Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, outubro 27, 2014

Durma bem, gigante -GUILERME FIUZA

O GLOBO

'Eis o resultado da Primavera Brasileira (...) Descansem em paz, revolucionários. Durma bem, senhor gigante'

Eis o resultado da Primavera Brasileira. O famoso movimento de junho de 2013, que levou milhões às ruas e fez os entendidos afirmarem que a palavra de ordem nacional era “mudança”, acaba de dar o seu recado final: Dilma na cabeça. Descansem em paz, revolucionários. Durma bem, senhor gigante.
Claro que vão dizer que a votação apertada é consequência da tal Primavera Brasileira. O show tem que continuar. Na vida real, a novela é outra. Um levante nacional por mudança, sucedido por um escândalo obsceno no colo do governo, termina com a reeleição da presidente da República. Perguntem ao tesoureiro do PT, personagem do escândalo da Petrobras e da campanha de Dilma, o que ele acha desse movimento por mudança. Ele responderá que acha maravilhoso. Continuem mudando tudo, rogará o tesoureiro.
Os que não são sócios da elite vermelha, por favor, parem de falar que os brasileiros entraram em ebulição pela mudança. Não se viu nas manifestações de 2013 nenhuma crítica decente às trampolinagens do governo federal. Dilma e sua turma ainda zombaram da inteligência da opinião pública (eles sabem o que fazem), oferecendo um plebiscito imaginário para a reforma política — uma piada do Porta dos Fundos. Os revolucionários caíram na pegadinha e ficaram discutindo entre si o tal plebiscito — enquanto Dilma e seu pessoal foram cuidar da vida, porque têm mais o que fazer. Muito mais, como se percebe a cada nova surpresa fétida surgida do seio do Estado brasileiro.
E as urnas acabam de dizer aos companheiros: continuem! Prossigam a todo vapor com a tecnologia que deu ao Brasil o mensalão, o petrolão, a Rosemary, o Vaccari e grande elenco aloprado. Mesmo que o bando se regenerasse magicamente para o quarto mandato, não haveria jeito. A mediocridade e o fisiologismo estão no sangue.
Há 20 anos, o Brasil desistiu da malandragem. Agora, voltou decidido a ela, para continuar depenando a riqueza criada naquele estranho surto de responsabilidade. Reserve já seu lugar no futuro: filie-se ao partido dos coitados profissionais.
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Na economia, Dilma terá o maior desafio MIRIAM LEITÃO

O GLOBO

As urnas fortalecem. A presidente Dilma pode tirar delas a força e as lições para fazer seu segundo mandato ser melhor do que o primeiro. Mas, para isso, precisará ter sabedoria e capacidade de diálogo. Ela venceu, apesar da estagnação econômica, da inflação alta e do pior caso de corrupção que já houve, mas precisará ser capaz de ver seus erros e o fosso que sua campanha abriu no país.

Suas escolhas na economia falharam e isso não é uma questão de opinião. São os números. Eles são ruins, com raras exceções. A confiança de todos os setores empresariais está em queda. E quem não confia, não investe, não produz riqueza e empregos. O mercado financeiro não é ocupado por malévolos de sobrecasaca, mas por investidores, pequenos, médios e grandes, que tomam decisões sobre onde colocar seu dinheiro. E o país precisa de poupança e investimento. Precisa restaurar a confiança na economia. É o maior desafio.

Pode-se perguntar: por que, afinal, ela ganhou, se a situação econômica é tão ruim? Porque sua campanha chantageou os eleitores que dependem do Bolsa Família. Porque seu marketing eleitoral mentiu sobre as intenções e propostas de seus oponentes. Porque ela usou a máquina pública de forma espantosa.

Governará com um Congresso mais fragmentado, no qual seu partido encolheu e a oposição ficou mais forte. O maior erro de Aécio Neves foi em Minas Gerais. Não se pode errar em casa. Escolheu um candidato difícil de carregar e, no segundo turno, não virou o jogo. Mas teve muitos méritos. Defendeu os ideais do seu partido e conseguiu ocupar ruas com militância, coisa que só acontecia com o PT. O partido terá grandes políticos no Senado. Tem a chance de ser a oposição que nunca foi.

Os eleitores deram uma segunda chance a Dilma, que precisará ter ouvidos para a quase metade do país que não votou nela. Será hora de abandonar o discurso de campanha e ver os reais problemas do país. Não bastam as protocolares palavras de união e diálogo no discurso da vitória. A torcida dos brasileiros será para que ela tenha sucesso.

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Detritos de campanha DEMÉTRIO MAGNOLI

O GLOBO

Aécio tem o direito de lamentar, mas não o de reclamar: Minas Gerais conferiu o triunfo a Dilma. Os 3,3 milhões de votos que separaram a presidente do desafiante correspondem à soma quase exata da vantagem que ela obteve em Minas com a diferença que, meses atrás, ele planejou alcançar em "seu" estado.

Minas é um "Brasil em miniatura" num sentido bem preciso: sua porção norte exibe indicadores sociais similares aos do Nordeste, contrastantes com os da parte sul. A vitória da presidente candidata reflete a força esmagadora do aparelho de Estado. No Brasil, como em tantos outros países ainda marcados por carências e desigualdades sociais, o governo quase sempre tem os votos dos mais pobres.

Analistas superficiais apontam para um elemento de continuidade: a persistência da polarização entre PT e PSDB, um traço da política brasileira que completa duas décadas. Entretanto, a eleição de ontem singulariza-se por um elemento de ruptura. O lulopetismo venceu três eleições sucessivas por larga maioria, mas, agora, triunfou quase no fio de cabelo. Mais: o PT perdeu por amplas margens no eleitorado urbano das grandes e médias cidades do Centro-Sul, uma tendência que observamos, em menor escala, nos pleitos de 2006 e 2010. A base política do governo deslocou-se para longe dos polos sociais e econômicos mais dinâmicos.

Para vencer, a campanha de Dilma desceu aos subterrâneos, bombardeando todos os adversários com insultos e calúnias. Eduardo Campos ("playboy mimado"), Marina Silva ("pretende tirar a comida da mesa dos pobres") e Aécio ("alcoólatra, drogado e violento com as mulheres") foram tratados como "inimigos do povo". É um sinal assustador para a saúde das instituições democráticas.

No fim, a própria Dilma insurgiu-se contra o mensageiro, para fugir da mensagem, acusando a revista ''Veja'' de promover um "processo golpístico". O governo já deveria saber, 12 anos depois, que é missão da imprensa publicar sem dilação as informações que têm. O escândalo na Petrobras não desaparecerá por um arroubo de fúria do Planalto. Que o segundo mandato não seja envenenado, desde o início, por uma cruzada contra a liberdade de informar.

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domingo, outubro 26, 2014

CAMPANHA DO ÓDIO, DA VIOLÊNCIA E DA MENTIRA OBTÉM A MAIORIA NAS URNAS: DILMA SE REELEGE COM QUASE 52% DOS VOTOS. À SUA FRENTE, UMA ECONOMIA ESTAGNADA E O FANTASMA DO IMPEACHMENT. PODE CONTAR COM A GENTE (RE)GOVERNANTA: PARA VIGIÁ-LA | Reinaldo Azevedo - Blog - VEJA.com

CAMPANHA DO ÓDIO, DA VIOLÊNCIA E DA MENTIRA OBTÉM A MAIORIA NAS URNAS: DILMA SE REELEGE COM QUASE 52% DOS VOTOS. À SUA FRENTE, UMA ECONOMIA ESTAGNADA E O FANTASMA DO IMPEACHMENT. PODE CONTAR COM A GENTE (RE)GOVERNANTA: PARA VIGIÁ-LA | Reinaldo Azevedo - Blog - VEJA.com

CAMPANHA DO ÓDIO, DA VIOLÊNCIA E DA MENTIRA OBTÉM A MAIORIA NAS URNAS: DILMA SE REELEGE COM QUASE 52% DOS VOTOS. À SUA FRENTE, UMA ECONOMIA ESTAGNADA E O FANTASMA DO IMPEACHMENT. PODE CONTAR COM A GENTE (RE)GOVERNANTA: PARA VIGIÁ-LA

Dilma Rousseff, do PT, que vai fazer 67 anos no dia 14 de dezembro próximo, reelegeu-se presidente da República. Aos 96,24% dos votos apurados, ela tem 51,18% dos votos, contra 48,82% de seu oponente, Aécio Neves, do PSDB. Obtém o segundo mandato de forma legítima, segundo as regras do jogo, mas é importante destacar que apenas cerca de 80% do eleitorado (até este momento não há os números do Acre) , composto de 142.822.046 de brasileiros, lhe conferiram esse passaporte. Nada menos do que cerca de 28 milhões e brasileiros  deixaram de comparecer às urnas. Os brancos e nulos ultrapassam 6,37%, e há, como se mencionou, os quase 50 milhões que queriam Aécio presidente. E assim é com o absurdo instituto do voto obrigatório. Um presidente é ungido, note-se, com o voto de uma minoria. Parece-me que um de seus deveres é tentar atrair a adesão daqueles que preferiram outro caminho. E é nesse ponto que as coisas podem se complicar para Dilma.

Vamos ser claros? O PT não se caracteriza exatamente por fazer campanhas limpas. Gosta de dossiês e de montar bunkers para destruir reputações; adere com impressionante presteza às práticas mais odientas da política; transforma adversários em inimigos; não distingue a divergência legítima da sabotagem e o oponente de um alvo a ser destruído; julga-se dotado de um exclusivismo moral que lhe confere o suposto direito de enlamear a vida das pessoas. Não foi diferente desta vez. Ou foi: a violência retórica e as agressões assumiram proporções inéditas. Nunca se viram tanta baixaria, tanta sordidez e tanta mentira numa campanha.

Vejam de novo o placar: Dilma vai vencer Aécio por diferença pequena. Quantos desses votos são a expressão do terror, do medo, do clientelismo mais nefasto? Não! Não se trata, e evidente, de tachar os eleitores de Dilma de "desinformados" — até porque, felizmente, a democracia ainda não inventou um mecanismo que distinga os "bons" dos "maus" votos. Mas é preciso ser um pilantra para ignorar que pessoas economicamente vulneráveis, que estão à mercê do Bolsa Família, acabam decidindo não exatamente com menos informação, mas com menos liberdade.

Multiplicaram-se aos milhares as denúncias de chantagens aplicadas contra as pessoas que recebem benefícios sociais do Estado brasileiro. Cadastrados do Bolsa Família e do Minha Casa Minha Vida passaram a receber torpedos e a ser bombardeados com panfletos afirmando que Aécio extinguiria os programas, como se estes pertencessem ao PT, não ao Brasil. De própria voz, Dilma chamou os tucanos de inimigos do salário mínimo — que teve ganho real acima de 85% no governo FHC, superior, proporcionalmente, aos reajustes concedidos pela própria Dilma. E daí? As mentiras sobre o passado foram constrangedoras: FHC teria entregado o país com uma inflação maior do que a que recebeu; tucanos teriam proibido a construção de escolas técnicas; o governo peessedebista teria sido socialmente perverso… E vai por aí. Sobre o futuro do Brasil, não disse uma miserável palavra a não ser um daqueles miraculosos programas — agora é a vez do "Mais Especialidades"…

Quanto dos cerca de 52 milhões de votos que Dilma obteve a mais do que Aécio se consolidaram justamente no terror? Ora, esbarrei em São Paulo com peças verdadeiramente sórdidas de terror e de agressão à honra pessoal de Aécio. Estatais foram usadas de maneira vergonhosa na eleição, como se viu no caso dos Correios. Em unidades de bancos público, como CEF e BB, houve farta distribuição de panfletos contra o candidato tucano.

É claro que o medo, ainda que por margem estreita, venceu a esperança. Dilma assumirá o novo mandato, no dia 1º de janeiro, com boa parte dos brasileiros sentindo um certo fastio de seu governo. Pior: o país parou de crescer, os juros estão nas nuvens, e a inflação, raspando o teto da meta. Dilma também não tem folga fiscal para prebendas, e o cenário internacional não é dos mais hospitaleiros. Não será fácil atrair aqueles que a rejeitaram porque vão lhe faltar os instrumentos de convencimento.

Petrolão

Mais: Dilma já assumirá o novo mandato nas cordas. Além de todas as dificuldades com as quais terá de lidar, há o estupefaciente escândalo do Petrolão. A ser verdade o que disse sobre ela o doleiro Alberto Youssef, não vai terminar o mandato; será impichada — e por boas razões.

O escândalo não vai se desgrudar dela com tanta facilidade. Youssef pode estar mentindo? Até pode. Mas ele deve conhecer as consequências de fazê-lo num processo de delação premiada. Ele pode não servir para professor de Educação Moral e Cívica, mas burro não é. E que se note: em meio a crises distintas e combinadas, a governanta promete engatar uma reforma política, com apelo a plebiscito. Vêm tempos turbulentos por aí, podem esperar.

Dilma venceu por um triz porque o terrorismo funcionou. Sua campanha foi bem além do limite do razoável. Seu governo já nasce velho, com parcela considerável do eleitorado a lhe devotar franca hostilidade. E, por óbvio, seus "camaradas" à esquerda não vão lhe dar folga.

A petista assumirá o novo mandato no dia 1º de janeiro tendo à frente o fantasma do impeachment e a realidade de uma economia estagnada. Não a invejo. E creio que Aécio também não porque, por óbvio, se ele tivesse vencido, isso teria ocorrido segundo as suas circunstâncias, não as dela, que são muito piores.

O Brasil vai acabar? Não! Países não acabam. Eles podem entrar em declínio permanente. Mas Dilma pode ficar tranquila: nós nos encarregaremos de lembrar que ela foi eleita para governar um país segundo regras que estão firmadas pelo Estado de Direito. Ela pode contar com a nossa vigilância. Agora, mais do que nunca.



Enviado do meu iPad

Mais uma conta a pagar Celso Ming


25 outubro 2014 

Não importa o desfecho das eleições deste domingo; Há uma conta a ser distribuída para a sociedade, numa situação em que a economia enfrenta estrangulamentos e algumas distorções

Não importa o desfecho das eleições deste domingo. Há uma conta a ser distribuída para a sociedade, numa situação em que a economia enfrenta estrangulamentos e algumas distorções.

O baixíssimo crescimento dos últimos quatro anos produziu uma arrecadação fraca, curta demais para financiar as despesas puxadas pelas opções feitas pelo governo Dilma.

Nova imagem

Secura. Comissão de crise (FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO)

Todas as manobras, das mais às menos cabíveis, foram completadas para cobrir esse descoberto. As cordas ficaram excessivamente esticadas e os ajustes são agora inevitáveis. Se não forem feitos, a economia tende a ficar ainda mais desequilibrada.

Quando o trânsito nas ruas e nas rodovias flui bem, é sempre mais fácil de passar de uma faixa a outra da pista ou fazer uma manobra de correção. Com a economia andando, também as mudanças de rumo ficam mais fáceis. Nos congestionamentos que hoje paralisam a atividade produtiva, no entanto, será mais complicado transferir a conta da crise para a sociedade.

O ambiente é adverso. Nesse clima de retração dos mercados, o País não poderá mais contar com as boas receitas das exportações de commodities. Não apenas as contas externas se ressentirão com a menor entrada de recursos, como também, por conta disso, menos dinheiro circulará na economia interna. Não dá, também, para contar com o vento a favor da atividade global, cujo desempenho tende a continuar fraco, podendo deslizar para mais recessão e mais desemprego.

O desafio mais urgente a enfrentar é a crise hidrológica. Mesmo que as chuvas cheguem aos principais centros produtores, as indicações são de que continuarão insuficientes para recuperar reservatórios e lençóis freáticos.

Parece inevitável a instauração de um gabinete de crise, pelo menos no Sudeste, para administrar a escassez. Nessas circunstâncias, o instrumento mais eficiente para racionalizar o consumo, tanto de água doce quanto de energia elétrica, não é a concessão de descontos para quem eventualmente se disponha a reduzir o consumo, mas o aumento de preços. Nada como a dor de bolso para criar mentalidade de economizar um recurso escasso. De quebra, o aumento dos preços ajudaria, em parte, a recompor a arrecadação, na medida em que os impostos estão embutidos nos preços ao consumidor.

Também é inevitável o desrepresamento das tarifas dos combustíveis, da energia elétrica, dos transportes urbanos e também do câmbio – tema já exaustivamente debatido ao longo dos últimos meses, inclusive por esta Coluna. São providências que, num primeiro momento, tendem a acelerar a inflação, fator que, por sua vez, deverá pedir mais agressividade do Banco Central na condução da política monetária.

Para empurrar o crescimento econômico e evitar transferências de uma conta ainda mais alta no futuro, parece indispensável, também, a criação de um comando unificado destinado a agilizar investimentos em infraestrutura. A exasperante lentidão com que são administrados os leilões de concessão e de outorga deve-se, principalmente, à falta de entendimento entre as dezenas de repartições federais das quais dependem providências para que os projetos saiam do papel. E para superar esses problemas parece inevitável uma reforma administrativa.

CONFIRA:

IED SETEMBRO

A tabela mostra em que setores foram aplicados os recursos que entraram como Investimentos Estrangeiros Diretos em 2013 e em 2014.

Buraco maior

O Banco Central continua otimista demais quando projeta rombo em Transações Correntes de apenas US$ 80 bi para 2014. Se o déficit de setembro se repetir por mais três meses, o déficit do ano passará dos US$ 92 bi. O saldo comercial também não alcançará US$ 3 bilhões – a menos que a Petrobrás apareça com outra exportação ficta de plataforma de petróleo.

O voto no desconhecido Suely Caldas

ESTADÃO

É hoje o dia. Haverá os presentes e os faltosos, os que votam nulo e branco, os 354 mil que vivem no exterior e os idosos que fazem questão de sair de casa e fazer valer sua escolha. São 142.822.046 brasileiros aptos a votar nestas eleições e que decidirão quem vai comandar o Brasil nos próximos quatro anos. Hoje, ao digitar uma das teclas - Aécio Neves (PSDB) ou Dilma Rousseff (PT) -, será que eles têm pleno conhecimento e consciência das razões que os levaram a escolher um ou outro? Afinal, o que vai acontecer no Brasil que sairá das urnas?

Quem tiver a resposta exata, precisa, sem hesitações nem tropeços, vai ganhar o prêmio Sobrenatural de Almeida, conferido àqueles que detêm poderes mágicos de adivinhar o que está oculto, porque não foi revelado.

Em três meses de campanha eleitoral, nas ruas e na TV, os eleitores foram diariamente massacrados por xingamentos e baixarias confrontadas em virtual ringue de luta livre. Os candidatos se esmeraram em debochar e desrespeitar os brasileiros que gostariam de celebrar o dia em que a democracia lhes reserva o poder de influenciar a política e melhor expressar sua participação nela, mas vão para as urnas sem conhecer o que os espera no futuro.

Dilma Rousseff passou três meses agredindo adversários. Marina Silva e Aécio Neves usaram seu tempo para se defender, mas também para atacar. Dos três, Marina ainda tentou trazer para a campanha o bom debate sobre seu programa de governo, mas foi atropelada pelas agressões. Chegou ao absurdo de ser acusada de desejar transferir a gestão do País para os banqueiros ao propor autonomia para o Banco Central. A tática do ataque que busca propagar o medo funcionou e afastou Marina Silva da disputa. Aécio Neves ensaiou apresentar pílulas de suas propostas para o País nos últimos dias do primeiro turno, mas recuou e não falou mais no assunto. Cadê os programas de governo de Dilma e de Aécio?

O eleitor vota hoje no desconhecido. Sem saber quais são as chances reais de a economia voltar a crescer, gerar desenvolvimento e empregos; se a inflação vai recuar ou seguir em galope; se o salário vai dar para pagar as contas do mês; se o Brasil deixará de ocupar a lanterna em educação e as escolas passarão a oferecer melhor qualidade no ensino para crianças e jovens; se esgoto e água tratada vão mesmo chegar às casas onde não os há; se a saúde vai melhorar e se haverá hospitais e ambulatórios para atender quem precisa; se o governo vai seguir gastando mais do que arrecada e desperdiçando dinheiro público em sustentar uma estrutura gigante e cara de 39 ministérios; se o governo vai intervir menos, regular mais e as empresas voltarão a investir em infraestrutura; se vão melhorar ou piorar os índices de confiança dos investidores e consumidores no futuro da economia; enfim, se os ajustes - decorrentes de quatro anos de decisões e apostas erradas na economia e que levaram o País à recessão com inflação - virão e como virão.

Corrupção. A corrupção não foi incluída na listagem acima porque ocupou lugar de destaque, foi protagonista principal desta campanha. Claro, do seu lado mais perverso e destrutivo: a troca de denúncias e de acusações.

Os candidatos não usaram seu tempo na TV para explicar aos eleitores a raiz, a origem da corrupção, nem revelaram propostas para combatê-la. Não disseram se faz parte de seus programas eliminar ministérios que o ex-presidente Lula e Dilma criaram só para dar poder de manejar verbas aos políticos de partidos aliados; se vão criar regras para profissionalizar a gestão em estatais, agências reguladoras e órgãos do governo e acabar com o loteamento político de cargos; e se vão reforçar e exigir maior rigor de órgãos de controle da aplicação de dinheiro público. No Brasil, a corrupção tem relação direta com o financiamento de campanhas eleitorais milionárias, atraindo financiadores que cobram a conta depois, na gestão do eleito. Tem relação também com o tamanho do Estado, que tem crescido para dar aos políticos acesso às verbas. Faça-se aí justiça ao governo de Fernando Henrique Cardoso, que privatizou distribuidoras elétricas e bancos estatais que irrigavam dinheiro público para campanhas eleitorais. Dessa conta a população ficou livre.

Embora às avessas, o Brasil acaba de viver experiência que comprova ser dispensável a estrutura gigante e cara que os brasileiros sustentam em Brasília. Há 37 dias a presidente Dilma Rousseff não trabalha no Palácio do Planalto e nove de seus ministros pediram licença ou férias para trabalharem nas eleições. Nem por isso o País parou.

E 2015? Durante esta campanha predominou a convicção de que o primeiro ano do novo governo será de arrumação da casa: reajustar tarifas públicas represadas (combustíveis e energia elétrica são as principais); evitar que tal reajuste cause impacto forte na inflação; corrigir erros para reavivar investimentos industriais e retomar licitações em infraestrutura; buscar o equilíbrio das contas públicas e das contas externas; recuperar a confiança na gestão da contabilidade pública, perdida com os truques e as alquimias dos últimos anos; dinamizar a economia e sair da recessão gerando taxas decentes de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Enfim, será um ano para conceber, divulgar e implementar um programa econômico competente, que não mude a toda hora e que crie um ambiente de negócios estável e favorável para o investimento.

Entre economistas, consultores, mercado financeiro e mesmo funcionários do governo há a certeza de que esses pontos precisam ser atacados de imediato, para a nova gestão ganhar fôlego e marchar na direção de uma economia próspera. Mas a grande dúvida, por incrível que pareça, não vem de Aécio Neves, um novato na Presidência da República, mas da veterana Dilma Rousseff, que há quatro anos ocupa o cargo. Dúvida de sua disposição em reconhecer erros e experimentos fracassados neste mandato e partir para corrigi-los.

Se Dilma Rousseff for eleita para um segundo mandato, o País pode repetir em 2015 a experiência vivida em 2003. Na época, Lula percebeu que conquistar credibilidade e ter um mínimo de tranquilidade para governar implicava seguir rigorosamente os acertos da política macroeconômica de FHC. E Dilma, terá a grandeza de corrigir erros e seguir o caminho certo?

É JORNALISTA E PROFESSORA DE COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO

E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

FERNANDO GABEIRA Amanhã, recomeçamos

o Globo

Foi uma longa batalha que não só dividiu o país como dividiu amigos

Mais um domingo, o último de outubro. Hoje é dia. Foi uma longa batalha que não só dividiu o país como dividiu amigos. A partir de amanhã, é hora de falar em reconciliação. Individualmente, não se pode ignorar o outro. Politicamente, é um erro ignorar metade do país. Não importa que vencedor, o discurso dos primeiros dias tentará cicatrizar as feridas do embate. O problema é que o PT acredita no confronto, na oposição dos contrários, como a única lei do movimento.

Confesso que conheci Dilma melhor nessa campanha. Sobre sua visão política e o assalto à Petrobras já escrevi muito. Registro a decadência cotidiana da política nacional. E temo que estas eleições tenham apenas acentuado minhas advertências. Em todas as minhas viagens pelo Sudeste, esbarrei com a seca. No Rio Piracicaba, na nascente do São Francisco, até a Fonte da Vovó, em Guaratiba, em muitos lugares surgem as marcas da estiagem. E nada de seca nos debates. Não me refiro à inútil tentativa de culpar um ao outro pela seca. Mas uma política de recursos hídricos, recuperação dos rios, fortalecimento dos comitês de bacia, que é uma excelente ferramenta de gestão.

Desde muito que as evidências já não importam mais. Os cínicos triunfaram impondo a tese de que importam apenas as versões. A suprema vitória foi adoção da tática de Goebbels: repetir a mentira muitas vezes para que se confunda com a verdade.

E não é só a adoção de uma tática nazista que marca a descida aos mais baixos níveis de luta política. Há também a admiração dos observadores que se apegam à sua eficiência eleitoral e a medem em números de pesquisa. Quando digo que conheci melhor a Dilma é porque, nessas eleições, através de muitos vídeos, observei nela algo que é muito caro entre escritores: a luta com a palavra, a luta mais vã, segundo o poeta Carlos Drummond.

No entanto, não era exatamente a angustiante escolha da palavra certa que me chamou a atenção, mas sim a fuga escorregadia de proparoxítonas e o sumiço repentino de expressões como tsunami. É uma questão de memória. As revistas científicas divulgam uma pesquisa feita no Massachusetts Institute of Technology que revela algo interessante sobre o tema. Se ao ouvirmos o som da buzina não a associarmos com a vinda de um carro, isso é muito perigoso. Por outro lado, estabelecer vínculos entre milhares de acontecimentos pode ser inútil, criando medos artificiais.

As pesquisas revelaram que na região do córtex se produzem células destinadas a reprimir os neurônios que são responsáveis pela lembrança. Lá dentro do cérebro já existe uma luta independente de nossa vontade entre o lembrar e o esquecer. Depois do debate do SBT, visivelmente cansada, Dilma esbarrou na palavra inequívoca e capitulou na palavra mobilidade: deu um branco. Ela já estava dando sinais de cansaço no final do debate. Numa das perguntas, completou as últimas frases com clichês, demonstrando que acionara o piloto automático. Momentos depois, os gestos começaram a ganhar autonomia. Creio que ela estava, inconscientemente, tentando apoiar o queixo com a mão, disfarçando a tentativa alongando o gesto.

Numa conferência que realizou na CNI, disponível na internet, não havia sinais de cansaço. Mas a memória também falhou. Essa palestra ficou conhecida na internet por causa do erro aritmético: Dilma disse que treze menos quatro é sete. Todos riram e adiante ela corrigiu sua conta. O mais interessante no vídeo é sua luta com a palavra tsunami, que se escondeu numa gaveta, recusava-se a aparecer. "Aquele furacão, aquele Fukushima... no Japão, como é que chama? Tsunami."

Lembrei-me do meu pai. Ele usava a expressão genérica "como é que chama" para se referir a todas as palavras que escapavam de sua memória:

— Menino, vai ao lado do fogão e pega a como é que chama.

Era preciso ir atento e procurar ao lado do fogão aquilo que poderia ser a como é que chama. Voltava triunfante com a vassoura, certo de que era ela.

Sinceramente, não sei se, em termos eleitorais, todos os lapsos atrapalham Dilma. Os discursos políticos são tão pasteurizados que, às vezes, uma performance como a do tsunami dá uma certa vida. Se for reeleita ao longo desses anos difíceis, talvez os burocratas só a deixem fazer intervenções lendo um texto. Os lapsos são apenas o traço pessoal a ser sepultado pela cuidadosa criação da imagem. Como os neurônios de Dilma vão se combinar para inibir ou produzir lembranças é uma nota ao pé de página nessa campanha de maré baixa na política.

Há certamente temas para não serem esquecidos: esquemas de suborno na sua base aliada, o processo de corrupção na Petrobras, crise hídrica, economia em baixa, violência em alta. De uma certa forma, a luta de Dilma com a palavra a humaniza. É a pessoa pedindo socorro, sob a pesada armadura de estadista em que a cobriram. Uma fantástica máquina de propaganda e um poderoso esquema de corrupção ocuparam o lugar central na política. Até quando? Hoje à noite, saberemos. E amanhã, recomeçamos. Com que esperanças e frustrações, só a definitiva pesquisa das urnas vai dizer.

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sábado, outubro 25, 2014

I- O DEBATE NA TV GLOBO! -EX-BLOG CESAR MAIA ESPECIAL

EX-BLOG ESPECIAL; NA VÉSPERA DA ELEIÇÃO!

I- O DEBATE NA TV GLOBO! AÉCIO PODE TER GANHADO ATÉ 3,3 PONTOS!

1. Os debates não mudam o voto dos decididos. Mas podem mudar os dos indecisos –6%- somados aos que marcam sua intenção de voto nas pesquisas, mas admitem que podem mudar –10%. A tendência dos indecisos se pode mensurar pelas perguntas feitas pelos indecisos escolhidos pelo Ibope para fazerem perguntas. Todas as perguntas foram de críticas ao governo. Ou seja: precisavam de razões para votar na oposição.

2. O debate mostra a falta que faz a prática parlamentar. Dilma não tem eloquência, gagueja, perde a continuidade da frase e se interrompe. Aécio não apenas levou vantagem por isso, mas com tiradas que geram lembrança como “para acabar com a corrupção no Brasil: tirar o PT do poder”. Dilma tem erros de concordância e de português (para mim responder, etc.). E ainda sugeriu à economista indecisa fazer o pronatec (arghh).

3. A ambos falta suavizar as expressões, o que a TV gosta. Dilma nunca, Aécio às vezes.

4. A audiência do debate foi de 30 pontos na média e 38 pontos no pico. A cada 100 televisores ligados, 47 sintonizavam o debate.

5. Numa pesquisa telefônica (600 ligações Rio, SP, BH), buscando aqueles que não estavam convencidos antes do debate, citando Aécio, Dilma e nenhum dos dois por enquanto, e usando como referência aqueles 16% de indecisos, 39% responderam que o debate não foi suficiente. 41%, responderam Aécio e 20% Dilma. Ou seja, liquidamente, Aécio cresceria 3,3 pontos em relação à Dilma pelo debate, extrapolando-se para todo o Brasil.

* * *

II- OS ÚLTIMOS PROGRAMAS DE AÉCIO E DILMA! 

AÉCIO.

Receita de Aécio para acabar com a corrupção: tire o PT do poder Ricardo Noblat

Receita de Aécio para acabar com a corrupção: tire o PT do poder

Ricardo Noblat blog

Nem que a vaca tussa, Dilma Rousseff responderá à pergunta que Aécio Neves lhe fez duas vezes, ontem à noite, durante o debate entre os candidatos a presidente promovido pela Rede Globo de Televisão.
A pergunta: “O que a senhora tem a dizer sobre os mensaleiros do PT condenados pela Justiça e que estão presos?”
Dilma nada tem a dizer. Não teve no debate da Globo e tampouco nos demais debates do primeiro ou do segundo turno. Como é possível que uma presidente da República nada tenha a dizer sobre um assunto desses?
Como se viu, entre nós, é possível sim. Não responder a perguntas incômodas é considerado por um povo que se acha esperto uma prova de grande esperteza – de fraqueza ou medo, jamais.
O debate foi dividido em quatro blocos. Em dois, candidato perguntou a candidato. Nos outros dois, eleitores indecisos perguntaram aos candidatos. O primeiro bloco, onde os candidatos se confrontaram, terminou empatado.
Aécio ganhou com folga os três blocos seguintes. Respondeu às perguntas com tranquilidade. Protagonizou os momentos marcantes do debate. Deixou Dilma atrapalhada várias vezes. E se saiu melhor ao ser interrogado pelos eleitores indecisos.
Cometeu uma frase matadora, destinada à passar à história dos debates. Foi quando uma eleitora perguntou o que poderia ser feito para acabar com a corrupção. Aécio disse: “Existe uma medida para acabar com a corrupção: tirar o PT do governo!”
O melhor do debate: as perguntas dos eleitores indecisos, que expuseram a dura realidade da vida das pessoas de carne e osso. Nada a ver com as pessoas que desfilaram na propaganda eleitoral de Dilma.
Um garoto contou que perdera um primo assassinado pelo tráfico de drogas. A professora, a trágica história do aluno que abandonou a escola para se tornar um dos chefes do tráfico. O florista cobrou uma solução para o problema das moradias. Afinal, o aluguel triplicou em quatro anos.
O mico da noite foi para... Dilma, naturalmente. Uma economista do Ceará, de 55 anos de idade, disse que não consegue mais emprego. Resposta de Dilma: faça o Pronatec, um curso de qualificação. Puxa, a mulher já é qualificada. Precisa de emprego, não de curso técnico.
A vitória de Aécio em mais um debate, dificilmente, será capaz de imprimir um novo rumo à eleição. A tendência é que os eleitores de Dilma achem que ela venceu o debate. Os eleitores de Aécio acharão que o vencedor foi ele. É assim que costuma acontecer.
De resto, algo como 84% dos eleitores de Dilma e dos eleitores de Aécio diz que não há hipótese de mudar seu voto. Um por cento dos eleitores de cada um diz que é alta a probabilidade de mudar. Para 4% de cada, existe alguma possibilidade de mudar. E 11% não respondem ou não sabem.

‘Beto & Paulinho’, de J.R. Guzzo | por Augusto Nunes - VEJA.com

'Beto & Paulinho', de J.R. Guzzo | Augusto Nunes - VEJA.com

'Beto & Paulinho', de J.R. Guzzo

PUBLICADO NA EDIÇÃO IMPRESSA DE VEJA

J.R. GUZZO

Diante das versões francamente incompreensíveis que o governo vem apresentando a respeito dos atos de corrupção praticados na Petrobras ao longo dos últimos anos, talvez seja útil para o leitor ter na ponta da língua os fatos registrados a seguir. Versões são mercadoria barata. Fatos, porém, são o corpo e a alma da realidade. Podem ser ignorados por quem não gosta deles, mas não mudam, e não vão embora. No caso da Petrobras, aqui estão:

Paulo Roberto Costa, chamado de "Paulinho" pelo ex-presidente Lula e um dos convidados ao casamento da filha da presidente Dilma Rousseff, Paula, em abril de 2008, foi um dos mais altos diretores da Petrobras entre 2004 e 2012. Em março deste ano "Paulinho" foi preso pela Polícia Federal, acusado de praticar atos de corrupção nas operações da estatal, e algum tempo atrás resolveu confessar seus crimes, por livre e espontânea vontade, dentro das condições legais que permitem redução de pena para réus que colaboram com a Justiça. Seu companheiro de delitos, o doleiro Alberto Youssef, ou "Beto", fez o mesmo. A partir daí ficou provado, acima de qualquer dúvida, que houve corrupção na maior empresa estatal do Brasil; é um fato que não pode mais ser apagado. Feita dentro das exigências da lei, a confissão é a "rainha das provas" – não pode ser suplantada por nenhuma outra, e é a única que garante consciência tranquila ao juiz que assina uma sentença de condenação.

O principal problema trazido pelas confissões de "Beto" e "Paulinho" não está nos atos de corrupção que eles cometeram individualmente nem nos benefícios pessoais que obtiveram. Está na sua associação direta com as empreiteiras de obras públicas, que, historicamente, figuram entre as empresas privadas mais influentes do Brasil. Até agora não se falou muito disso, mas é certo que se vai falar – e aí os empreiteiros podem ficar na situação rara, provavelmente inédita, de ser acusados criminalmente com base em provas materiais inegáveis. As construtoras contratadas para realizar obras na Petrobras fizeram pagamentos que chegaram indiscutivelmente a "Beto" e a "Paulinho"; ambos confessaram que esse dinheiro, após o desconto de suas comissões, era distribuído a diretores da estatal e a agentes do PT, do PMDB e do PP, partidos que controlam cargos-chave na diretoria, em pagamento pelos contratos que a empresa concedeu a diversas das maiores empreiteiras do país. Apenas em uma operação, já comprovada, cerca de 35 milhões de reais foram pagos a empresas-fantasma de "Beto", e "Paulinho", por sua vez, provou ter recebido um mínimo de 70 milhões, que aceitou devolver ao poder público.

O PT, segundo afirmam os dois, é quem recebia mais dinheiro do esquema – 3% sobre o valor de cada contrato que ajudava a fechar, entregues ao seu tesoureiro nacional, João Vaccari Neto, através das empresas-laranja de "Beto". O PMDB e o PP ficavam com 2% e 1%. Não vieram a público provas materiais dessas acusações. "Beto" e "Paulinho" falaram a verdade sobre si próprios; agora, para receberem sua recompensa, terão de provar que também estão falando a verdade sobre os demais acusados.

É fato público que as empreiteiras mantiveram relações íntimas com o ex-presidente Lula, um de seus filhos, diversos políticos e autoridades de primeiro nível nos governos dos últimos doze anos. O filho, "Lulinha", vendeu à construtora Andrade Gutierrez – uma das maiores do ramo, e importante fornecedora de obras para a Petrobras e o governo em geral – parte de uma empresa de videogames que foi à falência; recebeu pela venda a soma final de 10 milhões de reais. Lula participou com a Odebrecht, outro gigante da área, das negociações para a construção do novo estádio do Corinthians, em São Paulo. O ex-presidente viaja com frequência em jatinhos de empreiteiros e esteve no exterior tentando promover seus negócios internacionais.

É o que existe de real até agora. O governo, a esta altura, já deveria ter apresentado em sua defesa um mínimo de fatos que possam ser levados a sério – mas só fala que "está em curso" um "golpe de Estado", organizado pela "grande mídia", para derrotar Dilma na eleição. Não foi a imprensa nem a oposição que fizeram as denúncias – foram os amigos "Beto" e "Paulinho", e é a eles que o PT tem de se queixar se está infeliz. Golpe? O governo deveria ter mais cuidado com essa palavra. As urnas, só elas, vão decidir no dia 26 quem ganhará as eleições. Golpe é sustentar na véspera, como estão fazendo Dilma, Lula e o PT, que se o adversário ganhar a eleição não vale.



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sexta-feira, outubro 24, 2014

: As 8 páginas da VEJA de hoje.

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Campanha de desinformação - Rogério Furquim Werneck Jornal O Globo

Dilma Rousseff passou a exibir seu pior lado. Partiu para a negação peremptória de aspectos incontestáveis da realidade

Muito ainda será dito e escrito sobre a tumultuada evolução da campanha presidencial de 2014, que agora chega ao fim. Mas, com o benefício da visão retrospectiva, é preciso que, nas análises do que de fato ocorreu, seja dada importância adequada à situação delicada em que se encontrava a presidente Dilma no início da campanha.

O desafio da reeleição, que há alguns anos parecia trivial, havia se tornado muito mais difícil. Ao final de quatro anos de crescimento medíocre, a economia entrara num quadro claro de estagflação, com crescimento zero e inflação acima do teto de tolerância da meta. Na esteira de intermináveis desmandos, improvisações e manipulações do registro das contas públicas, o descrédito em que caíra a condução da política econômica parecia irremediável. E o governo nem mesmo conseguia articular uma narrativa minimamente respeitável de como pretendia superar as dificuldades com que se defrontava a economia.

Não bastasse esse flanco frágil do lamentável desempenho da economia, o projeto da reeleição, visto da perspectiva do início da campanha, parecia também altamente vulnerável à evolução das investigações sobre o grande esquema de corrupção que aflorara na Petrobras. Afinal, não se tratava de mais um escândalo qualquer. Mas de irregularidades de proporções gigantescas, com alegado desvio sistemático de recursos para dezenas de parlamentares da base aliada, em uma empresa estatal com a qual a presidente teve longo e estreito envolvimento.

Tendo sido nomeada presidente do Conselho de Administração da Petrobras no início do primeiro governo Lula, Dilma Rousseff permaneceu ocupando essa posição mesmo depois de ter deixado a pasta de Minas e Energia e passado a responder pela Casa Civil. Lá ficou por mais de sete anos, até se candidatar a presidente em 2010.

De início, o Planalto ainda alimentava a fantasia de que seria possível conduzir a campanha de 2014 deixando de lado esses dois temas espinhosos: o desempenho da economia e a corrupção na Petrobras. Com Pronatec, Mais Especialidades, Banda Larga para Todos, Segurança Integrada e assemelhados, João Santana teria material farto para dar corpo à campanha eleitoral.

Mas esse temário escapista mostrou-se inviável. Desde o primeiro turno, a candidata oficial vem tendo de lidar com os dois temas embaraçosos que, a todo custo, tentou evitar. E, tendo sido arrastada para um debate em que tem plena consciência da extensão da sua vulnerabilidade, Dilma Rousseff passou a exibir seu pior lado. Partiu para a negação peremptória de aspectos incontestáveis da realidade que hoje vive o país e para inescrupulosa distorção dos fatos, empenhada em lamentável campanha de desinformação do eleitor.

Isso já havia ficado claro, no primeiro turno, quando a candidata se permitiu alardear que conceder independência ao Banco Central era "tirar do presidente da República e do Congresso Nacional, eleitos pelo povo, as decisões sobre a política econômica do país, para entregá-las aos bancos". Agora, sem ter o que dizer sobre como pretende superar a estagnação da economia e combater a inflação, passou a denunciar que a proposta, aventada pela oposição, de reduzir a meta de inflação, aos poucos, para 3% ao ano, exigiria que a taxa de desemprego fosse elevada a 15%.

Martelando empulhações de tão baixo nível, Dilma pode até ter enganado vasto contingente de eleitores menos informados, mas à custa de insanável perda de respeito entre parcelas mais esclarecidas do eleitorado.

O mesmo discurso escapista e mistificador vem marcando a maneira como a candidata tem tentado se defender das notícias negativas que emanam da Petrobras. Em vez de se autocongratular por seu inabalável compromisso com o combate à corrupção e pelos feitos da "sua" Polícia Federal, Dilma precisa explicar como um esquema de corrupção dessas dimensões pôde prosperar por tantos anos na Petrobras sem que o Conselho de Administração, por ela presidido com suposta mão de ferro, sequer tivesse tomado conhecimento de sua existência.

Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

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O day after - NELSON MOTTA Jornal O Globo

O day after - Jornal O Globo

O Globo

Não é preciso ser astrólogo ou economista para saber que o ano que vem vai ser um dos mais difíceis de nossa história recente. Com a inflação em alta, o crescimento em baixa e a expectativa de o escândalo da Petrobras se tornar uma tsunami na política brasileira, quem vencer a eleição terá pouco tempo para comemorar, num país dividido entre nós e eles, quando a união nacional é indispensável para as reformas que a sociedade exige e estão paralisadas pela luta política.

Campanhas eleitorais não são para fracos, mas, desta vez, 71% dos eleitores dizem que elas ultrapassaram todos os limites, rebaixando a política a um ramo da publicidade e do marketing de destruição, em que o principal objetivo foi mostrar, provar e reafirmar ao eleitor quem era o pior, fazendo as qualidades dos candidatos despertarem menos entusiasmo do que a repulsa aos adversários. É assim que a emoção vence a razão e o medo vence a esperança.

O pior efeito colateral das campanhas é dificultar ao máximo a convivência democrática de quem vencer com uma oposição forte, representativa e combativa, num momento dificílimo para o país, quando será mais urgente tomar providências do que apontar vilões e perseguir adversários.

A tsunami da Lava-Jato provocará uma devastação no Congresso Nacional, que dividirá com o/a presidente a responsabilidade de enfrentar o que vem pela frente. Com os partidos desmoralizados, com que representatividade serão feitas as reformas tributária, política e eleitoral ?

Algumas grandes empreiteiras que financiam as campanhas já estão procurando a Justiça para negociar acordos de leniência, dispostas a colaborar nas investigações e pagar os prejuízos à Petrobras e pesadas multas para não ter seus diretores, ou até presidentes, presos.

Além de rezar para o cenário da economia internacional não piorar, o maior desafio da/o eleita/o, mais do que baixar a inflação, fazer o país voltar a crescer, ampliar a inclusão social, melhorar os serviços e desbaratar as quadrilhas que assaltam o Estado, será unir o país — para viabilizar essas ações e atravessar as turbulências de 2015.

Feliz 2016!



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REINALDO AZEVEDO No domingo, diga 'sim' e 'não'

24/10/2014 02h00
De todas as análises erradas que se podem fazer sobre a eleição deste domingo, a mais errada é a que sustenta que estaremos diante de um plebiscito: vencerá o "sim" ou o "não" ao governo. É um erro de forma, de substância e de história.
Fosse um plebiscito, e se Dilma vencer (reparem na combinação dos tempos subjuntivos), então a presidente poderia continuar a "presidenta do subdesenvolvimentismo", categoria inventada por Lula e que, nas suas mãos, chegou ao colapso. Fosse um plebiscito, e se Aécio vencer, então o tucano poderia ignorar os laços com o Estado de uma vasta clientela, que fizeram do assistencialismo a forma possível de cidadania. Ela teria de ser estúpida o bastante para não mudar nada, e ele, para mudar tudo. Ela teria de ser idiota o bastante para achar que Aécio está errado em tudo, ele, para achar que Dilma não está certa em nada.
A assertiva de um plebiscito embute a perigosa suposição de que, se o tucano vencer, poderá, então, desacelerar os programas sociais –já que estariam sendo repudiados pela maioria. Suposição ainda mais perigosa é a de que a eventual vitória de Dilma significará a aprovação dos métodos de gestão revelados no mandato da governanta, muito especialmente os adotados na Petrobras. Nota à margem: se a candidata já admitiu o malfeito, a presidente, no entanto, mantém João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT, como conselheiro de Itaipu e como um dos chefões de sua campanha.
O regime democrático repudia que processos eleitorais regulares, devidamente previstos no calendário, realizados segundo leis previamente definidas, em mecanismos legítimos de consulta à população, sejam considerados plebiscitários. A menos que a força vitoriosa esteja com más intenções.
De resto, e não estou fazendo mero joguinho de palavras –expressão inferior do estilo–, o valor do "sim" e o do "não", nos regimes democráticos, é equivalente. Quando se escolhe um governo, também se define quem deve se opor a ele. A lição é básica, elementar, do nível "Massinha 1" do Estado democrático de Direito, mas tem de ser repisada: na democracia, o "sim" mais importante é a possibilidade de dizer "não" sem romper os fundamentos da ordem que abrigam um e outro.
O pilar principal que sustenta o edifício democrático é o valor negativo, que reforça, em vez de destruir, o sistema. Aí está a essência do regime que, ao longo da história, fascistas de esquerda e de direita tentaram e tentam perverter, com seus teóricos das "forças disruptivas", muitos deles escrevendo nesta Folha –que só existirá como Folha se e enquanto eles não forem bem-sucedidos.
Não haverá plebiscito nenhum no domingo. Será apenas uma eleição presidencial, a sétima depois da redemocratização do país. Se o país conseguir escolher um pouco mais de eficiência, um pouco menos de ladrões, com a perspectiva de um pouco mais de bem-estar aos que menos têm, então se terá feito uma opção progressista, dada a conservação necessária.
PS "" Esta coluna faz um ano hoje. Sou grato aos que amam e aos que odeiam, com uma quedinha particular, confesso, pelos odiadores profissionais. Afinal, o amor, às vezes, se descuida, mas o ódio não. O ódio nunca trai! No mês que vem, novidades a respeito.

quarta-feira, outubro 22, 2014

Elio Gaspari O que vem por aí é um plebiscito

O GLOBO

A teoria da pancadaria é curta para explicar o que parecem ser as oscilações do eleitorado

Quando Marina Silva não conseguiu chegar ao segundo turno, atribuiu-se seu declínio à pancadaria que sofreu. Talvez nunca se saiba por que o balão esvaziou, mas, mesmo olhando-se para os golpes que levou, essa teoria é curta. Foi de sua equipe que partiu a plataforma da independência do Banco Central. Admita-se que a ideia pode ser boa. Ainda assim, ela foi exposta pela educadora Neca Setubal, herdeira da família que controla o banco Itaú. Precisava? Se isso fosse pouco, dias depois, Roberto, irmão de Neca e presidente da casa bancária, disse que via “com naturalidade” uma possível eleição de Marina. Precisava? Marina falou em “atualizar” a legislação trabalhista, mas não detalhou seu projeto. Juntando-se gim e vermute, tem-se um Martini. Juntando-se banqueiro com atualização das leis trabalhistas, produz-se agrotóxico. Precisava?
Uma campanha eleitoral em que se discutiram mais as pesquisas do que as plataformas esteve mais para videogame do que para escolha de um presidente da República, mas foi esse o curso que ela tomou. A comparação do resultado do primeiro turno com as estimativas das pesquisas ensinou o seguinte: os votos de Aécio Neves ficaram acima da expectativa máxima e os de Dilma, abaixo da expectativa mínima. Disso resulta que não só é temerário dizer quem está na frente, mas é arriscado afirmar que o vencedor será eleito por pequena margem.
Os eleitores prestam atenção em pesquisas, mas votam com o coração, a cabeça e o bolso. Se a noção demofóbica segundo a qual Dilma tem o voto dos pobres tivesse alguma base, a doutora estaria eleita. Contudo, olhando-se pelo retrovisor, nunca houve ricos suficientes nos Estados Unidos e na Inglaterra para eleger os conservadores Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Como muita gente achava que o povo brasileiro não sabia votar, o país foi governado por cinco generais escolhidos sem qualquer participação popular. O último foi-se embora deixando uma inflação de 226% e uma dívida externa (espetada) de US$ 180,2 bilhões.
Os candidatos conseguem votos pelo que dizem e pelo que fazem. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso percebeu que ganhara a eleição quando uma mulher ergueu uma nota de um real durante um comício. Quatro anos depois, mesmo diante da ruína da fantasia do real que valia um dólar, ele foi reeleito porque os brasileiros preferiram continuar numa Mercedes que rateava a embarcar na motocicleta de Lula.
Nesta campanha, com exceção do debate da Record, os outros foram rasos. Em todos, os candidatos pareciam drones guiados pelo controle remoto dos marqueteiros, buscando clipes para os programas do horário gratuito. Sexta-feira, o debate da Globo terá tudo para ser educativo, pois nele o jogo do clipe será inútil.
A pancadaria que envolveu Dilma Rousseff e Aécio Neves roncou dos dois lados. Ambos sabiam que esqueletos tinham nos armários. As baixarias não serão suficientes para explicar o resultado que sairá das urnas. Muito menos as teorias destinadas a desqualificar os votos de quem vier a prevalecer. O que vem por aí é um plebiscito para decidir se o PT deve continuar no governo ou ir-se embora.
Elio Gaspari é jornalista

ZUENIR VENTURA Um verbo decisivo

O GLOBO

Se até nas selvagens lutas de vale-tudo do MMA há limites para os golpes, por que não estabelecer restrições éticas na guerra eletrônica?

Ansiosos por descobrirem mais um "inimigo" político, eleitores, ou melhor, torcedores me criticam por não tomar partido, por estar em cima do muro nessa briga de foice entre os presidenciáveis. E estou mesmo, porque, em meio a paixões desenfreadas, esse é o lugar mais indicado para quem dispõe de um espaço privilegiado e se recusa a transformá-lo em palanque. Proselitismo aqui só contra o uso da violência pelos candidatos, cujas divergências, aliás, são menos ideológicas e mais idiossincráticas. Na verdade, combatem de preferência as pessoas, mais do que as ideias. Quem gosta de baixo nível deve procurar o "território livre" da internet — livre principalmente para xingamentos e acusações sem provas. Alguém sugeriu que, a exemplo deste jornal, que na seção "Dos leitores" se recusa a publicar cartas com ofensas, as emissoras de TV deveriam criar um código de conduta nos debates, uma espécie de pacto de não agressão pessoal pelas partes em disputa. Se até nas selvagens lutas de vale-tudo do MMA há limites para os golpes, por que não estabelecer restrições éticas na guerra eletrônica? Claro que muitos iam acusar a medida de censura, cerceamento da liberdade de expressão. Mas os que ligam a televisão para ver debates, e não embates, com certeza aplaudiriam.

Pode-se dizer que houve um avanço domingo passado, pois na TV Record o tom foi menos belicoso, bem mais moderado, os candidatos menos provocativos, diferentemente de como se portaram no SBT, quando transformaram os blocos em rounds e o estúdio em ringue. Resta saber se, como nos conflitos armados, trata-se apenas de uma trégua ou da suspensão definitiva das hostilidades. Há algumas hipóteses para a nova postura. A primeira seria o efeito da disposição do Tribunal Superior Eleitoral de punir os ataques com perda de tempo no rádio e na televisão, como aliás acaba de fazer com os dois concorrentes. Outra é que o baixo nível teria sido transferido para as redes sociais. Há ainda a possibilidade de que pesquisas qualitativas teriam mostrado rejeição à estratégia dos ataques virulentos. Daí a opção pelas denúncias contra os partidos e os governos, mais do que contra os governantes. De fato, assistiu-se a um desfile de escândalos para ver em que administração houve mais corrupção, se na do PSDB ou do PT, e quem de um lado ou de outro recebeu mais propina.

O teste final será nesta semana, com o acirramento da disputa em consequência da troca de posições nas pesquisas de opinião. É possível que vença não quem apresentou o melhor programa de governo, mas quem usou com mais eficácia contra o/a adversário/a o verbo que virou moda nessa campanha: desconstruir.

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Roberto DaMatta Mudar o penteado

O GLOBO

O cabelo solto ou liberto do coque tem um sentido oculto. Ele fala de um engajamento expressivo de Marina ao desejo de emancipar o Brasil do lulopetismo

Talvez como prova de que nem tudo está perdido neste nosso Brasil obcecado pela disputa eleitoral, Marina Silva mudou o penteado: tirou o coque e soltou o cabelo.

No meio de um tiroteio que o nosso viés aristocrático rejeita como de mau gosto, esse é o fato alvissareiro desta etapa derradeira que vai confirmar ou não o governo lulopetista e mendaz de Dilma Rousseff.

Antigamente, quando os bichos falavam e os animais (sobretudo os burros e os gorilas) não faziam parte do governo, mulheres e homens iam sistematicamente a barbeiros e cabeleireiros e, de vez em quando e para a surpresa dos amigos, colegas e maridos, mudavam de penteado.

A expressão falava de algo além do cuidado regular com o cabelo, porque mudar parte do rosto chamava atenção imediata. Mudar o cabelo ou a cabeleira (ampliando-a, mudando sua forma ou cortando-a) ressaltava uma transformação radical da aparência e da "figura", sugerindo novos projetos de vida e mudanças de posicionamento social.

Sir Edmund Leach, um colega inglês dotado de excepcional talento e extrema generosidade, escreveu, em 1958, um ensaio denominado "cabelo mágico" , no qual ele observa como o estilo do penteado exprimia estados emocionais e sociais profundos. O cabelo, diz este ensaio — editado num volume que publiquei pela Editora Ática na coleção Grandes Cientistas Sociais, dirigida por Florestan Fernandes em 1983, sob o título "Edmund Leach" —, vai muito além do penteado. Discordando do axioma freudiano segundo o qual o cabelo se associa a manifestações do desejo libidinal, Leach revela que o seu sentido ou significado varia de cultura para cultura.

Muitos cabelos fogem do cânone freudiano como um símbolo fálico e crescer e ser cortado nos homens como um sinal de castração ou controle sexual. Elas mostram também que, em muitas sociedades, o seu estilo está ligado ao luto, à homossexualidade, à fertilidade, à gravidez e a outros estados sociais, os quais não têm um elo direto com a sexualidade.

No mundo ocidental, por exemplo, o cabelo longo se associa à mulher dona de sua vida sexual, embora, como se sabe, o corte do cabelo de Sansão por Dalila foi decisivo como um golpe que fez com que o superjudeu (que prefigura o Super-Homem americano moderno) perdesse temporariamente suas forças.

A essas alturas, o leitor pode estar espantado pelos caminhos que o desmanche do coque da Marina Silva está me conduzindo. Mas vale enfatizar que a ideia de controle, disciplina, agressão e repressão está muito mais próxima de cabelos raspados, presos ou curtos (como em algumas ordens religiosas e profissões — os militares e professoras — por exemplo); enquanto o cabelo longo, desgrenhado, acompanhado de uma barba igualmente ouriçada, denota um desdém e um engajamento crítico com a ordem vigente. O melhor exemplo gráfico disto é o famoso retrato do jovem Karl Marx, por oposição a uma estátua de Júlio César ou a foto de um membro das SS. Todos os românticos, bem como os hippies e os renunciantes deste mundo que vai se acabando, desdenhavam o cabelo brilhantinado e cuidadosamente penteado. Aliás, neste Brasil onde abundam meninos-prodígios de todo tipo, todos penteiam despenteando seus cabelos dentro do modelito Beethoven ou Einstein — os prodígios dos prodígios.

O cabelo solto ou liberto do coque tem um sentido oculto. Ele fala de um engajamento expressivo de Marina ao desejo de emancipar o Brasil do lulopetismo. Curioso, mas psicanaliticamente fascinante, esse despentear de Marina num momento em que o processo eleitoral atinge um estágio crítico e também começa a modernizar os seus debates que muitos gostariam que continuassem como aqueles jantares regados a valsa do Itamaraty.

Um aluno comentou que o vale-tudo petista é legítimo. Afinal, dizia, como num jogo de futebol, todos querem ganhar. Ele tem razão, mas com sérias reservas. O jogo tem como base a igualdade dos times porque todos obedecem às mesmas regras. Ademais, os times têm como referência o juiz, a torcida e os manuais que não mudam durante o seu desenrolar.

Já numa eleição como esta, há um candidato que é um óbvio controlador das regras porque ele é o governo com um viés antiliberal. Neste contexto, ser obrigado a vencer pelo bem do time transforma a disputa numa batalha de aleivosias. Se a paixão pelo poder for maior do que o respeito institucional, não pode haver jogo limpo. Um dos times — o que controla as regras ao mesmo tempo em que joga — abre mão de realizar o mandamento crítico de qualquer democracia: o dizer não a si mesmo.

Mas contra isso, eis como um presságio, o cabelo solto de Marina.

Roberto DaMatta é antropólogo

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INDICE DE ARTIGOS 22/1/14

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