15.05.2004 | O presidente Jacques Chirac tem um problema com álcool. Num país onde o vinho é a bebida nacional, Chirac gosta mais de cerveja. A França é o país que mais consome vinho no mundo: são 75 litros por francês ao ano. Os maiores tomadores de cerveja são os checos (160 litros/habitante/ano), seguidos de perto pelos irlandeses (155 litros). A França vem em trigésimo-quinto lugar (39 litros) – e o Brasil em vigésimo-sétimo (50 litros).
O que talvez seja mais grave, Chirac prefere a cerveja belga à nacional. Ele está na contramão não só do gosto popular como do seu eleitorado específico: na França, a cerveja é tomada principalmente pelos jovens, e a maioria dos que votam em Chirac tem mais de 45 anos.
Não que o presidente não aprecie ou não tome vinho. Quando a rainha Elisabeth II, da Inglaterra, esteve em Paris no mês passado, Chirac ergueu um brinde a ela no jantar de gala com uma taça de um excelente vinho da Borgonha, um Chateau Mouton Rotcshild.
Em campanha eleitoral, ou em visita a feiras de agricultura e alimentação, Chirac toma um golinho de tudo o que os eleitores ou expositores lhe oferecem: conhaque, calvados, cidra, champanhe, armagnac, poire etc. Mas com amigos, em restaurantes e brasseries, o presidente sempre pede cerveja belga.
Os hábitos etílicos do presidente não configuram uma preocupação nacional. Mas sazonalmente aparecem referências na imprensa. E quando se fala com um francês sobre bebidas, é batata: vem a informação, seguida de um muxoxo ou de um sorriso maledicente, de que o presidente gosta de cerveja belga.
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O presidente Lula tem um problema com álcool?
Nas vezes que estive com ele, não notei problema algum. Uma vez, ele almoçou no restaurante que havia no andar de cima da redação de “Veja”. Tomou, como todos os outros que estavam à mesa, uns dois copos de vinho. Depois, ele e um assessor tomaram uma dose de licor Stregha.
Há quatro anos, durante um jantar num restaurante no Jabaquara que ele frequentava, onde havia um excelente camarão à provençal, Lula bebeu uma dose de uísque e, quando muito, dois copos de cerveja. Era uma conversa sem objetivo definido.
Na campanha para as prefeituras de 2000, acompanhei Lula durante uma semana para fazer uma reportagem. Fomos ao Rio Grande do Sul, ao Paraná e a Pernambuco. Ele bebia em alguns almoços e em outros, não. No jantar, bebia sempre. Tomava a bebida que lhe oferecessem. Se houvesse uísque, de uísque ia. Duas doses, no máximo. Aqui em Paris, no ano passado, num coquetel de fim de dia, assim como os cinco ex-primeiros socialistas que estavam na embaixada do Brasil, o presidente tomou vinho.
Já bebi com outros presidentes: Ernesto Geisel, José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Alguns beberam menos (Sarney), outros mais (Lula), mas todos cabem na categoria de bebedores sociais: aquele a quem o álcool não afeta o desempenho profissional e o equilíbrio emocional. Nunca o vi nenhum deles bêbado, ou um pouco alterado, ou eufórico, por ter bebido demais.
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Se nunca demonstrou ter problemas com bebida, Lula passou a beber mais, ou em excesso, ao se tornar presidente?
Dois conhecidos (gente de cinema) que participaram de projeções de filmes no Palácio do Alvorada me disseram que o presidente bebeu muito. Um deles contou: duas doses, grandes, de uísque, antes do filme. Durante a projeção, um garçon não deixou o copo do presidente esvaziar. No jantar, ele tomou vinho. Depois, fez um discurso que o meu interlocutor considerou desconexo. Ambos me disseram que o presidente falou palavrões à torto e à direito. E usou uma expressão bem grosseira – que não irei reproduzir por receio que o Planalto me obrigue a voltar ao Brasil).
Dois outros amigos, jornalistas, contaram que se bebia bastante nos churrascos e peladas de fim de semana na Granja do Torto. O que pode parecer uma grande revelação, mas alguém já foi a um churrasco com futebol onde não se bebesse tonéis de cerveja ou caipirinha?
Passei a acompanhar o noticiário político pela lente etílica. Repetidas vezes, notícias envolvendo o presidente relataram com detalhes, de passagem, como quem não quer nada, o que ele bebeu. Exemplo: o jantar com jornalistas na casa de uma colunista em Brasília.
Houve referências explícitas. O presidente da CUT disse que o presidente bebeu antes de tomar uma determinada medida. Uma colunista de economia repetiu o mesmo raciocínio, mas em relação a outra medida. Carlos Heitor Cony escreveu na “Folha” que o presidente é chegado a um “aperitivo”.
Começaram então as piadas. Em telefonemas e emails. E também de gente de passagem por Paris, inclusive funcionários do governo. Algumas delas caíram na internet. Aqui mesmo, no “Nominimo”, Tutty Vasquez disse que o novo avião presidencial vai se chamar “Air Force Fifty-One”. Segundo me contaram, um programa humorístico de televisão, chamado “Casseta e Planeta”, também fez graça com os supostos exageros etílicos do presidente.
Aí comecei esperar a reportagem. Era fatal que alguma publicação da grande imprensa se dispussesse a esmiuçar a relação de Lula com a bebida. Se políticos e jornalistas, se os poderosos, se o magma onde se fundem as fofocas brasileiras falava de Lula e bebida, a pauta estava dando sopa e alguém iria transformá-la em matéria. Ainda mais numa quadra em que a popularidade do governo estava em queda.
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Leon Trotsky escreveu na sua biografia de Stálin, que ficou inacabada porque Stálin mandou que lhe cravassem uma picareta de gelo na cabeça, que na Rússia a expressão que designa um alcólatra na última linha é “mais bêbado que um sapateiro georgiano”. E lembrou em seguida que Stálin era filho de um sapateiro georgiano. Acusar o adversário de bêbado é moeda corrente na luta política.
Não apenas porque o excesso de álcool altera a capacidade de discernimento. O alcolismo é problema de saúde pública na maioria dos países. (Nos países muçulmanos, Alá seja louvado, pelo menos esse problema não existe).
Em si, dependendo da personalidade do político, o consumo de álcool independe não só das idéias que ele defende como não tem ligação direta com a sua capacidade de elaboração e liderança. Hitler não bebia. Churchill bebia feito um gambá – uísque e champanhe – o que não o impediu de ser um democrata e liderar a resistência contra o fascismo.
O alcoolismo é um problema na Rússia há quinhentos anos, quando foi inventada a vodka. Trotsky, que não bebia, tinha idéias de como combater o alcolismo. Perdeu o poder antes de colocá-las em prática. Stálin, que bebia (sobretudo vinho georgiano, que é ruim paca), ordenou durante a Segunda Guerra Mundial que se desse uma dose de vodka todas às noites a cada soldado do Exército Vermelho.
Mikhail Gorbachev quis controlar a produção de vodka. Àquela altura, 40% da população masculina russa padecia de alguma forma de alcolismo.
(Essa é uma questão complicada: o que é o alcolismo? Tecnicamente, uma pessoa que bebe diariamente é alcólatra, pois não concebe a existência sem bebida. É um viciado, um dependente. Mas geralmente é considerado alcoólatra aquele cuja vida é atrapalhada pela bebida: ele perde o emprego, agride a mulher, precisa beber de manhã etc).
Boa parte da produção de vodka, durante os anos confusos da glasnost e da perestroika, caiu na ilegalidade. Ela passou a ser destilada em alambiques clandestinos, que produziam veneno, literalmente. Entre outros motivos, Gorbachev se tornou impopular, sobretudo nas camadas mais pobres, porque quis limitar o consumo de vodka.
Seu sucessor, Boris Ieltsin, fez campanha e foi eleito, também entre outros motivos, porque prometeu diminuir o preço da vodka. Ieltsin era (é ainda?) alcoólatra, em qualquer sentido que se dê à palavra. No congresso do Partido Comunista em que ele rompe com o stalinismo, a televisão mostrou, ele andava pelos corredores do plenário em ziguezague, bebadaço.
Vladimir Putin foi reeleito prometendo não aumentar o preço da vodka. Mas ele nunca bebe em público. Só vai de água mineral. E tem imagem de esportista, se vangloria de lutar bem judô. A imprensa russa diz que ele é mais popular entre as mulheres do que entre os homens. Justamente porque não bebe: o alcolismo, em qualquer país, é uma doença eminentemente masculina.
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Durante a campanha eleitoral, Lula declarou que gostava de tomar uma cachacinha. Na sua coluna em “Veja”, em setembro de 2002, Diogo Mainardi escreveu que gostaria de saber quantas cachaças Lula gostava de tomar por dia. Como eleitor, a informação lhe parecia pertinente: uma coisa é votar em quem toma uma cachaça de vez em quando; outra, votar em quem toma quatro por dia. Mainardi, se não me falha a memória, deu o exemplo de Jânio Quadros, um pau d’água que chegou à presidência sem que se questionasse a sua resistência ao álcool.
No mês passado, Mainardi voltou a associar Lula e bebida. Ele sugeriu que o presidente parasse de beber em público, para não parecer que esteja incitando o consumo de álcool.
A sugestão é sensata, em termos de saúde pública. No Brasil, o alcolismo está entre as dez maiores causas de internações clínicas. Ele é responsável também por 10% das faltas ao trabalho e 80% dos acidentes de trânsito. E também pela degradação, pela ruptura familiar, pela infelicidade e traumas de crianças: quem tem ou teve amigos alcólatras sabe do que estou falando.
Como o problema existe, é pertinente todo esforço para não banalizar o consumo de álcool. É só por esse motivo que na França é proibida a propaganda de álcool – assim como de cigarro. Inclusive cerveja, que só no Brasil não é considerada uma bebida alcólica.
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Para vexame da imprensa brasileira, a esperada reportagem sobre Lula e a bebida foi feita por Larry Rother Jr e acabou saindo no “New York Times”.
A reportagem é pertinente. Não conta nenhuma mentira. Fala das conversas sobre o assunto. Diz que quase ninguém quer se pronunciar em público sobre o tema. O correspondente tentou ouvir o porta-voz do presidente. Repetiu algumas piadas. Reproduziu algo do que havia sido publicado a respeito: frases fora de contexto de uma coluna de Diogo Mainardi, uma piada da coluna na internet de Claudio Humberto Rosa e Silva, um comentário de Ali Kamel n’“O Globo” – sendo que esse último defendia que havia preconceito contra Lula). O mais importante: Larry Rother reconheceu claramente que era impossível dizer se havia um problema do presidente com a bebida.
A reportagem do “New York Times” não é uma denúncia. Ela me pareceu uma típica matéria de correspondente estrangeiro, numa edição de domingo carregada de tortura no Iraque: é leve, trata de um tema pouco importante, busca retratar uma situação entre o exótico e o folclórico, traz uma foto engraçada com Lula rindo, de chapeuzinho vermelho, segurando uma caneca de cerveja acima da cabeça.
A matéria tem uma estupidez: o título. Ele diz que o jeito de Lula beber tornou-se “preocupação nacional”. O erro não foi de Larry Rother, que em nenhum momento usa a expressão “preocupação nacional”. Foi um erro de edição.
Certamente que a reportagem poderia ter sido melhor, mais completa. Qualquer publicação brasileira (exceto o “JB”), teria recursos para fazê-la. Não a fizeram porque não quiseram. Quem a fez foi Larry Rothman, do jeito dele. Um jeito isento e profissional, como disseram o diretor de redação do “Times” e o ombudsman do jornal.
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Aconteceu o que se sabe. Políticos da situação e da oposição enrolaram-se em estandartes auriverdes e saíram em praça pública, rufando tambores contra o ultraje à honra nacional. O imperialismo ianque foi fustigado. A notória associação do Departamento de Comércio americano com Larry Rother foi exposta. A sobejamente conhecida incapacidade da imprensa americana de produzir uma reportagem decente foi repisada. Veio a nu o sórdido complô entre o ex-porta-voz de Collor, Brizola e as multinacionais. A decadência inevitável do “New York Times” (vide Jayson Blair!) foi confirmada e reconfirmada. Um exaltado chegou a dizer que o jornal está ainda pior que o “JB”. A nota oficial do Palácio do Planalto usou o termo “amiúde”, esclareceu que os hábitos do presidente não diferem do dos seus compatriotas e nos informou, sisuda, que às vezes Lula trabalha “mais de doze horas” por dia.
O Brasil estava unido contra o nefando Rother, o seu jornal empulhador e o sinistro torturador George W. Bush. O Brasil defendia com gunhas e arras o seu presidente. O Brasil se insurgia contra os dragões da maldades. Emocionado, derramei algumas furtivas e patrióticas lágrimas no bar mais próximo, o Poliveau, entornando um copinho de poire – sim, confesso, eu era um admirador da Turma do Poire, liderada por Ulysses Guimarães, um bebe-quieto por excelência.
No dia seguinte, o presidente acordou invocado e expulsou o jornalista peçonhento. Tudo se transformou no seu contrário. Lula foi chamado de tacanho, turrão, beócio, primitivo, prepotente, arrogante, destemperado.
Passaram mais alguns dias e o presiente, magnânimo, voltou atrás na expulsão, apesar do jornalista não ter pedido desculpas. Chamaram a turma do deixa-disso. Acochambraram. Medraram. Deram um jeitinho. Acabou em pizza.
Para desespero de meus familiares, desde o início da “crise” passei a cantarolar os versos irmortais:
“Se você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão”.
A marchinha não me sai da cabeça. É um inferno.
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Como fica a imagem brasileira no exterior?
Nenhum jornal francês repercutiu a reportagem do “Times”.
Eles deram notas curtas sobre a expulsão do correspondente americano, comum resumo sumário da matéria de Larry Roth.
Para se ter um exemplo do senso de proporção: o “Monde deu dez linhas sobre Lula, “Times” & bebida. E deu na íntegra, em uma página inteira, o relatório da Cruz Vermelha sobre as tortura dos militares americanos no Iraque. Engraçados os franceses, não? Eles se interessam por assuntos absolutamente marginais. Não captaram o que havia por trás da matéria do “Times”.
No caminho do restaurante, para jantar com um amigo francês, Alain, ele me perguntou: Que história é essa do “Monde” de hoje que o presidente do teu país bebe? Chegamos ao restaurante, as crianças nos distraíram, o assunto mudou, falamos do Iraque, de anti-semitismo na Alsácia, de “Cidade de Deus”, dos filhos, das perspectivas de Chirac para 2007, das Olimpíadas. E por aí foi. Esquecemos de Lula.
Ninguém está preocupado na França com o Brasil, com o seu presidente, beba ele ou não. Houve um período, entre a eleição e, digamos, um ano depois da posse de Lula, quando se acreditava que o PT fosse oferecer uma alternativa à esquerda, que o Brasil foi levado a sério. Esse período acabou. Ninguém quer mais saber de nós.
Nem nós, brasileiros. É infindável a nossa capacidade para nos envolvermos em discussões estéreis. Vocês passaram um mês debatendo aí se aquele sambista bêbado deveria ter deixado de fazer propaganda da cerveja A para fazer da B. Depois vocês passaram mais um mês falando de bingo. E agora derrubaram florestas e secaram rios de tinta para atacar o americano, defender o presidente, e depois defender o americano e atacar o presidente. Como se isso tivesse alguma importância. Como se isso fosse resolver algum problema nacional. Nenhum brasileiro melhorou ou piorou de vida com a reportagem de Larry Rother e a gritaria que se seguiu a ela. O Brasil continuou na mesma. O Brasil não sai da mesma. Essa é a sua tragédia.
Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, maio 15, 2004
Mario Sergio Conti Se você pensa que cachaça é água
segunda-feira, maio 10, 2004
Diogo Mainardi Quero entrevistar o Lula
"Duda Mendonça prometeu me ajudar.
Agradeci e perguntei: 'O presidente
apresentou como novas ambulâncias
repintadas. Ele não é como uma ambulância
velha, repintada pelo senhor?' "
Acordei invocado. Peguei o telefone e liguei para o Palácio do Planalto.
– Quero entrevistar o Lula.
A telefonista transferiu a chamada para a Secretaria de Imprensa do presidente. O chefe do departamento, Ricardo Kotscho, informou-me que iria encaminhar o pedido de entrevista ao responsável pelo agendamento, acrescentando, de forma desalentadora, que uma penca de jornalistas de todas as nacionalidades estava à minha frente.
Como eu continuava invocado, e não queria saber de esperar meses e meses, liguei para o Ratinho, que recentemente conseguiu furar a fila de jornalistas e entrevistar Lula na Granja do Torto, com direito a churrasco e recital de sanfona. Ratinho se comprometeu a interceder em meu favor, aconselhando o presidente, seu amigo, a me receber prontamente. Ratinho me assegurou também que eu ficaria encantado com Lula, porque sua equipe é uma porcaria, mas ele é uma pessoa da melhor qualidade, tanto que foi o único que se preocupou em distribuir dentaduras aos pobres.
O empenho de Ratinho não aplacou meu ímpeto. Resolvi ligar para Duda Mendonça. Sua secretária despejou sobre mim uma gravação de Caetano Veloso cantando Nirvana. Fiquei ainda mais invocado do que antes. Duda Mendonça explicou que raramente se encontra com Lula, mas pretende vê-lo na semana que vem, para mostrar-lhe sua última campanha publicitária, aquela que compara dados de doze meses de Fernando Henrique com os de catorze de Lula. Duda Mendonça prometeu me ajudar a conseguir a entrevista. Agradeci e perguntei:
– O presidente apresentou como novas cinco ambulâncias que tinham sete anos de uso, mas foram repintadas para a ocasião. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?
Modestamente, Duda Mendonça respondeu que não. Ele foi o maior responsável pela eleição de Lula. O destino o puniu infligindo-lhe a contratação de Luis Favre, o marido da prefeita Marta Suplicy.
A seguir, pensei em telefonar para José Dirceu, mas li que ele não apita mais nada no governo. Liguei então para Frei Betto, um dos melhores amigos de Lula. Ele não me atendeu. Voltei a ligar no dia seguinte. Ele estava em reunião. Liguei no outro dia. Ele continuava em reunião.
Cada hora mais invocado, procurei na internet o número da Secretaria de Comunicação e liguei para Luiz Gushiken. Como ele não estava, falei com um de seus assessores, que me recomendou ligar para o todo-poderoso secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho. Antes de trabalhar com Lula, Gilberto Carvalho era o principal colaborador do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel. O irmão de Celso Daniel, em depoimento à Justiça, acusou Gilberto Carvalho de conhecer os esquemas de propina da prefeitura e de ter entregue, pessoalmente, o dinheiro arrecadado a José Dirceu. Ocorreu-me que, além de pedir uma entrevista, valeria a pena aproveitar o telefonema para ouvir a versão de Gilberto Carvalho sobre o caso, mas ele preferiu não retornar minhas ligações.
No futuro, quando eu acordar invocado, acho mais fácil falar com o Bush.10/5/2004
domingo, maio 09, 2004
"NYT" diz que excesso de álcool afeta Lula
DA REDAÇÃO
O jornal "The New York Times", o principal dos EUA e um dos mais influentes do mundo, publica na página 6 da edição de hoje uma reportagem com o título "Hábito de bebericar do presidente vira preocupação nacional", na qual descreve supostos excessos alcoólicos de Luiz Inácio Lula da Silva. O texto é acompanhado por uma foto de Lula, do ano passado, bebendo cerveja na Oktoberfest (leia íntegra ao lado).
A Secretaria de Imprensa da Presidência afirmou ontem que o texto "não é jornalístico", mas uma manifestação de "calúnia, difamação e preconceito". O governo só deve se pronunciar sobre as medidas a respeito da reportagem do "NYT" amanhã. A Folha apurou que o Palácio do Planalto deve acionar o jornal na Justiça.
O longo texto, escrito por um dos correspondentes do jornal no Brasil, Larry Rohter, compara o suposto hábito de "tomar bebidas fortes" de Lula ao de Jânio Quadros (1917-1991) e afirma que a inesperada renúncia do então presidente em 1961 conduziu o país ao golpe militar de 1964.
O texto diz ainda que o presidente freqüentemente aparece em fotos com um copo na mão e com os olhos e as bochechas vermelhas, mas que poucas pessoas ousam expressar suas opiniões sobre esse assunto em público.
O jornal menciona também diversas gafes cometidas pelo presidente, entre as quais a declaração de que a capital da Namíbia era tão limpa que "não parecia fazer parte de um país africano".
Ao "NYT", o Palácio do Planalto afirmou que não daria uma resposta formal "a acusações sem fundamento". Segundo a versão oficial, a história de que Lula bebe em excesso "é um misto de preconceito, desinformação e má fé".
Hábito de bebericar do presidente vira preocupação nacional
LARRY ROTHER
DO "NEW YORK TIMES", EM BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca escondeu sua inclinação por um copo de cerveja, uma dose de uísque ou, melhor ainda, um copinho de cachaça, o potente destilado brasileiro feito de cana-de-açúcar. Mas alguns de seus conterrâneos começam a se perguntar se sua preferência por bebidas fortes não está afetando suu performance no cargo.
Nos últimos meses, o governo esquerdista de Da Silva tem sido assaltado por uma crise depois da outra, de escândalos de corrupção ao fracasso de programas sociais cruciais.
O presidente tem ficado longe do alcance público nesses casos e tem deixado seus assessores encarregarem-se da maior parte do levantamento de peso. Essa atitude tem levantado especulação sobre se o seu aparente desengajamento e passividade podem de alguma forma estar relacionados a seu apetite por álcool. Seus apoiadores, entretanto, negam as acusações de excesso de bebida.
Apesar de líderes políticos e jornalistas falarem cada vez mais entre si sobre o consumo de bebidas de Da Silva, poucos estão dispostos a expressarem suas suspeitas em público ou oficialmente. Uma exceção é Leonel Brizola, líder do esquerdista PDT, que foi companheiro de Lula na eleição de 1998, mas agora está preocupado que o presidente esteja "destruindo os neurônios de seu cérebro".
"Quando eu fui candidato a vice-presidente de Lula, ele bebia muito", disse Brizola, agora um crítico do governo, em um discurso recente. "Eu o avisei que bebidas destiladas são perigosas. Mas ele não me escutou e, de acordo com que estão dizendo, continua a beber."
Durante uma entrevista no Rio de Janeiro em meados de abril, Brizola argumentou sobre a preocupação que ele havia expressado a Da Silva e que o que ele dissera ter sido desconsiderado. "Eu disse a ele: "Lula, eu sou seu amigo e camarada, e você precisa controlar isso'", ele lembra.
"Não, não há perigo, eu tenho isso sob controle", Brizola lembra da resposta de Da Silva, imitando sua voz rouca. "Ele resistiu, ele é um resistente", Brizola continuou. "Mas ele tinha aquele problema. Se eu bebesse como ele, estaria frito."
Os porta-vozes de Da Silva recusaram-se a discutir oficialmente os hábitos de beber do presidente, afirmando que não iriam dar crédito a acusações infundadas com uma resposta oficial. Em uma breve mensagem por e-mail que respondia a um pedido de comentário, afirmaram que a especulação que Da Silva bebe em excesso como "uma mistura de preconceito, desinformação e má-fé".
Da Silva, um metalúrgico de 58 anos, mostrou ser um homem de apetites e impulsos fortes, o que contribui para seu apelo popular. Com um misto de compaixão e simpatia, os brasileiros têm assistido a seus esforços para não fumar em público, a seus flertes com atrizes em eventos públicos e à sua batalha contínua para evitar comidas gordurosas -que fizeram seu peso aumentar muito em pouco tempo desde que assumiu o cargo em janeiro de 2003.
Além de Brizola, líderes políticos e a mídia parecem preferir lidar com isso de forma mais sutil e indireta, mas com com um certo apetite. Sempre que possível, a imprensa brasileira publica fotos do presidente com os olhos avermelhados e as bochechas coradas e constantemente fazem referências tanto aos churrascos de fim de semana na residência presidencial, onde a bebida corre solta, como aos eventos oficiais onde Da Silva parece nunca estar sem um copo de bebida nas mãos.
"Eu tenho um conselho para o Lula", escreveu em março o crítico mordaz Diogo Mainardi, colunista da "Veja", a revista mais importante do país, enumerando uma lista de reportagens contendo referências ao hábito do presidente. "Pare de beber em público", ele aconselhou, acrescentando que o presidente tornou-se "o maior garoto-propaganda para a indústria da bebida" com seu notório consumo de álcool.
Uma semana depois, a mesma revista publicou uma carta de um leitor preocupado com o "alcoolismo de Lula" e seu efeito na habilidade do presidente de governar.
Apesar de alguns sites estarem reclamando de "nosso presidente alcoólico", foi a primeira vez que a grande imprensa nacional referiu-se a da Silva desta maneira.
Historicamente, os brasileiros têm razão para estarem preocupados com sinais de hábitos de abuso do álcool de seus presidentes. Jânio Quadros, eleito em 1960, foi um bebedor manifesto que um dia declarou: "Bebo porque é líquido".
Sua inesperada renúncia, menos de um mês após ter assumido -período considerado uma maratona de excessos- iniciou um período de instabilidade política que levou a um golpe de Estado, em 1964, e a 20 anos de uma rígida ditadura militar.
Independentemente se Da Silva tem um problema com bebida ou não, o tema tem se infiltrado na consciência pública e se tornado alvo de piadas.
Quando o governo gastou US$ 56 milhões no início do ano para comprar um novo avião presidencial, por exemplo, o colunista Claudio Humberto, uma espécie de Matt Drudge da política brasileira, fez um concurso para dar um apelido à aeronave. Uma das escolhas vencedoras, em alusão de que o avião presidencial americano é chamado de Força Aérea Um, sugeriu que o nome do jato de Da Silva deveria ser ""Pirassununga 51" -nome de uma marca popular de cachaça no Brasil.
Outra sugestão foi "Movido a Álcool", um trocadilho com o plano governamental de incentivar o uso de etanol em carros.
Especulação sobre os hábitos de bebida do presidente tem sido alimentada por várias gafes e passos em falso que ele tem feito em público. Como candidato, ele uma vez se referiu aos moradores de uma cidade considerada uma abrigo para os gays chamando-a de "pólo exportador de veados". Como presidente, suas escorregadas em público continuaram e se tornaram parte do folclore político brasileiros.
Numa cerimônia aqui em fevereiro para anunciar um grande investimento, por exemplo, Da Silva duas vezes se referiu ao presidente da General Motors, Richard Wagoner, como presidente da Mercedes-Benz. Em outubro, num dia em homenagem aos idosos do país, Da Silva disse a eles: "Quando vocês se aposentarem, não fiquem em caso aborrecendo sua família. Encontrem alguma coisa para fazer".
No exterior, Da Silva também tropeçou ou foi mal aconselhado. Em visita ao Oriente Médio no ano passado, ele imitou um sotaque árabe falando em português, inclusive com pronúncias erradas. Em Windhoek, na Namíbia, o presidente disse que a cidade parecia tão limpa que "não parece que está num país africano."
A equipe de Da Silva e seus simpatizantes respondem que esses escorregões são apenas ocasionais e previsíveis para alguém que gosta de falar de improviso e não tem nada a ver com seu consumo de álcool, que eles descrevem como sempre moderado. Para eles, Da Silva é visto de um padrão diferente -e injusto- com relação a seus antecessores porque ele é o primeiro presidente brasileiro vindo da classe trabalhadora e estudou apenas até a quinta série.
""Qualquer um que já tenha estado em recepções formais ou informais em Brasília testemunhou presidentes bebericando uma dose de uísque", escreveu recentemente o colunista Ali Kamel, no diário carioca "O Globo". ""Mas sobre o fato nada se leu a respeito dos outros presidentes, somente de Lula. Isso cheira a preconceito."
Da Silva nasceu em uma família pobre, num dos Estados mais pobres do país e passou anos liderando sindicatos de trabalhadores, um ambiente famoso pelo alto consumo de álcool. Relatos da imprensa brasileira têm repetidamente descrito o pai do presidente, Aristides -o qual ele pouco conheceu e morreu em 1978- como um alcólatra que maltratava suas crianças.
Histórias sobre episódios de beber envolvendo Da Silva são abundantes. Depois de uma noite na cidade onde ele fora membro do Congresso, no final dos anos 1980, Da Silva saiu do elevador no andar errado do prédio onde morava na época e tentou arrombar a porta de um apartamento que ele imaginava ser o seu, de acordo com políticos e jornalistas aqui, incluindo alguns que moravam no mesmo edifício.
""Sob Lula, a caipirinha virou "bebida nacional" por decreto presidencial", escreveu o diário Folha de S. Paulo no mês passado, em artigo sobre a associação de Da Silva com álcool e em alusão a um coquetel feito com cachaça.
sábado, maio 01, 2004
Diogo Mainardi Os revoltados a favor
1/5/2004
"Marcelo Coelho costuma atribuir-se
o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo
. Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada
do bom-mocismo conformista e pernóstico
de Marcelo Coelho"
Participo de um programa de TV, Manhattan Connection. Entrei no lugar de Arnaldo Jabor. Um amigo meu chamou Arnaldo Jabor de "revoltado a favor". Antes ele era revoltado a favor de Fernando Henrique. Agora é revoltado a favor de Lula. Continua revoltado. Continua a favor.
Pior que Arnaldo Jabor é Marcelo Coelho. Apesar de viver num "mundo cultural com pouquíssimos pontos de contato com o da maioria da população", sendo avesso a "TV, música popular e futebol", Marcelo Coelho, logo depois das eleições, encantou-se com o "jeito maroto" de Lula, sua "figura antiépica", sua "espontaneidade bem no estilo de Rebolo e Pennacchi". Para Marcelo Coelho, Lula finalmente tinha livrado a política "das teorias, dos programas, das discussões partidárias". Um ano depois, ele se desiludiu. Lula passou a encarnar a "didática pequeno-burguesa, travestida de sabedoria popular, que se desmancha em lágrimas de pura parvoíce". Lula mudou? Claro que não. Quem mudou foi Marcelo Coelho. Ele costuma atribuir-se o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo. Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada do bom-mocismo conformista e pernóstico de Marcelo Coelho. De hoje em diante, proíbo-o de citar Montaigne. Pode citar Habermas, se quiser.
A releitura do que se publicou na imprensa no período eleitoral deveria ser matéria obrigatória em todas as faculdades de jornalismo. Janio de Freitas saudou a eleição de Lula como um triunfo do humanismo sobre a tecnocracia, abrindo a esperança de um futuro melhor. Eliane Cantanhêde considerou a vitória de Lula "um marco de mudança, esperança, justiça, moralidade e igualdade". O militante petista Luis Fernando Verissimo comemorou o fim do clientelismo e do fisiologismo dos tucanos, que se comportavam como "caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe". Antonio Candido viu o começo de uma "fase redentora na vida nacional", em que a utopia se tornaria realidade. Essa gente acreditou mesmo no PT? Em todos esses anos de convívio eles nunca desconfiaram da inépcia e da falta de idéias dos dirigentes do partido? Era tão difícil assim perceber a impostura?
Quem também me espanta são esses retardatários que demoraram mais de um ano para descobrir que Lula é iletrado e não gosta de ópera. É pouco. É atenuar o problema. Falta de cultura virou um álibi para a palermice do governo. E o governo dá provas diárias de palermice. Na última semana, Lula prometeu diminuir a criminalidade alistando futuros traficantes nas Forças Armadas. Depois das cotas para negros nas universidades, ele quer esse outro tipo de cota nos quartéis. Como o recruta fará para demonstrar que é um traficante potencial? Basta um antepassado traficante ou ele próprio precisa ter passagens pela polícia?
Um dos poucos jornalistas que não se desiludiram com Lula foi o Ratinho. A recompensa por sua seriedade foi uma entrevista com o presidente. Eu sou menos sério que o Ratinho, mas também gostaria de entrevistar Lula. Vou ligar agora mesmo para seu assessor de imprensa, tentando marcar uma hora.
sábado, abril 24, 2004
Diogo Mainardi Sou culpado, confesso
24/4/2004
"Eu supunha que minha única contribuição para
o mundo do crime fosse entregar meu relógio e
minha carteira à bandidagem. Mas não. Minha
culpa é me eximir de meus deveres sociais. Os
narcotraficantes atiram em mim porque não dou
aulas de balé ou teatro na favela"
Acabo de matar de fome uma criancinha no interior do Acre. Não, não foi a primeira. Matei muitas outras no passado. E, confesso, continuarei a matar. Enquanto elas morrem, passeio de bicicleta com meu filho pela orla de Ipanema, indiferente a tudo. Como é que ainda não fui preso? Como é que ainda não fui linchado? Bem que eu mereceria.
Quem me acusou de matar criancinhas no interior do Acre foi a Fundação Getúlio Vargas. De acordo com seu mais recente Mapa da Fome, um terço da população brasileira vive num estado de miséria absoluta. Pelos cálculos da FGV, erradicar toda essa miséria é muito mais simples e barato do que parece. Basta que cada endinheirado como eu entregue a um miserável a quantia de 14 reais. Isso significa que aquela criancinha no interior do Acre só morreu de fome porque cometi a mesquinharia suprema de negar-lhe uns trocados. Juro que não foi de propósito. Estou disposto a dar bem mais que 14 reais para expiar meus crimes sociais. A FGV só precisa explicar a quem devo dá-los. Ao mendigo no farol? Ao ministro Patrus Ananias? À Pastoral da Terra? Outra pergunta: posso descontar os 14 reais do imposto de renda? Porque eu sempre pensei, erroneamente, que os impostos servissem para isso: impedir que as criancinhas morressem de fome no interior do Acre. Aguardo esclarecimentos urgentes da FGV.
Além de matar criancinhas de fome, eu também sou culpado por boa parte dos assassinatos no Rio de Janeiro. É o que afirmam todas as pessoas de bem da cidade. Elas apontam o dedo para mim e me acusam de ser cúmplice do narcotráfico, com o argumento de que a responsabilidade pela violência não é só dos bandidos, mas da sociedade como um todo. Até hoje eu supunha que minha única contribuição para o mundo do crime fosse entregar meu relógio e minha carteira à bandidagem. Mas não. Para influentes figuras da sociedade carioca, como Arnaldo Jabor e Gisela Amaral, todos nós temos uma parcela de culpa. Inclusive eu. Minha culpa é me eximir de meus deveres sociais. Os narcotraficantes atiram em mim porque não dou aulas de balé ou teatro na favela.
O movimento Viva Rio dá aulas de balé e teatro na favela. Na última quarta-feira, promoveu também o Dia do Carinho, em que centenas de voluntários subiram o morro da Rocinha para distribuir rosas a seus moradores. Não teria sido melhor a polícia subir o morro com algemas? Os moradores da Rocinha teriam agradecido. O logotipo do Dia do Carinho mostrava um negrinho sorridente com um gorro de assaltante na cabeça. A mensagem dos organizadores do evento era clara: se subirmos o morro com rosas, vocês param de descê-lo com suas metralhadoras? Não vejo nada de errado em tentar melhorar a vida dos favelados. Pelo contrário. Mas sempre achei que era um erro atribuir a essas associações beneméritas um papel na luta contra a criminalidade. Imagino que os traficantes do Comando Vermelho tenham todos os discos do AfroReggae. Imagino também que suas filhas aprendam balé nos cursos oferecidos pelo Viva Rio. Como não quero que Arnaldo Jabor e Gisela Amaral me acusem de pactuar com a bandidagem, porém, telefonei ao Viva Rio e me cadastrei para o Dia do Carinho, oferecendo-me para levar uma rosa a um morador da Rocinha. Ainda bem que não me ligaram de volta.
domingo, abril 18, 2004
MERVAL PEREIRA Crise de identidade
A crise política que não abandona o governo tem suas raízes mais profundas no problema de identidade do Partido dos Trabalhadores. Na oposição, sem outra responsabilidade que não fosse tentar chegar ao poder, até mesmo às vezes caindo na tentação de manobras golpistas, como quando adotou o mote radical “Fora FHC” vindo do PSTU, ou quando quase aceitou como verdadeiro o Dossiê Cayman, o PT não se preparou para exercer o governo.
Sua cúpula, acertadamente, vislumbrou a necessidade de mudanças do discurso, e mesmo das práticas, para conseguir chegar à Presidência da República depois de três derrotas.
Mas não pôs essa mudança de posicionamento político em discussão dentro do partido. Por autoritarismo, ou por saber que não conseguiria convencer a maioria dos militantes.
Ou ainda, mais provavelmente, decidiu escamotear a mudança com um discurso dúbio na campanha eleitoral, para poder receber, ao mesmo tempo, os votos daqueles petistas que continuam querendo a ruptura completa, e os dos eleitores que, mesmo não sendo petistas, viam no novo e não tão radical Lula uma esperança de mudança.
Chegada ao poder com essa ambivalência na alma, a cúpula do PT continuou manipulando a maioria partidária, já agora adicionando aos seus poderes os poderes do governo, com o aparelhamento do Estado em troca do apoio político.
O PT, por escolha de sua cúpula, passou a ser um partido do Estado, o que pressupunha uma adesão incondicional às diretrizes governamentais. Como seus militantes, e principalmente seus deputados e senadores, não foram consultados sobre o papel de coadjuvantes de luxo do governo, as dissidências surgiram cedo.
O que parecia serem atitudes isoladas de um ou outro deputado ou senadora, logo mostrou-se uma divisão muito mais profunda. O deputado federal Chico Alencar, que faz parte da esquerda do PT mas não adere incondicionalmente às diretrizes do governo, acha que quem diz que partido hegemônico tem de ser solidário com o governo considera quase que exclusivamente as fortes razões do poder.
“Se é natural questionar o comportamento crítico do PT, cabe também analisar se o governo tem dialogado adequadamente com seu principal partido de sustentação, especialmente com sua instâncias principais, as bancadas no Senado e Câmara”, diz o deputado.
Lembrando o sociólogo italiano Norberto Bobbio, que dizia que “um diálogo não se faz com dois monólogos”, Chico comenta que “o pior é que nem isso sei se há: nós, deputados, estamos começando a deixar de formular propostas de consenso para levar ao governo. E o partido, quando o faz, é um Deus nos acuda”.
Chico reclama mais participação do partido nas decisões do governo, chamando a atenção de que parece caber ao partido, “no máximo, debater prolegômenos de uma reforma sindical, por exemplo. Sem certeza do que virá para o Congresso”.
A crise desencadeada pelas denúncias de corrupção do ex-assessor Waldomiro Diniz, que atingiram em cheio o chefe do Casa Civil, José Dirceu, destampou as insatisfações que existiam no partido e mesmo na base aliada do governo. A perda, que não se sabe se é permanente ou transitória, da capacidade de Dirceu de coordenar as ações políticas do governo exacerba ciúmes, estimula invejas e abre as portas para chantagens as mais variadas.
Mas também deixa aliados sérios sem capacidade de responder aos ataques da oposição e às desconfianças da opinião pública. A decisão do governo de barrar a todo custo o pedido de CPIs pode parecer a mais eficiente em termos práticos, mas só faz ampliar a percepção de que o PT, que na oposição queria CPI para tudo, era apenas uma farsa vendendo ao eleitorado uma imagem de pureza ética que nunca teve.
Há quem esteja incomodado, na base do governo, por exemplo, com as negativas pouco consistentes da Caixa Econômica Federal sobre a participação de Waldomiro Diniz nas negociações com a Gtech. E quando a oposição lembra que Eduardo Jorge, o ex-secretário-particular de Fernando Henrique, depôs no Congresso diversas vezes para rebater uma a uma as acusações, que acabaram provando-se falsas, não há como explicar que nem Waldomiro nem Dirceu aceitem falar ao Congresso.
Segundo Chico Alencar, “preocupações com transparência e ética são abafadas pelo dito realismo político, e quem insiste, como Suplicy ( senador Eduardo Suplicy, de São Paulo), é taxado de ingênuo ou olhado, de soslaio, como inconseqüente. Continua faltando humildade, franqueza e grandeza. E não é de nossa parte”, garante.
Na terça-feira à noite mesmo, quando falou em público pela primeira vez mais aprofundadamente depois da crise, o ministro José Dirceu garantiu que o partido continuará seus debates internos. Mas o grave é que o que Dirceu considera debate nem sempre coincide com a visão de outros setores do partido. A esquerda petista, por exemplo, realizará este domingo um “seminário de aprofundamento” em São Paulo, com economistas como Ricardo Carneiro (Unicamp) e cientistas sociais como Laura Tavares (UFRJ) fazendo um balanço da política econômica e social, para os quais os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social, foram convidados.
À tarde, os 15 deputados federais de dez estados que promovem o evento, coordenados pelo fundador do partido Plínio de Arruda Sampaio, avaliarão os rumos do PT. “A paranóia (ou fragilidade?) é tanta que não duvido que alguns companheiros vão considerar o seminário inoportuno”, comenta Chico Alencar, para arrematar: “Em tempos de crise, a razão costuma ser uma das primeiras vítimas”.18/4/2004
sábado, abril 17, 2004
Diogo Mainardi Bom é ser improdutivo
"Por que implicamos tanto com terras
improdutivas? A improdutividade é um
elemento fundamental da economia
moderna. Em muitos casos, não plantar
pode ser mais rentável do que plantar.
A União Européia só se construiu graças
a uma agressiva política de desestímulo
à produtividade"
Chega de falar em reforma agrária. Vamos abolir o Incra. Vamos fechar o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Lula é criticado por ter assentado menos lavradores que Fernando Henrique Cardoso. Pois foi seu único mérito até agora. Quanto menos assentamentos, melhor. Eles custam caro e não servem para nada. Ponto para Lula.
Como se viu recentemente, o MST já não aceita a distinção entre terras produtivas e improdutivas. Está certo, claro. Essa distinção, sancionada pela Constituição, é um dos maiores enganos da nossa política agrária. Por que implicamos tanto com as terras improdutivas? Se a improdutividade fosse um critério válido para a desapropriação, a esta altura Lula já teria sido despejado do Palácio do Planalto. Deveria ser um direito do agricultor não plantar nada em suas terras. Afinal, quem perde é ele. O procurador-geral da República, Cláudio Fontelles, defendeu a invasão de terras improdutivas com o argumento de que o direito à propriedade não é absoluto. Na China, possivelmente. No Brasil, deveria ser, sim. A improdutividade é um elemento fundamental da economia moderna. Em muitos casos, não plantar pode até ser mais rentável do que plantar. A União Européia só se construiu graças a uma agressiva política de desestímulo à produtividade agrícola. Cada país europeu tem uma cota de produção. Os agricultores, na prática, são pagos para não ultrapassar essas cotas. Um mercado integrado como o da Alca pode gerar acordos semelhantes para o Brasil. Os contribuintes americanos podem ser obrigados a bancar a diminuição da produtividade dos nossos cultivadores de laranja e soja, num sistema de compensações. Quer coisa melhor do que ser pago para não trabalhar?
Fernando Henrique Cardoso gastou cerca de 20 bilhões de reais em desapropriações. O dinheiro teria sido mais bem empregado no pagamento de juros abusivos aos credores internacionais. Aliás, entregar o dinheiro aos credores internacionais é melhor do que qualquer outro investimento público. Anos e anos de campanhas eleitorais demagógicas nos persuadiram de que não há investimento mais útil do que aquele em educação. Quando se sabe, porém, que de cada 4 reais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (Fundef) 3 são desviados por administradores corruptos, só nos resta abolir o Fundef e reverter sua verba aos credores estrangeiros. Assim como devemos parar de investir em desapropriações e assentamentos, devemos eliminar todos os subsídios agrícolas. Chega de financiar a reforma agrária e chega de financiar os latifundiários incompetentes. O Estado não deve dar dinheiro nem aos pobres, nem aos ricos. Deve dar apenas aos credores internacionais. Se usássemos todo o dinheiro de investimentos para pagar os juros, sobrariam recursos para diminuir os tributos e impostos das empresas, o que derrubaria os custos de produção, a única maneira de gerar desenvolvimento e emprego no país. Com mais dinheiro no bolso, os latifundiários poderiam inclusive substituir o Estado na construção de estradas, portos e ferrovias. É por isso que a pequena propriedade não serve: ela depende do investimento do poder público. E o poder público é corrupto demais para investir.
sábado, abril 03, 2004
Diogo Mainardi O plano B de bom
"Eu sei que os brasileiros se orgulham de
suas estatais. Cinqüenta anos de propaganda
massacrante produziram esse resultado.
O brasileiro é um tipo pitoresco: acha que
todo político é safado, mas insiste em
entregar suas maiores empresas a eles"
Eu tenho um Plano B para a economia. Os paloccianos afirmam que a mera existência de um Plano B pode prejudicar o Brasil. Bobagem. O que prejudica o Brasil é a falta de um bom Plano B. Em primeiro lugar, devemos diminuir a dívida pública vendendo tudo o que der para vender, dos imóveis às empresas estatais. Só a venda de Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil pode abater cerca de 10% de nossa dívida interna. Eu sei que os brasileiros se orgulham de suas estatais. Cinqüenta anos de propaganda massacrante produziram esse resultado. O brasileiro é um tipo pitoresco: acha que todo político é safado, mas insiste em entregar suas maiores empresas a eles.
A Petrobras, por exemplo, é cara demais para nós. Veja o caso das plataformas petrolíferas P-51 e P-52. Durante a campanha eleitoral, Lula prometeu que elas seriam construídas no Brasil. Quando fez a promessa, no fim de 2002, cada plataforma estava orçada em cerca de 500 milhões de dólares. Quase um ano e meio depois, a P-52 foi encomendada a um estaleiro de Cingapura, por 775 milhões. E a P-51 ficou a cargo da subsidiária brasileira do mesmo estaleiro de Cingapura, por 800 milhões. A esse valor, porém, é necessário acrescentar os 150 milhões de isenções fiscais concedidos pelo Estado do Rio de Janeiro. E os 360.000 barris diários de petróleo que deixamos de produzir entre uma licitação e outra. O BNDES vai financiar a obra em 600 milhões de dólares. Apesar de todo esse dinheiro, serão criados menos de 5 000 empregos diretos no Brasil, metade dos quais na Nuclep, uma estatal que deu 35 milhões de prejuízo anual nos últimos dez anos e que já deveria estar fechada há muito tempo. Difícil calcular quanto a bravata nacionalista de Lula pode ter custado ao país. Alguém aí me ajude a fazer a soma, por favor.
Um bom Plano B para a economia também deve dobrar o superávit primário. O de Palocci foi insuficiente. Tivemos mais de 4% de déficit nominal no ano passado. Significa que faltou uma montanha de dinheiro para pagar os juros. O governo Lula nunca será capaz de zerar a conta. Por mais que ele aumente os impostos, o gasto público sempre irá crescer mais rápido. Em 2003, o Estado empregou 50 000 funcionários a mais. Só no Palácio do Planalto, o aumento de pessoal superou os 17%. O único a ser demitido foi Waldomiro Diniz, sem o qual o governo se embananou todo. Descobriu-se que era ele o verdadeiro manobrador por trás de José Dirceu, azeitando toda a barganha política no Congresso Nacional. O secretário executivo do Ministério do Planejamento, Elvio Gaspar, afirmou que o governo pretende contratar muito mais servidores até o fim do mandato. Elvio Gaspar foi secretário de Planejamento do Rio de Janeiro no governo Benedita da Silva, que deixou um rombo nas finanças do Estado e teve suas contas rejeitadas pela Justiça. Estamos, portanto, em boas mãos.
Cortar gastos é o melhor Plano B que existe. E é o melhor instrumento de moralidade política que o Brasil pode ter. Pena que ninguém tenha votado em mim na última campanha presidencial.
sábado, março 27, 2004
Diogo Mainardi A solução para o crime
27/3/2004
"Não há por que manter o monopólio do
Estado sobre a segurança pública. Sobretudo
quando o Estado presta um serviço deplorável
como o nosso. Chegamos ao ponto em que
mercenários estrangeiros poderiam ser mais
confiáveis do que a polícia"
Os mercenários responsáveis pelo policiamento civil no Iraque pertencem à Dyncorp. Mil homens. Cuidam do recrutamento de policiais, da reforma do Judiciário e da montagem de cadeias. É gente altamente qualificada. Cada mercenário possui um mínimo de dez anos de experiência investigativa nos Estados Unidos. Para ser contratado, precisa superar uma corrida de obstáculos, arrastar um boneco de 84 quilos e subir uma escada de 6 metros de altura com uma arma na mão. Custo? Cinqüenta milhões de dólares por ano. Ou seja, nada. Vamos trazê-los para cá.
A Dyncorp é empregada no policiamento de outros países estrangeiros. Recebe dinheiro da ONU para manter a ordem na Bósnia, em Kosovo e no Timor. Recebe também dos Estados Unidos para defender a vida do presidente afegão Karzai e para combater o tráfico de drogas na Colômbia. Uma das críticas recorrentes a George W. Bush é que ele privatizou o Exército americano, estimulando o crescimento de companhias de mercenários como a Dyncorp. Bom para nós. Assim como a Ford fabrica carros no Brasil, porque não sabemos fabricar carros, a Dyncorp pode vir policiar nossas cidades, porque não sabemos policiar.
Os pacifistas não gostam dessas companhias de mercenários. Vão logo lembrando que homens da Dyncorp derrubaram um avião de missionários no Peru e aliciaram prostitutas na ex-Iugoslávia. É verdade. Mas o paradoxo está justamente aí: nenhuma atrocidade que os mercenários internacionais possam ter cometido se compara à brutalidade cotidiana da polícia brasileira. Se os Estados Unidos terceirizaram o Exército, o Brasil estatizou o Esquadrão da Morte. Nossa polícia fracassou dos dois lados: aliou a mais absoluta truculência à mais absoluta incompetência. Nenhum país do mundo pode suportar mais de 40.000 homicídios por ano. O triângulo sunita é pouca coisa perto de nós. Num caso extremo como o nosso, é preciso reconhecer que a polícia é irreformável. É preciso partir do zero.
Estima-se que a criminalidade custe mais de 30 bilhões de dólares por ano ao Brasil. Dinheiro para contratar os mercenários não falta, portanto. Poderíamos colocar a Dyncorp para policiar as ruas. Os Gurkhas nepaleses para vigiar as cadeias. A MPRI nas fronteiras. A Vinnell nas estradas. A Custer Battles nas favelas. A CSC no rastreamento do dinheiro sujo. O resultado imediato dessa medida seria acabar com os velhos esquemas de caixinha da nossa polícia. Não há por que manter o monopólio do Estado sobre a segurança pública. Sobretudo quando o Estado presta um serviço deplorável como o nosso. Chegamos ao ponto em que mercenários estrangeiros poderiam ser mais confiáveis do que a polícia. Poderiam nos proteger melhor. Com uma vantagem adicional. Além de agir contra os bandidos, a Dyncorp se prepara para oferecer a seus clientes um escudo espacial contra meteoros. No Brasil, a morte vem até do céu.
terça-feira, março 23, 2004
MERVAL PEREIRA Os pingos nos is
Uma noite de insônia, neste fim de semana, lendo a íntegra do discurso do senador Tasso Jereissati pronunciado na semana passada, bastou para apagar qualquer traço de condescendência que o chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, porventura tivesse em relação ao PSDB. Ele identifica no discurso do senador cearense, que foi tido como de defesa do ministro Palocci contra os ataques do próprio PT, mais agressões ao governo do que outra coisa qualquer.
“O Tasso Jereissati no discurso insinua que o governo tem relações com o crime organizado”, comenta Dirceu, indignado, citando o trecho em que o senador tucano fala de “uma promíscua relação de escalões inferiores do governo do PT com grupos absolutamente descomprometidos com o interesse público, alguns com raízes até no crime organizado”.
A análise que faz da atuação do senador cearense, uma dos principais líderes tucanos, na crise que o envolveu depois das denúncias contra seu ex-assessor Waldomiro Diniz, é dura e cheia de ressentimentos:
“O Tasso foi fraco e se submeteu à estratégia do Arthur Virgílio (líder do PSDB no Senado) e do Antero (Paes e Barros, senador que assina o pedido de CPI para o caso Waldomiro Diniz), que é suicida. Eles tentaram desestabilizar o governo”, acusa Dirceu. Segundo ele, os líderes do PSDB “deram corda” ao senador sergipano Almeida Lima quando este anunciou que teria graves acusações contra o governo. E ainda tentaram ligar a morte do primo-irmão de Paes e Barros ao pedido da CPI para investigar o caso Waldomiro.
“O Arthur Virgílio é mais irresponsável que o Almeida Lima. Eles brincaram com a economia naquele dia, o PSDB foi o mais radical”, comenta Dirceu, identificando os que haviam brincado com o perigo, como denunciou em recente discurso.
O ministro José Dirceu acha que o governador de Minas, Aécio Neves, teve um comportamento equilibrado nos últimos tempos, assim como o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Mas atribui essas atitudes a “razões de pragmatismo político”: “Não podiam ter outro comportamento, governador de estado hoje sem o governo federal não agüenta um mês”, comenta.
José Dirceu nega que tenha mandado recados ao ex-presidente Fernando Henrique, como deputados de suas relações informaram semana passada: “Não existe essa coisa de se aproximar do PSDB. Se aproximar do PSDB é aceitar que somos ineficientes, não temos governabilidade, o país está sem projeto, o governo está sem estratégia, e a política econômica está errada.”
Voltando ao discurso do senador Tasso Jereissati, que ele ironicamente chama de “discursinho de oposição responsável”, José Dirceu lembra que ele fala que apóia o ministro Palocci mas diz que a política econômica está errada. “Eu não tenho ilusão nenhuma com o PSDB”, diz ele, para em seguida aditar um comentário de quem voltou a cuidar dos interesses partidários full-time: “E além de tudo eles vão disputar as capitais conosco.”
Dirceu chega a lamentar essa separação, lembrando que trabalhou com o PSDB nas reformas e pensava que ia continuar assim. “Ninguém pode se queixar de mim na relação com o PSDB e com os governadores. Não houve descriminação com eles na distribuição de emendas. Pega o R$ 1,7 bi que o presidente assinou em convênios, o maior investimento do governo federal em infra-estrutura até agora, e vê como está o PSDB lá. Vê se no governo deles acontecia isso. Vê como o Alckmin trata os prefeitos de São Paulo do PT.”
Segundo o ministro, o governo apoiou e sustentou governos estaduais do PSDB. “Eles eram oposição, mas havia um acordo de procedimento. Eles derrubaram isso com essa política totalmente irresponsável.” Dirceu não tem dúvidas: “Queriam me derrubar, queriam desestabilizar o governo, não venham agora falar o contrário. Não dá para apagar o que aconteceu nesses quarenta dias.”
Apesar de todo ressentimento, ele nega que tenha feito ameaça ao PSDB quando disse que dentro de mais algum tempo colocará “os pingos nos is”. “Não tem ameaça nenhuma. Não falei deles. Eu quero colocar os pingos nos is nesse negócio do Ministério Público no Brasil. Não vou deixar isso barato não. O Ministério Público vem fazendo violências legais a todo momento e continua”, denuncia Dirceu.
Segundo soube, um procurador foi na Caixa Econômica Federal, e retirou de lá os livros de visita da instituição, sem mandato de busca e apreensão. A intenção seria conseguir provas de que o ex-assessor de José Dirceu, Waldomiro Diniz, esteve lá com o bicheiro Carlos Cachoeira.
O chefe do Gabinete Civil se refere ainda ao novo processo sobre a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel: “Eles montaram aqui em São Paulo um segundo processo totalmente ilegal sobre a morte do Celso Daniel. Eles montaram o primeiro, foram eles que assinaram, eles que apresentaram para o juiz, eles que sustentaram a acusação.”
Dirceu garante que nunca usou o Ministério Público para fazer ilegalidades. “Eu ia ao Aristides Junqueira, apresentava para ele as denúncias. Todas as denúncias que apresentei tinham provas e foram apuradas. E larguei mão disso já há oito a dez anos”, garante.
O chefe do Gabinete Civil, voltando ao comando das ações do governo, aponta sua metralhadora giratória para o governo Fernando Henrique quando fala do problema dos bingos: “Esse problema não foi criado por nós, é um esqueleto do Fernando Henrique.”
Segundo ele, a Caixa Econômica Federal fazia o serviço dos bingos sozinha, e foi com a privatização do serviço que surgiu a Gtech, empresa internacional acusada de irregularidades com o ex-assessor Waldomiro Diniz: “Nós consertamos a Gtech e vamos consertar os bingos”, afirma Dirceu, sem entrar em detalhes de como se resolverá o problema dos bingos depois de o presidente Lula ter comparado a legalização do jogo com a legalização da prostituição infantil.
Segundo Dirceu, o governo Fernando Henrique “desorganizou toda a estrutura legal do país e permitiu a maior ilegalidade que já houve, com os bingos funcionando sem regulamentação, facilitando a entrada do crime organizado e do narcotráfico”.
domingo, março 21, 2004
Diogo Mainardi Meu conselho ao presidente
"O álcool é o pior problema do Brasil. Lula deveria dar o exemplo e parar de beber em
eventos a que comparece. No primeiro ano
de governo fomos informados sobre tudo o
que ele bebeu em cada encontro político ou social"
20 0 2004
Dou um conselho a Lula. Pare de beber em público. O álcool é o pior problema do Brasil. Pior do que a fome. Pior do que o desemprego. Pior do que a criminalidade. Pior do que a saúde pública. Porque ele agrava todos os outros problemas. Sessenta e cinco por cento dos acidentes fatais nas estradas estão relacionados ao consumo de álcool. Setenta por cento dos assassinatos também. Calcula-se que o alcoolismo seja responsável pela perda de 5% do PIB. Coisa demais para um país pobre como o Brasil. Coisa demais para um país em recessão. O combate ao alcoolismo deveria ser uma prioridade do governo.
Só que, para funcionar, Lula deveria dar o exemplo. Deveria parar de beber em eventos a que comparece. No primeiro ano de governo fomos informados sobre tudo o que o presidente bebeu em cada encontro político ou social. As notícias da imprensa a seu respeito sempre vieram acompanhadas por detalhes de suas preferências alcoólicas, independentemente do tema tratado. Sobre a reforma ministerial: "Antes de iniciar o jantar, tomando uma dose de uísque, Lula falou sobre quanto é difícil demitir um amigo". Sobre a lei orçamentária: "Enquanto comia um churrasco e bebia uísque, Lula afirmou que a receita não estava prevendo aquela arrecadação". Sobre suas viagens pelo interior do país: "Lula comeu einsbein com uísque Johnny Walker Black Label".
Lula costuma argumentar que ninguém pode resolver os problemas do Brasil com canetadas. Pode sim. Uma boa canetada pode eliminar o artigo da Constituição que permite aos infratores recusar-se a se submeter ao teste do bafômetro. Outra boa canetada pode proibir a venda de bebidas alcoólicas nas estradas. Outra boa canetada pode aumentar o imposto sobre o álcool. No supermercado perto de casa, uma garrafa de pinga custa 2,68 reais. Menos do que um litro de leite longa vida. Difícil imaginar que um país em que uma garrafa de pinga custa menos do que uma de leite possa prosperar.
Não se trata de uma questão moral ou de etiqueta. Nem de perda de autoridade. Lula deve parar de beber em público simplesmente porque o Estado não tem dinheiro para arcar com os custos do alcoolismo. No Congresso Nacional existem muitos projetos de lei que visam a limitar a propaganda das bebidas. O primeiro a ser atingido deveria ser o próprio presidente. Ele é o maior garoto-propaganda da indústria do álcool. Se parasse de aparecer com copos de uísque na mão, já seria um bom passo. Se, além disso, ele se abstivesse de tomar álcool e se engajasse numa campanha contra a bebida, o Brasil só teria benefícios. Lula até agora fracassou em todas as áreas. O saldo de seu governo é muito negativo. Parando de beber em público, ele finalmente seria recordado por algo de bom.
terça-feira, março 16, 2004
MERVAL PEREIRA Bala perdida
16/3/2004
O ataque frontal que a política econômica do governo recebeu ontem do presidente do Partido Liberal, deputado Valdemar Costa Neto, parece ser mais uma manifestação isolada em uma base política que carece de coordenação com a momentânea fragilidade do chefe do Gabinete Civil, José Dirceu.
Há, porém, quem ache que, muito ao contrário, é uma demonstração de que Dirceu voltou a operar politicamente, e ganha apoio às suas críticas à política econômica implantada pelo ministro Antonio Palocci. Se fosse esse o caso, Dirceu estaria jogando pesado demais contra seu próprio time, o que não é de seu estilo.
A maneira desabrida com que Waldemar Costa Neto referiu-se a Palocci mais parece uma irresponsabilidade, no máximo coadjuvada pelo vice José Alencar. Mas ela só tem repercussão política não pela qualificação do atacante, mas pela importância que o governo deu a seu inexpressivo partido.
Tornado ponto de referência política a partir do momento em que o então senador-empresário José Alencar foi escolhido vice-presidente da chapa de Lula, o PL só fez inchar depois da vitória, numa estratégia arquitetada por Dirceu para ampliar a base do governo, que agora pode se virar contra o seu criador.
Os partidos mais importantes da base parlamentar cresceram com as adesões insufladas pelo Palácio do Planalto, e hoje têm cacife suficiente para trazer problemas para o governo. O PL elegeu 26 deputados, e o seu parceiro de coligação, o Partido Social Liberal (PSL), seja lá o que isso quiser dizer, apenas um. Hoje, a coligação PL-PSL tem nada menos do que 45 deputados.
O Partido Popular (PP) elegeu 49 deputados e já incorporou mais cinco a sua bancada desde que apoiou o governo. A performance mais inacreditável foi a do PTB: simplesmente dobrou sua bancada, de 26 para 52 deputados.
Toda essa mágica da multiplicação dos deputados obedeceu ao planejamento estratégico do homem que realmente mandava na área política do governo, o capitão do time José Dirceu. A barriga de aluguel dos partidos aliados atendia ao mesmo tempo à vontade de ampliar o mais possível a base partidária do governo, e a preservação da “pureza ideológica” do PT, que elegeu 91 deputados e agora tem 90, apesar da saída dos deputados expulsos e de Fernando Gabeira, que abandonou em protesto a legenda.
Pois esse afã de montar a maior base partidária possível — chegou a ter o apoio de quase 400 dos 513 deputados federais, quando o PDT fazia parte dela — trouxe para dentro do governo problemas políticos que agora cobram seu preço. Fernando Henrique, no auge da popularidade, teve uma base de 340 deputados.
Os partidos mais problemáticos dessa base são o PL, o PP e o PTB, justamente os três que estão unidos para detonar a reforma política. PP e PTB já fizeram parte da base partidária dos governos de Fernando Henrique, e já ocuparam até mesmo ministérios anteriormente, mas nunca tiveram papel preponderante no governo.
O PL, que terminou na oposição contra Fernando Henrique, surgiu como solução para a composição de uma chapa que indicasse a mudança ideológica da candidatura de Lula à Presidência. Foi uma sinalização fundamental para garantir segurança a uma parte do eleitorado, mas trouxe irremediavelmente para o governo o vice José Alencar e suas desavenças, especialmente sobre a taxa de juros.
Indemissível, pois tem mandato, Alencar será uma pedra no sapato da equipe econômica até o fim deste primeiro governo de Lula. Tudo indica que a chapa para a reeleição terá outro candidato a vice-presidente, e as primeiras manobras apontam para a senadora Roseana Sarney, filha do presidente do Senado, José Sarney, que se tornou a principal âncora política do governo Lula. Hoje no PFL, o mais provável é que Roseana acabe no PMDB de Sarney.
Essa pode ser uma primeira explicação para a repentina agressão do presidente do PL ao ministro Palocci, a quem deseja ver substituído por ninguém menos que o vice José Alencar. A sugestão, feita no fim de semana em entrevista que passou despercebida para o meio político, não deve ter saído isoladamente da cabeça de Valdemar Costa Neto, conhecido no Congresso por não pregar prego sem estopa.
Necessidade de demarcar seu espaço político mais firmemente, aliada a alguma reivindicação fisiológica não atendida, são as melhores explicações para seu destampatório. O PL, além disso, vem passando por uma crise séria desde que o nome de um de seus mais importantes membros, o ex-bispo Rodrigues, apareceu envolvido com Waldomiro Diniz, o ex-assessor do Palácio do Planalto que cobrou propina para si e para candidatos do PT nas últimas eleições.
Os evangélicos, que dominam o PL, parecem temer que essas denúncias de corrupção afetem seus negócios na Igreja Universal do Reino de Deus, que também é alvo de constantes ataques. A maneira rápida como o Bispo Macedo, chefe da igreja, se desvencilhou de Rodrigues e vários outros bispos menos importantes, todos envolvidos em suspeitas de corrupção, demonstra a gravidade que o assunto tomou.
Os dois movimentos, embora separados pelas motivações, podem ter sentido político único na medida em que ajudam o PL a manter uma distância prudente do governo nesse momento de crise política. Prudente o suficiente para poder manter o ministério dos Transportes com o partido. E é nesse ponto que entra mais um ingrediente potencialmente desastroso nessa mistura de tendências políticas em que se transformou a base do governo.
A fragilidade da ação de coordenação das iniciativas políticas do governo está permitindo que surjam as mais desencontradas pressões, da direita e da esquerda do espectro de apoio parlamentar. Um tiroteio em campo aberto, e a qualquer momento alguém pode receber uma bala perdida como essa disparada a esmo pelo presidente do PL.
segunda-feira, março 15, 2004
MERVAL PEREIRA E na adversidade?
E na adversidade?
Mais uma imprudência dos petistas pôs o governo em polvorosa até o fim da noite de sexta-feira, tentando garantir que não houvesse mais assinaturas no pedido de CPI para apurar o caso Celso Daniel. Vários caciques políticos, como o senador Antonio Carlos Magalhães em seu escritório na Bahia, foram caçados pelo Brasil afora, alguns pessoalmente pelo chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, que voltou a operar à toda para apagar mais esse incêndio.
O irritado senador Tasso Jereissati, que na véspera detonara mais essa crise política em resposta a ameaças do líder do governo Aloizio Mercadante de fazer uma CPI sobre o SUS, sexta-feira, já no Ceará, achava graça das trapalhadas petistas. “Achava que eles simplesmente não se entendiam. Agora vejo que eles se odeiam”, comentava em tom irônico, chamando a atenção para as divergências do partido do governo.
As combinações políticas informais para baixar o nível de estresse político no Senado estavam bem encaminhadas quando Mercadante voltou a fazer ameaças à oposição, que se crispou. A CPI sobre o caso Celso Daniel não sairá, mas o desgaste político do governo será bem maior do que o do PSDB, na suposição de que uma eventual CPI sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) possa causar algum abalo à reputação do presidente nacional do partido, o ex-senador José Serra.
A ameaça de Mercadante é despropositada ao potencial dano que uma CPI desse tipo possa causar ao PSDB. Ao passo que a investigação sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André é potencialmente explosiva. E até mesmo sua desmobilização, como está acontecendo nos últimos dias, suscita mais uma vez suspeitas sobre a necessidade de o PT querer barrar investigações que envolvem corrupção eleitoral.
Tema delicado para um governo que mal saiu de uma crise política causada exatamente por corrupção com vistas a financiamento de campanha eleitoral, e que deveria ser evitado pelos líderes do partido no Congresso.
Esse, aliás, é um dos principais problemas com que o presidente Lula e seu governo vêm se defrontando: a falta de sintonia entre as necessidades políticas do governo e os anseios da base parlamentar, capitaneada pelo próprio PT.
Quando o presidente do partido, José Genoino, insiste na tese de que o partido tem que se diferenciar do governo, está cometendo um equívoco que não é novo. Contrariando a máxima do ministro Palocci que prometeu cometer na economia apenas erros novos, sem cair nos antigos.
Volta e meia os petistas saem com a tese de que não podem ser apenas “correia de transmissão” das idéias do governo, e têm que defender teses próprias. Aparentemente faz nexo, mas na prática do dia-a-dia do governo, alimenta a dissidência e aumenta o nível de confusão dentro da administração pública.
O governo tem que ser mais amplo do que o PT, mas o PT não pode faltar com seu apoio ao governo. Cabe a ele, como principal fonte de sustentação política do governo — e por isso mesmo detentor da maior parte dos cargos federais, inclusive no Ministério — entender as razões das decisões governamentais e respaldá-las, mesmo que sejam contrárias às suas diretrizes.
Uma democracia de coalizão, como a que vivemos no Brasil, exige do partido governista uma compreensão mais ampla dos acontecimentos, e não é o que se está vendo no momento.
Mesmo alguns ministros insistem em discutir em público temas que são mais adequados aos círculos fechados do poder. Bater boca em público nunca foi prova de independência ou altivez, e estamos vendo chegar a hora em que Lula terá que reafirmar sua autoridade em cima de um desses ministros mais metidos a independentes, sob pena de vê-la ferida.
Há quem veja nessas trapalhadas sinais de que o PT não tem organização nem queda para ser governo, e já defenda uma ampliação do leque de apoio partidário, no que poderia ser um governo de “conciliação nacional”.
Já houve ocasiões em que governos fragilizados buscaram fora de suas bases o apoio necessário, como Collor quando tentou levar para dentro de seu governo o apoio dos tucanos. O governo Lula ainda não se encontra em situação de instabilidade que necessite de uma atitude radical como essa, e esse espírito de conciliação de certa maneira já existe, com a oposição “de cavalheiros” que PSDB e PFL fazem.
O que o governo precisa urgentemente é de mais eficácia administrativa e de uma operação política menos desastrada, que não realimente as crises. Diz-se a favor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que com ele as crises chegavam grandes e saíam pequenas do Palácio do Planalto.
Até agora, Lula não tem tido capacidade de reduzir as crises a seu tamanho natural, menos por culpa dele, mais pelo seu entorno político. Uma reacomodação das lideranças políticas no Congresso e uma nova reforma ministerial que dê mais substância ao governo devem estar a caminho a médio prazo.
Até que as eleições municipais mostrem como está o governo diante da opinião pública. A grande dúvida é saber como Lula se portará quando sua popularidade declinar, o que é inevitável.
Winston Churchill, ao ser chamado pelo rei George VI para substituir Neville Chamberlain como primeiro-ministro, no limiar da Segunda Guerra Mundial, disse em sua biografia que nunca dormiu tão bem como naquela noite. Lula não é nenhum Churchil. Mas também não estamos indo para uma guerra mundial.
MERVAL PEREIRA E na adversidade?
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Mais uma imprudência dos petistas pôs o governo em polvorosa até o fim da noite de sexta-feira, tentando garantir que não houvesse mais assinaturas no pedido de CPI para apurar o caso Celso Daniel. Vários caciques políticos, como o senador Antonio Carlos Magalhães em seu escritório na Bahia, foram caçados pelo Brasil afora, alguns pessoalmente pelo chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, que voltou a operar à toda para apagar mais esse incêndio.
O irritado senador Tasso Jereissati, que na véspera detonara mais essa crise política em resposta a ameaças do líder do governo Aloizio Mercadante de fazer uma CPI sobre o SUS, sexta-feira, já no Ceará, achava graça das trapalhadas petistas. “Achava que eles simplesmente não se entendiam. Agora vejo que eles se odeiam”, comentava em tom irônico, chamando a atenção para as divergências do partido do governo.
As combinações políticas informais para baixar o nível de estresse político no Senado estavam bem encaminhadas quando Mercadante voltou a fazer ameaças à oposição, que se crispou. A CPI sobre o caso Celso Daniel não sairá, mas o desgaste político do governo será bem maior do que o do PSDB, na suposição de que uma eventual CPI sobre o Sistema Único de Saúde (SUS) possa causar algum abalo à reputação do presidente nacional do partido, o ex-senador José Serra.
A ameaça de Mercadante é despropositada ao potencial dano que uma CPI desse tipo possa causar ao PSDB. Ao passo que a investigação sobre o assassinato do ex-prefeito de Santo André é potencialmente explosiva. E até mesmo sua desmobilização, como está acontecendo nos últimos dias, suscita mais uma vez suspeitas sobre a necessidade de o PT querer barrar investigações que envolvem corrupção eleitoral.
Tema delicado para um governo que mal saiu de uma crise política causada exatamente por corrupção com vistas a financiamento de campanha eleitoral, e que deveria ser evitado pelos líderes do partido no Congresso.
Esse, aliás, é um dos principais problemas com que o presidente Lula e seu governo vêm se defrontando: a falta de sintonia entre as necessidades políticas do governo e os anseios da base parlamentar, capitaneada pelo próprio PT.
Quando o presidente do partido, José Genoino, insiste na tese de que o partido tem que se diferenciar do governo, está cometendo um equívoco que não é novo. Contrariando a máxima do ministro Palocci que prometeu cometer na economia apenas erros novos, sem cair nos antigos.
Volta e meia os petistas saem com a tese de que não podem ser apenas “correia de transmissão” das idéias do governo, e têm que defender teses próprias. Aparentemente faz nexo, mas na prática do dia-a-dia do governo, alimenta a dissidência e aumenta o nível de confusão dentro da administração pública.
O governo tem que ser mais amplo do que o PT, mas o PT não pode faltar com seu apoio ao governo. Cabe a ele, como principal fonte de sustentação política do governo — e por isso mesmo detentor da maior parte dos cargos federais, inclusive no Ministério — entender as razões das decisões governamentais e respaldá-las, mesmo que sejam contrárias às suas diretrizes.
Uma democracia de coalizão, como a que vivemos no Brasil, exige do partido governista uma compreensão mais ampla dos acontecimentos, e não é o que se está vendo no momento.
Mesmo alguns ministros insistem em discutir em público temas que são mais adequados aos círculos fechados do poder. Bater boca em público nunca foi prova de independência ou altivez, e estamos vendo chegar a hora em que Lula terá que reafirmar sua autoridade em cima de um desses ministros mais metidos a independentes, sob pena de vê-la ferida.
Há quem veja nessas trapalhadas sinais de que o PT não tem organização nem queda para ser governo, e já defenda uma ampliação do leque de apoio partidário, no que poderia ser um governo de “conciliação nacional”.
Já houve ocasiões em que governos fragilizados buscaram fora de suas bases o apoio necessário, como Collor quando tentou levar para dentro de seu governo o apoio dos tucanos. O governo Lula ainda não se encontra em situação de instabilidade que necessite de uma atitude radical como essa, e esse espírito de conciliação de certa maneira já existe, com a oposição “de cavalheiros” que PSDB e PFL fazem.
O que o governo precisa urgentemente é de mais eficácia administrativa e de uma operação política menos desastrada, que não realimente as crises. Diz-se a favor do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que com ele as crises chegavam grandes e saíam pequenas do Palácio do Planalto.
Até agora, Lula não tem tido capacidade de reduzir as crises a seu tamanho natural, menos por culpa dele, mais pelo seu entorno político. Uma reacomodação das lideranças políticas no Congresso e uma nova reforma ministerial que dê mais substância ao governo devem estar a caminho a médio prazo.
Até que as eleições municipais mostrem como está o governo diante da opinião pública. A grande dúvida é saber como Lula se portará quando sua popularidade declinar, o que é inevitável.
Winston Churchill, ao ser chamado pelo rei George VI para substituir Neville Chamberlain como primeiro-ministro, no limiar da Segunda Guerra Mundial, disse em sua biografia que nunca dormiu tão bem como naquela noite. Lula não é nenhum Churchil. Mas também não estamos indo para uma guerra mundial.
domingo, março 14, 2004
Merval Pereira Banco popular
13/3/2004
O candidato Lula, durante a campanha eleitoral do ano passado, prometeu descomplicar a remessa de dinheiro dos imigrantes brasileiros para o país. E chegou a dizer que remessas de até US$ 500 seriam isentas de taxação.
A cobrança da promessa chegou, através do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que está montando um grande projeto para tentar convencer o governo popular do PT que ele tem uma boa oportunidade para cuidar dos mais desprotegidos.
Para um governo que tem no microcrédito uma das principais fontes de financiamento das camadas populares, o projeto do BID vem mesmo a calhar.
Os imigrantes brasileiros residentes nos Estados Unidos remeteram para o Brasil cerca de US$ 5 bilhões no ano passado, e há quem ache que esse número pode ser bem maior.
Os países que mais complicam o procedimento de envio de dinheiro do exterior, pela burocracia, e cobram taxas mais altas, são Brasil e Nicarágua. Por isso, cerca de 90% das remessas entram no Brasil através de casas de câmbio, sem que haja um controle do Banco Central (BC).
A estimativa do BID é a de que existem, pelo menos, um milhão de brasileiros nos EUA, com uma média de remessas que varia de US$ 300 a US$ 350 per capita por mês. As remessas poderiam ter um custo muito mais baixo, diz Stephen Murphy, consultor sênior do Fundo Multilateral de Inversões do BID, que está organizando no Brasil um seminário, com a ajuda da Fundação Getulio Vargas, para discutir a questão.
Nesse seminário, que deve se realizar em maio, estarão presentes os representantes dos principais bancos e de órgãos do governo ligados ao financiamento de camadas populares, como a Caixa Econômica Federal. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, será um dos palestrantes.
O representante do BID espera chamar a atenção dos bancos privados brasileiros para as oportunidades de negócios que essas remessas representam. Este ano elas deverão ultrapassar US$ 6 bilhões.
Há cinco anos, quando a concorrência era ainda mais fraca que hoje, as taxas de transferência chegaram a ser de 20% . Hoje as taxas estão em média em 8%, mas continuam caras, por falta de concorrência.
Com o aumento nos últimos anos da emigração, o conseqüente aumento das remessas passou a ser um fator importante para a economia de alguns países da América Latina e do Caribe. Os latino-americanos residentes no exterior enviaram a seus países U$ 32 bilhões em 2002, um crescimento de 17% comparado com o ano anterior.
Os países com tarifas mais altas são Cuba, Jamaica, México, República Dominicana e Colômbia. Para reduzir esses custos, o BID já trabalha, há cerca de três anos, com um sistema de cartão de crédito especial para imigrantes.
As transações eletrônicas, além de baratear os custos, permitem que quem envia o dinheiro controle as retiradas. E os bancos, que recebem o dinheiro, podem oferecer serviços de crédito, estimular a tomada de empréstimos, e aplicar o dinheiro no mercado internacional.
Dos US$ 32 bilhões que os emigrantes enviaram para a América Latina, cerca de U$ 4 bilhões desapareceram no caminho, em gastos de remessa e câmbio, calcula o BID.
Nesse sistema, os ganhadores são as empresas que remetem dinheiro, boa parte delas piratas. Os perdedores são os imigrantes, seus parentes e o sistema bancário dos países, que não se habilita a transacionar com esse dinheiro.
O Projeto Luz, que o consultor do BID Stephen Murphy está tentando vender ao governo brasileiro e aos bancos, tem o objetivo de colocar todo esse dinheiro dentro da contabilidade oficial do país, ao mesmo tempo em que ampara os trabalhadores brasileiros que estão nos EUA.
A maioria deles está lá em completa ilegalidade, mas não é proibido de enviar dinheiro legalmente por bancos. Por receio, no entanto, a maioria prefere procurar casas de câmbio. E os abusos por parte de pequenos escritórios acontecem frequentemente. Eles cobram taxas exorbitantes pelas remessas, confiando em que as pessoas não se queixarão por causa da situação de ilegalidade.
Segundo Murphy, algumas das firmas que recebem o dinheiro no Brasil muitas vezes também cobram uma taxa de câmbio mais elevada do que a real.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento quer colocar o dinheiro desses imigrantes no circuito oficial dos bancos privados, para que eles compitam entre si e com o Banco do Brasil, que hoje tem um virtual monopólio do setor.
Pretende com isso dar maior segurança aos imigrantes, garantindo que seu dinheiro chegará ao destino, a um custo mais baixo e mais rapidamente.
O banco tem pesquisas que mostram que os serviços de algumas instituições financeiras fortalecem a ligação entre a comunidade de imigrantes e seu país.
O programa pretende também incentivar o direcionamento do dinheiro para contas de financiamento de moradia, de educação ou para montar negócios próprios. Um programa e tanto para um governo popular em busca de divisas.
sábado, março 13, 2004
Diogo Mainardi O planejamento petista
13/3/2004
"Se depender do PT, a maior contribuição científica brasileira continuará sendo o polvilho
anti-séptico Granado, para as frieiras nos pés.
Chega de reclamar de Bush. Lula é muito mais
retrógrado do que ele"
O ministro da Saúde, Humberto Costa, anunciou que quer diminuir em 15% a mortalidade materna. Há uma maneira simples e rápida para atingir a meta. Basta legalizar o aborto. Calcula-se que os abortos clandestinos sejam responsáveis por cerca de 15% das mortes de gestantes. Acabando com os abortos clandestinos, a mortalidade materna diminui na mesma proporção, em particular entre as mulheres mais pobres e mais jovens.
O plano de Humberto Costa, como todos os outros planos do governo, é só conversa mole. Ele promete salvar a vida dessas mulheres garantindo o acesso ao planejamento familiar. O planejamento familiar é uma das inúmeras falácias da nossa Constituição. Foi o subterfúgio empregado pelos constituintes para impedir qualquer política de controle da natalidade. Sobretudo o aborto. O planejamento familiar se baseia quase exclusivamente em programas educacionais. Quando o poder público não sabe resolver um problema, como a criminalidade ou a miséria, recorre sempre à educação. A educação é o principal mito paralisante do Brasil, o argumento que sufoca todos os demais. Se os políticos parassem de usar a educação para encobrir sua incompetência e inoperância, o Brasil teria alguma chance de ir para a frente.
No mundo todo, o direito ao aborto foi uma conquista dos partidos de esquerda. Até alguns anos atrás, o PT o defendia. Em 1995, o atual presidente do partido, José Genoino, chegou a apresentar um projeto de lei permitindo o aborto nos primeiros noventa dias de gestação. Agora mudou. Os petistas perderam o interesse pelo assunto, preferindo se concentrar em metas de superávit fiscal e expedientes para abafar denúncias de corrupção. O único parlamentar petista que se ocupa ativamente da questão é Durval Orlato, que tenta limitar ainda mais sua aplicação. Ele pleiteia que as vítimas de estupro sejam obrigadas a ver filmes sobre o desenvolvimento dos fetos caso decidam abortar. Além da tortura do estuprador, portanto, as mulheres deverão ser submetidas à tortura do Estado. Um fiel aliado do PT, Severino Cavalcanti, do PP, também se engajou na campanha. Ele planeja enfiar na cadeia todas as mulheres que praticarem abortos clandestinos.
Recentemente, membros do PT pensaram em adotar algumas medidas de controle demográfico, mas a ala mais carola do partido os impediu. A idéia era associar os benefícios do Bolsa-Família a formas de desincentivo à natalidade. Por mais paradoxal que possa parecer, o governo brasileiro, como o da Dinamarca, subsidia o aumento da natalidade. Quanto mais filhos tem uma mulher, mais esmolas governamentais ela recebe. Os fundamentalistas católicos do PT determinaram também a proibição de experimentos com células-tronco desenvolvidas a partir de embriões humanos. Curiosamente, o Brasil conseguiu avanços importantes nesse campo de pesquisa. Avanços que agora irão se perder. Se depender do PT, a maior contribuição científica brasileira continuará sendo o polvilho anti-séptico Granado, para as frieiras nos pés. Chega de reclamar de Bush. Lula é muito mais retrógrado do que ele.
Merval Pereira Questão política
12/3/2004
O oleoduto que a Petrobras está querendo fazer para levar o petróleo dos campos no Norte Fluminense para a refinaria de São Sebastião, em São Paulo, é muito mais uma questão política do que econômica para o governo do estado, e só com a intermediação política poderá ser resolvida. Economicamente é mais interessante para a Petrobras essa solução do que a construção de uma refinaria no Rio, a grande reivindicação da governadora Rosinha.
A Petrobras está agindo como uma empresa privada, que busca o lucro para seus acionistas, e não está dando atenção aos aspectos políticos da questão. A governadora, por seu lado, quer defender os interesses do estado, e reclama da visão puramente financeira da Petrobras, o que faz sentido do ponto de vista político.
O erro não está nem na reivindicação da governadora, nem na visão da Petrobras, mas no fato de o governo federal não ter uma política estratégica nacional para o refino do petróleo.
Só faz sentido definir onde serão instaladas as refinarias quando for definida, com visão de país e não de empresa, quantas refinarias precisaremos ter nos próximos anos. Não deveria caber à Petrobras essa definição, mas a um órgão federal.
Tem razão o governo do Rio ao afirmar que ao fazer o oleoduto ligando os campos do Nordeste do Rio ao terminal de São Paulo, as vantagens competitivas do Rio ficam anuladas, e a eventual decisão de fazer uma nova refinaria em São Paulo estaria justificada tecnicamente.
É o caso típico de colocar a carroça adiante dos bois, o que é visto, pela teoria da conspiração que há muito se instalou no Palácio Guanabara, como uma manobra do governo federal para favorecer São Paulo em detrimento do Rio.
Por anos a fio os últimos governos — tanto os de Fernando Henrique, um carioca que se mudou para São Paulo, quanto o de Lula, um nordestino que se apaulistou — vêm sendo acusados de favorecer São Paulo, o estado onde atuam politicamente.
Tanto que o atual presidente do PSDB, José Serra, é acusado de ser o mentor da lei que cobra o ICMS do petróleo no local de consumo, prejudicando os estados produtores, especialmente o Rio, o maior de todos, com 80% da produção.
Dito assim, tem ares de pura verdade, vendida sempre como uma manobra para favorecer São Paulo. Mas acontece que antes da Constituinte o ICMS não incidia sobre combustíveis derivados de petróleo, nem sobre energia elétrica. Por proposta do então deputado José Serra, passou a incidir sobre esses dois setores.
Ele alega, por isso, que nenhum estado perdeu pelo fato de a alíquota interestadual ser zero, já que não ganhavam nada anteriormente. E não foi possível cobrar o ICMS na origem, como era sua proposta, porque a maioria dos estados, importadores de petróleo e derivados e de energia elétrica, perderiam, por ter de pagar um imposto que antes não pagavam.
Para compensar, foram incluídos, por sugestão de Serra e do deputado pelo Rio Francisco Dornelles, os royalties do petróleo na Constituição. Entre 1988 e 2001, a arrecadação do ICMS subiu no Rio de R$ 6 bilhões para R$ 9,8 bilhões, ou seja, um aumento real de 64,6%. As três novas fontes geradoras de ICMS criadas pela Constituinte — comunicações, combustíveis e energia elétrica — respondem por cerca de 46% da arrecadação no Rio, enquanto a média nacional é de 38% e a mesma participação em São Paulo é de 35%.
As comunicações, em particular, têm um peso relativo muito maior no Rio do que em outras economias semelhantes: geram quase 18% do ICMS estadual, enquanto a média nacional e a proporção em SP é da ordem de 12% do total.
Quanto à acusação de ter zerado a alíquota de combustíveis para beneficiar os paulistas, Serra lembra que São Paulo era exportador para outros estados de derivados de petróleo. Como o petróleo vindo do exterior paga ICMS como se fosse extraído no estado por onde entra, e São Paulo era de longe o maior importador, também perdeu arrecadação.
O fato é que o governo do Rio conseguiu vender a imagem de que o governo federal favorece São Paulo contra o Rio. Diversas pesquisas de opinião mostram que essa idéia predomina entre os fluminenses e o Rio, que deu a maior votação a Lula no segundo turno da eleição presidencial, hoje já não apóia seu governo.
Pesquisa recente do Instituto GPP mostra mais gente considerando o governo Lula ruim — 29,5% — do que bom — 19,6%. Essa é uma vitória política do grupo do ex-governador Garotinho, candidato declarado à sucessão de Lula.
Tanto na luta pela cobrança do ICMS na origem, quanto na reivindicação pela refinaria, este ingrediente está fortemente presente. A luta pela refinaria, então, tem outro componente explosivo: a defesa do Norte Fluminense, berço do grupo político dos Garotinho.
As maiores bacias de petróleo do estado estão justamente localizadas em Campos, onde Garotinho nasceu politicamente. Por isso a oferta de reparação do pagamento das participações especiais do petróleo — que aliás deveria ter entrado na discussão logo no início, para mostrar a boa vontade da Petrobras — não resolve o problema, embora arrefeça o ânimo belicoso.
Como a questão é política, e tem várias facetas, somente com uma intermediação neutra haverá uma solução, que poderia ser um investimento que gere empregos e riqueza de maneira permanente na região norte do estado.
Nem Garotinho nem o chefe da Casa Civil, José Dirceu, são interlocutores viáveis a esta altura dos acontecimentos, devido aos ressentimentos mútuos que alimentam e aos interesses políticos divergentes.
Talvez o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, seja o canal mais adequado. Além do mais, o secretário de Energia do Rio, Wagner Victer, tem origem política no PCdoB, partido do ministro Rabelo. Pode ser um bom início de conversa
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