Isso é um motivo a mais para os juros brasileiros pararem de subir.
O Banco Central tem sido muito criticado, ora pelo mercado, ora pelos políticos de dentro e fora do governo, e sempre pelos empresários. A imprensa também já fez várias críticas, em várias situações, eu inclusive. Houve momentos que ele subiu, quando deveria ter derrubado os juros. Quer ver um momento? Na reunião que ocorreu em 10 de setembro de 2008, véspera do colapso do Lehman Brothers, já se sabia que a crise financeira internacional era de grandes proporções.
Os juros desabaram no mundo mas aqui subiram.
Mas ao fim e ao cabo, o Banco Central tem bons números para mostrar em sua defesa. Nos últimos seis anos a inflação média foi 4,7%, diante do centro da meta que é 4,5%. Um bom desempenho, sem dúvida.
Os juros brasileiros permanecem altos demais. Sobre isso, há concordância geral.
Há um longo trabalho a fazer para que eles possam ser mais parecidos com os do resto do mundo. Neste momento da vida nacional, nós estamos nos distanciando desse objetivo, com o governo aumentando gastos e reduzindo a transparência das contas públicas.
Esse é o problema real do país e não esse debate sobre se o Banco Central fez ou não alguma avaliação errada da conjuntura. Na minha opinião, ele não fez
A controvérsia sobre juros e PIB continua, mas é uma discussão sem sentido. Ontem, quando o número do PIB do segundo trimestre deu 1,2%, de novo houve avaliações no mercado de que o Banco Central se precipitou ao interromper a alta dos juros, porque a média do mercado era uma previsão um pouco menor. Aqui, demos que seria 1% de alta e o resultado não foi surpresa.
Muitas instituições financeiras tinham previsto 0,5%, ou 0,4%, até 0,7%. Uma minoria achava que podia ser acima disso. O raciocínio que fizeram ontem, diante do número divulgado pelo IBGE, é que se a economia está crescendo mais do que o imaginado isso será inflacionário. Então, o Banco Central teria se precipitado ao manter a taxa Selic estável em 10,75% na última quarta-feira.
Tem gente no mercado procurando pêlo em ovo. O Banco Central não está agindo politicamente, por mais que tenha vindo a calhar para a candidatura oficial essa interrupção exatamente a um mês das eleições.
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deu uma coletiva explicando que o 1,2% que parece forte na verdade é fruto do carregamento estatístico.
Olhando bem, é perto de zero.
Explico: como no primeiro trimestre o país cresceu bastante, ao ficar estável no segundo, a média do segundo comparado com a média do primeiro deu esse número de 1,2%. Veja o gráfico abaixo, apresentado ontem por Henrique Meirelles na entrevista coletiva.
Ele mostra a variação do índice IBC-BR, medido pelo próprio Banco Central, e que já apontava uma alta de 1,3%, um pouco acima do resultado oficial do IBGE, divulgado ontem.
Ou seja, o 1,2% está mais para uma parada técnica mesmo. O mais curioso é que o crescimento do terceiro trimestre deve ser um número menor, talvez a metade disso, mas vai significar crescimento mesmo.
Em resumo: 1,2% na verdade é zero; mas o provável 0,6% do terceiro trimestre será maior que o crescimento do segundo tri. O país vai crescer mais no terceiro trimestre do que no segundo, e mais no quarto do que no terceiro. O segundo semestre será bom, de crescimento, num ritmo mais sustentável.
O debate econômico brasileiro está num momento curioso. O ministro da Fazenda pegou os dados do PIB por outro ângulo, para dizer que o Brasil cresceu perto de 9% no primeiro semestre e que isso é só menor do que a China. A candidata Dilma Rousseff disse que nunca se cresceu tanto desde 1996. Já o Banco Central explicou que esse 1,2%, que dá um crescimento anualizado de 4,5% a 5%, na verdade é um efeito estatístico. O país parou de crescer no segundo trimestre.
O que foi bom para conter o excesso de velocidade do começo do ano. E que daqui para diante continua crescendo, mas nesse ritmo mais sustentável. A diferença entre as duas versões do mesmo número é a distância entre propaganda e informação técnica.
A preocupação do Banco Central tem que ser com tendência inflacionária e o fato é que as projeções caíram, o país teve inflação zero em junho, julho e agosto.
A economia mundial está mostrando sinais preocupantes, de maior dificuldade de retomada. Isso significa que as pressões inflacionárias serão menores.
Portanto, o Banco Central tinha mesmo é que interromper a escalada da Selic.
Os juros do mundo inteiro vão permanecer baixos por longo tempo porque as economias dos países desenvolvidos estão com um desempenho abaixo do esperado.
Isso é um motivo a mais para os juros brasileiros pararem de subir.
O Banco Central tem sido muito criticado, ora pelo mercado, ora pelos políticos de dentro e fora do governo, e sempre pelos empresários. A imprensa também já fez várias críticas, em várias situações, eu inclusive. Houve momentos que ele subiu, quando deveria ter derrubado os juros. Quer ver um momento? Na reunião que ocorreu em 10 de setembro de 2008, véspera do colapso do Lehman Brothers, já se sabia que a crise financeira internacional era de grandes proporções.
Os juros desabaram no mundo mas aqui subiram.
Mas ao fim e ao cabo, o Banco Central tem bons números para mostrar em sua defesa. Nos últimos seis anos a inflação média foi 4,7%, diante do centro da meta que é 4,5%. Um bom desempenho, sem dúvida.
Os juros brasileiros permanecem altos demais. Sobre isso, há concordância geral.
Há um longo trabalho a fazer para que eles possam ser mais parecidos com os do resto do mundo. Neste momento da vida nacional, nós estamos nos distanciando desse objetivo, com o governo aumentando gastos e reduzindo a transparência das contas públicas.
Esse é o problema real do país e não esse debate sobre se o Banco Central fez ou não alguma avaliação errada da conjuntura. Na minha opinião, ele não fez
Generalidades nem um pouco inocentes : uma reflexão sobre a ‘novilingua’ petista - Bolívar Lamounier
BLOG DO BOLIVAR
Instado a comentar a quebra do sigilo fiscal da filha de José Serra, o ministro Guido Mantega disse hoje aos jornalistas que vazamentos na Receita Federal sempre ocorreram . E acrescentou : sistema à prova de violação, não existe.
Eu mal acabara de ler as palavras do ministro e já uma indagação pululava em minha cabeça : será que as altas lideranças petistas vêm tendo alguma atração especial por generalidades ? Por que têm vários deles optado por respostas genéricas quando o que se lhes pede são explicações sobre situações bem concretas e particulares ?
Por favor, me entendam . Longe de mim contestar a relevância do assunto tratado pelo ministro. O grau de segurança dos sistemas utilizados pela Receita Federal para salvaguardar informações sigilosas é, sem dúvida, um tema da maior importância.
O problema é que respostas genéricas, mesmo relevantes, muitas vezes soam como desconversa ou tergiversação.
Gramatical e tecnicamente, o ministro Mantega se expressou de maneira adequada. O site Folha.com transcreveu-lhe as palavras : “Vazamentos sempre ocorreram. Se você olhar para o passado, tem vários que aconteceram. A gente detecta, coíbe, pune e muda o sistema. Infelizmente, depois os contraventores conseguem achar uma maneira de furar isso”.
O que vem estarrecendo o país não é a vulnerabilidade potencial do sistema da Receita – ou seja, uma quebra de sigilo considerada em abstrato.
É a violação de informações de várias pessoas estreitamente ligadas a um candidato à presidência da República, sabendo-se, ademais, que pelo menos uma parte dessas informações foi parar nas mãos de pessoas ligadas à candidatura contrária.
Quase quatro décadas atrás, o que abalou os Estados Unidos não foi a possibilidade, genericamente falando, de um grupo qualquer de delinquentes invadir um escritório na calada da noite.
Foi o episódio específico, particular, concretíssimo de Watergate : a invasão do escritório dos democratas por meliantes a soldo dos republicanos e com o conhecimento do próprio presidente da república, Richard Nixon.
Mas devo aqui retomar a interrogação que suscitei no início do texto. Será que a alta direção petista anda mesmo seduzida por pensamentos genéricos ? Estará talvez com dificuldade – quem sabe pela ação de algum vírus – de ajustar o nível de abstração das respostas ao das questões de candente interesse público que reclamam sua atenção ?
Vou dar outro exemplo. Os que me lêem certamente se lembram de um episódio ocorrido em Cuba no começo deste ano : a morte de Zapata, um prisioneiro político em greve havia 85 dias. Os dois Castro foram severamente criticados no mundo inteiro pela persistente violação dos direitos humanos na ilha .
Naquele momento, como todos também se lembram, o presidente Lula e vários de seus auxiliares mais próximos encontravam-se na ilha.
A televisão mostrou cenas constrangedoras, uma das quais foi o presidente Lula comparando os presos políticos de Cuba a criminosos comuns de São Paulo.
Por razões óbvias, um comentário do doutor Marco Aurélio Garcia, assessor presidencial para assuntos internacionais, quase não foi comentado na imprensa. Cito de memória, certo de não estar distorcendo suas palavras : “Problemas de direitos humanos ocorrem no mundo todo”.
No plano das generalidades, a declaração do ilustre assessor foi precisa, irretocável. Como contestar que violações de direitos humanos ocorrem no mundo todo ? Eu não contesto.
O problema é o desajuste entre o pensamento expresso pelo mencionado assessor e a análise ou quem sabe o sentimento que a realidade à sua volta estava a demandar. A que realidade estou aqui me referindo ? À morte de Zapata, é claro. E aos cento e muitos prisioneiros que o regime cubano mantém e qualifica como “prisioneiros políticos”.
Vem-me também à memória uma declaração feita alguns anos atrás pelo próprio presidente Lula. Foi durante uma entrevista que ele concedeu em Paris à imprensa brasileira – a uma única jornalista, se me lembro bem.
Perplexo, o Brasil inteiro queria conhecer o pensamento de Sua Excelência sobre aquela abundância inacreditável de desmandos e irregularidades que entrou para a história como o escândalo do “mensalão” : o envolvimento mais que comprovado de congressistas ligados à base do governo ; a clara demonstração de que vários deles receberam, diretamente ou por interposta pessoa, polpudas somas em espécie em dois ou três bancos ; o presidente do PT declarando ter tomado um empréstimo bancário sem ler o documento pertinente. Etc etc etc.
Foi nessa ocasião que o presidente do Brasil encampou e tornou “oficial” a doutrina Márcio Thomaz Bastos : “foi tudo caixa 2, e caixa 2 todo mundo faz ; portanto…”
Eis aí, mais uma vez, a linguagem-padrão a que me referi : um gosto que pouco ou nada tem de inocente por generalidades . Um estranho e chocante desajuste entre o que a autoridade diz e a explicação que a realidade à sua volta exige.
Instado a comentar a quebra do sigilo fiscal da filha de José Serra, o ministro Guido Mantega disse hoje aos jornalistas que vazamentos na Receita Federal sempre ocorreram . E acrescentou : sistema à prova de violação, não existe.
Eu mal acabara de ler as palavras do ministro e já uma indagação pululava em minha cabeça : será que as altas lideranças petistas vêm tendo alguma atração especial por generalidades ? Por que têm vários deles optado por respostas genéricas quando o que se lhes pede são explicações sobre situações bem concretas e particulares ?
Por favor, me entendam . Longe de mim contestar a relevância do assunto tratado pelo ministro. O grau de segurança dos sistemas utilizados pela Receita Federal para salvaguardar informações sigilosas é, sem dúvida, um tema da maior importância.
O problema é que respostas genéricas, mesmo relevantes, muitas vezes soam como desconversa ou tergiversação.
Gramatical e tecnicamente, o ministro Mantega se expressou de maneira adequada. O site Folha.com transcreveu-lhe as palavras : “Vazamentos sempre ocorreram. Se você olhar para o passado, tem vários que aconteceram. A gente detecta, coíbe, pune e muda o sistema. Infelizmente, depois os contraventores conseguem achar uma maneira de furar isso”.
O que vem estarrecendo o país não é a vulnerabilidade potencial do sistema da Receita – ou seja, uma quebra de sigilo considerada em abstrato.
É a violação de informações de várias pessoas estreitamente ligadas a um candidato à presidência da República, sabendo-se, ademais, que pelo menos uma parte dessas informações foi parar nas mãos de pessoas ligadas à candidatura contrária.
Quase quatro décadas atrás, o que abalou os Estados Unidos não foi a possibilidade, genericamente falando, de um grupo qualquer de delinquentes invadir um escritório na calada da noite.
Foi o episódio específico, particular, concretíssimo de Watergate : a invasão do escritório dos democratas por meliantes a soldo dos republicanos e com o conhecimento do próprio presidente da república, Richard Nixon.
Mas devo aqui retomar a interrogação que suscitei no início do texto. Será que a alta direção petista anda mesmo seduzida por pensamentos genéricos ? Estará talvez com dificuldade – quem sabe pela ação de algum vírus – de ajustar o nível de abstração das respostas ao das questões de candente interesse público que reclamam sua atenção ?
Vou dar outro exemplo. Os que me lêem certamente se lembram de um episódio ocorrido em Cuba no começo deste ano : a morte de Zapata, um prisioneiro político em greve havia 85 dias. Os dois Castro foram severamente criticados no mundo inteiro pela persistente violação dos direitos humanos na ilha .
Naquele momento, como todos também se lembram, o presidente Lula e vários de seus auxiliares mais próximos encontravam-se na ilha.
A televisão mostrou cenas constrangedoras, uma das quais foi o presidente Lula comparando os presos políticos de Cuba a criminosos comuns de São Paulo.
Por razões óbvias, um comentário do doutor Marco Aurélio Garcia, assessor presidencial para assuntos internacionais, quase não foi comentado na imprensa. Cito de memória, certo de não estar distorcendo suas palavras : “Problemas de direitos humanos ocorrem no mundo todo”.
No plano das generalidades, a declaração do ilustre assessor foi precisa, irretocável. Como contestar que violações de direitos humanos ocorrem no mundo todo ? Eu não contesto.
O problema é o desajuste entre o pensamento expresso pelo mencionado assessor e a análise ou quem sabe o sentimento que a realidade à sua volta estava a demandar. A que realidade estou aqui me referindo ? À morte de Zapata, é claro. E aos cento e muitos prisioneiros que o regime cubano mantém e qualifica como “prisioneiros políticos”.
Vem-me também à memória uma declaração feita alguns anos atrás pelo próprio presidente Lula. Foi durante uma entrevista que ele concedeu em Paris à imprensa brasileira – a uma única jornalista, se me lembro bem.
Perplexo, o Brasil inteiro queria conhecer o pensamento de Sua Excelência sobre aquela abundância inacreditável de desmandos e irregularidades que entrou para a história como o escândalo do “mensalão” : o envolvimento mais que comprovado de congressistas ligados à base do governo ; a clara demonstração de que vários deles receberam, diretamente ou por interposta pessoa, polpudas somas em espécie em dois ou três bancos ; o presidente do PT declarando ter tomado um empréstimo bancário sem ler o documento pertinente. Etc etc etc.
Foi nessa ocasião que o presidente do Brasil encampou e tornou “oficial” a doutrina Márcio Thomaz Bastos : “foi tudo caixa 2, e caixa 2 todo mundo faz ; portanto…”
Eis aí, mais uma vez, a linguagem-padrão a que me referi : um gosto que pouco ou nada tem de inocente por generalidades . Um estranho e chocante desajuste entre o que a autoridade diz e a explicação que a realidade à sua volta exige.
O império dos oprimidos Guilherme Fiuza
O GLOBO
Quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005, o companheiro Delúbio foi logo avisando que aquilo era uma tentativa de golpe da direita contra o governo popular. Agora, com o escândalo da espionagem na Receita Federal, a companheira Dilma alerta que "estão tentando virar a mesa da democracia". O enredo da esquerda oprimida, como se vê, é inesgotável.
É dura a tarefa de se perpetuar no poder e continuar oprimido. Requer uma formidável ginástica conceitual, quase um presépio de fetiches - o papai pobre, a mamãe heroica, o filho do Brasil, a manjedoura estatal. Foi penoso para o então tesoureiro Delúbio Soares interromper as baforadas no charuto cubano para gritar, empanturrado de verbas públicas privatizadas pelo PT, que precisava de socorro contra a ameaça das elites. Não deve ser fácil passar a vida erguendo barricadas imaginárias.
Dilma Rousseff que o diga. As operações na penumbra para detonar adversários políticos - como o dossiê Ruth Cardoso, montado em seu gabinete na Casa Civil - não lhe deixaram feridas. O famigerado "banco de dados" sobre as despesas pessoais da falecida ex-primeira-dama, que é exemplo de dignidade na política brasileira, parece até que não existiu. Sumiu na poeira da mitologia eleitoral, onde Dilma é apenas a mulher valente que luta pelos pobres.
O caso Lina Vieira também ficou invisível nesse presépio. A ex-secretária da Receita Federal denunciou Dilma por tráfico de influência, afirmando que a então ministra ordenou-lhe tratamento especial a um processo envolvendo a família Sarney. Lina sumiu, e a investigação também. O Brasil deixou para trás um indício grave de interferência política da ministra-chefe da Casa Civil na Receita Federal. Um belo habeas corpus para a conspiração.
O escândalo da invasão do sigilo da filha de José Serra na Receita, portanto, pode ser tudo - menos surpreendente. O roteiro do filme estava pronto, na cara de todos. Já tinha até trailer, com o caso Eduardo Jorge, o vice-presidente do PSDB cujo sigilo fiscal foi igualmente socializado. Há meses o país assiste a esse trailer soturno: como um cidadão de segunda classe, Eduardo Jorge persegue por conta própria a reparação por seus direitos violados, diante de uma Receita Federal impávida, fingindo-se de morta.
O caso Verônica Serra já começava a ser cozinhado no mesmo fogo lento. O secretário da Receita - o diligente substituto de Lina Vieira - chegara a informar que os dados de Verônica tinham sido solicitados por ela mesma. Aí entrou em ação a imprensa, essa entidade que existe para atrapalhar a química entre o governo de esquerda e o povo. E veio à tona a informação inconveniente: não só a procuração apresentada à Receita era falsa, como a essa altura a própria Receita já sabia disso. Sabia, mas não contou para ninguém. Deve ser uma outra concepção de sigilo.
Os percursos do valerioduto entre as estatais brasileiras e o partido do presidente, os bancos de dados extraoficiais, a conduta temperamental de órgãos técnicos capitais como a Receita Federal - para ficar só no universo da máquina pública - compõem uma literatura republicana no mínimo intrigante. Em circunstâncias normais, este seria um governo sob suspeita. Ou talvez, acossado pela vigilância democrática, já tivesse corrigido esses desvios - curando-se da obsessão de submeter o Estado ao cabresto partidário.
Mas as circunstâncias não são normais. Dificilmente haverá um paralelo, em toda a história da democracia, de um governo quase à prova de desgaste, que chega ao fim de um exercício de oito anos com menos de 5% da população a reprová-lo. E em regime de plena liberdade. Esta é a façanha de Lula, legítima, que todos precisam reconhecer - mesmo os que discordam de suas políticas. O problema é o que será feito com essa fortuna de popularidade.
O caminho da mistificação populista, simbolizado pela lavagem cerebral do "nunca antes na história deste país", provavelmente já estaria abrandado se o cenário da sucessão de Lula fosse outro. A necessidade de inventar Dilma Rousseff, uma militante despreparada, insegura e absolutamente desprovida de magnetismo e propensão ao diálogo, fez recrudescer a blindagem mitológica. A alta vulnerabilidade da candidata ressuscitou os instintos mais autoritários do PT.
O pesadelo de todos os envolvidos no Plano Dilma é que sua fragilidade e mediocridade acabem expostas em praça pública. E que o paraíso do lulismo acima do bem e do mal chegue ao fim, com a inevitável percepção geral dos problemas reais - como a bagunça institucional que avança no setor público, vide o escândalo da Receita, entre outros desmandos.
Resta a Dilma gritar que estão querendo virar a mesa da democracia, evocando os totens do oprimido para manter a hipnose coletiva. O risco para ela e seus companheiros é perder o poder. O risco para o Brasil é perder a liberdade.
Quando estourou o escândalo do mensalão, em 2005, o companheiro Delúbio foi logo avisando que aquilo era uma tentativa de golpe da direita contra o governo popular. Agora, com o escândalo da espionagem na Receita Federal, a companheira Dilma alerta que "estão tentando virar a mesa da democracia". O enredo da esquerda oprimida, como se vê, é inesgotável.
É dura a tarefa de se perpetuar no poder e continuar oprimido. Requer uma formidável ginástica conceitual, quase um presépio de fetiches - o papai pobre, a mamãe heroica, o filho do Brasil, a manjedoura estatal. Foi penoso para o então tesoureiro Delúbio Soares interromper as baforadas no charuto cubano para gritar, empanturrado de verbas públicas privatizadas pelo PT, que precisava de socorro contra a ameaça das elites. Não deve ser fácil passar a vida erguendo barricadas imaginárias.
Dilma Rousseff que o diga. As operações na penumbra para detonar adversários políticos - como o dossiê Ruth Cardoso, montado em seu gabinete na Casa Civil - não lhe deixaram feridas. O famigerado "banco de dados" sobre as despesas pessoais da falecida ex-primeira-dama, que é exemplo de dignidade na política brasileira, parece até que não existiu. Sumiu na poeira da mitologia eleitoral, onde Dilma é apenas a mulher valente que luta pelos pobres.
O caso Lina Vieira também ficou invisível nesse presépio. A ex-secretária da Receita Federal denunciou Dilma por tráfico de influência, afirmando que a então ministra ordenou-lhe tratamento especial a um processo envolvendo a família Sarney. Lina sumiu, e a investigação também. O Brasil deixou para trás um indício grave de interferência política da ministra-chefe da Casa Civil na Receita Federal. Um belo habeas corpus para a conspiração.
O escândalo da invasão do sigilo da filha de José Serra na Receita, portanto, pode ser tudo - menos surpreendente. O roteiro do filme estava pronto, na cara de todos. Já tinha até trailer, com o caso Eduardo Jorge, o vice-presidente do PSDB cujo sigilo fiscal foi igualmente socializado. Há meses o país assiste a esse trailer soturno: como um cidadão de segunda classe, Eduardo Jorge persegue por conta própria a reparação por seus direitos violados, diante de uma Receita Federal impávida, fingindo-se de morta.
O caso Verônica Serra já começava a ser cozinhado no mesmo fogo lento. O secretário da Receita - o diligente substituto de Lina Vieira - chegara a informar que os dados de Verônica tinham sido solicitados por ela mesma. Aí entrou em ação a imprensa, essa entidade que existe para atrapalhar a química entre o governo de esquerda e o povo. E veio à tona a informação inconveniente: não só a procuração apresentada à Receita era falsa, como a essa altura a própria Receita já sabia disso. Sabia, mas não contou para ninguém. Deve ser uma outra concepção de sigilo.
Os percursos do valerioduto entre as estatais brasileiras e o partido do presidente, os bancos de dados extraoficiais, a conduta temperamental de órgãos técnicos capitais como a Receita Federal - para ficar só no universo da máquina pública - compõem uma literatura republicana no mínimo intrigante. Em circunstâncias normais, este seria um governo sob suspeita. Ou talvez, acossado pela vigilância democrática, já tivesse corrigido esses desvios - curando-se da obsessão de submeter o Estado ao cabresto partidário.
Mas as circunstâncias não são normais. Dificilmente haverá um paralelo, em toda a história da democracia, de um governo quase à prova de desgaste, que chega ao fim de um exercício de oito anos com menos de 5% da população a reprová-lo. E em regime de plena liberdade. Esta é a façanha de Lula, legítima, que todos precisam reconhecer - mesmo os que discordam de suas políticas. O problema é o que será feito com essa fortuna de popularidade.
O caminho da mistificação populista, simbolizado pela lavagem cerebral do "nunca antes na história deste país", provavelmente já estaria abrandado se o cenário da sucessão de Lula fosse outro. A necessidade de inventar Dilma Rousseff, uma militante despreparada, insegura e absolutamente desprovida de magnetismo e propensão ao diálogo, fez recrudescer a blindagem mitológica. A alta vulnerabilidade da candidata ressuscitou os instintos mais autoritários do PT.
O pesadelo de todos os envolvidos no Plano Dilma é que sua fragilidade e mediocridade acabem expostas em praça pública. E que o paraíso do lulismo acima do bem e do mal chegue ao fim, com a inevitável percepção geral dos problemas reais - como a bagunça institucional que avança no setor público, vide o escândalo da Receita, entre outros desmandos.
Resta a Dilma gritar que estão querendo virar a mesa da democracia, evocando os totens do oprimido para manter a hipnose coletiva. O risco para ela e seus companheiros é perder o poder. O risco para o Brasil é perder a liberdade.
Não passarão! Roberto Freire
BRASIL ECONÔMICO
Freire: Lula ameaça liberdades democráticas e Estado de Direito
"A propaganda dos movimentos totalitários, que precede a instauração desses regimes e os acompanha, é invariavelmente tão franca quanto mentirosa, e os governantes totalitários em potencial geralmente iniciam suas carreiras vangloriando-se de crimes passados e planejando cuidadosamente seus crimes futuros". Esse trecho do livro As origens do Totalitarismo, de Hanna Arendt, caracteriza o momento que estamos vivendo no Brasil. Além da similitude flagrante que encontramos entre os 8 anos de lulopetismo e os movimentos autoritários que ascenderam ao poder na Europa em particular na Itália e na Alemanha nas décadas de 20 e 30, que traziam a conformação de uma aliança entre o grande capital e respectivos grupos econômicos e o lumpesinato, a reiterada desmoralização das instituições republicanas perpretada pelo governo petista e seus aliados e seguidores com objetivo de atingir os adversários e eleger a candidata oficial a qualquer custo, nos faz lembrar os tempos nefastos do fascismo.
O governo de Lula consolidou nesse período a ameaça às liberdades democráticas e ao Estado de Direito, com uma pressão crescente sobre a imprensa (sempre adjetivada de “grande imprensa empresarial e burguesa”, por seus ideólogos e de PIG pelos asseclas), por meio de conferencias patrocinadas pelo Estado apoiadas por ONG’s muitas das quais subvencionadas pelo dinheiro do contribuinte.
O aparelhamento do Estado, por uma militância arrivista e autoritária que usa os instrumentos do Estado não em benefício da sociedade, mas em seu projeto de poder. Com a privatização do Estado aos interesses do grande capital em conluio com o PT e partidos aliados. Como fica evidente na utilização que se faz das estatais e ministérios.
Bem como o assalto aos princípios constitucionais que fundamentam o Estado de Direito, revogando, na prática o artigo 5º da Constituição que garante aos “brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
A quebra dos direitos constitucionais, pela ação programada de agentes do Estado, solapando, paulatinamente, as bases do Estado Democrático, como prática recorrente deste governo, em torno de um específico projeto de poder, para quem princípios democráticos não são mais que estorvo.
O episódio da violação dos sigilos fiscais de políticos e empresários e da filha do próprio candidato a presidente da oposição, José Serra - e cujo ovo da serpente vinha desde a quebra do sigilo bancáriodo caseiro Francenildo - se insere no contexto dessa escalada antidemocrática, que cada vez mais parece ser o grande legado do atual governo.
E tão condenável quanto o ato de violar um sigilo que deveria ser resguardado pela instituição pública, Receita Federal, é o argumento cínico de que quem não tem nada a esconder não deveria reclamar de ter seus dados divulgados a revelia. Nada mais errado. Essa linha de raciocínio flerta com a lógica totalitária de que o individuo não merece ter privacidade.
Os verdadeiros democratas brasileiros precisam reagir contra esse retrocesso. Os verdadeiros democratas que lutaram no MDB contra a ditadura, que votaram em Tancredo no Colégio Eleitoral, que assinaram a Constituinte, que participaram do governo pós impeachment de Itamar, ou seja, os verdadeiros democratas que têm a clareza que para o Brasil avançar não podemos pegar atalhos e nem fazer concessões com nossas conquistas democráticas.
Freire: Lula ameaça liberdades democráticas e Estado de Direito
"A propaganda dos movimentos totalitários, que precede a instauração desses regimes e os acompanha, é invariavelmente tão franca quanto mentirosa, e os governantes totalitários em potencial geralmente iniciam suas carreiras vangloriando-se de crimes passados e planejando cuidadosamente seus crimes futuros". Esse trecho do livro As origens do Totalitarismo, de Hanna Arendt, caracteriza o momento que estamos vivendo no Brasil. Além da similitude flagrante que encontramos entre os 8 anos de lulopetismo e os movimentos autoritários que ascenderam ao poder na Europa em particular na Itália e na Alemanha nas décadas de 20 e 30, que traziam a conformação de uma aliança entre o grande capital e respectivos grupos econômicos e o lumpesinato, a reiterada desmoralização das instituições republicanas perpretada pelo governo petista e seus aliados e seguidores com objetivo de atingir os adversários e eleger a candidata oficial a qualquer custo, nos faz lembrar os tempos nefastos do fascismo.
O governo de Lula consolidou nesse período a ameaça às liberdades democráticas e ao Estado de Direito, com uma pressão crescente sobre a imprensa (sempre adjetivada de “grande imprensa empresarial e burguesa”, por seus ideólogos e de PIG pelos asseclas), por meio de conferencias patrocinadas pelo Estado apoiadas por ONG’s muitas das quais subvencionadas pelo dinheiro do contribuinte.
O aparelhamento do Estado, por uma militância arrivista e autoritária que usa os instrumentos do Estado não em benefício da sociedade, mas em seu projeto de poder. Com a privatização do Estado aos interesses do grande capital em conluio com o PT e partidos aliados. Como fica evidente na utilização que se faz das estatais e ministérios.
Bem como o assalto aos princípios constitucionais que fundamentam o Estado de Direito, revogando, na prática o artigo 5º da Constituição que garante aos “brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.
A quebra dos direitos constitucionais, pela ação programada de agentes do Estado, solapando, paulatinamente, as bases do Estado Democrático, como prática recorrente deste governo, em torno de um específico projeto de poder, para quem princípios democráticos não são mais que estorvo.
O episódio da violação dos sigilos fiscais de políticos e empresários e da filha do próprio candidato a presidente da oposição, José Serra - e cujo ovo da serpente vinha desde a quebra do sigilo bancáriodo caseiro Francenildo - se insere no contexto dessa escalada antidemocrática, que cada vez mais parece ser o grande legado do atual governo.
E tão condenável quanto o ato de violar um sigilo que deveria ser resguardado pela instituição pública, Receita Federal, é o argumento cínico de que quem não tem nada a esconder não deveria reclamar de ter seus dados divulgados a revelia. Nada mais errado. Essa linha de raciocínio flerta com a lógica totalitária de que o individuo não merece ter privacidade.
Os verdadeiros democratas brasileiros precisam reagir contra esse retrocesso. Os verdadeiros democratas que lutaram no MDB contra a ditadura, que votaram em Tancredo no Colégio Eleitoral, que assinaram a Constituinte, que participaram do governo pós impeachment de Itamar, ou seja, os verdadeiros democratas que têm a clareza que para o Brasil avançar não podemos pegar atalhos e nem fazer concessões com nossas conquistas democráticas.
CESAR MAIA As UPPs
FOLHA DE SÃO PAULO - 04/09/10
O Estado do Rio, ao introduzir as UPPs (unidades de polícia pacificadora) em algumas favelas, estimulou convergências de opinião. Afinal, a dualidade de Estado na área de justiça e segurança e a ruptura do monopólio do uso da força, pilar do Estado de Direito, são inadmissíveis.
O ano eleitoral terminou servindo de palco para que as UPPs servissem de estandarte para a própria eleição presidencial. Por isso mesmo é necessária uma análise mais cuidadosa -não dos méritos, mas do alcance da iniciativa.
Aqui se destacam dois pontos: o objeto e a expansão. O objeto das UPPs não é combater o tráfico de drogas no varejo das favelas, mas levar os traficantes a abandonarem algumas dessas áreas, retomando, assim, o monopólio estatal do uso da força.
As próprias autoridades chamam a atenção para isso ao destacar que as comunidades foram ocupadas sem a troca de um tiro. Do ponto de vista da região metropolitana do Rio, houve um deslocamento deles para outras comunidades, aumentando, nestas, a ostensividade dos traficantes.
A expansão do programa deve ser analisada com base nas ocupações ocorridas até aqui nas favelas da zona sul do Rio, onde o tempo de permanência é maior. São favelas de porte médio-pequeno, com 4.000 a 5.000 habitantes. A ocupação é feita com efetivo de 150 policiais militares, numa relação de uns 30 habitantes por policial.
No caso dos bairros, essa relação é de 1.000 habitantes por policial. Um batalhão tem 400 policiais militares para 400 mil habitantes. Na zona norte, a mais violenta da capital, essa relação é de 2.120 habitantes por policial. Aquela relação de 30 impediria a universalização do programa, pois o efetivo da PM teria que ser triplicado. Portanto, a expansão depende de ir alterando a escala, para que não fique apenas nos bairros de renda mais alta.
O episódio recente na Rocinha/São Conrado é bem elucidativo. Todas as favelas da zona sul com UPPs eram controladas pelo Comando Vermelho. As maiores (Rocinha e Vidigal) são pela ADA (Amigos dos Amigos). Com isso a ADA passou a ter o monopólio da venda de drogas no atraente mercado da zona sul. E assim seu poder financeiro e bélico aumentou muito.
Os efetivos filmados no episódio constituíam um batalhão uniformizado de preto. Lá, o "exército" armado e uniformizado já tem 400 homens. As elogiáveis UPPs devem ser entendidas como um vetor de intervenção, e nunca como política de segurança pública.
E assim mesmo deve-se planejar a escala para que não seja só laboratório para divulgação. Afinal, elas entraram numa região da cidade onde a taxa de homicídios, de 8 por 100 mil habitantes, é apenas 20% da média da capital.
O Estado do Rio, ao introduzir as UPPs (unidades de polícia pacificadora) em algumas favelas, estimulou convergências de opinião. Afinal, a dualidade de Estado na área de justiça e segurança e a ruptura do monopólio do uso da força, pilar do Estado de Direito, são inadmissíveis.
O ano eleitoral terminou servindo de palco para que as UPPs servissem de estandarte para a própria eleição presidencial. Por isso mesmo é necessária uma análise mais cuidadosa -não dos méritos, mas do alcance da iniciativa.
Aqui se destacam dois pontos: o objeto e a expansão. O objeto das UPPs não é combater o tráfico de drogas no varejo das favelas, mas levar os traficantes a abandonarem algumas dessas áreas, retomando, assim, o monopólio estatal do uso da força.
As próprias autoridades chamam a atenção para isso ao destacar que as comunidades foram ocupadas sem a troca de um tiro. Do ponto de vista da região metropolitana do Rio, houve um deslocamento deles para outras comunidades, aumentando, nestas, a ostensividade dos traficantes.
A expansão do programa deve ser analisada com base nas ocupações ocorridas até aqui nas favelas da zona sul do Rio, onde o tempo de permanência é maior. São favelas de porte médio-pequeno, com 4.000 a 5.000 habitantes. A ocupação é feita com efetivo de 150 policiais militares, numa relação de uns 30 habitantes por policial.
No caso dos bairros, essa relação é de 1.000 habitantes por policial. Um batalhão tem 400 policiais militares para 400 mil habitantes. Na zona norte, a mais violenta da capital, essa relação é de 2.120 habitantes por policial. Aquela relação de 30 impediria a universalização do programa, pois o efetivo da PM teria que ser triplicado. Portanto, a expansão depende de ir alterando a escala, para que não fique apenas nos bairros de renda mais alta.
O episódio recente na Rocinha/São Conrado é bem elucidativo. Todas as favelas da zona sul com UPPs eram controladas pelo Comando Vermelho. As maiores (Rocinha e Vidigal) são pela ADA (Amigos dos Amigos). Com isso a ADA passou a ter o monopólio da venda de drogas no atraente mercado da zona sul. E assim seu poder financeiro e bélico aumentou muito.
Os efetivos filmados no episódio constituíam um batalhão uniformizado de preto. Lá, o "exército" armado e uniformizado já tem 400 homens. As elogiáveis UPPs devem ser entendidas como um vetor de intervenção, e nunca como política de segurança pública.
E assim mesmo deve-se planejar a escala para que não seja só laboratório para divulgação. Afinal, elas entraram numa região da cidade onde a taxa de homicídios, de 8 por 100 mil habitantes, é apenas 20% da média da capital.
MERVAL PEREIRA Atrás do voto ético
O GLOBO - 04/09/10
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, responsável direto pela Receita Federal e pela nomeação de Otacílio Cartaxo para comandá-la, depois de um inexplicável mutismo nos primeiros dias — explicável apenas pelo temor de assumir uma posição — resolveu explicar-se ao distinto público com a mesma tática utilizada pelo governo nos diversos escândalos que estouraram nos últimos anos: preferiu admitir que a Receita não tem condições de controlar o sigilo fiscal do contribuinte a admitir que há intenções políticas na quebra de sigilo da filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, e de pessoas ligadas a ele e ao partido oposicionista.
O próprio Cartaxo já assumira esse papel de desmoralizarse publicamente, admitindo que a Receita estava fora de seu controle, transformada em uma agência de compra e venda de sigilos fiscais.
Tudo é feito para incluir no mesmo balaio as violações claramente políticas e as realizadas com fins puramente financeiros, neste mercado persa em que parece ter se transformado o órgão.
Perversamente, o governo parece respirar aliviado ao constatar que há uma lista de 140 pessoas que tiveram seu sigilo quebrado na agência de Mauá, em São Paulo, podendo dessa maneira confundir as investigações.
Tentando despolitizar o caso, o ministro da Fazenda age igual a um colega seu, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, que, como advogado criminal de reconhecidos méritos, trouxe para dentro do governo a tese do caixa 2, para despolitizar o escândalo do mensalão em 2005.
E, da mesma maneira que faz hoje, também naquela ocasião o presidente Lula foi o primeiro a tipificar de crime eleitoral o que acontecia nos bastidores da base governista do Congresso, retirando do mensalão a carga de corrupção política grave que o caso realmente tinha.
Desta vez o presidente Lula tratou a questão da quebra de sigilo da filha do candidato tucano como sendo de crime de “falsidade ideológica”, como se a falsificação da procuração utilizada para retirar da agência da Receita de Santo André os dados fiscais de Verônica Serra fosse o principal crime cometido.
Assim como aconteceu também em 2006, os governistas já começam a gritar aos quatro cantos que a oposição quer ganhar o jogo no “tapetão”, mudando o resultado das urnas na Justiça Eleitoral.
Em primeiro lugar, a eleição não está decidida, apesar da enorme vantagem com que a candidata oficial aparece nas pesquisas eleitorais.
Há no máximo uma tendência de crescimento de Dilma Rousseff que, se continuar, juntamente com o movimento contrário do candidato José Serra, deverá levá-la à vitória.
Mas, se, como alegam os governistas, o PSDB está utilizando o episódio para tentar mudar essa trajetória e levar a eleição para o segundo turno, não há nada de anormal nessa ação política.
O que vem acontecendo dentro da Receita Federal é a consequência de um aparelhamento político da máquina do Estado que vem sendo denunciado há muito tempo pela oposição, e nada mais lógico que ela sublinhe os perigos que a sociedade corre com um tipo de política como a que seus adversários utilizam.
O tema é de difícil compreensão para a maioria dos eleitores brasileiros, e é por isso que a campanha petista considera que terá pouco ou nenhum impacto na decisão final do eleitor.
Pode ser verdade, e constatar isso só aumenta a preocupação com o grau de compreensão de seus direitos dessa imensa massa de eleitores que, na definição do historiador José Murilo de Carvalho, “vive no mundo da necessidade” e votará “muito racionalmente” em quem ela julga capaz de ajudá-la.
Por outro lado, há um nicho de eleitores que já esteve apoiando o candidato tucano, José Serra, no princípio da campanha eleitoral que pode se sensibilizar pelas evidências de que os métodos nada republicanos enraizados na ação política petista são uma real ameaça ao estado de direito.
A candidata oficial, Dilma Rousseff, atualmente vence seu adversário em todas as regiões do país e em todas as classes sociais, mas pode vir a perder alguma substância nas grandes cidades, entre os eleitores de maior escolaridade ou renda, mais sensíveis a esse tipo de ameaça a seus direitos civis.
A mensagem do candidato tucano tem o objetivo de reconquistar esse eleitorado nestes momentos finais da campanha presidencial, e não há nada de errado nessa estratégia.
A acusação de que o PSDB está querendo ganhar a eleição no tapetão jurídico aproveitase do que já considerei aqui um erro estratégico da oposição, que entrou com um pedido de investigação noTribunal Superior Eleitoral (TSE) contra abusos do poder político por parte do governo federal, que estaria usando a máquina do Estado contra a oposição.
Continuo achando que existem fatos e indícios suficientes para que a oposição desencadeie, como vem desencadeando, uma ação política forte contra o governo.
Mas claramente não há ainda, em termos jurídicos, provas concretas que justifiquem uma ação que possa levar à impugnação da candidata do governo.
A campanha tucana alega que só existe esse caminho, e que pedir uma investigação da Justiça Eleitoral não significa tentar impugnar a candidatura adversária.
O pedido de investigação seria uma maneira de chamar a atenção da Justiça Eleitoral para o que está acontecendo, constrangendo assim os que estariam agindo ilegalmente, além de colocar o foco do TSE na questão do abuso do poder político por parte do governo.
Laços ligando a campanha de reeleição de Lula à compra do dossiê em São Paulo eram muito mais evidentes e claros em 2006, e nem por isso o PSDB na ocasião pediu a intervenção do TSE.
A situação atual é muito mais grave potencialmente do que aquela de 2006. Enquanto lá era puro ato de banditismo em campanha eleitoral, hoje há uma quebra constitucional que atinge os direitos civis dos cidadãos brasileiros, até mesmo daqueles que não entendem o alcance da ameaça, os muitos francenildos.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, responsável direto pela Receita Federal e pela nomeação de Otacílio Cartaxo para comandá-la, depois de um inexplicável mutismo nos primeiros dias — explicável apenas pelo temor de assumir uma posição — resolveu explicar-se ao distinto público com a mesma tática utilizada pelo governo nos diversos escândalos que estouraram nos últimos anos: preferiu admitir que a Receita não tem condições de controlar o sigilo fiscal do contribuinte a admitir que há intenções políticas na quebra de sigilo da filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, e de pessoas ligadas a ele e ao partido oposicionista.
O próprio Cartaxo já assumira esse papel de desmoralizarse publicamente, admitindo que a Receita estava fora de seu controle, transformada em uma agência de compra e venda de sigilos fiscais.
Tudo é feito para incluir no mesmo balaio as violações claramente políticas e as realizadas com fins puramente financeiros, neste mercado persa em que parece ter se transformado o órgão.
Perversamente, o governo parece respirar aliviado ao constatar que há uma lista de 140 pessoas que tiveram seu sigilo quebrado na agência de Mauá, em São Paulo, podendo dessa maneira confundir as investigações.
Tentando despolitizar o caso, o ministro da Fazenda age igual a um colega seu, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, que, como advogado criminal de reconhecidos méritos, trouxe para dentro do governo a tese do caixa 2, para despolitizar o escândalo do mensalão em 2005.
E, da mesma maneira que faz hoje, também naquela ocasião o presidente Lula foi o primeiro a tipificar de crime eleitoral o que acontecia nos bastidores da base governista do Congresso, retirando do mensalão a carga de corrupção política grave que o caso realmente tinha.
Desta vez o presidente Lula tratou a questão da quebra de sigilo da filha do candidato tucano como sendo de crime de “falsidade ideológica”, como se a falsificação da procuração utilizada para retirar da agência da Receita de Santo André os dados fiscais de Verônica Serra fosse o principal crime cometido.
Assim como aconteceu também em 2006, os governistas já começam a gritar aos quatro cantos que a oposição quer ganhar o jogo no “tapetão”, mudando o resultado das urnas na Justiça Eleitoral.
Em primeiro lugar, a eleição não está decidida, apesar da enorme vantagem com que a candidata oficial aparece nas pesquisas eleitorais.
Há no máximo uma tendência de crescimento de Dilma Rousseff que, se continuar, juntamente com o movimento contrário do candidato José Serra, deverá levá-la à vitória.
Mas, se, como alegam os governistas, o PSDB está utilizando o episódio para tentar mudar essa trajetória e levar a eleição para o segundo turno, não há nada de anormal nessa ação política.
O que vem acontecendo dentro da Receita Federal é a consequência de um aparelhamento político da máquina do Estado que vem sendo denunciado há muito tempo pela oposição, e nada mais lógico que ela sublinhe os perigos que a sociedade corre com um tipo de política como a que seus adversários utilizam.
O tema é de difícil compreensão para a maioria dos eleitores brasileiros, e é por isso que a campanha petista considera que terá pouco ou nenhum impacto na decisão final do eleitor.
Pode ser verdade, e constatar isso só aumenta a preocupação com o grau de compreensão de seus direitos dessa imensa massa de eleitores que, na definição do historiador José Murilo de Carvalho, “vive no mundo da necessidade” e votará “muito racionalmente” em quem ela julga capaz de ajudá-la.
Por outro lado, há um nicho de eleitores que já esteve apoiando o candidato tucano, José Serra, no princípio da campanha eleitoral que pode se sensibilizar pelas evidências de que os métodos nada republicanos enraizados na ação política petista são uma real ameaça ao estado de direito.
A candidata oficial, Dilma Rousseff, atualmente vence seu adversário em todas as regiões do país e em todas as classes sociais, mas pode vir a perder alguma substância nas grandes cidades, entre os eleitores de maior escolaridade ou renda, mais sensíveis a esse tipo de ameaça a seus direitos civis.
A mensagem do candidato tucano tem o objetivo de reconquistar esse eleitorado nestes momentos finais da campanha presidencial, e não há nada de errado nessa estratégia.
A acusação de que o PSDB está querendo ganhar a eleição no tapetão jurídico aproveitase do que já considerei aqui um erro estratégico da oposição, que entrou com um pedido de investigação noTribunal Superior Eleitoral (TSE) contra abusos do poder político por parte do governo federal, que estaria usando a máquina do Estado contra a oposição.
Continuo achando que existem fatos e indícios suficientes para que a oposição desencadeie, como vem desencadeando, uma ação política forte contra o governo.
Mas claramente não há ainda, em termos jurídicos, provas concretas que justifiquem uma ação que possa levar à impugnação da candidata do governo.
A campanha tucana alega que só existe esse caminho, e que pedir uma investigação da Justiça Eleitoral não significa tentar impugnar a candidatura adversária.
O pedido de investigação seria uma maneira de chamar a atenção da Justiça Eleitoral para o que está acontecendo, constrangendo assim os que estariam agindo ilegalmente, além de colocar o foco do TSE na questão do abuso do poder político por parte do governo.
Laços ligando a campanha de reeleição de Lula à compra do dossiê em São Paulo eram muito mais evidentes e claros em 2006, e nem por isso o PSDB na ocasião pediu a intervenção do TSE.
A situação atual é muito mais grave potencialmente do que aquela de 2006. Enquanto lá era puro ato de banditismo em campanha eleitoral, hoje há uma quebra constitucional que atinge os direitos civis dos cidadãos brasileiros, até mesmo daqueles que não entendem o alcance da ameaça, os muitos francenildos.
RUTH DE AQUINO A ternura de Fidel pelos gays
REVISTA ÉPOCA
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiroraquino@edglobo.com.br
Existe uma vantagem em envelhecer: ganhar tempo para se retratar e pedir desculpas. Aos 84 anos, Fidel Castro admitiu que perseguiu os gays, os prendeu e enviou para campos de trabalho forçado. Gostar de pessoas do mesmo sexo tornava os gays “contrarrevolucionários”, inimigos do regime castrista. “Se alguém é responsável, sou eu”, disse na semana passada, chamando a perseguição aos homossexuais de “momentos de grande injustiça”.
Quem assistiu ao belo filme Antes do anoitecer, de Julian Schnabel, sobre a via-crúcis do poeta cubano Reinaldo Arenas, interpretado por Javier Bardem, passou a entender o que foi a segregação de gays na Cuba de Castro. Com apenas 15 anos, Arenas lutou como guerrilheiro nas tropas que combatiam o ditador Fulgêncio Batista e que tomaram Havana em 1o de janeiro de 1959. Alguns anos depois, já poeta e escritor, tornou-se inconveniente. Por ser gay. Todos os seus manuscritos foram banidos e censurados. Publicava no exterior apenas, e contrabandeava seus textos com a ajuda de amigos influentes.
Preso, Arenas viveu num campo de concentração. E conseguiu finalmente exilar-se nos Estados Unidos. Foi um dos “Marielitos”, o grupo de dissidentes, criminosos, doentes mentais e homossexuais que em 1980 deixou o Porto de Mariel em direção a Miami, com endosso de Castro. Em 1987, aos 42 anos, no auge da criação intelectual, descobriu ter contraído o vírus da aids. Escreveu a autobiografia que deu origem ao filme e se matou em 1990 com uma overdose de remédios.
Estive em Cuba em janeiro de 1984, no Festival de Cinema que premiou o filme Memórias do cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, sobre a vida do escritor Graciliano Ramos. O Brasil ainda não tinha relações diplomáticas com Cuba. A viagem era uma epopeia, indo pela Colômbia, voltando pelo México, com o compromisso de o passaporte não ser carimbado, porque poderia haver problemas no Brasil. Tudo uma grande hipocrisia. Turistas e intelectuais brasileiros, simpatizantes da revolução cubana ou curiosos iam a Havana e todo mundo sabia. Nas ruas e em shows, ouvi de gays queixas contra o preconceito. Como se a homossexualidade fosse uma doença antissocial. Um tapa na cara da revolução.
Castro poderia aproveitar e estender seu mea-culpa aos presos políticos – cujo único crime é discordar dele
“Hay que endurecer pero sin perder la ternura”, recomendava Che Guevara. Fidel Castro, octogenário, parece ter recuperado a compaixão. Sua entrevista a um jornal mexicano foi surpreendente: “Sim, foram momentos de grande injustiça, uma grande injustiça! Fomos nós que fizemos, fomos nós. (...) Tínhamos tantos e tão terríveis problemas, problemas de vida ou morte, que não prestamos atenção suficiente. (...) Mas não vou jogar a culpa nos outros. Assumo a minha responsabilidade”.
Uma grande ironia é que o maior bairro gay do mundo se chame, por pura coincidência, “Castro”. Fica em San Francisco, Estados Unidos. Foi ali que Harvey Milk se tornou o primeiro político americano a se candidatar abertamente como homossexual. Foi assassinado, depois de eleito vereador.
Nesses momentos, quando fica clara a intolerância humana e até onde o radicalismo ideológico, religioso ou político pode nos levar, é preciso pensar sobretudo na preservação da liberdade. Liberdade de discordar, de criticar, de não ser igual. Sem medo de patrulha de qualquer coloração. Até em eleições polarizadas como a do Brasil, uma democracia sólida, surgem ameaças veladas ou agressivas ao livre pensar. Em regimes populistas como na Venezuela, o perigo é evidente, real, não é mais possível opor-se a Chávez.
As ditaduras, de esquerda e de direita, são abomináveis porque não aceitam um modo de pensar diferente. Tiranos violam direitos humanos com base em cartilhas cuja diretriz máxima é que os fins justificam os meios. Quando alguém deseja se perpetuar no poder, qualquer divergência é uma ameaça.
Castro poderia aproveitar esse momento de ternura tardia pelos gays e estendê-lo aos presos políticos e à blogueira Yoani Sanchez, proibida como tantos cubanos de viajar para fora do país. O único crime deles é discordar.
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiroraquino@edglobo.com.br
Existe uma vantagem em envelhecer: ganhar tempo para se retratar e pedir desculpas. Aos 84 anos, Fidel Castro admitiu que perseguiu os gays, os prendeu e enviou para campos de trabalho forçado. Gostar de pessoas do mesmo sexo tornava os gays “contrarrevolucionários”, inimigos do regime castrista. “Se alguém é responsável, sou eu”, disse na semana passada, chamando a perseguição aos homossexuais de “momentos de grande injustiça”.
Quem assistiu ao belo filme Antes do anoitecer, de Julian Schnabel, sobre a via-crúcis do poeta cubano Reinaldo Arenas, interpretado por Javier Bardem, passou a entender o que foi a segregação de gays na Cuba de Castro. Com apenas 15 anos, Arenas lutou como guerrilheiro nas tropas que combatiam o ditador Fulgêncio Batista e que tomaram Havana em 1o de janeiro de 1959. Alguns anos depois, já poeta e escritor, tornou-se inconveniente. Por ser gay. Todos os seus manuscritos foram banidos e censurados. Publicava no exterior apenas, e contrabandeava seus textos com a ajuda de amigos influentes.
Preso, Arenas viveu num campo de concentração. E conseguiu finalmente exilar-se nos Estados Unidos. Foi um dos “Marielitos”, o grupo de dissidentes, criminosos, doentes mentais e homossexuais que em 1980 deixou o Porto de Mariel em direção a Miami, com endosso de Castro. Em 1987, aos 42 anos, no auge da criação intelectual, descobriu ter contraído o vírus da aids. Escreveu a autobiografia que deu origem ao filme e se matou em 1990 com uma overdose de remédios.
Estive em Cuba em janeiro de 1984, no Festival de Cinema que premiou o filme Memórias do cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, sobre a vida do escritor Graciliano Ramos. O Brasil ainda não tinha relações diplomáticas com Cuba. A viagem era uma epopeia, indo pela Colômbia, voltando pelo México, com o compromisso de o passaporte não ser carimbado, porque poderia haver problemas no Brasil. Tudo uma grande hipocrisia. Turistas e intelectuais brasileiros, simpatizantes da revolução cubana ou curiosos iam a Havana e todo mundo sabia. Nas ruas e em shows, ouvi de gays queixas contra o preconceito. Como se a homossexualidade fosse uma doença antissocial. Um tapa na cara da revolução.
Castro poderia aproveitar e estender seu mea-culpa aos presos políticos – cujo único crime é discordar dele
“Hay que endurecer pero sin perder la ternura”, recomendava Che Guevara. Fidel Castro, octogenário, parece ter recuperado a compaixão. Sua entrevista a um jornal mexicano foi surpreendente: “Sim, foram momentos de grande injustiça, uma grande injustiça! Fomos nós que fizemos, fomos nós. (...) Tínhamos tantos e tão terríveis problemas, problemas de vida ou morte, que não prestamos atenção suficiente. (...) Mas não vou jogar a culpa nos outros. Assumo a minha responsabilidade”.
Uma grande ironia é que o maior bairro gay do mundo se chame, por pura coincidência, “Castro”. Fica em San Francisco, Estados Unidos. Foi ali que Harvey Milk se tornou o primeiro político americano a se candidatar abertamente como homossexual. Foi assassinado, depois de eleito vereador.
Nesses momentos, quando fica clara a intolerância humana e até onde o radicalismo ideológico, religioso ou político pode nos levar, é preciso pensar sobretudo na preservação da liberdade. Liberdade de discordar, de criticar, de não ser igual. Sem medo de patrulha de qualquer coloração. Até em eleições polarizadas como a do Brasil, uma democracia sólida, surgem ameaças veladas ou agressivas ao livre pensar. Em regimes populistas como na Venezuela, o perigo é evidente, real, não é mais possível opor-se a Chávez.
As ditaduras, de esquerda e de direita, são abomináveis porque não aceitam um modo de pensar diferente. Tiranos violam direitos humanos com base em cartilhas cuja diretriz máxima é que os fins justificam os meios. Quando alguém deseja se perpetuar no poder, qualquer divergência é uma ameaça.
Castro poderia aproveitar esse momento de ternura tardia pelos gays e estendê-lo aos presos políticos e à blogueira Yoani Sanchez, proibida como tantos cubanos de viajar para fora do país. O único crime deles é discordar.
DIOGO MAINARDI - DILMA 1,99 ROUSSEFF
REVISTA VEJA
“Depois de falir como comerciante, Dilma Rousseff voltou correndo para o aparelho estatal. A loja de produtos panamenhos e chineses foi expurgada de sua biografia oficial. O fracasso revela a verdadeira natureza de Dilma Rousseff: ela só existe como acessório do PT”
Dilma Rousseff era uma apaniguada do PDT. Quando saiu do PDT, ela virou uma apaniguada do PT. Desde seu primeiro trabalho, trinta anos atrás, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff sempre foi assalariada do setor estatal. E no setor estatal ela sempre foi apadrinhada por alguém. O PT loteou o estado. Nesse ponto, Dilma Rousseff é a mais petista dos petistas. Porque durante sua carreira todos os cargos que ela ocupou foram indicados por alguma autoridade partidária. Dilma Rousseff é o Agaciel Maia dos Pampas. Ambos pertencem à mesma categoria profissional. Tiveram até cargos análogos. Agaciel Maia, apaniguado de José Sarney, foi nomeado diretor-geral do Senado.
Dilma Rousseff, apaniguada de Carlos Araújo, foi nomeada diretora-geral da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Além de ser um dos mandatários da esquerda gaúcha, Carlos Araújo era também o marido de Dilma Rousseff, garantindo esse gostinho pitoresco de Velha República cartorial e nepotista.
A loja de produtos importados de Dilma Rousseff foi inaugurada em 1995. Fechou quinze meses depois. Foi o primeiro e último trabalho que ela teve fora do sistema de loteamento partidário. Deu errado. Carlos Araújo, seu financiador, acabou perdendo dinheiro. O dono de uma tabacaria localizada perto da loja de Dilma Rousseff contou o seguinte à Folha de S.Paulo: “A gente esperava uma loja com artigos diferenciados, mas quando ela abriu era tipo R$ 1,99”. A especialidade de Dilma Rousseff eram os brinquedos chineses importados da Zona Franca de Colón, no Panamá. Em particular, os bonecos dos “Cavaleiros do Zodíaco”, escolhidos pessoalmente por ela. O Brasil de Dilma Rousseff será assim: um entreposto de muambeiros panamenhos inteiramente tomado pela pirataria chinesa. É o Brasil a R$ 1,99. Dilma Rousseff, com seu mestrado galáctico, será nossa Saori Kido, a Deusa da Sabedoria dos “Cavaleiros do Zodíaco”. José Dirceu, com sua armadura vermelha, será nosso Dócrates mensaleiro.
Depois de falir como comerciante, Dilma Rousseff voltou correndo para o aparelho estatal, onde ninguém perde dinheiro e o único cliente é o partido. A loja de produtos panamenhos e chineses foi convenientemente expurgada de sua biografia oficial. O fracasso do empreendimento, porém, revela a verdadeira natureza de Dilma Rousseff: ela só existe como um acessório do PT, exatamente como os sabotadores da Receita Federal que violaram o imposto de renda da filha de José Serra e fraudaram seus documentos. O Brasil está à venda por R$ 1,99. Ou fechamos as portas de Dilma Rousseff, ou ela fechará as nossas portas.
“Depois de falir como comerciante, Dilma Rousseff voltou correndo para o aparelho estatal. A loja de produtos panamenhos e chineses foi expurgada de sua biografia oficial. O fracasso revela a verdadeira natureza de Dilma Rousseff: ela só existe como acessório do PT”
Dilma Rousseff era uma apaniguada do PDT. Quando saiu do PDT, ela virou uma apaniguada do PT. Desde seu primeiro trabalho, trinta anos atrás, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff sempre foi assalariada do setor estatal. E no setor estatal ela sempre foi apadrinhada por alguém. O PT loteou o estado. Nesse ponto, Dilma Rousseff é a mais petista dos petistas. Porque durante sua carreira todos os cargos que ela ocupou foram indicados por alguma autoridade partidária. Dilma Rousseff é o Agaciel Maia dos Pampas. Ambos pertencem à mesma categoria profissional. Tiveram até cargos análogos. Agaciel Maia, apaniguado de José Sarney, foi nomeado diretor-geral do Senado.
Dilma Rousseff, apaniguada de Carlos Araújo, foi nomeada diretora-geral da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Além de ser um dos mandatários da esquerda gaúcha, Carlos Araújo era também o marido de Dilma Rousseff, garantindo esse gostinho pitoresco de Velha República cartorial e nepotista.
A loja de produtos importados de Dilma Rousseff foi inaugurada em 1995. Fechou quinze meses depois. Foi o primeiro e último trabalho que ela teve fora do sistema de loteamento partidário. Deu errado. Carlos Araújo, seu financiador, acabou perdendo dinheiro. O dono de uma tabacaria localizada perto da loja de Dilma Rousseff contou o seguinte à Folha de S.Paulo: “A gente esperava uma loja com artigos diferenciados, mas quando ela abriu era tipo R$ 1,99”. A especialidade de Dilma Rousseff eram os brinquedos chineses importados da Zona Franca de Colón, no Panamá. Em particular, os bonecos dos “Cavaleiros do Zodíaco”, escolhidos pessoalmente por ela. O Brasil de Dilma Rousseff será assim: um entreposto de muambeiros panamenhos inteiramente tomado pela pirataria chinesa. É o Brasil a R$ 1,99. Dilma Rousseff, com seu mestrado galáctico, será nossa Saori Kido, a Deusa da Sabedoria dos “Cavaleiros do Zodíaco”. José Dirceu, com sua armadura vermelha, será nosso Dócrates mensaleiro.
Depois de falir como comerciante, Dilma Rousseff voltou correndo para o aparelho estatal, onde ninguém perde dinheiro e o único cliente é o partido. A loja de produtos panamenhos e chineses foi convenientemente expurgada de sua biografia oficial. O fracasso do empreendimento, porém, revela a verdadeira natureza de Dilma Rousseff: ela só existe como um acessório do PT, exatamente como os sabotadores da Receita Federal que violaram o imposto de renda da filha de José Serra e fraudaram seus documentos. O Brasil está à venda por R$ 1,99. Ou fechamos as portas de Dilma Rousseff, ou ela fechará as nossas portas.
MACUNAÍMAS Miguel Reale Júnior
O Estado de S.Paulo - 04/09/10
Às vésperas de se definirem pelo voto os novos dirigentes do Brasil, cabe perquirir sobre a relação que se estabelece entre o sistema eleitoral e os personagens que atuam nesta trama denominada eleição. O primeiro personagem é, sem dúvida, o eleitorado, nossa gente.
Os relatos de viajantes nos primórdios do século 19 são manifestamente constrangedores, a mostrar características de nosso povo nos planos intelectual e moral. Thomas Lindsey, capitão de pequeno navio, aportou em Porto Seguro em 1801, onde foi preso por aceitar proposta do ouvidor-mor de trocar parte da carga que trazia por pau-brasil. Alegava em sua defesa que jamais poderia imaginar ser ilegal comerciar produto ofertado pela principal autoridade local. Permaneceu o inglês anos retido na Bahia. Em narrativa sobre o Brasil, destaca a ignorância dos habitantes e sua indolência, pois a "única ocupação que os empolga é o baralho". Mais contundente é a observação de que nos negócios prevalece entre os brasileiros a astúcia, sendo exceção os que preservam a retidão na realização de transações.
Quando da proclamação da República, mais de 80% eram analfabetos. No plano moral, Luís Martins, em O Patriarca e o Bacharel, reproduz versos de jovem líder republicano: "Aqui ser honrado é vitupério;/ confiar no direito é grã loucura;/ pois só pode fazer boa figura/ quem for servil ou não passar por sério." Para Alberto Salles, ideólogo da República, o brasileiro é muito sociável, mas não solidário, sem ter o sentido de comunidade e de bem comum. Daí a expressão que melhor traduz o individualismo egoísta: "Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro."
Se o País passou, evidentemente, por grande processo civilizatório de lá para cá, no entanto falta muito. Mário de Andrade, em fins dos anos 20, descreve o herói de nossa gente, Macunaíma, espelho do brasileiro como astuto, preguiçoso, espontâneo, a usar a "esperteza para escapar da socialidade adulta", na expressão de Alfredo Bosi.
Em Conta de Mentiroso, Roberto DaMatta indica o "jeitinho" brasileiro como forma de fuga da letra dura da lei, para fazer prevalecer as regras da amizade, do clientelismo, imperando a máxima "aos amigos tudo, aos inimigos a lei". Desse modo, o interesse pelo bem comum desaparece quando o agente político trata da coisa pública como se privada fosse.
No século 21, a situação nos planos intelectual e moral ainda é preocupante. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, dos eleitores brasileiros, 8 milhões são analfabetos e 19 milhões apenas sabem ler e escrever sem terem frequentado uma escola, considerados, portanto, como de alfabetização rudimentar; 73,3 milhões de eleitores, ou 58,26% do total, não conseguiram completar o ensino fundamental. Excluídas as categorias anteriores, são 46 milhões de analfabetos funcionais, isto é, têm capacidade de decodificar minimamente as letras, de escrever uma pequena carta, mas não têm , todavia, capacidade de compreender textos, interpretá-los e analisá-los.
O autor de novelas da Globo Sílvio de Abreu, em entrevista à revista Veja, mostrou o desprezo atual pelo herói virtuoso, pois hoje deve, ao gosto do telespectador, ser do vilão a vitória, em vista de a esperteza ganhar reconhecimento de valor social.
O sistema eleitoral, por sua vez, só complica a situação, pois não vincula o candidato a deputado a interesses do eleitor, como ocorreria no voto distrital misto. São milhares de candidatos a deputado, sem coloração partidária alguma, mesmo porque os partidos e seus próceres se misturam e se igualam, sem disputas ideológicas ou programáticas, sem sequer divergências pessoais. Tudo se confunde.
O eleitor médio, sem poder de crítica, é, no caso da escolha para o Executivo, envolvido pelo clima emocional e na opção para deputado, levado a votar em nome conhecido de cantor, artista, jogador de futebol ou de chefete do reduto em que vive. A questão moral é indiferente: corruptos e mensaleiros foram e serão eleitos.
Um país sem heróis virtuosos adota como figura popular um presidente que reproduz Macunaíma, ao colocar a captação do eleitor, a esperteza, acima de qualquer outro interesse. Prova do que digo está no fato de o menino Leandro, do conjunto habitacional Nelson Mandela, ter desnudado o rei. Leandro gravou diálogo com Lula acerca da prática de esporte naquele local:
Leandro: Por que aqui não tem tênis?
Lula: Que tênis? Tênis é esporte da burguesia, porra! E natação?
Leandro: A gente não pode entrar na piscina.
Sérgio Cabral: Por quê?
Leandro: Porque não abre para a população.
Sérgio Cabral: Por que não abre para a população?
Leandro: Não sei, eu vim aqui hoje para perguntar...
Lula, então, volta-se para Sérgio Cabral e diz: O dia que a imprensa vier aí e pegar um final de semana com essa porra fechada, o prejuízo político será infinitamente maior que colocar dois guardas aí. Coloca dois guardas aí. Coloca o bombeiro para tomar conta e abre isso.
O popular presidente, cujo estilo debochado tem sucesso, mostrou, sem querer, mais que um modo de ser, desprezo pelo bem do povo. Como se viu, ao presidente pouco importa a população poder usufruir a piscina. É de relevo apenas evitar o malefício político de uma reportagem negativa: "Coloca dois guardas aí", que o prejuízo é muito menor que o desgaste político da denúncia do descaso. Atender à população é de somenos, o que vale é evitar o escândalo eleitoralmente desastroso. Mas o povo é indiferente a esta enorme amoralidade, à esperteza presidencial, que recebe aprovação maciça de uma população sem capacidade de crítica.
É dentro deste universo, pintado com realismo, que se definirá o nosso futuro. Que os políticos de bem a serem eleitos tenham a coragem e a indignação necessárias para resistir à eventual tomada do poder pelos macunaímas do século 21.
Às vésperas de se definirem pelo voto os novos dirigentes do Brasil, cabe perquirir sobre a relação que se estabelece entre o sistema eleitoral e os personagens que atuam nesta trama denominada eleição. O primeiro personagem é, sem dúvida, o eleitorado, nossa gente.
Os relatos de viajantes nos primórdios do século 19 são manifestamente constrangedores, a mostrar características de nosso povo nos planos intelectual e moral. Thomas Lindsey, capitão de pequeno navio, aportou em Porto Seguro em 1801, onde foi preso por aceitar proposta do ouvidor-mor de trocar parte da carga que trazia por pau-brasil. Alegava em sua defesa que jamais poderia imaginar ser ilegal comerciar produto ofertado pela principal autoridade local. Permaneceu o inglês anos retido na Bahia. Em narrativa sobre o Brasil, destaca a ignorância dos habitantes e sua indolência, pois a "única ocupação que os empolga é o baralho". Mais contundente é a observação de que nos negócios prevalece entre os brasileiros a astúcia, sendo exceção os que preservam a retidão na realização de transações.
Quando da proclamação da República, mais de 80% eram analfabetos. No plano moral, Luís Martins, em O Patriarca e o Bacharel, reproduz versos de jovem líder republicano: "Aqui ser honrado é vitupério;/ confiar no direito é grã loucura;/ pois só pode fazer boa figura/ quem for servil ou não passar por sério." Para Alberto Salles, ideólogo da República, o brasileiro é muito sociável, mas não solidário, sem ter o sentido de comunidade e de bem comum. Daí a expressão que melhor traduz o individualismo egoísta: "Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro."
Se o País passou, evidentemente, por grande processo civilizatório de lá para cá, no entanto falta muito. Mário de Andrade, em fins dos anos 20, descreve o herói de nossa gente, Macunaíma, espelho do brasileiro como astuto, preguiçoso, espontâneo, a usar a "esperteza para escapar da socialidade adulta", na expressão de Alfredo Bosi.
Em Conta de Mentiroso, Roberto DaMatta indica o "jeitinho" brasileiro como forma de fuga da letra dura da lei, para fazer prevalecer as regras da amizade, do clientelismo, imperando a máxima "aos amigos tudo, aos inimigos a lei". Desse modo, o interesse pelo bem comum desaparece quando o agente político trata da coisa pública como se privada fosse.
No século 21, a situação nos planos intelectual e moral ainda é preocupante. Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, dos eleitores brasileiros, 8 milhões são analfabetos e 19 milhões apenas sabem ler e escrever sem terem frequentado uma escola, considerados, portanto, como de alfabetização rudimentar; 73,3 milhões de eleitores, ou 58,26% do total, não conseguiram completar o ensino fundamental. Excluídas as categorias anteriores, são 46 milhões de analfabetos funcionais, isto é, têm capacidade de decodificar minimamente as letras, de escrever uma pequena carta, mas não têm , todavia, capacidade de compreender textos, interpretá-los e analisá-los.
O autor de novelas da Globo Sílvio de Abreu, em entrevista à revista Veja, mostrou o desprezo atual pelo herói virtuoso, pois hoje deve, ao gosto do telespectador, ser do vilão a vitória, em vista de a esperteza ganhar reconhecimento de valor social.
O sistema eleitoral, por sua vez, só complica a situação, pois não vincula o candidato a deputado a interesses do eleitor, como ocorreria no voto distrital misto. São milhares de candidatos a deputado, sem coloração partidária alguma, mesmo porque os partidos e seus próceres se misturam e se igualam, sem disputas ideológicas ou programáticas, sem sequer divergências pessoais. Tudo se confunde.
O eleitor médio, sem poder de crítica, é, no caso da escolha para o Executivo, envolvido pelo clima emocional e na opção para deputado, levado a votar em nome conhecido de cantor, artista, jogador de futebol ou de chefete do reduto em que vive. A questão moral é indiferente: corruptos e mensaleiros foram e serão eleitos.
Um país sem heróis virtuosos adota como figura popular um presidente que reproduz Macunaíma, ao colocar a captação do eleitor, a esperteza, acima de qualquer outro interesse. Prova do que digo está no fato de o menino Leandro, do conjunto habitacional Nelson Mandela, ter desnudado o rei. Leandro gravou diálogo com Lula acerca da prática de esporte naquele local:
Leandro: Por que aqui não tem tênis?
Lula: Que tênis? Tênis é esporte da burguesia, porra! E natação?
Leandro: A gente não pode entrar na piscina.
Sérgio Cabral: Por quê?
Leandro: Porque não abre para a população.
Sérgio Cabral: Por que não abre para a população?
Leandro: Não sei, eu vim aqui hoje para perguntar...
Lula, então, volta-se para Sérgio Cabral e diz: O dia que a imprensa vier aí e pegar um final de semana com essa porra fechada, o prejuízo político será infinitamente maior que colocar dois guardas aí. Coloca dois guardas aí. Coloca o bombeiro para tomar conta e abre isso.
O popular presidente, cujo estilo debochado tem sucesso, mostrou, sem querer, mais que um modo de ser, desprezo pelo bem do povo. Como se viu, ao presidente pouco importa a população poder usufruir a piscina. É de relevo apenas evitar o malefício político de uma reportagem negativa: "Coloca dois guardas aí", que o prejuízo é muito menor que o desgaste político da denúncia do descaso. Atender à população é de somenos, o que vale é evitar o escândalo eleitoralmente desastroso. Mas o povo é indiferente a esta enorme amoralidade, à esperteza presidencial, que recebe aprovação maciça de uma população sem capacidade de crítica.
É dentro deste universo, pintado com realismo, que se definirá o nosso futuro. Que os políticos de bem a serem eleitos tenham a coragem e a indignação necessárias para resistir à eventual tomada do poder pelos macunaímas do século 21.
PIB e Juros Panorama Econômico - Míriam Leitão
O Globo - 03/09/2010
PIB e Juros
O PIB do segundo trimestre do ano sai hoje e deve ficar em torno de 1%. A maioria do mercado aposta num número menor, em torno de 0,7%. Uma taxa em torno de 1%, mesmo ficando acima da média das previsões, significa que o país desacelerou: crescia ao ritmo de 11% no começo do ano, reduziu a marcha para 4%. A alta dos juros e o fim dos incentivos fiscais produziram o efeito desejado.
O Banco Central tem muitos argumentos para justificar sua decisão de não subir as taxas de juros, mesmo que o PIB venha no pico das previsões de mercado. A inflação ao consumidor deve completar três meses em zero, o nível de atividade desacelerou e a inflação em 12 meses está no centro da meta. A economia internacional está instável.
No mercado, há quem avalie que a política monetária tem dado sinais diferentes, nos textos e nas decisões, e que perdeu a capacidade de análise. Mas a realidade é que tem mudado. Em abril, diante da aceleração da inflação e de um primeiro trimestre superaquecido, o Banco Central aumentou os juros em 0,75 p.p. e fez comunicados mostrando preocupação. Na reunião seguinte, de novo 0,75 p.p., e por fim, em julho, nova alta para 0,5 ponto.
De lá para cá, as incertezas internacionais aumentaram, o quadro interno ficou diferente, por isso as decisões do Copom mudaram. A economia americana saiu de uma forte recuperação para o fantasma do duplo mergulho. A Europa afastou o risco de nova crise financeira, mas ficará longo tempo sem crescer. Até a Alemanha que teve um número forte de PIB perde fôlego. Isso tudo e o quadro doméstico de desaquecimento permitiram que o Banco Central interrompesse a elevação dos juros.
O problema grave é o descompasso entre política monetária e política fiscal. No atual momento, o país cresce de forma mais equilibrada e a inflação está sob controle. A crescente desordem fiscal, no entanto, aponta para mais inflação no futuro. Não é um ponto a mais ou a menos nas taxas de juros que resolverá o problema que decorre do vale tudo do governo Lula para ganhar a eleição.
Olhando-se as efetivas condições de inflação e nível de atividade, o Banco Central está correto. O que pode dar errado não cabe a ele resolver agora. Quando alguns críticos insistem que o BC não deveria encerrar seu ciclo de aperto da política monetária têm no horizonte a crise que está sendo contratada pela insensata mistura de mais gastos, menos transparência nas contas públicas, dívidas cruzadas entre estatais, truques contábeis para criar receita, e esconder despesas e déficits. Mas isso está fora da alçada do Banco Central.
O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco emitiu relatório defendendo flexibilidade para o BC porque o cenário da economia mundial é incerto.
"Honestamente, não vemos problema em que o BC tenha que no futuro retomar a subida de juros caso a atividade se reaqueça demasiadamente. O Banco Central construiu reputação e credibilidade suficientes para navegar neste cenário incerto com maior flexibilidade do que no passado e, eventualmente, por se tratar de momentos excepcionais na economia mundial, implementar, à luz da análise futura, uma política monetária eventualmente mais errática para os padrões brasileiros, com pausas e recomeços", disse o banco.
A produção industrial de julho, divulgada terça-feira pelo IBGE, foi de recuperação, mas apenas leve. Depois de acumular 2% de queda, em três meses seguidos de encolhimento, a indústria cresceu 0,4%. Ou seja, não se recuperou do tombo. O que mostra que a aceleração forte do começo do ano foi turbinada pela manutenção prolongada dos incentivos fiscais. A redução dos tributos demorou a ser suspensa porque o governo estava querendo produzir uma bolha de crescimento para fins eleitorais. O Banco Central começou então o ciclo de aperto da política monetária. Isso e a suspensão das deduções de tributos reduziram o excesso do crescimento que poderia levar à inflação. Mesmo assim, o país cresceu em ritmo razoável no segundo trimestre como se verá hoje. No terceiro trimestre, pode crescer um pouco mais, mas o dado de julho mostrou que essa retomada será mais suave.
Entre os que defendiam, desde antes da reunião, a manutenção dos juros, também estão os economistas José Júlio Senna, da MCM Consultores, e Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio. Senna explica que nas últimas semanas houve mudanças nas economias brasileira e mundial e elas justificam a parada técnica nos juros: a inflação parou de subir; o comércio e a indústria perderam fôlego; e, principalmente, a recuperação internacional ficou incerta:
- As economias desenvolvidas dão sinais de que não estão em recuperação, ou seja, estão crescendo abaixo do PIB potencial. Se isso se confirmar, haverá impacto sobre a confiança dos empresários no Brasil porque a rentabilidade das empresas será afetada - afirmou Senna.
Luiz Roberto Cunha avalia que não haverá pressão nos preços nos próximos meses. Ele lembra que o IPCA deve ficar por três meses em zero: em junho registrou 0,00%; em julho, 0,01%; e em agosto deve ser 0,05%, segundo sua projeção.
- O BC está com cenário tranquilo para a inflação. Os números surpreenderam para baixo e os analistas se renderam. Até mesmo em setembro, quando o IPCA deve voltar a subir, para 0,40%, não teremos uma taxa alta. O acumulado em 12 meses continuará em torno do centro de 4,5% - disse.
Tudo bem no curto prazo. O problema que nos ameaça é o custo da confusão fiscal deste fim de festa produzida para garantir a vitória eleitoral.
PIB e Juros
O PIB do segundo trimestre do ano sai hoje e deve ficar em torno de 1%. A maioria do mercado aposta num número menor, em torno de 0,7%. Uma taxa em torno de 1%, mesmo ficando acima da média das previsões, significa que o país desacelerou: crescia ao ritmo de 11% no começo do ano, reduziu a marcha para 4%. A alta dos juros e o fim dos incentivos fiscais produziram o efeito desejado.
O Banco Central tem muitos argumentos para justificar sua decisão de não subir as taxas de juros, mesmo que o PIB venha no pico das previsões de mercado. A inflação ao consumidor deve completar três meses em zero, o nível de atividade desacelerou e a inflação em 12 meses está no centro da meta. A economia internacional está instável.
No mercado, há quem avalie que a política monetária tem dado sinais diferentes, nos textos e nas decisões, e que perdeu a capacidade de análise. Mas a realidade é que tem mudado. Em abril, diante da aceleração da inflação e de um primeiro trimestre superaquecido, o Banco Central aumentou os juros em 0,75 p.p. e fez comunicados mostrando preocupação. Na reunião seguinte, de novo 0,75 p.p., e por fim, em julho, nova alta para 0,5 ponto.
De lá para cá, as incertezas internacionais aumentaram, o quadro interno ficou diferente, por isso as decisões do Copom mudaram. A economia americana saiu de uma forte recuperação para o fantasma do duplo mergulho. A Europa afastou o risco de nova crise financeira, mas ficará longo tempo sem crescer. Até a Alemanha que teve um número forte de PIB perde fôlego. Isso tudo e o quadro doméstico de desaquecimento permitiram que o Banco Central interrompesse a elevação dos juros.
O problema grave é o descompasso entre política monetária e política fiscal. No atual momento, o país cresce de forma mais equilibrada e a inflação está sob controle. A crescente desordem fiscal, no entanto, aponta para mais inflação no futuro. Não é um ponto a mais ou a menos nas taxas de juros que resolverá o problema que decorre do vale tudo do governo Lula para ganhar a eleição.
Olhando-se as efetivas condições de inflação e nível de atividade, o Banco Central está correto. O que pode dar errado não cabe a ele resolver agora. Quando alguns críticos insistem que o BC não deveria encerrar seu ciclo de aperto da política monetária têm no horizonte a crise que está sendo contratada pela insensata mistura de mais gastos, menos transparência nas contas públicas, dívidas cruzadas entre estatais, truques contábeis para criar receita, e esconder despesas e déficits. Mas isso está fora da alçada do Banco Central.
O Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco emitiu relatório defendendo flexibilidade para o BC porque o cenário da economia mundial é incerto.
"Honestamente, não vemos problema em que o BC tenha que no futuro retomar a subida de juros caso a atividade se reaqueça demasiadamente. O Banco Central construiu reputação e credibilidade suficientes para navegar neste cenário incerto com maior flexibilidade do que no passado e, eventualmente, por se tratar de momentos excepcionais na economia mundial, implementar, à luz da análise futura, uma política monetária eventualmente mais errática para os padrões brasileiros, com pausas e recomeços", disse o banco.
A produção industrial de julho, divulgada terça-feira pelo IBGE, foi de recuperação, mas apenas leve. Depois de acumular 2% de queda, em três meses seguidos de encolhimento, a indústria cresceu 0,4%. Ou seja, não se recuperou do tombo. O que mostra que a aceleração forte do começo do ano foi turbinada pela manutenção prolongada dos incentivos fiscais. A redução dos tributos demorou a ser suspensa porque o governo estava querendo produzir uma bolha de crescimento para fins eleitorais. O Banco Central começou então o ciclo de aperto da política monetária. Isso e a suspensão das deduções de tributos reduziram o excesso do crescimento que poderia levar à inflação. Mesmo assim, o país cresceu em ritmo razoável no segundo trimestre como se verá hoje. No terceiro trimestre, pode crescer um pouco mais, mas o dado de julho mostrou que essa retomada será mais suave.
Entre os que defendiam, desde antes da reunião, a manutenção dos juros, também estão os economistas José Júlio Senna, da MCM Consultores, e Luiz Roberto Cunha, da PUC-Rio. Senna explica que nas últimas semanas houve mudanças nas economias brasileira e mundial e elas justificam a parada técnica nos juros: a inflação parou de subir; o comércio e a indústria perderam fôlego; e, principalmente, a recuperação internacional ficou incerta:
- As economias desenvolvidas dão sinais de que não estão em recuperação, ou seja, estão crescendo abaixo do PIB potencial. Se isso se confirmar, haverá impacto sobre a confiança dos empresários no Brasil porque a rentabilidade das empresas será afetada - afirmou Senna.
Luiz Roberto Cunha avalia que não haverá pressão nos preços nos próximos meses. Ele lembra que o IPCA deve ficar por três meses em zero: em junho registrou 0,00%; em julho, 0,01%; e em agosto deve ser 0,05%, segundo sua projeção.
- O BC está com cenário tranquilo para a inflação. Os números surpreenderam para baixo e os analistas se renderam. Até mesmo em setembro, quando o IPCA deve voltar a subir, para 0,40%, não teremos uma taxa alta. O acumulado em 12 meses continuará em torno do centro de 4,5% - disse.
Tudo bem no curto prazo. O problema que nos ameaça é o custo da confusão fiscal deste fim de festa produzida para garantir a vitória eleitoral.
Pernas curtas - Dora Kramer
O Estado de S. Paulo - 03/09/2010
Se a Receita Federal é confiável como diz o presidente Luiz Inácio da Silva, por mais razão é urgente que as pessoas responsáveis pela instituição - do mais alto ao mais baixo escalão - comecem a falar a verdade e parem de tratar o cidadão brasileiro feito idiota.
A candidata Dilma Rousseff, que se apresenta como parceira de Lula em todas as ações de governo e gerente de toda a máquina pública, também precisa parar de fazer de conta que não está entendendo o que se passa.
Na impossibilidade de contar a verdade, que pelo menos arrume uma versão verossímil para corroborar a tese de que uma coisa é a violação do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato da oposição, outra coisa são os interesses político-eleitorais do PT.
Sob pena de carregar o passivo pelo restante dos dias até a eleição.
As teorias em circulação são frágeis e obviamente falsas.
A que passou a ser defendida - com pouquíssima sutileza, diga-se - pelo presidente Lula se assemelha àquela do caixa 2 inventada à época do mensalão para tentar reduzir o estrago jurídico e político das denúncias de fraude, corrupção e peculato.
Na época, a ideia era fugir dos crimes mais graves para assumir o crime eleitoral e socializar o prejuízo na base do "todo mundo faz".
Agora o presidente Lula indignou-se com o falsificador do documento apresentado como sendo uma procuração da filha de José Serra, Verônica, para a retirada de suas declarações na Receita. Disse que, "se ficar provado", foi cometido "um crime grave no Brasil": falsidade ideológica.
Ora, ora. O que se desenha é muito mais do que isso. É a quebra de sigilo para coleta de informações de adversários. Só não está claro se os autores se aproveitaram de esquema pré-existente no ABC ou criaram um disfarce especial para atingir seus alvos dando a impressão de que se tratava de um sistema geral de quebra de sigilo e venda dos dados.
Quando o presidente fazia o discurso da falsidade ideológica, o governo já sabia havia pelo menos dez dias que Verônica Serra tivera a declaração de renda violada e que havia suspeita de fraude e, ainda assim, sustentava a versão de que ela havia assinado uma procuração.
É uma mentira atrás da outra.
Indicativas de que as acusações da oposição têm fundamento. Se não, por que assessores do presidente reclamariam da inabilidade da Receita por ter enviado os documentos relativos a Verônica para o Ministério Público?
Achavam que a Receita poderia ter sido mais companheira e omitido essa parte já que havia a "procuração" como "prova" de licitude.
Ademais, se não sabe o que aconteceu, se é verdade que as investigações ainda estão em curso e por isso não se chegou ao culpado (ou culpados), de onde sai a certeza que não houve uso político, conforme declarou Lula?
A outra mentira da qual poderíamos todos ser poupados é a que aponta falta de interesse do PT em quebrar sigilo "agora" pois está muito à frente nas pesquisas e que a campanha de Dilma não pode ser responsabilizada, pois em 2009, quando ocorreram as violações, a candidatura dela não existia.
Existia tanto quanto a certeza do PT de que em algum momento poderia ser necessário implodir o adversário, então na dianteira nas pesquisas.
Abraçado. O candidato José Serra teria muito mais credibilidade em seu justo dever de denunciar os métodos de seus oponentes se não tivesse, por razões táticas, dito que Lula estava "acima do bem e do mal".
Se mesmo tendo sido vítima de estratagema parecido em 2006, ainda levava o adversário na maciota, fica complicado explicar - sem remeter o assunto para a seara do oportunismo - por que a opção por se abraçar com Lula no horário eleitoral, procurando estabelecer com ele uma relação comparativa de igual para igual na cabeça do eleitor.
Ou, a fim de preservar o eleitor intersecção, dirá que o PT é uma coisa, a campanha de Dilma outra e Lula uma terceira completamente diferente?
Se a Receita Federal é confiável como diz o presidente Luiz Inácio da Silva, por mais razão é urgente que as pessoas responsáveis pela instituição - do mais alto ao mais baixo escalão - comecem a falar a verdade e parem de tratar o cidadão brasileiro feito idiota.
A candidata Dilma Rousseff, que se apresenta como parceira de Lula em todas as ações de governo e gerente de toda a máquina pública, também precisa parar de fazer de conta que não está entendendo o que se passa.
Na impossibilidade de contar a verdade, que pelo menos arrume uma versão verossímil para corroborar a tese de que uma coisa é a violação do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao candidato da oposição, outra coisa são os interesses político-eleitorais do PT.
Sob pena de carregar o passivo pelo restante dos dias até a eleição.
As teorias em circulação são frágeis e obviamente falsas.
A que passou a ser defendida - com pouquíssima sutileza, diga-se - pelo presidente Lula se assemelha àquela do caixa 2 inventada à época do mensalão para tentar reduzir o estrago jurídico e político das denúncias de fraude, corrupção e peculato.
Na época, a ideia era fugir dos crimes mais graves para assumir o crime eleitoral e socializar o prejuízo na base do "todo mundo faz".
Agora o presidente Lula indignou-se com o falsificador do documento apresentado como sendo uma procuração da filha de José Serra, Verônica, para a retirada de suas declarações na Receita. Disse que, "se ficar provado", foi cometido "um crime grave no Brasil": falsidade ideológica.
Ora, ora. O que se desenha é muito mais do que isso. É a quebra de sigilo para coleta de informações de adversários. Só não está claro se os autores se aproveitaram de esquema pré-existente no ABC ou criaram um disfarce especial para atingir seus alvos dando a impressão de que se tratava de um sistema geral de quebra de sigilo e venda dos dados.
Quando o presidente fazia o discurso da falsidade ideológica, o governo já sabia havia pelo menos dez dias que Verônica Serra tivera a declaração de renda violada e que havia suspeita de fraude e, ainda assim, sustentava a versão de que ela havia assinado uma procuração.
É uma mentira atrás da outra.
Indicativas de que as acusações da oposição têm fundamento. Se não, por que assessores do presidente reclamariam da inabilidade da Receita por ter enviado os documentos relativos a Verônica para o Ministério Público?
Achavam que a Receita poderia ter sido mais companheira e omitido essa parte já que havia a "procuração" como "prova" de licitude.
Ademais, se não sabe o que aconteceu, se é verdade que as investigações ainda estão em curso e por isso não se chegou ao culpado (ou culpados), de onde sai a certeza que não houve uso político, conforme declarou Lula?
A outra mentira da qual poderíamos todos ser poupados é a que aponta falta de interesse do PT em quebrar sigilo "agora" pois está muito à frente nas pesquisas e que a campanha de Dilma não pode ser responsabilizada, pois em 2009, quando ocorreram as violações, a candidatura dela não existia.
Existia tanto quanto a certeza do PT de que em algum momento poderia ser necessário implodir o adversário, então na dianteira nas pesquisas.
Abraçado. O candidato José Serra teria muito mais credibilidade em seu justo dever de denunciar os métodos de seus oponentes se não tivesse, por razões táticas, dito que Lula estava "acima do bem e do mal".
Se mesmo tendo sido vítima de estratagema parecido em 2006, ainda levava o adversário na maciota, fica complicado explicar - sem remeter o assunto para a seara do oportunismo - por que a opção por se abraçar com Lula no horário eleitoral, procurando estabelecer com ele uma relação comparativa de igual para igual na cabeça do eleitor.
Ou, a fim de preservar o eleitor intersecção, dirá que o PT é uma coisa, a campanha de Dilma outra e Lula uma terceira completamente diferente?
Erro estratégico - Merval Pereira
O Globo - 03/09/2010
O comando da campanha presidencial tucana cometeu um erro estratégico ao tentar impugnar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a candidatura situacionista de Dilma Rousseff, dando margem a que seus adversários aleguem que toda gritaria em torno da quebra dos sigilos fiscais tem o objetivo único de "melar" a eleição que, segundo as pesquisas, a candidata de Lula vence com larga margem sobre José Serra, o candidato do PSDB.
A mesma reação teve o presidente Lula quando disputava a reeleição em 2006 e aconteceu o episódio dos "aloprados". Lula partiu para o ataque dizendo que a oposição estava querendo "melar o jogo" ou "ganhar no tapetão", o que na gíria futebolística tanto ao gosto do presidente significa querer ganhar nos tribunais os pontos perdidos em campo.
Usaram a tática de atacar para se defender mesmo que todas as evidências chegassem, como hoje, bem próximas ao Palácio do Planalto e à campanha de reeleição de Lula, com assessores pessoais envolvidos na tramoia, como Freud Godoy, ex-segurança transformado em assessor especial.
Acusado de ser o planejador da compra do dossiê contra os candidatos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, Freud desapareceu de cena e ressurgiu no início deste ano, sempre envolvido em espionagem e contrainformação, presidindo a Caso Sistemas de Segurança.
Hoje, quando se repete a revelação do uso de métodos ilegais na campanha petista, a alegação é a mesma: por que interessaria ao governo perturbar uma eleição que parece tão tranquila, com Dilma mais de 20 pontos à frente de Serra?
Acontece que, quando o sigilo de Verônica Serra foi quebrado, em setembro do ano passado - fato que só foi revelado agora, na esteira da investigação dos demais sigilos quebrados - quem estava na frente das pesquisas era José Serra.
O mais grave é que o jornal "Estado de S. Paulo" teve acesso a documentos que provam que a Receita Federal descobriu que o sigilo da filha de Serra fora quebrado há mais tempo, mas escondeu o fato.
Mesmo que a direção da Receita nada tenha a ver diretamente com a espionagem de pessoas ligadas ao candidato do PSDB, não tendo controle sobre os "aloprados" que atuam nas agências a serviço do partido, estaríamos diante de uma clara utilização de órgão do governo para pelo menos proteger a campanha da candidata oficial de notícias potencialmente prejudiciais.
Mas era previsível que a Justiça Eleitoral não aceitaria as evidências para iniciar um processo, assim como não tomou providências quando laços muito mais explícitos ligavam os "aloprados" de 2006 à campanha de reeleição de Lula.
A não aceitação da denúncia, no entanto, não transforma o malfeito - na definição de Dilma Rousseff - em bem-feito, nem reduz a gravidade da situação.
Embora sem chances de eleger seu candidato à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, nem de fazer uma bancada que tenha expressão numérica, o PSOL pretende continuar pautando sua atuação no Congresso pela prática da política independente. Deve eleger Heloísa Helena para o Senado, o que será garantia de protagonismo político naquela Casa.
Dentro dessa estratégia, a eleição mais importante, a essa altura, é a dos Legislativos. Segundo o deputado federal Chico Alencar, candidato à reeleição, o PSOL não aceita "ficar no "gueto" dos "nanicos ideológicos": valorizamos os espaços institucionais, defendemos uma radicalização da democracia, combinando a representativa (tão débil hoje) com a participativa".
Para Alencar, uma hegemonia completa dos setores fisiológicos, de mandatos de clientela -- a maior parte hoje vinculada à hegemonia lulista, como antes gravitavam em torno de FHC - será um desastre para o país, e o balcão de negócios, isto é, a corrupção política, aumentará, junto com a degradação total do próprio Parlamento, que já é pouco relevante em termos de projetos estratégicos e fiscalização efetiva dos governos.
A visão de Alencar é pessimista caso essa hegemonia clientelista se confirme: "A reforma política ficará enterrada, definitivamente, até que o desencanto total com o atual sistema produza turbulências sociais (como aconteceu em muitos dos nossos vizinhos latino-americanos)".
O PSOL também repudia, segundo Alencar, "a cooptação dos movimentos populares, sindicais - e até estudantis - que partidos ditos de esquerda, da base do governo, praticam, contínua e exitosamente".
Ele admite que a bancada do partido, nos estados e no Congresso Nacional, será "bem pequena", mas garante que terá independência crítica frente ao provável governo Dilma e aos governos estaduais: "com autonomia para cobrar, criticar, exigir, denunciar. Mas não na linha conservadora e incoerente da oposição demo-tucana, que, ao que tudo indica, ficará menor do que hoje".
Chico Alencar prevê, no entanto, que o PSOL terá "autoridade moral e política para questionar", enquanto parte da oposição de direita "irá aderir: não terá contradições fundamentais com os possíveis futuros governos e não consegue viver tanto tempo longe de seus benefícios, inclusive para a reprodução de mandatos".
No balanço que publiquei em recente coluna sobre os governos estaduais e a campanha para senador, não citei dois prováveis vencedores das eleições de 3 de outubro: Simão Jatene (PSDB), no Pará, e Omar Aziz (PMN), no Amazonas.
No Pará, coloquei Valéria Pires (DEM) como provável senadora eleita, quando ela não é nem candidata.
No estado, o líder das pesquisas é Jader Barbalho, que tem agora uma difícil luta no Supremo para manter o provável mandato, já que foi considerado "ficha-suja" pelo TRE e pelo TSE.
Os outros dois candidatos mais votados são: Paulo Rocha (PT) e Flexa Ribeiro (PSDB).
O comando da campanha presidencial tucana cometeu um erro estratégico ao tentar impugnar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a candidatura situacionista de Dilma Rousseff, dando margem a que seus adversários aleguem que toda gritaria em torno da quebra dos sigilos fiscais tem o objetivo único de "melar" a eleição que, segundo as pesquisas, a candidata de Lula vence com larga margem sobre José Serra, o candidato do PSDB.
A mesma reação teve o presidente Lula quando disputava a reeleição em 2006 e aconteceu o episódio dos "aloprados". Lula partiu para o ataque dizendo que a oposição estava querendo "melar o jogo" ou "ganhar no tapetão", o que na gíria futebolística tanto ao gosto do presidente significa querer ganhar nos tribunais os pontos perdidos em campo.
Usaram a tática de atacar para se defender mesmo que todas as evidências chegassem, como hoje, bem próximas ao Palácio do Planalto e à campanha de reeleição de Lula, com assessores pessoais envolvidos na tramoia, como Freud Godoy, ex-segurança transformado em assessor especial.
Acusado de ser o planejador da compra do dossiê contra os candidatos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra, Freud desapareceu de cena e ressurgiu no início deste ano, sempre envolvido em espionagem e contrainformação, presidindo a Caso Sistemas de Segurança.
Hoje, quando se repete a revelação do uso de métodos ilegais na campanha petista, a alegação é a mesma: por que interessaria ao governo perturbar uma eleição que parece tão tranquila, com Dilma mais de 20 pontos à frente de Serra?
Acontece que, quando o sigilo de Verônica Serra foi quebrado, em setembro do ano passado - fato que só foi revelado agora, na esteira da investigação dos demais sigilos quebrados - quem estava na frente das pesquisas era José Serra.
O mais grave é que o jornal "Estado de S. Paulo" teve acesso a documentos que provam que a Receita Federal descobriu que o sigilo da filha de Serra fora quebrado há mais tempo, mas escondeu o fato.
Mesmo que a direção da Receita nada tenha a ver diretamente com a espionagem de pessoas ligadas ao candidato do PSDB, não tendo controle sobre os "aloprados" que atuam nas agências a serviço do partido, estaríamos diante de uma clara utilização de órgão do governo para pelo menos proteger a campanha da candidata oficial de notícias potencialmente prejudiciais.
Mas era previsível que a Justiça Eleitoral não aceitaria as evidências para iniciar um processo, assim como não tomou providências quando laços muito mais explícitos ligavam os "aloprados" de 2006 à campanha de reeleição de Lula.
A não aceitação da denúncia, no entanto, não transforma o malfeito - na definição de Dilma Rousseff - em bem-feito, nem reduz a gravidade da situação.
Embora sem chances de eleger seu candidato à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio, nem de fazer uma bancada que tenha expressão numérica, o PSOL pretende continuar pautando sua atuação no Congresso pela prática da política independente. Deve eleger Heloísa Helena para o Senado, o que será garantia de protagonismo político naquela Casa.
Dentro dessa estratégia, a eleição mais importante, a essa altura, é a dos Legislativos. Segundo o deputado federal Chico Alencar, candidato à reeleição, o PSOL não aceita "ficar no "gueto" dos "nanicos ideológicos": valorizamos os espaços institucionais, defendemos uma radicalização da democracia, combinando a representativa (tão débil hoje) com a participativa".
Para Alencar, uma hegemonia completa dos setores fisiológicos, de mandatos de clientela -- a maior parte hoje vinculada à hegemonia lulista, como antes gravitavam em torno de FHC - será um desastre para o país, e o balcão de negócios, isto é, a corrupção política, aumentará, junto com a degradação total do próprio Parlamento, que já é pouco relevante em termos de projetos estratégicos e fiscalização efetiva dos governos.
A visão de Alencar é pessimista caso essa hegemonia clientelista se confirme: "A reforma política ficará enterrada, definitivamente, até que o desencanto total com o atual sistema produza turbulências sociais (como aconteceu em muitos dos nossos vizinhos latino-americanos)".
O PSOL também repudia, segundo Alencar, "a cooptação dos movimentos populares, sindicais - e até estudantis - que partidos ditos de esquerda, da base do governo, praticam, contínua e exitosamente".
Ele admite que a bancada do partido, nos estados e no Congresso Nacional, será "bem pequena", mas garante que terá independência crítica frente ao provável governo Dilma e aos governos estaduais: "com autonomia para cobrar, criticar, exigir, denunciar. Mas não na linha conservadora e incoerente da oposição demo-tucana, que, ao que tudo indica, ficará menor do que hoje".
Chico Alencar prevê, no entanto, que o PSOL terá "autoridade moral e política para questionar", enquanto parte da oposição de direita "irá aderir: não terá contradições fundamentais com os possíveis futuros governos e não consegue viver tanto tempo longe de seus benefícios, inclusive para a reprodução de mandatos".
No balanço que publiquei em recente coluna sobre os governos estaduais e a campanha para senador, não citei dois prováveis vencedores das eleições de 3 de outubro: Simão Jatene (PSDB), no Pará, e Omar Aziz (PMN), no Amazonas.
No Pará, coloquei Valéria Pires (DEM) como provável senadora eleita, quando ela não é nem candidata.
No estado, o líder das pesquisas é Jader Barbalho, que tem agora uma difícil luta no Supremo para manter o provável mandato, já que foi considerado "ficha-suja" pelo TRE e pelo TSE.
Os outros dois candidatos mais votados são: Paulo Rocha (PT) e Flexa Ribeiro (PSDB).
Avançou- Celso Ming
O Estado de S. Paulo - 03/09/2010
Depois de mais de um ano de vacilações, algumas grandes incertezas que cercavam o processo de aumento de capital da Petrobrás foram afinal dirimidas. Falta resolver outras, como o preço por ação pelo qual será realizada a oferta pública.
Trata-se provavelmente da maior operação desse tipo em toda a história global, a ser completada num momento de crise internacional, em que o apetite por aplicações de risco não é lá essas coisas. Pode alcançar US$ 85 bilhões. Além disso, será realizada sob o impacto do megavazamento de petróleo no Golfo do México, o maior desastre dessa natureza, que quase afundou a BP, responsável pelo poço.
Apesar disso, as primeiras informações que chegam são de que "é forte o interesse por essa oferta pública".
Tal como vem sendo formatado, o aumento de capital pretende amarrar um punhado de objetivos fixados pelo governo Lula: garantir mais privilégios à Petrobrás na exploração do pré-sal; aumentar a participação do Tesouro num contexto de escassez de recursos (por isso a subscrição da parcela da União é feita em espécie - petróleo depositado no fundo da terra - e não em dinheiro vivo); e atrair investimentos privados que são os que de fato vão fornecer energia financeira à Petrobrás.
Como será grande o contingente de acionistas minoritários brasileiros sem condições de subscrever a sua parte, as sobras deverão ser adquiridas pela União e pelos interessados, brasileiros e estrangeiros. A Petrobrás sairá desse processo mais estatal e mais estrangeira.
O preço final dos 5 bilhões de barris que serão transferidos à Petrobrás, a US$ 8,51 por barril, ficou acima das apostas iniciais do mercado. Mas sobre o "valor justo", no máximo se podem obter esclarecimentos e nunca uma certeza cabal. São nada menos que sete poços (veja mapa), cada um com suas características, a exigir diferentes alocações de recursos técnicos e financeiros para sua exploração.
O cacife da União, definido a partir do preço médio do barril, é de US$ 42,5 bilhões, metade do aumento de capital autorizado. Ou seja, a União entra no jogo disposta não só a subscrever sua parte (32%), mas também as sobras, até metade do aumento autorizado.
Não está claro, ainda, se na subscrição das sobras, a União vai contentar-se com ficar apenas com as ações ordinárias (com direito a voto) ou se terá interesse também nas preferenciais.
Além de diluir sua participação no capital da Petrobrás, o acionista minoritário terá retorno imediato menor por suas aplicações. Fácil entender por quê: os investimentos a serem feitos com a capitalização levarão de cinco a oito anos para maturar. Enquanto isso, a Petrobrás estará produzindo mais ou menos os mesmos resultados (lucro líquido entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões por trimestre), a serem distribuídos por um capital 30% maior.
De qualquer maneira, o atual acionista se beneficiará de dois fatores: (1) incorporação às reservas da Petrobrás de 5 bilhões de barris de petróleo destituídos de risco de reservatório - uma vantagem rara; e (2) maior liquidez na negociação das ações nas bolsas.
O impacto no câmbio que advirá da entrada de pelo menos US$ 20 bilhões em recursos novos não será o único a ser provocado pelo processo de capitalização. De algum lugar, os subscritores do novo capital terão de tirar dinheiro. E isso aponta para certo aumento do movimento de resgates dos fundos de renda fixa ou de vendas de outras ações no mercado.
Depois de mais de um ano de vacilações, algumas grandes incertezas que cercavam o processo de aumento de capital da Petrobrás foram afinal dirimidas. Falta resolver outras, como o preço por ação pelo qual será realizada a oferta pública.
Trata-se provavelmente da maior operação desse tipo em toda a história global, a ser completada num momento de crise internacional, em que o apetite por aplicações de risco não é lá essas coisas. Pode alcançar US$ 85 bilhões. Além disso, será realizada sob o impacto do megavazamento de petróleo no Golfo do México, o maior desastre dessa natureza, que quase afundou a BP, responsável pelo poço.
Apesar disso, as primeiras informações que chegam são de que "é forte o interesse por essa oferta pública".
Tal como vem sendo formatado, o aumento de capital pretende amarrar um punhado de objetivos fixados pelo governo Lula: garantir mais privilégios à Petrobrás na exploração do pré-sal; aumentar a participação do Tesouro num contexto de escassez de recursos (por isso a subscrição da parcela da União é feita em espécie - petróleo depositado no fundo da terra - e não em dinheiro vivo); e atrair investimentos privados que são os que de fato vão fornecer energia financeira à Petrobrás.
Como será grande o contingente de acionistas minoritários brasileiros sem condições de subscrever a sua parte, as sobras deverão ser adquiridas pela União e pelos interessados, brasileiros e estrangeiros. A Petrobrás sairá desse processo mais estatal e mais estrangeira.
O preço final dos 5 bilhões de barris que serão transferidos à Petrobrás, a US$ 8,51 por barril, ficou acima das apostas iniciais do mercado. Mas sobre o "valor justo", no máximo se podem obter esclarecimentos e nunca uma certeza cabal. São nada menos que sete poços (veja mapa), cada um com suas características, a exigir diferentes alocações de recursos técnicos e financeiros para sua exploração.
O cacife da União, definido a partir do preço médio do barril, é de US$ 42,5 bilhões, metade do aumento de capital autorizado. Ou seja, a União entra no jogo disposta não só a subscrever sua parte (32%), mas também as sobras, até metade do aumento autorizado.
Não está claro, ainda, se na subscrição das sobras, a União vai contentar-se com ficar apenas com as ações ordinárias (com direito a voto) ou se terá interesse também nas preferenciais.
Além de diluir sua participação no capital da Petrobrás, o acionista minoritário terá retorno imediato menor por suas aplicações. Fácil entender por quê: os investimentos a serem feitos com a capitalização levarão de cinco a oito anos para maturar. Enquanto isso, a Petrobrás estará produzindo mais ou menos os mesmos resultados (lucro líquido entre R$ 8 bilhões e R$ 9 bilhões por trimestre), a serem distribuídos por um capital 30% maior.
De qualquer maneira, o atual acionista se beneficiará de dois fatores: (1) incorporação às reservas da Petrobrás de 5 bilhões de barris de petróleo destituídos de risco de reservatório - uma vantagem rara; e (2) maior liquidez na negociação das ações nas bolsas.
O impacto no câmbio que advirá da entrada de pelo menos US$ 20 bilhões em recursos novos não será o único a ser provocado pelo processo de capitalização. De algum lugar, os subscritores do novo capital terão de tirar dinheiro. E isso aponta para certo aumento do movimento de resgates dos fundos de renda fixa ou de vendas de outras ações no mercado.
quinta-feira, setembro 02, 2010
Ricardo Noblat Aloprados 2 - O retorno
O GLOBO
O contador Antônio Carlos Atella Ferreira admitiu ao GLOBO que foi ele quem retirou cópias das declarações de IR de Verônica Serra na agência da Receita Federal em Santo André, município do ABC paulista. Disse que fez isso por encomenda de uma pessoa. Que ele não lembra o nome. Mas que "queria prejudicar Serra".
É claro que o contador mente. Ele sabe, sim, quem lhe encomendou o trabalho. Só não quer dizer quem foi.
Cerca de 140 pessoas tiveram seu sigilo fiscal violado em agências da Receita Federal no ABC paulista. Entre as 140, cinco são ligadas a Serra. Uma delas, Verônica, é filha dele. Se isso tudo não configura um escândalo de bom tamanho, nada mais configura.
O "Caso dos Aloprados" é bobagem perto do "Aloprados 2 - O Retorno".
O primeiro aconteceu em meados de 2006.
Empregados do comitê da campanha de Lula à reeleição montaram um falso dossiê para comprometer as candidaturas de Serra (ao governo de São Paulo) e de Geraldo Alckmin (à Presidência da República).
Os alvos, ali, eram dois. Os documentos que engordaram o falso dossiê estavam em mãos de particulares - bandidos envolvidos com a chamada Máfia do Sangue.
Agora, não.
O crime teve como alvos dezenas de pessoas. E um órgão do governo - não um órgão qualquer, mas a Receita Federal - está metida no crime até o talo.
Dados fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, foram parar num calhamaço de papéis reunidos por pessoas que trabalhavam na campanha de Dilma Rousseff.
Duas delas, pelo menos, almoçaram com um ex-delegado da Polícia Federal interessadas em que ele espionasse Serra.
Elas negam que seu propósito tivesse sido esse. O ex-delegado confirmou que era, sim, em depoimento prestado no Congresso.
O Aloprados 1 foi investigado pela Polícia Federal. Não deu em nada. Ninguém foi punido.
O governo anunciou que a Polícia Federal investigará o que ele, governo, se recusa a chamar de Aloprados 2. Sua única preocupação é afastar a sombra do crime das proximidades da campanha de Dilma.
O contador Antônio Carlos Atella Ferreira admitiu ao GLOBO que foi ele quem retirou cópias das declarações de IR de Verônica Serra na agência da Receita Federal em Santo André, município do ABC paulista. Disse que fez isso por encomenda de uma pessoa. Que ele não lembra o nome. Mas que "queria prejudicar Serra".
É claro que o contador mente. Ele sabe, sim, quem lhe encomendou o trabalho. Só não quer dizer quem foi.
Cerca de 140 pessoas tiveram seu sigilo fiscal violado em agências da Receita Federal no ABC paulista. Entre as 140, cinco são ligadas a Serra. Uma delas, Verônica, é filha dele. Se isso tudo não configura um escândalo de bom tamanho, nada mais configura.
O "Caso dos Aloprados" é bobagem perto do "Aloprados 2 - O Retorno".
O primeiro aconteceu em meados de 2006.
Empregados do comitê da campanha de Lula à reeleição montaram um falso dossiê para comprometer as candidaturas de Serra (ao governo de São Paulo) e de Geraldo Alckmin (à Presidência da República).
Os alvos, ali, eram dois. Os documentos que engordaram o falso dossiê estavam em mãos de particulares - bandidos envolvidos com a chamada Máfia do Sangue.
Agora, não.
O crime teve como alvos dezenas de pessoas. E um órgão do governo - não um órgão qualquer, mas a Receita Federal - está metida no crime até o talo.
Dados fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, foram parar num calhamaço de papéis reunidos por pessoas que trabalhavam na campanha de Dilma Rousseff.
Duas delas, pelo menos, almoçaram com um ex-delegado da Polícia Federal interessadas em que ele espionasse Serra.
Elas negam que seu propósito tivesse sido esse. O ex-delegado confirmou que era, sim, em depoimento prestado no Congresso.
O Aloprados 1 foi investigado pela Polícia Federal. Não deu em nada. Ninguém foi punido.
O governo anunciou que a Polícia Federal investigará o que ele, governo, se recusa a chamar de Aloprados 2. Sua única preocupação é afastar a sombra do crime das proximidades da campanha de Dilma.
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