| Veja - 02/05/2011 |
Sai em livro a reconstituição da vida de Bernard Madoff, filho de um pai falido que virou lenda no mercado até explodi-lo com a maior fraude financeira de todos os tempos. (Por No dia 10 de dezembro de 2008, na vertigem da maior crise financeira desde os anos 30, Befllard Madoff, o bruxo de Wall Street o mago das finanças, o gênio do mercado, resolveu reunir a falIl11ia e contar que era tudo mentira. Na empresa, Madoff chamou os dois filhos e convi¬dou-os para ir até a sua cobertura dúplex. Ligou para Ruth e a avisou da reunião de família. Ao chegar com os filhos, foi re¬cebido pela mulher. Sentaram-se os qua¬tro no elegante escritório da cobertura, decorado com pinturas marinhas. Ma¬doff contou então que era uma farsa. Ha¬via décadas, ele vinha operando um esque¬ma de pirâmide financeira, remunerando o primeiro cliente com o dinheiro do se¬gundo, o segundo com o dinheiro do ter¬ceiro, e assim por diante - sem jamais produzir rendimentos reais. Não existam aplicações de verdade. Era tudo uma frau¬de gigantesca. Madoff chora, diz que vai se entregar à polícia em uma semana, de¬pois de mandar cheques devolvendo di¬nheiro para parentes e amigos mais próxi¬mos. Ruth e os filhos choram, estão em estado de choque. Mark está furioso. An¬drew está prostrado. De repente, Andrew curva-se no chão, às lágrimas, depois le¬vanta-se, abraça o pai com ternura. O chão saiu dos pés. O mundo desabou. Mais tarde, Andrew vai relembrar esse momento – a última vez que a família se reuniu – como uma "traição de pai para filho de proporções bíblicas". A trajetória de Madoff, do começo da vida como filho de um pai que pulava de falência em falência até o fim numa pri¬são na Carolina do Norte, está minucio¬samente descrita• no livro The Wizard of Lies (O Gênio das Mentiras), da jornalis¬ta Diana Henriques, que chegou às livra¬rias americanas na semana passada. A amora, que cobriu o escândalo Madoff para o jornal The New York Times, é a primeira jomalista a entrevistar o frauda¬dor depois da queda. Esteve com ele na prisão federal de Bumer, na Carolina do Norte, em duas oportunidades, em agosto de 2010 e em fevereiro passado. O acesso exclusivo ao criminoso é o ponto alto do livro. Graças a isso, fica-se sabendo que a primeira trapaceada de Madoff aconte¬ceu já na crise de 1962. Ele não a atraves¬sou incólume, como parecia. Ele faliu. Investiu o dinheiro de "parentes e ami¬gos" em aplicações de alto risco, o que era irregular, e perdeu. Para esconder o rombo e a ilegalidade que cometera apli¬cando onde era proibido, pediu 30000 dólares ao sogro, cobriu as perdas dos clientes e deixou todo mundo pensando que navegara a crise com seus primeiros lampejos de genialidade. Nos anos 80, ajudou bilionários a enganar o Fisco e evadir divisas, sobretudo na França do socialista François Mitterrand. Mas as entrevistas não esclarecem a data do ini¬cio da pirâmide financeira. Ele diz que começou tudo em 1992, mas pode ter si¬do bem antes, nos anos 80. A empresa de Madoff ocupava três andares de um edifício em Nova York. Em dois, funcionava a empresa de verda¬de, legal, onde seus filhos trabalhavam. No outro andar, operava a máquina de fraude, sob o disfarce de central de dados. Ali, com pouquíssimos cúmplices, Ma¬doff tinha programas de computadores que falsificavam extratos, recibos, tudo. Tinha até programa para simular as ope¬rações que dizia fazer em Wall Street e no mercado europeu. Quem sentasse à fren¬te da tela do computador via as operações de Madoff sendo registradas em tempo real- mas era tudo mentira, uma simu¬lação concebida por Frank DiPascali, um falsário, esse, sim, genial. Apesar da so¬fisticação, a fraude era elementar. Para desmascará-la, bastava checar a autenti¬cidade das operações com a contraparte em Wall Street ou na Europa. Mas esse passo banal nunca foi dado. Numa inves¬tigação, Madoff chegou a entregar aos fiscais uma lista de seis páginas relacio¬nando as entidades com as quais teria negociado. Uma aposta arriscadíssima. "Pensei que era o fim do jogo, que tudo estava terminado", diz ele. Durante três meses, ele esperou o dia em que um fiscal" ligada dizendo que não encontrara ope¬ração nenhuma. O dia nunca chegou. A Securities and Exchange Commission (SEC), fiscal do mercado, levou uma an¬rológica saraivada de bolas nas costas. Recebeu seis denúncias claras sobre as fraudes de Madoff. Ignorou todas. O ana¬lista financeiro Harry Markopolos, de Boston, descobriu a tramóia oito anos antes da explosão. Fez repetidas denún¬cias à SEC. Foi tratado como um amalu¬cada excêntrico. Madoff construiu a primeira pirâmide financeira de dimensões globais. Quando veio abaixo, incinerou 64,8 bilhões de dólares em papel e cerca de 20 bilhões de dólares em moeda sonante. Entre os 20000 tungados, há vítimas de rodas as latitudes. Há gente de classe média, como a viúva que aplica a pensão do falecido, e bilionários diversos, como banqueiros suíços, aristocratas franceses ou nababos de Dubai. A familia Madoff também é uma vítima de seu patriarca. Naquele de¬zembro de 2008 em que souberam da fraude, os filhos Mark e Andrew denun¬ciaram o caso às autoridades e o pai foi preso no dia seguinte. Nunca mais pais e filhos se reencontraram. Naquele primei¬ro Natal. Ruth e Madoff, solto sob fiança mas com os bens bloqueados, mandaram de presente para os filhos joias pessoais que estavam em casa, junto com um car¬tão de desculpas e saudades. Os filhos entregaram as joias para a policia e não responderam ao cartão. Em fevereiro de 2009, nasceu o quarto filho de Marlc, que os avós não foram autorizados a conhe¬cer. Em dezembro de 2010, no dia do aniversário de dois anos da prisão do pai, Mark suicidou-se no seu apartamento. Seu corpo foi cremado numa cerimônia privada à qual a mãe não pôde ir. Madoff foi condenado a 150 anos de prisão. É o prisioneiro número 61727054. É proibido de gastar mais do que 290 dólares por mês na cantina do presídio. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, maio 03, 2011
O prisioneiro 61727054 - André Petry
Vinte metros de profundidade - Claudio de Moura Castro
| Veja - 02/05/2011 |
Mas há boas chances de que um acidente topográfico (submarino) venha a aprumar o estado. Na economia moderna, um navio enorme substituiu vários pequenos. E, é óbvio, quanto maior o navio, mais profundo tem de ser o porto. No Nordeste, onde aportariam os petroleiros gigantes? Aí, Deus fez um favorzinho aos pernambucanos: só em Suape há um porto natural de 20 metros de profundidade. Como se gastou uma fortuna para construir o terminal petroleiro, o investimento atrai outros. Pululam de operários as obras de uma das maiores refinarias do país. Um enorme estaleiro já está operando. Breve virão dois outros estaleiros. Avançam as obras de duas petroquímicas. A fábrica de turbinas eólicas está produzindo a pleno vapor. A Bunge tem uma moagem. A Fiat decidiu construir uma fábrica em Suape. E por aí afora. Inevitavelmente, algumas dessas indústrias criam mercados gigantescos para as fábricas locais. Tudo resolvido? Nem pensar! Fazer açúcar em usinas arcaicas é diferente de suprir uma indústria moderna, com exigências de qualidade, especificações rígidas nos produtos, certificação ISO e prazos de entrega sagrados. Para inaugurar o primeiro estaleiro, mais de 10000 cortadores de cana foram atraídos. Três mil, minimamente qualificados, receberam formação em soldagem. Mas a cultura fabril vive em outro mundo. Colidem os valores e hábitos de trabalho, faltam os conhecimentos de leitura e matemática, mercê de uma educação péssima. Boa parte da indústria local, nem tão moderna assim, se ressente de uma longa hibernação. Falta gente qualificada. Os bons cursos profissionais são poucos. Sobra o velho cacoete de mamar na teta do estado. Falta agressividade para buscar os mercados. Por exemplo, importam-se de São Paulo os aventais de solda, parecidos com os jalecos de boiadeiro. Passa-se o mesmo com os uniformes, cuja tecnologia produtiva é a máquina de costura, inventada no século XIX. Teme-se a invasão de empresas de fora, sejam estrangeiras, sejam do Sul. Elas trazem sua mão de obra e seus hábitos de operar em uma economia agressivamente competitiva e moderna. Muitos empresários locais vão levar uma rasteira? Talvez. Mas, no fundo, uma empresa eficiente é uma escola, mesmo sem ter uma só sala de aula. É lá que se podem forjar os hábitos, as práticas e os valores da indústria moderna. Que venham os coreanos e os paulistas! Não terão outras origens as sementes da nova Revolução Industrial do estado. Os 20 metros garantem alguma coisa, mas não tudo. Praias maravilhosas foram sacrificadas e pecou-se contra o meio ambiente. Valeu a pena? Um cenário possível é a cadeia de suprimentos aproveitar a eficiência do porto, a fim de manter suas fábricas em São Paulo ou em Xangai. Podemos também imaginar cenários em que uma indústria parece local mas é satélite de suas matrizes alhures. Ou, quem sabe, renasce uma indústria local, passada a limpo e agressiva? Qual cenário faz mais sentido? O maior risco é deixar o bairrismo prevalecer e tentar proteger a indústria local, sem sucesso, pois a maioria vive em um círculo vicioso de atraso. O mais seguro é investir maciçamente em educação e formação profissional, pois esse é o grande gargalo, qualquer que seja o dono da fábrica. De fato, apesar dos esforços, os resultados do treinamento não parecem à altura de enfrentar o tsunami da demanda. Em que pese a dedicação do Senai, mal e mal, só deu para oferecer os rudimentos de soldagem. Falta todo o andar do meio, com suas dezenas de ocupações técnicas complexas. O futuro está nas mãos dos pernambucanos. Haverá outra chance de mesmo tamanho? |
O trem-bala do Rio Kwai- Maílson da Nóbrega
| Veja - 02/05/2011 |
A construção de um trem-bala para ligar o Rio a São Paulo e Campinas é desaconselhada por quem entende do assunto. Questionam se a viabilidade econômica, a modelagem financeira, a estimativa de custos e a prioridade conferida à obra. Mesmo assim, o Congresso aprovou o financiamento de 20 bilhões de reais do BNDES, a criação de uma estatal para gerenciar o trem-bala e o subsídio de 5 bilhões, para o caso de não se confirmar a previsão de passageiros. O trem-bala lembra os grandes projetos do regime militar, como a Ferrovia do Aço, que nunca se viabilizou, e a Transamazõnica, que mais de quarenta anos depois ainda não justificou sua construção. A obsessão de tocar o projeto guarda analogia com o filme A Ponte do Rio Kwai (1957). Um batalhão britânico, prisioneiro dos japoneses na II Guerra, é informado de que trabalharia na construção da ponte. Contra a opinião de seus oficiais, o coronel britânico Nicholson (Alec Guinness) aceita liderar a obra. Dizia que era para manter o moral da tropa. Constatando que o local e os materiais escolhidos não eram os melhores, substituiu tudo com seu próprio projeto. Nicholson se apaixonou pelo projeto e o executou. Obsessivo e soberbo, orgulhava-se do trabalho, esquecendo que beneficiava o inimigo. Por isso, os aliados planejaram dinamitar a ponte quando o primeiro trem passasse. Momentos antes da inauguração, ele percebeu o detonador. Ao ouvirem o trem se aproximar, ele e o coronel japonês correram para salvar a ponte. O japonês foi abatido pelos aliados. Nicholson, mortalmente ferido, caiu sobre o detonador, que foi acionado. Destruída a ponte, o trem e suas tropas mergulharam no rio. Voltemos ao trem-bala. A estimativa de custo, de 34,6 bilhões de reais, poderá passar de 50 bilhões. Além do habitual acréscimo em obras públicas, ainda não há projeto executivo de engenharia, o que aumenta as incertezas quanto ao valor final. O professor Paulo Fleury, respeitado especialista em infraestrutura e logistica, aponta uma característica inédita da obra: seu trajeto irá do nível do mar (Rio) a 700 metros (São Paulo) em 400 quilômetros, atravessando a Serra do Mar. A complexa engenharia exigirá muitos túneis e pontes. Aumentarão custos e riscos de atraso. Uma crítica abrangente foi feita por Marcos Mendes, consultor do Senado e profundo conhecedor de finanças públicas. Ele lembra que o trem-bala é para passageiros. Não poderá ser usado para cargas, a não ser pequenas encomendas. Dada a precária situação da nossa infraestrurura, a obra tem escassa justificativa. "Parece haver muitos outros investimentos de retomo econômico e social mais elevado, que deveriam ser considerados prioritariameme", diz ele. Por exemplo, com 9,6 bilhões de reais seria possível solucionar o problema de abastecimento de água nas 256 cidades que concentram quase a metade da população do país. Mendes desmonta todos os argumentos em favor do projeto. O próprio estudo de viabilidade encomendado pelo governo indica que 60% do tráfego de passageiros será no eixo São PauloCampinas-São José dos Campos. O trecho RioSão Paulo ficará com apenas 18% das viagens. Seria melhor, portanto, ligar inicialmente as três cidades paulistas com um trem rápido, mas de velocidade inferior e menor custo. A extensão para o Rio (onde são maiores os desa-. fios da engenharia e os custos) ficaria para uma segunda etapa. Esses e outros aspectos do estudo estão no endereço www.brasil-economia-govemo.org.br. Os seguidos adiantentos do leilão para a concessão do trem-bala sinalizam a incompletude do projeto e prováveis dúvidas dos investidores. Diante de suas enormes incertezas, não será surpresa se ninguém se dispuser a assumir os inequívocos riscos do empreendimento. Seríamos salvos não por um recuo, mas pela impossibilidade de encontrar quem se disponha a enfrentar o desconhecido que se esconde nas brumas do projeto. O risco é que isso induza o governo a ampliar a oferta de dinheiro público para a obra e as garantias do Tesouro, buscando atrair interessados. O trem-bala pode justificasse no futuro, depois de atendidas outras prioridades de investimento em infraestrutura, como a do transporte de massas. Agora, parece um mero e caro capricho. |
Veja Edição 2215 • 27 de abril de 2011
| Primeira Página | |
|---|---|
| Veja | |
| A NOVA MEDICINA DO CORAÇÃO DA MULHER | |
| Notí cias do Dia | |
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| Conversa com Felipe Bornier (Veja) | |
| Datas (Veja) | |
| Números (Veja) | |
| O trem-bala do Rio Kwai (Veja - Maílson da Nóbrega ) | |
| Sobe Desce (Veja) | |
| Veja Essa (Veja - Veja Essa) | |
| Vinte metros de profundidade (Veja - Claudio de Moura Castro) | |
| Economia | |
| O prisioneiro 61727054 (Veja) | |
| Editorial | |
| Além da imaginação (Veja) | |
| Entrevista | |
| "Foi um passo decisivo" (Veja) | |
| Geral | |
| A NOVA MEDICINA DO CORAÇÃO DA MULHER (Veja) | |
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| A joaninha vira marimbondo (Veja) | |
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segunda-feira, maio 02, 2011
A FRÁGIL "BASE ALIADA" DO GOVERNO!-Cesar Maia
"clandestinidade" e o governo avançou em marcha batida para o centro.
O sindicalismo chapa branca assumiu os fundos de pensão, a esquerda do
PT hasteou sua bandeira junto ao chavismo latino-americano, o PT
assumiu a Petrobrás, e o governo petista a política econômica. Aliás,
setores que os partidos à direita, associados, nunca antes tiveram
acesso. Portanto, não há -nestes espaços- conflitos.
2. Mas depois desses primeiros meses de ocupação de espaços, a rotina
política recomeça. A maior parte da base aliada sempre esteve e está
longe da esquerda, seja pela direita, seja pela tradicional clientela.
Agora é hora de tratar e de votar questões que inevitavelmente
mostrarão um quadro de votação repartido, onde o PT será minoria e a
esquerda tradicional ainda mais.
3. Vai entrar em pauta a reforma eleitoral, onde a "base aliada" vai
afiar as unhas e não deixar votar. Vai se votar o código florestal e
outra vez a "base aliada" vai se dividir. Vêm aí os vetos que,
derrubados pela maioria do Congresso, irão ser litigiados no STF. O
que fazer com a regulamentação da emenda 29, recursos para a saúde? E
por aí vai.
4. A base é aliada para dividir cargos e benesses, mas não é aliada,
do ponto de vista político, para tratar de questões específicas, com
visões distintas e até antagônicas ao PT. Com isso, essa imensa
maioria governista será a garantia de imobilismo. Nada de relevante
ocorrerá no Congresso, pois a verdade dos números dá às teses do PT,
quem sabe, 25% do Congresso.
5. A oposição -nesse sentido- é parte constituinte do governo. É muito
maior do que quando se contabiliza, ingenuamente, pelas bancadas dos
partidos que apoiaram a eleição de Dilma ou não.
6. No governo Lula, a rolagem da política econômica anterior e a
intensificação do programa bolsa família apareceram como mudanças. Não
eram. Agora, isso tudo é rolagem do passado. E, em breve, o governo
Dilma estará envelhecido, antes mesmo de completar um ano.
7. E como não há bobo no núcleo duro do governo, eles já sabem disso.
E vão tentar vestir "de novo", através da propaganda, o velho. Para
alegria das agências de publicidade e dos meios de comunicação, que,
aliás, não têm culpa de nada disso.
fonte: Ex Blog Cesar Maia
Leblon: ELES NÃO PAGAM MULTAS, NEM ALUGUEL DE REBOQUE, NEM DÃO PROPINA!
Os novos moradores do Leblon
Letícia Pimenta VEJA RIOGrupos de mendigos ocupam ruas e praças, consomem drogas e provocam confusão em um dos bairros mais nobres do Rio
| Fernando Frazão |
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| Mendigos passam a noite nas avenidas Visconde de Albuquerque e Ataulfo de Paiva (no detalhe): região virou refúgio de sem-teto |
Área nobre da cidade, o Leblon tem um dos metros quadrados mais caros do país, com um IPTU nas alturas, em torno de 3 000 reais por ano. Nas ruas sombreadas pelas amendoeiras, prédios de apartamentos de alto padrão, restaurantes estrelados, botecos, livrarias e lojas de grife dividem harmoniosamente as calçadas. Manter esse reduto em ordem requer olhar atento das autoridades e rapidez na resolução de eventuais transtornos. Não é exatamente isso que os habitantes e comerciantes da área têm testemunhado ultimamente. Do ano passado para cá, a população de rua do bairro aumentou dramaticamente. A associação de moradores estima que o número seja 50% maior em comparação a 2010 — procurada, a prefeitura afirmou não ter dados estatísticos a esse respeito. Qualquer visitante mais atento repara que a situação, de fato, é bem ruim. Sozinhos ou em bandos, mendigos ocupam praças e canteiros ou se refugiam nas entradas de bares, farmácias e bancos. Entre eles, chamam atenção os dependentes químicos, que consomem drogas sem ser incomodados e protagonizam brigas escandalosas durante a madrugada. “Não estamos mais lidando com o pedinte comum, mas com pessoas transtornadas que intimidam os moradores”, diz a relações-públicas Marcia Drumond, que vive ali há quarenta anos.
Alguns comerciantes têm sido muito prejudicados, particularmente os que têm marquise ou cobertura junto à entrada de suas lojas. Dona da doceria Colher de Pau, na Rua Rita Ludolf, Lucy Kaner já perdeu a conta das vezes em que seus funcionários deixaram de lado as tarefas normais para recolher lixo e detritos abandonados por um grupo que usa a calçada como quarto — e banheiro. “Até um colchão imundo de casal já encontramos por aqui”, conta. Houve ocasiões em que brigas entre os mendigos, com arremesso de pedras, aconteceram à luz do dia, quando a loja estava cheia. Volta e meia, a clientela e a vizinhança sugerem a instalação de grades. Lucy, dona do ponto há 37 anos, se recusa: “Não sou eu que devo viver cercada. Cabe à administração pública resolver essa situação”.
| Rafael Andrade/Folhapress |
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| Obra para afugentar mendigos no Centro: problema disseminado |
Não é de hoje que a população de rua é um problema na cidade. A diferença é que no Leblon, e em outros bairros da Zona Sul, os comerciantes tentam agir por conta própria para garantir a sobrevivência dos negócios. Há cinco anos, os donos de alguns restaurantes da Rua Dias Ferreira se uniram para contratar seguranças, que dão plantão durante o funcionamento das casas e após o fechamento. Sócio do Quadrucci, Eduardo Bellizzi adotou o serviço depois que um grupo passou a dormir na varanda de seu restaurante. O proprietário de outra casa estrelada que prefere não se identificar afirma que, mesmo com seguranças, é complicado evitar a abordagem. “Os adultos instruem as crianças a pedir. É difícil lidar com essa situação”, diz. Dono do Andy’s, na Avenida Ataulfo de Paiva, André Cunha Lima conviveu por algum tempo com pedintes que dormiam sob a marquise de um prédio vizinho. O local só foi desocupado quando o condomínio instalou uma porta de vidro na entrada do edifício, bloqueando o acesso. “Era desagradável, os clientes ficavam assustados com as abordagens”, lembra.
Precisar o tamanho exato da população de rua de grandes metrópoles é uma tarefa complexa. O último censo da Secretaria Municipal de Assistência Social, em 2008, revelou que o Rio tem cerca de 4 800 sem-teto. Como eles migram de um bairro para outro, é impossível obter números fidedignos. Atualmente a cidade conta com 53 abrigos e cerca de 3 500 vagas, um déficit de quase 30%. Drogas, alcoolismo e conflitos familiares são os principais motivos que levam as pessoas a viver na rua. “A população de usuários de entorpecentes aumentou depois das UPPs porque muitos se viram obrigados a deixar as favelas ocupadas pela polícia. Isso complicou o nosso trabalho”, reconhece Rodrigo Bethlem, secretário municipal de Assistência Social. Para tentar minimizar o problema, a prefeitura aumentou a verba destinada ao setor de 15 milhões de reais em 2010 para 23 milhões de reais em 2011. Entre as principais medidas a ser adotadas está a instalação de um abrigo para crianças e adolescentes dependentes químicos em Laranjeiras e de unidades de reintegração social com cursos profissionalizantes na Zona Oeste. Cabe agora à população cobrar a execução desses projetos.
(Veja-Rio, 30) 1. No Leblon grupos de mendigos ocupam ruas e praças, consomem drogas e provocam confusão em um dos bairros mais nobres do Rio. Área nobre da cidade, o Leblon tem um dos metros quadrados mais caros do país. Nas ruas sombreadas pelas amendoeiras, prédios de apartamentos de alto padrão, restaurantes estrelados, botecos, livrarias e lojas de grife dividem harmoniosamente as calçadas. Manter esse reduto em ordem requer olhar atento das autoridades e rapidez na resolução de eventuais transtornos.2. Não é exatamente isso que os habitantes e comerciantes da área têm testemunhado ultimamente. Do ano passado para cá, a população de rua do bairro aumentou dramaticamente. A associação de moradores estima que o número seja 50% maior em comparação a 2010 — procurada, a prefeitura afirmou não ter dados estatísticos a esse respeito.
3. Qualquer visitante mais atento repara que a situação, de fato, é bem ruim. Sozinhos ou em bandos, mendigos ocupam praças e canteiros ou se refugiam nas entradas de bares, farmácias e bancos. Entre eles, chamam atenção os dependentes químicos, que consomem drogas sem ser incomodados e protagonizam brigas escandalosas durante a madrugada. "Não estamos mais lidando com o pedinte comum, mas com pessoas transtornadas que intimidam os moradores", diz a relações-públicas Marcia Drumond, que vive ali há quarenta anos.
Cara presidente - ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Não foi a senhora que inventou essa história . de sediar a Copa do
Mundo. Foi o Outro. Ele é que era, e continua sendo, louco por
futebol. Ele é que criou na cabeça um Brasil tão grande e influente
que terminaria com a crise do programa nuclear do Irã, arbitraria a
paz entre árabes e israelenses, ganharia um assento permanente no
Conselho de Segurança da ONU e, para encerrar, como a última firula do
artilheiro antes de fazer o gol, sediaria o Mundial de 2014. A
senhora, ao contrário, e mil desculpas se for engano, aparenta se
aborrecer mortalmente diante de um jogo de futebol. Tamb6m não é
crível, simplesmente não cabe no seu perfil, que acredite no mesmo
Brasil fantasioso do Outro. Se deu a entender que sim, isso ocorreu
apenas no período eleitoral, em que, como no Carnaval, tudo é
permitido. "Falo, falo, e não digo o essencial", escrevia Nelson
Rodrigues. O essencial é o seguinte: por que não desistir?
Não seria a primeira vez. A Colômbia, escolhida para sediar a Copa de
1986, jogou a toalha três anos antes, e o torneio mudou para o México.
O Brasil não vive a mesma crise econômica nem as ameaças do terrorismo
esquerdista e dos cartdis da droga que atormentavam a Colômbia no
período. Em contrapartida, temos colossais problemas de infraestrutura
de transportes e, se ngo enfrentamos crise econômica, não nos sobra
dinheiro para erguer estádios já nascidos com a marca de elefantes
brancos, como, com todo o respeito, os de Natal, Manaus e Cuiabá.
Os aeroportos já são um caso perdido, segundo estudo do Ipea, um órgão
aí da sua cozinha. Nove, entre os treze que servirão ao evento, de
acordo com o estudo, não ficarão prontos a tempo. Na semana passada,
num gesto que soa a desespero, pois contraria um dogma de seu partido,
o governo abriu a possibilidade de privatização dos novos terminais.
Mesmo que seja para valer, não serão dispensadas, é claro, as
concorrências, os contratos, as licenças ambientais, sabe-se lá mais o
quê.
Mas, suponhamos que de certo, e o prognóstico do Ipea não se confirme.
Muito bem, o distinto público consegue desembarcar nos aeroportos.
Suponhamos que num dos aeroportos paulistas. Novo desafio: como chegar
à cidade? Não há trens, e as estradas vivem congestionadas. Como este
6 um exercício de boa vontade, suponhamos mais uma vez que consigam.
Problema seguinte: como chegar ao estádio do Corinthians, no bairro de
Itaquera, o escolhido da Fifa? A linha de metro que o serve está
saturada, e o tráfego nas avenidas com o mesmo destino é de fazer
chorar. Mas suponhamos, mais uma vez, que de certo. Enfim, chegamos.
Mas... aonde? A um terreno baldio. O estádio do Corinthians não 6 mais
que uma hipótese. Nem quem vai pagá-lo se sabe.
"Falo, falo, e não digo o essencial." O essencial desta missiva,
senhora presidente, 6 sugerir-lhe uma estratégia. Se lhe parece
humilhante desistir assim, na lata, a sugestão é a seguinte: brigue
com a Fifa.
Enfrente-a. Como o mundo inteiro sabe, a Fifa não é flor que se
cheire. É uma entidade tão milionária, e tão abusada no uso de seus
poderes, quanto são milionários e abusados seus dirigentes. Pega bem
enfrentá-los. Brigue para que reduzam suas incontáveis exigências. Que
aceitem a reforma de estádios existentes em vez de pedirem tantos
novos. Que assumam parte das despesas. A Fifa está com a corda no
pescoço tanto quanto a senhora. Na melhor das hipóteses, eles romperão
com o Brasil e partirão para uma alternativa de emergência. A culpa
não será da senhora, mas da arrogante inflexibilidade que
demonstraram. Na pior, que já nos é favorável, reduzirão as exigencias
e arcarão com parte dos custos. A senhora já tem assunto demais com
que se preocupar. Precisa livrar-se desta, com perdão pela expressão,
herança maldita.
Em paralelo, e com cuidado, a senhora trataria de reduzir o absurdo
número de doze cidades-sede para os jogos.
A questão exige mais cuidado porque mexe com interesses locais e
porque aqui não foi a Fifa, foi ele, o Outro, que assim quis. Com a
mente intoxicada de Brasil Grande e o olho nos dividendos eleitorais,
ele quis agradar ao maior número de gente possível. Agiu, na
manipulação do futebol, como faziam os governos militares. Na África
do Sul as sedes foram nove; nos EUA, outro país continental, também
nove. Abater o número de sedes diminui despesas e poupa o público do
excesso de deslocamentos. Senhora presidente, ainda lhe sobra espaço
político para agir. Tal qual estão postas as coisas, as alternativas
são colapso absoluto, fiasco total ou fiasco parcial.
" Por que não desistir da Copa do Mundo? Não seria a primeira vez. A
Colômbia, escolhida para sediar a Copa de 1986, jogou a toalha três
anos antes, e o torneio mudou para o México "
Social-democrata? - Alberto Dines
Parece sina: chegamos atrasados, alardeamos desculpas e avacalhamos o
evento. Assim foi com a primeira experiência social-democrata em 1945
e assim está sendo agora. Amparado no sólido conhecimento ideológico
de Lourival Fontes, mas seguindo seu imbatível instinto político, o
ditador Getúlio Vargas criou e presidiu duas agremiações para
sustentar um possível retorno ao poder.
O PTB e o PSD, teoricamente social-democrata, montado a partir dos
currais eleitorais de seus interventores estaduais no Estado Novo. Um
destes filhotes do varguismo ou os dois juntos seriam a réplica nativa
do New Deal. A vitória do partido trabalhista inglês em 1945 sobre o
herói da guerra Winston Churchill também contribuiu para dar um charme
especial ao ramo inglês da velha social-democracia alemã.
Apesar de vitoriosa nas duas primeiras eleições pós-ditadura (com
Dutra e Kubitschek) nem a coligação nem suas crias conseguiram tocar o
projeto social-democrata concebido por Edward Bernstein no final do
século 19. A admirável figura de Alberto Pasqualini do PTB gaúcho
chegou a empolgar os torcedores do clube social-democrata. Um derrame
aos 55 anos interrompeu sua carreira e pulverizou o projeto do
socialismo democrático no Brasil.
O fim do regime militar coincidiu com o sucesso da social-democracia
em todo o mundo. Seu conteúdo humanista alimentou uma das mais
fulgurantes histórias de sucesso do pós-guerra, a comunidade europeia
alicerçada na Alemanha e França fortemente social-democratas e
viabilizou o projeto do Estado do Bem-Estar, o Welfare State, terceira
via entre o bolchevismo soviético e capitalismo americano. A
socialdemocracia foi essencial na Península Ibérica funcionando de
forma admirável na transição das suas ditaduras para a plena
democracia.
No exílio português, Brizola trocou seus impulsos revolucionários por
um projeto evolucionário, tentou o registro de um novo PTB, mas
conseguiu filiar o seu PDT à Internacional Socialista. Hoje está nos
antípodas do que pretendia ser. Quando o PMDB passou a exibir suas
rachaduras, um grupo de quadros criou o PSDB. Venceu duas eleições
presidenciais. Perdeu o fôlego, vencido pelas contradições internas
expostas pela candidatura Alckmin em 2006.
O vice de Mário Covas revelou-se um bom administrador, suas convicções
pessoais porém jamais permitiram absorver algo do ideal
social-democrata para enfrentar o rolo compressor da vertente
populista do PT. Por vontade própria ou tele-comandado, por
oportunismo seu ou de terceiros, o prefeito paulistano Gilberto Kassab
entra na história da social-democracia brasileira como seu algoz. Ou
redentor em um segundo round.
Abiscoitou a preciosa sigla do PSD e está fazendo um estrago inédito
no partido teoricamente coirmão. Kassab está preocupado com adesões.
Posteriormente explicará se o seu PSD é o mesmo do reacionário
presidente português Cavaco Silva e do venerando coronel Benedito
Valadares ou se optará por doutrinas mais próximas do presidente
uruguaio, José Mujica, que declarou ao El País: "Não é possível
construir o socialismo com sociedades de semianalfabetos".
Alberto Dines é jornalista
Bem-vindo, Delúbio! - Ricardo Noblat
"Respeito a ingenuidade. Não sei, porém, de onde imaginavam que o
dinheiro viria". (Delúbio, antes de ser expulso do PT)
De duas, uma. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, não deveria ter
sido expulso do partido depois que estourou o escândalo do mensalão.
Não foi o único culpado. De resto, como diz Lula convicto, o mensalão
jamais existiu. Ou então: Delúbio deveria ter sido expulso, sim. Sua
volta ao PT só se justificaria se a Justiça o declarasse inocente.
Delúbio é um dos 38 mensaleiros denunciados pela Procuradoria Geral da
República por formação de quadrilha, peculato, lavagemde dinheiro,
gestão fraudulenta, corrupção eevasão de divisas. O Supremo Tribunal
Federal acatou a denúncia que fala de uma "organização criminosa"
empenhada em se apoderar de parte do aparelho do Estado.
Ocorre que Delúbio imagina ser candidato a vereador no próximo ano em
Goiânia e a deputado federal em 2014. E para isso precisa filiar-se a
um partido. Que partido de peso
estaria disposto a abrigá-lo?O PT . Foi nele, sob as bençãos de Lula,
que o simplório, mas esperto Delúbio construiu sua trajetória
política.
Lula e Delúbio são mais ligados do que Lula e o ex-ministro José
Dirceu, por exemplo. Quem escondia dos fotógrafos o cigarro fumado por
Lula? Delúbio, o serviçal. Mais de uma vez, Delúbio e Lula saíram
juntos do Palácio do Planalto no mesmo carro. Uma vez, pelo menos,
Delúbio foi hóspede de Lula na Granja do Torto.
O que disse a senadora Marta Suplicy (SP) sobre a volta de Delúbio ao
PT, consumada na última sexta-feira, é mais ou menos oque pensa a
maioria dos seus colegas de partido. Marta: "A volta de Delúbio é uma
questão ainda muito mal compreendida pela sociedade, de difícil
assimilação." De difícil assimilação, é. Mal compreendida, não.
Se Delúbio foi um dos cérebros do mensalão; se a Procuradoria Geral da
República classificou o mensalão de crime; se ele figura em processo
na condição de réu; e se o próprio PT preferiu expulsá-lo, asociedade
entende com razão que Delúbio não deveria ter voltado ao partido. O
processo do mensalão chegará ao fim no próximo ano.
Por que não esperar a decisão do Supremo? Porque para se candidatar
qualquer pessoa é obrigada a estar filiada a umpartido no mínimo um
ano antes do dia da elei-ção. Ou Delúbio se filiaria até outubro deste
ano ou daria adeus às chances de se eleger vereador em 2012. De todo
modo, a dele não será uma eleição tão simples.
Delúbio foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Goiás a devolver R$
164 mil desviados por meio de documentos falsos que o davam como
professor ativo no ensino público. E teve seus direitos políticos
suspenso por oito anos. Sua candidatura deverá esbarrar na Lei da
Ficha Limpa — salvo se instância superior da Justiça lhe for generosa.
O deputado Ricardo Bezoini (SP), ex-presidente do PT, valeu-se de um
argumento falacioso emdefesa da reintegração de Delúbio: "Até os
banidos do regime militar voltaram." Comparar a situação dos banidos
com a de Delúbio é uma agressão à inteligência. É também um deboche,
um escárnio, um acinte.
Os banidos foram vítimas de uma ditadura que censurou a imprensa,
cassou políticos, aposentou juízes, prendeu, torturou e matou
desafetos. Enfraquecida, revogou o banimento. Delúbio não foi vítima
de nada e nem de ninguém — anão ser de sua própria conduta. "Ele já
pagou", disse o deputado Cândido Vaccarezza, líder do governo.
Delúbio pagou pelo quê? Pelo mensalão que o PT prefere chamar de caixa
2? Caixa 2 e mensalão são crimes. OPT puniu Delúbio só para dar uma
satisfação àsociedade. Assim como fez com José Dirceu, demitido da
Casa Civil da Presidência da República e depois cassado como deputado
federal
Uma vez que Lula sobreviveu ao escândalo, se reelegeu e elegeu Dilma,
o PT concluiu que chegara a hora de premiar Delúbio, o militante que
não entregou ninguém. Que pagou sozinho por um crime coletivo. Seja
bem-vindo, pois, companheiro! A casa é sua! Nada mudou desde que você
foi obrigado a deixá-la.
Cuidado justificado - George Vidor
O crédito financia o correspondente à metade da economia brasileira.
Há cinco anos, financiava menos de um terço do Produto Interno Bruto
(PIB). Isso significa que os parâmetros de política monetária de
alguns anos atrás não servem mais para a conjuntura atual. Ajustes de
0,25 ponto percentual na Taxa Selic têm hoje mais efeito sobre a
economia que no passado recente.
O Banco Central tem então toda a razão de tomar cuidado com o aperto
monetário que está em andamento para esfriar a economia e evitar que a
inflação e o câmbio abortem um ciclo virtuoso de investimentos que vem
se formando no país.
Nesse sentido, é pouco provável que as taxas de juros básicos
ultrapassem o patamar de 12,75% em 2011 (é claro que isso dependerá da
resposta dos preços de bens e serviços às medidas já tomadas pelas
autoridades monetárias).
Por quase dez anos "adiei" uma viagem de férias à Turquia pelo receio
(não de todo injustificado) de acabar sendo pisoteado por hordas de
turistas... Há quem diga que o animal mais próximo do ser humano não é
o macaco, mas sim o turista... Este ano resolvi cumprir a promessa de
conhecer a Turquia, e não me arrependi em qualquer momento.
Trinta milhões de pessoas visitam a Turquia anualmente, a negócios ou
a lazer. Istambul, uma cidade com 11 milhões de habitantes, já é o
sétimo destino mais visitado do planeta. É realmente um formigueiro
humano, mas o transporte público funciona bem, a cidade é bem
sinalizada e relativamente fácil transitá-la mesmo para alguém que não
saiba uma palavra sequer em turco.
O turismo é o segmento mais importante da economia turca, mas a
agricultura se mantém como principal atividade produtiva. Frutas,
verduras, legumes, chás e as famosas especiarias (motivo de cobiça nos
séculos XIV, XV e XVI) são produzidas em larga escala em vales férteis
que margeiam os mares Egeu e Mediterrâneo. Nas áreas centrais, mais
secas, os agricultores produzem cereais e algodão, e também criam
ovelhas, cabras, vacas, fornecendo carne, leite, lã e couro para a
indústria.
A proximidade com o mercado europeu ainda permite que a indústria
têxtil turca consiga competir com a chinesa nessa região. Mas os
bazares turcos já estão infestados de produtos "made in China" ou
"made in India". Um comprador desatento pode levar um tapete chinês,
confeccionado em máquina, no lugar de turcos artesanais autênticos -
que são de uma beleza irresistível (por causa desse risco de levar
gato por lebre, é mais seguro comprá-los na Capadócia do que em
Istambul).
Fábricas de couro, joias e cerâmicas são tradicionais na Turquia, mas
pouca gente sabe que cerca de 25% dos carros usados pelos europeus são
montados lá, nas cercanias de Ismirna.
Brasil e Turquia têm poucas semelhanças históricas, culturais e
geográficas. No entanto, as economias dos dois países passaram por
momentos muito parecidos nas últimas décadas. Inflação descontrolada,
endividamento excessivo, desequilíbrios nas contas externas e juros
estratosféricos. Hoje, a Turquia vive uma relativa estabilidade
monetária, cresce acima da média mundial e tal qual a economia
brasileira ainda disputa as primeiras colocações no ranking dos juros
altos.
Na política, a Turquia é vista como modelo para os países de Oriente
Médio que anseiam por regimes democráticos. Desde que Ataturk derrubou
a monarquia otomana em 1920 e instituiu um Estado laico, a república
turca consegue separar a forte influência religiosa muçulmana dos
assuntos de governo. Os militares intervieram algumas vezes na
política, mas souberam se retirar nos devidos momentos e assim
mantiveram seu prestígio no país.
Não é à toa que a Turquia atrai a atenção de tantos visitantes. Além
de paisagens indescritíveis, como as da Capadócia, a História passa
por lá. Os turcos foram os últimos a chegar na Anatólia, vindos da
região do Mar Cáspio, no século XI. Antes disso, povos mesopotâmicos,
hititas (os primeiros a usar o ferro em armas), frígios, gregos
antigos, romanos e hebreus a ocuparam. Alexandre, o Grande, começou
por ali, ao vencer os persas, a trajetória que o levou até o Rio
Ganges. No estreito de Dardanelos, Leônidas e seus trezentos soldados
enfrentaram Xerxes "lutando à sombra" por causa da saraivada de
flechas capazes de apagar a luz do sol. Marco Antonio e Cleópatra
desafiaram Julio Cesar quando estavam na Anatólia. Depois da queda de
Roma pelas invasões bárbaras, o império bizantino sobreviveu por quase
mil anos em Constantinopla (a cidade se chamava antes Bizâncio). E
desse período subsiste um dos monumentos da humanidade, que é a antiga
basílica de Santa Sofia, hoje museu. Com essa construção, no século
VI, o imperador Justiniano esperava superar o templo de Salomão, e
tudo indica que conseguiu. Os primeiros cristãos se refugiaram na
Anatólia, e suas marcas são vistas nas cavernas escavadas no Vale do
Goreme (Capadócia). São Paulo, escorado em sua cidadania romana,
peregrinou e pregou pelas cidades do Mediterrâneo e seus caminhos
fazem parte de um roteiro que um número crescente de grupos de
católicos vem visitando. Próxima às ruínas da cidade grega/romana de
Éfoso fica o local que seria o último refúgio de Santa Maria, mãe de
Jesus. Os judeus também encontraram refúgio na Anatólia, após a
diáspora e a inquisição espanhola.
Se esse acervo não bastasse, ainda há muito o que se ver de
reminiscências do poderosíssimo império otomano, pois os palácios onde
viveram os 36 sultões estão ainda firmes e fortes em Istambul (nome
adotado depois da tomada de Constantinopla pelos turcos no ano de
1453). Em breve, vou postar no blog (www.oglobo.com.br/blogs) algumas
sugestões para quem planeja visitar a Turquia.
O outro lado da reforma política - Everardo Maciel
No Brasil, costumamos condicionar a solução de problemas a um mítico
conceito de reforma, que consiste em abandonar tudo o que antes
existia e instituir uma nova realidade. Não se tem clareza quanto à
natureza e amplitude dos problemas, muito menos consenso sobre o que
minimamente se deva fazer. Ainda assim, as "reformas" são a panaceia
para problemas políticos, tributários, previdenciários, trabalhistas
ou qualquer outro que propicie um adjetivo conveniente para a palavra
reforma.
Em lugar de buscar soluções para problemas específicos, opta-se por
aguardar uma abrangente reforma, que somente prospera em ocasiões
excepcionais, como rupturas da ordem institucional, catástrofes,
guerras, etc. Reformas devem ser tidas como processo permanente,
porque as circunstâncias mudam e os modelos inevitavelmente se tornam
obsoletos.
Os debates sobre a reforma política gravitam em torno do financiamento
das campanhas e dos sistemas eleitorais (voto distrital, distrital
misto, majoritário ou em lista fechada, em contraposição ao vigente
sistema proporcional).
Não há soluções universais para o tema. O que se deve evitar tão
somente são regras francamente inconsistentes, como a coligação em
eleições proporcionais, bem como as que ofendem a ordem
constitucional, como a votação em lista fechada que se presume ferir a
cláusula pétrea que prescreve o voto direto.
Infelizmente, conquanto sem surpresa, os debates não tangenciam o
aviltamento da qualidade intelectual e moral da representação popular.
Ulisses Guimarães dizia que cada legislatura era pior que a anterior.
Os fatos parecem dar razão a essa visão pessimista. As Casas
Legislativas vêm sendo estigmatizadas por sucessivos escândalos. Há
uma clara crise de representatividade.
A utilização abusiva das medidas provisórias converteu o Congresso
Nacional em entidade homologatória de normas editadas pelo Executivo,
sob a égide de negócios associados à liberação de emendas e restos a
pagar, e das despudoradas práticas de fisiologismo e aparelhamento.
Essas reprováveis condutas associadas ao foro privilegiado constituem
um extraordinário atrativo para que pessoas pouco virtuosas procurem,
a qualquer custo, um mandato parlamentar.
A liberação de emendas e restos a pagar é apenas um aspecto de um
processo orçamentário que se tornou completamente anárquico. Orçamento
público é contemporâneo da democracia moderna. Sua decadência,
portanto, implica elevação do déficit democrático.
As propostas orçamentárias anuais remetidas ao Legislativo se sujeitam
a toda sorte de manipulações, usualmente com o objetivo de acomodar
demandas políticas pouco criteriosas. O fundamento utilizado para
revisão das receitas é um singelo e bem-intencionado mandamento
constitucional que admite essa hipótese no caso de "erros e revisões".
Essa norma a tudo se presta.
As receitas, por sua vez, podem ser alteradas após a remessa da
proposta orçamentária, porque as regras de anterioridade tributária
não vedam essa possibilidade, o que dá ensejo às denominadas "receitas
condicionadas".
A Lei de Diretrizes Orçamentárias, que deveria, nos termos da
Constituição, dispor sobre alterações tributárias, é vítima de
inobservância contumaz. Além do mais, a qualquer tempo, ela pode ser
alterada por medida provisória.
Aprovada a lei orçamentária, com receitas em princípio irrealistas,
segue-se, invariavelmente, um contingenciamento das despesas,
inopinadamente revisto ao sabor da vontade política do Poder
Executivo, inclusive para atender a pressões decorrentes de votações
no Congresso Nacional.
O que não se libera passa a engrossar um cada vez mais expressivo
montante de restos a pagar, cuja administração corresponde a um
verdadeiro orçamento paralelo.
As ditas emendas, muito frequentemente, servem como moeda de pagamento
ao apoio de políticos e empresários, não raro com finalidades escusas.
Afora isso, como quase sempre representam transferências voluntárias
para Estados e municípios, servem para tornar ainda mais caótico o
esdrúxulo federalismo fiscal brasileiro.
A administração pública requer regras mais claras para o provimento
das funções públicas de direção e assessoramento. Tal como está hoje,
jamais teremos uma gestão republicana, com o risco de perder as poucas
ilhas de excelência que ainda resistem aos apetites políticos.
O foro privilegiado é evidência de atraso institucional. O
constrangimento à atividade política, por meio de ações judiciais,
deve ser combatido por uma lei de crimes por abuso de autoridade, e
não pela outorga de privilégios exorbitantes.
Certamente, é preciso aperfeiçoar o sistema eleitoral, reduzir a
demanda por gastos nas campanhas e fortalecer os partidos. Tenho,
entretanto, sérias dúvidas se essas medidas irão repercutir
efetivamente sobre a qualidade da representação política.
Ainda que possa parecer utópico, a reforma política deveria reservar
atenção para o processo orçamentário, a profissionalização da
administração pública e a limitação do foro privilegiado e das medidas
provisórias.
O Brasil dos fatos e das versões - Sandra Cavalcanti
Tem sido assim desde o começo da nossa História. É incrível como nossa
trajetória é contada! Quem se debruça sobre os fatos fica
escandalizado com a diferença entre eles e as suas "consagradas
versões".
Esse comportamento fraudulento faz com que, em nosso país, todo
historiador seja levado a trabalhar como um arqueólogo, que tem de
cavar, raspar poeiras, decifrar hieróglifos e tentar entender os
obscuros textos dos pergaminhos. Sempre na busca da verdade dos fatos.
Para alegria nossa, o Brasil tem sido presenteado com obras
estupendas, realizadas por excelentes pesquisadores. Eles têm
conseguido divulgar um conhecimento cada vez mais correto dos fatos da
nossa História. E essa tarefa saneadora de desmitificação das versões
tem alcançado enorme sucesso de vendas para as editoras.
Está claro que obras desse padrão não constarão jamais da lista dos
livros adotados pelos técnicos ideológicos do Ministério da Educação
(MEC). Para eles, quanto mais os brasileiros forem enganados pelas
versões oficiais, melhor para a turma que comanda o atraso de nossa
formação cultural.
Mas não é apenas nos livros "oficiais" que a nossa História é
deturpada. Fazem parte dessa lavagem cerebral os demais instrumentos
de comunicação dependentes do governo. Rádios e TVs, oficiais ou
agregados. Todos subvencionados generosamente, à custa dos nossos
impostos. No nosso dia a dia somos bombardeados pelas versões que o
Planalto divulga sem cessar. Informações erradas, dados falsificados,
episódios distorcidos, explicações mentirosas, enfim, um povo tratado
como se todos fossem idiotas e sem nenhum espírito crítico.
Veja-se agora o que está acontecendo com o famoso episódio do mensalão
do PT. Já está quase esquecido! Foi, no entanto, o mais vergonhoso
episódio ocorrido em nossa História recente. Um plano frio, cínico,
típico de um grupo que só tinha um objetivo em suas supostas lutas
pela ética e pela moralidade: chegar ao poder e se vingar. Vingar de
quê? Os autores desse plano eram, e ainda são, indivíduos ressentidos,
cheios de raiva contra as "elites" - letradas, bem alimentadas,
patrões e chefes. Para eles, chegar ao poder era a suprema desforra.
Esse tem sido sempre o sentimento da esquerda sem estudos, valores e
visão do mundo. Entre uma esquerda raivosa e uma direita sem
escrúpulos, o entendimento sempre se dá muito bem.
A chegada de Lula ao poder mostrou que essa é a mentalidade deles.
Para ganhar a eleição tinha de mudar o discurso? Era preciso mudar a
rota? O PT não teve dúvidas: mudou.
Mudou, mas chegou ao Planalto com as mesmas disposições de antes. E
mesmo usando as receitas do governo anterior, tratou de vender ao País
a ideia de ter recebido uma "herança maldita". Sempre o mesmo processo
de criar versões, apagar os fatos e vender uma "nova História" ao
Brasil.
Quando foram apanhados roubando recursos públicos, espalharam que
aquilo teria sido um simples "caixa 2". Não foi! A Justiça definiu-o
como crime de formação de quadrilha. São 38 réus no processo. Nestes
seis anos, a versão vai vencendo. A quadrilha do mensalão está de
volta ao poder, inocentada pelos seus eleitores. A última cartada da
versão já está na mesa: em agosto prescreve o crime. Se a denúncia
criminal não for feita até lá, teremos uma nova derrota dos fatos.
A desenvoltura dos integrantes da quadrilha do mensalão e da quadrilha
do dossiê contra José Serra já vem despertando muitas suspeitas. Os
réus andam muito à vontade nos palácios. Muitas declarações, muitas
aparições públicas, muitas articulações, enfim, muita recuperação de
terreno. Tudo isso leva a crer que está em marcha uma grande manobra
para tornar vitoriosa a versão criada pelo então presidente Lula: "O
mensalão não existiu. Foi tudo armação da oposição"!
Colocar o mensaleiro João Paulo Cunha na presidência da Comissão de
Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados é mais do que um
acinte, é uma ameaça para constranger o Supremo Tribunal Federal. A
presença desenvolta de José Dirceu nos acontecimentos recentes e o seu
evidente prestígio junto à ocupante da Presidência da República, tudo
isso é uma sinalização mais do que evidente. Das tentativas feitas
para apagar fatos e divulgar versões, essa de Lula é a mais ousada de
quantas têm marcado o comportamento dos líderes petistas.
Há dias a Polícia Federal conseguiu terminar o seu relatório a esse
respeito. Entregou o penoso e bem feito trabalho ao procurador-geral
da República. Está, pois, nas mãos dele ajudar na luta entre os fatos
e as versões.
Tenho medo. O mês de agosto não me traz boas recordações. A tentativa
de assassinar Carlos Lacerda. A morte do major Rubens Vaz. O suicídio
de Getúlio Vargas. Anos depois, também em agosto, a renúncia jamais
explicada, e jamais entendida, de Jânio Quadros. Renúncia que abriu
para Brizola e Jango a tentação de, por golpe e com o apoio de pequeno
grupo militar, implantar aqui uma República sindicalista, com a ajuda
de Cuba e da Rússia. Se não fosse o patriotismo da maior parte das
nossas Forças Armadas, em 31 de março de 1964 o Brasil teria dado um
dos passos mais tristes de sua História.
Mas a tradição de criar versões e negar os fatos não muda. A mídia tem
passado os últimos tempos divulgando exatamente o contrário da
realidade. Na maioria das reportagens, os fatos cederam às versões. Os
golpistas Jango e Brizola são saudados como legalistas. Os legalistas,
que seguiram Castelo Branco e impediram o golpe, são apontados como
golpistas. As Forças Armadas nem podem mais comemorar o 31 de Março!
Que agosto não nos traga desgosto. Vamos ver o que acontece com os
"heróis" do mensalão...
Falta o Plano Real dos juros - Carlos Alberto Sardenberg
Em 2003, ao receber da Ordem dos Economistas o prêmio de Economista do
Ano, Pérsio Arida observou: "Nossa economia já teve uma característica
singular - a indexação legal e generalizada de contratos -, e para ela
encontramos uma solução igualmente original - a Unidade Real de Valor
(URV) e a reforma monetária. Temos, agora, uma outra característica
singular a enfrentar. A singularidade do nosso desafio no passado
esteve no combate à inflação crônica; agora é a busca de alternativas
que possam reduzir a taxa estrutural de juros".
De lá para cá, o mundo mudou muito. Tivemos o período de forte
crescimento global, que beneficiou amplamente o Brasil, e depois o
colapso financeiro de 2008-2009, seguido da crise das dívidas públicas
na zona do euro. Teorias e práticas de política econômica sofreram
forte impacto no mundo e aqui, entre nós.
A realidade econômica também mudou muito. Por exemplo: em vez de
crises externas por falta de dólares, os países emergentes
exportadores - Brasil incluído - lidam com o problema inverso, o
excesso de dólares e moedas locais valorizadas.
Mas continuamos com a taxa estrutural de juros muito alta e muito
maior do que a de países parecidos. Ou seja, o desafio sugerido por
Pérsio Arida continua aí.
É verdade que a situação melhorou um pouco. Em 2003, a taxa real de
juros estava na casa dos 8% ao ano. De uns tempos para cá, roda entre
5% e 6%, e parece empacada aí. Além disso, as taxas caíram no mundo
todo, estando hoje entre zero e 2%, de maneira que a posição
comparativa do Brasil não se alterou.
De outro lado, nos últimos dois anos, a inflação brasileira mais alta,
em torno dos 6% anuais, tem feito parte do trabalho de derrubar os
juros reais. E não é o que queremos.
Tudo considerado, ficamos com inflação e juros mais altos, um desafio
até mais complicado.
Com inflação alta por vários meses seguidos, reaparece o problema da
indexação (a última medida legal de restrição à indexação é de 1995!).
Acrescentem ao quadro o real muito valorizado e se percebe o tamanho
da questão.
Em 2003, Pérsio Arida apelava aos colegas. "No momento, cabe a nós,
economistas, propor à sociedade, através de uma reflexão crítica sobre
nossa singularidade, um conjunto de políticas que consiga reduzir a
taxa estrutural de juros".
Houve muitos estudos de lá para cá. E há, no momento, muita gente
quebrando a cabeça de novo, tentando entender como lidar com o
pós-crise. Continuariam os juros sendo o principal desafio brasileiro?
Parece que sim. Pela comparação: moeda valorizada e inflação mais alta
é uma combinação comum em vários países emergentes, incluindo os
latino-americanos. Mas os juros brasileiros são imbatíveis, assim como
a nossa carga tributária (e parece que são pontos correlacionados).
Estariam no centro da agenda nacional?
Para retomar a comparação de Arida, falta, atualmente, algo que havia
em 1993, no lançamento da URV/reforma monetária: a disposição política
de fazer uma mudança estrutural. Os talentosos economistas da época
não teriam ido longe sem a mobilização e a liderança de Fernando
Henrique Cardoso.
De sua parte, Fernando Henrique trazia uma visão mais ampla de
modernizar o País, o que foi feito em grande escala.
Lula não se empenhou em nenhuma mudança estrutural. No início do
primeiro mandato, na gestão de Antonio Palocci no Ministério da
Fazenda, ainda foram feitas algumas reformas microeconômicas. Depois,
quando a economia entrou no embalo do crescimento global, Lula surfou
a onda e não quis saber de mais nada complicado ou politicamente
difícil, como uma reforma tributária. Aproveitou a boa arrecadação
para aumentar gastos, boa parte de eficácia duvidosa, e foi buscar
votos.
E Dilma Rousseff? Começou no quebra-galho, administrando heranças
difíceis, especialmente a inflação. Mas também teve de tentar deter a
queda do dólar e segurar o gasto público. E tirar o atraso de obras da
Copa do Mundo de 2014.
Como faz isso? Numa mistura de instrumentos ortodoxos - regime de
metas, Banco Central, superávit primário - e antigos, como restrições
ao crédito e impostos sobre a entrada de capitais.
Mas não se vislumbra uma doutrina, um plano de mudanças estruturais. A
presidente diz que será rigorosa contra a inflação, mas que não aceita
derrubar o crescimento econômico. Assim, na teoria, fica bem. Mas
quanto de crescimento se exige e quanto de inflação se tolera para
isso?
E, sobretudo, não se vê nada em relação ao desafio dos juros elevados.
A presidente já disse, até mesmo na campanha eleitoral, que tinha o
objetivo de reduzi-los. Mas não disse qual caminho pretende seguir
para isso.
Parece improvisado. Um dia é o dólar; no outro, o crediário; depois, a inflação.
De uns dias para cá, depois do anúncio da privatização dos aeroportos,
membros do governo têm vazado algumas informações sobre planos de
combate à indexação, simplificações tributárias e outras
modernizações.
Mas, de novo, falta o Plano Real dos juros - uma concepção teórica, um
mapa do caminho prático, a liderança política e a disposição de
aplicá-lo.
A oposição nem passa perto disso.
domingo, maio 01, 2011
Celso Ming -Uma política para o etanol
ao setor do álcool.
Em primeiro lugar, transferiu o controle do Ministério da Agricultura
para a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com isso, o álcool deixa de
ter um tratamento de produto agrícola e passa a ter tratamento de
combustível.
Em segundo lugar, o governo aumentou a flexibilidade da mistura de
álcool anidro à gasolina. A mistura levava de 20% a 25% de álcool e, a
partir de agora, pode ser de 18% a 25%.
Essa decisão tem por objetivo controlar melhor o fluxo dos
combustíveis e reduzir o impacto da alta de preços em caso de escassez
de álcool, fator que é determinado principalmente pela entressafra da
cana-de-açúcar no Centro-Sul, período que vai de dezembro a abril do
ano seguinte.
Essa iniciativa de regular o abastecimento e, consequentemente, os
preços tem de ser vista como um avanço. No entanto, há ainda sérias
distorções no mercado de combustíveis sem solução.
Hoje, nada menos que 39% da frota nacional de veículos é dotada de
dispositivos flex, com os quais eles podem rodar com qualquer
proporção de álcool ou gasolina. Afora isso, outros 5% rodam
exclusivamente a álcool hidratado. Essa proporção gerou forte
interdependência de suprimento desses dois produtos (gasolina e
álcool) e de preços. Se o álcool fica mais caro, seja pela alta dos
preços do açúcar, seja em razão de escassez sazonal provocada pela
entressafra, o consumo de gasolina acaba crescendo. E aumenta a
probabilidade de acontecer o que está acontecendo neste início do ano:
a Petrobrás e os usineiros foram obrigados a importar gasolina e
etanol para garantir o suprimento. Ou seja, o País que pretende
exportar etanol e transformá-lo em commodity não vem conseguindo
sequer garantir volume para o consumo interno.
Outra distorção está no campo específico dos derivados de petróleo.
Uma política caolha do governo federal vem impedindo a remarcação dos
preços da gasolina. Neste momento em que o petróleo está sendo
negociado entre US$ 110 e US$ 120 por barril e o etanol pode sofrer
solavancos nos preços, o tabelamento forçado das cotações dos
derivados de petróleo no varejo puxa para cima o consumo de gasolina o
que, por sua vez, aumenta a erosão do caixa da Petrobrás. A simples
redução da proporção do álcool anidro da mistura com a gasolina não
resolve o problema principal porque aumenta o consumo de gasolina.
A solução definitiva passa por duas providências. A primeira delas é o
aumento da produção de etanol (veja gráfico). Para que isso possa
acontecer, além de estimular o plantio de cana e o investimento em
usinas, o governo tem de definir regras apropriadas de mercado para
outro produto da cana-de-açúcar, o bagaço, que deve ser aproveitado
(hoje não é) na produção de energia elétrica.
A segunda providência é liberar os preços dos derivados de petróleo
para que outras empresas possam entrar no mercado, importá-los e
garantir saudável concorrência com a Petrobrás. Enquanto esta estiver
vendendo gasolina e óleo diesel a preços tão substancialmente
comprimidos, haverá sempre estímulo adicional ao consumo.
Miriam Leitão Cenário mutante
Para as pessoas e as empresas, este é um ano ao mesmo tempo bom para o
Brasil, mas difícil. Há riscos, se as decisões não forem tomadas com
cautela. O cenário internacional está incerto: a explosão dos
conflitos no Norte da África e Oriente Médio, o desastre nuclear no
Japão, a disparada do petróleo não estavam no horizonte das previsões
econômicas feitas para o ano.
O país está reduzindo o crescimento, mas ainda crescendo e mantendo
nível de emprego, o que é bom, mas as famílias estão com um nível alto
de comprometimento da renda com dívidas assumidas nos últimos anos. A
inflação em alta vai tirar mais renda, principalmente dos mais pobres,
não só porque são sempre eles as primeiras vítimas das altas de
preços, mas porque elas batem mais em alimentos.
Boas e más notícias ocorrerão no front da inflação nos próximos meses.
As boas virão da queda do índice mensal. Os números de abril serão
ainda altos, mas os de maio devem cair, e os de junho, também. As más
notícias virão da inflação em doze meses, que continuará aumentando
porque em junho, julho e agosto do ano passado as taxas ficaram em
torno de zero e este ano não devem ficar, pelo menos não nos três
meses. Isso elevará o índice anual para mais de 7%. Se o governo olhar
só para o índice mensal, vai achar que a inflação era momentânea e
pode concluir que tudo está resolvido. Há quem no governo esteja
trabalhando para evitar a impressão de que já se venceu o problema
antes da hora. O risco para o qual o governo tem que estar alerta é o
de ampliação da indexação, por causa da inflação alta em 12 meses e do
mercado ainda aquecido.
As empresas terão que tomar cuidado em seus planos. O país está
crescendo, mas está desacelerando e os custos estão subindo. Olhar
custos cuidadosamente e evitar perder bons funcionários para a
concorrência de olho em trabalhadores capacitados serão alguns dos
desafios. Não sancionar qualquer aumento de seus fornecedores será
outro desafio. A empresa pode se ver na contingência de ter que
aceitar um aumento de preço do seu fornecedor, para manter o ritmo de
produção, e mais adiante enfrentar um mercado em ritmo menor.
As pessoas têm que tomar extremo cuidado com endividamento. Apesar do
aumento acelerado do crédito nos últimos anos, e da elevação do
percentual da renda que está comprometida com o pagamento de dívidas,
não está havendo aumento da inadimplência. Mas o Banco Central está
subindo os juros e tomando medidas para reduzir o dinheiro que as
instituições podem emprestar. Os brasileiros estão acostumados a olhar
se a prestação cabe no bolso, em vez de olhar o custo do dinheiro. Se
a situação virar por algum motivo — e o mundo provou este ano que
quadros inesperados se formam da noite para o dia — muita gente pode
se ver presa na armadilha do crédito.
O país recebeu um fluxo gigantesco de capital externo no primeiro
trimestre do ano, isso favoreceu as empresas e aumentou a liquidez na
economia, a despeito do esforço feito pelo Banco Central de reduzir a
oferta de crédito com medidas como exigências de capital e aumento do
recolhimento compulsório. Grande parte dos US$ 35 bilhões de capital
externo que entrou no país apenas no primeiro trimestre veio porque há
um excesso de liquidez no exterior e as empresas pegaram empréstimo lá
para se financiarem aqui. Isso eleva o risco cambial das empresas. Em
2008, muito analista dizia que aquela onda de liquidez farta e dólar
baixo nunca acabaria, até que acabou subitamente em 15 de setembro,
com o estouro da crise bancária dos países ricos.
Ano de crise, as famílias e as empresas até sabem como enfrentar:
apertar os cintos e postergar decisões de consumo ou de investimento.
Em ano com uma conjuntura fluida e mutante, é mais difícil a tomada de
decisão. Não se pode perder oportunidades, mas não se deve correr
riscos além da conta. O ponto ideal entre esses dois pólos é difícil
encontrar.
Quem poderia dizer que um ato solitário de protesto de um vendedor de
frutas na Tunísia seria o estopim da mais longa, prolongada, e ainda
imprevisível onda de mudanças políticas no Norte da África e no
Oriente Médio? Isso nos afeta pelo preço do petróleo que subiu
drástica e rapidamente. Hoje, o Brasil vive uma situação estranha: a
Petrobras está importando gasolina mais cara do que vende no mercado
nacional. O consumidor está pagando cada vez mais caro pela gasolina,
mas a estatal não reajustou o preço do produto que entrega nas
refinarias. Está na prática subsidiando um produto que não consegue
produzir no mesmo ritmo do aumento da demanda, tanto que está
importando. Mais detalhes desse nó, você pode ver no programa que fiz
esta semana na Globonews. Está disponível no blog:
www.miriamleitao.com.br.
Tudo está mais complexo este ano, dificultando a vida de todos, até de
quem vive de escrever sobre assuntos econômicos. No começo do ano, o
Japão estava retomando o crescimento; a crise na Europa, acalmando; e
os Estados Unidos com perspectivas de retomada mais forte do
crescimento. Agora, o Japão está numa situação imprevisível, já que
seu desastre nuclear e os efeitos sobre as cadeias produtivas e a
economia ainda não estão inteiramente dimensionados. A recuperação
americana perdeu força, em parte pelo forte impacto do aumento do
preço do petróleo na renda disponível do consumidor. Na Europa, fica
difícil imaginar um cenário sem a reestruturação da dívida soberana de
alguns países. Aumentou muito a incerteza externa, enquanto o Brasil
faz uma transição para mais juros, para conter a inflação, e redução
do ritmo de crescimento.
Cansado de ser líder Rubens Ricupero
O iminente fracasso da Rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio), depois de dez anos de laboriosas negociações, é sintomático de tendência inquietante. Não existe mais uma potência hegemônica capaz de fazer as coisas acontecerem.
Durante mais de 60 anos, esse papel coube aos EUA, responsáveis pela ordem política e econômica construída sobre as ruínas da Segunda Guerra Mundial.
Essa ordem de inspiração liberal refletia a visão e os interesses americanos, mas gozava da crescente aceitação consensual da maioria dos outros países. Assentava-se nas grandes organizações internacionais criadas para administrar a ordem: as Nações Unidas, o FMI, o Banco Mundial, a OMC e seu antecessor, o Gatt.
Nasceram da evolução da consciência humana nas sociedades americana e europeia as principais ideias-força que ganharam forma nos tratados e programas promovidos por tais entidades: os direitos humanos, a democracia, o ambiente, a igualdade entre mulheres e homens, o desenvolvimento econômico, o Estado de bem-estar social, a economia de mercado, a liberalização econômica e comercial.
De algum tempo para cá, notavam-se certo esgotamento e perda de fôlego no avanço desses temas. A persistente crise do Conselho de Direitos Humanos da ONU, a falta de consenso para a reforma do Conselho de Segurança, a constante frustração em atingir as metas para o combate ao aquecimento global são alguns desses indícios da paralisia do impulso criador nas questões mundiais.
Até agora, porém, nunca se havia assistido ao que ameaça ocorrer na OMC: uma década de esforços jogados fora. Preocupados com o desgaste cumulativo de adiamentos em série, alguns propõem que se fixe data definitiva e inadiável para concluir a rodada com êxito ou para declará-la um fracasso.
Há muitas razões para o impasse nas negociações, mas a primeira delas é que lhes falta o fator decisivo em todas as oito rodadas anteriores: a liderança insistente e flexível dos americanos.
Desta vez, enfraquecidos pela interminável crise econômica e pelas dificuldades de se libertar de guerras impopulares no Iraque e no Afeganistão, desmoralizados pela estridência selvagem das divisões domésticas, os EUA revelam apetite cada vez menor para a liderança. Suas propostas irrealistas para a conclusão de Doha parecem mais manobras para transferir a outros a culpa pelo fiasco do que intentos sérios de edificar consenso.
O problema é que ninguém se dispõe a ocupar o vazio criado pela retração de Washington, a começar pela China que, fora dos negócios de seu direto interesse, demonstra inapetência ainda maior que a americana pelos assuntos globais.
Não era diferente a atitude do Japão na época em que parecia destinado a rivalizar com os EUA. O que impõe pergunta perturbadora, ainda que a deriva do eixo do mundo em direção à Ásia demore décadas: como seria uma ordem internacional pós-ocidental?
A não ser quando é imposta pela força, a hegemonia tem de ser cultural e moral, cimentada por ideais e valores partilhados por culturas e países diversos. Sabemos quais são os valores e ideais universais do Ocidente. Quem é capaz de dizer quais seriam os da China?
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