sábado, novembro 01, 2014

Não passou de um susto - ZUENIR Ventura

Não passou de um susto - Jornal O Globo

O Globo

Como é bom poder andar na rua sem ser parado pelas perguntas — "Em quem você vai votar?", "Quem você acha que vai ganhar?", "Quem venceu o último debate?" — em geral seguidas de um discurso de convencimento e persuasão, uma doutrinação. Estou careca de saber que eleição é indispensável para a democracia, mas só de vez em quando, como, aliás, costuma ser. Não por ela em si, mas pelas campanhas e o que elas mobilizam de energia nem sempre positiva. Depois de algumas semanas de clima tenso, de atmosfera carregada de rancor e agressividade, parece que os ânimos serenaram e as coisas estão voltando ao normal. Sinto no ar uma promessa de reconciliação entre amizades desavindas. Tomara que eu esteja certo, embora saiba que o mesmo não se pode dizer da Corte, em Brasília, onde muitas feridas continuam abertas.

E como é bom também voltar a ter tempo para ler um livro, ver um filme, assistir a uma série na tevê e, em vez de ficar acompanhando o que fez e disse cada candidato, saber o que Alice está pensando da vida. Ultimamente ela anda preocupada com questões metafísicas. Acho que é a crise existencial dos 5 anos que acaba de completar. Já contei aqui a pergunta que fez outro dia: "Quem manda no mundo?". Quando a avó enrolou procurando resposta: "Por exemplo, na sua casa...", ela interrompeu: "Não quero saber na minha casa, quero saber no mundo". Não disse, mas acho que tinha sérias reclamações a fazer. A dúvida mais recente nesse quesito foi: "Como é que a gente morre?". Pensei em parodiar o João Cabral de "Morte e vida severina" e responder "de velhice depois dos 80,/De doença que não se cura/E, de azar, em acidente". Ao ouvir mais ou menos isso em outras palavras, ela replicou: "E por que a gente morre?" Tentei um blá-blá-blá sobre a inevitável finitude da vida, mas não convenci e acabei confessando minha ignorância, prometendo repassar a questão para os leitores de minha coluna, que são muito inteligentes. Portanto, passo a palavra a vocês.

E por falar em finitude, uma notícia para tranquilizar os amigos. Não passou de um susto a queda de pressão que tive após a eleição na Academia Brasileira de Letras e que me levou ao hospital. Foi o provável efeito de cansaço físico e muita tensão emocional. Submetido a exames rigorosos, fui liberado, e tudo acabou em pizza na madrugada de ontem num restaurante de Ipanema — com vinho. Afinal, um "imortal" não pode abrir vaga na ABL antes mesmo de chegar.



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