Entrevista:O Estado inteligente

sábado, janeiro 31, 2009

Aviação Lobistas cobram 18 milhões da Embraer

COBRANÇA SUSPEITA

Lobistas cobram 18 milhões de dólares da Embraer.
Eles dizem (mas não provam) que parte do dinheiro
pagou "contribuições políticas" na Colômbia


Diego Escosteguy

Clique para ampliar Fernando Martinez/AP
ASSESSORIA
O contrato com os lobistas previa o pagamento de 8% do valor da venda, mas foi desfeito, segundo a Embraer

No mundo em que voa a Embraer, a maior fabricante de aviões da América Latina, são comuns pendengas por interesses comerciais contrariados envolvendo cifras vultosas. Desde o fim do ano passado, a Embraer está às voltas com um litígio assim. A empresa brasileira tornou-se alvo de uma ação da lobista colombiana Maria Juliana Buendía de La Vega, sócia da Eximco International, uma conhecida representante do comércio mundial de armas e equipamentos militares. Ela contratou um escritório de advocacia no Brasil para cobrar da Embraer uma suposta dívida de 18 milhões de dólares. O dinheiro, segundo ela, deveria ter sido pago como bônus de sucesso por um acordo que envolveu a venda ao governo da Colômbia de 25 aviões Super Tucano pelo valor de 234 milhões de dólares. Para uma companhia que tem uma receita anual de 7 bilhões de reais e emprega 23 000 funcionários, o valor da dívida não seria um grande problema. O que fere a Embraer é o fato de a Eximco afirmar que o negócio só se concretizou mediante o pagamento de "contribuições políticas" a autoridades colombianas.

Fernando Ruiz
CONDOR 6
O general Héctor Velasco, amigodos lobistas, seria o aliadoda empresa brasileira


A Eximco International intermedeia a venda de equipamentos militares a governos de vários países. Em 2000, a companhia foi contratada pela Embraer para assessorá-la numa concorrência aberta pelo governo colombiano para a compra de aviões de combate. De acordo com Maria Juliana de La Vega, a fabricante brasileira venceu a licitação, em 2005, graças a um trabalho de lobby realizado por seu marido, o major aposentado Guillermo Garcia Gil, conhecido como Mayorca e bem relacionado no governo. O major era amigo do general Héctor Velasco, comandante da Força Aérea da Colômbia. Segundo a lobista, para garantir a vitória da Embraer, Mayorca, que morreu em 2005, teria distribuído 4 milhões de dólares em propina, tendo o general Velasco e o então ministro da Defesa e vice-presidente Gustavo Bell como os principais beneficiados.

Para tentar embasar as acusações, os advogados da lobista apresentaram um conjunto de documentos à Embraer aos quais VEJA teve acesso. Além de um contrato de prestação de serviços, há várias trocas de correspondência entre diretores das duas empresas. Os papéis não provam pagamento de propina às autoridades colombianas – nem que a atuação do lobista tenha sido decisiva para a compra dos aviões. Nas conversas dos executivos da Embraer, os lobistas falam em "contribuições políticas", "comissões" e "taxas políticas", termos que poderiam sugerir alguma ação menos ortodoxa. Nada mais do que isso. Mayorca foi contratado pela Embraer em 2000, depois de procurar a companhia e narrar as intenções do governo colombiano. "Ficou claro que ele tinha um acesso político privilegiado e poderia ajudar na venda", explica Eduardo Munhós, executivo responsável, ao tempo do episódio, pela diretoria internacional da Embraer. Pelo acordo, Mayorca receberia 8% do valor da venda. O executivo diz que a tal "contribuição política" fazia parte do trabalho legal de lobby, como a montagem de um escritório e jantares de representação. Nada a ver com suborno de funcionários.

Em um relatório datado de 2 de novembro de 2001, endereçado ao executivo da Embraer Eduardo Munhós, o lobista lembra que, durante as negociações entre as duas partes, ficou acertado que ele "desenvolveria a representação com 8 (%), restando estabelecido que vocês (Embraer) reservariam 2 (%) para o manejo da parte política, tão importante neste tipo de negócio". O lobista afirma no mesmo relatório que combinara os "acertos" diretamente com "Superfuente", codinome dado ao vice-presidente Gustavo Bell. Munhós respondeu apenas que o valor da comissão prometido já era "bastante elevado" e que temia estar perdendo o "controle das variáveis em jogo". Também recorrendo a codinomes, Munhós mostrou-se apreensivo: "Nos preocupa muito que Condor 6 (o general Héctor Velasco), nosso aliado mais forte, tenha, aparentemente, se virado para outros campos".

  Suzanne Plunkett
SUPERFUENTE
Munhós e Bell (à direita): o lobby foi legal, sem suborno


Clique para ampliar


Meses depois, em outro documento enviado à Embraer, o lobista renovou seu pedido de "aumento de comissão" – e mais uma vez demonstrou sua influência junto ao governo colombiano. Mayorca anexou um ofício assinado pelo general Velasco, o Condor 6, com data futura, reiterando ao ministro da Defesa a "urgente necessidade" de conseguir o dinheiro para a licitação. Escreveu o lobista: "Isto é o que chamamos no jargão de inteligência de ‘informação marcada’; por conseguinte, peço o grande favor de que destrua este texto uma vez que o tenha lido e analisado, para que você se dê conta da grande cooperação que aporta este senhor ao nosso projeto". E concluiu: "A única coisa que pode levar esse projeto adiante, no curto tempo que nos resta, é a colaboração política". O lobista sublinhou a expressão "colaboração política".

A Embraer garante não ter fechado nenhum tipo de acordo adicional com o lobista – e, efetivamente, não existe prova disso. A empresa brasileira afirma ter rescindido o contrato por falta de resultados práticos. Mas pelo menos os contatos continuaram, conforme mostram os documentos. Logo após a posse do presidente Álvaro Uribe, em 2002, o lobista comemorou a decisão do governo de manter o comandante da Força Aérea. Escreveu Mayorca à Embraer: "A nave segue seu rumo, com capitão a bordo, com o norte indicado". Segundo a viúva do lobista, para evitar problemas com o novo governo, o contrato entre a Embraer e a Eximco, já alvo de denúncias de irregularidades, passou a ser informal. "A contratação de profissionais ou empresas para a promoção de vendas de produtos de defesa constitui prática de mercado prevista na legislação de inúmeros países, inclusive a Colômbia. Informações contratuais específicas são sujeitas a cláusulas de confidencialidade e não serão comentadas pela Embraer", diz uma nota da companhia.

Reuters
INIMIGA ÍNTIMA
A francesa Christine Deviers: amante e protagonista de escândalo internacional envolvendo o comércio de armamentos


O episódio envolvendo a Embraer com os colombianos tem alguma relevância – e pode virar-se agora contra a imagem da empresa de forma desproporcionalmente injusta – por uma razão básica: o comércio mundial de armas e equipamentos militares é sempre eivado de suspeitas. Na França, Christine Deviers-Joncour, amante de um ministro do governo François Mitterrand, recebeu 10 milhões de dólares para convencer o parceiro a autorizar a venda superfaturada de fragatas francesas a Taiwan. No Japão, o ex-vice-ministro da Defesa Takemasa Moriya admitiu ter recebido propina de uma fornecedora de material militar. No fim do ano passado, VEJA procurou Maria Juliana de La Vega, que mora na Espanha. Por meio do advogado Raul Canal, a lobista confirmou a denúncia e disse que viria ao Brasil conceder uma entrevista. Na data marcada, ela não apareceu e mandou avisar que fora procurada por um emissário da Embraer, que teria se comprometido a pagar a dívida. A Embraer nega a existência de qualquer acordo e garante que estuda processar a lobista colombiana.

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Sarney se compromete com tudo e com todos

ESTRATÉGIA INFALÍVEL

Prometendo tudo a todos, o senador José Sarney
consegue a proeza de unir até o governo contra a
candidatura do petista Tião Viana e se transforma em
favorito na disputa pela presidência do Congresso


Otávio Cabral

Fotos Sergio Dutti/AE e Ricardo Marques/Folha Imagem
PELO COMANDO
O peemedebista José Sarney e o petista Tião Viana têm
plataformas de campanha diferentes. Viana (no alto) prega
a moralização do Parlamento, enquanto Sarney prioriza a distribuição de cargos e vantagens aos parlamentares.
Na Câmara, a eleição do deputado Michel Temer (à esq.),
tida como certa, pode ser afetada pela disputa no Senado

O senador Tião Viana, do PT do Acre, acreditava que o apoio do presidente da República, sua biografia e as elogiáveis propostas de moralização do Parlamento seriam suficientes para convencer os colegas de que seu nome era o que havia de melhor para presidir o Congresso. A política, porém, não se move apenas por virtudes. Há interesses gigantescos, alguns inconfessáveis, a maioria infelizmente direcionada ao fisiologismo. Na semana passada, o senador José Sarney apresentou-se como candidato do PMDB e, mantida a lógica, assumirá nesta segunda-feira o comando do Senado. Sarney fez uma campanha de bastidores usando a mesma fórmula que marcou sua trajetória ao longo de mais de meio século de política. Prometeu cargos aos que não têm, assumiu o compromisso de manter os cargos dos que já têm, garantiu um ambiente de tranquilidade ao governo e, ao mesmo tempo, assegurou à oposição que será um presidente independente, como se isso tudo fosse possível.

Em novembro do ano passado, Tião Viana procurou Sarney e pediu apoio. "Conte comigo", respondeu o senador, que já estava costurando sua candidatura com a ajuda de Renan Calheiros, um de seus principais discípulos na política e que dispensa maiores apresentações. E tome promessas. O DEM, que flertava com Tião Viana, foi o primeiro a fechar com Sarney, após a garantia de que continuará comandando a primeira-secretaria, responsável pela administração de um orçamento anual de 2 bilhões de reais e epicentro de uma série de escândalos de corrupção. O PSDB chegou a piscar diante da proposta de assumir a primeira-vice-presidência, a quarta-secretaria e a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos. Adversário histórico de Sarney, até o senador Fernando Collor prometeu entregar seu voto e o de mais seis petebistas em troca do comando da Comissão de Relações Exteriores. O PR, partido com quatro senadores, obteve o compromisso mais prosaico: a troca da frota de carros oficiais, hoje composta de Fiat Marea da década de 90.

No atacado, Sarney garantiu ainda que não mexerá na estrutura do Conselho de Ética – uma promessa que agrada em cheio a um colégio eleitoral no qual um quarto de seus membros responde a processos. O senador também avisou a Dilma Rousseff que a apoiará na sucessão de Lula, ao mesmo tempo em que falou a José Serra, o provável candidato tucano, que não tem nada contra ele e que ainda está indeciso sobre os rumos que tomará em 2010. Foram tantas promessas que elas acabaram se sobrepondo e criando um incidente. Na quinta-feira passada, depois de anunciarem o apoio a Sarney, os tucanos voltaram atrás e se alinharam ao petista Tião Viana. Descobriram que os cargos prometidos ao partido entraram em negociações com outras bancadas. A confusão, que pode acabar criando dificuldades para o PMDB na Câmara, onde o deputado Michel Temer tinha uma eleição tranquila, expõe o nível de preocupação institucional que orienta as decisões de uma boa parte dos nossos políticos. Caso Sarney confirme seu favoritismo, os petistas ameaçam trair Temer em benefício de Ciro Nogueira, do PP. Ciro é afilhado político de Severino Cavalcanti, que renunciou ao ser apanhado em negociações nada institucionais. Solução no Senado, problema na Câmara.

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O fim do terceiro mandato

FANTASMA EXORCIZADO

Para não constranger a ministra Dilma Rousseff, o
presidente Lula pede a deputado que desista da emenda
que cria a possibilidade de um terceiro mandato


Expedito Filho

EM CAMPANHA
Escolhida como candidata do governo à Presidência, Dilma Rousseff já está montando equipe para 2010

O presidente Lula deu mais uma prova de que a candidata do PT à Presidência da República no próximo ano será mesmo a ministra Dilma Rousseff. E não foi uma prova qualquer. A alta popularidade do governo sempre foi usada por alguns petistas amalucados como argumento sólido para tentar mudar a Constituição e criar a possibilidade de um terceiro mandato para Lula. O autor oficial da proposta, o deputado Devanir Ribeiro, do PT de São Paulo, amigo e compadre do presidente, articulou durante quase dois anos a apresentação de uma emenda que previa, entre outras coisas, a convocação de um plebiscito sobre o tema. O parlamentar anunciou que finalmente desistiu da ideia. Vai comunicar sua decisão ao partido e, o mais significativo, fará isso atendendo a um pedido direto de Lula. "O presidente não quer a re-reeleição, a proposta não tem o apoio da sociedade e o PT já tem um candidato", explica Devanir, que esteve com Lula no fim do ano passado, no Palácio do Planalto, convocado exclusivamente para discutir o assunto. O presidente, segundo o deputado, foi taxativo: disse que está cansado, que oito anos de mandato é tempo suficiente e a alternância de poder é importante para a democracia.

Andre Dusek/AE
NÃO COLOU Devanir Ribeiro:
"O presidente não quer o terceiro mandato"


Lula bem que poderia ter chamado Devanir Ribeiro em 2007, quando o deputado anunciou sua proposta, e encerrado a discussão, revelando antes o agora propalado apreço à democracia. Como não o fez, ficou a impressão de que a proposta era uma espécie de curinga a ser sacado de acordo com a conveniência política. Agora, para não criar constrangimentos à candidatura de Dilma Rousseff, o presidente chamou o deputado e lhe pediu que esquecesse o assunto. "Eu vou avisar ao PT que o presidente não quer o terceiro mandato e que eu retiro as minhas propostas", disse Devanir. Na próxima semana, Lula dará posse ao ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, do PT, como ministro responsável pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico Social. O cargo é apenas um pretexto para trazê-lo a Brasília. O conselho, que teve alguma relevância no início da era Lula, está esvaziado e hoje é comandado pelo ministro das Relações Institucionais, José Múcio. A verdadeira missão de Pimentel será coordenar a campanha presidencial de Dilma. Ele será o braço-direito da candidata, exercendo na primeira fase da campanha uma fusão das funções que José Dirceu e Antonio Palocci tiveram na eleição de Lula, em 2002. A democracia funciona assim.

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O PT, finalmente, expulsa Babu

Já vai tarde

O PT resolve expulsar o encrencado
deputado estadual Jorge Babu, do Rio de Janeiro


Ronaldo Soares

Fotos Marcos d'Paula/AE e Fernando Souza/JB
MILÍCIA E POLÍTICA
Babu e a vereadora Carminha Jerominho (PTdoB): eles continuam a elaborar leis

O deputado estadual Jorge Babu, do PT do Rio de Janeiro, tem uma ruidosa trajetória de fora-da-lei e construiu uma carreira vitoriosa na política. Policial civil, elegeu-se duas vezes como vereador – em 2000 e 2004 – e, em 2006, para a Assembleia Legislativa do estado. A estirpe Babu continua representada na Câmara por Elton, irmão de Jorge, eleito no ano passado, também pelo PT. A ficha corrida de Jorge Babu inclui uma prisão em 2004, numa quadra de briga de galos, junto com o publicitário Duda Mendonça. Dois anos depois, ele foi denunciado pelo Ministério Público, acusado de integrar uma quadrilha que extorquia comerciantes. E, desde o início do ano, responde a processo em que é apontado como chefe de uma milícia que achaca moradores e explora clandestinamente serviços como venda de gás e TV a cabo na Zona Oeste, seu reduto eleitoral. Apesar desse histórico, somente na semana passada o PT resolveu expulsá-lo. Ele ainda pode recorrer.

Na definição do MP, Babu e seu bando são "indivíduos extremamente perigosos". Mas foi preciso que a iniciativa de expulsá-lo partisse da Executiva Nacional: até este mês, a maior punição imposta pelo diretório regional petista fora um afastamento por sessenta dias. O motivo para a vista grossa vai além da figura intimidadora de Babu, que circula com meia dúzia de capangas a tiracolo. "É impensável que alguém como ele pudesse ser candidato a alguma coisa, mas acordos com grupos de dentro do próprio PT, interessados no apoio dele na Zona Oeste, permitiram isso", diz o deputado federal petista Antonio Carlos Biscaia, que pediu a expulsão de Babu. Na avaliação do cientista político Gláucio Soares, o gesto do PT reflete uma mudança no jogo de interesse dos partidos com bandidos que dominam currais eleitorais no Rio. "Somente depois de repetidos episódios de violência envolvendo milícias passou a ser inconveniente para os partidos ter gente ligada a esses grupos", diz Soares.

O caso de Babu é apenas um dos exemplos de como o banditismo se infiltrou na política fluminense. Há políticos presos, como o ex-deputado Natalino Guimarães e seu irmão, o ex-vereador Jerominho, apontados como chefes de uma milícia. E outros que acabam de tomar posse na Câmara de Vereadores, mesmo acusados de ligação com milicianos, como Carminha Jerominho (PTdoB) – que estava presa quando foi eleita – e Cristiano Girão (PMN). Como se vê, a limpeza ainda deixa muito a desejar.

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A cartada de 819 bilhões de dólares de Obama

Tem mensagem para você

Com seu BlackBerry em aparente surto viral, Obama dispara
recados para todos os cantos. Nomeou enviado especial até
para o "aquecimento global" e aprovou um pacotaço de 819
bilhões de dólares, dinheiro para sacudir a poeira da economia.
É sua grande cartada contra a recessão


André Petry, de Nova York

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Quadro: De bilhão em bilhão

Barack Obama é o primeiro presidente dos Estados Unidos, e talvez seja um dos primeiros do mundo, a assumir seu posto com um vício cibernético: o BlackBerry, celular no qual ele checa as notícias da hora, o resultado dos jogos de basquete e confere e despacha e-mails. O uso do aparelho estava proibido, por razões de segurança, mas Obama começou a protestar contra o veto mesmo antes da posse. Esperneou tanto que ganhou. Usa uma versão especial, só um grupo restrito tem seu endereço eletrônico e seus e-mails não podem ser encaminhados a terceiros – um programa bloqueia o reenvio. Com seu aparelho na mão esquerda, Obama, que é canhoto, cumpre uma das promessas de campanha: a de imprimir, ou pelo menos parecer imprimir, um extraordinário dinamismo no governo. "Temos de nos levantar e sacudir a poeira", conclamou ele, no discurso de posse. Na semana passada, tal qual um BlackBerry em pane viral, Obama disparou mensagens para todos os lados. Na política externa, despachou enviados especiais para o Irã, para a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, para o conflito no Oriente Médio e nomeou até um "enviado especial para o aquecimento global", Todd Stern. Ficou no ar a piada: o sujeito vai para onde? Detroit? Kioto? Mercúrio?

É no combate à crise, porém, que o novo presidente vem concentrando a maior parte de seu ativismo. Na quarta-feira passada, a Câmara dos Deputados aprovou seu pacotaço de 819 bilhões de dólares – quantia equivalente ao PIB do México –, um dos maiores pacotes da história. É a tentativa bilionária de sacudir a poeira da economia americana. As bolsas fecharam em alta, de Nova York a Frankfurt, de Tóquio a São Paulo, mas o entusiasmo decorreu menos da aprovação do pacote e mais de notícias segundo as quais o governo americano estuda criar uma instituição financeira para abrigar toda a papelada podre dos bancos, desintoxicando o mercado. Dois dias antes da aprovação do pacote, grandes empresas americanas cortaram, num único dia, 55 000 empregos. E, um dia depois, soube-se que a economia americana afundou 3,8% do PIB nos últimos três meses do ano passado. Havia quase trinta anos que não encolhia tanto em tão pouco tempo. Em 1982, quando caiu 6,4%, o Federal Reserve, banco central americano, reagiu com um instrumento clássico da política monetária: cortou a taxa de juros e, com isso, estimulou a economia. Agora, essa arma está descarregada. A taxa de juros já desceu a quase zero, e a economia segue boiando na pasmaceira.

Com seu pacote bilionário descrito em 647 páginas, Obama, aqui também, despacha mensagens para todos os cantos. Tem dinheiro para desempregado se manter, dinheiro para famílias de baixa renda reforçarem as compras no supermercado, dinheiro para empreiteiro construir novas estradas e para governadores evitarem novos cortes de gastos. A ordem é gastar. Dos 819 bilhões, cerca de um terço, 275 bilhões de dólares, vem da redução de imposto – cada americano empregado receberá de volta 500 dólares por ano, durante dois anos, ou 1 000 dólares por família. O corte de imposto é o principal mecanismo do pacote para ativar a economia o mais rápido possível. Estima-se que os primeiros sinais, no entanto, só serão sentidos em abril, e assim mesmo deverão vir da ajuda financeira destinada aos desempregados, e não aos cidadãos que estarão recebendo restituição. Em geral, as pessoas empregadas tendem a receber restituição e colocar o dinheiro na poupança ou pagar dívidas. Em fevereiro do ano passado, quando o Congresso aprovou um pacote fiscal com restituição de 168 bilhões de dólares para estimular a economia, mais de 80% do dinheiro acabou na poupança ou no abatimento de dívidas.

Fotos Mandel Ngan/AFP e Doug Mills/The New York Times
O HOMEM DO PACOTE DUPLO
Geithner e o antecessor, Henry Paulson (na foto menor): administrando dois pacotes que somam quase 1,2 trilhão de dólares

"Como um economista conservador, eu deveria ser contra pacotes de estímulo como esse", escreveu o economista Martin Feldstein, professor de Harvard e ex-conselheiro econômico de Ronald Reagan. "Mas estou de acordo com um pacote de estímulo, porque a recessão de agora é mais profunda e diversa das contrações anteriores." Há consenso entre economistas de todas as linhas, democratas e republicanos, de que é hora de gastar, mesmo à custa de abrir uma cratera de déficit público. As divergências, porém, começam em seguida: gastar como e com quê? O secretário do Tesouro, Tim Geithner, que comandará a aplicação do pacotaço, aposta que o desenho do estímulo fiscal é bom, seu efeito será positivo e o dinheiro está sendo bem distribuído. Feldstein, no entanto, saiu-se com um diagnóstico devastador do pacote já no dia seguinte à aprovação. "É um erro de 800 bilhões de dólares", escreveu. "Na sua forma atual, o pacote fiscal terá um impacto mínimo no aumento do consumo e na criação de empregos." Como o pacote aprovado na Câmara agora vai para o Senado, há tempo para corrigir o que tiver de errado. Mas, no campo político, em que pese toda a retórica de Obama sobre um governo suprapartidário, o consenso parece cada vez mais inalcançável.

Todos os 177 deputados republicanos votaram contra o pacote, sob a alegação de que o corte de impostos é muito tímido. Dos 255 democratas, onze engrossaram o voto da oposição. O pacote acabou aprovado, mas o placar de 100% de oposição republicana foi ruim, a tal ponto que o chefe-de-gabinete de Obama, o todo-poderoso Rahm Emanuel, teve de apelar à cantilena do pragmatismo, comum para quem ganha mas tem pouco a comemorar. "O mais importante para o plano de recuperação da economia é saber quantos empregos vai gerar, e não quantos votos teve", disse. O problema é que se sabe que teve 244 votos a favor e 188 contra, mas ninguém faz ideia do número de empregos que vai criar. Nem se os setores a ser estimulados são os que geram mais postos de trabalho e mais rapidamente. No ano passado, os Estados Unidos perderam 2,6 milhões de empregos. Se o estímulo à atividade econômica não for poderoso, esse número ficará no horizonte. Como a crise vem se agigantando, a taxa de desemprego tende a subir ainda mais. Os economistas torcem para que não termine 2009 nas alturas de 10%, mas ninguém aposta que não chegará lá.

A crise tem dois flancos. De um lado, está o estouro da bolha imobiliária, que vem se desenhando há tempos e explodiu o mercado financeiro em setembro do ano passado, quando ficou claro que as maiores instituições financeiras estavam contaminadas com hipotecas que não valiam um tostão. De outro, está a recessão econômica, que se aprofunda a cada dia. Naturalmente, são coisas ligadas, mas que vêm recebendo tratamento em separado. Em seu pacote de outubro passado, de 700 bilhões de dólares, o então secretário do Tesouro, Henry Paulson, concentrou-se em salvar os bancos e desentupir o mercado de crédito. Atacou as causas imediatas do estouro da bolha imobiliária. Com isso, Paulson evitou uma quebradeira bancária e uma desordem mundial, mas o crédito seguiu congelado – como está até hoje. Agora, o pacote de Geithner tenta reanimar a economia para reduzir o impacto da recessão. Nada será resolvido, no entanto, se a bolha imobiliária seguir boiando, depreciando continuamente o valor dos imóveis e transformando as hipotecas em papéis podres. Como o pacote de Paulson só gastou metade do dinheiro, os 350 bilhões que restam serão usados para segurar os bancos e os imóveis.

A matemática dos bilhões fez com que o secretário Tim Geithner tenha assumido seu posto já na condição de administrador de 819 bilhões de dólares contra a recessão e mais 350 bilhões contra a bolha imobiliária. Dos 350 bilhões, especula-se que entre 50 bilhões e 100 bilhões de dólares serão destinados a ajudar os americanos que estão perdendo a casa própria com a execução de hipoteca. A sobra, em torno de 250 bilhões, ficará à disposição para ajudar os bancos, que seguem fazendo lobby junto ao governo por mais ajuda. Somando tudo, Geithner está comandando um socorro colossal, de quase 1,2 trilhão de dólares. É um Brasil em forma de pacote. O mundo inteiro espera que dê certo, mas, olhando lá na frente, já tem fantasma: como os Estados Unidos, agora gastando 1,2 trilhão, vão lidar com o estratosférico déficit público que daí resultará quando o pacote terminar, daqui a dois anos? Se o governo americano ficar tomando emprestado para cobrir o rombo, já se teme que acabe provocando o aumento da inflação e dos juros pelo mundo afora. Agora, porém, as mensagens do presidente Obama, para dentro e para fora de suas fronteiras, nada dizem sobre isso. É crise demais para um BlackBerry só.



Fotos Charles Dharapak/AP, Matty Stern/AP, David Brody/Landov/UPI Photo, Divulgação e Jae C. Hong/AP

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Investimentos Pé no freio atinge muitos projetos

Não saiu do papel

Retração da economia e seca no crédito mundial fazem
empresas cancelar projetos de investimento no Brasil


Benedito Sverberi e Cíntia Borsato

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• 

Quadro: Faltou dinheiro

O ritmo dos investimentos representa um indicador vital da perspectiva de um país crescer continuamente. É graças ao aumento na capacidade de fabricar mais mercadorias e aos ganhos de produtividade que uma economia consegue avançar, a longo prazo, de maneira sólida e sem inflação. Foi justamente a retomada dos investimentos, com uma expansão superior a 10% nos últimos dois anos, que permitiu a aceleração do crescimento brasileiro. Uma fração expressiva dos recursos aplicados em novos projetos, no entanto, foi financiada com dinheiro externo. Apenas em 2008 o Brasil recebeu 45 bilhões de dólares na forma de investimentos estrangeiros diretos, um recorde. Mas, depois que a crise financeira secou as linhas de crédito internacionais, os empreendedores passaram a ter dificuldades em encontrar os recursos para retirar da gaveta seus projetos. Desde outubro, várias empresas anunciaram o cancelamento de grandes obras, e uma série de outros planos ficará em banho-maria até que a economia mundial recupere seu passo.

Projetos bilionários anunciados com pompa no ano passado, a maior parte deles na área de commodities como minérios e aço, não sairão do papel tão cedo. Em praticamente todas as empresas, a palavra de ordem é cautela. Assim, inevitavelmente, a taxa de expansão dos investimentos recuará em 2009, diminuindo para algo em torno de 3%, preveem os analistas. Mais um sinal de que a economia no Brasil sofrerá uma freada forte neste ano. A Vale, por exemplo, anunciou recentemente o cancelamento da construção da Companhia Siderúrgica Vitória, orçada em 5 bilhões de dólares. A companhia de mineração informou ter acatado uma determinação do sócio majoritário no projeto, o grupo chinês Baosteel. Com a decisão, o país deixará de ganhar uma capacidade anual de 5 milhões de toneladas de placas de aço e 3 000 empregos não serão mais criados. A justificativa é que, como a maior parte da produção seria destinada ao exterior, o projeto deixou de ser atrativo neste momento.

O primeiro entre os grandes projetos suspensos, pelo menos por ora, em razão da virada na conjuntura externa foi o Porto Brasil, em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo, abortado em outubro do ano passado. Trata-se de um empreendimento grandioso da LLX Logística, do empresário Eike Batista, que englobaria uma ilha artificial de 500.000 metros quadrados. Com a revogação, o país perde (ou ao menos adia) uma obra de infraestrutura que, quando pronta, terá capacidade de movimentar 50 milhões de toneladas por ano – cerca de 60% do volume no Porto de Santos. Outro setor bastante afetado pela crise foi o de produção de etanol e açúcar. Foram canceladas as obras de construção de duas dezenas de usinas, num valor total de 2 bilhões de dólares. Sentiram o impacto da crise também investimentos em celulose, petróleo e produção de carros (veja o quadro). Afirma o economista Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e sócio da Gávea Investimentos: "O Brasil não está isolado do mundo. É claro que sofrerá consequências, ainda que existam fatores que nos ajudam bastante, como o fato de nosso sistema financeiro estar intacto. Mas haverá uma retração forte tanto no comércio internacional quanto nos fluxos de capitais estrangeiros".

Fotos Marcio Fernandes/AE e Filipe Araujo/AE

O DRAMA DO EMPREGO A americana Caterpillar cortou 20 000 vagas no mundo, sendo 380 postos na unidade do Brasil (à esq.); ao lado, operários aprovam a redução da jornada na ƒábrica de autopeças Valeo

Mas nem todos os grandes projetos de investimentos foram atingidos. Obras importantes não apenas seguem de pé como deverão ficar prontas dentro do cronograma. Esse é o caso da Companhia Siderúrgica do Atlântico, um empreendimento liderado pelo grupo alemão ThyssenKrupp, no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estão sendo investidos ali 6 bilhões de dólares. Trabalham atualmente 22 000 pessoas no canteiro de obras do complexo, e a empresa tem contratado 100 pessoas por mês para fazer parte do time de 3 500 funcionários que serão necessários para a operação da usina de aço quando ela estiver pronta, no fim do ano. Já a montadora japonesa Toyota manteve seus planos de erguer uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo, apesar de a matriz ter decidido suspender projetos similares em outros países. Orçada em 1,2 bilhão de reais, a unidade produzirá a partir de 2011 cerca de 150 000 veículos ao ano, criando 5 000 empregos. A Petrobras, por sua vez, teve de deixar de lado alguns projetos, como a encomenda das plataformas P-61 e P-63. Mas a companhia decidiu ampliar, como um todo, seus planos de investimentos para os próximos cinco anos, que deverão totalizar 174 bilhões de dólares no período. A incógnita, aqui, é se a empresa conseguirá ter acesso ao financiamento internacional necessário à viabilização de suas metas, porque nem mesmo o previsto aumento de desembolsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) será suficiente para fazer frente a esse plano ambicioso.

De qualquer maneira, o cancelamento de projetos e a desaceleração do aumento no consumo farão com que a economia brasileira cresça numa velocidade mais lenta em 2009. Um dos reflexos dessa realidade começa a ser sentido com mais intensidade no mercado de trabalho. Recentemente, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, informou que 655.000 vagas com carteira assinada foram fechadas em dezembro, o pior número desde 1999, quando o levantamento passou a ser feito. O setor mais afetado foi a indústria, que perdeu mais de 270.000 postos. Em seguida, vieram a agropecuária e a construção civil. "Os resultados negativos revelam uma queda nas contratações e também que poucos empregos temporários, tipicamente criados no fim do ano, foram efetivados", afirma Fábio Romão, da LCA Consultores. Uma pesquisa do economista faz uma análise das perspectivas para o emprego em 2009. Pelas projeções do analista, alguns dos setores que deverão continuar fechando vagas são os de mobiliário, calçados e construção civil. A saída, para certas empresas, tem sido negociar com os funcionários a redução temporária da jornada e dos salários, um mal menor diante da necessidade de ajuste aos novos tempos.

Uma maneira eficiente de o governo atenuar os efeitos internos da tragédia financeira que acontece lá fora seria incentivar os investimentos – não torrando dinheiro público, e sim reduzindo a burocracia e diminuindo o chamado custo Brasil. O país segue como um dos mais fechados do mundo e oferece um dos piores ambientes institucionais para fazer negócios. Até 2008, a despeito desses entraves, a economia brasileira conseguiu atrair níveis inéditos de investimentos internacionais. Mas isso é passado. A bolha financeira estourou, e os capitais tornaram-se escassos. A partir de agora, o jogo entra em uma nova fase, mais difícil e competitiva. Os recursos disponíveis serão disputados acirradamente. Ganharão aqueles países que apresentarem as melhores chances de rentabilidade. Em meio a essa disputa, no entanto, o governo transmitiu uma mensagem extremamente negativa na semana passada ao adotar uma norma protecionista e anacrônica, destinada a restringir as importações. Essa medida acabou suspensa por ordem do presidente Lula (leia a Carta ao Leitor, na pág. 14), mas não sem deixar um clima de insegurança entre as empresas. Não será com medidas retrógradas assim que os projetos de desenvolvimento voltarão a sair do papel.

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Davos O novo fórum social

O FÓRUM SOCIAL DE DAVOS

O espírito do velho Karl Marx deveria ter ido a Belém
cantar para Che Guevara junto com Chávez, mas
preferiu a Suíça, onde o capitalismo foi mais atacado

Montagem sobre foto Virginia Mayo/AP e Alfredo Dagli Orti/Corbis/Latinstock

UM ESPECTRO Marx aparece nesta montagem pairando sobre debatedores
em Davos, onde o "modelo" e o "sistema" foram os vilões

Diz a lenda que uma vez por ano Karl Marx recebe autorização para abandonar sua tumba no cemitério de Highgate, em Londres, onde ele desde 1883 descansa – se é que comunista descansa –, para participar do Fórum Social. Neste ano seu destino natural seria Belém, no estado brasileiro do Pará. Ele até chegou a dar as caras, mas por ali não encontrou nada muito parecido com o que esperava das classes trabalhadoras. Viu alguns índios e seus líderes invocando entidades incorpóreas que regeriam a vida em um continente chamado Abya Yala, como é politicamente correto se referir na língua indígena kuna ao que conhecemos como América Latina. Pensou em ficar um pouco mais quando o presidente brasileiro Lula chegou ao microfone. Finalmente, alguém mais sério. "Deus escreve certo por linhas tortas, porque o deus mercado quebrou", decretou Lula.

Foi a gota d’água para o velho Karl. Lula também estava mais para fenomenologia do espírito do que para o materialismo histórico. Pegou as malas mas, antes de voltar a Highgate, decidiu ver o que seus tradicionais detratores, os altos dirigentes das democracias capitalistas ocidentais, líderes de empresas e seus agregados nas artes e na academia, estavam discutindo na suíça Davos, na versão 2009 do Fórum Econômico Mundial, sob a temática geral "Dando forma ao mundo pós-crise". Ali, sim, tinha gente articulada, brandindo dados e pondo a culpa da crise econômica no "sistema capitalista". A socialização das falhas que levaram à atual crise financeira mundial – uma das mais, se não a mais, severas e complexas da história contemporânea – foi a tônica em Davos. Ninguém pode ser apontado como culpado. Nem George W. Bush nem Alan Greenspan, o mago do banco central americano que se transformou em bruxo ao reconhecer, candidamente, que ficou "chocado" ao descobrir que os bancos estavam emprestando fortunas a quem assumidamente não podia nem pretendia pagar. Nada de nomes. O culpado é o sistema. Um espectro ronda a Europa e o mundo. Trabalhadores do mundo, unam-se. Tudo que vocês têm a perder é o crédito. Mas, se ele secou para todos, empresas, governos e os próprios bancos, qual é o grande problema? Resumiu Bill Gates, o terceiro homem mais rico do mundo, mais uma vez estrela em Davos: "Acho que nunca acharemos um culpado, um vilão para quem possamos apontar e dizer: Aha... ele fez toda a lambança".

Harry Truman, o 33º presidente dos Estados Unidos, dizia que para um estadista não existem novidades, "mas capítulos da história dos grandes homens que ele não leu". Pois o que mais faltou em Davos foram justamente coragem e lucidez para dar nome aos bois, dizer quem errou, por que errou e como evitar que esse mesmo tipo de gente volte a ter poder de decisão. De modo geral, os conferencistas e panelistas adotaram a visão tão cara aos marxistas de ver as falhas incontornáveis sistêmicas do "modelo" e do "mercado". Teria sido bem mais interessante se cada participante, para obter inscrição em Davos, fosse obrigado a escrever um ensaio sobre "O que EU fiz de errado que ajudou a nos colocar nessa encrenca". Antes de voltar para casa, seria uma boa ideia cobrar deles também um depoimento de despedida com o tema "O que EU farei para que a crise seja menos cruel do que se anuncia e não mais se repita". Como o EU sumiu de Davos, a visão sistêmica e coletivista do determinismo histórico marxista se instalou, mesmo que pouca gente tenha se dado conta disso.

Alguém poderia ter tido a lucidez de lembrar duas coisas que adiantariam muito os debates. Primeiro, a crise atual não foi prevista por Marx. Nem em sonho ele poderia ter imaginado o estágio de desenvolvimento e complexidade que os mecanismos de crédito atingiriam nestes primeiros anos do século XXI. Marx achava que o capitalismo encontraria seu fim ao cabo de cada vez mais fortes crises recessivas clássicas – aquelas ocasionadas por excesso de produção e falta de demanda, com a crescente insatisfação dos proletários produzindo a energia revolucionária para que se passasse de forma violenta ao comunismo. Nenhuma dessas condições está presente na atual crise. O que se observa é o estouro de uma bolha financeira que atingiu em primeiro lugar os ricos e a classe média investidora, com a evaporação de 10 trilhões de dólares em riqueza das famílias só nos Estados Unidos. Segundo, as contradições e injustiças que embalaram politicamente as teorias de Karl Marx na Europa da segunda metade do século XIX e por quase todo o século XX praticamente não existem mais nos países avançados e foram minoradas em quase todo o mundo. O capitalismo deu condições extraordinárias de habitação, saúde, conforto e aposentadoria a milhões de habitantes de países onde se instalou. Só nos anos que antecederam a crise atual, tirou da miséria centenas de milhões de famílias no Brasil, China e Índia. É esse progresso que está sendo colocado em risco pela corrente de destruição de riqueza deflagrada pela crise financeira. Foram necessários grandes homens e grandes mulheres para chegar até esse estágio de progresso. É de indivíduos formidáveis, e não de críticas ao "sistema capitalista" emanadas do cemitério de Highgate, que virá a solução para impedir que a crise destrua tudo o que se conquistou e para avançar ainda mais.

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Especial Robinho: dinheiro, fama e confusão

POR QUE ELES
NÃO CRESCEM?

A acusação de ter cometido agressão sexual em uma boate
da Inglaterra revela a face imatura de Robinho – a mesma
de outros atletas que saltaram da pobreza para o estrelato


Thaís Oyama, de Manchester, e Fábio Portela

Nigel Roadis/Reuters
UMA FALTA PERIGOSA
Os tabloides sensacionalistas ingleses estão fazendo a festa com a falta de comportamento adequado de Robinho. Ao contrário dele, a moça que o acusa não quer sair do imbróglio chupando o dedo

Talento precoce do Santos, galáctico do Real Madrid e atual detentor do título de jogador mais caro do mundo no Manchester City, o atacante Robson de Souza, o Robinho, de 25 anos, é sempre lembrado por seu futebol alegre. Em campo, inventa dribles, cria malabarismos e apresenta comemorações inusitadas para seus gols. Quando está jogando, parece um menino, o que nos gramados é das suas maiores qualidades. Na semana passada, descobriu-se que – infelizmente – esse jeito de moleque não se restringe à bola. Depois que tira o uniforme, ele continua a se comportar como um adolescente sem freios. Essa face imatura de Robinho começou a ser revelada na última terça-feira, por uma acusação gravíssima: uma jovem inglesa de 18 anos diz ter sido agredida sexualmente por ele em uma boate de Leeds, cidade vizinha a Manchester, onde o jogador mora com a mulher e o filho. Robinho teve de ir a uma delegacia para se explicar e evitou a imprensa ao longo da semana. Sua vacilação ao comentar a acusação abertamente ajudou a apimentar o caso. Robinho decidiu se calar porque, de fato, trocou carícias íntimas com a moça durante uma noitada. Ele garante enfaticamente que tudo foi consensual, mas resiste tanto a dar detalhes sobre a relação quanto a admitir publicamente a aventura para não expor ainda mais Vivian Juns Guglielmetti, que conheceu aos 13 anos e com quem tem um filho.

A boate onde tudo ocorreu chama-se The Space e fica no centro do agito noturno de Leeds. Com tintas gastas e chapelaria empoeirada, oferece apenas três ambientes: uma pequena pista de dança iluminada de roxo por luzes estroboscópicas, um salão onde fica o bar e, em frente a ele, a área vip, isolada por uma corda de 1 metro e meio de comprimento. Foi lá que Robinho e um grupo de cinco amigos, entre eles o irmão de sua mulher e outro brasileiro, Jô, que joga com ele no Manchester City, consumiram dez garrafas de champanhe no último dia 14. A área vip é um recinto que comporta vinte pessoas, espremidas. Há dois sofás, duas mesas, um minibar e um banheiro. Como está dois degraus acima do salão do bar, oferece visão privilegiada do lugar. Quando Robinho e seus amigos chegaram, o The Space promovia a "noite dos estudantes", em que universitários têm desconto: pagam 6 libras, no lugar do preço cheio, 10 libras. O grupo entrou de graça, já que, além de ostentar o título de jogador mais caro do mundo, o brasileiro é freguês assíduo da casa. A partir daí, pessoas próximas ao brasileiro relatam a seguinte versão: por volta das 2 da manhã, Robinho chamou a tal moça, uma loira, que estava no piso de baixo, para juntar-se ao seu grupo na sala vip. Os dois começaram a se beijar e a se agarrar.

Paul Ellis/AFP
O PORTUGUÊS IMATURO
Cristiano Ronaldo, o melhor jogador do mundo, foi acusado de cometer estupro em 2005, mas o processo foi encerrado por falta de provas. Neste ano, ele espatifou uma Ferrari de 300 000 dólares


Depois de deixar a moça, Robinho diz que ela voltou a procurá-lo falando sobre dinheiro. Ele desconversou. Quando o brasileiro foi embora, a inglesa seguiu atrás dele dizendo: "Take me away with you" (Leve-me com você). De acordo com o DJ da casa, após a negativa, ela permaneceu na boate por mais uma hora. Alguns dias mais tarde, o jogador recebeu uma notificação da polícia inglesa informando que ele estava sendo investigado por crime sexual. Apavorado, abandonou a concentração de seu time – que estava treinando em Tenerife, na Espanha –, pegou um avião e voou para o Brasil. Teve medo de ser preso caso permanecesse na Europa, sem contar com advogados criminalistas. Só voltou à Inglaterra no domingo 25, quando já havia feito contato com Chris Nathaniel, um especialista em ajudar celebridades com problemas de imagem. A polícia queria ir até a casa de Robinho e levá-lo sob custódia à delegacia. Os advogados do jogador alegaram que isso causaria tumulto, por causa da imprensa, e que ele iria por sua conta na data marcada. Na terça 27, dia do depoimento, Robinho chegou à delegacia acompanhado de um advogado e do administrador de seus negócios, Bernardo Assunção. Foram usados dois Mercedes para despistar os jornalistas. O jogador dirigiu-se até a porta da delegacia – mas, ao atravessá-la, passou a ser escoltado por policiais. Manteve-se, assim, a formalidade da lei. Robinho não foi preso em nenhum momento, mas interrogado e liberado sob o compromisso de não deixar o país. Declarou ser inocente da acusação de "atentado sexual grave" – que, segundo a legislação penal inglesa, inclui "estupro e penetração não consentida, vaginal ou anal, feita com algum objeto ou parte do corpo". Robinho foi obrigado a fornecer material para um exame de DNA. A coleta foi feita com o uso de uma escova dental esfregada em sua gengiva. A realização do exame indica que a polícia encontrou sêmen no corpo ou na roupa da moça.

O jogador tem pelo menos dois elementos a seu favor. Primeiro: não há nenhum episódio de agressividade – muito menos sexual – em seu passado. "Ele jamais estupraria ou abusaria de alguém. Ele foi inocente com essa moça. A ‘maria chuteira’ inglesa fez tudo de caso pensado", diz Wagner Ribeiro, que foi empresário de Robinho durante sete anos. Segundo: o lugar onde tudo ocorreu tem uma fama péssima. VEJA ouviu frequentadores de diversos bares e clubes de Leeds e todos são unânimes: o The Space é reduto das "party girls" (garotas festeiras, na tradução literal, mas que sugere meninas vulgares). Das pessoas ouvidas pela reportagem, nenhuma conhece a suposta vítima do jogador, mas todas relataram um boato desfavorável a ela: depois de ter feito sexo com Robinho, teria sido aconselhada por uma amiga a vender a história para um tabloide sensacionalista, que a teria recusado. Proibidos de falar sobre o assunto, funcionários do The Space tratam o episódio com ironia. "Tudo o que posso dizer é que estava aqui naquela noite e não vi nenhuma menina sair chorando devastada", conta o porteiro do clube.

O constrangimento a que Robinho se expôs com a noitada em Leeds engrossa a lista de vexames protagonizados nos últimos tempos por jogadores brasileiros de sucesso. O envolvimento recorrente de atletas estrelados em episódios escandalosos tem uma explicação de fundo psicológico. Muitos deles não têm preparo emocional nem cultural para lidar com o mundo de dinheiro, sucesso e fama ao qual são apresentados quando vão viver na Europa. O problema origina-se, em geral, numa infância pobre tanto em termos materiais como de valores. Segundo a psicóloga Suzy Fleury, que já trabalhou com os atletas da seleção brasileira, muitos dos garotos que vão tentar a sorte nas categorias de base dos clubes contam com estruturas familiares frágeis. E os que se destacam logo deixam os estudos de lado. A família e a educação são fundamentais para formar a personalidade e a visão de mundo de qualquer pessoa. Quando há falhas nessas duas áreas, o resultado é um adulto despreparado para lidar, entre outras coisas, com a vertiginosa ascensão financeira e social que os jogadores de futebol experimentam no início da vida adulta. "O dinheiro e a fama criam armadilhas muito sedutoras para quem vem de uma condição precária em termos morais, intelectuais e emocionais na infância", explica Suzy.

Antonio Gauderio/Folha Imagem
CABEÇA NO FUTEBOL
Robinho, com 18 anos, virou um astro graças às suas pedaladas na final do Brasileiro de 2002. Fora do campo, teve poucas oportunidades para se desenvolver emocionalmente

Há muitos exemplos de jogadores que não conseguem amadurecer. Um dos mais vistosos é Ronaldo, o Fenômeno, que atualmente sua em bicas nos treinos do Corinthians para tentar entrar em forma. Entre 2002 e 2007, era o mais animado integrante do milionário elenco do Real Madrid na hora de organizar festinhas de embalo. Seus companheiros de noitadas eram o inglês David Beckham e o próprio Robinho. Eles não iam a boates: divertiam-se a cada semana na casa de um deles, sempre acompanhados por uma penca de beldades. Ronaldo nunca conseguiu emplacar um relacionamento duradouro. No ano passado, quando sua atual mulher, Bia Antony, estava grávida e ele dizia ter encontrado o equilíbrio, viveu a pior cena de sua vida. Foi parar em uma delegacia do Rio de Janeiro, acusado de dar um calote em três travestis com quem havia passado a noite. O trio ainda insinuou que ele havia consumido cocaína. Ronaldo se desculpou, foi perdoado pela mulher, mas não tomou jeito. Na semana passada, foi a uma boate cara em São Paulo. Encheu a cara, fumou a noite toda e tentou agarrar todas as moças que passaram pela sua frente. Às que recusavam ceder, indagava, trôpego: "Por que você não quer me beijar? Você não é corintiana, pô?".

Outro que levava uma vida desenfreada é Adriano, que em sua fase áurea chegou a ser chamado de Imperador pela torcida do Inter de Milão. Com o colega de equipe Maicon, ele se notabilizou por organizar verdadeiras orgias nos hotéis de luxo de Milão ao longo de 2006. A dupla tinha duas preferências: prostitutas brasileiras e suítes com piscinas grandes. As farras eram tão intensas que, no dia seguinte, as piscinas precisavam ser drenadas para limpar a imundice: uma mistura de latas de cerveja, camisinhas, sapatos e peças de roupa íntima. Adriano chegou à beira do alcoolismo. Declarou publicamente que precisava beber para conseguir dormir. Depois de um ano fora do Inter, o que incluiu um empréstimo ao São Paulo, Adriano está aprontando menos em Milão.

O talento para a encrenca não é exclusividade dos atletas brasileiros, obviamente. O português Cristiano Ronaldo, do Manchester United, é um ícone da imaturidade. Em 2005, foi preso, sob acusação de estupro. Pagou fiança e se livrou do processo por falta de provas. O caso, aliás, vem sendo usado pelos advogados de Robinho para mostrar que a Inglaterra está cheia de mulheres dispostas a fazer sexo com jogadores famosos e, em seguida, levantar acusações infundadas para tentar receber algum dinheiro. Cristiano Ronaldo se livrou do problema, mas no começo deste ano fez mais uma molecagem: arrebentou uma Ferrari de 300 000 dólares em um túnel. Os americanos Kobe Bryant, astro da liga americana de basquete, e Mike Tyson, um dos maiores boxeadores da história, também engrossam a lista dos atletas imaturos.

Quase todos seguiram o mesmo roteiro, da infância pobre, em meio a uma família pouco estruturada, ao estrelato e à fortuna repentinos. Essa é a história de vida de Robinho. Ele nasceu em 1984, no município de São Vicente, no litoral de São Paulo. A família era paupérrima. O pai, Gilvam, trabalhava na manutenção de tubulações de esgoto e costumava exagerar na bebida. A mãe, Marina, era faxineira. Os dois sempre tiveram uma vida conjugal acidentada. Hoje, embora sigam casados, ele mora no Guarujá, em São Paulo, e ela passa a maior parte do tempo em Salvador, na Bahia.

Robinho cresceu jogando bola nas ruas. Aos 7 anos, seus dribles lhe renderam uma vaga para jogar futebol de salão no Esporte Clube Beira-Mar. Treinava em troca do lanche diário. Ele costumava assistir ao exercício das crianças mais velhas apenas para entrar na fila do sanduíche mais uma vez. Seu primeiro empresário entregava cestas básicas à sua família. A vida começou a mudar quando chegou às categorias de base do Santos, onde se tornou profissional em 2002. Passou a ganhar 1 000 reais por mês. Na temporada de estreia pela categoria profissional, com apenas 18 anos, foi uma das estrelas do time que venceu o Campeonato Brasileiro. Pouco antes do título, seu salário passou para 25 000 reais. Valor que seria multiplicado por dez antes de ele deixar o clube, em 2005.

A taça do Brasileiro – e as pedaladas que fez sobre a bola no jogo final, contra o Corinthians – o transformou em celebridade. O Santos o vendeu ao Real Madrid, clube de projeção planetária, por 30 milhões de dólares, o maior valor que um time brasileiro recebeu até hoje por um jogador. Com a camisa do Real Madrid, Robinho foi bicampeão espanhol, mas se ressentia por não ganhar tanto quanto outros atletas do elenco. Seu salário era de 2 milhões de euros por ano, um quarto do que recebiam outras estrelas. Por isso, aceitou a proposta para jogar no Manchester City, da Inglaterra, no mesmo dia em que foi feita. O time inglês pagou 43 milhões de euros por ele. Foi a transação mais alta de 2008. O ex-menino pobre de São Vicente passou a receber 6 milhões de euros por ano, o equivalente a 48 500 reais por dia.

Com o mundo aos seus pés, Robinho pôs em risco sua reputação na busca por alguns segundos de satisfação com uma desconhecida no banheiro de um inferninho inglês. Agora, corre para recuperar sua imagem. A contratação de Chris Nathaniel para lhe servir de anteparo mostra que, culpado ou inocente, ele talvez se emende a partir do episódio na boate The Space. Além de habituado aos meandros da Justiça britânica, Nathaniel é conhecido por ter endireitado dois notórios bad boys do futebol inglês: Rio Ferdinand, do Manchester United, e John Terry, do Chelsea. Nathaniel fala baixo e grosso, só se comunica com Robinho por meio de um intérprete e é pouco afeito a intimidades. Por seu intermédio, foi contratado um detetive para investigar a moça que acusa Robinho. Quando conheceu o brasileiro, Nathaniel disse a ele: "Se você quiser continuar usando amigos como conselheiros profissionais, vá em frente – você é o Robinho, afinal. Agora, se me contratar, vai ter de me obedecer. E, se me obedecer, vai ser não apenas um dos melhores jogadores do mundo, mas um ícone do futebol, como David Beckham". Ganhou o emprego no mesmo dia.

Com reportagem de Kalleo Coura e Naiara Magalhães

A síndrome de Peter Pan dos astros do esporte

A pedido de VEJA, especialistas em psicologia esportiva traçaram o perfil dos atletas que não amadurecem e vivem metidos em confusão. A maioria enfrentou uma infância pobre, mas teve uma ascensão financeira meteórica no início da vida adulta. Sem suporte familiar e da escola, muitos ficam desorientados com o dinheiro e a fama e passam a apresentar comportamento social inadequado – ou até mesmo autodestrutivo.

A infância
Esportistas talentosos são cobrados por resultados desde muito cedo.

Eles passam muito tempo longe da família, nos treinos. Muitas vezes, o treinador ou o empresário assume o papel do pai.

Os estudos ficam relegados a segundo plano, comprometendo a formação intelectual.

Logo que se destacam, são pressionados pela família para vencer na profissão, para garantir a todos um futuro melhor.

O sucesso
No fim da adolescência, esses atletas passam a chamar a atenção de grandes clubes e patrocinadores, dispostos a pagar milhões de dólares ou euros por eles.

Ainda muito jovens, entram em um mundo completamente novo, repleto de dinheiro, fama, mulheres e carrões.

Sem uma base familiar e emocional sólida, muitos passam a se comportar como eternos adolescentes, hipnotizados por sua vida de celebridade. Sentem-se intocáveis devido ao estrelato.

O resultado: passam a esbanjar dinheiro, participar de orgias, beber demais e até a consumir drogas. Têm dificuldades em manter relacionamentos sólidos e duradouros.

Fontes: Suzy Fleury e Dietmar Samulski

Ronaldo
Envolvido há anos em episódios que incluem noitadas, bebedeiras e mulheres, Ronaldo protagonizou, em 2008, o pior escândalo de sua carreira – foi parar em uma delegacia carioca acusado de dar o calote em três travestis que passaram a madrugada com ele em um motel de quinta categoria. Suspeita-se que tenham consumido cocaína. O episódio repercutiu no mundo todo. Depois disso, ele parecia ter tomado jeito, mas na semana passada voltou à carga: apareceu em uma boate de luxo em São Paulo, bêbado, beijando várias mulheres, fumando um cigarro atrás do outro, tirando a camisa e se contorcendo para ver a calcinha das mulheres por baixo do vestido, como um adolescente.

 

Mike Tyson
É um peso-pesado da violência sexual. Em 1988, foi acusado de abusar da própria mulher, a atriz Robin Givens. O casamento naufragou, mas Tyson continuou o mesmo: em 1992 foi condenado e cumpriu três anos de prisão por estuprar uma candidata a miss América Negra, Desiree Washington, em um hotel em Indianápolis. Arrasou sua fortuna para se livrar dos processos judiciais por agressão e estupro. Só com advogados, foram mais de 9 milhões de dólares.

 

Adriano
O próprio atacante já admitiu ter problemas com o consumo exagerado de álcool, se disse chateado com o estigma de "cachaceiro" e afirmou que precisava tomar um rumo na vida. Sua pior fase foi entre 2006 e 2007. Ele e o lateral Maicon, seu companheiro na Inter de Milão, organizavam festas quentíssimas em hotéis luxuosos após os jogos de domingo. Só eram chamadas profissionais do sexo. A cerveja, a cachaça e o cigarro rolavam soltos. Nessa fase, ele precisava beber todos os dias, para dormir.


Timothy A. Clary/AFP

Kobe Bryant
Considerado por muitos o melhor jogador de basquete da atualidade, Bryant foi acusado, em 2003, de estuprar uma jovem de 19 anos, funcionária do hotel de luxo Lodge & Spa, onde ele havia se hospedado. No ano seguinte, livrou-se do processo porque a promotoria retirou a acusação – isso aconteceu depois que um legista declarou que as feridas vaginais detectadas na moça não correspondiam às de um estupro, corroborando a versão do jogador de que a relação sexual havia sido consensual.

 

Um cartola das arábias

O Manchester City, em que joga Robinho, é um dos times mais antigos da Inglaterra – foi fundado em 1880 –, mas nunca teve resultados expressivos. Ganhou apenas duas vezes o campeonato inglês, em 1937 e 1968. Sempre viveu à sombra do outro clube da cidade, o poderoso Manchester United, atual vencedor da Copa dos Campeões, o principal torneio da Europa. No ano passado, o City lutava para não cair para a segunda divisão. Seu dono era o obscuro Thaksin Shinawatra, um ex-premiê da Tailândia enrolado em processos por corrupção em seu país. Em setembro de 2008, ele vendeu o clube por 300 milhões de dólares ao xeque Mansur bin Zayed, irmão do presidente dos Emirados Árabes Unidos. Mansur tem um patrimônio pessoal estimado em 22 bilhões de dólares – mais que o dobro da fortuna do magnata russo Roman Abramovich, dono do Chelsea, treinado por Luiz Felipe Scolari. Com tanto dinheiro em caixa, ele fechou a maior negociação da temporada: no mesmo dia em que comprou o clube, pagou 43 milhões de euros para tirar Robinho do Real Madrid. O principal operador de Mansur é o iraniano Kia Joorabchian, que ficou conhecido no Brasil ao liderar a parceria do Corinthians com o nebuloso grupo MSI, em 2005. Há três semanas, o xeque voltou a agitar o mundo do futebol, ao oferecer 115 milhões de euros ao Milan pelo meia brasileiro Kaká. Seria a maior transação da história do futebol, mas Kaká preferiu os milhões e a tradição do Milan aos milhões – e por enquanto não mais que isso – do Manchester City.

 

Da miséria à fortuna

Álbum de família
Robinho em 1994, com colegas de seu primeiro time, o Portuários: na infância, jogava em troca de lanches e cestas básicas


Alexandre Battibugli
Pouco mais que um menino, Robinho foi apontado por Pelé como uma promessa do Santos


Almeida Rocha/Folha Imagem
A consagração veio em 2002: campeão brasileiro de futebol com apenas 18 anos


Andrea Comas/Reuters
Já em sua primeira temporada no milionário time do Real Madrid, em 2005, Robinho foi apontado como um dos melhores da Europa


Ricardo Nogueira/Folha Imagem
Em 2007, o personagem que ele encarnou, de jogador milionário e farrista, tornou-se maior que o homem

 

O jogador mais caro do mundo

Quando saiu do Santos, em 2005, Robinho recebia 250 000 reais por mês.

Foi para o Real Madrid para ganhar o triplo desse valor.

Para que ele saísse do Real Madrid, o Manchester City pagou 43 milhões de euros, o que o tornou o jogador mais caro do mundo em 2008.

No time inglês, ele recebe 6 milhões de euros por ano, em valores líquidos.

Seus contratos de patrocínio lhe rendem mais 5 milhões de euros por ano.

O aluguel de sua casa em Manchester equivale a 49 000 reais por mês.

Sua mansão no condomínio Acapulco, no Guarujá, custou 3 milhões de reais.

O mais novo de seus carros, um Lamborghini Gallardo, custou 560 000 reais.

Sua garagem ainda tem um Audi Q7 e um Mercedes ML.

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