Entrevista:O Estado inteligente

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sexta-feira, abril 08, 2011

Novo relatório do mensalão propõe investigação no BB

Novo relatório do mensalão propõe investigação no BB

Polícia vê descontrole nos gastos do Banco do Brasil com publicidade,
apontados como principal fonte do esquema

Dinheiro repassado para agência de operador do esquema foi desviado
para empresas fantasmas

ANDREZA MATAIS
RUBENS VALENTE
DE BRASÍLIA

O relatório final da Polícia Federal sobre a origem do dinheiro do
mensalão aponta total descontrole nos gastos do Banco do Brasil com
publicidade e propõe que um inquérito apure o "incrível poder
discricionário" dos diretores do banco para indicar empresas que são
"agraciadas com recursos públicos".
O relatório confirma que recursos repassados pelo BB foram uma das
principais fontes do mensalão, um esquema montado para compra de apoio
político no Congresso que foi revelado pela Folha em 2005, no primeiro
mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Assinado pelo delegado Luís Zampronha, o relatório afirma que o desvio
de recursos do BB para o esquema "somente seria possível com a
participação ativa de membros da instituição financeira". A Folha teve
acesso à íntegra do relatório da PF.
O documento apresenta as conclusões de um inquérito aberto em 2007,
após a apresentação da denúncia que deu origem ao processo do mensalão
no STF (Supremo Tribunal Federal). A PF entregou o novo relatório em
fevereiro ao Supremo, que o submeteu à análise da Procuradoria-Geral
da República.
Segundo a polícia, entre 2001 e 2005, o BB retirou R$ 151,9 milhões de
sua cota no Fundo Visanet, criado por vários bancos para promover a
bandeira de cartões Visa.
Desse total, R$ 91,9 milhões foram repassados à DNA Propaganda, uma
das agências de publicidade do empresário Marcos Valério -acusado de
ser o principal operador do mensalão.
A polícia concluiu que parte do dinheiro jamais chegou aos
destinatários finais indicados nos documentos apresentados pela
agência e foi desviada por Valério, seus sócios e funcionários.
Outra parte foi destinada a negócios fictícios ou empresas que não
comprovaram a realização dos serviços para os quais foram contratadas.
Entre as 15 empresas que mais receberam recursos do Visanet em 2003,
há empresas que não existiam formalmente na época dos repasses, como a
Carre Airports, que ficou com R$ 1 milhão.
Há casos em que a DNA, por meio de manobras contábeis e bancárias, se
"apropriou" diretamente de recursos destinados a ações de marketing do
BB. Em 2003, a DNA retirou, como "bônus", R$ 579 mil de um contrato de
R$ 2,5 milhões assinado com uma casa de shows.
A PF também encontrou empresas, como a Editora Guia, que aparecem nas
planilhas com mais recursos do que elas dizem ter recebido.
Há, por fim, empresas que, segundo a PF, não apresentaram documentos
que "comprovem a efetiva veiculação de publicidade". O relatório
menciona entre elas a TV Globo, que recebeu R$ 2,8 milhões em 2003
para "publicidade futura".
O fundo Visanet, criado em 2001 e extinto em novembro de 2005, foi
formado por 26 bancos, mas os gastos realizados pela DNA e examinados
pela PF estavam sob responsabilidade do BB.
O então diretor de marketing do BB, Henrique Pizzolato, filiado ao PT,
havia trabalhado na campanha que elegeu o presidente Lula em 2002.
Segundo a PF, ele tinha total autonomia para escolher os beneficiários
dos recursos que administrava.
Segundo a polícia, os valores desviados dos contratos com o BB eram
usados por Valério para abater parcelas de dois empréstimos que ele
tomou nos bancos Rural e BMG para repassar ao PT.

terça-feira, fevereiro 02, 2010

Lula dobra criação de cargos de confiança no 2º mandato

Folha de S Paulo

Média mensal de novos postos salta de 23,8 no primeiro período para 54 desde 2007

Oposição diz que o aumento demonstra partidarização da gestão; Planejamento afirma que atende à reorganização da máquina pública federal


FERNANDO BARROS DE MELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

O governo Luiz Inácio Lula da Silva dobrou o ritmo da criação de cargos comissionados da administração federal no segundo mandato. O número médio mensal de postos criados aumentou de 23,8 nos quatro primeiros anos do governo para 54 a partir de 2007. Essas vagas são muitas vezes destinadas a apadrinhados políticos.
Levantamento feito em medidas provisórias e projetos de lei mostra que foram criados 4.225 cargos de confiança entre 2007 e 2009. Considerando os cargos extintos no mesmo período, o saldo é de 1.946, contra 1.144 no período anterior.
No segundo mandato, foram criados 395 cargos por MPs e 3.830 por projetos de lei. No mesmo período, foram criados 84.672 cargos efetivos, com exigência de concurso.
Em 2007, o Ministério do Planejamento enviou à Câmara a nota informativa 304/07, que detalhou ano a ano a situação de cargos de confiança desde 1994. O documento mostra que Lula herdou do antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), 19.943 cargos de livre nomeação.
Após redução em 2003, houve grande aumento no ano seguinte, chegando a 21.404. Em 2005 e 2006, novas quedas. Ao final do primeiro mandato havia 21.087 cargos de confiança. Agora, são 23 mil.
Os cargos comissionados são conhecidos pelas siglas DAS (Direção e Assessoramento Superior) e NE (Natureza Especial) e destinados a funções de chefia ou postos estratégicos.
O Ministério do Planejamento afirma que a criação desses cargos se dá de maneira pulverizada e para atender reorganizações internas de diversos órgãos do governo.
O número de cargos de confiança no Brasil é um dos mais altos do planeta. Nos Estados Unidos, no início da gestão Barack Obama, em 2009, havia cerca de 9.000 dirigentes desse tipo e 600 deles precisavam de aprovação do Senado.
A oposição diz que o aumento nesse tipo de posto é uma demonstração de partidarização do governo. "Isso é o governo do PT. É a certidão do aparelhamento do Estado", afirma o líder do PSDB na Câmara, João Almeida (BA). "A despeito de tantas nomeações, não se observa melhoria no serviço público e há muitas áreas que carecem de pessoal, como meio ambiente", complementa.
O PT calcula que cerca de 5.000 cargos de confiança federais são ocupados por filiados. Mas resolução do Tribunal Superior Eleitoral de 2006 proíbe contribuição partidária de parte dos ocupantes desses cargos.
"Por 4 votos a 3, o TSE disse que os cargos que tinham algum tipo de responsabilidade em ordenar despesas não poderiam fazer doações. O PT perdeu por mês R$ 200 mil reais de arrecadação e, na época, tínhamos um aumento de contribuição individual", diz Paulo Ferreira, tesoureiro do PT.
Em 2002, as contribuições dos filiados eram 1,9% da arrecadação do PT. A partir de 2003, com a vitória de Lula, a participação dos filiados cresceu, chegando a R$ 35,6 milhões (8,67% do total) em 2005.
A participação recuou a R$ 2,88 milhões em 2006, ano da reeleição de Lula, e continuou caindo. Dos R$ 93 milhões captados em 2008, só R$ 2 milhões (2,15%) saíram de filiados, contra R$ 60,3 milhões (64%) de empresas.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Vinicius Torres Freire Programa de Aceleração do Natal


Folha de S. Paulo - 24/12/2009


O que é pior? A queixa sobre a vulgaridade que mata festas tradicionais ou falar do "tíquete médio" e do "PAC do Natal"?


"SERÁ O Natal dos consumidores emergentes, novos clientes que se inseriram no consumo, que não curtiam Natal e que passarão a curtir", previa em novembro um grande lojista. "Neste ano, o tíquete médio do Natal vai subir", dizia outro. "O melhor Natal da história foi o do Real, em 1994. O recorde ficou para 2010", lamenta-se um velho lojista, apesar dos esforços do governo: "Faremos o necessário para que o brasileiro tenha o melhor Natal da sua vida", dizia um ministro. O que é o "melhor Natal"? "Queremos que este seja um Natal muito bom para a família brasileira, com troca de carro e de móveis e agora com a compra de uma moto também", explicaria o mesmo ministro.
A data cristã mais importante é a da Ressurreição de Cristo, não o Natal. Um tanto por isso, a queixa clichê, cafona e farisaica sobre o comercialismo de Natal parecia tola e ignorante mesmo para um católico que se tornou ateu.
Com os anos, veio certa tolerância com a comemoração. Com alguma boa vontade, pode-se interpretá-la como a festa do período das boas disposições de espírito. Intolerável mesmo é a efusão adicional de feiura que a data suscita, a começar pelo palavreado de comerciantes, governo e seus publicitários. "Emergentes curtindo o Natal", "tíquete médio recorde", "Natal das motos", Natal como "mais uma realização do governo", tudo isso uma exsudação de mau gosto, vulgaridade e grosseria, aliás tão tipicamente nossas.
Por falar em típico, a uniformidade de costumes, nossa ignorância novidadeira e nossa falta de imaginação deixam ainda mais sem graça as festas tradicionais. Não está longe o dia em que um prefeito contratará as bandas "Calcinha Roxa" e "Colapso" para um show de Páscoa. Talvez já tenha acontecido. Em Barbalha, no Cariri cearense, havia uma festa bonita de santo Antônio, com pau-de-bandeira e tudo mais. Pau-de-bandeira ou mastro de santo é o tronco de árvore pintado onde é amarrada a bandeira do santo, Antônio, Pedro ou João. Agora, dizem, Barbalha tem show pop. As festas juninas do Nordeste quase todas têm.
A casinha ora museu de mestre Vitalino, o dos bonecos de barro, uma vez quase foi destruída por uma horda de bêbados saídos de um show pop junino em Caruaru, me contou um dia Severino, filho do artista.
Noutra ocasião, viajando pelo vale do Jequitinhonha, tive a sorte de cruzar com lavadeiras cantoras, na margem do rio. Hoje, quase só é possível ouvir lavadeiras em discos de grupos folclóricos. Mas por azar passava na cidade um trio elétrico contratado para uma micareta da prefeitura. O Jequitinhonha é triste de pobre, cheio de "viúvas da seca". Poluído e assoreado, o rio mal dá peixe e mal dá para lavar a roupa na margem. O atraso insuportável do Jequitinhonha, porém, preservou coisas como cantos quase medievais e criou artistas como dona Isabel das estátuas de barro e tintas naturais.
Tão velho como as queixas sobre o Natal é esse lamento reacionário e esnobe sobre o "fim da autenticidade", das "cores locais" etc., que no fim das contas pede às gentes do interior que preservem relíquias que ainda escapam da uniformização geral. As gentes decerto serão mais felizes no melhor Natal da família brasileira, o do tíquete médio recorde.

terça-feira, dezembro 15, 2009

VINICIUS TORRES FREIRE O leilão de vento deu certo

Folha de S Paulo


Leilão de energia eólica mostra que setor deixa de ser exótico e marginal e que preço de sua eletricidade pode ser viável

A ENERGIA dos ventos deixou ontem de ser um exotismo marginal na produção de eletricidade no Brasil. O governo contratou em leilão projetos de usinas eólicas com capacidade de gerar 1.805 MW, pouco mais de um quarto da potência instalada de uma usina do rio Madeira, em Rondônia. A energia estará disponível a partir de 2012. Hoje, todas as usinas de eletricidade movidas a vento no país são capazes de produzir cerca de 600 MW.
Para começar pelas boas notícias, o preço médio da energia do leilão foi muito competitivo, R$ 148,39 por MWh. O governo havia fixado um teto de R$ 189 por MWh (megawatt-hora). No mercado, que sempre chora, dizia-se que alguns projetos seriam capazes de se sujeitar ao limite de preço do governo, mas que não haveria propostas próximas de R$ 140 por MWh. Mas houve até propostas entre R$ 130 e R$ 140, embora algumas empresas gigantes, como a portuguesa EDP, tenham desistido do leilão (a EDP tem um parque eólico de 2.500 MW nos EUA). O teto do preço para o leilão "normal" de energia elétrica marcado para este mês era de R$ 144 MWh (o leilão foi cancelado, pois a oferta majoritária era de energia "suja" e, porque, por ora, sobra energia devido à crise).
A energia eólica ainda é tida como cara. Tanto que a associação do setor, Abeeólica, insiste em que a energia dos ventos seja leiloada apenas em certames "especiais", sem concorrer com outras fontes. Mas, pelo leilão de ontem, talvez a energia eólica não precise tanto de disputas "café com leite". "Talvez", ressalte-se.
Apesar de racional e simpático, no médio e longo prazos, a adesão aos ventos tem problemas. Há grande potencial de energia eólica em locais remotos do Nordeste, isolados das redes de transmissão. Custa caro fazer rede de transmissão. Faltam coisas simples como boas estradas. Sim, é preciso transportar pás de 30 metros e torres de 90 metros dos geradores, que demandam carretas e guindastes especiais. Faltam engenheiros e técnicos especializados.
Investidores estrangeiros que ontem acompanhavam o leilão observam ainda que se sentiriam mais seguros em investir no país (em parques eólicos e fábricas de equipamentos) se houvesse uma espécie de "programa de metas" para o setor, infraestrutura melhor e leis mais claras (no caso, incentivos fiscais garantidos por mais tempo, pelo que se pôde depreender das conversas).
Na sexta-feira passada, o setor se irritou com a decisão do Confaz que prorrogou apenas até o final de janeiro de 2010 a isenção de ICMS para equipamentos de energia eólica e solar, desconto que já dura 12 anos. Mas na quarta-feira da semana passada o governo federal desonerou os aerogeradores do IPI.
Há ainda gente no governo de má vontade com o projeto de eólicas, pois a produção de energia pelos ventos é instável e não pode ser estocada. Mas as novas hidrelétricas do país também padecem desse defeito. São usinas de "fio d'água" (que, grosso modo, geram energia na proporção da vazão do rio, não podendo estocar a água para tempos mais secos). Mas o pessoal da EPE, estatal de pesquisa e planejamento energético, argumenta que, no caso brasileiro, as eólicas têm um papel complementar importante -venta mais quando chove menos.

FERNANDO DE BARROS E SILVA Colapso paulistano

Folha de S Paulo
SÃO PAULO - Nós, paulistanos, aprendemos a viver numa espécie de duplo registro, entre a ilusão insistente de que as coisas funcionam ou podem funcionar, ainda que mal, e espasmos periódicos de desilusão, quando cai a ficha de que as coisas por aqui não funcionam, definitivamente. Há anos, as chuvas de verão nos fazem lembrar da inviabilidade crônica da cidade. É quando o "colapso urbano" deixa de ser só uma metáfora pertinente para se materializar -de muitas maneiras.
Todos terão uma história para contar, sua ou de alguém conhecido, envolvendo as inundações da última terça: a faxineira que fez em cinco horas, da sua casa ao trabalho, um percurso que costuma fazer em uma hora, nunca sentiu "tanto medo de morrer"; ela, que não sabia nadar, presa num ônibus lotado e flutuando no asfalto que virou rio.
Ou a vizinha de Higienópolis, que não pôde trabalhar porque não tinha com quem deixar os filhos -a diarista ficou presa nas enchentes. Ou os que chegaram a Cumbica da Europa, depois de 12 horas num avião, e levaram em média outras sete horas até aterrissar em casa.
Reciclamos o transtorno da véspera e já esperamos a próxima catástrofe. Mas ainda há regiões da cidade inundadas. É o caso do Jardim Romano, área pobre da zona leste. O "Fantástico", da Globo, fez uma reportagem submetendo amostras da água acumulada no local a exames de laboratório. Resultado: há naquela água podre cerca de 2 milhões de coliformes fecais por 100 ml, o dobro da quantidade detectada num rio imundo como o Tietê.
Curiosamente, para quem não ficou ilhado (nem vive entre os ratos), a cidade pareceu calma na última terça. Milhares de pessoas puderam experimentar, em ruas desertas e desimpedidas, a sensação estranha de que a vida fluía.
São Paulo é isso: o naufrágio da maioria permitiu que as coisas funcionassem muito melhor para outros tantos, eleitos ao acaso. Essa mistura entre o "salvou-se quem podia" e o colapso geral talvez seja a síntese da tragédia paulistana.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

Fernando de Barros e Silva Homem de partido

FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO -
Depois que deixou o poder -defenestrado da Casa Civil, cassado pela Câmara no escândalo do mensalão-, José Dirceu se tornou uma pessoa desimportante para o público.

A quem iria interessar a vida e os "combates na planície" daquele que o ex-procurador-geral da República colocou à testa de uma organização criminosa?

Fora do poder, Dirceu, o socialista, poderia ter dedicado o tempo ocioso e a experiência acumulada àqueles que ainda lutam pela sua causa. Não consta, porém, que tenha se convertido ao MST, participado de cooperativas agrícolas ou se engajado no trabalho do próprio governo com a economia solidária.

Na planície, o advogado Dirceu preferiu ganhar a vida como "consultor". E se dedicou a um nicho muito valorizado desse mercado emergente: o das empresas com interesses nas decisões do governo ou que têm negócios com o Estado.

Dirceu nunca deixou que sua vida profissional um tanto esquiva o afastasse do PT. Pelo contrário, manteve vínculos com o partido, onde é uma figura (talvez mais) idolatrada. Para muitos, "Zé é PT" de uma maneira que Lula jamais foi.

Dirceu é, de fato, o artífice da conversão do PT, aquele que o transformou de veículo de massa em máquina de poder. A burocratização, a realpolitik -tudo, enfim, que, com Lula-lá, foi desembocar no mensalão tem ou teve a sua colaboração.

A recente eleição de José Eduardo Dutra para a presidência do partido representou uma vitória do grupo de Dirceu. Ele aposta em Dilma Rousseff para voltar ao poder e, como ela, vem tentando reescrever a história ao dizer que "o PT não desviou recurso público, o eleitorado sabe que não houve mensalão".

Talvez nem seja o caso de perder tempo com esses panetones retóricos, que nada devem à fábula de Arruda. A diferença é que a farsa do PT vem recheada com as frutas cristalizadas do stalinismo. Mais relevante é saber por que a esquerda - e qual esquerda- precisa desse "bolchebusiness" para ser feliz.

domingo, novembro 22, 2009

Rubens Ricupero:: Extradição e crime político

FOLHA DE S. PAULO

Como explicar que tanta gente de boa-fé julga que, por serem políticos, certos delitos deixam de ser crimes hediondos?

Você acha que os assassinos de Gandhi, de John Kennedy e de Martin Luther King mereceriam ser considerados refugiados políticos no Brasil? A pergunta parece absurda, mas o fato é que todos esses crimes eram políticos. Como explicar que tanta gente de boa-fé julga que, por serem políticos, certos delitos deixam de ser crimes hediondos?

Tomemos outro caso. O sequestro de Abilio Diniz foi efetuado por chilenos do Movimento de Esquerda Revolucionária, que alegaram motivos políticos, apesar de que, na época (dezembro de 1989), o Chile voltara a ser uma democracia plena. Rejeitado o argumento, eles foram condenados, sendo expulsos para cumprir o resto da pena no país de origem em 1999.

A invocação de causa política não basta, portanto, para retirar de um ato o caráter de crime merecedor de sanção nem para conceder ao autor o benefício de refugiado. Em casos extremos, pode-se compreender o uso de violência contra regimes tirânicos e opressivos que não deixam outro caminho à restauração dos direitos. É quase o equivalente ao direito da legítima defesa de parte da população.

Por essa razão, as normas internacionais só admitem como refugiado alguém que não possa ser enviado ao país de origem por existir forte presunção de que sofrerá perseguição de caráter político, racial ou religioso. A presunção se baseia, por sua vez, na existência de conflito, guerra civil ou ditadura e suspensão das garantias individuais no país para onde seria devolvido.

Tal premissa obviamente não se aplica à Itália, país que desde 1945 é um Estado de Direito e uma democracia das mais tolerantes em matéria de liberdade política. Somente ignorância ou má-fé poderia considerar perseguição política o cumprimento de pena a que foi condenado em processo legal pelos tribunais italianos o autor de quatro homicídios. Seria até irônico, se não fosse ridículo, acusar de instrumento de perseguição uma Justiça que está processando o próprio todo-poderoso primeiro-ministro Berlusconi! Oxalá tivéssemos nós, no Brasil, uma Justiça com a metade da independência perante o Executivo que tem o Judiciário italiano!

Os extremistas que atuaram na Itália desde os "anos de chumbo" escolheram em geral como vítimas políticos de centro-esquerda ou de esquerda democrática, e não a direita fascista. O caso mais notório foi o sequestro pelas Brigadas Vermelhas do ex-primeiro ministro Aldo Moro, o grande líder da esquerda da Democracia Cristã. Depois de longo cativeiro, ele foi assassinado friamente, a fim de impedir que promovesse uma aliança para que o Partido Comunista viesse a fazer parte do governo, o que se chamava então de "compromisso histórico".

No seu radicalismo divorciado das massas, os brigadistas pensavam que, ao evitar a chegada dos comunistas ao poder, criariam as condições para desencadear uma revolução proletária violenta.

Acabou acontecendo exatamente o oposto. O crime (esse e outros como os do refugiado no Brasil) provocaram tal repulsa no povo que empurraram a Itália cada vez mais para a direita.

A esquerda italiana sempre condenou o extremismo terrorista e não compreende que o Brasil lhe conceda tratamento leniente. Talvez porque aprendeu, ao contrário de membros do governo brasileiro, que a leniência com o extremismo equivale ao suicídio da esquerda democrática.

sexta-feira, novembro 13, 2009

Eliane Cantanhêde Apareceu a margarida

FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Quando é para representar o Brasil na Conferência do Clima em Copenhague, é Dilma Rousseff quem vai.

Quando é para anunciar a descoberta e as regras para o pré-sal, Dilma é a estrela da festa.

Quando é para anunciar programas populares, inaugurar obras, passear pelo São Francisco ou aparecer ao lado de Lula na TV, Dilma fica no centro do palanque.

Quando é para comandar reuniões do PAC, da Petrobras, do setor elétrico, é sempre ela. E o ministro Edison Lobão não dá um passo sem consultar a "chefa".

Mas não é que Dilma foi apagada no mais abrangente apagão da história? Só ontem, mais de 40 horas depois, bem treinada e na ofensiva, ela reapareceu para dizer que apagão dos outros é apagão, mas apagão de Lula é só blecaute.

A cara do governo na hora das boas novas é Dilma e, para apagões e abacaxis, Lobão. Ela fica com os bônus; ele, com o ônus. Mas ambos agora dizem que o problema "está encerrado". Há controvérsias.

A versão do governo explica, mas não justifica. Explica que três linhas de transmissão caíram simultaneamente, interrompendo a geração e causando efeitos em cascata. Mas não justifica como, e exatamente por que, elas caíram. Um raio? Dois raios? Três raios? No mesmíssimo momento e lugar?

Estatisticamente, é improvável, quase impossível, e o presidente de Itaipu, Jorge Samek, até brincou comigo: "É por isso que morro de medo de estatística, de maionese e de salsicha".

O fato é que a história ainda merece muitas respostas, e começando do começo -do exato instante em que o sistema inteiro foi para a cucuia. Pode demorar. Tomara que a ministra não fique trancada em casa, enquanto Lobão não vem.

O embaixador e então ministro Rubens Ricúpero dizia que "o que é bom a gente mostra, o que é ruim a gente esconde". Só que tem sempre um chato para descobrir.

segunda-feira, novembro 09, 2009

Megalomania FERNANDO RODRIGUES


Folha de S. Paulo - 09/11/2009

Pouco importa a crise em Honduras ter sido solucionada só depois da entrada dos Estados Unidos no caso. No governo Lula e na cúpula petista vigora uma versão mais edulcorada da realidade: o presidente brasileiro se saiu bem e consolida sua imagem de grande negociador internacional.

Depois de deixar o governo, Lula espera receber algum alto cargo na burocracia diplomática internacional. Mas o sonho dos petistas é ainda maior. "Por que o presidente não poderia ser indicado e conquistar o Prêmio Nobel da Paz?", pergunta o líder do PT na Câmara, Cândido Vaccarezza (SP).
Na interpretação petista de mundo, Lula é criticado no Brasil, mas no exterior é visto como o ponto de equilíbrio entre bolivarianos e destrambelhados em geral na América Latina. Bolívia, Paraguai, Equador e Venezuela são países para os quais o establishment conservador torce o nariz. Lula trata bem a todos. Firma-se como o garantidor de uma ordem possível numa região dada a rupturas constantes.
A macromania petista inclui uma tentativa de interceder no conflito histórico entre países do Oriente Médio. Daí a mesura de Lula ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a ser recepcionado em Brasília no próximo dia 23.
Por mais pretensioso que possa soar, a alta direção petista acredita na hipótese de Lula se tornar um facilitador e promotor da paz no Oriente Médio. Daí o idílio de o brasileiro ter chance de faturar o Prêmio Nobel. "É sempre em outubro, um período excelente, pois o presidente vai chegar ao final de seu mandato com a popularidade máxima", diz Vaccarezza.
Pode ser tudo delírio? Pode. Possivelmente é. Mas essa é a trajetória imaginada para Lula dentro do governo e do PT. Com ganho máximo para a candidatura governista de Dilma Rousseff ao Planalto. Feito o registro, em 2010 será possível confrontar sonho e realidade.

domingo, novembro 08, 2009

FERREIRA GULLAR Uma experiência-limite

FOLHA DE S PAULO,
ENTRE 1959 E 1961 , quando nasceu e eclodiu o movimento neoconcreto, tornei-me amigo de Hélio Oiticica, que eu tinha como uma espécie de irmão mais novo. Ele, aliás, era o mais moço do grupo e o último a se juntar a ele, tanto que não participou da primeira exposição neoconcreta, inaugurada em março de 1959, no MAM do Rio, nem assinou o manifesto, publicado naquela ocasião.
Mas Hélio, de todos, era o mais determinado a buscar novos caminhos de expressão, a levar adiante as propostas que surgiam do trabalho e da troca de ideias e de experiências. Ele estava convencido de que a arte neoconcreta abrira um território novo à criação artística. Esse era um tema frequente em nossas conversas, que, na verdade, se limitavam a algumas hipóteses sem resposta. A resposta não estava no discurso, mas no trabalho criador.
O incêndio, que recentemente destruiu grande parte de suas obras, chegou-me como uma notícia inverossímil pelo telefone, quando a repórter me falou da perda de mil obras, o que me pareceu exagero uma vez que, pela própria natureza de suas criações, dificilmente teria feito tantas. De qualquer modo, as perdas seriam muitas. Pois incluiriam telas, desenhos, relevos espaciais, instalações e todos os "Bólides" e "Parangolés", que estavam na sala onde ocorreu o incêndio.
Uma perda irreparável, no plano artístico, impossível de calcular, uma vez que ali se teria perdido grande parte da própria história do artista. Agora se sabe que boa parte das obras se salvou e outras serão recuperadas ou refeitas.
Ainda assim, foi um desastre lamentável que, atinge todas as pessoas amantes da arte, atinge-me particularmente pela ligação que mantive com ele, no momento mesmo em que inventava o seu próprio caminho. E, mais ainda, porque o incêndio ocorreu onde ocorreu, na casa da Gávea Pequena, onde foi construído, em 1960, o "Poema Enterrado".
Cabe dizer ao leitor, que talvez não o saiba, o que era esse poema. A coisa começou quando publiquei no Suplemento Dominical do "Jornal do Brasil" um poema concreto que, para se realizar de fato, obrigava o leitor a ler, seguidamente, a palavra "verde", que se repetia até explodir na palavra "erva". Só que o leitor, ao perceber a repetição, não fazia a leitura prevista, por desnecessária.
Esse fracasso me levou a inventar um poema escrito, palavra a palavra, no verso das páginas e a cortá-las, conforme a necessidade do poema. Nasceu, assim, o livro-poema, que me levou aos poemas espaciais (placa de madeira com um cubo colorido que ocultava uma palavra), que obrigavam o leitor mover as peças do poema.
Pois bem, depois de levá-lo a participar do poema, manuseando-o, usando a mão, decidi levá-lo a usar o corpo -e bolei o "Poema Enterrado": uma sala no subsolo, a que o leitor descia por uma escada e entrava no poema. Sua invenção foi no final de 1959, quando publiquei, no "SDJB", a planta do poema e sua descrição.
Hélio ligou-me empolgado e dizendo que ia obrigar o pai a construir o poema no quintal da nova casa da família, essa mesma casa, onde houve agora o incêndio. Pronto o poema, marcou-se a inauguração num domingo, mas, como chovera muito na véspera, ao abrirmos-lhe a porta, vimos que estava inundado, para desapontamento de todos nós.
Soube, muitos anos depois da morte do Hélio, que o poema havia sido reconstruído, mas não fui informado. Esse poema nasceu azarado: o MAM de São Paulo tentou construí-lo, no Ibirapuera, mas a comissão estadual de cultura o proibiu.
De qualquer modo, o incêndio de agora junta-se em minha mente à inundação do poema, numa relação estranha que sinto sem saber explicar. Tenho diante dos olhos, agora, o rosto tenso de Oiticica, sentado comigo a uma mesa do Zepelin, pouco depois de seu retorno de New York. Daí a poucos meses, ele é encontrado agonizando no pequeno apartamento em que passara a morar, em Ipanema.
Hélio e Lygia Clark levaram às últimas consequências a proposta básica do neoconcretismo, de acrescentar à experiência visual -que define a pintura, a gravura e a escultura- o relacionamento corporal com a obra. Essa participação do espectador conduz, no caso do Hélio Oiticica, à série de "Bólides", que são, a meu ver, o momento-limite de sua busca, antes dos "Parangolés" e outras obras, de difícil definição estética. Algumas das experiências dele e de Lygia Clark anteciparam certos caminhos que a arte tomaria, a partir dos anos 60 e 70. Daí o reconhecimento internacional de que gozam. Isso nos dá a medida do que se poderia ter perdido com o incêndio de outubro passado.

sábado, novembro 07, 2009

Cesar Maia: : Formadores de opinião

FOLHA DE S. PAULO

LUKACS, EM "Cinco Dias em Londres" (Zahar), analisando a designação de Churchill para primeiro-ministro, em maio de 1940, e a queda de Chamberlain (e sua política de apaziguamento com a Alemanha), avalia a dinâmica da percepção dos ingleses.

A impopularidade de Churchill vai até a ocupação de Praga, em março de 1939. Os fatos legitimaram sua radicalidade. Lukacs fala de um binômio -opinião pública/ sentimento popular-, válido até os dias de hoje. "Opinião pública" seria um processo de convergência entre as pessoas a partir da informação sistematizada, difundida pela imprensa e por líderes de opinião.

"Sentimento popular" seria a reação das pessoas aos fatos, produzindo uma sensação mais ou menos difusa. Essa reação pode ser uma onda que vai chegando à emoção das pessoas.

Como tomar decisões que requerem apoio de massa num quadro de transição desses? A decisão, em si, poderá ser mobilizadora? Churchill vai ao Parlamento e às rádios e propõe um jogo da verdade: "Sangue, suor e lágrimas". Mas como acompanhar o processo e saber com que velocidade vai cristalizando consciência na população?

As pesquisas de opinião, da forma como as conhecemos, eram um instrumento embrionário (EUA, Universidade Colúmbia, início dos anos 30). Mas não eram suficientes, porque captariam, no início, uma reação ainda superficial.

Lukacs usa os arquivos da Universidade de Sussex (GB) sobre "mass observation" (MO). Em 1937, dois ingleses (Madge e Harrison) criam um sistema de observações diretas nas ruas.

"Em 1938, estenderam suas atividades aos campos da política e da guerra", diz Lukacs. Não são pesquisas de opinião, mas "relatos de primeira mão por observadores de senso comum".

"Não há um ponto de vista que se possa rotular como opinião pública, ela varia muito e não está ainda formada; a única coisa que resta é a crença de que a Inglaterra no fim acabará triunfando", anota um observador.

Não é simples separar, numa pesquisa de opinião, "opinião pública" de "sentimento popular".

A TV estimula o "sentimento popular", que, depois, aparece em pesquisas como "opinião pública". O que muitas vezes não é ainda -ou nunca. A TV, na lógica da audiência, é muito mais indutora de sentimentos ou sua aceleradora do que formadora de opinião. Os líderes de opinião, intelectuais e políticos, ainda são formadores de opinião, mas não como antes.

O processo, hoje, se dá horizontalmente, por fluxos de "opinamento", onde os líderes de opinião estão no meio da massa, e não "por cima" dela. Mas não são menos importantes. Os fluxos em que intervêm podem ser filtros formadores de opinião, o que exige suor. Não falam mais desde um "altar".

terça-feira, novembro 03, 2009

FERNANDO DE BARROS E SILVA A Marcha de Jesus e o Diabo

Folha de S Paulo

SÃO PAULO - Uma multidão acompanhou ontem em São Paulo a Marcha para Jesus, manifestação das igrejas neopentecostais que existe no país desde 1993. A PM falava à tarde em pelo menos 1 milhão de participantes; os organizadores esperavam 6 milhões até a noite.
Há muita imprecisão nessas estimativas, mas é fato que a marcha dos evangélicos -ao lado da Parada Gay, que mobiliza outras tribos e sentimentos- responde pela maior concentração popular da cidade, o que indica a força dessa nova fé.
São dezenas de igrejas reunidas, entre as quais a Universal do Reino de Deus, mas a coordenação é da Renascer em Cristo, do casal Estevam e Sônia Hernandes. O tema neste ano foi "marchando para derrubar gigantes" -e o maior deles, como dizia Estevam, "é o gigante da discriminação e do estereótipo".
O líder da Renascer usou o evento para fazer alusão ao episódio em que ele e sua mulher foram condenados e cumpriram pena nos EUA por contrabando de dinheiro. Para não deixar dúvidas, o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), da Igreja Universal, dizia que a marcha era um "ato de revogação de todas as injúrias e difamações" contra o casal Hernandes. Aonde chegamos?
Há poucos dias, convidado a uma inauguração na Rede Record, o presidente da República disse que a emissora, como ele, era "vítima de preconceito". Lula, é claro, nada falou sobre o processo judicial em que Edir Macedo, dono da Record, e outros nove líderes da Igreja Universal são acusados de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.
A fala do presidente sobre o "preconceito" que vitimaria a Record é muito parecida com o que diz o líder da Renascer a respeito da "discriminação". E o silêncio de Lula sobre as denúncias que atingem a cúpula da Universal e seus negócios equivale a um ato de revogação de qualquer suspeita sobre os amigos, como fez ontem o senador Crivella.
Há um ar de família entre a marcha dos evangélicos e a marcha da política. Diante da coalizão entre Jesus e Judas, querer legalidade hoje no país parece até coisa do Diabo.

domingo, novembro 01, 2009

FERREIRA GULLAR Em direção à desordem



A sociedade carioca entrou em entropia desde que o tráfico instalou-se nas favelas


FABIANO ATANÁSIO da Silva, o FB, que comandou a invasão do morro dos Macacos, estava preso e foi beneficiado pelo regime de prisão-albergue, isto é, foi lhe dado o direito de sair do presídio, de dia, para trabalhar, e voltar, à noite, para dormir. Atanásio, a exemplo de dezenas de outros bandidos, saiu e não voltou mais. E a gente se pergunta: se Atanásio foi condenado por ser chefe do tráfico naquela favela, a que trabalho o juiz, que lhe concedeu a prisão albergue, acha que ele iria se dedicar? Coerentemente, o FB foi fazer o trabalho que sempre fez: traficar.


É impossível negar que, em matéria de Justiça, vivemos, no Brasil, uma espécie de comédia: uma cena recente desse pastelão foi a briga entre a Justiça Estadual de São Paulo e a Justiça Federal, cada uma delas atribuindo-se o direito de julgar os ladrões que roubaram duas telas -uma de Portinari e outra de Picasso- do Masp. A Justiça Estadual os condenou, o advogado de defesa recorreu da sentença e o Superior Tribunal de Justiça a anulou, alegando que, como as obras tinham sido tombadas pelo Iphan, órgão federal, caberia à Justiça Federal julgar os ladrões, e mandou soltá-los. Ou seja, enquanto os juízes brigam, os ratos passeiam em cima da mesa.


Ainda como parte da comédia nacional, registre-se o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao dar posse ao novo ministro de Assuntos Estratégicos, aquele ministério que já por si é uma piada. Todos sabemos que esse ministério foi entregue ao não menos extravagante Mangabeira Unger, que já se foi, e era conhecido como o "ministro do futuro". Lula, que odeia ler, mas adora discursar, quando abre a boca diz qualquer coisa. Pois vejam o que ele disse, no discurso, confundindo o nome de seu ex-ministro com o do deputado Fernando Gabeira, seu adversário político: "O Gabeira não está aqui, está certamente naquela escola em Chicago...". E, sem se dar conta da confusão que fazia, acrescentou: "O dia em que o companheiro José Alencar e a direção do PRB entraram em meu gabinete para aprovar o nome do companheiro Gabeira para ministro...". Como se não bastasse, ao se dirigir ao novo ministro do futuro, Samuel Guimarães, chamou-o de Mangabeira, e, ao tentar corrigir o erro, piorou, trocando-lhe o nome de Samuel por Salomão... Parece que bebe!


Criticado pelo presidente do STF devido ao comício-piquenique que fez com Dilma e seus ministros, às margens do São Francisco, Lula respondeu: "Agora eles estão nervosos porque estamos inaugurando obras". Mentira, estavam ali, segundo a própria versão oficial, para "fiscalizar" as obras mas, ainda assim, desde quando é função do presidente da República fiscalizar obras? Apenas pretexto para fazer campanha eleitoral fora do prazo legal. A alegação de que isso está dentro da lei, porque só é proibido inaugurar obras públicas após 31 de julho do ano eleitoral, não significa que se pode fazer campanha eleitoral anos antes daquela data; é um sofisma, que o STF estranhamente engoliu. E Lula ainda teve a desfaçatez de afirmar que estava ali a trabalho (com Dilma e Ciro), comendo churrasco e ouvindo um cantor de forró, por ele contratado. E, com a maior cara-de-pau, afirmou: "É muito fácil assumir a Presidência da República e não fazer nada, porque ninguém nunca fez". Gente, até quando o país vai ter que aturar semelhante megalomania? Ninguém imaginou que um presidente oriundo da classe operária viesse a dar nisso.


Conforme a segunda lei da termodinâmica, os sistemas físicos tendem à desordem. A perturbação da ordem de um sistema chama-se entropia, como, por exemplo, os ruídos numa transmissão radiofônica. Isso vale também para outros sistemas, como a sociedade humana, cuja ordem é mantida pelas normas e leis que regem o comportamento de seus integrantes. A sociedade carioca, por exemplo, como sistema social, entrou em processo de entropia desde que, nos anos 70, o tráfico começou a instalar-se nas favelas. Os conflitos armados entre grupos de traficantes e desses com a polícia comprometem a ordem social e põem em risco a vida das pessoas. Essa tendência à desordem pode ser revertida se o governo e a sociedade, juntos, se dispuserem a isso.


O prefeito do Rio decidiu promover corridas de Fórmula Indy no aterro do Flamengo, área de lazer que ostenta belos exemplares da mata brasileira, ali plantados por Burle Marx. Vão atormentar os moradores do Flamengo e envenenar a fauna e a flora do parque, embora exista na cidade um autódromo. Sai um imperador entra outro!

DANUZA LEÃO Poder compartilhar


QUANDO ACONTECE uma coisa bem boa, qual é meu primeiro impulso? Contar para alguém; aliás, contar para vários alguéns, contar para o mundo. Eu pego o telefone e vou ligando, pela ordem de amizade, só que nem sempre o universo conspira a meu favor.
Outro dia, às 2h da tarde, tive uma boa notícia e corri para o telefone. Na primeira chamada, atendeu a secretária eletrônica, mas nem deixei recado. Na segunda, o celular estava fora de área, na terceira, ouvi um "não está dando para falar agora, te ligo mais tarde"; a partir daí, nem lembro mais. Só poderia contar minha alegria a alguém muito íntimo, e tive aí o primeiro susto: quantos amigos íntimos eu tenho? Poucos, muito menos do que eu imaginava.
Será que Roberto Carlos conseguiu ter 1 milhão de amigos? Se eu tenho tão poucos, a culpa deve ser minha, claro, que não procuro ninguém, e quando me convidam para alguma coisa, com raras exceções, arranjo uma desculpa e digo que não posso ir. Aí fico pensando: preciso mudar. Vou começar abrindo minha agenda e ligando para pessoas que não vejo há séculos para dar um alô, dizer que estou com saudades, perguntar pela vida e terminar a conversa com o inevitável "vamos combinar de almoçar, te ligo". E aí, vou ligar? Já sei que não, e se a pessoa me ligar, talvez diga que estou cheia de trabalho, na segunda-feira vou viajar, que telefono quando voltar. Difícil ser difícil, e difícil deixar de ser.
Com tudo isso até me esqueci do principal: continuei sem ter ninguém com quem compartilhar minha alegria. E é curioso: se minha alegria era tão grande, por que ela não me bastava, por que a necessidade de contar para o mundo? Será que não posso ser feliz sozinha? Por que será que quando se trata de boas coisas preciso que o universo saiba, e quando estou triste prefiro ficar muda, sozinha? Fiquei pensando em tudo isso, mas continuei sem ter com quem falar sobre minha alegria, que àquelas alturas nem era mais tão grande assim.
O dia foi passando e eu esperando que meus poucos amigos íntimos chegassem em casa para poder contar. Às 7h recomecei a telefonar, e mesmo sem todo aquele entusiasmo, fui logo contando o "acontecido".
A reação foi morna. "Ah, mas que ótimo, parabéns, você deve estar feliz". Mais uma ou duas frases sobre o assunto, e a conversa passou a ser a de sempre: a violência do Rio, o quanto vão roubar com as obras da Olimpíada, a próxima eleição, a dieta que não se consegue fazer, a ginástica que vai mal, e daí a pouco a conversa acabou, com um "vamos ver se a gente almoça no fim de semana", e ponto.
Um pouco mais, um pouco menos, foi igual com todos os meus poucos amigos íntimos, e minha alegria, que tinha sido tão grande, murchou. Eu é que sou louca, pensei, afinal não havia motivo para tanta euforia.
Ou será que havia? E lembrei de meu pai e de minha mãe; os pais são as únicas pessoas que têm todo o tempo do mundo para nos ouvir e são solidárias não só nas nossas tristezas como também nas nossas felicidades.
Estou sendo injusta, nossos analistas também nos ouvem; mas às vezes a gente precisa mais do que de quem nos ouça. Precisa que nos ouçam com afeto.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Câmbio: mais lenha na fogueira LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Folha de S. Paulo - 30/10/2009


ENTRE AS inúmeras questões que dividem os economistas, uma das mais importantes é a que envolve o cálculo da chamada taxa de câmbio de equilíbrio. Esse valor corresponde àquela que estabiliza o balanço de pagamentos de um país ao longo do tempo. Como o valor de uma moeda nacional nos mercados de câmbio é formado a partir de transações comerciais e financeiras das mais variadas origens, não existe uma regra precisa para a determinação do que seria o ponto de equilíbrio. Mesmo assim, os economistas têm mecanismos de certa forma eficientes para estimá-lo a partir de alguns parâmetros econômicos.
Em recente trabalho, um dos maiores bancos de investimento dos EUA atualizou -incorporando os dados mais recentes- o cálculo desse valor de equilíbrio nas economias mais importantes do mundo. Os resultados apontam os desvios das cotações de mercado em relação a seus valores de referência para países na Ásia, na Europa e na América Latina, em relação ao dólar e ao euro.
A publicação desse relatório, no momento em que a questão do real esquenta o debate no Brasil, é muito bem-vinda. Tenho muito respeito pelo trabalho de pesquisa desse banco e confio na qualidade de suas conclusões. Além disso, por ser uma instituição internacional com foco no mercado financeiro global, fica difícil associar suas conclusões com interesses ou posições de natureza ideológica. De fato, a equipe que realizou esse trabalho não faz juízo de valor em relação aos resultados obtidos.
A mais importante observação para nós, brasileiros, é que o real é hoje a moeda mais valorizada dentro de uma cesta de 30 países. O valor correto do real seria de R$ 2,63 por dólar, ou seja, hoje ele estaria 51% sobrevalorizado em relação à moeda americana. Segundo esses mesmos critérios, o euro deveria valer hoje US$ 1,20, estando atualmente nos mercados 23% acima de seu valor de equilíbrio. Assim, mesmo em relação ao valorizado euro, o real estaria 23% acima de seu valor de referência.
Outros números interessantes em relação à taxa de câmbio no Brasil: o desvio em relação ao peso argentino está hoje em 80%, ou seja, as empresas brasileiras têm um fardo pesadíssimo nas suas relações comerciais com nosso vizinho e parceiro.
Outro desvio importante -valorização de 50%- ocorre entre o real e a moeda chinesa. É marcante a diferença de comportamento do real em relação às moedas asiáticas, que têm se valorizado muito menos em relação ao dólar. Por exemplo, em relação ao won sul-coreano, o real está valorizado em 45%.
Os números da valorização do real vis-à-vis outras moedas são impressionantes. Mesmo que se façam algumas correções metodológicas, não acredito que esse quadro de uma moeda desalinhada vá ser alterado. O resultado desses desequilíbrios no médio prazo é conhecido: nos próximos anos, teremos um crescimento brutal das importações e do nosso deficit em conta corrente.
O bom momento da economia brasileira certamente vai permitir que esse deficit seja financiado por investimentos diretos e em carteira por algum tempo, que pode até ser longo. Mas já conhecemos esse filme, embora com outros personagens.
Eventualmente, um deficit em conta corrente de grande magnitude levará o mercado a corrigir o valor do real, trazendo novamente nossas contas comerciais para próximo do equilíbrio. Nesse meio tempo, nossa indústria sofrerá as consequências.

terça-feira, outubro 27, 2009

Rituais vazios José Arthur Giannotti

FOLHA DE S. PAULO / +MAIS!


Esvaziamento dos discursos políticos é fenômeno universal que transforma líderes em profetas

Sabe-se que a política possui seus rituais.

Os soberanos, os príncipes e os chefes de Estado demarcam seus respectivos territórios formalizando certas condutas que distinguem os que mandam e os que obedecem.Nas democracias contemporâneas os chefes procuram mostrar que atuam no mesmo plano de seus subordinados, mas não é por isso que sub-repticiamente deixam de marcar as diferenças.

No que nos concerne, que se observem em particular as roupas do presidente Lula, que quase não repete um terno e se cobre de chapéus segundo as circunstâncias.Se usa um chapéu do Exército na viagem inspetora-eleitoral às obras do rio São Francisco, é porque pretende sinalizar que todo o esforço da transposição das águas se faz mediante a colaboração militar, portanto, sob seu comando formal.Tudo nele simboliza, ao mesmo tempo, proximidade com o eleitor e distância nos modos de seu ser.

No entanto, quanto mais o discurso político se esvazia de sentido, tanto mais essa sinalização do poder se converte num ritual vazio.

O fenômeno é universal, com a exceção notável dos EUA. Note-se, por exemplo, o que Sarkozy [presidente francês] diz a cada momento. Não lhe interessa se o que diz à tarde contradiz o que foi dito pela manhã, importa que seja ele quem enuncia a situação a ser trazida para o nível do discurso.

Não sabe de nada

Entre nós, como nos inclinamos a ser a caricatura do mundo, esse esvaziamento do discurso de nossos "grandes caciques" é flagrante.

Ninguém acredita, nem ele mesmo, que o presidente do Senado, José Sarney, não sabia das irregularidades cometidas durante suas gestões. Mas assim mesmo ele declara não saber de nada, e todos nós terminamos sabendo de tudo como se não soubéssemos de nada.

Vale tão só o ritual do falar purgante.

O presidente Lula, desde a crise do mensalão, é mestre nesse purgar pelo discurso vazio.

Nesta semana, a imprensa anuncia que a defesa do ex-deputado Roberto Jefferson voltou a pedir que o Supremo Tribunal Federal inclua o presidente Lula entre as testemunhas do processo do mensalão. Obviamente, o presidente usará de suas prerrogativas de responder por escrito, reafirmará sua ignorância do caso e tudo continuará como está.

Mas os advogados cumprirão a tarefa de dar uma conotação política ao processo, oferecendo uma oportunidade ao presidente de repor o testemunho no plano da indefinição conveniente a seus propósitos.

A fala desse poder mente, pretende ser verdadeira, mas todos sabem que ela é mentirosa. Isso porque as palavras não estão valendo pelo que denominam, mas, antes de tudo, porque simbolizam a chefia que, exibindo-se como fazedor, está além da verdade e da mentira. Desde os filósofos gregos sabe-se que o discurso político se desdobra no nível da retórica; pretende antes convencer do que falar a verdade.

Mas não é por isso que deixa de se revestir com o manto do verdadeiro, pois somente assim, imaginando que estão no verdadeiro, as pessoas podem agir de forma coletiva, assumindo um mesmo paradigma. Mas, se o paradigma da verdade e do interesse verdadeiro deixam de operar, o que a fala inconsequente simboliza?

Como esse discurso retórico pode ainda ter efeito quando as pessoas deixam de acreditar no que estão dizendo e ouvindo?

Marginais

Tudo parece indicar que a fala da chefia não pretende se responsabilizar pelo que está sendo feito. O que faz é o chefe, este e não outro, e, se suas frases são contraditórias, isso vem demonstrar que o feito resulta tão só dele, de seu ser, não de suas palavras, vale dizer, das determinadas opções que foi obrigado a dizer.

A ação política deixa então de ser coletiva para se tornar um dom a ser recebido por aqueles que acreditam. Estes sabem que o benefício não pode ser generalizado, mas, graças à mediação da chefia, podem se apropriar das margens do que os poderosos já possuem.

Não pedem igualdade, apenas participação, ainda que seja pela margem. Participam do jogo político reafirmando sua condição de marginais, contentando-se com os restos de um sistema produtivo que alimenta uma sociedade de consumo.

Pierre Clastres, em seu estudo sobre os guaranis, nos conta que, no fim da tarde, o chefe se levantava e começava a discursar ao léu, sem eira nem beira.

Os índios continuavam ocupados em suas tarefas cotidianas, mas, entre eles e o divino, um elo estava sendo tramado.

Como Clastres estava com a cabeça no ser e tempo, de Heidegger, ele dizia que o chefe guarani falava do ser.

Na política atual os "caciques" estão se tornando profetas do vazio. E como o nada, assim como o ser, não tem outra determinação a não ser ele mesmo, pode aparecer como a tela onde projetamos todas as nossas carências como se elas já estivessem sendo resolvidas.

Lula configura o outro do desastre do ensino brasileiro, do aparelhamento do Estado, o outro da derrocada de nossas infraestruturas, o outro da falência de nossas instituições políticas, o outro além do bem e do mal.

E também o outro dos velhos caciques, que agora sobrevivem tão só mediante essa alteridade comprometida.

Ele e seus companheiros tingem e cobrem a política brasileira com seu manto de verdade falsa, ocultando assim o debate que seria preciso fazer sobre os gargalos atuais que atrasam nosso desenvolvimento. E com a falta de diálogo, eles continuam decidindo como querem e como lhes convém.

Essa política tem resultado em notável inclusão social, mas acompanhada de forte enervamento de nossas jovens instituições democráticas. Como evitá-la?

sábado, outubro 24, 2009

CESAR MAIA Voto da direita

Folha de S Paulo,

OUTRO DIA , o presidente Lula disse que essa será a primeira eleição em que a direita não terá candidato.
A menos que o voto seja restrito, no melhor estilo do século 19, ela votará e escolherá um dos candidatos. Mas quem são esses eleitores de direita? E o que representam? Há anos que pesquisas vêm estudando esse voto "ideológico". São duas forma básicas de avaliação.
Uma, clássica, quando se oferece ao eleitor uma régua de 1 a 10 e se indica direita, centro-direita, centro, centro-esquerda e esquerda e se pede que o eleitor se posicione.
Pode-se fazer o mesmo com letras sequenciais do alfabeto ou com outros números sequenciais, para não parecer nota. De qualquer forma, na pesquisa seguinte, inverte-se a ordem -esquerda-direita- e se a compara com a anterior.
Sempre os que marcam direita são em porcentagem maior que os da esquerda. E, se somarmos direita+centro-direita e esquerda+centro-esquerda, a vantagem à direita permanece, um pouco menor.
Quando se cruza com as avaliações de governo ou até intenções de voto, se vê que o eleitor que se diz de esquerda está mais próximo de seu candidato que o de direita, que vota de forma mais pragmática, espalhando mais o voto. O eleitor que se diz de direita, com uma margem de flutuação maior, pode ser enquadrado entre os potencialmente indecisos, devendo ser um alvo prioritário dos candidatos.
Mas a surpresa vem quando se listam temas sempre atribuídos ao pensamento de direita ou de esquerda e se pede ao eleitor que faça sua opção numa tabela de opostos, que vai desde os costumes até o eixo Estado-mercado, procurando facilitar a compreensão do eleitor.
A tabela apresenta uma lista de alternativas. Depois elas são incluídas num gráfico de quatro campos, onde os que defendem o mercado são classificados como de direita, e os que defendem o Estado, de esquerda. E da mesma forma em relação a valores: família, religião, costumes, propriedade, lei... A opção conservadora é listada como de direita; a "liberal", de esquerda.
Meses antes da última eleição francesa, a Ipsos fez uma ampla pesquisa assim, de forma a definir ideologicamente o eleitor francês sem que ele se autoclassificasse. O resultado não correspondeu a nenhum dos partidos.
O eleitor francês era majoritariamente conservador em relação aos valores e estatizante na economia.
Ou seja, era de direita em relação aos valores e de esquerda em relação à economia. Esse era o "partido" majoritário na França.
O GPP repetiu a mesma pesquisa no Brasil. Aqui também, e até em maior proporção, o eleitor é de direita em relação aos valores e de esquerda em relação à economia. Em 2010, quem quiser que recuse o voto da direita.

sexta-feira, outubro 23, 2009

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS Ainda a questão do real valorizado

VOLTO MAIS uma vez à questão da valorização do real. Finalmente o governo resolveu agir para tentar estancar -ou pelo menos reduzir- a queda do dólar em relação à nossa moeda. O leitor da Folha já conhece meu pensamento em relação a esse assunto. Discordo dos analistas que não consideram isso um problema e me preocupo muito com o fortalecimento do real. Principalmente enquanto durar a posição atual da China em relação à sua moeda e a política monetária do Federal Reserve nos Estados Unidos.
Portanto parece-me correta a posição do ministro Guido Mantega de tentar interferir na formação da taxa de câmbio. Vivemos um período em que as autoridades de economias importantes estão atuando nos mercados de câmbio. O yuan chinês, mantido artificialmente constante em relação ao dólar, é, de longe, o fator externo mais relevante por trás da valorização do real e de outras moedas de países emergentes.
No caso da China, o mecanismo de defesa do yuan é simples: o banco central chinês compra qualquer quantidade de dólares que entra no país mantendo fixa a cotação de sua moeda em relação ao dólar norte-americano. Para viabilizar esse sistema de câmbio fixo, conta com mecanismos institucionais que tentam impedir a entrada de capitais financeiros de curto prazo.
Além disso, o sistema está ancorado em alta geração de poupança interna, minimizando os riscos inflacionários dessa política. Acredito que apenas em 2010, quando a recuperação chinesa estiver consolidada, vá ocorrer uma valorização do yuan e uma redução na pressão sobre outras moedas, como o real. Já no caso norte-americano, a influência do Fed na manutenção do dólar fraco é mais sutil: os juros quase a zero fazem com que os especuladores tomem dinheiro emprestado em dólares e os troquem por outras moedas como o real. Apenas com a retomada da normalidade da política monetária norte-americana é que vai desaparecer essa fonte temporária de desvalorização do dólar perante quase todas as outras moedas. Coisa também para 2010, talvez já no fim do primeiro semestre.
Minha intuição diz que o valor do dólar norte-americano, quando essas duas forças forem retiradas, será próximo a R$ 1,80. Enquanto elas permanecerem, não descarto a hipótese de vermos a moeda norte-americana sendo negociada a R$ 1,60. Por isso, acredito que uma intervenção do governo nesse período faça sentido.
Se concordo com a preocupação do ministro Mantega, discordo frontalmente do instrumento escolhido por ele para enfrentar esse problema. Uma primeira crítica é que essa medida isolada não tem a menor chance de ter sucesso, pois o Banco Central acredita na teoria do câmbio flutuante puro. E, sem o engajamento do Banco Central nesse difícil combate, as chances de sucesso são inexistentes.
Em segundo lugar, na forma como foi definido o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) pelo Ministério da Fazenda, será fácil para as instituições financeiras evitá-lo. A própria imprensa trouxe ontem um cardápio de dez alternativas para tanto. Com o pagamento de uma taxa inferior a 1% a um intermediário financeiro, pode-se evitar o pagamento do IOF. Nessa hipótese, teríamos o pior dos mundos: a criação de um custo adicional para os investimentos financeiros no Brasil sem que o Tesouro Nacional se beneficie pela arrecadação de impostos.

quarta-feira, outubro 21, 2009

VINICIUS TORRES FREIRE A "Economist" se rende a Lula

FOLHA DE S PAULO,
O BRASIL vai crescer apenas 3,8% em 2010, segundo a "Economist Intelligence Unit" (EIU) em seu relatório bimestral "Perspectiva Global". A EIU é a unidade de pesquisa econômica do grupo que edita a revista "The Economist". Em março, a estimativa era de 1%. Economistas dos maiores bancos e consultorias brasileiros estimam alta do PIB de uns 5% em 2010. Mas a EIU se rende aos "feitos" do país na crise e muito mais.
A EIU diz que a recuperação brasileira se deveu em parte às exportações para os mercados asiáticos e à ressurreição da demanda chinesa por matérias-primas. A China, por sua vez, recuperou-se devido aos gastos em infraestrutura do pacote fiscal anticrise de 8% do PIB e do crescimento de 34% do crédito (até setembro). O risco para a economia chinesa seria o de investimentos malfeitos devido ao excesso de dinheiro à disposição e o de criação de excesso de capacidade produtiva, diz a EIU e quase todo mundo.
Em março, a EIU previa que a China cresceria 6% neste ano e 7% em 2010 (agora, prevê respectivamente 8,2% e 8,6%. A China cresceu 11% ao ano de 2004 a 2007).
A EIU diz que o Brasil foi um dos mais resistentes da América do Sul devido à baixa abertura comercial e a seu grande mercado interno (a EIU ainda vai elogiar a Cepal?). "A economia se recupera do choque externo auxiliada pela força do sistema financeiro doméstico (e sua dependência de bancos estatais), inflação baixa e programas antipobreza eficazes", recuperação rápida que é um "grande feito". Isto é, a EIU-Economist se rende a Lula, digamos apenas um pouco ironicamente.
"O governo adotou algumas medidas de estímulo à economia, mas a deterioração das finanças públicas continua limitada. A eleição presidencial de outubro de 2010 provavelmente não deve ocasionar instabilidade financeira, pois os dois maiores partidos são comprometidos com o rigor fiscal".
O Banco Central deve começar a elevar os juros a partir de meados de 2010, com a Selic chegando a 12% no final de 2011, "mas essa taxa ainda será baixa", dada a história recente".
A EIU acredita que a taxa "básica" de juros nos EUA começa a subir no terceiro trimestre de 2010. Não passaria de 1% no final do ano, e o Fed ficaria imóvel durante 2011. Qual a base do prognóstico? A EIU revisou sua projeção para o crescimento do PIB americano em 2010 para 2,4%. Estimava 1,7% em setembro deste ano. Em março, 0,7%. A média do crescimento dos EUA de 2004 a 2007 foi de 2,8%.
Dada a volta do crescimento em 2010, os americanos não precisariam mais de taxas de juros tão baixas. Mas os Estados Unidos levariam novo tombo em 2011, segundo a EIU. O PIB cresceria apenas 1,1%, pois o efeito dos gastos do governo na atividade produtiva estaria se desvanecendo. Portanto, o Fed deixaria os juros ainda muito baixos. Na verdade, segundo a projeção de inflação da EIU para 2011, a taxa seria negativa, em termos reais. Assim, os juros estariam mais baixos do que agora. Portanto, a previsão da EIU não faz lá grande diferença. De resto, nem Deus sabe ainda o que vai fazer em 2011, muito menos os economistas da EIU ou quaisquer outros, aliás

sábado, outubro 10, 2009

Fernando Rodrigues Ideologia zero

FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Um dos inúmeros efeitos colaterais da alta popularidade de Lula é a sem-cerimônia do presidente para reabilitar políticos antes relegados ao degredo. A lista é longa.

Incluiu recentemente Fernando Collor e José Sarney. Agora, com a necessidade de ampliar a aliança pró-Dilma Rousseff, o PT mergulhará mais fundo.

Nesta semana, PMDB e PDT foram cortejados pelo PT e por Dilma. Na terça-feira, será a vez do curioso PR (Partido da República) oferecer jantar à pré-candidata petista ao Palácio do Planalto.

O PR é fruto da união do antigo PL com o Prona. O atual donatário da legenda é Valdemar Costa Neto, deputado federal por São Paulo. Ele renunciou ao mandato para não ser cassado em 2005, na esteira do escândalo do mensalão. Se renunciou, alguma consciência pesada deveria ter. Mas, como dinheiro não era problema, disputou novo mandato em 2006 e conseguiu retornar ao Congresso.

O PR é um legítimo representante da baixa política. Elegeu 25 deputados em 2006. Ontem, o placar das bancadas da Câmara apontava a legenda de Valdemar com 45 representantes. Um crescimento de 80%. Posto de outra forma, 80% de discrepância do desejo expresso pelos eleitores nas urnas.

Valdemar deve estar presente ao jantar para Dilma na terça-feira.

Em tempos de celulares multifuncionais, fotos serão inevitáveis. O registro de imagem é o menor problema. A popularidade alta do governo Lula assemelha-se ao antigo escudo invisível de uma marca de pasta de dente. Nada parece atingir ou incomodar os lulistas.

Por ironia, foi Valdemar um dos arquitetos em 2002 da formação da chapa Lula-José Alencar.

Muitos se esquecem, mas o PT venceu aliado ao PL. Agora, de novo, os petistas e Dilma descerão às profundezas da política para buscar a vitória. O caminho eles já conhecem bem.

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