Entrevista:O Estado inteligente

sábado, março 13, 2004

Diogo Mainardi O planejamento petista

13/3/2004

"Se depender do PT, a maior contribuição científica brasileira continuará sendo o polvilho
anti-séptico Granado, para as frieiras nos pés.
Chega de reclamar de Bush. Lula é muito mais
retrógrado do que ele"

O ministro da Saúde, Humberto Costa, anunciou que quer diminuir em 15% a mortalidade materna. Há uma maneira simples e rápida para atingir a meta. Basta legalizar o aborto. Calcula-se que os abortos clandestinos sejam responsáveis por cerca de 15% das mortes de gestantes. Acabando com os abortos clandestinos, a mortalidade materna diminui na mesma proporção, em particular entre as mulheres mais pobres e mais jovens.

O plano de Humberto Costa, como todos os outros planos do governo, é só conversa mole. Ele promete salvar a vida dessas mulheres garantindo o acesso ao planejamento familiar. O planejamento familiar é uma das inúmeras falácias da nossa Constituição. Foi o subterfúgio empregado pelos constituintes para impedir qualquer política de controle da natalidade. Sobretudo o aborto. O planejamento familiar se baseia quase exclusivamente em programas educacionais. Quando o poder público não sabe resolver um problema, como a criminalidade ou a miséria, recorre sempre à educação. A educação é o principal mito paralisante do Brasil, o argumento que sufoca todos os demais. Se os políticos parassem de usar a educação para encobrir sua incompetência e inoperância, o Brasil teria alguma chance de ir para a frente.

No mundo todo, o direito ao aborto foi uma conquista dos partidos de esquerda. Até alguns anos atrás, o PT o defendia. Em 1995, o atual presidente do partido, José Genoino, chegou a apresentar um projeto de lei permitindo o aborto nos primeiros noventa dias de gestação. Agora mudou. Os petistas perderam o interesse pelo assunto, preferindo se concentrar em metas de superávit fiscal e expedientes para abafar denúncias de corrupção. O único parlamentar petista que se ocupa ativamente da questão é Durval Orlato, que tenta limitar ainda mais sua aplicação. Ele pleiteia que as vítimas de estupro sejam obrigadas a ver filmes sobre o desenvolvimento dos fetos caso decidam abortar. Além da tortura do estuprador, portanto, as mulheres deverão ser submetidas à tortura do Estado. Um fiel aliado do PT, Severino Cavalcanti, do PP, também se engajou na campanha. Ele planeja enfiar na cadeia todas as mulheres que praticarem abortos clandestinos.

Recentemente, membros do PT pensaram em adotar algumas medidas de controle demográfico, mas a ala mais carola do partido os impediu. A idéia era associar os benefícios do Bolsa-Família a formas de desincentivo à natalidade. Por mais paradoxal que possa parecer, o governo brasileiro, como o da Dinamarca, subsidia o aumento da natalidade. Quanto mais filhos tem uma mulher, mais esmolas governamentais ela recebe. Os fundamentalistas católicos do PT determinaram também a proibição de experimentos com células-tronco desenvolvidas a partir de embriões humanos. Curiosamente, o Brasil conseguiu avanços importantes nesse campo de pesquisa. Avanços que agora irão se perder. Se depender do PT, a maior contribuição científica brasileira continuará sendo o polvilho anti-séptico Granado, para as frieiras nos pés. Chega de reclamar de Bush. Lula é muito mais retrógrado do que ele.

Merval Pereira Questão política


12/3/2004
O oleoduto que a Petrobras está querendo fazer para levar o petróleo dos campos no Norte Fluminense para a refinaria de São Sebastião, em São Paulo, é muito mais uma questão política do que econômica para o governo do estado, e só com a intermediação política poderá ser resolvida. Economicamente é mais interessante para a Petrobras essa solução do que a construção de uma refinaria no Rio, a grande reivindicação da governadora Rosinha.

A Petrobras está agindo como uma empresa privada, que busca o lucro para seus acionistas, e não está dando atenção aos aspectos políticos da questão. A governadora, por seu lado, quer defender os interesses do estado, e reclama da visão puramente financeira da Petrobras, o que faz sentido do ponto de vista político.

O erro não está nem na reivindicação da governadora, nem na visão da Petrobras, mas no fato de o governo federal não ter uma política estratégica nacional para o refino do petróleo.

Só faz sentido definir onde serão instaladas as refinarias quando for definida, com visão de país e não de empresa, quantas refinarias precisaremos ter nos próximos anos. Não deveria caber à Petrobras essa definição, mas a um órgão federal.

Tem razão o governo do Rio ao afirmar que ao fazer o oleoduto ligando os campos do Nordeste do Rio ao terminal de São Paulo, as vantagens competitivas do Rio ficam anuladas, e a eventual decisão de fazer uma nova refinaria em São Paulo estaria justificada tecnicamente.

É o caso típico de colocar a carroça adiante dos bois, o que é visto, pela teoria da conspiração que há muito se instalou no Palácio Guanabara, como uma manobra do governo federal para favorecer São Paulo em detrimento do Rio.

Por anos a fio os últimos governos — tanto os de Fernando Henrique, um carioca que se mudou para São Paulo, quanto o de Lula, um nordestino que se apaulistou — vêm sendo acusados de favorecer São Paulo, o estado onde atuam politicamente.

Tanto que o atual presidente do PSDB, José Serra, é acusado de ser o mentor da lei que cobra o ICMS do petróleo no local de consumo, prejudicando os estados produtores, especialmente o Rio, o maior de todos, com 80% da produção.

Dito assim, tem ares de pura verdade, vendida sempre como uma manobra para favorecer São Paulo. Mas acontece que antes da Constituinte o ICMS não incidia sobre combustíveis derivados de petróleo, nem sobre energia elétrica. Por proposta do então deputado José Serra, passou a incidir sobre esses dois setores.

Ele alega, por isso, que nenhum estado perdeu pelo fato de a alíquota interestadual ser zero, já que não ganhavam nada anteriormente. E não foi possível cobrar o ICMS na origem, como era sua proposta, porque a maioria dos estados, importadores de petróleo e derivados e de energia elétrica, perderiam, por ter de pagar um imposto que antes não pagavam.

Para compensar, foram incluídos, por sugestão de Serra e do deputado pelo Rio Francisco Dornelles, os royalties do petróleo na Constituição. Entre 1988 e 2001, a arrecadação do ICMS subiu no Rio de R$ 6 bilhões para R$ 9,8 bilhões, ou seja, um aumento real de 64,6%. As três novas fontes geradoras de ICMS criadas pela Constituinte — comunicações, combustíveis e energia elétrica — respondem por cerca de 46% da arrecadação no Rio, enquanto a média nacional é de 38% e a mesma participação em São Paulo é de 35%.

As comunicações, em particular, têm um peso relativo muito maior no Rio do que em outras economias semelhantes: geram quase 18% do ICMS estadual, enquanto a média nacional e a proporção em SP é da ordem de 12% do total.

Quanto à acusação de ter zerado a alíquota de combustíveis para beneficiar os paulistas, Serra lembra que São Paulo era exportador para outros estados de derivados de petróleo. Como o petróleo vindo do exterior paga ICMS como se fosse extraído no estado por onde entra, e São Paulo era de longe o maior importador, também perdeu arrecadação.

O fato é que o governo do Rio conseguiu vender a imagem de que o governo federal favorece São Paulo contra o Rio. Diversas pesquisas de opinião mostram que essa idéia predomina entre os fluminenses e o Rio, que deu a maior votação a Lula no segundo turno da eleição presidencial, hoje já não apóia seu governo.

Pesquisa recente do Instituto GPP mostra mais gente considerando o governo Lula ruim — 29,5% — do que bom — 19,6%. Essa é uma vitória política do grupo do ex-governador Garotinho, candidato declarado à sucessão de Lula.

Tanto na luta pela cobrança do ICMS na origem, quanto na reivindicação pela refinaria, este ingrediente está fortemente presente. A luta pela refinaria, então, tem outro componente explosivo: a defesa do Norte Fluminense, berço do grupo político dos Garotinho.

As maiores bacias de petróleo do estado estão justamente localizadas em Campos, onde Garotinho nasceu politicamente. Por isso a oferta de reparação do pagamento das participações especiais do petróleo — que aliás deveria ter entrado na discussão logo no início, para mostrar a boa vontade da Petrobras — não resolve o problema, embora arrefeça o ânimo belicoso.

Como a questão é política, e tem várias facetas, somente com uma intermediação neutra haverá uma solução, que poderia ser um investimento que gere empregos e riqueza de maneira permanente na região norte do estado.

Nem Garotinho nem o chefe da Casa Civil, José Dirceu, são interlocutores viáveis a esta altura dos acontecimentos, devido aos ressentimentos mútuos que alimentam e aos interesses políticos divergentes.

Talvez o ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, seja o canal mais adequado. Além do mais, o secretário de Energia do Rio, Wagner Victer, tem origem política no PCdoB, partido do ministro Rabelo. Pode ser um bom início de conversa

segunda-feira, março 08, 2004

Merval Pereira Vícios municipais



6/3/2004 e 7/3/2004

Uma boa gestão aumenta a probabilidade de reeleição de um prefeito? Prefeitos envolvidos em crimes ou irregularidades são punidos pelo eleitor? Prefeitos que tiveram projetos premiados em concurso foram também premiados pelas urnas? O equilíbrio fiscal dá votos? Ou será o sucesso eleitoral determinado por fatores políticos (o partido ou coligação, o apoio do governador ou do presidente)?

Para responder a essas perguntas, os consultores do Senado Marco José Mendes e Carlos Alexandre Amorim Rocha fizeram um estudo econométrico sobre a última eleição municipal, em 2000, com dados referentes a 96% dos 5.561 municípios brasileiros.

Eles escolheram as eleições para prefeito por ser ele “o principal gerente dos serviços públicos diretamente fornecidos à população. É a figura política que pode ser mais facilmente identificada como responsável pelos buracos e sujeira das ruas, pelo bom resultado de um novo corredor de transporte ou pela falta de vagas nas escolas públicas”.

Segundo eles, “a eventual constatação de que uma má ou boa performance administrativa reduz ou aumenta a probabilidade de reeleição de um prefeito seria um indicador de que o processo democrático e eleitoral do país apresenta algum grau de eficiência na seleção dos melhores políticos”.

Eles chegaram, porém, a conclusões nada animadoras, embora pressentidas pela maioria da opinião pública:

a) o eleitor e as instituições monitoram a performance do prefeito apenas parcialmente, dando ênfase aos fatos de grande repercussão na imprensa;

b) a probabilidade de reeleição está correlacionada com a expansão do gasto público, indicando que o modelo de federalismo fiscal do país não favorece a disciplina fiscal;

c) o Sul-Sudeste, mais desenvolvido, é mais eficaz que o Norte-Nordeste para punir a má performance;

d) o presidente da República influencia o resultado a favor de seus correligionários, mas os governadores, não.

Entre as principais conclusões saídas da pesquisa, está a de que a performance dos prefeitos reflete-se no resultado eleitoral apenas de maneira parcial. “Variáveis relacionadas a fatos amplamente divulgados pela imprensa, como a acusação por cometer crime grave ou ser premiado por boa gestão, afetam significativamente as probabilidades de candidatura e/ou de reeleição. Já indicadores de performance de menor visibilidade não parecem afetar as chances de candidatura ou reeleição, como é o caso dos prefeitos listados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) como autores de irregularidades”, aponta o estudo.

A acusação por crime grave possui outra característica que demonstra o acompanhamento parcial dos eleitores: “Os acusados encontram dificuldades para conseguir se candidatar a um novo mandato, mas uma vez que consigam confirmar a candidatura, suas probabilidades de reeleição tornam-se iguais às dos demais prefeitos”, constataram os consultores.

É o caso do prefeito de Alfenas, em Minas Gerais, José Wurtemberg Manso (PDT), mostrado no “Jornal Nacional” semana passada distribuindo dinheiro para vereadores o apoiarem. Ele já havia sido prefeito outras duas vezes, e terminara cassado por improbidade administrativa.

Também indicam um monitoramento parcial da atuação dos prefeitos “as variáveis associadas a resultados de políticas públicas, como saúde e educação. Na maioria dos casos analisados, as variáveis ou não estão correlacionadas com o resultado eleitoral, ou afetam apenas as chances de candidatura à reeleição, não afetando a reeleição propriamente dita”.

O estudo analisou o grupo dos municípios com piores indicadores de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias no início do mandato do prefeito. “Espera-se que os eleitores desse município, acossados por tais doenças, premiem os prefeitos que obtiverem bons resultados no seu combate. Por isso, testamos se houve alguma associação entre a redução da mortalidade por doenças infecto-contagiosas e a probabilidade de reeleição, mas nada encontramos”, revela Marco José Mendes.

“Em experimento semelhante, também não encontramos correlação entre reeleição e melhoria na rede de atendimento básico de saúde. Alguma correlação, um tanto fraca, foi encontrada para o aumento na cobertura de exames pré-natal e na qualificação e no número de professores do ensino fundamental”, lamenta o pesquisador.

A segunda conclusão relevante é de que “as chances de reeleição estão intimamente associadas à expansão da despesa municipal”. O estudo revela que “há uma correlação positiva entre taxa de crescimento da despesa e as probabilidades de candidatura e de reeleição. O comportamento fiscal mais correlacionado com o sucesso eleitoral é a expansão da despesa pública”.

Segundo o estudo, em média um prefeito que tenha reduzido em 10% a despesa corrente ao longo do mandato teve uma probabilidade de reeleição de 28%. Já aquele que aumentou a despesa em 50% teve a probabilidade de reeleição ampliada para 43%.



O fato de ser correligionário do presidente da República, o que possivelmente facilita o acesso a recursos federais, também aumenta a probabilidade de reeleição, mostra o estudo realizado pelos consultores do Senado Marco José Mendes e Carlos Alexandre Amorim Rocha sobre as eleições municipais.

“Os partidos políticos, normalmente considerados frágeis e de pouca influência, parecem não ser tão frágeis, uma vez que o fato de pertencer ao partido do presidente da República garante ao prefeito alguns pontos percentuais a mais nas chances”, afirmam os consultores.

O estudo revela que prefeitos do PSDB, mesmo partido do presidente à época da eleição estudada, “ganhavam em média 3,3 pontos percentuais em suas probabilidades de reeleição, enquanto que prefeitos candidatos por outros partidos que enfrentassem um concorrente do partido do presidente perdiam 4,7 pontos percentuais em suas chances de reeleição”.

Nas eleições de 2000, o PT, então oposicionista, teve praticamente o mesmo número de votos do PMDB, que era aliado do governo Fernando Henrique — 20.046.693 contra 19.910.390 —, ambos ficando com pouco mais de 17% do eleitorado.

No entanto, em número de municípios, o PT ganhou apenas 185 prefeituras , ficando com irrisórios 3,32% delas, contra 1.255 do PMDB, que tem o domínio de 22,5% das prefeituras brasileiras. O PSDB em 2000, elegeu 992 prefeitos, ficando com 17,8% dos municípios. E o PFL elegeu 1.019, 18,3% das prefeituras.

Essas conclusões do estudo, extraídas da experiência das eleições municipais de 2000, indicam para o fracasso da estratégia montada pela oposição, de tentar federalizar a eleição municipal. PSDB e PFL, através de seus presidentes, fecharam acordo para levar a suas respectivas campanhas a crise política desencadeada pelo escândalo do ex-assessor do Planalto Waldomiro Diniz.

O presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, concorda que as eleições municipais historicamente não refletem questões nacionais, o que vem referendar a tese dos dois consultores do Senado.

O estudo mostra ainda que prefeitos de municípios recém-criados se reelegem com muito mais facilidade do que a média. A probabilidade de reeleição de um prefeito de município novo é 21 pontos percentuais superior à média. De uma média nacional de 39%, esta probabilidade sobe para 60% no caso de município novo.

O estudo considera que a vantagem dos novos municípios se deve “provavelmente porque têm mais liberdade para gastar, visto que não têm dívidas acumuladas, já nascem com transferências federais garantidas, e têm amplas possibilidades de contratar novos funcionários e fazer gastos com imóveis e equipamentos para instalar a nova administração”.

Segundo os consultores Marco José Mendes e Carlos Alexandre Amorim Rocha, “esse resultado está, possivelmente, associado ao modelo de federalismo fiscal vigente no Brasil, que induz os munícipes e seus representantes a ampliarem ao máximo o gasto local e pleitear transferências federais adicionais para financiar as despesas extras”.

O estudo ressalta, porém, que “o período estudado é anterior à Lei de Responsabilidade Fiscal, que instituiu diversos limites legais ao gasto dos estados e municípios. Existe a possibilidade de que essa mudança institucional tenha imposto limites ao uso da despesa como ferramenta eleitoral”. A eleição municipal deste ano, a primeira sob a Lei de Responsabilidade Fiscal, poderá mostrar se esses vícios foram sanados.

O estudo constatou, mais uma vez, um padrão diferenciado no Norte-Nordeste em relação ao Sul-Sudeste. “No primeiro, a influência do presidente é maior e o expurgo dos prefeitos acusados de crimes graves não ocorre. Padrão inverso é observado no Sul-Sudeste, que pune com mais rigor o prefeito acusado de crime e não privilegia o candidato do partido do presidente.”

A influência do presidente “é mais pronunciada na região mais pobre e dependente de recursos federais, o que reforça a hipótese de vínculo entre a influência do presidente e seu poder de transferir recursos aos municípios”.

Por outro lado, ressalta o estudo, “reforça-se a interpretação de monitoramento parcial da performance dos prefeitos, uma vez que somente nas regiões mais desenvolvidas, onde, na média, os eleitores são mais instruídos e mais informados, é que os eleitores e as instituições conseguem barrar a candidatura de prefeitos acusados de crimes graves”.

Os resultados obtidos “desafiam algumas teses correntes na literatura de ciência política”, dizem seus autores. Os governadores, por exemplo, “normalmente considerados muito influentes, não parecem ter poder de influenciar o resultado eleitoral nos municípios”.

Segundo o estudo, “os governadores, afundados em altas dívidas, folhas de pagamento inchadas e um forte compromisso de ajuste fiscal em decorrência da renegociação de suas dívidas com a União, têm poucos recursos adicionais a oferecer aos prefeitos”.

O resultado disso parece estar refletido na inexistência de correlação entre a probabilidade de reeleição e a posição de aliado ou de adversário do governador, concluem os consultores.

domingo, março 07, 2004

Diogo Mainardi O meu panelaço


"A convicção simplória de que todos os
políticos são enganadores precisa ser restaurada. Sem isso, a democracia
brasileira continuará incompleta, viciada,
sujeita a surtos de histeria sebastianista"

Continuo minha campanha pelo impeachment de Lula. Poucas adesões de peso até agora. Faço um panelaço solitário pelos aposentos da casa, apesar dos veementes protestos de meus familiares. Bato panela no quarto. Depois bato panela na sala. Depois bato panela no banheiro. O panelaço de uma panela só. Por mais surpreendente que possa parecer, ainda não consegui derrubar o governo. Cedo ou tarde, juro que consigo.

A burrice que nos acometeu desde a eleição de Lula terá de ser lembrada para sempre. Demos ao governo um crédito que nenhum governo pode ter. Por mais de um ano, ignoramos seu populismo ordinário, seus desvarios retóricos, seu empreguismo desavergonhado, seu fisiologismo ostentoso, seu descaramento ético, sua equipe indigente. Abdicamos estupidamente de nossa prerrogativa básica, que é vaiar e atirar ovos nos políticos. A convicção simplória de que todos os políticos são enganadores precisa ser restaurada urgentemente. Só ela pode estimular a criação de anticorpos na sociedade. Sem esses anticorpos, a democracia brasileira continuará incompleta, viciada, sujeita a surtos de histeria sebastianista igual à que acompanhou a vitória de Lula.

Nenhum político pode ter 96% de popularidade, como o presidente teve ao assumir o poder. Isso é devoção religiosa. Estatisticamente, havia mais gente acreditando em Lula do que em Deus. Nenhuma literatura dedicou tanta atenção ao estudo do caráter nacional quanto a nossa. E nenhuma literatura se equivocou tanto sobre o assunto. O único aspecto relevante de nossa personalidade é um exasperado servilismo. Nesse sentido, nada pode ser mais revelador do que a eleição de Lula, que desencadeou a maior onda de adesismo da história do Brasil. Por seu passado oposicionista, Lula conferiu uma aura de dignidade a todos aqueles que escolheram se sujeitar a ele, adulando-o com a esperança de obter favores. Alguns ganharam cargos. Outros ganharam aplausos. Anotei seus nomes num caderninho. Estão na minha lista de proscrição. Quem também está na minha lista de proscrição são as instituições encarregadas de vigiar o poder e que, melifluamente, se aliaram a ele: os sindicatos, os movimentos sociais, parte da imprensa, a universidade, os artistas, os intelectuais, a Igreja. Somos nós que financiamos essa turma. Se ela não serve para nos defender, devemos parar de sustentá-la. Lula mostrou que nossa democracia é pura fachada.

Muita gente teme os efeitos de uma crise política. Não há o que temer. Os políticos caem, mas o país fica. Ao contrário do que se pensa, o destino do Brasil não está atrelado a nenhum político. A desilusão provocada por Lula pode ser altamente benéfica, se compreendermos o perigo de abaixar a guarda contra os políticos. Os principais instrumentos de que dispomos para controlá-los são a descrença e a desconfiança. Quando dizem que o financiamento público aos partidos pode diminuir a roubalheira, por exemplo, estão mentindo. Para diminuir a roubalheira dos políticos, basta diminuir a quantidade de dinheiro que passa pelas mãos deles. E, agora, panelaço.

sábado, fevereiro 28, 2004

Diogo Mainardi Pelo impeachment de Lula


"Um dos mitos que os petistas tentam difundir é o de que lhes falta astúcia política para contornar
a crise. Mentira. Eles já demonstraram no passado
que sabem
perfeitamente abafar as piores denúncias"

A campanha pelo impeachment de Lula foi lançada no Rio Grande do Sul, pelo escritor Juremir Machado da Silva. Eu aderi alegremente. O decreto presidencial determinando o fechamento dos bingos só reforçou minha fúria persecutória. Com a medida, Lula puniu os achacados e inocentou os achacadores que extorquiam em nome de seu partido.

Nada mais natural que a campanha pelo impeachment de Lula tenha partido do Rio Grande do Sul. Os gaúchos conhecem muito bem os métodos e as estratégias do PT. Em 2001, a Assembléia Legislativa do Estado montou uma CPI para investigar o suposto financiamento ilegal da campanha de Olívio Dutra por parte de bicheiros e proprietários de bingos. O ex-tesoureiro do partido admitia, numa fita, ter achacado os bicheiros em 600.000 reais, e um aliado do governador intimou o chefe da Polícia Civil a parar de importunar os donos da jogatina. Durante os interrogatórios, os dois indiciados assumiram o papel de bodes expiatórios, negando qualquer envolvimento da cúpula do partido no episódio. Mesmo assim, a CPI foi adiante, até o começo do governo Lula, quando o ex-procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, apelidado pelo próprio PT de engavetador-geral da República, engavetou o processo. Um dos mitos que os petistas tentam difundir neste momento é o de que lhes falta astúcia política para contornar a crise. Mentira. Eles já demonstraram no passado que sabem perfeitamente abafar as piores denúncias. A maior tolice é supor que os petistas sejam ingênuos e que agora estejam sob o controle de José Sarney: é José Sarney quem está sob o controle deles.

Outro mito difundido pelos petistas é que uma devassa nas contas do PT pode parar o Brasil. Mais uma mentira. O Brasil funciona independentemente do governo. O que de fato pode parar, no caso de uma crise política, é a máquina estatal. E isso seria bom para todos nós. Um governo enfraquecido e sob suspeita pode parar de contratar parentes e amigos, por exemplo. Pode parar de comprar jatos presidenciais. Pode parar de gastar em propaganda. Pode parar de aumentar os impostos. Quanto mais parado ficar o governo, melhor.

O terceiro mito é o de que só o financiamento público aos partidos pode diminuir a roubalheira federal. O que os políticos querem dizer com isso é que só aceitam parar de roubar se lhes dermos mais dinheiro. Como os meninos de rua que, nos semáforos, perguntam retoricamente se é melhor pedir esmolas ou roubar. Trata-se de um achaque igual ao de Waldomiro Diniz. Na verdade, já financiamos as campanhas eleitorais, pagando aos políticos, entre outras coisas, escritórios, assessores, viagens, agências de notícias, redes de TV para cada ramo do Poder Legislativo e amplo espaço na TV comercial para a propaganda partidária. A culpa pela ladroagem dos políticos está sendo atribuída a nós, como se eles só roubassem porque somos pouco generosos.

Eu sou pelo impeachment. Como o PT de antigamente, meu negócio é atrapalhar.

terça-feira, fevereiro 24, 2004

Diogo Mainardi Vamos demolir o Tuca



"Esses lugares estão associados à luta contra
a ditadura militar. Agora que os perseguidos
pela ditadura conquistaram o poder, esses
monumentos oposicionistas viraram
instrumentos de conservação do regime"


Eu demoliria o Tuca. O Tuca é o teatro da PUC de São Paulo, um dos marcos da resistência ao regime militar. Em seu lugar, eu poria um estacionamento. Ou um supermercado da rede Wal-Mart.

Eu demoliria também o prédio do Dops. E o estádio de Vila Euclides. E o Riocentro. E a antiga Faculdade de Filosofia da USP. E o Anhangabaú. E a Candelária. E o quartel da Tijuca. Esses lugares estão associados, de uma forma ou de outra, à luta contra a ditadura militar. Agora que os perseguidos pela ditadura militar conquistaram o poder, esses monumentos oposicionistas se tornaram instrumentos de conservação do regime.

O Tuca é como o Aurora, o navio que deflagrou a Revolução Russa. Se inicialmente o Aurora podia representar a luta heróica contra a tirania, com o passar do tempo foi se transformando em mera arma de propaganda para acobertar outra tirania. O Tuca, com sua história de luta contra o regime militar, acoberta o empreguismo, o clientelismo, o fisiologismo e o coronelismo dos antigos perseguidos políticos que agora mandam no Brasil.

Outro dia alguns intelectuais se reuniram no Tuca. Foram debater a cultura nacional. Todos eles se sentiram no dever de homenagear as vítimas da repressão policial dos anos 70. Os intelectuais brasileiros sempre viveram à custa do Estado. Viviam à custa do Estado durante o regime militar e continuam a viver até hoje. A diferença é que, em muitos casos, eles agora conseguem acumular mais de uma renda, como membros do aparato do Estado democrático e como opositores do velho Estado ditatorial.

Não são apenas os intelectuais que ganham de um lado e do outro. O próprio presidente Lula recebe uma pensão do Estado por seu passado oposicionista. Considerando que toda a sua carreira política foi construída em torno disso, ele está sendo demasiadamente recompensado. Este é o problema dos petistas: eles sempre se acham em crédito com o Estado e com a sociedade. Por isso demonstram tanta voracidade no preenchimento de cargos públicos, indicando parentes e amigos: eles se julgam merecedores de um ressarcimento por ter se sacrificado pelo bem do país, enquanto a maioria da população ficava calada. Não bastam os 4 bilhões de reais de indenização aos perseguidos políticos. Não bastam as aposentadorias milionárias. Eles querem mais.

A notícia que melhor resumiu o primeiro ano do governo Lula foi a tentativa do presidente e de sua mulher de caçar e devorar um pato da Granja do Torto. O episódio era emblemático da fome atávica do PT, a gula para abocanhar todos os bens do Estado. A notícia que dará o tom do segundo ano do governo Lula apareceu no Globo, poucas semanas atrás: o Palácio do Planalto está tão entupido de funcionários que muitos deles já não cabem em suas salas, sendo obrigados a trabalhar de pé, sem mesas e sem cadeiras. A ocupação da máquina estatal chegou a tal ponto que irá desencadear uma luta fratricida e sem escrúpulos para ver quem consegue conquistar os raros espaços disponíveis.

O Tuca, portanto, é um símbolo do reacionarismo. Quem realmente encarna o espírito revolucionário, hoje, é o Wal-Mart.

sábado, fevereiro 14, 2004

Diogo Mainardi O ópio de Garotinho



"O cardeal Eugênio Sales garantiu que
o ensino religioso 'coíbe toda sorte de
violência'. Menos, é claro, a violência
praticada em nome da religião, responsável
pelas piores matanças da história"


Na França, na terça-feira, foi aprovada a lei que proíbe a ostentação de símbolos religiosos nas escolas públicas. No Rio de Janeiro, no mesmo dia, foi anunciada a publicação da lista de aprovados para o cargo de professor de ensino religioso nas escolas estaduais. São 500 professores, divididos salomonicamente: 342 católicos, 132 evangélicos e 26 pertencentes aos demais credos. Cada um deles deverá apresentar uma carta de credenciamento emitida por sua autoridade religiosa, que poderá dispensá-lo da função a qualquer momento, em caso de perda da fé. A autoridade religiosa terá também a atribuição de definir o conteúdo pedagógico das aulas de religião. O Estado do Rio de Janeiro, portanto, abre mão de algumas de suas principais prerrogativas: contratar, demitir e ensinar. Só não abre mão de pagar. A catequese governamental será financiada por todos os contribuintes, inclusive pelos ateus e agnósticos que rejeitarem o ensino religioso.

A lei que estabelece o ensino religioso obrigatório foi sancionada por Anthony Garotinho, a partir de um projeto de Carlos Dias, apresentador da Rádio Catedral e membro da Renovação Carismática. Atendeu à solicitação da cúpula da Igreja Católica do Rio de Janeiro. O cardeal Eugênio Sales garantiu que o ensino religioso "coíbe toda sorte de violência". Menos, é claro, a violência praticada em nome da religião, responsável pelas piores matanças da história. O bispo auxiliar Filippo Santoro, por sua vez, afirmou que o ensino religioso tem o poder de debelar a corrupção e a miséria. No manifesto de apoio ao projeto de lei em questão, o bispo auxiliar usou um argumento irrefutável para defender o primado da autoridade religiosa sobre o Estado na escolha dos professores: "Marx e Freud certamente ganhariam um concurso público para o ensino religioso, mas as instituições religiosas lhes negariam o mandato". Ou seja, a Igreja Católica se orgulha de impedir que a rede pública possa cometer o erro de contratar professores semelhantes a Marx e Freud, por salários de 540 reais.

O princípio da separação entre Igreja e Estado acaba de ser reafirmado pelos franceses. Em escola pública, a religião não entra. Quer cobrir a cabeça com um véu? Quer usar um solidéu? Quer pendurar no pescoço um crucifixo? Procure uma escola particular de seu gosto. Lá o ensino pode ser transmitido de acordo com o corpo doutrinário de sua confissão. Ela pode até ensinar que a humanidade surgiu com Adão e Eva. Pode até justificar a execução de hereges. Basta que seus custos não sejam pagos com os impostos de todos os contribuintes. No século XVI, católicos e protestantes franceses, em fuga das guerras religiosas na Europa, estabeleceram-se no Rio de Janeiro, fundando aquilo que seria conhecido como França Antártica. Aplicaram-se, por algum tempo, na obra de conversão ao cristianismo dos tupinambás. De lá para cá, a França mudou, abandonando todas as formas de proselitismo religioso, mas a França Antártica continua a mesma. Ainda tentam nos converter. Ainda nos tratam como

terça-feira, fevereiro 10, 2004

Diogo Mainardi Coliformes acrobatas

"Marta Suplicy ergueu uma fonte luminosa
num lago do Ibirapuera para comemorar o
aniversário de São Paulo.
O lago é um acúmulo
de lodo e esgoto. Nada mais paulistano do que
uma fonte que borrifa lodo e esgoto"

Bernini ergueu uma fonte em Roma para glorificar o papa Urbano VIII. Hittorff ergueu uma fonte na Praça da Concórdia para celebrar o poder de Paris. A prefeita Marta Suplicy ergueu uma fonte luminosa e multimídia num lago do Ibirapuera para comemorar o aniversário de São Paulo. O lago do Ibirapuera é um acúmulo de lodo e esgoto. Nada mais exemplarmente paulistano do que uma fonte que borrifa lodo e esgoto. O aspecto multimídia é garantido pelas acrobacias aquáticas dos coliformes fecais.

Entusiasmada com o sucesso da fonte no Ibirapuera, Marta Suplicy viu sua idéia ser estendida para outras áreas da cidade. Na última semana, São Paulo inteira foi transformada numa imensa fonte, com as enchentes provocadas pelo transbordamento do Tiquatira, do Pirajussara, do Tamanduateí, do Aricanduva. Corre esgoto por esses pitorescos rios. Daí a coloração multimídia do alagamento. A gigantesca fonte paulistana apresentou o admirável espetáculo de pessoas ilhadas no teto de veículos submersos, miseráveis que perderam todos os seus bens nas favelas ribeirinhas e congestionamentos com mais de 100 quilômetros de extensão. Bernini e Hittorff jamais poderiam imaginar algo tão grandioso.

Para provar que a gripe aviária não tinha atingido seu país, o primeiro-ministro da Tailândia apareceu na televisão comendo um frango no espeto. Dias depois, duas crianças morreram da doença. Marta Suplicy deveria ter feito o mesmo. Teria sido curioso vê-la imersa na Radial Leste, na tentativa de demonstrar que suas obras contra as enchentes obtiveram o resultado esperado. O problema é que Marta Suplicy não estava em São Paulo na semana passada. Estava em Londres, ensinando os ingleses a combater a Aids. A principal estratégia de combate à Aids da prefeitura de São Paulo é contratar os parentes do coordenador do programa contra a Aids para trabalhar na própria prefeitura. Quer programa melhor?

A distribuição de cargos a parentes e amigos foi a maior conquista dos governantes do PT. Eles prometem abrir 41.000 novas vagas neste ano. O governo federal pretende também acelerar a distribuição de esmolas nas grandes cidades. Ou seja, o contrário do que foi feito até agora. O ex-ministro José Graziano queria dar as esmolas aos nordestinos, para tentar diminuir a violência nas grandes cidades. Depois de um ano, ele foi demitido e Patrus Ananias tomou seu lugar no combate à fome. De acordo com o novo ministro, as esmolas devem ser distribuídas nas metrópoles, porque "é lá que está o desafio da violência". O Brasil nunca teve uma classe dirigente tão obtusa e despreparada. Em duas décadas de oposição, o PT nem ao menos conseguiu descobrir onde estão os famintos e onde estão os bandidos.

A barganha de cargos e esmolas, somada aos gastos escandalosos em propaganda e a uma política desavergonhada de aliança, garantirá a vitória dos petistas nas próximas eleições municipais, inclusive em São Paulo. Sempre foi assim no Brasil. Emprego em troca de voto. Fubá em troca de voto. Fonte multimídia em troca de voto.

sábado, janeiro 24, 2004

Diogo Mainardi O pior é melhor


"É uma sorte que São Paulo seja tão pouco
musical. A música popular constitui o maior
fator de atraso no Brasil. Quanto mais musical
é uma região, mais subdesenvolvida ela é"

Desde cedo a única meta que eu tinha na vida era ir embora de São Paulo. Fracassei em minha primeira tentativa migratória. Fracassei na segunda. Na terceira, deu certo. Fui embora e nunca mais voltei.

Depois de tantos anos de afastamento, finalmente me reconciliei com a cidade. Aprendi a reconhecer seus méritos. O maior deles é despertar o sentimento de repulsa em seus habitantes. São Paulo é tão detestável que somos estimulados a rejeitar nossa origem, a buscar lá fora o que não podemos encontrar aqui dentro. Parece pouco. Não é. São Paulo não acomoda. Ela nos deixa num permanente estado de insatisfação e precariedade. O paulistano não é apegado a nada. Está sempre de malas prontas, disposto a abandonar oportunisticamente tudo o que lhe pertence: sua cidade, seu país, sua família, suas idéias. Não temos o sentido de coletividade: não sabemos votar, não sabemos respeitar as regras, não sabemos pensar no próximo, não sabemos cumprir os acordos. Em compensação, conseguiríamos nos adaptar com facilidade a um holocausto nuclear. Pena que a perspectiva de um holocausto nuclear seja cada dia mais remota.

A música é o mais importante elemento de identidade nacional. Em São Paulo, a falta de sentido de coletividade nos impediu de desenvolver um estilo musical. Ao contrário do resto do Brasil, não temos ritmos próprios, não temos artistas de peso. Nosso ouvido é duro. Na festa de aniversário da cidade, o melhor que conseguimos apresentar foi o grupo Demônios da Garoa. Caetano Veloso também homenageou a cidade, mas ele não conta, porque é baiano e, sobretudo, porque homenageia qualquer lugar. Ele já homenageou Londres, Barcelona, Nova York, São Francisco e Brasília. Já homenageou até TelAviv. Caetano Veloso é como Lamartine Babo, que escreveu os hinos de todos os times de futebol do Rio de Janeiro.

É uma sorte que São Paulo seja tão pouco musical. A música popular constitui o maior fator de atraso no Brasil. Quanto mais musical é uma região, mais subdesenvolvida ela é. A musicalidade dos brasileiros está diretamente relacionada com as epidemias de leishmaniose, os esgotos a céu aberto, os desmoronamentos de favelas. São Paulo é a cidade mais rica do Brasil simplesmente porque não entende nada de música, porque não fica sentada em banquinho de violão. Os compositores de música popular, agora, publicam livros com todas as suas letras. Quem consegue compreender o significado dessas letras nunca irá aprender a construir uma ponte, ou a planejar o escoamento de um milharal, ou a obturar um dente cariado. Um conhecimento anula o outro.

O Brasil se reconhece no sentimentalismo mais ordinário, no verso mais incongruente, na batida mais simplória. Fomos ensinados que a música nos ajudou a resistir a todos os tipos de autoritarismo. Mentira. A música é um instrumento de dominação. Tanto que todos os partidos políticos criam seus sambinhas para o horário eleitoral. Se até o PTB tem seu sambinha, é sinal de que há algo errado na MPB.

São Paulo é a pior cidade do Brasil. Mas nós, paulistanos, até que temos a nossa graça: não levamos jeito para a música, o que nos torna, tudo somado, um pouco menos brasileiros.

sexta-feira, janeiro 02, 2004

Diogo Mainardi Abacaxi com caroço


"Quando alguém quer provar que o Brasil
tem saída, sempre menciona Machado de
Assis, como se um único escritor resgatasse
séculos de falta de talento. Ele virou um álibi
para o nosso fracasso"

Caetano Veloso me chamou de abacaxi com caroço. Foi numa entrevista coletiva para promover o lançamento de um DVD. Ele passou metade da entrevista falando mal de mim e de Paulo Francis. Como falar mal de nós não ajuda a vender DVD, acredito que tenha sido apenas uma maneira dissimulada de bajular o governo.

Para Caetano Veloso, represento a parte deteriorada da cultura brasileira. Um derrotista, um entreguista, um colaboracionista, pronto a acolher o usurpador estrangeiro. Junto com Paulo Francis, de quem sou um mero subproduto, formo o time dos traidores da pátria. Do lado oposto, defendendo o escrete canarinho, Caetano Veloso, imodestamente, escalou a si mesmo, em companhia de Machado de Assis, Glauber Rocha e Chico Buarque. Encontram-se aí, segundo ele, as duas correntes contrapostas do pensamento nacional: os americanófilos que condenam o Brasil a uma posição de eterno servilismo e os artistas que, com suas obras, colocam o país no centro do mundo.

Caetano Veloso está certo, claro. Meu maléfico plano é derrubar o presidente e transformar o Brasil num protetorado americano. Quanto mais dependente, melhor. Em minha empreitada, tiro de letra o próprio Caetano Veloso, Glauber Rocha e Chico Buarque. Difícil é enfrentar Machado de Assis. Quando alguém quer provar que o Brasil tem saída, sempre menciona seu nome. Como se um único escritor resgatasse cinco séculos de falta de talento. De geração em geração, Machado de Assis renova a crença em nossas capacidades, como se suas conquistas individuais, isoladas, pudessem indicar atributos coletivos. Ele virou um álibi para o nosso fracasso.

Eu nunca havia considerado Machado de Assis como um inimigo. Ingenuamente, aliás, eu supunha que ele estivesse do nosso lado, comandando o nosso time, na qualidade de o maior e o mais prestigioso abacaxi com caroço do Brasil. Basta ver a maneira impiedosa como ele retrata nossos compatriotas em seus últimos livros. Uma gente mesquinha, boçal, parasitária, que combina pieguice com selvageria. Ninguém trabalha, exceto os escravos, que só aparecem como moeda de troca. Os ideais que circulam nos meios intelectuais são um pastiche grotesco daquilo que os europeus enterraram no século anterior. Machado de Assis jamais demonstrou grande fé no futuro do Brasil. Na verdade, ele era de um ceticismo que beirava o reacionarismo. Desconfiou de todas as transformações ocorridas em sua época, como a abolição da escravatura e a proclamação da República. Nunca se deixou contaminar pelo otimismo panglossiano dos brasileiros, evitando aquela euforia irracional que, ao longo de nossa história, sempre resultou em alguma forma de abuso.

Como se sabe, existe outro Machado de Assis: o politiqueiro e conchavista da Academia Brasileira de Letras, entranhado fisiologicamente nas instituições do Estado, acovardado diante do poder político. Esse Machado de Assis brejeiro não me interessa. Caetano Veloso pode ficar com ele.

sábado, dezembro 13, 2003

Diogo MainardiDiplomacia da rapadura


"O Brasil não precisa de política externa,
precisa só de preços baixos. Deveríamos
transformar
nossas embaixadas em frigoríficos
para frango congelado e suco de laranja"

Vamos vender rapadura aos árabes. Foi o saldo da viagem de Lula ao Oriente Médio. O contrato para o fornecimento de rapadura depende da construção de uma refinaria de açúcar na Síria, por parte de usineiros de Ribeirão Preto. Não entendi se o empreendimento irá contar com dinheiro do BNDES. Entendi apenas que o Brasil não receberá investimentos dos árabes, serão os árabes a receber investimentos dos brasileiros. Para um mascate internacional, como Lula definiu a si mesmo, o resultado não é muito animador: 150 milhões de dólares aplicados num país que está na bica de sofrer um boicote econômico.

Os usineiros de Ribeirão Preto que irão construir a refinaria na Síria são antigos aliados do PT. Eles financiaram as campanhas eleitorais de Antonio Palocci. O prefeito petista de Piracicaba, José Machado, também foi financiado por usineiros da região. José Machado era sócio do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel numa empresa de consultoria que intermediava licitações em prefeituras do PT. Outros sócios da empresa eram Miriam Belchior, atual secretária de Lula, e Sérgio Gomes, suspeito de ser o mandante do assassinato de Celso Daniel. Luiz Gu-shiken também tinha uma empresa de consultoria, contratada pelo PT para traçar o projeto da reforma da Previdência. Quando virou ministro, Gushiken tratou de nomear os diretores dos fundos de pensão das estatais. O setor, um dos mais ricos da economia, está inteiramente nas mãos dele. Os petistas podem não saber cuidar dos interesses da nação, mas sem dúvida sabem cuidar de seus próprios interesses.

Tudo indica que Lula pretende inserir o Brasil no falido movimento dos países não-alinhados. Ele repete sem parar os bordões do movimento sobre o multilateralismo e a cooperação Sul-Sul. Os cinco países árabes que ele visitou são não-alinhados, assim como Bolívia, Peru e Venezuela, que receberam dinheiro público brasileiro ao longo do ano. O maior engano do PT é acreditar que mais peso político significa mais poder de barganha no comércio internacional. O Brasil não precisa de política externa, precisa só de preços baixos. Deveríamos transformar nossas embaixadas em frigoríficos para frango congelado e suco de laranja. Deveríamos também abrir mão da cadeira no Conselho de Segurança na ONU, e ficar em silêncio por algum tempo. Iraque? Israel? Palestina? Cuba? Colômbia? Problema deles. Não temos nada a ver com isso. Os brasileiros, sempre que deparam com um mendigo, viram a cara e fingem que não estão vendo. É o jeito certo de agir diante dos grandes conflitos mundiais.

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Na semana passada falei sobre a dificuldade de encontrar escola para meu filho deficiente. Recebi montes de cartas. Fui parado na rua. Me telefonaram. Muitos pais sofreram a mesma discriminação. O Brasil está cheio de gente boçal. Mas também está cheio de gente dedicada e corajosa, que se mexe, que protesta, que acolhe. Relataram-me uma infinidade de experiências bem-sucedidas em escolas espalhadas pelo país, de Maringá a Maceió. Foi bom saber. Não somos um caso perdido.

sábado, dezembro 06, 2003

Diogo Mainardi Deficientes discriminados


"Ter um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso, nenhum problema. Basta que
os outros não perturbem.
Os pais de crianças
deficientes não querem favores nem comiseração.
O que eles querem é que as crianças tenham a
oportunidade de conviver com outras crianças"

Rio de Janeiro. Teimei em morar de frente para o mar. Difícil encontrar apartamento. Tudo caro demais. Comicamente, os melhores que visitei pertenciam a gente ligada à política. O primeiro era de Antonio Carlos Magalhães. O segundo era da filha de Tancredo Neves, mãe de Aécio. Perdi este último para uma herdeira de Getúlio Vargas, ex-mulher de Moreira Franco. Estou pensando em lançar minha candidatura a governador de Roraima.

Mais difícil que encontrar apartamento é encontrar escolinha para meu filho. Ele é deficiente físico. Escolinhas não querem deficientes por perto. Três delas já nos enxotaram. Eram escolas alternativas, piagetianas, daquelas que ensinam a plantar feijão e a melecar as paredes com tinta vermelha. Mil reais de mensalidade. Você pode achar que não é problema seu. Engana-se. É em escolinhas como essas que seus filhos estão estudando. Aprendem o preconceito desde cedo. Aprendem a afastar quem parece diferente deles.

Na Escola Nova, a diretora barrou meu filho na porta. Disse que não estava preparada para educar quem não sabe andar. Se ela não está preparada para educar uma criança deficiente de 3 anos, não está preparada para educar ninguém. Como sou endinheirado, ofereci algumas facilidades: material escolar adaptado, orientação por parte das terapeutas de meu filho e uma assistente de plantão na sala de aula para ajudar sempre que necessário. No caso de deficientes, porém, nem o indefectível privilégio de classe brasileiro funciona: ricos e pobres são discriminados do mesmo jeito.

Em outra escolinha, chamada Vilhena de Moraes, a coordenadora informou que aceitava portadores de todos os tipos de deficiência, menos os deficientes físicos. Criou uma discriminação dentro da discriminação, como num sistema de castas. O pária é meu filho. No Espaço Educação, a coordenadora recusou-o alegando falta de pessoal. Eu repeti que estava disposto a pagar o salário de uma assistente, em tempo integral. Não adiantou. Fomos despachados.

Ter um filho deficiente não é nenhum drama, nenhum peso, nenhum problema. Basta que os outros não perturbem. Os pais de crianças deficientes não querem favores nem comiseração. Pelo contrário: sentem um orgulho desmesurado de seus filhos. O que eles querem é que as crianças tenham a oportunidade de conviver com outras crianças. Nada de muito complicado.

Outro dia, Lula posou para fotografias com os atletas paraolímpicos. Foi mais uma manobra eleitoreira do presidente. Quando chegou a hora de agir, ele escolheu o lado oposto: vetou a transferência de recursos para entidades particulares que atendem deficientes e vetou a isenção de IPI e do imposto de importação sobre equipamentos como cadeiras de rodas. Nos anos 70, todo mundo tinha um contrabandista de uísque escocês. Eu, agora, tenho de apelar para um contrabandista de apetrechos ortopédicos. Acabo de receber um moderno andador de alumínio. É a muamba fisioterápica.

O Brasil discrimina portadores de deficiência assim como discrimina negros. O maior entrave para o crescimento do país é a nossa infinita ignorância. Quando eu for governador de Roraima, garanto que todos terão acesso à escola e todos terão apartamentos de frente para o mar, se é que Roraima tem mar.

sábado, novembro 29, 2003

Diogo Mainardi A praga brasileira


"O maior problema do Brasil é a propaganda
política. Fomos da ditadura dos militares diretamente para a ditadura dos políticos.
Para cada minuto de informação, somos
obrigados a engolir meia hora de programação
partidária, em que os políticos podem nos
enganar à vontade, sem desmentidos"

Fome? Desemprego? Criminalidade? Nada disso. O maior problema do Brasil é a propaganda política. Em nenhum lugar do mundo há tanta propaganda política quanto aqui. Toda noite tem algum partido mentindo para a gente, nos intervalos do Jornal Nacional. Fomos da ditadura dos militares diretamente para a ditadura dos políticos. Instauraram uma espécie de totalitarismo democrático. Para cada minuto de informação, somos obrigados a engolir meia hora de programação partidária, em que os políticos podem nos enganar à vontade, sem desmentidos.

Eles aparecem em comerciais de trinta segundos e em programas de vinte minutos. Também aparecem no canal de televisão da Câmara ou no do Senado. No rádio, podem contar com a Hora do Brasil. O presidente da República, quando quer, fala à nação em cadeia nacional. Como se não bastasse, decidiu ter um programa no rádio, toda segunda-feira. Prefeitos e governadores dispõem de televisões públicas. Compram, igualmente, espaços publicitários nas televisões comerciais. Os ministros usam as verbas de propaganda das empresas estatais para reforçar a imagem do governo e para barganhar a cumplicidade de veículos de comunicação, muitos dos quais dependem dessas verbas para sobreviver. Difícil encontrar um político que não seja dono de uma emissora de televisão ou rádio. Os que não são donos são amigos dos donos. Os jornalistas, que teoricamente serviriam de contrapeso para o poder político, também estão do lado de lá. De fato, o Estado emprega muito mais jornalistas do que qualquer grupo particular. Nem na Romênia de Ceausescu a ocupação dos meios de comunicação pelos políticos foi tão grande.

Propaganda política não é só o que a gente acompanha na imprensa, no rádio, na televisão. Ela pode assumir muitas outras formas. Uma viagem para participar de um comício. Uma inauguração de uma obra. Um programa social. Uma campanha de vacinação. Um trecho de um livro didático. Um patrocínio de um evento cultural. Tudo é manipulado pelos políticos. Tudo é pago por nós. Por um preço alto demais. Entre o que se gasta em propaganda oficial, mais o que se gasta em propaganda camuflada, mais o que se gasta com empreguismo eleitoreiro, mais o que se gasta em corrupção para financiar a propaganda, a política acaba custando mais do que educação e saúde. Um exemplo: o Brasil tem 5.000 e tantos municípios. Boa parte não conta com receita própria. Funciona apenas como curral eleitoral. Pagamos o salário e a aposentadoria de prefeitos, vice-prefeitos e vereadores cuja única função é arrebanhar votos para os caciques locais. Ou seja, pagamos para que façam propaganda.

Diminuir a presença dos políticos na vida nacional só traria benefícios. Eu tenho algumas sugestões. Fechar as televisões públicas. Vender Petrobras, Eletrobrás e Banco do Brasil. Abolir toda a propaganda política, paga ou gratuita, exceto no período eleitoral. Cortar pela metade o número de municípios. Proibir os políticos de possuir qualquer forma de concessão pública. Limitar com rigor os gastos das campanhas.

Quanto menos os políticos aparecerem, melhor.

sábado, novembro 15, 2003

Diogo Mainardi A África que Lula adorou


"Lula encantou-se com a capital da Namíbia,
produto arquitetônico do apartheid. É bonita e
limpa porque foi feita por brancos e para brancos.
Os negros foram segregados em Katatura, feia e
suja. Lula não foi a Katatura"

A África é feia e suja, segundo Lula. Exceto Windhoek, capital da Namíbia. Windhoek é bonita e limpa. Tanto que nem parece a África. Gilberto Gil e Benedita da Silva concordaram com o presidente. Quem também concordou foi outra ministra negra do governo, Matilde Ribeiro, que recebe um salário para promover a igualdade racial no Brasil.

Windhoek é bonita e limpa porque foi feita por brancos e para brancos. Fundada por descendentes de holandeses, foi sucessivamente ocupada pela Alemanha, Inglaterra e África do Sul. Lula apreciou muito a arquitetura de Windhoek. Ele acha que a eleição a presidente lhe conferiu legitimidade para proferir julgamentos estéticos. No caso de Windhoek, todas as atrações arquitetônicas foram construídas por brancos, durante o regime colonial. Como a catedral luterana, que fica numa rua chamada Fidel Castro, em homenagem ao ditador de Cuba. Ou o Congresso Nacional, que fica numa avenida chamada Robert Mugabe, em homenagem ao ditador do Zimbábue.

A África do Sul, depois da II Guerra Mundial, implantou o regime de apartheid na Namíbia. Windhoek se tornou uma cidade exclusivamente branca, e permaneceu assim até 1990. Os pardos foram transferidos à força para o subúrbio de Khomasdal. Os negros foram segregados em Katatura, ainda mais distante. Katatura significa "o lugar onde não queremos estar". Como o resto da África, é feia e suja. Um amontoado de favelas, onde só moram negros. Tem até uma favela chamada Babilônia, como a do Rio de Janeiro. O crítico de arte Lula não emitiu uma opinião estética sobre Katatura. Ele não foi a Katatura.

Tecnicamente, Lula seria considerado um pardo no regime de apartheid. Não poderia morar na bonita e limpa Windhoek. Nem poderia ter casado com uma branca. Mas isso não importa. O revisionismo histórico é uma especialidade dos petistas. Eles já engoliram tudo o que disseram no passado a respeito da ditadura militar, dos coronéis nordestinos, dos alimentos transgênicos, da reforma agrária, do salário mínimo, do FMI e do neoliberalismo malaniano. Faltava apenas enaltecer a política social do apartheid.

O importante, agora, é descobrir se o encantamento do presidente com o produto arquitetônico do apartheid terá alguma conseqüência prática. O planejamento urbano de Windhoek levou à demolição arbitrária de todos os barracos pertencentes a negros e pardos. O Rio de Janeiro, como Windhoek, ficaria mais bonito e limpo sem suas 700 favelas. O governo federal poderia incendiar todos os barracos e reflorestar as encostas dos morros. Benedita da Silva e os outros favelados seriam removidos para além de Duque de Caxias. A microcriminalidade diminuiria, sobretudo se os favelados, para entrar no Rio de Janeiro, fossem submetidos a uma meticulosa inspeção, como acontecia em Windhoek.

Depois de elogiar o cenário do apartheid, Lula assumiu novamente o papel de crítico de arte e prometeu que o Brasil participaria da Renascença africana. Lula não gosta de pobre. Ele gosta mesmo é de Palladio e Sansovino.

sábado, novembro 08, 2003

Diogo Mainardi A revolução do PT


"O governo de Lula lembra A Revolução dos
Bichos, de George Orwell. Só que
é uma
revolução dos bichos sem revolução. Uma
revolução dos bichos posterior
à queda do
Muro de Berlim. O final é bastante conhecido"

O governo Lula lembra A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Só que é uma revolução dos bichos sem revolução. Uma revolução dos bichos posterior à queda do Muro de Berlim. No livro, que é uma parábola anti-stalinista de Orwell, porcos semiletrados libertam os bichos da eterna tirania dos homens e assumem o comando da granja, prometendo igualdade entre os animais. Logo se apropriam de todo o leite, de todas as maçãs e de toda a cevada. Cachorros adestrados perseguem os opositores do regime. Ovelhas analfabetas repetem mecanicamente os bordões doutrinários criados pelos porcos. Cavalos obedientes trabalham até morrer. Embora sejam incompetentes na administração da granja, os porcos se mostram muito competentes na arte da propaganda e na manutenção do poder.

O governo Lula, neste primeiro ano, também foi incompetente na administração da granja. O que não significa que não tenha tido alguns méritos. O principal deles foi tentar ludibriar a Constituição para diminuir o gasto em saúde. O Brasil tem um tabu: ninguém pode cortar o gasto social. Mesmo quando é ineficiente. Mesmo quando alimenta a roubalheira. Mesmo quando poderia ser mais bem empregado de outras maneiras. Se o dinheiro desperdiçado em maus hospitais fosse aplicado no pagamento da dívida pública, a população miserável sairia ganhando. As taxas de juro cairiam, favorecendo os investimentos produtivos, geradores de empregos. Se o mesmo dinheiro fosse usado para cortar os impostos da classe média, os miseráveis também se beneficiariam. Porque o crescimento da economia respingaria, ainda que minimamente, sobre eles. O governo Lula quebrou o tabu e tentou cortar o gasto em saúde. Falta pensar em cortar o gasto em educação, em alimentação, em habitação, em cultura. Falta, igualmente, cortar os gastos administrativos. O governo deveria suprimir ministérios, Estados, municípios e órgãos públicos, mandando um monte de políticos e funcionários para a rua.

Outro mérito de Lula foi denunciar a caixa-preta do Judiciário. Quando ele deu a declaração, muitos comentaristas indignados o acusaram de leviandade. Mas ele não foi leviano. Pelo contrário: sabia perfeitamente do que estava falando. Pelo que VEJA revelou duas semanas atrás, parte do Judiciário foi o cão de guarda do PT, perseguindo seus adversários políticos e acobertando questões espinhosas relacionadas com a prefeitura de Santo André. A mais importante assessora de Lula, na área social, foi casada com o prefeito assassinado de Santo André. Fiel e discreta, ela sempre afirmou desconhecer o esquema de propinas da prefeitura. Agora que o caso foi enterrado pelos cães de guarda do Judiciário, será difícil averiguar sua afirmação.

O final de A Revolução dos Bichos é bastante conhecido. Todos os planos dos porcos fracassam. Eles começam a se vestir como homens. Começam a beber, a fumar e a jogar cartas. Começam a negociar com o inimigo. Até o dia em que fica impossível distinguir quem é homem, quem é porco.

sábado, outubro 18, 2003

Diogo Mainardi Eu quero sexo


"A gente não se mete na vida sexual dos políticos por um atavismo escravocrata. Os
senhores
de escravos se comportavam como
bem entendiam,
e seus dependentes eram
obrigados
a fingir que não viam nada"

Os americanos gostam de saber tudo sobre a vida sexual de seus políticos. Os brasileiros também gostariam. Só que ninguém lhes conta nada. Pelas histórias que circulam nos bastidores da imprensa, nossos políticos poderiam oferecer grande divertimento aos leitores. Estão sempre se metendo em alguma grotesca enrascada amorosa. É comum que tenham filhos ilegítimos. É comum que mantenham casamentos de fachada. É comum que abandonem amantes mais velhas por amantes mais jovens. Pena que a gente não seja informado. Teríamos um bom assunto para a hora do jantar. Os americanos argumentam que um político que mente para a própria mulher também mente para os eleitores. Bobagem. Todos os políticos mentem. Adúlteros ou não. O único motivo pelo qual vale a pena investigar suas vidas sexuais é tentar arruinar suas carreiras. Qualquer meio para tentar arruinar a carreira de um político é plenamente legítimo.

O silêncio dos brasileiros em relação à vida sexual dos políticos não tem nada a ver com o respeito à privacidade. Mesmo porque nenhum político tem direito a privacidade. Também não é um sinal de maturidade, contraposto idealmente ao puritanismo infantil dos americanos. A gente não se intromete na vida sexual dos políticos por um atavismo escravocrata. Os senhores de escravos se comportavam como bem entendiam, e seus dependentes eram obrigados a fingir que não viam nada. Suas mulheres ficavam caladas. Suas escravas ficavam caladas. Os maridos de suas escravas ficavam calados. Até hoje é assim. Continuamos calados diante do comportamento de nossos políticos. Os antropólogos brasileiros, nos últimos setenta anos, conseguiram nos convencer de que a devassidão dos senhores de escravos era um motivo de orgulho, um traço distintivo de nosso caráter, uma demonstração de tolerância e liberdade. Não era. Era estupro. Era ameaça de chibatada. A liberdade de alguns, no Brasil, sempre dependeu do cativeiro de outros.

O maior problema do Brasil é que acabamos por acreditar em todos os estereótipos a nosso respeito. O estereótipo da nação alegre. O estereótipo do povo irreverente. O estereótipo do gigante adormecido. Tudo falso, claro. Somos o contrário de tudo isso. Somos uma gente sem graça, bem-comportada, subalterna, previsível, desimportante, sem futuro. O estereótipo mais difundido sobre os brasileiros se refere à nossa suposta liberdade sexual. As violências e os abusos cometidos pelos senhores de escravos passaram a ser vistos como um atributo de todos nós. Passamos a nos identificar com nossos donos. De chavão em chavão sobre nossa sexualidade, apagamos da memória a limpeza étnica que se deu por aqui. Se o Brasil quiser sair do lugar, se quiser aprender a lidar com autoridades, precisa lembrar que não é uma nação de senhores de escravos: é uma nação de filhos ilegítimos, uma nação de bastardos. Por isso devemos saber como se comportam nossos políticos. Para que eles não se sintam livres para agir como nossos senhores. Eles são tão bastardos quanto nós.

sábado, setembro 20, 2003

Diogo Mainardi Escola é perda de tempo


"Pelas estatísticas oficiais, 60% dos
alunos da 4ª série não sabem ler nem
efetuar as quatro operações. Os filhos
dos pobres aprenderiam muito mais
se ficassem o dia inteiro assstindo a
reprises do Scooby-Doo na televisão"

O Estado paga aos pobres para manterem seus filhos na escola. É um mau negócio para todo mundo: custa caro para o Estado e os filhos dos pobres não aprendem nada. Pelas estatísticas oficiais, 60% dos alunos da 4ª série não sabem ler nem efetuar as quatro operações. Ou seja, a escola é uma completa perda de tempo para eles. Aprenderiam muito mais se ficassem o dia inteiro assistindo a reprises do Scooby-Doo na televisão. Os pobres deveriam ser pagos para manter seus filhos em casa.

Desde que assumiu o cargo, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, repete que o importante não é medir a quantidade de alunos nas escolas, mas a qualidade do ensino. Ele sempre pede mais recursos para atingir o objetivo. Chega até a incitar passeatas de estudantes contra seu próprio governo. Quando é hora de agir, porém, Cristovam Buarque esquece tudo isso e promete erradicar o analfabetismo oferecendo cursos de seis meses a 20 milhões de iletrados. Quantidade, não qualidade. Basta ler um jornal para perceber que se trata de mais um embuste eleitoreiro. A sorte dos nossos governantes é que os brasileiros são analfabetos e não conseguem entender um artigo de jornal.

Para melhorar a qualidade de ensino, o Ministério da Educação criou um provão para professores. O provão é voluntário. O professor pode ou não se submeter a ele. Difícil entender a lógica dessa medida. Se um professor não sabe sua matéria, é melhor demiti-lo. Se uma escola não ensina, é melhor fechá-la. O salário dos professores demitidos deveria ir para o bolso dos professores competentes. O dinheiro das escolas fechadas deveria ir para as escolas que sabem ensinar. Se faltarem professores competentes para atender a todos os alunos do país, a solução é o telecurso. Uma televisão em cada sala de aula. Os professores incompetentes podem ser convertidos em bedéis.

Outro problema das escolas brasileiras é o currículo. Tem coisa demais. Pretende-se que os alunos do ensino básico aprendam até ética e filosofia moral, os chamados temas transversais. O Ministério da Educação determina que o aluno seja ensinado a "compreender a cidadania como participação social e política, adotando no dia-a-dia atitudes de solidariedade e repúdio às injustiças". A prefeitura de São Paulo conta a mesma lorota. O maior instrumento de propaganda eleitoral da prefeita Suplicy é o Escolão, uma mistura de Projeto Cingapura com Piscinão de Ramos. De acordo com a prefeitura, a função dessas escolas é promover a "integração do cidadão na sociedade". Qual cidadão? Um garoto de 7 anos não é um cidadão, é apenas um garoto de 7 anos. Ele não precisa ser integrado à sociedade, só precisa aprender a ler. Ele não precisa de uniforme nem de merenda, só precisa decorar a tabuada. A escola não pode ser vista como um remendo para todas as nossas carências sociais. Atenção: sempre que um petista usa o termo cidadão, é porque ele quer meter a mão no seu dinheiro.

Tudo indica que Cristovam Buarque será mandado embora do Ministério da Educação. Certamente saberão substituí-lo com alguém ainda pior.

domingo, agosto 24, 2003

Miriam Leitão Hora de crescer

Crescer não deveria ter hora. Deveria ser sempre. Nada mais amargo que uma recessão, nada mais frustrante que o baixo crescimento e temos vivido assim há tempo demais. Não existem soluções simples. Há muitos obstáculos a remover para garantir o crescimento. Os desafios não serão enfrentados todos de uma vez, mas é importante fazer uma lista e ir brigando diariamente sem tirar o olho do objetivo.

Estabilidade é fundamental como pavimentação. Por isso, a luta primeira de qualquer governo sério tem que ser conquistá-la ou preservá-la. O ex-presidente Fernando Henrique comandou a conquista. O presidente Lula e seu ministro da Fazenda preservaram o patrimônio num momento de dúvidas e apostas contrárias. As implicâncias de parte a parte dizem pouco da grandeza dessa corrida de revezamento entre líderes de partidos diferentes. Mas o fato é: não se cresce na inflação. Todas as vitórias dos últimos anos — novos modelos de gestão, aumento da produtividade, novos valores corporativos, debate sobre inclusão — vieram após a redução da inflação. Aquela loucura de antes cegava. O Brasil cresceu a taxas altas até o ano de 1980. De 81 a 93, cresceu apenas 1,6%. Não por coincidência, o pior momento da inflação. Nos anos seguintes, cresceu 2,7%. Mais do que nos anos anteriores e muito menos do que a taxa histórica.



Os juros são altos demais e tornam o ambiente hostil ao investimento. Estão altos por razões conjunturais, e caem ao longo dos próximos meses. Mas o problema é enfrentar as razões estruturais. O que faz com que os juros sejam tão altos no Brasil? A pergunta feita por Pérsio Arida, ao receber o prêmio Economista do Ano, é um convite a que se pense em todos os detalhes desse enigma paralisante.

A dívida pública é alta e isso é, sem dúvida, uma das razões para juros tão altos. Outros países, no entanto, têm dívidas até maiores e juros menores. Não há invenção possível: é pagar a dívida porque ela é a poupança dos brasileiros. Mas reduzi-la é essencial porque hoje a dívida atrai todo o dinheiro que poderia estar em outros projetos, em investimentos, no mercado de capitais. Os novos produtos financeiros vão se fortalecer quando o Estado deixar de drenar tantos recursos para seus títulos. Aqui, pode se formar um círculo virtuoso: menos juros, menor a dívida, mais recursos liberados para oxigenar a economia. Mas o problema é que, quando os juros caem abaixo de determinado ponto, põe-se em risco a estabilidade. Esta é a pedra no caminho.

A produtividade foi a força que empurrou a economia para o pequeno crescimento dos últimos anos. A taxa de investimento caiu, mas a produtividade aumentou, fazendo a economia avançar. Mas é fundamental agora garantir o aumento do investimento.

Do Banco Central, Altamir Lopes continua de olho nos números do investimento direto estrangeiro. E disse esta semana, olhando os dados de julho, que eles estão voltando: deu US$ 1,2 bilhão. Mas a volta dependerá da criação de regras estáveis e dissipação de todos os temores que se formaram nos últimos meses. Regulação estável é pressuposto do investimento privado, seja estrangeiro, seja nacional. O governo promete para esta semana a divulgação de um marco regulatório, uma espécie de moldura dentro da qual os setores serão regulados. Há erros nas agências, sem dúvida. Mais errado foi o governo iniciar o ataque a elas. Espera-se que o marco regulatório dê confiança a quem quer investir. Não é apenas o Executivo o responsável pela criação de um clima favorável ao investimento. O risco jurídico do país no Brasil é uma das razões da incerteza regulatória.

A informalidade atrapalha de diversas formas: reduz a arrecadação, desestimula o setor formal, diminui a produtividade da economia. Quem tem batido nesta tecla é José Alexandre Scheinkman, professor de Princeton. Ele acha que a reforma tributária desperdiça a chance de incentivar a redução da informalidade. E quanto mais entrarem no reino dos pagantes, menor pode ser a carga tributária sobre quem paga.

A pobreza e a desigualdade são temas de estudo constante de vários e excelentes economistas, felizmente. O caminho já está mapeado: rever incentivos e benefícios, porque eles são hoje apropriados pela elite. Ter políticas públicas eficientes, focadas, avaliadas. E antes e depois de tudo: educação! Inclusão é a única estratégia aceitável para o crescimento brasileiro. O desemprego precisa ser enfrentado com olho no futuro e não com a obsessão pelo passado getulista.

Não é possível mais adiar o encontro do país com a necessidade de ter um sistema financeiro de habitação que funcione, que permita aos pobres ter casas decentes — subsidiadas, porque é para isso que existem os subsídios — e que atenda ao sonho da casa própria da classe média como fonte de novos produtos financeiros. A construção e tudo o que ela envolve cria círculos virtuosos e é forma de dar emprego a quem tem pouca qualificação.

Exportação é fundamental e, na balança, a agricultura tem sido campeã. Aqui, o erro a evitar é proteger, escolher e subsidiar setores que supostamente puxam o crescimento. E o país, vez por outra, está flertando com este erro. É preciso aumentar o volume de comércio. Mas não sem antes rever a ilógica logística deste país continental.

Com vários bons estudiosos brasileiros, tenho aprendido que o caminho de retomar o crescimento não é fácil, mas não é impossível. Estas aqui relacionadas não são as únicas barreiras ao crescimento. São as que couberam neste espaço. O país tem muito trabalho pelos próximos anos e décadas para garantir mais crescimento nestes próximos anos e décadas.

sábado, agosto 16, 2003

Diogo Mainardi Varig e TAM


"O fato mais curioso na fusão da Varig
com a TAM é que ninguém sabe direito
quanto o governo federal irá gastar.
Li que o BNDES ofereceu à empresa
um empréstimo-ponte de 700 milhões
de dólares, porém o presidente
do banco não confirma"

As aeromoças da Varig encheram-me de mensagens na última semana. Uma delas me elevou à condição de "defensor da democracia". Outra me atribuiu "grande prestígio entre os leitores". O meu ponto fraco é a adulação. Basta falar bem a meu respeito que eu cedo. Ainda mais quando se trata de aeromoças. Elas querem que eu me manifeste contra a fusão entre a Varig e a TAM? Então eu me manifesto: sou contra. Se tivessem pedido uma manifestação a favor, eu teria me manifestado a favor.

De todas as mensagens enviadas pelas aeromoças da Varig, as de gosto mais duvidoso foram aquelas com recortes de jornal relatando acidentes com os Fokker da TAM. Falam de "fuga de fluido hidráulico", de "fogo no trem de pouso", de "falha no auto-throttle", de "abertura da porta lateral". As aeromoças da Varig mandaram-me também misteriosas mensagens em código: RESTRICAO DE 20 PAX INF DESPACHANTE DVD *CHUVA* EMCWB PT ACFT DEP POA COM 57 PAX TOT PT. O que significa?

As aeromoças e os pilotos da Varig, pelo que entendi, querem usar seus créditos trabalhistas para comprar a companhia, mas o governo federal insiste em fundi-la com a TAM. A proposta dos funcionários da Varig parece ter uns buracos. Inclui investimentos do BNDES, só que o BNDES é favorável à fusão com a TAM. Os funcionários também contam com a participação do fundo de pensão Aerus, embora o diretor do instituto já tenha avisado que não quer saber do projeto, inclusive porque é ilegal.

O sindicato das aeromoças e dos pilotos da Varig é filiado à CUT. Eles se arrependeram de ter votado em Lula. Entupiram-me de mensagens sobre os 600 quilos de bombons encomendados pelo Palácio do Planalto. O principal interessado na fusão entre a Varig e a TAM, segundo as aeromoças, é José Dirceu. Se José Dirceu é a favor de uma coisa, eu sou contra. O problema é que o único aliado que as aeromoças da Varig conseguiram encontrar até agora foi o senador Marcelo Crivella. Eu não quero ser visto em sua companhia.

O fato mais curioso na fusão da Varig com a TAM é que ninguém sabe direito quanto o governo federal irá gastar. Li que o BNDES ofereceu à empresa um empréstimo-ponte de 700 milhões de dólares, porém o presidente do banco, Carlos Lessa, negou-se a confirmar o número, alegando "segredo bancário". As companhias aéreas pleiteiam ajuda estatal porque foram prejudicadas pelo 11 de setembro. A Lufthansa também foi, mas acaba de anunciar um lucro de 400 milhões de dólares para o ano que vem. A Varig e a TAM também reclamam da desregulamentação do setor aéreo brasileiro. Qual desregulamentação? Desregulamentação foi o que aconteceu na Europa. O resultado está aqui na minha frente, no jornal. A Ryanair oferece passagens da Itália para a Inglaterra por menos de 25 dólares. E da Itália para a França por menos de 20. Para desregulamentar de verdade, o Brasil, antes de mais nada, deveria vender os aeroportos e fechar a Infraero.

A PanAm faliu. A TWA faliu. A Swissair faliu. Por que a Varig ou a TAM não podem falir? É a regra básica da economia: empresas mal administradas fecham as portas. Espero que as aeromoças da Varig estejam satisfeitas comigo.

sábado, agosto 09, 2003

Diogo Mainardi A van da literatura


"Qualquer um pode escrever um livro.
Duro
mesmo é ficar no sofá, sem escrever
nada.
Não escreva. Se realmente tiver de
escrever,
trate o resto da humanidade aos
tapas
e pontapés"

Ivan Lessa é o maior escritor brasileiro. Só que o Brasil é tão desgraçado que nosso maior escritor nunca se interessou em escrever um livro. Preferiu dedicar-se a não escrever. É muito mais difícil não escrever do que escrever. Qualquer um pode escrever um livro. Qualquer um pode publicá-lo. Duro mesmo é ficar deitado no sofá, sem escrever nada. Requer uma aceitação filosófica da própria transitoriedade. Requer o desprendimento de um sufi. Ivan Lessa resumiu sua determinação de não escrever da seguinte maneira: "Que nossa presença seja leve aos outros, ocupados com seus mistérios e empombações. Falemos baixo".

Eu escrevi livros. Um monte de livros. Cheios de mistérios e empombações. Quem melhor definiu minha carreira literária foram os humoristas do Casseta e Planeta. Alguns anos atrás, contaram que um assassino, fugindo da polícia, escondeu-se dentro de um dos meus romances, o único lugar que ninguém jamais abriria. No domingo passado, o mesmo Casseta e Planeta voltou ao assunto e retratou-me nos fundos de uma van, a caminho de um festival de literatura em Parati, amolando o tempo todo meus companheiros de viagem, Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor e Marilena Chaui. Acontece que agora eu não escrevo mais. Desci da van literária. Como um alcoólatra numa reunião do AA, um dia me levantei da cadeira e jurei que nunca mais escreveria um romance. Há seis anos, quatro meses e duas semanas não faço uma linha de literatura. De tempos em tempos, sou tentado a retomar o hábito, sobretudo depois da noite de autógrafos de algum amigo. Ivan Lessa já disse que o único bom motivo para escrever um livro é irritar os amigos. Ele disse também que amigos custam um dinheirão e, ao contrário de liquidificador, não vêm com garantia. Bem melhor que ter um amigo é ter um conhecido no pub.

Conheci Ivan Lessa em Londres, em 1981. Todas as quartas-feiras almoçava com ele num restaurante chinês no centro da cidade. Ele sempre me levava três livros, dentro de um saco de supermercado. Eu lia tudo e devolvia na semana seguinte. Para ler os livros que ele me emprestava, fui negligenciando os estudos universitários na London School of Economics, até largá-los definitivamente, no fim do 1º ano. Em sua recente passagem por Londres, Lula recebeu uma homenagem da London School of Economics. O reitor chegou a chorar. Eu já era grato a Ivan Lessa por ter sabotado minha carreira estudantil. Depois da homenagem a Lula, fiquei duplamente grato. Embora eu não devesse falar desse jeito. Era divertido debochar do Lula nas primeiras semanas de governo, quando ninguém debochava dele. Agora todo mundo debocha, até o Casseta e Planeta.

Aprendi muitas coisas com Ivan Lessa. Algumas delas, só entendi recentemente. Isso de não sair escrevendo um romance atrás do outro, para mim, foi uma conquista difícil, que precisou de muito esforço e muita autoflagelação. Como nem todo mundo teve a sorte de ter um tutor como Ivan Lessa, estou passando adiante suas lições aqui, agora, de graça. Lição número 1: não escreva. Lição número 2: se realmente tiver de escrever, "trate o resto da humanidade aos tapas e pontapés".

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