Entrevista:O Estado inteligente

quinta-feira, março 04, 2010

MÍRIAM LEITÃO Razão dos outros



O Globo - 04/03/2010


Num debate qualquer entre Brasil e Estados Unidos, eu preferia concordar com o Brasil. Por isso, salve o algodão, que é um dos poucos assuntos que o Brasil está coberto de razão. Mas, convenhamos, deixar que uma visita da secretária de Estado americana tenha no centro um debate sobre o programa nuclear do Irã é perder o nosso precioso tempo.

No algodão, o Brasil ganhou o direito de retaliar, dado pela Organização Mundial de Comércio, depois de provar que os EUA subsidiavam de maneira irregular o seu produto. A razão está conosco. O problema começa quando o governo brasileiro abraça causas internacionais.

O que leva o governo a gastar tanto tempo, munição, reputação, defendendo a ditadura do Irã, que reprime e mata manifestantes, que na área nuclear não cumpre determinações internacionais, mente e esconde partes do seu programa? O Brasil nada tem a ganhar ficando a favor de um país que a comunidade internacional condena, e essa não é uma questão que empolgue os brasileiros. Uma boa diplomacia tem que refletir os temas que são questões que preocupam o país. O programa nuclear iraniano, com todos os indícios de que não é bem intencionado, não é uma causa que mobiliza brasileiros.

Perguntados, certamente eles diriam que é mais sensato que o Irã se submeta à mais rigorosa fiscalização internacional. Quem compraria uma declaração de que o programa é para uso pacífico feita por Mahmoud Ahmadinejad? Só um ingênuo.

Vamos imaginar que o Brasil pense que assim se credencia para o Conselho de Segurança da ONU. Com sua defesa de um governo ambíguo pode estar fazendo o oposto: apresentando-se como ingênuo demais para o novo papel que quer ter no cenário internacional.

Como defender também o governo da Venezuela diante de tantas, tão frequentes e explícitas demonstrações de ataque à imprensa livre naquele país? A menos que tenha uma vocação por causas perdidas, o Brasil está errado em suas escolhas recentes de causas internacionais. Uma coisa é manter boas relações comerciais com os países, outra, bem diferente, é sustentar os pontos controversos defendidos por estes governos.

Uma diferença elementar, que a diplomacia de Lula não consegue perceber.

O governo de Cuba está decrépito. Por que um país vai defender o regime de Cuba? Defender o fim do embargo a Cuba o Brasil tem feito há décadas, e é justo. O que não é cabível é que um regime que está matando dissidentes há cinco décadas use o presidente Lula, e sua boa reputação internacional, como avalista dos seus crimes.

A frase de Fidel Castro "Lula sabe que nunca matamos, nem torturamos em Cuba" recebeu um silêncio aquiescente em Brasília. Fica assim o presidente do Brasil sabedor de uma informação que é só dele. Ninguém mais sabe isso. Porque o mundo inteiro pensa o contrário: que em Cuba dissidentes ainda são executados.

A secretária de Estado Hillary Clinton defende também que o Brasil reconheça o governo de Honduras. Há algum motivo para não fazê-lo? O governo foi eleito, ninguém acusou ou comprovou qualquer irregularidade. Mesmo condenando a retirada de Manuel Zelaya do poder pela força, o fato é que o mandato dele já acabou. Nossa relação é com Honduras e não com Zelaya. Qual é o motivo mesmo para não reconhecer o novo governo? Nós temos vários assuntos a discutir com os Estados Unidos. Hillary está até um pouco atrasada nesta viagem.

Só mais de um ano depois de iniciado o governo é que ela tem tempo de fazer um périplo pela América do Sul, confirmando a pouca atenção que todos os governos americanos dão para a região. O álcool brasileiro enfrenta uma absurda e excessiva barreira à entrada no mercado americano. Alguns dos grupos de lobby pró-Brasil na questão da sobretaxa do álcool deram recentemente sinais de que abandonam a defesa exatamente como reação à posição brasileira no Irã. Há, certamente, inúmeras outras questões que são mais de nosso interesse do que os direitos que tem o Irã de desrespeitar a comunidade internacional.

O argumento do Brasil de que "não é prudente encostar o Irã contra a parede" tem dois erros. Primeiro, aceita a chantagem, e, segundo, parte do pressuposto de que ele está sem alternativa. Recentemente, foi oferecida uma alternativa ao Irã. Ele entregaria urânio a vários países, que entregariam de volta material radioativo enriquecido.

O país se recusou. Até a Rússia, que sempre foi pró-Irã, e que ajudou a construir uma central nuclear no país, se irritou com essa posição intransigente.

No final do dia de ontem, Hillary foi a São Paulo participar de um debate com empresários americanos e alunos da faculdade Zumbi dos Palmares, criada como parte das ações afirmativas de formação e qualificação dos negros brasileiros. Foi ela quem pediu para ter um encontro com empresas americanas em algum projeto de responsabilidade que apoiassem. Foi escolhido o local como símbolo de uma das questões que o Brasil deveria discutir com mais frequência e sinceridade: as desigualdades raciais brasileiras.

Um país que tem um presidente negro, como Barack Obama, pode e deve tocar nessa ferida, que uma grande fatia dos brasileiros prefere simplesmente negar com argumentos datados e repetitivos.

ROBERTO MACEDO A errata do Santander e o futuro


O ESTADO DE SÃO PAULO - 04/03/10


Meu último artigo refutou estudo do Santander assinado por seu economista-chefe, Alexandre Schwartsman. Publicado no dia 9 do mês passado, concluiu que o presidente Lula e o governador Serra tiveram desempenhos fiscais semelhantes nos últimos três anos, em que exerceram mandatos simultâneos.

Tal conclusão contrastou com a muito difundida crença de que Serra é mais firme na gestão fiscal, ao conter despesas correntes, como as de pessoal e custeio, como proporção do PIB estadual, e privilegiar investimentos, como em infraestrutura. Na sexta-feira, entretanto, respondendo a uma nota técnica da Secretaria da Fazenda do Estado, e com pequena nota sobre meu artigo, o Santander publicou errata que reafirma a crença na firmeza fiscal de Serra.

Volto ao assunto por dois motivos. Primeiro, tendo em vista que reconhecer erros é incomum no Brasil, no caso até com pedido de desculpas, tanto o banco como Schwartsman merecem efusivos cumprimentos. O segundo é ressaltar o que ficou com essa retificação e outros aspectos interessantes do estudo e da errata.

Nas minhas preferências políticas tem peso importante a condição de economista. Como todos os brasileiros, quero o melhor para o País e sintetizo isso na busca do desenvolvimento econômico e social. Para alcançá-lo, entre outras metas, é fundamental ampliar bastante o investimento público, ou seja, gastos destinados à melhoria da frágil infraestrutura brasileira, alcançando também o investimento no ser humano, como em educação e saúde, e no estímulo ao desenvolvimento tecnológico.

Se o estudo original do Santander se revelasse correto, à minha frustração com o governo Lula, pela forma como gasta, se somaria sentimento similar com relação ao governo Serra. Recorde-se que o primeiro só despertou para o investimento público no seu segundo mandato, e ainda assim sonolentamente, com seu trôpego e pequeno PAC. Entretanto, como acompanho a gestão fiscal dos dois governos, estava convencido de que o estudo estava errado e, para escrever meu artigo anterior, fiz minhas próprias pesquisas sobre as despesas do Estado no site da Secretaria da Fazenda, além de buscar informações de autoridades da área.

O principal erro foi a contagem dupla de despesas estaduais com aposentadorias e pensões cujo pagamento, a partir de 2007, passou progressivamente a uma nova entidade estadual, a SPPrev. Com isso, veio também uma daquelas armadilhas capazes de fazer muitos analistas sucumbirem à Lei de Murphy, que diz que, se alguma coisa pode dar errado, em algum momento acabará dando errado. Meu entendimento do assunto, contudo, foi facilitado porque, como professor aposentado da USP, passei a receber da SPPrev, e quando isso começou indaguei sobre o que se passava. Assim, ao consultar as despesas do Estado não foi difícil perceber a dupla contagem de despesas, da Fazenda para a SPPrev e desta para seus beneficiários.

A errata deixou claro que o crescimento das despesas correntes, sempre como proporção do PIB estadual, foi contido no governo Serra. Mais precisamente, ela diz que "o investimento responde virtualmente por todo o crescimento das despesas primárias", que incluem a totalidade das despesas exceto os juros da dívida. Enquanto isso, conforme o estudo original, numa conclusão não alterada pela errata, no período analisado as despesas correntes representaram 70% do crescimento das despesas primárias federais. Vale repetir: quase zero desse crescimento no Estado de São Paulo e 70%(!) no governo federal.

Outro aspecto interessante dos dois documentos, e até aqui não abordado pelo noticiário, é que seu autor fez também a comparação das despesas correntes do Estado e do governo federal, deste último excluindo as do INSS. Textualmente, afirma-se que a comparação do tamanho dessas despesas sem essa exclusão "não é inteiramente justa", pois o governo federal é "responsável pelos pagamentos da Previdência Social".

Concordo que não é inteiramente justa, mas a expansão sensível também desses gastos foi uma decisão política do governo federal. Ainda que responsável pelos pagamentos, ele se mostra irresponsável na gestão da Previdência, expandindo fortemente seus gastos e deixando de lado o empenho numa reforma que cuidasse de suas distorções, como a aposentadoria precoce. Aliás, essa é a tônica do governo Lula: expandir despesas correntes, em particular beneficiando eleitores, ou seja, gente que vota. Crianças não recebem a mesma atenção.

Finalmente, outro aspecto do estudo original foi que, depois de comparar Serra e Lula, Schwartsman extrapolou suas conclusões para Serra e Dilma e para o futuro, o que levou alguns jornalistas a daí concluir que, quanto à firmeza fiscal, não se deveria esperar mais do primeiro do que da segunda. Na mesma linha a errata também deve ser examinada relativamente a essa conclusão.

Nesse contexto, cabe novo elogio a seu autor, pois em nenhum momento se mostrou interessado em comparar Lula e FHC, como fazem os petistas que, como os argentinos, querem avançar com forte olhar no passado. Ora, o que realmente interessa é o Brasil do futuro e em que mãos estará após as eleições deste ano.

Assim, permito-me extrapolar a errata na direção contrária à dessas conclusões que vieram do estudo original e reafirmar que firmeza fiscal se pode esperar mesmo é de Serra, e não de Dilma. Aliás, espero também que o resultado dessa discussão seja um dos pilares da comparação que virá no debate eleitoral.

E não me culpem pela extrapolação, pois o próprio governo federal e seu principal partido de apoio se empenham em dizer que Dilma é Lula. Serra é ele mesmo, como vem demonstrando no governo paulista.

Roberto Macedo, economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado à Faap, é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo

ALBERTO TAMER Distorção na indústria do Brasil



O Estado de S. Paulo - 04/03/2010

Há algo estranho no comércio exterior brasileiro. Sabemos que estamos nos transformando cada vez mais em exportador de commodities - as exportações representam 36,4% da nossa balança -, mas não sabíamos ainda que a indústria está importando cada vez mais matérias-primas e bens duráveis. Isto é, estamos importando produtos de consumo que também produzimos no País.

Em outras palavras, lembra editorial no caderno de Economia do Estado de ontem, "isso parece indicar que nossa indústria está se transformando cada vez numa atividade de montagem, importando mais bens e insumos para vender no País, sem chegar a ter uma produção competitiva nos bens de alta tecnologia".

Estamos em parte abastecendo o mercado interno não mais com produtos "fabricados", mas montados com itens importados. Leia-se, produtos da China, entre outros.

Não é uma desindustrialização, como se poderia dizer, mas um empobrecimento relativo da indústria nacional. É o que revelam os números da balança comercial no primeiro bimestre do ano anunciados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

"COMMODITIZAÇÃO"

Há explicações para isso, mas não convincentes. Afirma-se que é um processo decorrente do excepcional aumento dos preços das commodities nos anos dourados da economia mundial que antecederam à crise. Houve um crescimento extraordinário nas exportações de produtos agrícolas e minerais, que desde então passaram a dominar a pauta do comércio exterior. As vendas industriais também cresceram, mas em ritmo bem menor. O setor de commodities era mais bem estruturado que o setor industrial.

Outro motivo: a crise atingiu mais duramente a demanda de produtos industriais do que o agrícolas.

São argumentos válidos, mas não explicam totalmente esse aumento das importações (vejam bem, "importações" e não exportações de bens industriais, neste momento em que a economia mundial começa a se recuperar).

CÂMBIO, ETC.

Há ainda o argumento da desvalorização do dólar que favorece as importações, e até ajuda no controle da inflação. Mas esse é um fenômeno que afeta toda a pauta comercial, desde produtos como commodities a produtos industriais. Sei que é mais difícil exportar bens acabados, com alto valor agregado, que produtos primários, principalmente num mercado mundial ainda em recuperação. Isso, porém, não explica nem justifica o aumento das importações de bens intermediários do setor industrial.

No fundo, tudo indica estar havendo uma falta de política industrial integrada, difícil de se obter quando os ministérios não se entendem.

A manter esse clima, a tendência é de que não só a agricultura continuará superando a indústria na área do comércio exterior, como a própria indústria caminha para o que poderíamos chamar de "terceirização". É um processo ainda incipiente, mas perigoso por ser indolor.

1 BILHÃO DE FAMINTOS

Jamil Chade, correspondente do Estado em Genebra, está lançando hoje, no Shopping Higienópolis, a partir das 19h30, o seu livro O Mundo não é Plano. A tragédia silenciosa de 1 bilhão da Famintos. Um livro-análise-reportagem bem documentado sobre o drama da fome no mundo. Destaque especial para suas viagens à África e à Itália, onde viu de perto o desespero dos imigrantes ilegais que tentam fugir da fome.

quarta-feira, março 03, 2010

Celso Ming -Aposta no real


O Estado de S. Paulo - 03/03/2010
 

Enquanto os grandes fundos de hedge apostam na forte desvalorização do euro, um grande número de analistas do exterior vai recomendando a seus clientes que aumentem suas posições em ativos denominados em reais.

E é o que, em parte, explica a valorização do real nesses primeiros meses do ano (veja gráfico). Nos dois primeiros dias de março a cotação do dólar no câmbio interno voltou à casa dos 70 e fechou ontem a R$ 1,782.

A aposta a favor do real acontece num ano em que os resultados macroeconômicos do Brasil não são muito melhores do que os do ano passado. Ao contrário, o governo Lula continua gastando demais e há dúvidas de que conseguirá apresentar o superávit primário de 3,3% com que está comprometida a administração federal. A inflação ameaça descolar da meta de 4,5%, como o mercado vai temendo, o rombo nas contas correntes com o exterior poderá ser o maior desde 1947. Além disso, aumentaram as dúvidas sobre se o crescimento econômico em torno de 6% ao ano em 2010 é viável numa paisagem de fraca recuperação da economia global, comércio em retração, ameaça de formação de novas bolhas e bancos centrais travados na execução de sua política monetária (política de juros).

A nova atração que os investidores têm pelos ativos do Brasil é menos o resultado do desempenho da economia brasileira e mais o da desolação que se vê nos países de alta renda, quase todos esmagados por dívidas insuportáveis e enormes déficits orçamentários.

Nunca na história o mercado financeiro teve tanta liquidez à sua disposição. Os tesouros nacionais e os grandes bancos centrais despejaram um volume colossal de recursos (cerca de US$ 9,5 trilhões) com o objetivo de enfrentar a crise e tão cedo não poderão colocar em marcha a operação de enxugamento (estratégia de saída) porque o consumo global continua fraco, o desemprego ainda cresce e o setor produtivo mantém-se prostrado.

Enquanto isso, os investidores internacionais seguem indecisos. Ao longo das marés de aversão ao risco, as opções por aplicações seguras vão rareando. Como confiar no dólar e nos títulos do Tesouro americano se até mesmo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, adverte que a situação fiscal do seu país é insustentável a longo prazo? E como confiar no iene se o rombo orçamentário do Japão já é mais do que o dobro do recomendável e se o endividamento líquido do setor público japonês se aproxima dos 100% do PIB?

Sobre a reputação do euro nem é preciso alongar-se demais. A crise da Grécia, que pesa apenas 2,75% na economia da eurolândia, vai provocando uma devastação no valor do euro, que apenas neste início de 2010 já perdeu 5,0% em relação ao dólar.

Essas são as razões pelas quais aumentam as apostas sobre o real e são essas as mesmas razões pelas quais o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode alardear, como ontem alardeou, que a dívida pública do Brasil foi a que menos cresceu entre os países-membros do Grupo dos 20 (G-20).

E notem: porque terá mais inflação a combater, desta vez o Banco Central não terá a mesma disposição que teve em 2009 para sair à compra de moeda estrangeira de modo que evite a valorização do real.



Confira

O mercado de ações também é parte da aposta no Brasil, mas aparentemente está atrasado. O mercado parece mais impressionado até agora com ativos de renda fixa em reais. Ainda assim, a Bolsa demonstra ensaiar uma decolagem.

AUGUSTO NUNES A FRAUDE MASCARA O FIASCO DO PAC

VEJA ON-LINE

2 de março de 2010
Primeiro o presidente Lula debitou os atrasos nas obras do PAC na conta dos fiscais do Ibama. Depois, garantiu que o Brasil só não fora transformado no maior canteiro de obras do planeta por culpa da perereca gaúcha, do bagre do rio Madeira e das machadinhas indígenas. Em seguida, descobriu que a rede de sabotadores da grandeza da pátria agia sob o comando dos ministros do Tribunal de Contas da União. Até que não restou ninguém mais a responsabilizar ─ e o maior governante desde Tomé de Souza, em parceria com Dilma Rousseff, resolveu acobertar a coleção de fiascos com truques de estelionatário.

Uma reportagem publicada pela Folha de S. Paulo na edição desta terça-feira revela que os balanços do PAC têm sido discretamente maquiados ou grosseiramente fraudados para induzir o país a acreditar que vai muito bem o que se arrasta, patina ou não sai do lugar. Se o governo não adotasse a metodologia da vigarice, o mapa das obras seria um oceano de carimbos vermelhos ("preocupante") e amarelos ("atenção"), com um punhado de ilhas assinaladas em verde ("adequado"). Graças à maquiagem operada por trocas de datas e palavras, o desastre administrativo é apresentado como a prova definitiva de que não há outra gerente de país como Dilma Rousseff.

O trecho norte do Ferroanel de São Paulo não vai ficar pronto no quarto trimestre deste ano, como se previu em 2007? Troque-se "conclusão da obra" por "conclusão do projeto". O eixo norte da transposição do Rio São Francisco, com inauguração prevista para dezembro de 2012, vai esperar até o fim de 2014? Altere-se a data com discrição de punguista e não se fale mais nisso. O trecho Lapa-Pirajá do metrô de Salvador será só parcialmente concluído em dezembro? Inaugure-se a fatia possível e o próximo governo que cuide do resto.

A leitura da reportagem reafirma que Lula e Dilma são incompatíveis com a verdade. Fosse outro o país, a dupla de fraudadores, como na imagem de Nelson Rodrigues, estaria sentada no meio-fio chorando lágrimas de esguicho. Como o Brasil deu de tratar mentirosos compulsivos com a complacência reservada a meninos travessos, Lula vai continuar inaugurando pedras fundamentais e zombando, com o desembaraço dos inimputáveis, da inteligência do Brasil que presta.

"Tem gente que devia ter vergonha de torcer pra que dê tudo errado no governo do operário que virou presidente", declamará outra vez. Tem presidente que não tem vergonha de nada.

Merval Pereira Nervos de aço

O GLOBO

O pior cenário para o PSDB na sucessão presidencial ainda não aconteceu: no período entre maio e junho serão apresentados os programas de televisão de propaganda eleitoral da maioria dos partidos da base aliada, o que previsivelmente dará uma turbinada na candidatura oficial.

Nesse período crítico, que antecede as convenções partidárias, as pesquisas devem mostrar outra subida forte da já então exministra Dilma Rousseff, abalando a autoconfiança dos tucanos na possibilidade de vencer a eleição e, pior quer tudo, dificultando a ampliação das alianças partidárias.

Os programas do PSDB e de seus aliados DEM e PPS serão os últimos a serem transmitidos, próximo das convenções partidárias no fim de junho, em meio à Copa do Mundo.

Esse "timing" permitirá que o PT e seus aliados façam propaganda maciça, chegando às convenções animados com os resultados das pesquisas.

Tucanos temem que se repita o fenômeno que está acontecendo agora, com a divulgação do Datafolha apurado em cima do programa eleitoral do PSB com deputado Ciro Gomes ainda candidato; o programa do PV com a senadora Marina Silva, e o lançamento da candidatura oficial da ministra Dilma Rousseff pelo PT.

O único que não teve mídia nacional de dezembro a fevereiro foi o potencial candidato do PSDB, o governador de São Paulo, José Serra.

Ou melhor, teve, mas negativa por causa das chuvas torrenciais que inundaram São Paulo.

Ao mesmo tempo em que as chuvas afetaram a intenção de votos em Serra, que perdeu pontos preciosos na Região Sudeste, o seu forte, ele estaria aliviado por não ter cedido às pressões para sair do governo antes.

Poderia ser acusado de abandonar o estado por uma ambição política, enquanto no momento, mesmo com o prestígio talvez afetado, ele demonstra estar focado na tarefa de governar, passando a ideia de que se dedica à sua prioridade até o último dia que a lei permite.

Essa sempre foi, aliás, sua intenção ao retardar ao máximo a saída do governo: demonstrar que se dedicou até o último dia ao estado, esperando levar para a disputa presidencial a possibilidade de sair à frente de sua adversária com pelo menos seis milhões de votos.

Assim como em Minas o governador Aécio Neves representa o desejo do estado de voltar ao comando do país, em São Paulo o governador Serra representa a melhor aposta para que os paulistas continuem no poder central.

A tarefa do PSDB de São Paulo, na qual estão todos empenhados, é conseguir ampliar a votação do candidato do partido à Presidência da República, que há quatro eleições vence no estado com uma diferença entre 3,8 e 5,1 milhões de votos.

O secretário de Relações Institucionais de São Paulo, José Henrique Reis Lobo, que ontem deixou o governo, vai coordenar a interação entre as duas campanhas, a nacional e a estadual, que deverá ter o ex-governador Geraldo Alckmin como o candidato tucano.

Esse movimento é apenas a confirmação indireta do que já estava explícito: o governador José Serra não pensa em desistir da candidatura, embora continue muito preocupado com falhas que vê na organização da campanha.

A começar pela falta de unidade do partido até o momento, que seria fundamental para compensar as vantagens que a candidata oficial vem exibindo.

Seja a unidade partidária em uma ampla base aliada, seja o apoio explícito do presidente Lula, que não é reprimido até o momento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quando os dois deixarem os respectivos cargos, entre final de março e dia 3 de abril, estarão teoricamente em igualdade de condições, mas o presidente Lula continuará atuando fortemente.

Veremos então uma disputa judicial intensa para definir os limites do apoio do presidente. A interpretação da legislação eleitoral é muito sutil.

Há especialistas, por exemplo, que dizem que o presidente Lula poderá aparecer nos programas de propaganda eleitoral de Dilma, mas não poderá dizer que seus projetos sociais continuarão no governo dela.

Nem mesmo que ela dará continuidade ao seu governo, porque estaria colocando o cargo de presidente da República a serviço de uma candidatura, criando uma situação de desigualdade.

Que já está caracterizada, aliás, nas aparições de Lula ao lado de sua candidata oficial e das diversas entrevistas e declarações do presidente a propósito da sucessão presidencial, sempre apontando Dilma como sua escolhida para dar continuidade ao seu governo.

O que a lei eleitoral pune é o abuso do poder político e econômico. Há quem considere que Lula pode até mesmo subir nos palanques de Dilma, mas terá que fazê-lo fora do horário de expediente normal e talvez só mesmo nos fins de semana.

E não poderá fazer discursos.

Mas poderá levantar o braço de Dilma dizendo que ela é sua candidata.

Por sua vez, a candidata Dilma Rousseff não poderá comparecer às inaugurações de obras do governo, como vem fazendo até agora sob o pretexto de que está supervisionando as obras do PAC.

Ontem, o PSDB no Senado deu um primeiro passo no sentido de criar fatos políticos favoráveis, aprovando o estímulo aos alunos com boas notas inscritos no Bolsa Família.

De uma vez só, aproximou o Bolsa Família do Bolsa Educação, sua origem no governo Fernando Henrique, e aprimorou o sistema.

Mas não basta ao PSDB acer tar seu passo. Tem também que esperar que alguma coisa dê errado na estratégia do adversário.

Todos esses obstáculos dificultam a campanha oposicionista, e mais do que nunca José Serra terá que ter "nervos de aço" para atravessar os períodos de maior turbulência.

Dora Kramer Armadilha da apoteose

O ESTADO DE S. PAULO

A história sobre a possibilidade da formação de uma chapa presidencial reunindo os governadores de São Paulo e Minas Gerais tem mais ou menos a idade da candidatura de Dilma Rousseff.

Em fevereiro de 2008, o presidente Luiz Inácio da Silva anunciou ao Brasil que Dilma seria a "mãe do PAC", lançando o primeiro esboço de slogan de campanha da ministra escolhida para representá-lo na primeira eleição na qual não é candidato, desde a redemocratização.

Um pouco antes, no fim de 2007, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso começava a conversar sobre a chapa José Serra-Aécio Neves com interlocutores que poderiam levar o assunto adiante na imprensa em feitio de especulação ainda incipiente.

Na época, a ala política da equipe de Aécio Neves em Minas via a ideia com grande simpatia. Em Belo Horizonte, mais exatamente no Palácio da Liberdade, falava-se do assunto como a solução ideal.

O governador tergiversava, mas não rejeitava peremptoriamente o plano. Dizia apenas que era cedo para discutir o tema e que a formação da chapa com dois candidatos do PSDB poderia denotar arrogância do partido, que estaria, assim, dispensando de antemão parceiros de outras legendas.

Um parêntese: tese que o governador de Minas parece ter abandonado quando recentemente citou o nome do senador Tasso Jereissati para compor a chapa.

Nesses pouco mais de dois anos a história foi tratada na base das idas e das vindas, de um jogo de luz e sombra, mas nunca arquivada. Nem quando o governador de Minas passou a negar a hipótese com mais veemência e seus aliados a tratá-la quase como uma ofensa.

Por essas e algumas outras é que a conversa da chapa Serra-Aécio continua em pauta. É de se perguntar por que o partido e seus políticos sustentariam esse suspense durante tanto tempo se a solução, no final, pudesse ser outra que não a cogitada há mais de dois anos, esperada por toda a oposição e temida pelo adversário?

Seria pelo gosto ao exercício da dúvida? Bom para intelectuais, mas no campo político gera incerteza e para o eleitor recende a dubiedade, fragilidade e confusão.

Seria uma maneira de não entregar o jogo ao inimigo antes do início da partida?

Ou estariam os tucanos perdidos, divididos e prisioneiros de idiossincrasias internas?

Nesta última hipótese, não sustentam uma campanha vitoriosa. Nas outras duas, fica a dúvida sobre a eficácia da estratégia.

O partido criou, alimentou e promoveu a expectativa da formação de uma chapa tida como imbatível.

Agora fica prisioneiro de uma solução apoteótica, sob pena de patrocinar um anticlímax logo no início da campanha.

Talvez o PSDB tenha outra carta bem escondida para jogar ou pode ser que esteja tudo acertado nas internas entre os dois governadores. Caso contrário, os tucanos iniciarão sua trajetória com uma sensação de fiasco no ar, deixando a impressão de que não conseguem materializar uma aposta tão antiga. Da idade da candidatura Dilma.

Só pressão

Nem o PMDB nem o PT acreditam na ameaça feita pelo presidente Lula de se ausentar dos Estados em que houver divisão dos aliados, o chamado palanque duplo para a candidata Dilma Rousseff.

A intenção do presidente foi pressionar os parceiros a entrar num entendimento. Ocorre que ambos sabem perfeitamente bem que Lula não pode se dar ao luxo de desprezar contato com o eleitorado nem de escolher aonde vai ou não vai defender sua candidata.

Precisa ocupar todos os espaços possíveis se não quiser prestar um grande serviço à oposição.

Lé com crê

O deputado Ciro Gomes reafirmou em entrevista à revista Isto É que na opinião dele o governador José Serra não será candidato a presidente, deixando para o governador Aécio Neves a vaga.

Ao mesmo tempo, Ciro continuou confirmando sua candidatura presidencial.

De duas, uma: ou tem informação privilegiada ou não disse a verdade quando garantiu que sairia do páreo se o escolhido do PSDB fosse Aécio.

Pé ante pé

Cuidadoso, o ex-governador do Acre Jorge Viana fez a defesa da retomada pelo PT da bandeira da ética na política, em artigo no jornal O Globo de domingo.

O texto tem oito parágrafos. Nos seis primeiros, Viana justifica-se exaltando os feitos do partido no governo. No sétimo, toca no assunto: "É indispensável pontuar a política de alianças para a sucessão presidencial com a preparação de candidaturas éticas à Câmara e ao Senado."

No oitavo, propõe a reposição da questão ética "no mesmo lugar de destaque que ocupou há 30 anos, na fundação do Partido dos Trabalhadores".

Naquele tempo o tema era premissa básica nos arrazoados dos petistas, que hoje tratam do assunto quase como quem pede desculpas pela abordagem.

José Nêumanne Dilma nada de braçada nas águas de março

O ESTADO DE S. PAULO

A pesquisa divulgada pelo Datafolha domingo, constatando perda de cinco pontos porcentuais pelo candidato da oposição, o favorito governador José Serra (PSDB), e alta idêntica dos índices de preferência eleitoral da chefe da Casa Civil do governo Lula, Dilma Rousseff (PT), candidata governista, não surpreende ninguém. O jargão mais repetido sobre eleições reza que consultas à opinião pública são só retratos de um momento. Este é o flagrante de um verão no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passeou ao lado da candidata pelo País afora, ao arrepio da Justiça Eleitoral, gerida por um punhado de Pôncios Pilatos contemporâneos. E a oposição resistiu a apresentar ao eleitorado quem em seu nome se habilitaria à disputa. E não o fez por apreço à lei e à ordem, mas por solene desprezo pela realidade dos fatos. Dilma ganhou terreno por estar na disputa. Sem poder sair do governo nem ter um vice para chamar de seu, pois o partido não o definiu, Serra não entrou na liça.

Que culpa têm Lula e Dilma se a legislação eleitoral é casuística e vaga e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não toma as atitudes que tinha de tomar? As leis foram feitas por parlamentares a favor do governo e contra e o páreo está sendo corrido há um tempão. O glorioso PSDB não entrou ainda na arena só porque não quis. Ou porque não pode. O presidente nacional do maior partido de oposição do País, o atrapalhado senador Sérgio Guerra, diagnosticou que Dilma cresceu porque corre sozinha. Bidu! Entre as inúmeras tolices que andou dizendo pelo País afora, em prejuízo apenas de seu candidato, o insigne varão pernambucano proferiu esse acerto. Só que omitiu que Dilma só é candidata única porque o tucanato emplumado tem candidato, mas não consegue sair do armário. Culpa de Dilma, culpa de Lula?

Até os gansos do lago do Itamaraty sabem que Lula é um gênio nas manhas e artimanhas políticas e goza de um momento de popularidade espetacular. Se não perceberam isso, os oposicionistas incautos já deveriam ter consultado otorrinolaringologista e oftalmologista há muito tempo. Pensar que esse prestígio não será transferido para a candidata que ele indicar é esperar que o sol do sertão derreta a trilha do trenó de Papai Noel no próximo Natal.

A candidata do governo e do PT é inábil, bruta e jejuna em disputas eleitorais, além de padecer de uma doença grave. Na aparência, é um poste pesado demais para a musculatura do filho de dona Lindu. Na prática, sua consistente subida nas pesquisas desmente tais ilações. Mas talvez seja exagerado atribuir o sorriso que ela exibe no retrato das pesquisas apenas às virtudes do patrono. Convém prestar atenção nas lambanças dos adversários.

O cego Tirésias, que avisou a Júlio César sobre as desgraças que o atingiriam nos idos de março, não deve frequentar os sonhos dourados de Aécio Neves. Os nobres conceitos que ouviu do avô, Tancredo, cujo centenário é agora celebrado, não convenceram o governador de Minas de que há momentos na política em que até por esperteza os homens públicos devem recuar de suas ambições para lutar pelos interesses de seus eleitores. Ao recusar a vice-presidência na chapa do governador paulista, depois de preterido pelo partido, o moço mineiro dá até a impressão de que prefere perder para Dilma, apostando num mau governo dela para ele próprio aparecer como solução em 2014, a ficar preso à mera expectativa de oito anos à sombra do correligionário turrão. Do ponto de vista pragmático, a opção parece esperta. Mas, se se faz suspeito de um comportamento desse jaez, não entendeu o alerta do avô raposão segundo o qual a esperteza é um bicho perigoso, pois, se crescer demais, termina por devorar o dono.

Todos sabem que uma chapa Serra-Aécio sairia com uma diferença dos dois maiores colégios eleitorais do País - São Paulo e Minas Gerais - difícil de ser superada até por um matreiro do agreste como Lula. Mas essa hipótese hoje não parece plausível. Que culpa Lula e Dilma têm se os adversários não cedem sequer um milímetro em seus projetos pessoais?

Tirésias também teria dificuldades para convencer o prefeito Gilberto Kassab a parar de prejudicar seu padroeiro com aumento escorchante de IPTU, suspensão de merenda para crianças pobres e fechamento de albergues para os 13 mil sem teto que dormem nas calçadas da capital. Figura de proa do DEM, maior mico eleitoral do País desde que o ex-filiado José Roberto Arruda se mudou do palácio do governo do Distrito Federal para a prisão, o prefeito paulistano age como se estivesse disposto a salvar do afogamento as próprias fichas à custa do cacife do governador. Se São Pedro não tem sido amigo de São Paulo, afundando os idos de março nas águas do verão, Sua Excelência não lhes favorece o escoamento.

Vão tem sido ainda o esforço dos Tirésias de plantão para retirarem com açúcar e com afeto o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do embate direto contra seu sucessor petista, que só sonha com isso, pois é o melhor meio de facilitar a transferência de seu prestígio em votos para a candidata. Como se dispusesse, em início de ano eleitoral, a provar que a vaidade pessoal supera seus méritos acadêmicos, o príncipe dos sociólogos adotou o papel de Brancaleone da descriminação das drogas, como se levar à prática uma conjectura do mexicano Octavio Paz fosse hoje mais importante para o Brasil que a escolha de quem subirá a rampa do poder.

Vítima das dificuldades de Serra de exigir cartas no jogo em que Dilma as tem dado faz tempo, a candidatura tucana é esquartejada pela malícia oportunista de Aécio; triturada no lugar do lixo que divide as calçadas com os mendigos na cidade de Kassab; e pisoteada pela súbita vocação de psiquiatra, policial e assistente social de FHC, cuja visão fatigada não o deixa perceber com clareza o mal que as drogas fazem à sociedade e à candidatura de seu partido.

Miriam Leitão O Chile se preparou

O GLOBO

O Chile sempre foi apontado como modelo na região. Foi o país de crescimento mais rápido na América Latina em duas décadas, foi o que fez reformas mais cedo, tem a maior renda per capita, a melhor situação fiscal, e foi o que primeiro começou a se preparar para dias mais difíceis do ponto de vista fiscal. O dia difícil chegou. E agora se verá a vantagem de estar preparado.

Neste momento, a solidez fiscal ajudará a reconstrução de um país onde a terra tremeu numa dimensão que nenhum brasileiro, que não estava lá na hora, pode imaginar.

Deve ter sido aterrorizante para pessoas de um país que dorme no meio de estáveis placas tectônicas.

Como disse, de lá, a escritora Ana Maria Machado, em entrevista, se a noção de segurança para os seres humanos vem da terra firme, o que se pode dizer quando a terra não fica firme? O custo humano e econômico do terremoto é alto, mas o que o Chile está ensinando é que vale a pena se preparar.

Na economia, o país decidiu assim que o cobre começou a subir — junto com todas as outras commodities metálicas —, a partir de 2003, que era necessário constituir um fundo de reserva.

O nosso fundo foi feito na undécima hora. O deles, na primeira.

Em 2003, o país conseguiu com o cobre, que representa 50% das exportações, US$ 7,8 bilhões. No ano seguinte, o dobro disso, e continuou aumentando, até chegar a 2007, no pico, em que a exportação do produto rendeu US$ 37 bilhões ao Chile. Nos anos seguintes, caiu (veja o gráfico).

Nesse boom, de 2004 a 2007, o Chile decidiu constituir fora do país um fundo que impedia que a entrada excessiva de dólares da exportação valorizasse exageradamente o peso, e ainda promovia uma reserva para contingências. Isso, além do aumento das reservas cambiais e do ajuste das contas públicas.

Ele não é perfeito. Tem um aleijão fiscal que é a lei que determina que parte das receitas da Codelco, estatal de cobre, seja uma espécie de recurso extra-orçamento que financia as Forças Armadas. Esse atalho fiscal criado pelo governo militar nunca foi corrigido em duas décadas de governo civil de centro-esquerda.

O novo presidente, Sebastián Piñera, do partido de direita, prometeu alterar isso. A conferir.

As contas ajustadas, as reservas cambiais, o fundo de reservas off-shore, a reputação de ser fiscalmente responsável, tudo isso ajudará agora o Chile na hora da reconstrução.

O terremoto é doloroso seja qual for a situação. As primeiras contas mostram a necessidade de reconstruir 1,5 milhão de residências, o setor mais afetado.

Parte da infraestrutura foi atingida, o que complica a vida de um país que tem modelo exportador e é a economia mais aberta da América Latina.

O novo governo, que assumirá em oito dias, herdará o caos provocado pelo terremoto, a desordem civil criada pelo surto de saques, e o descontentamento social.

Assumirá o país que teve, depois de longo crescimento, uma recessão de 1,9% no ano passado e que em 2010 estava começando a retomar o crescimento.

Os analistas das diversas consultorias internacionais, que se debruçam sobre o Chile agora para fazer projeções, coincidem em que o primeiro trimestre foi definitivamente afetado.

Em março, a economia cresceria no ritmo de 4%, e ninguém sabe se vai crescer.

As previsões são otimistas no geral. A ideia é que o país retomará a normalidade na produção de cobre — o Chile é responsável por 35% da exportação mundial do metal — e voltará a atrair investimentos.

Tanto que o cobre subiu na segunda-feira, num primeiro momento, mas depois cedeu um pouco com a melhora das expectativas em relação à capacidade do país de voltar à normalidade. O peso se desvalorizou, para se recuperar ontem.

O Chile, no período do seu crescimento sustentado, reduziu drasticamente seus problemas sociais. De 1990 a 2006 diminuiu em 21% a desigualdade entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres. Reduziu o percentual de pobres em 64% e de extremamente pobres em 75%. Tem os melhores indicadores educacionais da região. Além disso, sabedor de que é uma área sujeita a terremotos e tsunamis, investiu no reforço da defesa civil.

Mesmo com todas as prevenções contra crises e desastres, o país está contando seus mortos e se preparando para um longo trabalho de reconstrução. De qualquer maneira, o Chile prova que o responsável é sempre se preparar para dias piores. Ele precisará de ajuda internacional e o custo será alto, mas o país tirou o melhor proveito dos momentos de abundância e terra firme. Já fez um bom trabalho por anos a fio, agora precisa de sorte. E solidariedade.

Que tenha os dois

terça-feira, março 02, 2010

Marco Antonio Villa -A oposição e seus desafios

FOLHA DE S. PAULO

Será um trabalho de Hércules transformar Dilma em candidata popular. Mesmo assim, a oposição vai ter muitas dificuldades

A oposição vai ter uma difícil tarefa. Não será nada fácil vencer a eleição de outubro. A aliança política que dará sustentação à candidatura oficial vai de Paulo Maluf a José Rainha.

O grande capital vai se somar às centrais sindicais. Os especuladores estrangeiros estarão de mãos dadas com os dirigentes dos "movimentos sociais". O presidente Lula usará -como já está usando- a máquina oficial. Para ele, não será uma simples eleição: joga o seu futuro político. Se a sua preposta perder, ele dificilmente terá chances de voltar à Presidência em 2014.

É sabido que a ministra Dilma Rousseff é uma candidata politicamente pesada, sem jogo de cintura, com dificuldade de comunicação e inexperiente em campanhas eleitorais. Foi uma jogada arriscada de Lula. Ele tinha outras alternativas dentro do PT. A opção por Dilma foi para ter controle absoluto da campanha e de uma eventual Presidência.

A candidata é neófita no PT, não tem história no partido. Nos sete anos como ministra, não estabeleceu relações mais estreitas com o Congresso Nacional, muito menos com as principais lideranças partidárias. Basta consultar sua agenda em 2009.

Em Brasília, recebeu somente sete governadores e dois senadores. Até os ministros foram esquecidos. Em um ano, atendeu 19 dos 36 ministros, a maioria deles somente uma vez. As exceções foram Guido Mantega e principalmente Alfredo Nascimento, Márcio Fortes e Edison Lobão.

Será um trabalho de Hércules transformá-la em candidata popular. Um exemplo: a tentativa de fazer uma omelete no programa "Superpop" foi um desastre (aliás, vale destacar que o vídeo, em oito partes, com um total de mais de uma hora, está disponível no site da Casa Civil sem que possamos saber qual a relação da entrevista com a ação administrativa da ministra).

O discurso na convenção do PT desanimou até os mais entusiastas apoiadores da ministra.

Foi burocrático, modorrento, lido ao estilo dos dirigentes dos antigos PCs da Europa oriental, mesmo tendo uma plateia que desejava, a todo custo, aplaudir a candidata. Depois da convenção, entre os dirigentes do PT, ficou reforçada ainda mais a ideia de que a candidatura Ciro Gomes é um perigo, pois poderá suplantar Dilma rapidamente, após o início efetivo da campanha eleitoral, quando ela não poderá simplesmente ser a candidata de Lula.

Mesmo assim, a oposição vai ter muitas dificuldades. Terá de enfrentar -ainda que não diretamente- Lula, que é o presidente que melhor conseguiu se comunicar com o povo.

Nesse quesito Lula é um craque.

Adora cerimônias públicas e detesta o trabalho administrativo. Criou uma nova forma de a Presidência se relacionar com o país. E agradou os eleitores e os jornalistas (facilitando as manchetes do dia seguinte). Pela primeira vez (expressão tão ao seu gosto) vai ter de assistir, mas sem participar, de uma campanha eleitoral. Veremos se conseguirá.

A oposição deve estabelecer um programa político que aponte para as tarefas que o país terá de enfrentar na segunda década do século 21. Terá de dizer o que vai fazer com os programas assistenciais, como o Bolsa Família. Se é certo que o embrião do programa vem do governo anterior, foi o atual que expandiu o benefício. A candidata oficial certamente afirmará que a oposição quer extinguir o programa, que hoje tem entre seus beneficiários 13 milhões de famílias, representando quase 50 milhões de eleitores, cerca de 40% do eleitorado.

E que tipo de Estado deseja a oposição? O da revolução de 1930 ou outro que consiga dar conta dos desafios do século 21? Para o Nordeste, vai manter a transposição das águas do São Francisco, projeto que não enfrenta os problemas da região e só serve para favorecer as empreiteiras? Terá algum programa para a região, longe dos paradigmas do século 20, como foi a absurda recriação da Sudene? E para a Amazônia, o que propõe? Falará da defesa nacional? Vai apoiar a compra dos caríssimos aviões franceses? Concordará com a aquisição dos submarinos que não conseguem submergir? E os problemas das grandes cidades, a política econômica, a saúde, a segurança pública?

Não faltam problemas e críticas ao atual governo, mas o que a oposição precisa é mostrar para o eleitor que pode governar melhor que o PT. Deve explorar as contradições do bloco governamental, mostrar a fragilidade da candidata oficial, que está encoberta, momentaneamente, sob a proteção de Lula. Em suma: a oposição terá de ir para o enfrentamento, fazer política, sob o risco de desaparecer.

DORA KRAMER Intenção e gesto

O Estado de S.Paulo - 02/03/2010


A pesquisa Datafolha registrando as perdas (para José Serra) e os ganhos (para Dilma Rousseff) da pré-disputa eleitoral nos últimos dois meses não surpreendeu, mas abalou os nervos da oposição e deve alterar a agenda do PSDB para o mês de março.

O governador de São Paulo continua firme na decisão de só anunciar oficialmente a candidatura no início de abril, o que faz com que seus companheiros de partido antevejam um período de adversidades daqui até lá. Será uma travessia dura de aguentar, constatam.

Serra já sabia que as pesquisas apontariam o crescimento de Dilma e havia sido alertado que poderia mesmo haver um empate técnico. Ainda assim, no sábado, quando os números da pesquisa já circulavam dando conta da redução da dianteira do tucano para 32% e do aumento do porcentual da petista para 28%, o tucanato constatou que, se algo não for feito no campo da comunicação com a sociedade, na próxima pesquisa Dilma poderá passar à frente de Serra.

Esse "algo" teria também o objetivo de pôr um fim às especulações de que o governador desistiria da candidatura presidencial para concorrer à reeleição.

Essa hipótese está fora de cogitação na seara tucana. É disseminada pelo PT, por motivos óbvios, e, segundo identificou o PSDB, por lideranças do partido que ainda apostam na possibilidade de o governador Aécio Neves vir a disputar a Presidência.

Como antecipar o anúncio Serra não vai, o mais provável é que faça gestos no sentido de confirmar a candidatura, deixando claro que a data do anúncio não altera a decisão, já tomada, de se candidatar.

Que tipo de gesto? Por exemplo, semelhante ao feito no carnaval, quando Serra compareceu a camarotes em desfiles no Nordeste. Não o fez por amor a Momo, mas para marcar presença de candidato.

No PSDB a expectativa é de que o primeiro desses "gestos" seja feito nos próximos dias em Minas Gerais, durante a festa em comemoração aos 100 anos de nascimento de Tancredo Neves, avô do governador Aécio e sonho de consumo de 11 em cada 10 tucanos interessados na chapa puro-sangue.

Cautelosos, os correligionários de José Serra não ousam falar na possibilidade de o governador de Minas fazer a gentileza partidária de, na ocasião, dar algum sinal de que está viva a hipótese da composição dos dois em uma chapa e mortíssima a ideia de ser o candidato no lugar de Serra.

Não falam, mas torcem para que ocorra algo nessa linha.

Qualquer coisa para fazer frente à ofensiva governista, que, além da campanha de Lula, ainda teve a seu favor a realização do Congresso do PT com o lançamento da candidatura de Dilma Rousseff e o noticiário desfavorável ao PSDB por causa das enchentes em São Paulo.

Por mais que o partido procure manter a frieza e analisar os números com racionalidade face às circunstâncias, em disputas políticas desprovidas de conteúdo como as nossas, o que vale são as aparências.

Até agora, o que sustenta o ânimo da oposição é a dianteira de Serra a despeito da campanha explícita, diária e poderosa do presidente Luiz Inácio da Silva em prol de sua candidata.

Se Dilma assumir a liderança, o trunfo se perde. Ainda que não signifique uma representação real do cenário da campanha propriamente dita, isso tem influência na composição de alianças com partidos que compõem a base governista e não pretendem abdicar do posto seja quem for o presidente.


Pacto sinistro

Qual seria a opinião da combativa Dilma Rousseff se um presidente soi-disant de esquerda, de país democrático, autor de um plano de defesa dos direitos humanos que visitasse o Brasil durante a ditadura militar e ignorasse os presos e torturados, tripudiasse de suas agruras, para se confraternizar com o regime?

A dúvida não inclui o então sindicalista Luiz Inácio da Silva, que já se manifestou mais de uma vez sobre sua alienação a respeito do que se passava no País para além do ufanismo do "Brasil grande" em que a economia era celebrada e as liberdades, as garantias e os direitos civis ignorados.

Mal comparando, é mais ou menos como ocorre hoje em relação ao caráter excludente entre os conceitos de ética e governabilidade.

Refém do autoritarismo, prisioneira nos subterrâneos do arbítrio, a jovem militante Dilma teria todos os motivos para desconfiar da sinceridade dos propósitos democráticos do governante em questão.

Pois é exatamente essa semente da suspeição que Lula plantou nas mentes que tanto o admiram no plano internacional com as declarações desumanas que fez em Havana a respeito da greve de fome, da morte e em apoio ao tratamento que a ditadura cubana conferiu ao caso do dissidente Orlando Zapata.


José Mindlin

Não é sempre, mas de vez em quando soa injusto quando a natureza aplica a regra geral da inexorabilidade da partida

MERVAL PEREIRA Minas decide

O Globo - 02/03/2010


As pesquisas eleitorais estão demonstrando que a estratégia traçada pelo presidente Lula para vencer a eleição deste ano está dando certo, enquanto a do PSDB esbarra mais uma vez na divisão partidária.

Mesmo tendo literalmente inventado a candidatura de Dilma Rousseff, empurrando-a goela abaixo do PT, Lula conseguiu passar para sua base um sentimento de preservação do poder que produziu uma unidade partidária que está levando o projeto adiante com bons resultados.

Mesmo que conte para isso com a leniência de nossa Justiça Eleitoral, que se pega em formalismos para não conter os evidentes avanços presidenciais aos limites legais da propaganda fora de época.

Já os tucanos mais uma vez se debatem em disputas internas, sendo a mais visível e fundamental aquela entre os governadores José Serra e Aécio Neves, que continua latente mesmo depois da desistência do mineiro de disputar a Presidência.

Ainda existem bolsões de resistência à candidatura Serra, que veem nos resultados das últimas pesquisas um sinal de fraqueza, embora ele continue na liderança.

Mas não parece viável uma desistência a esta altura, a começar pelo perigo de Serra colocar mesmo em risco uma reeleição ao governo paulista com a fama de medroso.

Além do mais, apesar do bom momento de Dilma, o candidato tucano ainda está na frente e, sem Ciro na disputa — o que hoje é quase certo —, ele se mantém na faixa dos 40% dos votos, tendo perdido apenas 2 pontos percentuais, dentro da margem de erro.

Seria preciso que caísse muito para chegar aos 18% que o governador mineiro ostenta no momento nas pesquisas.

Mesmo assim, sem o apoio de Aécio, dificilmente Serra conseguirá vencer a eleição.

Mais do que nunca o PSDB está procurando uma maneira de explicitar para o eleitorado mineiro — e nacional — que seu governador Aécio Neves está comprometido com a vitória de José Serra na eleição presidencial.

Mesmo que não venha a aceitar ser candidato a vice na chapa tucana, é preciso que Aécio tenha um papel preponderante na campanha, e o cargo de coordenador nacional pode lhe ser oferecido.

A tese fundamental que anima o PSDB, mesmo diante da constatação de que a candidatura oficial de Dilma Rousseff está crescendo até mais rápido do que se imaginava, é que os estados mais importantes do Sudeste — Minas, São Paulo e Rio — podem garantir a vitória e, sobretudo, que quem vencer em Minas ganha a eleição no Brasil.

O panamenho José Perigault, que fundou o Ibope juntamente com Paulo Montenegro, descobriu certa ocasião que o bairro do Méier era representativo de todo o estado do Rio de Janeiro. O resultado de uma pesquisa no bairro dava praticamente o mesmo resultado do estado.

Anos depois, Carlos Augusto Montenegro, filho do fundador e atual presidente do Ibope, descobriu que o estado de Minas Gerais é o reflexo do Brasil.

Tem sua parte Nordeste na região do Vale do Jequitinhonha, e por isso faz parte da Sudene; ao mesmo tempo é a segunda economia do país (disputando com o Rio), com uma região fortemente industrializada, grande influência paulista na divisa com São Paulo; Juiz de Fora é muito ligada ao Rio de Janeiro; e o estado tem no agronegócio uma parte influente de sua economia.

O resultado das eleições presidenciais lá tem refletido essa lógica, e, desde a redemocratização, nenhum presidente foi eleito sem vencer em Minas.

Como nunca houve um candidato mineiro para distorcer os números — Aécio, por exemplo, foi eleito com 70% dos votos em 2006 —, os resultados refletem cada vez mais a média nacional.

Em alguns casos, como em 2006, o resultado local foi praticamente igual ao nacional: Lula teve 50,80% (48,6% no país), contra 40,6% (41,6% no país) de Alckmim.

Em 1989, Collor teve 36,1% em Minas (30,5% no país) contra 23,1% (17,2%); em 1994, Fernando Henrique teve 64,8% em Minas (54,3% nacional) contra 21,9% de Lula (27%); em 1998, FH teve 55,7% em Minas (53,1% nacional) contra 28,1% de Lula (31,7% nacional). Em 2002, Lula venceu com 53% (46,4% nacional) e Serra teve 22,9% (23,2%).

No Rio de Janeiro, Serra continua um pouco na frente de Dilma, em que pese o fato de os dois principais candidatos ao governo serem da base aliada: Sérgio Cabral (PMDB) e Garotinho (PR).

O apoio de Gabeira, do PV, mesmo indireto — ele estará no palanque da senadora Marina Silva —, é considerado importante.

Em São Paulo, o governador Serra acredita que tem condições de tirar cerca de seis milhões de votos de diferença, número que nenhum candidato tucano conseguiu alcançar nas últimas eleições.

Em 1994, Fernando Henrique teve 4,6 milhões de votos de diferença para Lula, ampliando para 5,1 milhões em 1998. Em 2002, mesmo não sendo governador, Serra venceu com uma diferença de 4,5 milhões de votos, e em 2006 o ex-governador Alckmin teve sobre Lula uma diferença de 3,8 milhões de votos.

Todas essas eleições foram disputadas contra Lula, o que dá uma dimensão da dificuldade maior da tarefa que Serra tem hoje contra Dilma.

O PSDB vem consolidando um domínio do território paulista que se reflete no resultado das eleições locais. Serra foi eleito no primeiro turno contra Mercadante, e atualmente o ex-governador Geraldo Alckmin aparece como o favorito, tendendo a vencer também no primeiro turno contra um PT que não tem candidato ao governo paulista e tenta inventar a candidatura de Ciro Gomes, o que, provavelmente, só fará aumentar as chances de Alckmin vencer no primeiro turno.

Todas essas contas tucanas, no entanto, só terão validade se a transferência de votos de Lula para sua candidata não for além daquela faixa de 1/3 dos eleitores que tradicionalmente vota no PT.

Se, no entanto, como afirmam os petistas, os eleitores começarem a identificar Dilma com a continuidade do governo, será difícil derrotála. A delicada tarefa de Serra é derrotar Dilma sem atacar Lula.

ELIANE CANTANHÊDE Vespeiros

FOLHA DE SÃO PAULO - 02/03/10


BRASÍLIA - Brasília entra numa roda-viva de ilustres visitantes internacionais a partir de amanhã, com o governo Lula em cima do muro numa área que já foi tão cara à esquerda: direitos humanos.
Não que haja mais ou menos agressões a presos aqui, pois elas continuam graves como sempre. O problema é a posição -ou a falta dela- diante de dois casos condenados mundo afora: Cuba e Irã.
Na semana passada, Lula deu o azar de ir a Cuba com a ilha se contorcendo em dores pelo pedreiro Orlando Zapata Tamayo, 42, que preferiu a greve de fome e a morte a suportar o regime calado.
O sacrifício de Tamayo remete à velha esquerda do Brasil. Mas a que assumiu o poder não se solidariza com ele. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", deu de ombros Marco Aurélio Garcia, assessor internacional de Lula.
Ou a esquerda rendeu-se às conveniências do poder, ou a morte de quem resistia à ditadura brasileira era heroísmo e a de quem resiste à cubana é bobagem. Entre o martírio de Tamayo e o regime de Fidel, louve-se o regime.
Em maio, Lula vai se meter em outro vespeiro. Ao desembarcar no Irã, estará sujeito às picadas tanto dos manifestantes iranianos contrários ao regime como da comunidade internacional, que não considera as aventuras nucleares do país nada inocentes. Quem diz, aliás, é o diretor da AIEA, a agência de energia atômica, que também vem ao Brasil em março.
Tomara que não haja execuções políticas com Lula lá -em Teerã. Mas, por precaução, Garcia deve ensaiar melhor uma outra fala, bem diferente da de Cuba.
Hillary Clinton chega hoje. Depois, os reis da Espanha, os da Suécia, o primeiro-ministro da Itália, o ministro do Exterior da Alemanha.
E Obama vem aí! Já imaginou o Brasil, 25 anos depois da ditadura, ficando constrangido diante do Primeiro Mundo justamente por causa de direitos humanos?

FERNANDO DE BARROS E SILVA Aécio: prós e contras

Folha de S. Paulo - 02/03/2010
SÃO PAULO - Aécio Neves faz questão de deixar claro que não quer ser candidato a vice numa chapa com José Serra. Isso não significa, necessariamente, que não será. Na política, a vontade e as circunstâncias vivem em permanente disputa. Não sabemos o que prevalecerá neste caso. Mas, qualquer que seja a escolha de Aécio, ela comporta vantagens e desvantagens.
Quais seriam as razões para não aceitar a vice? Ninguém desconhece que os tucanos terão uma campanha muito difícil. Fora da chapa, Aécio evita o risco de ser sócio da eventual derrota -ou até de um fiasco histórico. Mais: se dissocia da geração do PSDB que enfrenta agora a sua última grande batalha e fica em condições de se apresentar no dia seguinte como o nome capaz de juntar os cacos da oposição. Seria não o pós-Lula, mas o pós-Serra.
No entanto, se Aécio se ausentar do jogo e Serra produzir, sem ele, o milagre da vitória, este talvez seja o pior desfecho para o mineiro.
E quais razões teria ele para aceitar o café com leite tucano? Aécio seria sócio de uma hipotética vitória e não poderia ser crucificado por uma eventual derrota. Receberia, além disso, ao menos em tese, uma boa fatia do poder conquistado.
Mas nada disso parece sensibilizar o governador. Ele tem reagido aos apelos alegando que o efeito positivo de sua entrada como vice na campanha seria apenas momentâneo e iria se diluir no processo, tendendo para a total irrelevância.
Os tucanos insistem porque, sem "amarrar" Minas, o segundo maior colégio eleitoral do país, suas chances ficarão muito escassas. Mas Aécio diz que tem condições de trabalhar melhor o eleitorado mineiro se fincar os pés no Estado e concorrer ao Senado, como pretende.
O que pode parecer um diálogo de surdos é, na verdade, um sintoma de prioridades distintas. A de Aécio é eleger o seu vice, Antonio Anastasia. Ser derrotado em casa ao cabo de oito anos para Hélio Costa ou para o PT seria desastroso. De certa forma, até pior do que ver o sonho de Serra virar pesadelo.

CELSO MING Foco errado

O Estado de S.Paulo - 02/03/2010


Sempre que as estatísticas apontam para um resultado fraco no comércio exterior, o governo se apressa em anunciar a elaboração de um poderoso pacote de medidas para incentivar as exportações. Quando sai alguma coisa, sai um traque, que pouco ajuda a alavancar as vendas externas.
Desta vez, o governo promete novos mecanismos de crédito automático e certas providências "tecnicamente complexas", como ontem avisou o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral. Como das outras vezes, serão bem-vindas, mas não dá para contar com elas para uma rápida alavancada das exportações.
O momento é de forte aumento do consumo interno, que vai sendo turbinado não propriamente pelo dólar barato, como tanta gente fora e dentro do governo está sempre disposta a alardear, mas pelo aumento das despesas correntes do governo federal, pela expansão do crédito e, também, pela desoneração fiscal de alguns impostos.

O resultado desse crescimento do consumo a níveis provavelmente superiores a 7% ao ano é tanto o aumento das importações, que dispararam 31,2% nos dois primeiros meses deste ano quando comparados com igual período de 2009, quanto o avanço mais baixo das exportações, de 24,5% no mesmo intervalo, porque o consumo mais alto deixa menos sobras exportáveis.

Sempre que anuncia a preparação de estímulos para incentivar as exportações pode-se desconfiar de que o governo esteja tratando o problema com o foco errado. Não se trata de empurrar exportações. Trata-se de dar competitividade ao produto brasileiro diante da concorrência externa, não importando aqui se ele vai para o mercado interno ou se vai para fora.

E, se o governo federal fosse sincero quando afirma que vai incentivar exportações, teria tomado medidas mais eficientes.

Em primeiro lugar, estaria mais disposto a devolver os créditos garantidos pela Lei Kandir, a isenção de impostos nas exportações que não chega nunca a quem tem de chegar.

Em segundo lugar, seria mais determinado e mais eficiente na derrubada do custo Brasil, o conjunto de fatores que encarece o produto nacional. Na lista está a carga tributária alta demais, de cerca de 37% do PIB. Estão os juros escorchantes fora de padrão internacional cobrados do setor produtivo, como os 37% ao ano no desconto de duplicatas e 30% ao ano no capital de giro. Está, também, a infraestrutura precária como essas estradas mal traçadas e esburacadas que impedem a chegada just in time da matéria-prima, do componente e do produto acabado. E estão os portos lentos e mal equipados.

Em terceiro lugar, se estivesse mesmo empenhado em estimular as exportações, o governo seria bem mais agressivo na negociação de tratados comerciais e não daria tanta moleza para os argentinos quando estes barrassem sem nenhuma cerimônia, como vêm barrando, o produto brasileiro que toma o rumo do seu mercado, que, aliás, é parte da mesma área de livre comércio.

Às vezes o exportador acredita nesse discurso do governo; outras, finge que acredita, porque também não pode desdenhar nenhuma novidade benfazeja. Mas não pode perder de vista que problemas mais profundos têm de ter soluções mais profundas.

Confira
Subindo - A cada semana aumenta a expectativa de inflação medida pela pesquisa Focus. Já está perto dos 5,0%, num ano em que a meta é 4,5%. O ministro Guido Mantega (Fazenda) admitiu que o consumo crescerá perto dos 7,5%. Não está claro se o setor produtivo conseguirá garantir o abastecimento sem pressão sobre os preços.

segunda-feira, março 01, 2010

FERNANDO DE BARROS E SILVA Águas de março

Folha de S. Paulo - 01/03/2010
SÃO PAULO - Com sentimentos opostos, petistas e tucanos manifestaram surpresa com o resultado do Datafolha. Embora quase todo mundo esperasse o crescimento de Dilma Rousseff, quase ninguém acreditava que ela pudesse encostar em José Serra tão cedo e tão rapidamente. Encostou. Os quatro pontos que agora os separam -Serra com 32%, Dilma com 28%- resultam tanto da subida da petista como da queda do tucano -cinco pontos cada um-, o que só aumenta o desconforto do (por ora) líder.
Consolida-se a percepção -que já se tinha mesmo com a diferença anterior, de 14 pontos- de que a segunda colocada é a favorita da disputa. A seu favor jogam a popularidade de Lula, a máquina do governo federal, a situação econômica do país, a militância petista e a aliança política mais ampla e com mais tempo de TV.
Contra Dilma, quem sabe, só ela própria, que busca a Presidência sem nunca ter disputado um voto na vida e ainda é vista por muitos como um peso difícil de carregar. Aos tucanos restaria como consolo o argumento de que, roçando nos 30%, a ministra ainda está abaixo daquele terço do eleitorado historicamente simpático ao nome do PT.
Seja como for, já caducou o discurso de Ciro Gomes de que sua candidatura presidencial seria uma forma de garantir o segundo turno. O roçado de Ciro foi atropelado pelo trator governista.
As atenções agora se voltam para os tucanos. São duas as questões: 1. Serra ainda pode desistir?; 2. Aécio aceitará ser o seu vice? Serra gostaria de ter a segunda resposta antes de se definir publicamente. Hoje, no entanto, o mais provável é que aceite enfrentar o desafio da disputa sem a certeza prévia de que contará com o mineiro em sua chapa.
Não há dúvida de que Aécio agora será muito pressionado pelos tucanos. Mas quem precisa dizer a que veio antes que as águas de março fechem o verão é o governador de São Paulo.

DENIS LERRER ROSENFIELD Mundo às avessas

O Estado de S. Paulo - 01/03/2010
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), numa iniciativa primorosa de sua presidente, senadora Kátia Abreu, criou, em fevereiro, o Observatório das Inseguranças Jurídicas no Campo, voltado para um levantamento sobre esse assunto no Brasil. Temos observado nos últimos anos o direito de propriedade ser pisoteado, como se ele fosse uma espécie de usurpação, e não a condição mesma de sociedades livres.

O evento contou com a presença do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ministro Gilmar Mendes, que fez uma bela conferência sobre os direitos fundamentais num Estado democrático, mostrando o protagonismo da mais alta Corte de nosso país na defesa das liberdades e do Estado de Direito. Convém frisar que o ministro Gilmar Mendes se tem destacado na defesa do ordenamento constitucional do País, das liberdades fundamentais e da segurança jurídica. Nada aparentemente fora do lugar, salvo algumas reações que bem mostram a dificuldade do País no amadurecimento do Estado Democrático de Direito.

Em artigo publicado dia 19/2 no Jornal do Brasil, o jurista Dalmo Dallari tomou as dores dos movimentos sociais - a saber, do MST e das pastorais da Igreja Católica - e investiu pesadamente contra o ministro Gilmar Mendes e a senadora Kátia Abreu. Chegou até a qualificar o acordo assinado entre a CNA e o CNJ, tendo como objetivo a segurança jurídica, de "corrupção institucional". Por que uma reação tão virulenta contra um acordo que nada mais faz do que reforçar o que é assegurado pela própria Constituição?

O argumento apresentado - se é que se pode dizer que seja um argumento - é o da presença do presidente do STF numa entidade empresarial, cujo setor responde por mais de um terço do produto interno bruto (PIB) brasileiro e tem sido objeto de invasões, sequestros e violências dos mais diferentes tipos, patrocinados pelo MST, pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). É como se presidentes do STF e do CNJ não pudessem - nem devessem - defender o direito de propriedade e as liberdades fundamentais. O que causa espanto é que tal "indignação" não se dirija também ao presidente da República, que reiteradas vezes recebeu esses ditos movimentos sociais, cuja prática cotidiana é o crime e o ilícito. Quem respeita a Constituição é condenado e quem a desrespeita, elogiado.

Causa ainda surpresa o eminente jurista se insurgir contra o fato de Kátia Abreu ser senadora e presidente de uma entidade empresarial. Reinaldo Azevedo, com muita propriedade e ironia, observou, em seu blog, que a mesma indignação não se fez presente em relação a outros presidentes de confederações de empresários e trabalhadores que acumulam funções parlamentares e de representação sindical. Por que uma indignação tão particular? Por que o silêncio quanto ao aparelhamento do Estado, tomado por sindicatos e movimentos sociais?

Silêncio tanto mais assustador porque se faz justamente a propósito da captura de órgãos do Estado pelos ditos movimentos sociais. O MST e a CPT estão particularmente presentes no Ministério do Desenvolvimento Agrário, em especial no Incra e na Ouvidoria Agrária Nacional. Tais órgãos se tornaram verdadeiros focos de insegurança jurídica. Denúncias de corrupção e de desvio de recursos públicos são cada vez mais abundantes, favorecendo esses movimentos sociais, que são, assim, financiados pelos próprios contribuintes que têm suas propriedades invadidas. Sobre essa verdadeira corrupção, institucional e financeira, o silêncio é ensurdecedor.

Kátia Abreu foi qualificada como "lobista notória". A qualificação é tanto mais interessante pelo fato de o eminente jurista ter participado de uma mesa-redonda na mesma CNA a convite da própria senadora. O evento foi realizado em 10 de novembro de 2009 e teve como tema "O direito de propriedade e os índices de produtividade". Participei dessa mesa-redonda e não ouvi nada de desabonador à CNA nem à senadora. Aliás, as relações foram muito cordiais. Por que, então, esse arroubo? Ou seja, o ministro Gilmar Mendes não deveria ter aceitado o convite para comparecer a essa entidade empresarial na assinatura de um acordo, enquanto o dr. Dalmo Dallari não se constrange em se reunir com uma "lobista notória". A CNA mostra-se pluralista, os seus críticos exibem o seu viés dogmático.

Aliás, em sua intervenção na CNA, o dr. Dalmo Dallari não teceu nenhuma crítica às invasões do MST e da CPT por todo o Brasil, contentando-se com generalizações sobre a necessidade da reforma agrária. Mesmo provocado, disse desconhecer o caráter marxista do MST e das pastorais da Igreja, apoiadas pela Teologia da Libertação. Até o atual papa já criticou o marxismo da Teologia da Libertação, mostrando a sua incompatibilidade com a doutrina cristã.

Tal "desconhecimento" é preocupante por serem esses ditos movimentos sociais verdadeiras organizações políticas que procuram implantar no Brasil o socialismo/comunismo. Basta a leitura dos documentos e manuais dessas organizações, nada difícil de ser feita. O material é abundante. Seu objetivo consiste em subverter a ordem constitucional, começando pela relativização do direito de propriedade, pela não-obediência ao Estado de Direito e pelo desrespeito às instituições democráticas.

Se o Observatório já causa tanta reação é porque ele rompe o monopólio da informação, até agora em poder das pastorais da Igreja, que se vinham arrogando a posição de porta-vozes morais do campo brasileiro. Na verdade, vinham acobertando e justificando a violência e a insegurança jurídica. Vinham formando a opinião pública nacional e a internacional. Doravante serão obrigadas a escutar outras vozes, ao pluralismo. Bem-vindo seja o Observatório das Inseguranças Jurídicas no Campo. E que essa iniciativa possa ser ampliada às cidades e a outros setores da vida nacional.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG A vida tem preço e é cara

O Estado de S. Paulo - 01/03/2010
A coluna da semana passada, sobre a regulamentação que a Anvisa tenta impor às farmácias, provocou vários comentários. Agradecendo, deixo de lado as mensagens de apoio aos pontos de vista que apresentei e relaciono algumas opiniões contrárias, todas de farmacêuticos e estudantes de Farmácia. (A coluna pode ser consultada no arquivo do Estadão ou em www.sardenberg.com.br, item Política Econômica.)

Sobre o comércio ou o não comércio:

"Precisamos mudar a ideia de que medicamento é dinheiro, é comércio. Farmácia ou drogaria é um estabelecimento para cuidar da saúde das pessoas."

"Farmácia, antes de tudo, é um local onde há a promoção de saúde. Porém, hoje, no Brasil, esse conceito está perdido. É comércio, disputa de mercado (não que eu ache errado lucro em farmácia), e ignoram-se dados que mostram os perigos da automedicação."

"Se a venda é livre nas farmácias, também deveria ser nos supermercados."

"Não é correta a venda de não-medicamentos nas farmácias porque esses produtos retiram o foco do farmacêutico. Ela toma um tempo que poderia ser empregado em análises mais profundas das prescrições médicas, com relação a possíveis interações medicamentosas."

Como diz muita gente, a vida não tem preço. E está errado. A vida tem preço e é muito cara.

Basta pensar em quanto custa desenvolver um novo medicamento. A conta é de bilhões de dólares. Se a companhia não tiver a segurança de que receberá de volta seu investimento - comercializando e fazendo lucro com o produto - não haveria nem Viagra nem o coquetel antiaids.

Acrescente aí o custo dos hospitais, da distribuição e comercialização de medicamentos, dos salários dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos e se verificará que há um complexo circuito econômico. Pode-se não gostar, mas tudo ali é, sim, dinheiro e comércio.

Pode ser, também, um local onde se promove a saúde. Mas não pode ser um lugar no qual se substitui a assistência médica.

Como diz um dos nossos críticos, um papel essencial do farmacêutico é fazer "análises mais profundas das prescrições médicas, com relação a possíveis interações medicamentosas". Isso porque o farmacêutico deve entender mais de medicamentos do que os médicos. Infelizmente, porém, essa é uma função pouco praticada por aqui.

Por outro lado, a venda de não-medicamentos na farmácia (balas, cartão de telefone, etc.) pode, ao contrário, ajudar o verdadeiro farmacêutico. Já que essa venda ocorre porque dá lucro, outros funcionários podem cuidar dela, deixando o farmacêutico livre para suas atividades específicas.

E, sim, se um medicamento pode ser vendido livremente em farmácias, poderia ser vendido em supermercado.

Sobre uma suposta incapacidade do consumidor:

"Existem - e muitas - pessoas que compram medicamentos só porque está na oferta ou porque a embalagem é bonita."

"Um povo ignorante como o nosso não sabe que medicamento não é bala de morango... Não se trata de esconder (medicamentos) das pessoas, mas de fazer com que elas expliquem o que estão sentindo e aí alguém capacitado indicará o que a ajudará."

"O brasileiro está culturalmente aderido à automedicação."

"Nós, brasileiros, somos ignorantes até mesmo em reconhecer um genérico!"

"Será que o jornalista sabe de todos os riscos que uma simples aspirina esconde? É só entrar no Google e pesquisar..."

Com o devido respeito, a realidade é bem diferente. Genéricos, por exemplo: colocados no mercado, seu consumo aumentou de modo extraordinário. Diversas pesquisas indicam que as pessoas procuram os genéricos, quando há boa informação sobre o assunto. O papel das agências públicas e dos farmacêuticos seria simplesmente garantir essa informação.

E, por falar em informação, hoje está amplamente disseminada, como disse um dos críticos. É só entrar no Google.

Pode ser que uma ou outra pessoa, meio desequilibrada, compre um remédio pela embalagem, mas certamente não se pode dizer que os consumidores sejam assim ignorantes. Também não faz sentido supor que a pessoa entre na farmácia para comprar uma bala de morango e, já que está lá mesmo, resolva comprar um antibiótico.

A automedicação existe, mas quando a assistência médica é precária. Parece sensato supor que uma pessoa normal, sentindo-se mal, vai procurar um médico. Não o fará quando o médico não estiver disponível ou quando não puder pagar. Aí, sim, vai procurar o medicamento por conta própria. E aqui, não raro, o farmacêutico faz o papel de médico e prescreve o medicamento, como, aliás, sugeriu um dos farmacêuticos que nos escreveu. Está correto isso?

Na verdade, o papel do governo, aqui, não é tirar os remédios livres da gôndola, mas criar condições para que as pessoas possam ir ao médico.

Sobre os riscos dos medicamentos:

"Utilizados de maneira incorreta, causam sérios danos à saúde e até a morte."

"A maior parte dos casos de intoxicação decorre de medicamentos. Tente comprar uma "simples" aspirina num país desenvolvido e comprometido com a saúde da população sem receita médica."

Os casos de intoxicação ocorrem com medicamentos cuja venda é restrita e só pode ser feita com receita, e com receita retida. Muitas pessoas conseguem receitas, mas a maioria adquire seu medicamento sem receita.

Ora, este é o problema das autoridades: como é que se compra sem receita o que exige receita?

A agência governamental tem o papel justamente de, avaliando os riscos oferecidos por cada remédio, determinar quais têm a venda livre e quais, restrita. E, depois, tem o papel de garantir que essa norma seja cumprida.

Determinar que aspirinas não podem mais ficar expostas na gôndola, mas escondidas atrás do balcão, não vai impedir a venda ilegal de anfetaminas.

E, sim, a gente compra livremente aspirina em qualquer país desenvolvido.

ANDRÉS OPPENHEIMER O que leva Lula a se aproximar do Irã

O ESTADO DE S. PAULO - 28/02/10


O importante apoio diplomático do Brasil ao regime cada vez mais isolado do Irã deixa atônita a comunidade internacional. Há várias teorias sobre o comportamento do Brasil, algumas bastante perturbadoras.

Nos últimos dias, quando a tradicionalmente cautelosa Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU finalmente concluiu que o Irã provavelmente vai desenvolver uma arma nuclear, e até a Rússia começou a se distanciar do Irã, o o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manterá seus planos de visitar o Irã em 15 de maio.

O Brasil, uma das potências ascendentes do mundo, dará, assim, uma legitimidade a um regime que, além de burlar as normas internacionais sobre energia nuclear, é considerado por boa parte do mundo um dos principais patrocinadores do terrorismo.

O Irã é conhecido também por ajudar grupos terroristas islâmicos como o Hezbollah, e promete publicamente varrer Israel da face da Terra. Até o governo populista argentino, que normalmente se alinha com o Brasil em questões de política externa, diz que o Irã esteve por trás dos atentados terroristas do Hezbollah em Buenos Aires nos anos 90.

No fim do ano passado, Lula surpreendeu o mundo ao receber com tapete vermelho em Brasília o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. O Brasil tornou-se, assim, um dos primeiros países não radicais a dar sua bênção a Ahmadinejad após as controvertidas eleições de 12 de junho de 2009.

Por que o Brasil está colocando em risco sua reputação de bom cidadão internacional fazendo isso? Entre as teorias mais disseminadas:

Presunção. Segundo essa escola de pensamento, o sucesso econômico do Brasil e a sabedoria convencional de que ele forma com a China e a Índia as potências emergentes do mundo, subiram à cabeça de Lula.

O brasileiro, que recentemente previu que o Brasil será a quinta maior economia mundial em dez anos, quer enviar uma mensagem de que seu país é um novo ator global que terá de ser levado a sério. E a teoria prossegue: o que poderia ser melhor para atrair a atenção mundial que ter um papel no conflito internacional do momento?

Devaneio diplomático. Lula, encorajado pelo status de celebridade em seu país e no exterior, pode estar levando a sério suas reiteradas ofertas de mediar a crise no Oriente Médio. Lula tem programada uma visita a Israel, aos territórios palestinos e à Jordânia dia 15.

Embora seja difícil de acreditar que Lula possa resolver alguma coisa no Oriente Médio - durante uma visita recente aos Emirados Árabes Unidos e a Israel, não encontrei uma única pessoa que me dissesse que Lula tem alguma chance de obter sucesso onde poderosos mediadores americanos, franceses e russos fracassaram - o presidente brasileiro pode honestamente pensar que conseguirá fazer história.

Ambições nucleares secretas. Lula está sendo cordial com o Irã porque o Brasil quer desenvolver armas nucleares, ou ao menos deixar essa opção em aberto após a vizinha Venezuela ter assinado vários acordos de cooperação nuclear com o Irã.

Com isso em mente, o Brasil pode querer que um outro país - neste caso o Irã - alargue os limites dos acordos nucleares mundiais existentes e crie um precedente.

Política doméstica. Lula está tentando apaziguar seus apoiadores esquerdistas do Partido dos Trabalhadores, a maioria dos quais é ferozmente antiamericana, projetando-se como um estadista vigorosamente independente, enquanto persegue suas políticas favoráveis à economia empresarial.

Minha opinião: é uma combinação da primeira teoria, presunção, com a segunda, devaneio diplomático. Mas não posso deixar de me perguntar se a presunção não conduzirá, mais cedo ou mais tarde, a mais ambições nucleares. Por enquanto, as aberturas do governo brasileiro a Ahmadinejad estão sabotando esforços internacionais para pressionar o Irã a cumprir acordos da ONU e encorajando um regime repressivo nesse país.

*Andrés Oppenheimer é analista político e colunista

domingo, fevereiro 28, 2010

No afã de ‘justificar’ Cuba, Lula ‘esquece’ Honduras-

Josias de Souza, folha on line



Ricardo Stuckert/PR

 

  Lula Marques/Folha
Houve um tempo em que as ideologias, quando ficavam bem velhinhas, vinham morar no Brasil.

 

Hoje, dá-se coisa diferente. O Brasil visita as ideologias moribundas em seus habits naturais.

 

Na bica de completar oito anos de gestão, Lula acaba de realizar sua quarta viagem a Cuba. Dessa vez, deu azar.

 

Desembarcou em Havana no dia em que morreu Orlando Zapata, levado ao cárcere por ter cometido o crime de discordar do regime.

 

Nesta sexta (26), de passagem por El Salvador Lula fez uma nova tentativa de explicar o que a oposição cubana chamou de "silêncio cúmplice".

 

"Aprendi a não dar opinião sobre as atitudes de outros governos porque muitas vezes metemos a colher onde não deveríamos", disse Lula.

 

Curioso, muito curioso, curiossímo. No afã de explicar a inação de Cuba, Lula "apaga" da memória o colheraço que acaba de meter em Honduras.

 

Melhor que Lula tivesse imitado o seu "chanceler do B", Marco Aurélio Garcia, clicado pelo repórter Lula Marques na sequência de fotos ao lado.

 

Esquerdista de mostruário, Marco Aurélio reagira à morte de Zapata de modo mais singelo: "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro".

 

Absurdo por absurdo, o auxiliar de Lula, por conciso, pelo menos soou mais curto que o chefe.

 

Mais um pouco e Marco Aurélio alcançaria a perfeição do personagem dostoievskiano da velha Rússia: "Se Deus não existe, tudo é permitido".

 

Lula, porém, preferiu esmiuçar o que lhe vai na alma: "Não podemos julgar um país ou a atividade de um governante em função da atitude de um cidadão que decide fazer uma greve de fome".

 

De fato, não se deve julgar Cuba apenas pela morte de Zapata. A ditadura cubana, velha de mais de cinco décadas, já produziu atrocidades infindas.

 

É mais cômodo julgar o morto: "Um cidadão que entra em greve de fome está fazendo uma opção que, na minha opinião, é equivocada".

 

Zapata desceu à cova aos 42 anos. Detido em 2003, cumpriria 32 anos de cana. Deixaria o cárcere em 2035, aos 67. Optou pela morte.

 

Os repórteres mudaram de assunto. Perguntaram a Lula o que achara da decisão de Hugo Chávez de abandonar a Comissão Interamericana de Direitos Humanos depois da divulgação de relatório que questiona a violação às liberdades na Venezuela.

 

Lula agarrando-se de novo ao silêncio companheiro: "Não vou comentar a decisão de Chávez e não é correto que um chefe de Estado faça uma avaliação sobre uma decisão de outro chefe de Estado sem estar bem informado".

 

Perguntou-se a Lula sobre a viagem que fará ao Irã. Algo que animou a secretária de Estado Hillary Clinton, dos EUA, a visitá-lo na semana que vem.

 

E o presidente, em timbre altaneiro: "Não vejo nenhum problema em eu visitar o Irã e não terei de prestar contas a ninguém, a não ser ao povo brasileiro".

 

Para sorte de Lula, o povo brasileiro está em outra. Submetido a um cenário em que a socialdemocracia brinca de roda com o DEM e o socialismo operário pula amarelinha com o PMDB, o povo se liga emCazuza.

 

À procura de uma ideologia pra viver, prefere suar a camisa e obter a pecúnia que enche a geladeira e assegura a preservação da rotina pequeno-burguesa de comer três vezes ao dia.


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