Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, setembro 15, 2010
O PT de Dirceu que Dilma esconde-Eliane Cantanhêde
A declaração de que o PT terá mais poder com Dilma do que com Lula, feita pelo ex-ministro José Dirceu, eterno presidente de fato do partido, é motivo para reflexões, avaliações e projeções muito sérias. Até porque - ou principalmente porque - o PT tem sido um ausente do discurso de Dilma na campanha.
A equação não fecha: Dilma disfarça o partido, mas o partido vai ter ainda mais poder no governo dela?
No debate Rede TV!/Folha, no domingo à noite, Dilma relegou mais uma vez o PT ao segundo plano, referindo-se ao "presidente Lula" e ao "nosso governo" como os seus verdadeiros partidos. Mas Dirceu entregou o jogo: o PT é que vai dar as cartas no governo Dilma - que, não custa lembrar, era do PDT até outro dia.
A julgar pelas pesquisas, o PT vem numericamente forte por aí. Vai fazer uma bancada gra nde e experiente no Senado (calcanhar-de-Aquiles de Lula) e tende a ultrapassar o PMDB como maior bancada na Câmara. (Aliás, desbancando a candidatura do peemedebista Henrique Eduardo Alves para a presidência da Casa.)
O PT, então, será o líder no Congresso de uma imensa tropa formada desde o PCdo B ao PP de Maluf, depois de já ter transformado a CUT, o MST e a UNE em agências do governo, financiadas com recursos públicos; já ter aparelhado o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras, o BNDES; e estar em vias de "extirpar" a oposição, como disse Lula sobre o DEM, enquanto ataca pessoalmente os tucanos Tasso Jereissatti no Ceará e Arthur Virgílio no Amazonas.
E aí entra a fala de Dirceu: "A eleição de Dilma é mais importante do que a do Lula, porque é a eleição do projeto político". Leia-se: Lula foi um meio para se chegar a um fim, ao tal "projeto político". Agora, falta explicar exatamento do que se trata, antes que o governo e o projeto se instalem. Dilma entregou um programa "hard" de manhã ao TSE e, de tarde, retirou e entregou outro "light". Até agora, não se sabe ao certo qual é para valer.
Um dos laboratórios do "projeto político" de Dirceu foi a liderança do PT na Câmara antes da eleição de Lula, que atuava e respirava conforme Dirceu mandava. Era ali o foco dos dossiês, das CPIs, das denúncias de todo tipo contra Collor, contra Itamar, contra Fernando Henrique, contra tudo e contra todos os demais.
E não é que foi dali que saíram Erenice Guerra, José Dias Toffoli, Márcio Silva? Saíram direto da central de dossiês contra adversários para o comando do país.
Erenice surgiu meio do nada e virou ministra da Casa Civil, principal cargo do governo. Toffoli é um ótimo sujeito, mas tinha todas as desvantagens e nenhum dos atributos para ser ministro, nada mais nada menos, do Supremo Tribunal Federal. E o tal do Márci o Silva é advogado da campanha de Dilma e dono de um escritório meteórico que, como diz o Painel da Folha de hoje (15/09/10), "é assunto de advogados há muito estabelecidos em Brasília".
Dilma teve a consideração de indicar a amiga e braço-direito Erenice Guerra como sua sucessora na Casa Civil. Mas, agora que a Casa Civil caiu (de novo) sob o peso da parentada toda dele, teve a desconsideração de rebaixá-la à condição de "mera assessora".
Deve estar aí a chave da questão: tem hora de esconder e tem hora de mostrar. É o PT das Erenices dos dossiês, do aparelhamento e do patrimonialismo que vai tocar o "projeto político" em curso no país?
E com o inestimável apoio do PMDB, evidentemente.
segunda-feira, junho 15, 2009
A obamanização do mundo
João Pereira Coutinho,
LISBOA - Estou cansado da obamanização do mundo. Inventei agora a palavra. Vocês sabem o que ela significa: a obamanização consiste em substituir a realidade pela fantasia, esperando que nos quatro cantos do globo surja sempre um candidato capaz de imitar a retórica bondosa e evangelista do original Barack.
Aconteceu agora no Irã. Li os jornais disponíveis. Acompanhei as reportagens televisivas. O tom era semelhante: pela primeira vez desde 1979, altura em que Khomeini deixou o seu exílio dourado em Paris para regressar a Teerã, os iranianos iriam escolher novo presidente. Pior: iriam escolher um "moderado" (Mousavi) por oposição a essa grotesca criatura chamada Ahmadinejad.
A fantasia esquecia dois pormenores básicos, quase dolorosos. Primeiro: o Irã não é uma democracia. O Irã é uma teocracia, o que significa que as decisões (iniciais e finais) pertencem ao Líder Supremo, Khamenei.
É o Líder Supremo quem escolhe os candidatos presidenciais. Em todas as eleições, aparecem centenas ao cargo. Esse ano, foram 485 candidaturas. Quatro foram selecionadas, depois de verificação apertada, ou seja, depois de se verificarem os créditos revolucionários dos quatro candidatos, rigorosamente do sexo masculino e rigorosamente muçulmanos xiitas. Mas a influência do Líder Supremo não termina aqui. O Líder Supremo, independentemente do resultado da votação, escolhe o presidente do Irã. Os iranianos que foram às urnas são apenas figurantes de um teatrinho sórdido.
Mas há mais. Nos últimos dias, surgiu igualmente a fantasia de que Ahmadinejad poderia ser derrotado por um "moderado". E quem é o moderado? Precisamente: Mir-Hossein Mousavi, um antigo primeiro-ministro de Kohmeini, responsável pela execução maciça de opositores políticos na década de 80 (20 mil? 30 mil?). Alguns jornalistas, sem um pingo de vergonha na cara, chegaram mesmo a acrescentar que Mousavi iria inaugurar um novo período de relações amigáveis com o Ocidente e, pasmem, Israel. Para os relapsos, relembro que Mousavi esteve envolvido no atentado terrorista ao centro cultural judaico de Buenos Aires. Morreram 85 pessoas.
E agora? Agora, coisa nenhuma. A vitória de Ahmadinejad, seguramente forjada, cumpriu na perfeição o roteiro pré-definido pela teocracia iraniana. O que significa que, depois dos Guardas Revolucionários fazerem o seu trabalho, prendendo ou espancando os manifestantes, o Irã continuará o seu glorioso caminho rumo à pobreza, à opressão das suas minorias e, claro, à bomba nuclear, para uso cirúrgico contra Israel. A obamanização do mundo é uma idéia simpática. As idéias simpáticas, pelos vistos, não chegam a Teerã.
![]() | João Pereira Coutinho, 32, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Record). Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. |
terça-feira, janeiro 06, 2009
O melhor de Nova York não está no guia
Gilberto Dimenstein
Escolas estaduais da zona leste de São Paulo começam, neste ano, a experimentar fórmulas com bons resultados na rede pública de ensino de Nova York --uma das ideias, por exemplo, é criar uma espécie de professor de pais, para aproximá-los da aprendizagem dos filhos (o detalhamento está no dimenstein.com.br). É apenas o reflexo de um extraordinário movimento, onde encontro o melhor de Nova York.
Tenho voltado periodicamente a Nova York, onde estou agora e morei no final da década de 1990, A cidade é um imenso laboratório de engenharia comunitária, por realizar experimentos que servem ao terceiro mundo. Um dos fatos mais notáveis, alem da queda da violência, é o gigantesco esforço para melhorar as escolas públicas. Síntese disso é a magnífica frase do prefeito Michael Bloomberg: "Quero ser avaliado pelo desempenho dos meus alunos".
Escolas públicas são geridas pela comunidade --e com resultados cada vez melhores. Diretores são afastados ou premiados, com base em metas. Professores coordenam professores assistindo às suas aulas. Chamam-se profissionais, fora das faculdades de pedagogia, para dar aula nas escolas mais problemáticas. Grandes empresas garantem emprego a funcionários que passarem um tempo dando aula.
Empresários colocam centenas de milhões de dólares para realizar experimentos os mais diversos. Com esse dinheiro, bancam-se, por exemplo, os colégios geridos por entidades sociais.
Fico apenas me perguntando se, algum dia, ainda teremos um governante disposto a condicionar seu desempenho às notas de seus anos. O melhor de Nova York é justamente entre aula de civilidade.
segunda-feira, dezembro 29, 2008
FERNANDO RODRIGUES Terceira via para 2010
Neste ano que termina, pela primeira vez em quase duas décadas, só três siglas (PMDB, PT e PSDB) obtiveram 50% dos votos nas eleições de prefeito nas cerca de 5.600 cidades. Avança a polarização entre dois grupos políticos (petistas e tucanos). Os demais ficam relegados a um segundo plano.
Não é à toa que a eleição de 2010 vem sendo dada como definida entre apenas José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT). Muita gente parece não se conformar com a decretação dessa inevitabilidade.
O problema é como viabilizar uma terceira via. Os partidos com poder para tal (PMDB e DEM) abdicaram de conquistar o Planalto.
Contentam-se em ser coadjuvantes. Construir uma nova sigla é tarefa inglória. O começo é do zero, sobretudo no rádio e na TV. Mas essa partidocracia petista e tucana pode sofrer um abalo. Chegou ao TSE uma consulta do deputado Miro Teixeira, do PDT do Rio. Miro é o mesmo que há alguns anos provocou um terremoto com a tese da verticalização das alianças. Agora, ele indaga algo simples.
Depois do advento da fidelidade partidária, o TSE considera legítimo um político deixar seu partido para criar uma nova legenda. Nesse caso, seria também legal o político levar consigo para a nova agremiação o patrimônio obtido nas urnas (o tempo de rádio e de TV)? Se a resposta for sim, placas tectônicas se movimentarão na política.
É possível até uma centena de peemedebistas, pedetistas e outros mais (mesmo tucanos e petistas) se juntarem para quebrar a escrita bipolar entre Serra e Dilma em 2010. Está nas mãos do TSE.
quinta-feira, agosto 21, 2008
Lula decide criar nova estatal para explorar o pré-sal
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em reunião com presidentes e líderes de partidos aliados que criará uma nova estatal para cuidar apenas das reservas de petróleo da camada pré-sal ainda não leiloadas, informa reportagem de Kennedy Alencar publicada na Folha (íntegra abaixo).
Segundo participantes do encontro, Lula afirmou já ter decidido que é necessária uma empresa só para cuidar do assunto. Além disso, o presidente planeja usar os recursos da extração futura do petróleo do pré-sal para combater a pobreza e investir em educação.
A Folha apurou que Lula usou a reunião do conselho político para tentar desarmar eventuais resistências à proposta de novo marco regulatório e angariar apoio para a criação de uma nova estatal. Ele tem dito em conversas reservadas que não recuará por causa de críticas da oposição, do mercado financeiro e de acionistas minoritários da Petrobras.
Lula usará o pré-sal para fortalecer sua liderança política e tentar eleger o sucessor ou sucessora em 2010. Ele quer fixar no seu governo um novo marco regulatório, embora a exploração em larga escala do pré-sal só deva ocorrer em quatro ou cinco anos.
Estatal e fundo soberano
Reportagem de Andreza Matais (íntegra para assinantes) revela que o governo não deverá enfrentar dificuldades para aprovar no Congresso a criação de uma nova estatal para cuidar da exploração do petróleo na camada pré-sal.
A iniciativa depende de projeto de lei ordinário, que exige um quórum mínimo para ser aprovado. Contudo, o governo também pode optar por encaminhar ao Congresso uma medida provisória.
O governo estuda criar um fundo soberano com recursos investidos no exterior para gerir a receita proveniente dos lucros do petróleo do pré-sal. O modelo tem como base a adoção de fundos pela maioria dos países produtores de petróleo.
Segundo o ministro Edison Lobão (Minas e Energia), o modelo foi discutido na comissão interministerial criada para estudar mudanças na exploração do petróleo na área do pré-sal.
Com a criação do fundo, o dinheiro do petróleo poderia ser usado para diminuir o déficit do país, já que parte do montante seria aplicada no exterior.
A camada pré-sal se estende por cerca de 800 quilômetros, entre os Estados do Espírito Santo e Santa Catarina, e engloba três bacias sedimentares (Espírito Santo, Campos e Santos). O petróleo encontrado está a profundidades superiores a 5 mil metros, abaixo de uma extensa camada de sal, que segundo geólogos, conservam a qualidade do petróleo. A Petrobras é uma das empresas pioneiras nesse tipo de perfuração.
Lula decide criar nova estatal para pré-sal Embora formato da exploração ainda esteja indefinido, presidente diz que é preciso uma empresa "que só cuide disso'
20 de agosto de 2008
Governo mostra ainda preocupação com impacto na inflação da receita obtida com os megacampos de petróleo da região
KENNEDY ALENCAR
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem em reunião à tarde com presidentes e líderes de partidos aliados, que criará uma nova estatal para cuidar apenas das reservas de petróleo da camada do pré-sal que ainda não foram leiloadas.
Lula disse que já decidiu que "é preciso uma empresa que só cuide disso", segundo relatos obtidos pela Folha.
O presidente afirmou que vai usar os recursos da extração futura do petróleo do pré-sal para "eliminar a miséria", "aplicar em educação" e "beneficiar o povo", sempre de acordo com relatos dos que estiveram na reunião. Não foi discutido como isso seria feito.
De manhã, numa reunião só de ministros no Planalto, sem Lula, o principal ponto debatido foi como aplicar internamente os recursos futuros do pré-sal sem gerar inflação.
A reunião dos ministros do grupo de estudo do pré-sal discutiu os chamados fundos soberanos criados por países com grandes reservas de petróleo. Um desses ministros disse à Folha que não é simples injetar internamente os recursos do pré-sal, pois haveria risco de "gerar confusão na economia". Ou seja, aquecer demais alguns setores e gerar inflação.
Daí, disse esse ministro, o governo debater um modelo que preveja a manutenção de boa parte dos recursos do pré-sal em reservas no exterior. O ingresso desse capital no país para as "reparações históricas" que Lula diz pretender fazer seria feito de forma a impedir desequilíbrios macroeconômicos.
Resumo da ópera: enquanto Lula já decidiu politicamente criar a estatal e usar o grosso dos recursos na área social, seus auxiliares debatem a forma de viabilizar administrativa e legalmente esse projeto.
Na reunião com os aliados do conselho político, composto por presidentes e dirigentes dos partidos que apóiam Lula no Congresso, o presidente disse que irá no dia 2 de setembro ao Espírito Santo para a primeira extração experimental de petróleo na no campo de Jubarte. O petista disse ainda que a imprensa tem feito críticas infundadas à sua decisão de propor um novo marco regulatório do petróleo. "Vamos fazer com responsabilidade, mas vamos fazer para o povo", disse o presidente, segundo anotação de um líder partidário.
Na reunião com o Conselho Político, Lula também disse que deve fazer um pronunciamento em cadeia nacional de televisão no dia 7 de setembro para explicar os motivos que levaram o governo a mudar a Lei do Petróleo. O objetivo é associar politicamente sua imagem às mudanças.
Além disso, Lula pretende organizar em março ou abril do próximo ano um evento internacional no campo de Tupi, na bacia de Santos, quando deverá ser feita a primeira extração experimental de petróleo na camada pré-sal.
Segundo relato de participantes da reunião do conselho, Lula afirmou que decidiu adotar, na exploração de petróleo na camada pré-sal, regras inspiradas no modelo adotado na Noruega porque parte do controle da Petrobras está nas mãos do setor privado.
A Folha apurou que Lula usou a reunião do conselho político para tentar desarmar eventuais resistências à proposta de novo marco regulatório e angariar apoio para a criação de uma nova estatal. Ele tem dito em conversas reservadas que não recuará por causa de críticas da oposição, do mercado financeiro e de acionistas minoritários da Petrobras.
Lula usará o pré-sal para fortalecer sua liderança política e tentar eleger o sucessor ou sucessora em 2010. Ele quer fixar no seu governo um novo marco regulatório, embora a exploração em larga escala do pré-sal só deva ocorrer em quatro ou cinco anos.
Do ponto de vista eleitoral, Lula tem procurado destacar o papel da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, na discussão das novas regras. Dilma é hoje a preferida do presidente para a sua sucessão.
A intenção é viabilizar sua ministra, que, até agora, está longe dos políticos que lideram as pesquisas sobre a sucessão presidencial, como o governador de São Paulo, o tucano José Serra, e o deputado federal Ciro Gomes (PSB), um aliado que sofre rejeição de setores do PT e de partidos hoje aliados, como o PMDB.
quarta-feira, agosto 20, 2008
Pequenos monstros
João Pereira Coutinho
Confesso: tenho assistido aos Jogos Olímpicos. A culpa não é minha. A culpa é da diferença horária: quando vou para a cama, Pequim está acordado. Deitado no leito, com a tv ligada, acompanho os exercícios. E a insônia vem a seguir.
Insônia por que? Por causa dos atletas chineses. Nada tenho contra chineses. Mas é difícil resistir ao rosto dessa gente. Americanos, russos, europeus, brasileiros - tudo gente normal, com as alegrias e tristezas de gente normal. Mas os chineses são outra história: o rosto exibe uma tensão e uma infelicidade que não se encontram nos outros. E quando falham, isso não representa uma derrota para os atletas. Representa uma tragédia de contornos apocalípticos. Como explicar o fenômeno?
Infelizmente, com política. Os Jogos não são mero desporto para a China; são uma forma do regime mostrar superioridade perante o mundo (tradução: perante os EUA), vencendo mais medalhas e apresentando uma organização imaculada, onde o fogo de artifício é gerado por computador e crianças inestéticas são dubladas por rostos mais fotogênicos. Um atleta chinês, quando entra em cena, está em guerra diplomática. Perder é morrer.
Mas existe uma razão adicional e pessoal: há trinta anos que a China persiste na sua política do filho único como forma de limitar a explosão demográfica. E essa política tem um preço: quando os casais têm um único filho, a pressão e as expectativas de sucesso aumentam, esmagando os desgraçados. A China criou uma juventude admirável: pequenos monstros que jogam a existência, sua e dos progenitores, em cada prova desportiva ou académica.
A revista "Psychology Today" relembrou recentemente alguns números a respeito. Números que arrepiam. Anualmente, as universidades chinesas produzem 4 milhões de diplomados. Mas a China, apesar do boom económico, apenas consegue absorver menos de metade. O desemprego é o caminho para a maioria, isso numa cultura que nunca tolerou pacificamente o fracasso.
Moral da história? Para começar, o suicídio é a primeira causa de morte entre os chineses mais jovens (entre os 20-35 anos); e só entre os universitários, 25% têm recorrentes pensamentos suicidas (nos EUA, por exemplo, só 6%). Conta a revista que a China lidera os problemas psiquiátricos entre crianças e adolescentes, com 30 milhões a necessitar de acompanhamento psicológico, que aliás não existe: uma das heranças perversas da tirania de Mao foi percepcionar os problemas psicológicos como "anti-socialistas", enviando os "reacionários" problemáticos para campos de trabalho.
Sim, o Brasil pode lamentar as medalhas perdidas. Mas existe um prémio de consolação: os jovens brasileiros entram e saem da China com a cabeça intacta. A sanidade vale ouro.
quarta-feira, junho 25, 2008
Ruth Cardoso é personagem por trás do Bolsa-Família
por Gilberto Dimenstein
Ruth Cardoso é um dos personagens discretos por trás da maior realização social da gestão Lula: a Bolsa- família.
Como uma das mais notáveis estudiosas brasileiras da questão social, Ruth Cardoso ajudou, quando era primeira-dama, na implementação de ações governamentais que fossem focadas e envolvendo diferentes esferas de poder, num esforço para evitar a superposição da tarefas e desperdício de recursos.
Havia tempo, ela observava a pulverização inconseqüente de planos oficiais. Até então praticamente não existiam no país projetos envolvendo tantos e tão diversos ministérios e secretarias, centrados no município.
Nessa visão, ela vinha impulsionando, dentro do governo FHC, um plano para que as diferentes bolsas (bolsa-escola, bolsa-alimentação etc) existentes fossem unificadas em torno de apenas um eixo --no caso, a família. Buscava-se um único cadastro para os programas.
Todo esse esboço de unificação já estava encaminhado quando Lula assumiu poder
sábado, maio 10, 2008
Sim, o Brasil tem um presidente do Supremo digno do cargo
| Por Reinaldo Azevedo |
Por Paulo Peixoto, na Folha Online. Volto depois:
O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Gilmar Mendes, confrontou hoje a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a absolvição do fazendeiro Vitalmiro Moura, o Bida, acusado de ser o mandante da morte da freira Dorothy Stang, prejudica a imagem do Brasil. Para o ministro, é preciso "limitar os fatos a eles próprios".
"Eu acho que temos que parar com esse tipo de consideração. Quer dizer: o resultado da condenação é que atenderia a boa imagem do Brasil? E se de fato essa pessoa for inocente? Eu não disponho de dados, talvez o presidente disponha", criticou Gilmar Mendes.
Segundo ele, decisões judiciais controvertidas existem em todo o mundo "a toda hora". Ele citou o caso do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia inglesa em Londres. Os policiais não foram a julgamento. "Os senhores viram os resultados das decisões judiciais, das investigações. Alguém acha que a imagem da Inglaterra ficou manchada no mundo por causa desse episódio?", questionou Mendes.
O presidente do STF citou também o caso do desaparecimento de uma menina inglesa em Portugal, com "informações desencontradas", cujo episódio está até hoje sem solução. "Alguém disse que a imagem de Portugal ou da Inglaterra está manchada no mundo por conta disso? Vamos limitar os fatos a eles próprios", afirmou.
Mendes também comentou debates que a absolvição trouxe à tona: o direito a um segundo julgamento ao réu condenado por mais de 20 anos e a sugestão de que o julgamento de Bida deveria ter acontecido em uma outra comarca (o chamado desaforamento), de forma a evitar, por exemplo, que haja pressões aos jurados.
"As pessoas só falam de desaforamento por conta do resultado, o que mostra que não é um juízo de todo objetivo. Quando houve o primeiro julgamento, ninguém reclamou quanto ao desaforamento", disse Mendes, referindo-se ao fato de Bida ter sido condenado a 30 anos de prisão na primeira vez em que foi levado a julgamento.
Quanto à questão do segundo julgamento, o presidente do STF afirmou que há muitas discussões e críticas ao modelo de processo do júri e que "há até quem defenda a supressão do júri". Mendes defendeu a discussão, disse acreditar que o assunto está no Congresso, mas afirmou que é preciso evitar os "impulsos reformistas" quando casos como esse ocorrem.
"O importante é que a gente faça com os passos normais, racionais. Em princípio, devemos receber as decisões com tranqüilidade, tanto aquela que nos fascina como aquela que nos contraria. Contra decisão judicial se recorre", disse.
O ministro afirmou não conhecer os autos do caso Dorothy, exceto que se trata de crime de mando, e que, portanto, não poderia emitir "juízo seguro". Mas acrescentou: "É preciso aguardar. Agora, quanto a decisão judicial se recorre. O Tribunal vai emitir um juízo mais seguro sobre o assunto".
Comento
Parabéns a Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal. Vocês sabem que leram coisa muito parecida neste blog. Se o segundo julgamento tinha a obrigação de referendar o primeiro, então fazê-lo por quê? Se os jurados que absolveram são suspeitos porque absolveram, os que condenaram são justos porque condenaram? Quer dizer que o fazendeiro já estava julgado num tribunal extralegal?
É que Lula, claro, tem a ambição de ser, a um só tempo, Executivo, Legislativo, Judiciário e, agora, tribunal do júri. Inocentes, desde o nascimento e não importa o que façam, são os petistas e seus aliados. Há dias, durante uma solenidade da Sudene, que não existe, passou a mão na cabeça de Cid Gomes, aquele que gosta de levar a sogra para passear. Mostrou-se indignado que alguém pudesse fazer acusações “a um homem como Cid Gomes”. E o que este homem tinha de especial? Ora, é aliado de Lula
Mendes fala o que a democracia e o estado de direito esperam de um juiz.
sexta-feira, maio 09, 2008
Álvaro Dias nega autoria de vazamento para imprensa e quer descobrir quem fez dossiê
WANDERLEY PREITE SOBRINHO
colaboração para Folha Online
O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirmou nesta sexta-feira que o mais importante neste momento é descobrir quem ordenou a elaboração do dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
"O mais importante é saber quem deu a ordem para elaborar o dossiê. Não repassei o dossiê para ninguém, a imprensa tem mais fontes do que eu, a imprensa conseguiu antes do que eu", afirmou.
Segundo reportagem de hoje publicada pela Folha, o dossiê foi vazado pelo secretário de Controle Interno da Casa Civil, José Aparecido Nunes Pires. As investigações detectaram troca de e-mails entre José Aparecido e um assessor do senador Álvaro Dias.
Aparecido foi o único dos cinco secretários e diretores da Casa Civil a ter o computador apreendido pela sindicância aberta por Dilma Rousseff. Ele é militante histórico do PT. Foi levado para a Casa Civil por Dirceu, o antecessor da ministra Dilma.
Segundo Dias, quando seu assessor recebeu o e-mail, pediu para ler o documento. "O documento saiu da Casa Civil, do computador de José Aparecido e chegou ao meu assessor. Isso já está confirmado. E ele, no estrito cumprimento de seu dever legal, me comunicou. Se não o fizesse, ele estaria praticando uma infração administrativa. Eu pedi para ver o documento, ele me forneceu as cópias e pediu para que eu fizesse sigilo da fonte. O importante é saber quem elaborou o dossiê, quem vazou já se sabe. Foi o José Aparecido. Provavelmente existem outras fontes de vazamento na Casa Civil."
O senador ainda afirmou não ter idéia dos motivos que levaram o militante petista a encaminhar o dossiê para ele. "Não tenho idéia. Imagino que tenha sido uma desobediência à chefia. O dossiê tinha por objetivo a chantagem e intimidação da oposição e de confundir a opinião pública. O vazamento atrapalhou os planos de quem ardiu. O que não se pode excluir é a responsabilidade maior. Estes fatos ocorreram na Casa Civil, a Casa Civil tem uma chefia, não há como excluir quem chefia a Casa Civil."
Sobre o suposto envolvimento de Dirceu no vazamento, Dias afirmou que prefere "cobrar a responsabilidade de quem a tem. O dossiê foi elaborado na Casa Civil e quem é a responsável e a ministra Dilma Rousseff".
sábado, abril 26, 2008
ELIANE CANTANHÊDE Bolsa Vizinhos
A estratégia de Evo Morales na Bolívia deu certo e está se alastrando pela América do Sul. Contra o Brasil.
Morales mandou o Exército invadir as refinarias da Petrobras, e o que o Brasil fez? Ofereceu a outra face, negociou, cedeu. Faltou uma crítica dura à invasão, antes de ceder.
Agora, o ex-bispo Fernando Lugo vence as eleições presidenciais no Paraguai e vai logo avisando que vai rediscutir com o Brasil o Tratado de Itaipu, que só vence em 2023. Já está decidido: o Brasil não vai rever o tratado em si, mas aceita sentar e renegociar os preços que paga ao parceiro pela energia excedente, além de criar programas de financiamento para uma linha de transmissão da usina até a capital Assunção.
E a mais recente novidade é a informação publicada pelo repórter Mauro Zafalon na Folha: a Argentina voltou a suspender as exportações de trigo para o Brasil. O anúncio deixa a indústria brasileira de cabelo em pé, mas o mais importante é que os consumidores --eu, você, ele, nós todos-- é que vamos pagar a conta. Pãozinho vai virar artigo de luxo.
Na Bolívia, há um acordo entre empresas para explorar o gás que o país produz. No Paraguai, há um tratado bilateral entre dois países. Na Argentina, há o interesse econômico de oferecer o trigo para a Venezuela, em troca de petróleo, e para a Bolívia, em troca de gás.
São, portanto, questões, movimentos e interesses distintos, mas todos eles têm algo em comum: a percepção de que o Brasil, na ânsia de se afirmar líder na região diante da força (e dos petrodólares) de Hugo Chávez, está topando qualquer negócio. Ou melhor: qualquer pressão.
Do ponto de vista estratégico, Planalto e Itamaraty explicam: 1) o Brasil é o país maior, mais rico, mais populoso e tem responsabilidades com seus vizinhos, como os ricos da Europa tiveram com seus pobres; 2) há dívidas históricas em relação sobretudo ao Paraguai e à Bolívia, os dois países mais miseráveis da América do Sul. É preciso vitaminá-los, para evitar instabilidade.
Do ponto de vista econômico, tudo isso tem que ser muito bem avaliado, e não apenas pelo governo. O Congresso, o setor empresarial e a academia brasileira precisam olhar a política externa, confrontá-la com os interesses internos e os da região. Convém um bom equilíbrio.
Se essa discussão for na base do esquerda versus direita, vai dar com os burros n'água. Mas se for ao mesmo tempo pragmática do ponto de vista do Brasil e "generosa" com os parceiros --como diz o ministro Celso Amorim (Itamaraty)-- tem tudo para dar certo.
Isso significa admitir que a Bolívia e o Paraguai têm sido, sim, explorados e têm o direito, portanto, de reclamar condições e preços mais justos para seus produtos --ou seja, para seus povos. Mas também que o Brasil e o povo brasileiro também têm a obrigação de resguardar seus direitos, inclusive exigindo contrapartidas.
Para ficar num exemplo bem objetivo: ok, Paraguai, nós cedemos no preço, mas o que vocês oferecem em termos de combate à corrupção, ao contrabando, à bagunça nas fronteiras? E como ficam os brasilguaios?
A relação do país mais poderoso com os países mais pobres não pode ser na base do Bolsa Vizinhos. Sob o risco de virar apenas mais uma forma de aprofundar a ingerência, de um lado, e a dependência, do outro. O oposto, enfim, do que prega o discurso brasileiro.
quinta-feira, abril 10, 2008
ELIANE CANTANHÊDE Chama a polícia! E chora
Em vez de investigar, identificar e prender ladrões, corruptos e traficantes de armas, de drogas e de influência --que, aliás, ela tem feito muito bem--, a Polícia Federal começa uma outra etapa. Passa a investigar estudantes pela invasão da UnB e se dedica a descobrir quem é o tal "clandestino" (nas palavras do presidente Lula) que vazou o dossiê da Casa Civil contra FHC e sua mulher, Ruth.
O, digamos, interessante das duas histórias é o alvo. Na UnB, quer-se punir os estudantes, quando o importante é descobrir quem desviava dinheiro de pesquisa para comprar lixeiras, plantas e abridores milionários para o imóvel funcional do reitor. E, na Casa Civil, procura-se quem vazou, quando o fundamental seria descobrir quem, como, quando e por que foi buscar um arquivo morto e sigiloso em outro prédio para chantagear adversário político.
Afinal, quem é o culpado aqui nessas duas situações?
O reitor, que aceitou os mimos e o luxo sem a menor cerimônia e deveria ter se afastado já no primeiro minuto? Ou os estudantes que protestam porque querem pesquisa e decência?
A chefia da Casa Civil, que determinou ou, no mínimo, autorizou o uso da máquina do Estado para fazer dossiê político? Ou quem não gostou desse modus operandi ditatorial e botou a boca no trombone e entregou os arquivos à imprensa?
Bons tempos aqueles em que os petistas eram os estudantes e líderes das passeatas indignadas contra a ditadura e pela ética na política. Não os que jogam a PF contra os estudantes.
Bons tempos aqueles em que os petistas eram os que reagiam ao modus operandi ditatorial e denunciavam os corruptos ou antiéticos em geral e eram os maiores vazadores de documentos nas repartições públicas, nos bancos oficiais, nas CPIs. A PF, ao que consta, nunca foi procurar aqueles vazadores...
Hoje, em guerra com a imprensa que divulga informações que lhes incomodam. Ontem, aliados da imprensa, do Ministério Público e da própria Polícia Federal contra tudo e todos, com culpa comprovada ou não: Collor, Ibsen Pinheiro, Alceni Guerra, Eduardo Jorge Caldas. A lista é imensa...
Enfim, a promessa de campanha foi cumprida: tudo mudou. Porque o governo Lula fez o PT mudar de lado. Os inimigos viraram amigos. Os amigos viraram inimigos. Quem protestava defende a polícia contra quem protesta. Quem vazava joga a PF em quem agora vaza.
Deve doer na alma ter de defender tudo isso. Daí tanta raiva e tanto xingamento via internet.
sábado, abril 05, 2008
Documento publicado pela Folha é igual ao fornecido à Casa Civil
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Durante a entrevista que concedeu sobre o dossiê da Casa Civil, a ministra Dilma Rousseff afirmou que o fac-símile publicado pela Folha hoje e a cópia entregue à assessoria do Planalto na quinta-feira eram diferentes. O documento é exatamente o mesmo.
Na quinta-feira, véspera da publicação da reportagem sobre como o dossiê foi gerado nos computadores do Palácio do Planalto, a Folha entregou à assessoria da Casa Civil fac-símiles da tela principal do arquivo em Excel, da tela de propriedades do arquivo e uma cópia das planilhas com gastos do governo passado no ano de 2000.
Eram exatamente os três documentos que o jornal publicaria no dia seguinte.
Da tela com as propriedades do arquivo constam informações como "autor" (PR, de Presidência da República), "salvo por" (Casa Civil), datas e horários em que o documento foi criado, salvo e impresso pela última vez. Para não revelar informações que pudessem levar à identificação da fonte, a Folha rasurou os horários em que o arquivo foi salvo e impresso pela última vez.
A cópia com a rasura, feita à tinta, foi entregue à assessoria da Casa Civil. O mesmo documento foi publicado pela Folha no dia seguinte, mas a rasura foi substituída pela eliminação digital dos horários. Não há qualquer diferença entre o documento entregue à Casa Civil e o que foi publicado.
Dilma disse também que o jornal fez mudanças na planilha de gastos que publicou para ilustrar a reportagem. Na foto, porém, está reproduzida fielmente a imagem da tela extraída diretamente de computador da Casa Civil.
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quinta-feira, março 06, 2008
Entrevista com o presidente do Equador
entrevista exclusiva com o presidente do Equador, Rafael Correa
ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA
Depois de repetir várias vezes em público que o Equador "iria até as últimas conseqüências" contra a Colômbia, o presidente equatoriano, Rafael Correa, foi mais incisivo ontem e admitiu em entrevista à Folha que não descarta ir à guerra contra o país vizinho.
"Não excluo a hipótese de guerra", disse Correa na Base Aérea de Brasília, antes de embarcar para Caracas, na Venezuela, num jato 170 da Embraer de propriedade do Equador. "Se o Brasil é que tivesse sido bombardeado, estaríamos falando neste momento em ir à OEA conversar, ou os aviões brasileiros já teriam bombardeado a Colômbia?".
A intenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva era pedir que Correa baixasse o tom e facilitasse o diálogo, no encontro que tiveram ontem no Planalto, mas Correa entrou e saiu do Brasil com o mesmo tom beligerante.
Ele negou o pedido de Lula para se encontrar pessoalmente com o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, ameaçando indiretamente ir às vias de fato com o inimigo: "Eu lhe respondi claramente que não. Não poderia responder por mim mesmo".
Correa também avisou que, se aviões colombianos entrarem no espaço aéreo do seu país, vai abatê-los: "Se houver uma nova incursão aérea colombiana em espaço aéreo equatoriano, derrubaremos essa aeronave." E chamou de "insultante" o apoio dos EUA a Uribe.
*
FOLHA - O presidente Lula fez o apelo pela paz?
CORREA - Não. Lula me perguntou que satisfações exigimos de parte do governo colombiano, eu lhe respondi que queremos três coisas: um pedido de desculpas sem ressalvas, o compromisso de nunca mais repetirem um ataque a outro país e o desmentido de que temos conivência com as Farc. Lula e eu estamos de acordo que essa possibilidade é muito remota, conhecendo um tipo como Uribe, que está muito distante de pedir desculpas. Em vez de pedir desculpas, trata de me caluniar, de me difamar, dizendo que tenho vinculações com as Farc. Isso é uma canalhice.
FOLHA - Se houver o pedido de desculpas nos termos que o sr. exige, qual será o seu passo seguinte?
CORREA - Deixaremos mesmo assim as tropas em alerta. É muito difícil restabelecer relações diplomáticas com um país como aquele. Gostamos muito do povo colombiano, mas que tem um governo como o de Alvaro Uribe. Como posso confiar num tipo assim, que até dias antes estava conversando sobre relações bilaterais e, depois do ataque, nos chama para dizer que foi um enfrentamento do lado colombiano, que foi empurrando para o lado equatoriano numa perseguição quente e acabaram matando 17 guerrilheiros? Era tudo uma grande mentira. Foi um ato planejado, com plena consciência de que estavam entrando no nosso território. E sem legítima defesa, porque não houve enfrentamento, houve um massacre aos guerrilheiros que dormiam. Com um governo que mente assim, que relação posso querer ter?
FOLHA - O que Lula lhe disse?
CORREA - Lula me perguntou se eu aceitaria ter um encontro pessoal com o Uribe, mas eu lhe respondi claramente que não. Não poderia responder por mim mesmo. Não posso tratar com essa classe de pessoa, com gente que ultrajou a minha pátria.
FOLHA - Qual foi o resultado, então, do seu encontro com Lula? Para que serviu o esforço de Lula para serenar os ânimos?
CORREA - Creio que até ratifica o caminho que estamos percorrendo. Espero uma condenação clara da OEA. Isso nos satisfaria. Faria diferença para o meu país e solucionaria o conflito de forma diplomática.
FOLHA - Mesmo com tudo isso, o Equador não reataria relações com a Colômbia?
CORREA - Não teremos mais relações diplomáticas. Vai ser muito difícil que Uribe apresente à Colômbia uma proposta de restabelecer relações, e a mim também não interessa, porque temos de lembrar que ele é um mentiroso e admitiu que mentiu.
FOLHA - E se não acontecer nada disso, nem o pedido de desculpas que o sr. considere suficiente?
CORREA - Eu vou repetir o que venho dizendo: vamos chegar às últimas conseqüências. Nós não vamos deixar que isso seja esquecido na América Latina.
FOLHA - O que o sr. está dizendo é que pode chegar à guerra?
CORREA - Somos um país de paz, mas saberemos defender a nossa soberania, se a América Latina não respaldar a verdade e a justiça, que é o que está em jogo neste momento.
FOLHA - Ou seja: o sr. admite hipótese de guerra.
CORREA - Não excluo a hipótese de guerra. A guerra é um ato bélico que já começou. Eu insisto: bombardearam minha pátria. O que estaríamos vendo agora se em primeiro de março o Brasil tivesse sido bombardeado com o pretexto de que havia um acampamento guerrilheiro em terras brasileiras? Estaríamos falando neste momento em ir à OEA conversar, ou os aviões brasileiros já teriam bombardeado a Colômbia?
FOLHA - Qual a capacidade bélica do Equador?
CORREA - Não vou falar sobre isso.
FOLHA - Há a possibilidade de uma aliança militar com a Venezuela e com a Bolívia, por exemplo?
CORREA - Não necessariamente. Nós temos capacidade defensiva, sabemos nos defender. Se houver uma nova incursão aérea colombiana em espaço aéreo equatoriano, derrubaremos essa aeronave. Se houver incursões do exército colombiano em nosso território, serão capturados. Se a Colômbia lançar agrotóxico por via aérea para combater o cultivo de coca e cair do nosso lado, vamos considerar uma agressão, um ato de guerra, e derrubaremos esse avião.
FOLHA - O Brasil tem condições de ser um bom mediador do conflito?
CORREA - Não necessariamente. Creio que tem boas intenções, mas há um conjunto de países. Insisto que não é um problema bilateral, mas regional. Todos os países devem estar preocupados, inclusive o povo colombiano. O que Uribe quer agora? O que dirá ao povo colombiano? Que pode bombardear qualquer país com pretexto de guerrilheiros? Fica muito parecido com o Oriente Médio, lembra? É preciso cortar o mal pela raiz.
FOLHA - E as Farc, como ficam?
CORREA - Podemos argumentar que há conflito na Colômbia e que as Farc são um perigo para toda a região, para bombardear a Colômbia. Então, esse não é um problema emergente do Brasil, é de participação ativa de toda a América Latina. O governo colombiano é um perigo para a estabilidade de toda a região.
FOLHA - Qual a relação entre o ataque da Colômbia no Equador e a invasão dos EUA no Iraque?
CORREA - É a mesma lógica. Os EUA bombardearam o Iraque sob o argumento de que teria armas de destruição massiva e que havia uma ditadura que protegia terroristas. Algumas coisas são similares com o que o Uribe vem fazendo.
FOLHA - Como o sr. vê o apoio tão explícito dos EUA ao Uribe?
CORREA - Insultante. E não só para nós como para para toda a América Latina.
quinta-feira, fevereiro 07, 2008
João Pereira Coutinho:Diogo, O Terrível
É um dos meus desportos favoritos: chegar ao Brasil e falar, em tom blasé, de Diogo Mainardi. "Você leu a coluna dele na Veja? Muito boa", digo eu. O meu interlocutor cai num silêncio sepulcral. As veias do pescoço vão inchando como em certos filmes de vampirismo. O sangue concentra-se todo na cabeça. Os olhos, vermelhos e irados, saem das órbitas. A boca espuma. Os queixos tremem. Alguns levam a mão ao braço esquerdo e pedem uma ambulância. Deus do céu, eu já perdi a conta dos infartos, ou das ameaças de infarto, que a minha perversidade provocou em São Paulo e no Rio. Diogo Mainardi não é um colunista. É uma assombração.
Curioso. Irônico. Paradoxal. As mesmas pessoas que desmaiam na minha frente com o nome de Mainardi não desmaiam com uma elite política corrupta que usa dinheiro público tradução: dinheiro dos brasileiros para suas negociatas. O mal não está em quem rouba. Está naqueles que denunciam o roubo. Em condições normais, um país estaria grato aos jornalistas que vigiam e criticam o poder. Mas o Brasil não é um país normal. Aliás, Portugal também não é e pressinto aqui uma cultura histórica comum: quando um colunista abre a boca para criticar o governo, ele não critica o governo. Ele é um demente, um invejoso, um fracassado. E, em caso de discórdia, os leitores, para não falar dos colegas de ofício, não estão dispostos a contra-argumentar. Mas a censurar. O ideal não é discutir. É silenciar. Na impossibilidade de fuzilar. Curiosas mentalidades.
Às vezes pergunto se vale a pena continuar. Como Diogo Mainardi pergunta em seu último livro, "Lula é Minha Anta" (Record, 240 págs.), relato da sua odisséia anti-lulista. No livro, conta Mainardi que dedicou cerca de 5 mil horas a Lula (antes do mensalão começar). Cinco mil. Uma vida. Uma barbaridade. E quando o colunista acredita que finalmente se libertou do presidente, o mensalão estoura e Lula, como nos filmes de Coppola, volta a arrastá-lo para a velha dança. Mais 5 mil horas. Mais dez. Mais quinze.
Eu não me perdoaria. Sério. Nas milhares de horas que Mainardi perdeu com Lula, teria sido possível ler todo o Balzac, todo o Flaubert. Mas também teria sido possível viajar. Dormir. Namorar. Vadiar. Milhares horas com Lula e o PT não inspiram indignação. Inspiram compaixão.
Compaixão e irrisão. Várias vezes disse a Diogo Mainardi que ele deveria regressar à ficção. Basta ler os quatro livros publicados até ao momento ("Malthus", "Arquipélago", "Polígono das Secas", "Contra o Brasil") para entender o lugar singular do autor na prosa brasileira contemporânea. Ao resgatar a tradição satírica européia para a língua lusa, Mainardi faz o que Millôr Fernandes e Ivan Lessa fizeram antes dele: limpa o pó à gramática e confere uma vitalidade ao texto que é mortal para denunciar o ridículo da condição humana. Mas a resposta dele é sempre a mesma: "E quem paga as minhas contas?" Na conversa que tivemos, e que reproduzo em baixo, a pergunta é repetida. A resposta também.
Erro meu. "Lula é Minha Anta" não é apenas o resumo da batalha hilária de Diogo Mainardi para derrubar Lula. É também o retrato político de um país que ganha contornos grotescos, muito acima de qualquer ficção: na política, no jornalismo, no mundo empresarial; e nas relações promíscuas e até mafiosas que se instalam entre esses vários mundos. E, quando assim é, não existe grande espaço para prosa imaginativa. Seria inútil. Redundante. Em Inglaterra, onde a vida é previsível e civilizada (ou previsível porque civilizada), o "non sense" transferiu-se da vida para a literatura. De Jonathan Swift a Laurence Sterne, de Evelyn Waugh e Kingsley Amis, a sátira é abundante porque funciona como contraste. Mas quando a realidade já é surreal, é a realidade que se transforma em ficção. Quem precisa de livros quando basta olhar pela janela?
Mainardi olhou pela janela. Descreveu a paisagem. Mas falhou no essencial: em 2007, Lula era reeleito, ou seja, "absolvido pelas urnas", como dizem seus acólitos. Num dos melhores textos do livro, Mainardi compara-se ao Coiote do desenho animado, que persegue obsessivamente o Papa-Léguas para ser derrotado no final. Uma pena? Para o Brasil, com certeza. Para os leitores, longe disso. "Lula é Minha Anta" ficará como testemunho de uma época e exercício literário pleno de violência sarcástica. E, além disso, ninguém assiste ao desenho animado para ver o Papa-Léguas.
Olá, Diogo. Como é que você está?
Estou de bermuda e chinelo, como sempre. Na minha frente, o computador. À direita, pela janela, a praia de Ipanema. Choveu muito: mar marrom e areia cheia de protozoários. Na sala, meu caçula está com a TV ligada, assistindo a um episódio de "Little Einsteins". De vez em quando, influenciado pelo desenho, ele ergue os braços e grita: Johann Sebastian Bach! Felix Mendelssohn!
Nunca assisti a esse desenho. A minha infância foi deliciosamente corrompida pelo Walt Disney.
A minha foi miseravelmente corrompida pelo Pepe Legal.
Que memórias você tem da infância? Nada de clichês, e pode falar das empregadas.
Tive uma infância clichê. Inclusive no que se refere às empregadas.
Falando do Brasil: você já está a preparar o seu exílio na Europa?
Dependo do trabalho, e o trabalho, atualmente, está no Brasil. Já fui um imigrante brasileiro na Europa. Agora sou um retirante paraibano no Rio de Janeiro.
Isso significa que se surgir trabalho na Europa você abandona o país na hora?
Retirante só migra em período de seca.
Mas você sabe que a Europa é o último sítio do mundo, depois de Bagdá, para trabalhar.
É por isso que eu relaciono a Europa com o ócio. Ou com a literatura, que é a expressão envergonhada do ócio.
Antes de qualquer pergunta sobre o seu livro, gostei de ver nele as fotos dos seus filhos brincando com um pelúcia do Lula. Em São Paulo, um amigo mostrou-me o mesmo boneco e disse-me que tinha sido criado por um artista plástico. Ainda tentei comprar um, mas não consegui. Você sabe onde eu posso encontrar esse boneco?
Vou ver se arrumo um boneco extra.
Obrigado. Você não acha que o boneco tem uma graciosidade que falta ao presidente?
Pouco tempo atrás, acordei no meio da noite e flagrei o boneco roubando minha carteira e tentando matar o peixe no aquário.
E o que você fez? Não me diga que pediu impeachment...
Tranquei o boneco no armário da cozinha.
As crônicas de "Lula é Minha Anta" são, em resumo, a história de uma batalha: Mainardi contra Lula e Lula vitorioso, no final, com a reeleição. Você não acha que teria sido preferível ler Flaubert ou Tolstói nesse tempo todo?
No livro, sou personagem, e não autor ou leitor. Como Bouvard e Pécuchet, perdi a lavoura. Como Anna Karenina, fui esmagado por um trem.
A partir do momento em que o "mensalão" foi denunciado por Roberto Jefferson, você apostou tudo em como Lula não seria reeleito. Você não acha que foi demasiado otimista com o seu país?
Tem razão: por um breve período, fui pateticamente otimista com o Brasil. O mensalão, por suas particularidades, ofereceu uma oportunidade histórica para o país, exatamente como "mãos limpas", na Itália. Como de costume, a gente bobeou.
Você não acha que a corrupção, para os brasileiros, não é tão grave como seria para os europeus?
Corrupção é fruto de falta de democracia. Quanto mais avançada é uma democracia, menor o risco de corrupção. Uma imprensa independente ajuda a vigiar a classe política. Um judiciário independente também. Até a arte tem um papel no combate à corrupção. Ela oferece à sociedade ferramentas como iconoclastia, humor, visão crítica, senso estético, senso de proporção, agitação intelectual, inquietude existencial tudo isso aumenta nossa desconfiança e nossa insatisfação em relação às pessoas em geral e aos políticos em particular.
Então o problema central talvez não seja Lula, mas o Brasil.
Exatamente. Lula --o meu Lula-- é metafórico. Talvez até metonímico. Ele representa o que o país tem de pior.
Eu estive no Brasil em dois momentos marcantes dos últimos anos: quando o mensalão estava no auge e nas últimas eleições. E fiquei pasmo com pessoas educadas, fluentes e letradas que diziam que votariam em Lula, não em Alckmin?
Pessoas educadas, fluentes e letradas que votam em Lula? Não conheço. Acho que você está freqüentando demais os jornalistas da Folha de S.Paulo.
Qual a responsabilidade da oposição nesse clima favorável a Lula? Você acha que o "impeachment pelas urnas", que chegou a ser defendido por Fernando Henrique Cardoso, foi ingenuidade ou estupidez?
Fernando Henrique Cardoso não é ingênuo nem estúpido. Acho que os oposicionistas queriam tomar o lugar do Lula sem mexer nos esquemas de corrupção que os beneficiaram no passado e que podem beneficiá-los no futuro.
Ou seja, a oposição é tão corrupta como o presidente?
O lulismo é muito mais perverso: transformou a corrupção em plataforma de governo.
Alckmin: o que correu mal? Você teria votado noutro candidato sem ser de nariz tapado?
Eu não voto. Nem de nariz tapado. Desde o começo, defendi o "impeachment" de Lula. O julgamento do lulismo deveria ter sido político e criminal, e não apenas eleitoral.
Mas você confessou que iria votar Alckmin de nariz tapado. Nem assim foi votar?
Quando percebi o jogo da oposição, avisei que a tese do "impeachment pelo voto" abria a perspectiva de uma "absolvição pelo voto". Como sempre fui contrário a uma absolvição, torci pela eleição do Alckmin. Só não votei nele --e não voto em ninguém-- porque não tenho domicílio eleitoral.
Você é particularmente duro com o jornalismo brasileiro, que teria sido cúmplice de Lula. "O presidente manda. O jornalista publica. O contribuinte paga", eis o aforismo. Depois do mensalão e apesar da reeleição, você acha que mudou alguma coisa?
Agora o contribuinte sabe o que está pagando.
Um de seus melhores textos, "Minha Vida de Coiote", é o retrato de como perseguir Lula se transforma sempre num desastre para o perseguidor como na história do Coiote e do Papa-Léguas. Com todos os processos, ameaças e xingamentos, você nunca pensou simplesmente: "que se dane tudo"?
Como o Papa-Léguas, eu sempre acho que meu próximo plano vai dar certo.
Existe alguma coisa de positivo no Brasil para você? Ironicamente, lendo o seu livro, a coisa mais positiva é a Justiça, que o absolvia nos processos.
O que eu mais gosto no Brasil é minha casa. Fora da minha casa, minha rua, no máximo até a esquina. Institucionalmente, sim: a melhor chance do Brasil --quem sabe a única-- está nos tribunais.
Isso não é um paradoxo? Como explicar que tudo corra mal, exceto a Justiça?
Tenho de apelar para Montesquieu. Sabe como é: aquele lero-lero de separação dos poderes. Como todo o resto, a Justiça pode ser uma porcaria, mas as leis não são. Há um monte de bons juízes e promotores por aí, aplicando-as com rigor.
Por que motivo os petistas nunca acertam com o seu nome? É sempre "Diego", "Diego".
O petismo tem um problema com a língua portuguesa, Juan.
No final do livro, você se despede de Lula. Dessa vez é para valer?
Lula já não existe mais. Hoje em dia, todo mundo sabe que ele é apenas outro Sarney, só que piorado. Acho que dei uma mãozinha para desmascará-lo.
Imagine que o presidente convidava você para um chá ou para outra bebida qualquer. Você iria?
Já tentei entrevistá-lo. O bicho não quer saber de mim. Eu gostaria de encontrá-lo profissionalmente, mas não tenho o menor interesse particular por ele. Considero-o um dos líderes mais aborrecidos do planeta.
Abrindo um pouco mais a conversa: como você observa a política da América Latina --Chávez, Morales e tutti quanti?
Jura que você quer falar sobre essa gente?
Claro. O grotesco diverte-me.
Em excesso, o grotesco enjoa.
Apesar de tudo, seria improvável que Lula seguisse os passos da "revolução bolivariana" de Chávez, não?
Eu sempre reconheci uma qualidade em Lula: ele é maricas demais para se meter numa fria dessas.
E a sociedade brasileira não é a venezuelana, ou é?
Você tem razão: a venezuelana é um tiquinho melhor.
Você tem candidato favorito nas eleições americanas?
Meu preferido é John McCain. Os americanos têm o dever de ajeitar as coisas no Iraque, e o único que capaz de fazê-lo é o velhote.
Meu preferido é Obama, por causa do antiamericanismo mundial. Seria uma lição para o mundo eleger um negro.
Se eu fui demasiado otimista com o Brasil, você está sendo demasiado otimista com o mundo.
E o Brasil? Seria capaz de eleger um negro?
O Brasil seria capaz de eleger uma anta.
Mudando de assunto: você pensa em regressar à ficção?
E quem paga minhas contas?
Bom, você pode escrever colunas e romances.
Não dá tempo. Sou marcha lenta.
A sua ficção, ao retomar a grande tradição satirista européia, parece um corpo estranho na literatura brasileira contemporânea. Você sente isso?
Sinto que é bem melhor pertencer à grande (mas a pequena também serve) tradição satirista européia do que à literatura brasileira contemporânea.
Para um jovem brasileiro com pretensões literárias, que autores você recomendaria?
Leitura é uma questão de afinidade. Depois de esgotar os romances obrigatórios (Quantos são? 300? 400?), o negócio é escolher um filão e mergulhar nele.
Você é regularmente identificado com a "escola Paulo Francis". Você concorda com essa linhagem?
Fui um aluno relapso, mas é claro que estudei nessa escola.
E o que aprendeu com ela?
Como todo aluno relapso, não consegui aprender nada. Mas o professor era ótimo.
O Carnaval está aí: nunca o convidaram para uma escola de samba?
Não. Em compensação, algum tempo atrás, numa tarde de carnaval, pisei num naco de cérebro humano.
![]() | João Pereira Coutinho, 31, é colunista da Folha. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro "Avenida Paulista" (Ed. Quasi), publicado em Portugal, onde vive. Escreve quinzenalmente, às segundas-feiras, para a Folha Online. E-mail: jpcoutinho.br@jpcoutinho.com |
terça-feira, janeiro 15, 2008
Lula deve anunciar US$ 1 bilhão em investimentos em Cuba
FOLHA ON LINE
Lula deve anunciar US$ 1 bilhão em investimentos em Cuba
A Petrobras estuda investimentos no setor de petróleo, como a prospecção no golfo do México em associação com estatal cubana e outras empresas estrangeiras.
sábado, dezembro 08, 2007
ELIANE CANTANHÊDE Indícios robustos
O relator do terceiro processo (que resultou na terceira absolvição) de Renan Calheiros, Jefferson Peres (PDT-AM), escreveu e disse que havia encontrado "indícios robustos" que justificavam a cassação. O problema é que ninguém no Senado estava preocupado, àquela altura do processo, em indícios ou provas. A questão era outra. Aliás, as questões eram outras.
Renan suportou quase duzentos dias de crise e pancadaria, na vida pública e na privada. Licenciou-se da presidência do Senado no dia 11 de outubro, sabendo que a licença era sinônimo de renúncia, mas mantendo o cargo porque este passou a ser o seu grande, senão único, trunfo. Era dar a presidência para salvar o mandato de senador. Vão-se os anéis, ficam os dedos...
A renúncia à presidência foi o gesto decisivo, na hora decisiva. Renan a anunciou justamente no início da sessão do plenário marcada para votar sua cassação no processo em que era acusado de usar "laranjas" para comprar rádios e TVs em Alagoas com o usineiro João Lyra, o sócio que virou inimigo.
Ao renunciar, Renan seguiu os passos de dois de seus antecessores na presidência do Senado: Jader Barbalho (PMDB-PA) e Antonio Carlos Magalhães (então PFL-BA). Um voltou como deputado e ativo articulador de bastidores pró-governo Lula. O outro, ACM, voltou como senador e morreu neste ano com mandato.
Renan, assim, salva sua carreira política, ou pelo menos os cacos que restam dela, suficientes para uma boa colagem em Alagoas e a volta ao Congresso nas próximas eleições. Resta saber, agora, qual a profundidade e quais os alvos de sua mágoa e o que ele pretende fazer com ela daqui em diante.
Ele não chegou à presidência do Senado à toa. Tem experiência, tem liderança, tem amigos e, sobretudo, tem informações. Já andou escarafunchando suspeitas contra adversários seus em Goiás. Pode estar preparando o troco contra os colegas que participaram de sua execração em praça pública.
A crise, portanto, não acabou, apenas muda de figura. Desde a terça-feira, Renan sai dos holofotes e passa aos bastidores, para seu alívio e para certo sobressalto em outras áreas. O foco passa a ser a disputa no PMDB pela sua sucessão na presidência do Senado e a votação da CPMF. Como pano de fundo, há a ameaça ainda velada de novas denúncias por aí. O novo presidente, seja quem for, que se prepare.
quarta-feira, agosto 29, 2007
ELIANE CANTANHÊDE Alma lavada
O governo Lula está definitivamente desmembrado em dois. Um é o próprio Lula, que continua intocável e com 48% de popularidade. O outro está no banco dos réus e dele fazem parte três ex-ministros (inclusive dois do "núcleo duro" original), junto com a antiga cúpula do PT, líderes dos partidos aliados, empresas públicas e bancos privados.
O Supremo Tribunal Federal acolheu a denúncia contra José Dirceu, agora réu em processos por corrupção ativa e por formação de quadrilha, e tudo o que ele fazia ou não fazia era na Casa Civil da Presidência, dentro do Palácio do Planalto, a passos do gabinete do presidente.
Enquanto ele era acusado no Supremo, Lula provava cajus, criticando o "erro histórico" cometido contra a deliciosa e saudável fruta nordestina. É como se dissesse: "Danem-se! Eu não tenho nada a ver com isso --o mensalão, o julgamento, o chefe da Casa Civil, o partido". Será que não tinha mesmo?
A decisão do Supremo, que acatou denúncias contra todos os 40 envolvidos e votou por unanimidade, foi surpreendente. Nem mesmo os experts na Alta Corte e nem mesmo os que convivem dentro dela previam uma decisão tão consolidada, inquestionável, mostrando que não se tratava apenas de "caixa dois", como queriam fazer crer o próprio Lula e os implicados, mas algo muito maior e mais grave, mais sistêmico, para comprar partidos e parlamentares.
Não há alegria. Não há satisfação. Fica uma imensa tristeza de ver o que foi a chegada do PT ao poder já contaminado pela fome de chegar e ficar, ficar para sempre, talvez.
Mas o resultado do tribunal tem também outro resultado, que o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), relator do processo de Dirceu na Câmara, traduziu bem: "Estamos com a alma lavada". A opinião pública, que queria justiça, também está com a alma lavada. Havia indícios suficientes para acatar a denúncia, e a votação em bloco elimina qualquer margem de dúvida quanto a isso. Agora, é reunir as provas, analisar caso a caso, pessoa a pessoa, e julgar. Condenar uns, absolver outros.
Quem sai perdendo são os xiitas, que, na falta de elementos de defesa dos mensaleiros, atacaram sucessivamente a imprensa, os parlamentares das CPIs e do Conselho de Ética, a Polícia Federal, o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Quem sobrou?
Será que eles vão dizer agora que o relator Joaquim Barbosa é da "elite branca e perversa" e que "não suporta ver um operário na Presidência da República"? Ou será que vão dizer que ele foi cooptado pelo "complô para derrubar Lula"?
Aliás, será que os xiitas vão tentar culpar o próprio Supremo Tribunal Federal, colocá-lo sob suspeição, como todos os outros que exigiam explicações e responsabilidades? Que não se conformavam com o simples e inadmissível dogma de que, se é o PT, se é Dirceu e se é Lula, ninguém pode falar nada nem cobrar nada. Sob o risco de o mundo cair sobre sua cabeça.
A decisão do Supremo é histórica e cria a sensação de que, enfim, pelo menos neste momento, "todos são iguais perante a lei". E que estão em maus lençóis os que integravam um amplo esquema que misturava o público, o privado e partidos governistas para eternizar um grupo político no poder.
Imagine você se nada tivesse acontecido, se nada tivesse sido denunciado. Estariam todos lá até hoje, e a "quadrilha" nadando em dinheiro e em poder, sabe-se lá por quanto tempo para para fazer sabe-se lá o que com o país.
quinta-feira, agosto 16, 2007
A politização das agências -Eliane Cantanhede
O governo acaba de indicar o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz (PC do B) para a Anvisa, num momento em que a Anac está no olho do furacão e já se discutem seriamente o papel e até a necessidade das próprias agências. É assim que Lula destrói a credibilidade das agências reguladoras.
Entre toneladas de críticas à Anac (de aviação civil), a principal está na origem: a politização e a partidarização de um órgão que deveria ser essencialmente técnico e ocupado por técnicos. O presidente da Anac é amigo do ministro fulano, a diretora mais poderosa foi indicada pelo ex-ministro sicrano e vai por aí afora. Entender de aviação civil, que é bom, necas. Há quem se pergunte se Milton Zuanazzi, o presidente, sabe distinguir um Boeing de um Airbus.
E é exatamente isso, sem tirar nem por, que Lula está fazendo ao arranjar uma "boquinha" para Agnelo na Anvisa (de vigilância sanitária), só porque ele era ministro, saiu para concorrer às eleições, perdeu e está sem mandato, precisando da mão amiga do presidente para guiá-lo para um cargo público.
Sem nenhum demérito à pessoa ou ao político Agnelo, o fato é que ele, ou bem entende de esportes, já que foi ministro da Pasta, ou bem entende de vigilância sanitária, já que virou diretor da Anvisa. Será possível? Improvável.
O governo alega que ele é médico cirurgião. Ah. Bem. Então, enquanto cirurgião, ele era expert em esportes. E agora, enquanto cirurgião e expert em esportes, ele vai controlar, fiscalizar e eventualmente punir na área de vigilância sanitária. O que um cirurgião --que, aliás, não exerce a medicina há tempos-- pode entender dessa área tão técnica e tão fundamental no Brasil?
Em entrevista à Folha de S. Paulo publicada há dez dias, o ex-presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, criticou a Anac e fez uma comparação: "Um diretor da Anvisa não precisa ser expert em dengue e tuberculose, mas precisa pelo menos saber a diferença entre as duas". Tenho cá minhas dúvidas se Agnelo sabe...
O fato é que Lula continua sem saber de nada, sem ver nada, sem ouvir nada. Só isso pode justificar a nomeação de Agnelo em meio a tantas acusações de politização das agências, especialmente da Anac. Ou, então, é aquela velha história: Lula se sente acima das críticas, acha que pode fazer o que quiser e os perplexos que se danem.
O resultado, no caso das áreas técnicas, pode ser dramático. Que o digam as vítimas do apagão aéreo e dos aviões sem fiscalização e sem controle que as nossas companhias aéreas põem todos os dias no ar. Eles são o melhor exemplo da falta que uma boa agência faz. Um agência séria, não um cabide de empregos para amigos e correligionários.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Avião de Lula jamais voa com apenas um reverso funcionando
RENATA GIRALDI
da Folha Online, em Brasília
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva só viaja em uma aeronave Airbus-A319 se os reversos estiverem destravados. A ordem é do GTE (Grupo de Transporte Especial), ligado à Aeronáutica. Segundo o comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, é uma orientação extra de segurança em relação às recomendações determinadas pela fabricante da aeronave.
"Por norma de segurança, não é permitido voar sem o reverso. É uma norma de segurança para transportar o mais alto mandatário na nação, não pode operar sem o reverso", afirmou o comandante durante depoimento à CPI do Apagão Aéreo da Câmara. Saito lembrou ainda que parte da manutenção do avião presidencial é feita pela TAM.
A informação de Saito sobre o reverso causou espanto entre os presentes à sessão da comissão porque o Airbus-A320 da TAM --que se acidentou no dia 17 de julho e causou a morte de 199 pessoas-- voava com um dos reversos travados --ou "pinados", como afirmam os especialistas. O reverso é o equipamento que ajuda o avião a frear no momento do pouso.
Em nota divulgada dois dias após o acidente com o vôo 3054, a TAM informou que o reverso direito do avião foi desativado em condições previstas nos manuais de manutenção da Airbus e aprovado pela Anac (Agência Nacional de Aviação).
Segundo a companhia aérea, "o procedimento não configura qualquer obstáculo ao pouso da aeronave".
Em depoimento à CPI do Apagão da Câmara em 2 de agosto, o presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, disse não acreditar que as falhas no reverso da aeronave tenham provocado o acidente. Bologna afirmou que, mesmo em pistas molhadas, o Airbus teria condições de pouso caso os dois reversos da aeronave estivessem pinados (travados).
Revelação grave
Os deputados reagiram com críticas às informações de Saito sobre as orientações extras de segurança destinadas ao avião presidencial.
Para a deputada Luciana Genro (PSOL-RS), a Aeronáutica deveria proibir o vôo de todas as aeronaves com o "reverso pinado". "[A informação do comandante] foi a revelação mais grave que houve aqui hoje. A Aeronáutica sabe que voar com o reverso pinado oferece risco", disse.
O presidente em exercício da CPI, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), também defendeu mudanças nas exigências ordenadas pelas empresas aéreas e fabricantes de aeronaves no que se refere ao reverso.
"Isso reforça [a tese de] que a TAM e a Airbus devem rever essa recomendação de poder voar com o reverso pinado", afirmou Cunha. "Se o avião do presidente não pode voar com o reverso pinado, o fabricante deve adotar o mesmo procedimento para as outras aeronaves. No caso de segurança de vôo tem de evitar os acidentes. E, esse procedimento deveria ser adotado para todas as aeronaves."
Da mesma forma pensa o deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR). "Acho que a regra tem que ser igual para todos".
quinta-feira, agosto 02, 2007
Várias falhas humanas Eliane Catanhede
O importante "furo" jornalístico de Fernando Rodrigues na Folha de S. Paulo, hoje, com os dados do vôo e as vozes dos pilotos, é um alerta geral de que é preciso mais cuidado, mais eficiência, mais responsabilidade para lidar com aviação. Os aviões são equipamentos fantásticos e seguros. O defeito está nas pessoas que os comandam, que os produzem, que possuem _pilotos,fabricante, donos.
Os dados mostram que o reverso e os "spoilers" (freios aerodinâmmicos) não funcionaram. Nada funcionou. Em vez de desacelerar e parar, o avião continuou acelerando, desgovernado, como se pilotos, manetes e computadores fossem incapazes de se entender.
Como não é a primeira vez que um avião com reverso pinado, ou seja, travado, se acidenta, é fundamental que a Airbus reveja o que está acontecendo com esse equipamento e impedir que aviões possam continuar voando por até dez dias mesmo com um deles inoperante. Já estão confirmados pelo menos dois acidentes, um em Taiwan e outro nas Filipinas, mas já começam a surgir informações sobre outros, um nos EUA e outro no Canadá.
Além disso, a TAM jamais poderia permitir que um avião lotado (aliás, com um passageiro a mais), com tanque cheio, com reverso pinado, ou seja, travado, e com um dos pilotos ainda terminando sua fase de treinamento na companhia pudesse voar numa pista curta, de apenas 1.940 metros, sem área de escape -- e num dia de chuva! Pista curta e escorregadia é sinal amarelo, ainda mais com todas as condições desfavoráveis do próprio avião.
Tudo indica que houve falha humana no manuseio das manetes, que estavam na posição errada, mas para falar de "falha humana" é preciso falar das falhas humanas dos fabricantes, da dona do avião, dos responsáveis pela pista. Uma seqüência de falhas humanas.
Sem contar com um dado fundamental que ainda não está claro: se os computadores "enlouqueceram" porque os pilotos lhe enviaram comandos incompreensíveis ou se sofreram algum tipo de pane. Compete às autoridades aeronáuticas esclarecer. Amanhã haverá reunião delas, inclusive com representantes estrangeiros, para avançar ainda mais nesse ponto crucial.
As causas do acidente vêm se desenhando com uma rapidez fantástica, como se todos, brigadeiros, parlamentares, policiais e jornalistas tivéssemos aprendido enormemente com o choque do Legacy com o Boeing da Gol e tenhamos muito mais capacidade de descobrir e avaliar. Nunca é demais, porém, reforçar que acidentes aeronáuticos são muito complexos. Nunca se podem descartar o surgimento de novos fatores, até formar um conjunto pronto e acabado.
Questão de Justiça
Com a saída de Waldir Pires do Ministério da Defesa, agora querem transformar o presidente da Infraero, brigadeiro J. Carlos Pereira, no vilão número um da crise aérea. Injusto. A Infraero liberou a pista por orientação da reguladora, que é a Anac. Além disso, Pereira conhece o setor e tem sido fundamental para dar satisfações que a opinião pública exige. Enquanto outros se acovardam e calam, ela assume e explica.
Apesar de militar, tem tido mais compromisso com a transparência do que muitos que passaram décadas falando em democracia e agora se trancam mudos em palácios.
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