O Estado de S.Paulo - 23/01/11
A emergência econômica da China é uma realidade e o sinal mais forte de que caminhamos para um mundo novo, que muitos já chamam pós-ocidental. A emergência da Índia, ainda incipiente, mas igualmente relevante, reforçará o deslocamento do centro dinâmico da economia mundial para a Ásia.
Para nós a China é, ao mesmo tempo, uma oportunidade e uma ameaça. Em 2010, esse país foi o principal mercado para as exportações brasileiras e o principal investidor no Brasil. As exportações atingiram US$ 30 bilhões, enquanto as importações subiram para US$ 26 bilhões.
Mas a qualidade do intercâmbio deixa a desejar. Em 2009, os produtos básicos representaram 77% das exportações. Do lado chinês, ao contrário, mais de 95% das exportações foram de bens industrializados, que incorporam mais valor, geram mais empregos e melhores salários. A responsabilidade é, em boa medida, nossa. É o chamado "custo Brasil". Como é possível concorrer com o produto chinês, se a taxa de juros aqui é a mais alta do mundo, enquanto a da China é negativa? Quando, entre nós, a carga tributária chega perto de 40% do produto interno bruto (PIB), enquanto a deles está abaixo de 20%? Se a nossa infraestrutura é deficiente e a da China, supermoderna? Enfim, quando o real está apreciado, enquanto o yuan está desvalorizado?
Mas existem outras razões para a redução relativa das exportações industriais. Em certos setores, a China pratica a escalada tarifária, como em relação à soja. Outras vezes estabelece restrições sanitárias injustificadas, como é o caso do frango. E cada vez mais os produtos industriais brasileiros terão de enfrentar a integração das cadeias produtivas na Ásia, em decorrência das dezenas de acordos de comércio e investimentos entre a China e seus parceiros na região.
Do lado das importações, o déficit de competitividade explica em parte o deslocamento de significativos setores da economia brasileira diante de um volume crescente de mercadorias chinesas. Mas, aqui também, outros fatores precisam ser levados em conta: a aceleração das exportações da China, o seu crescente volume e, por vezes, a concorrência desleal, em consequência dos benefícios concedidos às empresas chinesas.
No ano passado a China foi também o principal investidor no Brasil, com mais de US$ 10 bilhões, o que é positivo. Mas o investimento está mudando. Não se trata mais apenas de capitais direcionados para o suprimento de commodities. Hoje a pauta dos investimentos, assim como a das exportações, se diversifica e inclui, cada vez mais, setores de alta tecnologia, como telecomunicações (Huawei) ou transmissão de energia (State Grid).
Os investimentos chineses por vezes não distinguem com clareza o público do privado. Mesmo quando a empresa é privada, a participação do governo no processo decisório e no financiamento pode ser dominante e deixa em aberto a indagação se o objetivo e o modo de operar da empresa refletem objetivos estratégicos do país ou práticas de mercado. Independentemente dessa distinção, o simples efeito dimensão do investimento suscita questões justificadas, que precisam ser avaliadas e, se for o caso, normatizadas, de modo a evitar que a decisão caso a caso gere incerteza para o investidor.
Também do lado dos investimentos brasileiros na China seria preciso maior previsibilidade. A Embraer não recebeu ainda a licença para produzir um avião de maior porte na China. Outras empresas, como a BR Foods, que abriu um escritório em Xangai, poderão perguntar-se se obterão a necessária autorização quando resolverem agregar mais valor às suas exportações ou produzir na China produtos de mais alto teor de processamento.
O desafio da China, assim, não está apenas na peculiaridade e no vulto de seus investimentos ou no volume crescente de produtos importados a um preço substancialmente mais baixo que o do similar nacional. Está em saber lidar, tanto ao nível da empresa quanto do governo, com uma realidade que é nova, diferente e se apresenta como as duas faces de uma mesma moeda: uma promissora, a outra inquietante. Esta realidade não pode ser tratada como business as usual.
Os desafios novos da parceria com a China suscitam algumas reflexões e iniciativas:
Coordenação. A condução do intercâmbio foi corretamente colocada num nível elevado, vice-presidente da República e seu equivalente na China. No plano operacional, no entanto, visões legitimamente diferenciadas entre Ministérios e órgãos de governo tornam mais difícil a convergência de posições, um acompanhamento abrangente dos negócios e a fixação de prioridades para a ação.
Articulação. Também no setor empresarial se manifestam diferenças naturais entre os que priorizam as oportunidades e os que temem as ameaças. É preciso conciliar essas duas perspectivas, inclusive de modo a levar ao governo uma visão convergente, que contribua para uma ação concertada.
A parceria das empresas com o Itamaraty e a Apex tem ensejado ações importantes de promoção comercial. Mas se o objetivo é, como deveria ser, a agregação de valor às exportações, outros órgãos do governo - como o BNDES - teriam uma contribuição a aportar.
Uso adequado dos mecanismos de defesa comercial.
Maior clareza sobre os procedimentos e normas relativos ao comércio e ao investimento, de modo a assegurar maior previsibilidade aos agentes econômicos.
Ampliação do intercâmbio cultural e educativo, de modo a suprir a lacuna de conhecimento recíproco.
A visita da presidente Dilma Rousseff à China, no correr do ano, será uma oportunidade valiosa para entendimentos entre os dois governos que venham a facilitar e impulsionar o intercâmbio econômico, em conformidade com os objetivos fixados no Plano de Ação Conjunta de 2010.
PRESIDENTE DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA, É COORDENADOR DOS CONSELHOS SUPERIORES DA FIESP
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